segunda-feira, 3 de abril de 2017

MULHERES À BEIRA DO TEMPO, CLÁSSICO DA UTOPIA FEMINISTA

Ano passado li um romance muito interessante, um clássico da utopia feminista: Woman on the Edge of Time, de Marge Piercy, publicado em 1976. Não sei se tem tradução pro português, apesar de eu já ter visto o título Mulheres à Beira do Tempo pipocando aqui e ali.
A trama não começa como utopia, muito pelo contrário. A protagonista, Connie, mulher hispânica de 37 anos, é internada à força num sanatório psiquiátrico. Enquanto está presa, lembra-se do seu passado. Tinha 20 anos quando sua mãe morreu. Conta a narração: "Aos quinze, aos dezessete anos, ela havia gritado com sua mãe como se o papel da mulher mexicana que nunca se sentara com sua família, que comia depois como uma empregada, fosse algo que sua mãe tivesse inventado". 
Sua mãe aceitava calada as traições do marido e apanhava sem reclamar. Depois de parir cinco filhos e ter quase morrido com o último, tiveram que remover seu útero. Seu marido então a xingava de velha seca e dizia que ela não era mais mulher, pois havia perdido sua utilidade como fêmea, que é ter filhos. 
Connie se recorda de, com quinze anos, discutir com sua mãe:
"Não vou crescer para ser como você, mama. Para sofrer e servir. Nunca para viver a minha própria vida. Não vou!"
"Você vai fazer o que as mulheres fazem. Você vai pagar sua dívida para a sua família através do seu sangue. Que você ame os seus filhos tanto quanto eu amo os meus."
"Você não ama nós meninas do mesmo jeito que você ama os meninos! É tudo pro Luis e nada pra mim, sempre foi assim."
"Nunca erga sua voz pra mim. Vou contar para o seu pai." [...]
"Vou conseguir uma bolsa e fazer faculdade. Não vou me deitar e ser enterrada na rotina da família, família, família! Estou tão cansada dessa palavra, mama! Nada na vida que não seja ter filhos e cozinhar e cuidar da casa. Mamacita, acredite em mim, me escute -- eu te amo! Mas eu vou viajar. Eu vou ser alguém!"
"Não há nada para uma mulher ver que não seja encrenca."
A Connie internada no manicômio de fato "viaja". Começa a conversar com Luciente, uma jovem que vem do futuro (aproximadamente 2137). Nesta utopia, parece que o mundo regrediu. Somos informadxs, sem muitos detalhes, que as cidades grandes não deram certo. As pessoas agora vivem em vilas agrárias auto-sustentáveis, sem crimes ou preconceitos. Usa-se energia solar. A linguagem foi modificada para que os pronomes de gênero não existam mais (usa-se “per”, de person, em vez de he ou she). A reprodução é controlada, e uma criança só nasce quando alguém morre. 
O modo que esse mundo do futuro arranjou para acabar com as diferenças de gênero foi acabar com a reprodução. Agora sexo é só por prazer, e ninguém é de ninguém. Reprodução é através de proveta, em úteros artificiais, mas cada criança tem três “mães”, homens e mulheres. Todos amamentam. Ainda existem homens e mulheres, mas as diferenças são mínimas, e a aparência da maioria é andrógina. 
As crianças pertencem à comunidade, não a indivíduos (o pesadelo dos reaças). Não há escolas. As crianças aprendem no dia a dia. Tudo é resolvido coletivamente em reuniões. Pessoas usam uma espécie de computador portátil para se comunicar e guiar. A ciência é desenvolvida, mas empregada apenas quando há benefícios para todos. Não há conceito de propriedade. Não existem carros. É quase um paraíso hippie. É interessante porque Connie não gosta desse mundo. Pra ela, parece o México pobre da sua infância. Ela também, ao pensar no futuro, imaginava montes de naves espaciais e viagens rotineiras à Marte. Mas não. A utopia futurista, de acordo com Marge Piercy, é um mundo sem pobreza e preconceito.
Porém, em Mulheres à Beira do Tempo, esta utopia não está definida. Há capitalistas lutando para reverter a situação, e as pessoas devem prestar serviço militar para defender sua utopia.
Há um momento em que Connie vai parar num futuro alternativo, uma total distopia. Nele, ela conhece uma mulher que é o estereótipo físico da feminilidade, alterada por cirurgias para acentuar suas características sexuais. com todas as curvas realçadas. Neste mundo, Gildina é uma “fem”. Ela vive presa no subterrâneo num quarto sem janelas, só com imagens holográficas. Nunca viu o céu, até porque no subterrâneo ele não existe -- só há poluição e gases tóxicos. 
As pessoas ricas, uma minoria, moram em cima, e vivem muitos anos. As pobres têm seus órgãos usados como transplantes e morrem antes dos 40. Comem alimentos com sabor artificial, que vem em tabletes. As mulheres são mantidas em cativeiro sexual, constantemente usando drogas. Para se distrair, essas mulheres miseráveis assistem filmes pornôs em casa cujo roteiro é sexo, estupro, tortura e mutilação. 
O foco de Mulheres à Beira do Tempo não é essa distopia, que dura poucas páginas. É a utopia mesmo. No entanto, caso o sonho do mundo perfeito não estivesse agradando o suficiente, é só ver a distopia para se dar conta da alternativa. E lamento que, hoje, boa parte das mulheres estejam mais próximas da distopia do que da utopia sonhada por Piercy. 

