No fim de semana passado os gerentes do cinema já não agüentavam mais ver a minha cara. Não saí de lá, já que estrearam três novos filmes em Joinville, um fato praticamente inédito. Nenhum deles uma maravilha, mas não reclamo. Vou falar de “300”. Aliás, nem preciso falar muito se você, como eu, também já viu o trailer umas 300 vezes. Mas é sobre como valentes soldados de Esparta enfrentaram um enorme exército persa. Tudo isso uns quinhentos anos antes do nascimento daquele carinha que foi chicoteado no filme do Mel Gibson (ahn, Cristo, não o Ronaldinho Gaúcho em “Apocalypto”). Naqueles tempos os homens ainda matavam e morriam por valores como honra, glória, respeito e liberdade. Mas de qual liberdade os espartanos estão falando, afinal? Ué, da liberdade dos homens em ser guerreiros, da liberdade das mulheres em ser esposas de guerreiros e mães de guerreirinhos, e da liberdade dos escravos em ser escravos. E viva a liberdade! Como os persas vêm do Oriente, eles são maus. E os espartanos são legais só por serem do Ocidente. Os persas usam armas de destruição em massa como gigantes deformados, elefantes e rinocerontes. Nada que nossos heróis não liquidem com um tapa de sandália. Numa cena, o rei de Esparta pergunta a uns gregos: “Qual é a sua profissão?”. Um diz ser ferreiro, outro ceramista. Pensei que algum iria dizer “Sou professor de inglês”, porque todos lá falam inglês fluente. Daí o rei se dirige a sua tropa: “E vocês, o que são, espartanos?”. E eles: “Ahú! Ahú! Ahú!”. Não entendi, eles são hooligans? Meu cachorrinho fala isso e ninguém o vê como herói. Já todas as mulheres do filme—as duas—são esquálidas de tão magras. Essas devem seguir um regime espartano. Que elas imitem a anatomia de uma vara parece ser uma homenagem às lanças, porque as lanças têm grande valor. Num outro moment
o os inimigos pedem ao rei pra que dê seu escudo. Ele dá. O seu elmo (acho que é o penico que usam na cabeça, versão sem chifres). Ele dá. E a sua lança? Epa, aí não, que ele é espada, e um homem não é nada sem seu símbolo fálico.
Adoraria dizer que valores como honra e hombridade hoje em dia só apelam ao pessoal da Tradição, Família e Propriedade, mas parece que não é assim. “300” é um compêndio do que significa ser homem, não só em Esparta como em outros lugares e épocas. Não muda muito, né? É sempre um matando o outro pra conquistar espaço, comida, mulher. O meu cachorrinho (o do “ahú”) marca território com xixi e mesmo assim é considerado um ser irracional. Ser homem é não demonstrar sentimentos, nunca se render, e não dizer “eu te amo” à mulher amada nem que a vaca tussa. Ou seja, um tédio.
O filme não critica essa ideologia, muito pelo contrário. Digamos que ele é espartano na sua visão política e não tem a menor clemência com os diferentes. Por exemplo, é racista. Dois negros (inimigos dos heróis, claro) são mortos de forma bem chata. E todos os deficientes físicos são vilões, traidores e tarados, gente que deveria ter sido eliminada ao nascer, seguindo a boa tradição espartana. Inclusive, já tenho um insulto na ponta da língua pra próxima briga com o maridão: “Se você tivesse nascido em Esparta, já teria sido eliminado, seu inútil!”.
Até fico feliz que o Rodrigo Santoro esteja num filme vitorioso (pra usar um termo espartano; bom, vitorioso pelo menos em termos de bilheteria), ainda mais depois do fracasso de “Lost”. Por outro lado, que diachos ele tá fazendo aqui? Ele tá maquiado até a medula e a voz não é a dele (deve ser do Darth Vader). O respeitável público não ria tanto com ele desde “Carandiru”. Enormes
gargalhadas quando ele abraça o rei e diz, insinuante: “Não é do meu chicote que eles têm medo”. E só eu que vejo uma alta energia homoerótica entre esses machões de barriga tanquinho? Pelo jeito só eu, porque em “300” os gladiadores são todos másculos, e só o Santoro como deus é que é mulherzinha (e aí temos outro placar: rei machão = legal, rei gay = ruim). No final ficamos sabendo que o rei legal não quer poemas. Não quer estátuas. O que ele quer é bem simples: uma superprodução hollywoodiana pra contar ao mundo sua saga de heroísmo. E isso tudo vindo de um sujeito chamado Leônidas.
Lógico que este filme baseado nos quadrinhos de Frank Miller, com direção de Zack Snyder (da interessante refilmagem “Madrugada dos Mortos”), tem seus atrativos. A fotografia é quase tão boa quanto a de “Sin City”. Dá pra ver as gotinhas de sangue esguichando e o pus saindo dos machucados dos leprosos. E as estratégias de guerra são curiosas, pra quem gosta. Eu prefiro paz. A câmera lenta é diferente da de “Apocalypto”. Parece que a ação vai ser rápida e aí vira lesma. Deve ter um nome pra isso: movimento de câmera “Marido da Gente”, talvez? Não sei, só sei que depois de “300” observei melhor as formigas do meu quarto. Imaginei-as olhando pra mim e a comandante gritando pra incentivar as tropas: “Hoje jantaremos no inferno!”. Sim, porque mesmo que eu seja uma só e as formigas sejam centenas, quiçá milhares, em matéria de peso tá mais pra trezentas formiguinhas contra cem mil Lolinhas. Adivinha quem ganha?
P.S.: Em “300” há vários ecos de filmes mais poderosos, como “Nascido para Matar” (1987) e “Kill Bill – Volume 1” (2003). Os inúmeros gritos e caras de guerra de “300” devem ser uma homenagem ao sargento fascista de “Nascido”, que exige dos recrutas um grito de guerra. Este clássico do Kubrick, pra mim, é o melhor filme sobre a Guerra do Vietnam já feito. A outra referência é à já clássica obra do Tarantino. Lembra da Uma Thurman dizendo “Esse braço não te pertence mais”?. Tá em “300”.
