sábado, 22 de fevereiro de 2014

GUEST POST: O BLOG ME AJUDOU A SUPERAR O VÍCIO EM COCAÍNA

O V. me enviou este relato.

Hey Lola, meu nome é V., tenho 20 anos, e estou pra te escrever esse email há uns quatro meses, mas faltou tempo e coragem, um pouquinho dos dois. 
Enfim, minha história com seu blog é um pouco diferente das outras que chegam até você. Bem, conheci seu blog há três anos, quando estava no cursinho e um amigo sociólogo me indicou, e foi em você que eu descobri as razões que me incomodavam sobre a sociedade mas que eu não sabia como explicar. 
Na época eu tinha 17 anos, tive uma formação até então liberal, mas ver você falando dos "humoristas" me afetou -- eu finalmente tinha encontrado uma opinião como a minha, um argumento para debater com os reaças. Esse é meu primeiro agradecimento, muito obrigado! 
Mas Lola, nem tudo são flores na vida. Eu, quando criança, fui abusado durante cinco anos por um primo quatro anos mais velho do que eu, e bem, nunca contei isso a ninguém. Na verdade eu sempre pensei que, se eu não reagia, era porque de certa forma eu gostava. Sabemos que não é a verdade, mas essa questão foi resolvida com esquecimento. Eu deixei essa memória no limbo da minha mente, e não sei até que ponto isso me afetou. 
É agora que começa a minha história mais profunda com suas palavras, que às vezes nos abraçam como ninguém poderia fazer, esse é o seu dom. Mas o que aconteceu foi que com 17 anos eu montei uma banda com um amigo de colégio e conheci a cocaína. Quando se tem 17 anos, o peso da sociedade nos ombros, a necessidade de acabar o colégio e começar uma faculdade é enorme, e a cocaína foi meu escape perfeito, eu usava e me sentia melhor, mais leve, sem nenhum problema. Com a cocaína eu tinha a ilusão de ser uma pessoa mais forte, a cocaína era meu amuleto da sorte. 
Além da cocaína eu comecei um relacionamento autodestrutivo com esse meu amigo de banda. Eu sempre me senti bissexual, e isso sempre foi um problema, afinal -- dizem -- não é possível gostar de homens e mulheres na mesma medida. Eu posso afirmar com todo o meu coração que é possível sim! Aliás, os bissexuais sofrem preconceito das próprias minorias muitas vezes, mas esse é outro assunto. 
A verdade é que com 18 anos eu estava completamente viciado em drogas e num relacionamento homossexual muito destrutivo para nós dois. Foi quando, por um descuido meu, minha mãe pegou meu celular e descobriu mensagens minhas pedindo drogas a esse companheiro. Foi aí que minha vida desmoronou. Como você deve imaginar, não é fácil para uma mãe descobrir que seu filho é um viciado, e para minha surpresa, minha mãe, sempre tão liberal, ficou muito mais revoltada por eu estar envolvido com um homem do que por eu estar usando cocaína! 
Sim Lola, eu gastava 2 mil reais por mês com cocaína, mas minha mãe desmoronou quando descobriu que eu estava com outro cara. Isso foi muito forte pra mim, pra todo mundo, e minha família perfeita e invejada por todos havia desmoronado, e justamente com drogas e um filho gay. Eu me expliquei como bissexual, mas não adiantou, então eu fiz o pior: eu menti, eu disse pra minha mãe que eu não era nem mesmo bi, que por culpa da droga eu havia feito coisas que não queria, que aquele não era eu. 
Bem Lola, minha mãe engoliu, quis se enganar, ou seja lá o que for. Eu de fato terminei meu relacionamento com o rapaz, porque não podia mais continuar com aquilo, não pelo relacionamento, mas pelas drogas, e agora eu tinha o pior pela frente: me livrar do vício. Meu pai me perguntou se seria necessária uma internação, eu disse que não. Mas Lola, eu trabalho num espaço de livre circulação de drogas e, pra ajudar, eu estava num horário na madrugada, onde não havia ninguém. Nada me impediria de me drogar. 
Mas eu não podia, não mesmo. Foi então que eu descobri as suas resenhas de filmes, e aquilo me ajudou mais do que qualquer tratamento jamais ajudaria. Eu passava horas na madrugada lendo suas críticas, muitas vezes chorando, tremendo, sofrendo sozinho com uma abstinência terrível. Era nessa hora, quando a falta da cocaína literalmente doía, que você me abraçava com as suas palavras. 
Eu lia suas críticas e pelos cinco minutos que eu lia, a dor passava, a vontade passava, então quando voltava, eu lia mais e mais críticas. Foi assim por dois meses, eu li todas as suas críticas, eu sorteava a letra e lia todas, e após dois meses já não doía mais, já não me fazia querer morrer por não cheirar. 
Sem remédios, sem psicólogos, só eu, um computador no trabalho e suas críticas. E eu nunca mesmo vou poder mensurar em palavras o quanto eu sou grato a você por isso, nunca mesmo. 
A vida não é um conto de fadas, Lola, então minha família continua fingindo que não sabe que sou bissexual, esqueceu o passado, e prefere acreditar que eu namoro uma menina, que na verdade é só uma grande amiga. Eu sinceramente não os culpo e penso que se pra eles é melhor assim, que seja, eu vivo hoje muito bem sem nenhuma droga, sem nenhum relacionamento destrutivo, seja ele hétero ou homo, e sem banda, haha, e vivo com a certeza de que eu sei quem sou e do que gosto, e eu gosto de meninos e meninas da mesma maneira. Olho pra uma mulher bonita quando passa, e olho pra um cara bonito quando passa, simples assim. 
Estou começando a pensar em fazer terapia pra resolver algumas questões, mas definitivamente na pior fase da minha vida, a única pessoa que eu pude contar foi alguém que eu nem conhecia, e que nunca me viu na vida. Foi você, Lola, e como eu disse, nunca vou poder te agradecer por isso. Continue fazendo o que você faz, porque você faz a vida de milhares de pessoas melhor, tenha sempre certeza disso, obrigado.
Um abração, Lolinha, e um muito obrigado do tamanho do seu amor por chocolate!