36 comentários:

Anônimo disse...

Espero que essa utopia, como todas as outras jamais se concretize.

Isso não significa que esteja contente com o mundo atual, ou não queira mudanças. Mas utopias só existem no plano das ideias. Quando se tenta "colocá-las em prática", é permitido cometer qualquer atrocidade pelo "bem maior". Os fins justificando os meios.

E essa utopia em especial parece uma tentativa de transformar seres humanos em alienígenas do tipo "grey".

Anônimo disse...

vou falar a respeito de uma "utopia" muito mais crível ("utopia" entre parênteses, pq não se trata de uma ~utopia~, e sim de uma realidade vindoura):

É o seguinte...

A humanidade irá evoluir biologicamente (assim como evoluiu nos últimos milênios), as mulheres desenvolverão partenogênese/telitoquia (eu nunca falei tão sério na minha vida, isso vai acontecer, seja pela evolução tecnológica ou biológica) e o papel dos omens na reprodução (bem como na sociedade e na natureza de uma forma geral) passará a ser completamente inútil, hj em dias elEs já são semi-inúteis

Daí em diante vcs já podem imaginar o q deve acontecer, a seleção natural extinguirá os portadores de xy, só haverá mulheres no planeta Terra, esse é o destino final (e perfeito) da humanidade

Anônimo disse...

A história relatada em "Herland" é uma outra "utopia", porém muito melhor e mais plausível

Recomendo a leitura, mas tb não tem em português (eu acho). Lola, vc já leu? O q achou? Comenta esse livro, pq ele é bem superior a Woman in the Edge of Time

Anônimo disse...

Por que não suprimir nomes próprios também? Afinal, são termos totalmente arbitrários cuja única finalidade é diferenciar e, portanto, discriminar indivíduos que, em sua essência, são iguais. Todos são pessoas e diferenciam-se uns dos outros apenas em sua própria unidade. Portanto, nessa "utopia", as pessoas referidas pelo pronome "per" poderiam ter como nomes próprios números: "persone 1", "persone 2", "persone 3", e assim por diante. Muito mais justo.

E por que gerar crianças? Conceber novos seres humanos implica em trazer à existência consciências que jamais consentiram em existir. Tirá-las de um estado pacífico de inexistência, no qual não há sofrimento, e forçadamente fazê-las constituirem-se num mundo em que estarão fadadas a degenerar-se, sofrer, experimentar a angústia e o medo da morte e, finalmente, padecer. É, portanto, uma forma de violência e opressão que deve ser eliminada.

Aprender no dia a dia é outra injustiça, pois experiências individuais são diferentes umas das outras, e mesmo experiências análogas são percebidas diferentemente segundo a sensibilidade de cada um. Um ensino verdadeiramente igualitário deve assegurar que cada indivíduo absorva exatamente a mesma quantidade de conhecimento, do contrário haverá indivíduos com graus diferentes de instrução (o que dá margem à exploração e dominação).

Eis, portanto, a verdadeira utopia: pessoas sem nome, diferenciadas apenas numericamente (pois qualitativamente devem ser reconhecidas como iguais), tratando umas às outras por termos linguísticos neutros, impossibilitadas de se reproduzir, e ensinadas por meio de computadores a se integrarem por completo na coletividade, dissovolvendo-se toda e qualquer diferença. Por que as pessoas não querem viver em um mundo assim é um mistério...

