terça-feira, 10 de setembro de 2019

FRIENDS FAZ 25 ANOS DE VIDA: UMA SÉRIE QUE NÃO ENVELHECEU BEM

Este mês Friends, considerada por muitos a melhor série de todos os tempos, completa 25 anos de vida.
Antes de mais nada, devo dizer que eu sou uma das fãs desta série que teve dez temporadas, entre 1994 e 2004. Ainda a vejo inteira a cada 3 ou 5 anos, e ainda rio muito todas as vezes. Isso não quer dizer que eu não enxergue problemas. 
O show tinha pouquíssimos personagens que não fossem brancos e héteros (quase nada de diversidade para uma Nova York dos anos 90), há bastante transfobia no que se refere ao "pai" de Chandler (uma mulher trans), Joey tem um comportamento bem misógino na maior parte das vezes, e ninguém gostou que Rachel desista de uma carreira promissora em Paris para ficar com Ross. Mas, pra mim, o pior problema da série sempre foi sua gordofobia escancarada. Monica foi uma garota gorda, e Friends não permite que ela se esqueça disso. Há um incontável número de piadas feitas pro público rir de mulheres gordas. 
Li este artigo que Scaachi Koul escreveu pra BuzzFeeeNews e pedi pro querido Vinicius traduzi-lo. Há muita coisa que eu discorde no texto, mas achei que ele seria um bom ponto de partida pra gerar uma discussão sobre a série. 
Friends feitos de Lego
Estou começando a me dar conta de que, em anos de internet, sou muito velha. Mas em vez de me sentir irrelevante por conta da minha ignorância sobre memes atuais ou do fato de que, cada vez mais, todos os meus tweets são sobre como eu odeio viagens aéreas, me sinto compelida a compartilhar minha sabedoria adquirida com muito esforço. Quanto mais me distancio de minha juventude, mais quero alertar a geração mais jovem, essa Geração Z com seus colares de conchas, xuxinhas de cabelo e Vans, que o que ela gosta é na verdade um lixo absoluto. 
Nunca soube que repetiria as frases que meu irmão da Geração X costumava dizer para mim -– “Quando você for mais velha, irá compreender que estou certo” –- no entanto aqui estou, dizendo à minha sobrinha que não, não assistirei Friends com ela. Friends, minha querida, é terrível.
Marca de café
Este setembro marca o aniversário de 25 anos da estreia de Friends, e como a maioria dos aniversários significativos da cultura pop, desencadeou uma onda de nostalgia coletiva. Eventos temporários, exibições públicas e produtos estão se materializando para os fãs mais radicais, afinal, qualquer um usaria uma pulseira com uma cantada gravada nele. Pessoas estão debatendo qual série é melhor, Friends ou Seinfeld (sem querer dar spoiler no meu próprio texto, mas é Seinfeld e isso deveria ser óbvio). 
Biólogos marinhos que provavelmente passaram anos na universidade e gastaram centenas de milhares de dólares em educação estão por aí nos informando que, na verdade, lagostas não formam pares para a vida, ao contrário do que Phoebe, uma personagem ficcional em um seriado de televisão ruim, cujo traço inteiro de personalidade é ser instável, disse em algum momento no final dos anos 90. 
Nós também ficamos sabendo recentemente que o macaco-ator que interpretou o animal de estimação de Ross (um enredo real de uma série sobre pessoas vivendo em Nova York, onde metade dos senhorios sequer permitirá que você tenha um cão bem-comportado) segue em atividade -– o que, imagino, é bom para o macaco. O conteúdo nunca acaba e, no entanto, de alguma forma, as pessoas parecem nunca perder o apetite por mais. Recentemente foi divulgado que Robert De Niro está processando uma ex-funcionária por, em parte, assistir 55 episódios de Friends em quatro dias.