Meu comentário: Muito obrigada por todo o carinho, V.! Devo dizer em minha defesa que já me acusaram de muita coisa na vida, mas nunca de curar alguém do vício das drogas! Fico feliz que minhas inocentes crônicas de cinema tenham te ajudado. Agora é vida pra frente, querido! Tudo de bom pra você, e muito agradecida pelo suprimento vitalício de chocolate (que cada um tem o seu vício). 
E ó, já que minhas crônicas fazem milagres, acho que vocês bem que podiam comprar os últimos exemplares do meu livrinho.

15 comentários:

Musicista Feminista disse...

O blog da Lola ajuda em muitas coisas. Acho que mais pessoas deveriam criar blogs e contar suas experiências, pois muitas pessoas quando acham que está perdidas, se identificam com elas. No meu caso eu comecei a enxergar que, ao contrários dos meus pais, muito do que acontecia na minha casa não era culpa minha. Meu pai é vítima de um sistema que permite que ele seja estúpido e nos agrida de todos os modos, e faz com que minha mãe tenha que aceitar de defender ele.

Anônimo disse...

Que bom que você está se sentindo bem, V.
Você diz que para superar uma fase ruim não precisou de psicologxs ou medicxs. Eu sou psicologa e acho que uma das grandes lutas da psi atual é sim acabar com os discursos medico-centrados e medicalizantes e ampliar as formas de fazer saúde - saúde é importante demais para ser assunto só de profissionais 'da saúde'. Seu relato é um exemplo disso. Embora eu pense que não se pode contar com a sorte das pessoas encontrarem um blog que as acolha e as auxilie para além do prescrito, isso pq não é democrático e deixa as pessoas entregues a própria sorte. No Brasil temos a saúde mental como área de atendimento à drogadição - não é assim em outros países -, mas precisamos democratizar a saúde e entender os processos de saúde se dão de formas mil e não só com psicólogxs, como diz o V. (posso ter o número de empregos para minha área reduzido, mas é o compromisso ético que assumi com minha profissão). Eicram

Anônimo disse...

Fico muito feliz por você, V. Olha, concordo totalmente com você quanto à bissexualidade, inclusive com o que você diz sobre ser discriminado inclusive pelas minorias. Talvez discriminação seja um pouco forte, muitas pessoas têm dificuldade em entender, pensam que você é uma pessoa que não consegue se decidir, para outros é meio depravado. Eu acho que amor é amor.

Sara disse...

Eu acho q existem diversas coisas destrutivas q nos viciam, até mesmo sentimentos, mas drogas é sem duvidas um dos piores, espero q vc saia dessa, pq não é nada fácil.
Lamento pela atitude de seus pais em relação as suas escolhas sexuais, espero q com o tempo vc consiga o respeito deles até mesmo nessa área.

Anônimo disse...