Anônimo disse...

Certo dia assisti a um episódio, de um destes reality shows em que abandonam-se pessoas em ambientes inóspitos e com pouquíssimos ou quase nenhum recursos(não me recordo o nome). Acredito, que o objetivo seja aproximar o telespectador, de como seria a vida há milhares de anos,sem o conforto da vida moderna. Havia um homem e um grupo de mulheres. O interessante a observar, é como todo este ideário, centrado na ofensiva ao que se denomina "domínio patriarcal" , desaparece por completo diante da presença de feras, escuridão, tempestade, escassez de recursos, etc. Sei que muitas irão me execrar, mas foi notório o desespero das mulheres, o choro, a incapacidade de se organizarem(ficavam brigando enquanto o "mascu" é que tinha que se virá). Não estou ofendendo as mulheres, apenas acho que discutir tudo isso em uma sociedade que oferece meios muito melhores que outrora, fica bem mais fácil. Desafio as feministas a se abdicarem dos recursos tecnológicos disponíveis(a começar pela internet) e construirem esse mundo utópico, que tal? Isolem-se numa vila, numa ilha, sei lá, numa espécie de experimento e reproduzam toda esta sociedade perfeita, longe dos homens que vocês tanto apregoam. Não sei por que vocês ainda não colocaram isso em prática ainda!

Anônimo disse...

"assisti a um episódio, de um destes reality shows"

Ah, claro! programas de tv editados e roteirizados pra parecer "real" é realmente uma ótima forma de observação teórica, com certeza isso tem "valor" científico, SÓ QUE NÃO

Já começou mal, hein queridinho, querer se basear em "reality" show de tv, ah mascu, vá a merda, vcs já foram bem melhores (quer dizer, minto, vcs sempre foram essa merda)

"longe dos homens que vocês tanto apregoam"

não tem como, lixomens são a maioria dos indivíduos no planeta terra, por enquanto

"Não sei por que vocês ainda não colocaram isso em prática ainda"

A seleção natural está encarregada disso, calma, paciência, a 13:45 explicou bem

Anônimo disse...

15:16, forçou

Anônimo disse...

O fato de vc ter adorado esse livro demonstra o desejo que as radfem tem em relação aos homens, andrógino, sem masculinidade, fracos,além de um incômodo com a existência da família e um desejo de controle de todos os aspectos da vida da sociedade pelo governo

Anônimo disse...

"O modo que esse mundo do futuro arranjou para acabar com as diferenças de gênero foi acabar com a reprodução".

Não diria acabar com a reprodução, mas se tivéssemos 100% de controle sobre a fertilidade e não existe essa maldição do mito do amor materno e todo o chorume que vem com ele, ca. de 70% dos nossos problemas estariam resolvidos.

Mas sinceramente, nem mesmo o feminismo consegue aceitar isso...

Jane Doe

Anônimo disse...

fonte: episódio de reality show descolado

Anônimo disse...

pisoteou o nessahan alita q só vomita lepras literárias

Anônimo disse...

Que o futuro me livre de delegar as decisões inerentes à mim e aos meus a algo remotamente parecido com o Estado!

Do que isso difere daqueles que levam toda e qualquer questão familiar ao pastor da igreja?

Que confiemos mais em nós mesmos.


Alícia

Anônimo disse...

A Lola é "radfem" desde quando, mascu retardado?

Anônimo disse...

Desafio igualmente os homens a não se relacionarem, não terem filhos, não terem relações sexuais, não morarem com nenhuma mulher, mesmo a mãe, até o resto de suas vidas.

Anônimo disse...

Desafio todos os homens a nunca formarem família e nunca precisarem de uma mulher ou relacionamento na vida. Enquanto isso, a maioria dos solteiros são mulheres e nos países desenvolvidos cada vez mais as mulheres não se casam, não tem filhos e até mesmo não fazem sexo (deem uma olhada no estudo sobre sexualidade na geração Y). Das mulheres que tem filhos, cada vez mais são frutos de inseminação artificial. O futuro é óbvio: cadq vez mais as mulheres vão ao oposto da família tradicional e vão viver suas vidas e em contrapartida os homens ficam sozinhos e o desempenho deles em comparação só cai.

Marta disse...