Não quero soar dramática, mas se eu ler mais uma manchete que diga “Poderíamos ESTAR mais animados?” sobre alguma notícia relacionada a Friends, me jogarei dentro do vulcão ativo mais próximo.
Ninguém, sobretudo eu, deveria julgar o gosto de outras pessoas para programas de televisão. 
Atualmente, meu programa favorito são clipes no YouTube de uma série britânica chamada Just Tattoo of Us, em que “amigos” ou “parceiros” desenham tatuagens profundamente humilhantes que serão aplicadas permanentemente nos corpos um do outro sem aprovação prévia envolvendo o desenho ou o local da tatuagem. Eu e meus gostos somos lixo e não mereço nada além de uma morte dolorosa. 
Mas enquanto alguém que viveu durante a primeira leva do reino cultural de Friends, que estava consciente por pelo menos uma metade, e que participou disso em tempo real, eu estaria sendo negligente se não lembrasse a todos vocês da verdade: Friends, um programa sobre pessoas brancas sendo magras e possuindo os mamilos mais aparentes das Américas -– e um programa que eu, em certo momento, assisti e aproveitei –- é um lixo absoluto. 
Friends estreou em 1994, quando eu tinha três anos de idade. O final foi uma década depois. Muito de meus anos formativos foram gastos assistindo Friends. Minhas colegas de classe e eu encenávamos a série na escola. Eu queria ser uma Rachel, mas me contentava com uma Monica, embora eu dissesse às outras pessoas que era uma Phoebe, quando na verdade era um Ross. 
Meu irmão, que estava na minha frente no percurso de saber que o programa era “inassistível”, costumava brigar comigo quando eu insistia em assistir reprises que eu já havia visto na semana anterior. (Espero que ele nunca leia isso; eu jamais superaria.) Em 2004, quando meus pais me proibiram de ver televisão (após eu ter sido esperta o suficiente para passar um trote em um professor e burra o suficiente para deixar meu número na caixa postal), escrevi uma carta implorando para eles me deixarem assistir o episódio final. Rachel desceu do avião!!! Eu estava feliz, mas também eu era uma virgem e não compreendia que Rachel certamente poderia achar outro pau em algum lugar de Paris.   
Há uma discussão online recorrente sobre a estranha divergência entre a nostalgia de Friends e a realidade da baixa qualidade da série. Mas ainda assim, esmagadoramente, o público parece estar Ok em fingir que Friends tinha algo de bom. Provavelmente contribuindo para essa conclusão errônea é quão fácil é acessar o catálogo de episódios, que está prontamente disponível em serviços de streaming que adolescentes adoram maratonar em massa. 
Parece estranho que o seriado que a geração mais suscetível ao marketing esteja, por algum motivo, assistindo, é também o seriado menos relevante ainda disponível no mercado (e é aqui que eu livremente admito que o BuzzFeed tem oferecido um fluxo constante de Friends para jovens impressionáveis, o que pode ter algo a ver com tudo isso).
Muitos programas envelhecem mal, mas ainda são convenientes de rever de vez em quando. Mas diferentemente de outros programas semelhantes que inspiram maratonas nostálgicas –- Seinfeld, The Office, 30 Rock, Parks and Recreation ou Cheers -– Friends não possui a vantagem de ser de fato bom. Steve Carell está certo: The Office nunca deveria ser refilmado, porque é um seriado sobre um chefe abusivo que assedia moralmente seus empregados, que desenvolvem uma espécie de Síndrome de Estocolmo para continuar a trabalhar em uma empresa de papel (adolescentes se lembram de papel?). Mas é, ainda assim, muito engraçada e cheia de compaixão e redenção.