Olá V... eu te entendo. A cocaína me deu suporte no pior momento da minha vida - me deixava leve, cuidou da minha autoestima que um ex "bonzinho" tinha jogado no chão, fez com que eu me reerguesse de uma depressão sem fim. Mas ao final eu trabalhava pra cheirar, vivia pra cheirar. Foram blogs como o da Lola que me ajudaram a me afastar do padê nos momentos de abstinência, porque eu não podia contar com mais ninguém.

Felipe disse...

Esse texto demonstra bem a estupidez da maioria da população deste país: as pessoas se preocupam mais com a sexualidade do que com a dependência química. Quanta ignorância!

Renata disse...

Chorei demais lendo esse post! V., você é muito forte e dedicado! Sei que não preciso desejar força porque isso você já tem, então desejo um pouquinho de sorte pra resolver os problemas com seus pais =]

Ana Eufrázio disse...

Acho que uma das características principais das pessoas que sofreram algum tipo de violência sexual é o comportamento autodestrutivo. Experimentei esse comportamento por quase 10 anos. Só me envolvia em relacionamentos destrutivos, me arriscava bastante em diversas situações e abusava da bebida. Entretanto, superei tudo isso sozinha também. Hoje me considero uma pessoa bastante equilibrada, mas já cheguei ao fundo do poço. Que bom que você também conseguiu se livrar do relacionamento destrutivo e da cocaína V. Parabéns Lola pela garra e palavras tão motivadoras. Abraços!

Anônimo disse...

Eu também já encontrei muito consolo lendo o blog da Lola. No meio do ano passado tive que ficar dois meses internado no hospital e, na falta do que fazer, li quase o blog todo.rs
Mudou minha cabeça e "conheci" uma pessoa incrível.
Obrigado Lola!

MrDissidiaFan disse...

Parabéns, V. E parabéns pra você também, Lola, por ter ajudado alguém sem nem saber.

Anônimo disse...

É chocante saber que há pais que se ficam mais horrorizados com a bissexualidade do filho do que o consumo de drogas.

Pior que na minha família tem gente que pensa exatamente a mesma coisa - "prefiro um filhx afundado no vício do que não-heterosexual".

É de chorar, viu?!


Jane Doe

NT disse...

V concordo em tudo. Sou usuária de drogas, mas não ilícitas são drogas farmacêuticas e os posts da Lola o comentário das pessoas tem me ajudado. Sou portadora da Sindrome de Fotheguirll ,ou Neuralgia do Trigemio. É a maior dor que o ser humano suporta sem desmaiar. Fico dias em casa, no quarto, sem poder falar, sorrir, comer e fico lendo aqui e escrevendo. Além de ser uma dor crônica afeta mais mulheres. Já tomei quase tudo da classe dos tarja preta, verde ou vermelha e nada resolve. Sem dormir direito fico a madrugada aqui e me tornei alguém que não sou obrigada a falar já que tudo é escrito. A sensação que a Neuralgia do Trigemio causa é a de ter uma máscara de ferro esmagando a face em choques. E é aqui que ocupo minha mente. Me viciei em morfina, também larguei tava me matando. Estou viva, virtualmente mas de certa forma cercada de gente e com a Lola a me manter informada e informante.

Anônimo disse...

Olá pessoal, sou o V. do guest post.Eu tinha q agradecer os comentários de vocês,é muito bom saber que a internet tem um espaço como esse, com pessoas bem intencionadas e que sempre tem uma palavra amiga para alguém desconhecido. Obrigado mesmo! E NT., eu imagino o quanto sua situação é terrível, mas eu tenho certeza que você é uma pessoa muito forte, poxa você está aqui conosco, mesmo que virtualmente vc está viva, te desejo o melhor, com certeza vc é alguém muito especial. Obrigado de novo Lola, e obrigado a cada um de vcs.

Cris Ramos disse...

Eu chorei, só isso que tenho a dizer. Lola tb mudou minha vida, não desse jeito, mas foi lendo seu blog que comecei o meu processo de ser menos imbecil, bitolada, consumista e machista. Mesmo não concordando com tudo que ela diz, foi a primeira vez que comecei a questionar e isso, não tem preço.

BJS LOLA!!!

Anônimo disse...

NT, se a neuralgia do trigêmio está relacionada mesmo à esclerose múltipla como acabo de ler, você poderia se inteirar do protocolo da vitamina D usado pelo neurologista Dr. Cícero Galli Coimbra que está fazendo milagres.

http://www.istoe.com.br/reportagens/paginar/226714_A+PODEROSA+VITAMINA+D/10