Lolla assista "13 reasons why" no netflix. Acredito que eles acertaram em cheio, pois fala de bullyng, slutshame, masculinidade tóxica, suicidio, estupro, depressão na adolescencia... Somente conteúdos relevantes

titia disse...

Pergunta ao anon que morre de medo de virar um robozinho só mais um na multidão: por que você e gente como você tem tanto medo de que a coletividade seja tão importante quanto a individualidade? Porque veja, carinha, você já É só mais um na multidão. Você já É um robozinho josé-vai-com-os-outros que vocifera machismo e misoginia só porque um bando de outros desajustados o faz também. Você não é nada especial. Você não é mais que os outros só porque a coletividade é desvalorizada. Você é apenas mais um iludido que acredita ser melhor, ser mais do que os outros por sua cor de pele, sexo, condição financeira e religião. Valorizar a coletividade tanto quanto se valoriza a individualidade apenas tornaria a vida melhor.

E sim, faço coro à Jane Doe: chega dessa merda de controlar a fertilidade das mulheres. Chega dessa merda de usar gravidez e criança como punição pra mulher que se atreveu a fazer sexo (mimimi é pela vida das criancinhas o caralho, seus hipócritas mentirosos). Chega dessa merda de impor a maternidade desde que a mulher é criança. Chega dessa merda de mito do amor materno, que só faz mal às mulheres e aos filhos dela. Chega dessa merda toda. E vocês que estão insistindo que as mulheres nunca mais se relacionem com homens, façam o mesmo seus porras. Casem-se com outros mascus e deixem as mulheres em paz.

André disse...

16:20,
Pois eu desafio você a fazer um contorcionismo e enfiar sua cabeça no seu cu. Assim as merdas que você falar vão se sentir em casa.

Anônimo disse...

Ótima dica, Marta!!!

Eu não sou lá muito fã das séries da Netflix, mas dessa vez foi diferente. Eu fiz uma maratona de "13 reasons why" por que eu não consegui parar de assistir!
Tem cenas difíceis de ver. Os temas tratados na série são muito pesados, mas não poderia ser mais importantes e atuais...
A série é fantástica... assistam!!!


Jane Doe

Valéria Fernandes disse...

Sei lá, a Lola publica uma resenha sobre utopias e distopias, algo que autores mulheres e homens escrevem, sei lá, desde que se inventou a literatura, e alguns comentaristas tratam o texto como um manifesto de alguma coisa. As pessoas estão enlouquecendo esses dias.

De resto, a ficção científica com recorte social das feministas fala muito sobre nossas angústias como mulheres, em relação aos papéis de gênero, às exclusões sociais. E sou grata à Lola por ter falado do Conto da Aia muito tempo atrás. Finalmente, tomei vergonha e estou lendo. É assustador.

Anônimo disse...

Utopia pressupõe algo bom.

Não tente trazer o paraíso a terra. Todos aqueles que prometeram trazer o paraíso à Terra (nazistas/comunistas), a transformaram num inferno. A perfeição não pertence ao domínio do humano.

Anônimo disse...

07:51: Se a resposta foi dirigida a mim (15:16), te desafio a identificar "machismo e misoginia" no meu comentário inicial. Não há e você certamente sabe disso, portanto me poupe das suas acusações.

Quanto à fertilidade, estou de acordo, que as mulheres tenham controle sobre ela (de novo, você faz inferências a meu respeito que nada têm a ver com o conteúdo das minhas afirmações).

Finalmente, não expressei "medo" de nada. E não me opûs à valorização da coletividade. O que eu quis expressar (e você claramente passou longe de entender), é que a homogeneização da coletividade nos patamares fantasiados pela autora da obra é ridícula. Qualquer que seja o arranjo político, ele jamais será bem sucedido se não comportar as diferenças e complexidades do tecido social que se pretende organizar. Um modelo de sociedade que suprime a linguagem (e portanto o pensamento), o ensino teórico, a reprodução (veja que é a "utopia" descrita no livro que está a prescrever regras inflexíveis a respeito da fertilidade da mulher), as relações afetivas entre pais e filhos, e mesmo as diferenças físicas naturais entre as pessoas, está longe de ser utópico. É mais a fantasia de uma mente decadente, daquelas que sonham em substituir o mundo de verdade por um mundinho imaginário e simplório no qual as potências e intensidades inerentes à própria realidade fossem eliminadas. Onde todos fossem idênticos para assim se verem livres da dificuldade de lidar com o diferente. Onde os dilemas éticos fossem inexistentes, e o enfrentamento de quesões delicadas fosse evitado por juízos apriorísticos provenientes de alguma autoridade superior, que, por exemplo, saberia milagrosamente dizer de antemão os estudos científicos que são ou não benéficos à coletividade. Se essa é realmente a sua visão de "utopia", lamento mas ela não passa de uma fantasia ridícula. A realidade não se dobra a essas simplificações toscas, por mais que isso possa ser frustrante para alguns.

titia disse...