Frasier ainda é uma série agradável sobre os únicos dois homens vivos que ainda bebem xerez. Tudo em Família nos mostrou como alguém que você ama também pode ser um babaca racista (que presságio, Cristo), e Seinfeld mudou para sempre como uma comédia de meia-hora seria. 
Mesmo hoje, eu preferiria assistir o mesmo episódio de Will e Grace em que a mãe de Grace aparece do que sequer dar uma chance a Chernobyl. Maratonar séries que são confortáveis e familiares é tranquilizante, como ligar para sua mãe quando você está chateada, ou fumar um cigarro de cravo no estacionamento da sua escola -– o que, é claro, eu nunca fiz, e se meu irmão mais velho estiver lendo isso, não conte para a mamãe, seu dedo-duro de merda.
Mas amar Friends em 2019 requer um nível de ginástica mental que deveria forçar a série a permanecer num ponto esquecido do passado. Liste qualquer um de seus episódios “favoritos” e provavelmente haverá algo grotesco enterrado no enredo. O pai de Chandler é desnecessária e inexplicavelmente drag queen, interpretada pela atriz cis Kathleen Turner, e é a fonte de várias piadas transfóbicas
Quando adolescente, Monica era gorda e é isso, essa é a piada, aqui, veja-a dançar em uma fat suit (disfarce para parecer gorda). A ex-esposa de Ross é lésbica e não é engraçado que seu filho tenha duas mamães? Salvo alguns personagens não-brancos que surgem de vez em quando, a série era tão branca que Phoebe, como única loira, poderia ser considerada uma minoria. 
Múltiplos artistas que fizeram participações especiais em Friends revelaram, duas décadas e meia depois, experiências não muito especiais no set. E, claro, há o infame processo de 2004 que Amaani Lyle, uma assistente dos roteiristas, moveu contra o programa por ter sido forçada a ouvi-los contando piadas sobre Joey estuprando Rachel, e a assisti-los imitando masturbação e caçoando da “fala negra do gueto” (o juiz decidiu que o comportamento dos roteiristas era necessário para um ambiente criativo, lançando bases problemáticas para que uma defesa de "necessidade criativa" fosse implantada em outro lugar).
Além de tornar mais difícil processar por assédio em ambiente de trabalho, qual legado cultural Friends nos deixou, exatamente? Um penteado? Justin Theroux?? Matthew Perry chocado no The Graham Norton Show quando a septuagenária atriz Miriam Margolyes falou sobre “ficar com a calcinha molhada”?? (Esse último é muito bom, na real.) 
Pelo menos agora temos o gostosão Jughead. Mal posso esperar pelos bebês de 2020 no futuro tentarem argumentar que Riverdale é na verdade uma obra-prima.
Mas, é claro, nada disso importa. Pelas regras da internet, não sou nada além de uma mulher velha, uma millennial perdendo importância com a idade. São as garotas VSCO e estrelas do TikTok que herdarão a Terra –- suas tolices, suas falhas, seus sucessos. E elas também irão crescer um dia e perceber a verdade sobre Friends, que era apenas uma série sobre lindas pessoas magras usando suéteres, com uma máquina gigante de marketing de uma emissora por trás.
Esse será o rito de passagem delas, e a boa notícia é que elas provavelmente se acertarão com o desapontamento de retornar a algo que elas amavam; o seriado que elas gostavam aos catorze anos, embora tenha terminado antes de elas nascerem, não é de fato tão bom. Minha vingança terá que esperar. Eu poderia ESTAR mais animada para o momento em que ela finalmente vier?