Uh... desde quando um mundo sem preconceito é sinônimo de um mundo que não sabe lidar com as diferenças? Porque a base da utopia da autora é essa: um mundo sem preconceitos. Um mundo em que todos tem a mesma importância, o mesmo valor social, onde todos são iguais em direitos e deveres. Em nenhum momento ela diz que todos agora tem a mesma personalidade, são obrigados a se comportar do mesmo jeito, a ter os mesmos gostos, etc. Todos tem suas caraterísticas individuais, mas independente de quais sejam elas, as pessoas não tem mais preconceitos. Desde quando um mundo assim é ruim? Pelo seu comentário você não gosta especialmente da parte que envolve sexo e reprodução: o fim da procriação descontrolada, as mulheres não precisarem engravidar nem parir, os homens estarem tão envolvidos na paternidade quanto as mulheres estão com a maternidade, a aparência andrógina generalizada e o fim da família tradicional. E quem se incomoda com isso em geral é machista.

Machista que acha que paternidade ativa é coisa de 'viado', que homem tem que parecer 'macho' e mulher tem que ser bonita-dentro de um padrão opressivo e, não raro, impossível. Machista que acha que família tradicional é a única formação possível (dica: não só não é, como costuma ser uma merda). Misógino que acha que mulher tem mais é que se ferrar, que tem que parir cheia de dor, que não pode transar só por prazer e que, se transar, tem que ser punida com gravidez, parto (doloroso) e maternidade. Quem não gosta da ideia de um mundo sem preconceitos é gente preconceituosa e, não raro, privilegiada pelo preconceito em detrimento dos oprimidos. Então, meu amigo, se você é a favor de um mundo sem preconceitos está fazendo um ótimo trabalho de fingir que não.

Anônimo disse...

18:49, Se você não percebe a contradição entre "todos tem suas características individuais" e "todos tem uma aparência andrógena", realmente fica difícil levar essa discussão adiante. Vamos lá: atributos físicos são caracterísitcas indivíduais, de modo que suprimí-los é suprimir essas características.

Já a sua impressão de que eu teria me incomodado especialmente com a parte referente a sexo e reprodução não passa de um devaneio seu. Não é esta questão o que eu acho mais tolo nessa "utopia", ainda que, também nesse particular, as fantasias da autora sejam bastante pueris. Além disso, é a "sociedade utópica" que está a tutelar a fertilidade e a reprodução alheias, não eu.

De resto, você simplesmente ignorou tudo o que eu falei no meu comentário anterior. Fui muito claro e específico nos meus ataques, mas ao invés de se dirigir a eles diretamente, você preferiu fingir que eles de alguma maneira representam uma apologia ao preconceito. Exemplifico: um dos aspectos mais estúpidos desse modelo utópico é a sua alta dependência da ciência avançada, ao mesmo tempo em que há uma limitação à inquirição científica que inviabilizaria por completo o desenvolvimento tecnológico que essa mesma sociedade exige. Ora, não é possível, em muitíssimos casos, simplesmente antever quais serão os benefícios advindos de uma determinada pesquisa. Só depois de realizada é que suas utilidades práticas se revelam. Outras vezes, o resultado obtido é útil para um propósito totalmente diferente do inicialmente concebido (já ouviu falar de como surgiu o viagra?). Limitar a investigação científica aos juízos de conveniência da coletividade seria, portanto, incoerente para uma sociedade avançada como essa que a autora descreve (o que só reforça a pouca verossimilhança desse univerao fictício).

Pois bem, como exatamente essa minha crítica (ou todas as demais) equivale a defender preconceitos? Evidentemente, não há equivalência alguma, você só está incomodada com o fato de eu ter mostrado a superficialidade desse mundinho de algodão doce imaginado pela autora.

A última parte do seu comentário eu vou smplesmente ignorar, pois nada tem a ver com o que eu escrevi. É só uma tentativa patética de me enquadrar nos rótulos que você desaprova, ainda que nada do que eu tenha dito sugira que eu endosse esses pontos de vista.

Loup~garou disse...

Ainda tem gente que acredita em evolução? Que bonitinho!

Anônimo disse...

22:59

não, é o criacionismo q está correto, burro

Loup~garou disse...

Na verdade, é o lesboveganismo que está correto, moreno.

E ainda existe o evolucionismo teísta, tão chato quanto o niilista.

Anônimo disse...

Você pensa que é um lobo mas na verdade é uma ovelha fantasiado de lobo perseguindo o rebanho. O que é muito mais patético do que se imagina.

Cara Valentina disse...

(Loup~garou aqui)

A mocinha sabe francês! s2

Me esclarece então: eu sou um lobo trans ou uma ovelha desconstruída? Ou é só cosplay?

titia disse...

16:09 vamos lá. "atributos físicos são caracterísitcas indivíduais, de modo que suprimí-los é suprimir essas características." Onde está escrito que a supressão dessas características é obrigatória? Aliás, uma vez que esse mundo utópico não tem mais preconceitos, a tal aparência andrógena provavelmente é fruto do fim desses estereótipos ridículos de masculino e feminino. As pessoas só parecem andrógenas aos olhos da viajante (que vive num mundo ainda tomado por esses estereótipos) pq não estão mais presas a estereótipos ridículos e se vestem como querem. Ninguém é obrigado a ser fortão, ou a usar salto, pintar unhas, usar maquiagem, ter cabelo curto ou comprido, etc. E isso É bom.

"é a "sociedade utópica" que está a tutelar a fertilidade e a reprodução alheias, não eu." Nessa sociedade utópica todos tem educação e são conscientizados sobre equilíbrio natural, então provavelmente abriram mão de procriar adoidadamente de livre e espontânea vontade pra preservar o mundo. Num mundo onde as pessoas tem consciência das coisas, elas não precisam ser impostas. Talvez você não acredite, mas sim, tem gente que pode ser perfeitamente feliz sem parir. A Lola é prova. E sim, você tutela a reprodução alheia quando vem com essa merda de "pró-vidismo", quando chia contra educação sexual nas escolas e não quer que seus impostos sejam gastos com distribuição gratuita de anticoncepcional e camisinha pq não quer "patrocinar safadeza". Fica a dica. E continua.

titia disse...

"um dos aspectos mais estúpidos desse modelo utópico é a sua alta dependência da ciência avançada, ao mesmo tempo em que há uma limitação à inquirição científica que inviabilizaria por completo o desenvolvimento tecnológico que essa mesma sociedade exige. Ora, não é possível, em muitíssimos casos, simplesmente antever quais serão os benefícios advindos de uma determinada pesquisa. Só depois de realizada é que suas utilidades práticas se revelam. Outras vezes, o resultado obtido é útil para um propósito totalmente diferente do inicialmente concebido (já ouviu falar de como surgiu o viagra?). Limitar a investigação científica aos juízos de conveniência da coletividade seria, portanto, incoerente para uma sociedade avançada como essa que a autora descreve (o que só reforça a pouca verossimilhança desse univerao fictício)."

Qual é a limitação à inquirição científica desse mundo? Não poder usar a ciência pra produzir armas de destruição em massa? Armas químicas? Armas biológicas? Venenos e explosivos mais potentes? Porque tudo que possa melhorar a vida das pessoas e a relação delas com a natureza parece que é permitido nesse mundo. O Viagra seria perfeitamente possível, antibióticos também, cirurgia idem. Você está putinho porque ninguém mais quer saber de criar maneiras de aniquilar e mutilar outras pessoas? Ou por que pra ganhar dinheiro suas pesquisas teriam que ser úteis, e não dá mais pra encher o rabo de grana fazendo nada? De novo, o medo da valorização da coletividade escorre do seu comentário. Pra você, valorizar a coletividade é sinônimo de padronização forçada e na sua cabecinha não há como a valorização da coletividade não atrelar perda de todas as liberdades individuais.

Anônimo disse...

15:55,"Onde está escrito que a supressão dessas características é obrigatória?" - irrelevante. Obrigatório ou não, esse nivelamento está presente, e é só isso que está pressuposto no meu argumento: que essa "utopia" é pensada nos termos de uma sociedade homogênea e estática. Noto, ainda, que você mudou sua assertiva inicial, pois tinha dito que todos mantinham suas características, e agora reconhece que não é esse o caso. Portanto, você mesma acabou por refutar a sua objeção anterior.