18 comentários:

Izabel disse...

Não entendo todo o hype em torno dessa série, embora no fundo entenda.
Mas sim, a série não é tão boa, e sim a série tem diversas questões problematizáveis, e a gordofobia é explicita e não tem graça.

Anônimo disse...

PelamordeDeus gente? E essa notícia macabra da morte da Lola? Hj ela não postou nada no Twitter também. Isso NUNCA aconteceu desde o começo... tô preocupadíssima! O pior é que não encontrei resquícios dela em lugar nenhum na net.

Anônimo disse...

Ai minha Deusa! E a última vez que ela postou foi há umas 22h atrás. Ou seja, ontem! Hj nada dela! Apareça Lola querida! Por favor! Por favor! Estamos desesperadas já!

Lola Aronovich disse...

Ai, ai, mascutrolls... Uma pessoa não pode viajar a trabalho e ficar um dia longe da internet sem que vcs achem que ela morreu?
Vou copiar Mark Twain, que na sua época teve seu obituário publicado num jornal: "The reports of my death are greatly exaggerated".

Anônimo disse...

Decepção.

Paulo Cunha disse...

Tive que procurar o que é geração X, descobri que é a minha, antes tarde do que nunca!

Como o irmão dela, não gostava do Friends na época que surgiu. Eles eram mais ou menos da minha idade, mas nada do que eles faziam ou passavam refletia o que eu estava passando.

Seinfeld também não me empolga. Se é sobre o nada, então é um nada que me espelha em nada mesmo.

Eu nunca parei para ver The Office americano porque o britânico, o do Ricky Gervais, esse sim, vi os episódio a conta gotas porque todos foram um soco no estômago. Para mim, um dos melhores seriados.

E o grupo dos anônimos anódinos continuam a ranger os dentes.

Anônimo disse...

Gilmore girls é bem mais feminista

titia disse...

Nem quando eu tinha 14 anos curtia Friends. Essa série pra mim sempre foi uma completa bosta e eu não entendo como alguém que já tenha acordado pra vida consegue gostar disso. Mas talvez a imaturidade e a infantilidade mental das pessoas seja a causa disso... raríssimos são os que crescem de verdade... a maioria só envelhece sem amadurecer mesmo.

Carolina disse...

Friends é chato mesmo. Na época até gostava um pouco, mas hoje acho insuportável. Acho que mais pela falta de graça geral do que pelas piadas preconceituosas.
Seinfeld eu gosto, se pegar passando eu assisto.

Anônimo disse...

Lola fala sobre o caso de estupro da Najila pelo Neymar; e da reviravolta com a polícia agora perseguindo a coitada da vítima ao invés de prender o estuprador, jogador milionário. Coitada dessa moça...

Anônimo disse...

Achei o texto muito chato e radical. Concordo que Friends não envelheceu bem... tem um texto muito bom que avaliava o quão ridicularizado o Ross era, por ser "apenas" um intelectual e o desprezo deles pela academia. Mas mesmo assim achei essas críticas um pouco "over"...

Anônimo disse...

Deve ser chato ter de assistir qualquer programa de TV, mesmo uma comédia banal, pensando ideologicamente sobre a coisa.

Flora Valls disse...

Eu só não entendi como a Phoebe era minoria por ser a única loira... a Rachel era o quê, então?

P.s. anon das 01h37, Gilmore Girls arrasaaaa ♥

Anônimo disse...

"Lola fala sobre o caso de estupro da Najila pelo Neymar; e da reviravolta com a polícia agora perseguindo a coitada da vítima ao invés de prender o estuprador, jogador milionário. Coitada dessa moça..."

Não há o que falar. Ela está sendo investigada por suspeita de crimes. A polícia só está cumprindo o seu papel.

Anônimo disse...

Anon 15:04, claro que há o que falar SIM! O movimento feminista tem que defender a mulher, vítima de estupro, e não fechar os olhos e fingir que "não é comigo", por ser este um caso complicado. Houve estupro. Houve humilhação. Houve uma vítima mais fraca. Houve um algoz rico e influente. E vc ainda acha que não temos que fazer nada? De que lado vc está mesmo?

Anônimo disse...

"Houve estupro"
Melhor você se ligar em suas afirmações.

Anônimo disse...

Se Friends, Globo, Record, Chaves, Beatles, Felipe Neto, Bolsonaro, Lula e açaí são lixos, então tudo nessa vida é lixo

Anônimo disse...

Anon 15:04, claro que há o que falar SIM! O movimento feminista tem que defender a mulher, vítima de estupro, e não fechar os olhos e fingir que "não é comigo", por ser este um caso complicado. Houve estupro. Houve humilhação. Houve uma vítima mais fraca. Houve um algoz rico e influente. E vc ainda acha que não temos que fazer nada? De que lado vc está mesmo?

Foi feita uma investigação policial com ampla cobertura da imprensa. Foram analisados depoimentos e provas materiais. E o resultado das investigações mostrou que não há elementos suficientes para indiciar Neymar. Afirmar nesse caso que houve estupro é uma atitude irresponsável que apenas prejudica as verdadeiras vítimas de estupro. Ninguém está dizendo que o comportamento de Neymar foi louvável. Apenas que não é possível acusá-lo de estupro.