"As pessoas só parecem andrógenas aos olhos da viajante". Falso. O próprio texto esclarece que as diferenças entre homens e mulheres são quase inexistentes, e que ambos amamentam. Portanto, a similaridade está na própria composição física dos indivíduos.

"Num mundo onde as pessoas tem consciência das coisas, elas não precisam ser impostas." Falso.
Há varias perspectivas a partir das quais as "coisas" podem ser consideradas, e os próprios objetos têm aspectos variados pelos quais aqueles diferentes pontos de vista podem enfocá-los, apreciando-os segundo distintos sistemas de valoração. Como não é possível estabelecer critérios qualitativos que nos permitam julgar objetivamente todas essas instâncias (um ponto de vista só pode ser julgado a partir de outro ponto de vista, um sistema moral por outro, e assim por diante), não há uma relação de necessidade mútua entre "ganho de consciência" e generalização de consensos. O ganho de consciência pode gerar especialização em pontos de vista distintos, ou aderência entusiasmada a doutrinas morais divergentes, aumentando, ao invés de diminuir os conflitos (vide o Brasil atual).

"Talvez você não acredite, mas sim..." Dessa parte em diante você fugiu completamente dos tópicos discutidos, e assumiu que eu tenho pontos de vista que não estão de maneira alguma implicados nas minhas afirmações. Ainda assim, esclareço que não acredito que ninguém precise se reproduzir para ser feliz (alguns inclusive precisam não se reproduzir, pois tem objetivos de vida que não envolvem a criação de filhos). Não me oponho à educação sexual, à distribuição de anticoncepcionais, e nem à legalização do aborto (antes que você faça mais essa suposição).

Anônimo disse...

16:04, A "limitação à inquirição científica desse mundo" é exatamente aquela assinalada no artigo: somente permitir que se faça ciência se a coletividade (sabe-se lá como) julgar que o estudo será futuramente benéfico. O problema aqui não reside no fato dessa prognose ser feita pela coletividade. Reside na prognose em si. Simplesmente não é possível, em boa parte dos casos, antever as futuras aplicações e o impacto social de um estudo científico. Às vezes, algo desenvolvido para fins militares pode depois se converter em instrumento indispensável para o cotidiano e bem estar das pessoas. Exemplo disso é o próprio computador, do qual a sociedade imaginária que você está a defender com unhas e dentes é totalmente dependente. Em outros casos, teorias científicas aparentemente inofensivas podem ter consequências terríveis, como é o caso do Darwinismo, que inspirou as diversas modalidades de Eugenia, cujas consequências são conhecidas de todos.

Portanto, meu argumento apenas indicou as limitações das capacidades estimativas, seja de um indivíduo, seja de um grupo, para saber de antemão as consequências práticas dos estudos científico. Não temos controle sobre todas as variáveis envolvidas na relação das pessoas com as novas descobertas, e além disso as novidades adicionam possibilidades que não estavam inseridas no nosso espectro de previsibilidade.

Assim, eu diria que jamais viveremos num mundo onde um bando de andrógenos lactantes se reúne periodicamente e determina com alto grau de sucesso quais as pesquisas científicas que serão ou não benéficas à coletividade. Posso, é claro, estar enganado, mas seus argumentos certamente não indicam isso.

titia disse...

Sabe, colega, eu até responderia o seu comentário, mas acabei de perceber por todas as suas reclamações você simplesmente não consegue ver um mundo sem machismo, preconceito e violência como algo bom, por mais que abolir essas duas coisas possa ter sido decisão geral. Seu mundo perfeito é um mundo de merda como o que temos agora. Fique à vontade pra continuar apavorado com a perspectiva de um mundo melhor, então. Sei que tem gente que precisa se alimentar da desgraça alheia.

Percebi também que você está muito tranquilo com o mundo distópico. O que significa que você é o tipo de pessoa com quem não vale à pena nem mesmo cruzar na esquina.

Anônimo disse...

10:14 - E você, fique à vontade para acreditar que sou o anticristo apenas porque demonstro algum ceticismo diante de soluções simplistas e até meio bobinhas.

Mineiro Foca disse...

André! VC é um gênio!