terça-feira, 26 de novembro de 2013

GUEST POST: MODA, CORPO E CONTROLE

Patty Kirsche está quase terminando seu mestrado em Estudos Culturais na USP. 
Ela, que tem um blog, já escreveu alguns ótimos guest posts pra cá, como este sobre vampiras e sexualidade, e este, sobre a Marcha das Vadias de Guarulhos. Agora ela me enviou algumas observações sobre moda, um tema bem pouco discutido aqui no blog.

Quando a Lola pediu que eu escrevesse um guest post sobre moda, passei um bom tempo pensando em qual recorte eu daria, já que é um assunto tão amplo. Como se trata de um blog feminista, decidi abordar duas questões bastante relevantes para as mulheres: o tratamento que a carreira recebe por ser vista como feminina e o quanto os padrões da moda influenciam na construção dos corpos.
Moda, uma carreira feminina?
Quando prestei o vestibular para o Bacharelado em Têxtil e Moda na USP, as matérias da segunda fase eram Português, História e Física. O curso em si é bastante abrangente. As disciplinas são basicamente divididas entre quatro áreas: gestão, tecnologia, criação e cultura. 
O termo moda não se refere simplesmente a indumentária, mas a costumes que se tornam frequentes. É como a ideia de moda em matemática. Do mesmo jeito que a forma como conduzimos a aparência do corpo é influenciada pelos costumes das sociedades em que vivemos, outras questões também são. Os lugares que frequentamos, o que fazemos para lazer, os produtos culturais que consumimos, as gírias que usamos, tudo é influenciado pela moda. 
No momento estou fazendo mestrado, e minha pesquisa não é centrada em moda; o estudo dos figurinos acabou se tornando um instrumento de análise. 
Mas eu sou apaixonada pelo tema e refuto veementemente as tentativas de tratar moda como algo fútil. Em todas as culturas os corpos usam adornos; comunicar uma mensagem através da aparência parece ser uma necessidade humana. Mesmo assim, os estudos da moda são tratados como de menor valor. Por quê?  
Minha turma tinha sessenta vagas, com algumas poucas ociosas devido a desistências. Apenas quatro delas foram ocupadas por homens, sendo que três deles eram homossexuais assumidos. Exato, havia apenas um homem heterossexual na sala. 
Percebo que essa predominância de mulheres e homens gays na carreira contribui na formação de preconceitos contra o curso. Chamar um homem de gay ou de mulher é uma forma de ofendê-lo. Vejo pessoas chamando o time de futebol SPFC (São Paulo) de SPFW, numa alusão à semana de moda de São Paulo. E a intenção é que isso seja ofensivo, por incrível que pareça. Existe uma tendência ideológica a se depreciar tudo que é entendido como feminino. E, nesse caso, acredito que também exista uma alusão à ideia de que um homem gay é visto como "afeminado".   
Algumas amigas minhas foram ridicularizadas ao assumirem cargos públicos. Uma delas foi nomeada para um cargo no zoológico e ouviu o comentário: "Você vai desenhar roupa para os macaquinhos?". 
Eu não cheguei a ter minha formação ridicularizada, mas topei com um violento desdém ao mencionar para um colega de trabalho que havia feito prova de Física na segunda fase: "Pra que você ia precisar de Física?". Ora, as máquinas da indústria têxtil seguem leis diferentes só porque há mais mulheres cursando minha graduação? Sabe, isso me lembra uma propaganda ridícula da Faculdade de Engenharia Industrial, na qual alguém aparecia desdenhando cursos que costumam atrair mulheres: "se você escolhe faculdade pelo número de meninas por metro quadrado, vá fazer Psicologia, Moda, Decoração etc". 
Corpo
O corpo é uma questão muito importante na moda. Fala-se muito na questão da magreza das modelos, o que certamente é um problema. O manequim padrão para provas de roupas é 38, às vezes até 36. Só que as modelos "têm" que ter mais de 1,65 m de altura, e para desfilar, precisam ser mais altas ainda. Mulheres altas precisam estar muito magras para se enquadrar no manequim 38. 
Fora isso, aqui no Brasil temos a falta de um método oficial antropométrico, o que leva marcas diferentes a terem cada uma seus próprios tamanhos. Então pode ser que numa loja o M sirva, mas em outra seja o G. Ou pode ser o 38 numa marca, mas o 40 em outra. Existem inclusive marcas cujo 44 é pequeno de maneira intencional, porque as pessoas cujo manequim é 44 não são o "público alvo" da marca. 
É impossível não notar o quanto toda essa preferência por mulheres magras pode acarretar transtornos alimentares como anorexia e bulimia. Mas o que é inegável é o quanto existe uma tendência a se exigir uma contenção do apetite feminino, tanto no sentido literal quanto no figurado. Ora, mulheres devem evitar sexo para serem aceitas socialmente, mas mulheres também devem evitar comer para que se mantenham magras. É como se o prazer não fosse direito das mulheres. 
Eu entendo que a indústria da moda tem um papel importante no que se refere à corporeidade. Uma roupa pode aceitar ou recusar um corpo, moldá-lo ou ser moldada por ele. A moda por si só já condiciona costumes e constrói mentalidades. Mas, por outro lado, o público já está condicionado a modelos de corpo pré-estabelecidos. Então topamos com uma questão Tostines, pois a cultura também forma a moda.   

50 comentários:

Fernanda disse...

Gostei do tema mas achei a estrutura do texto confusa... parece até que ficou faltando uma parte!

Marinês disse...

Concordo com a Fernanda...

Fábio Henrique disse...

Chega de mutilar o corpo do homem, em nossa sociedade mamocêntrica são forçados através de uma violência psicologica e cultural a cortarem suas unhas ao máximo,de modo a obter mais eficiência em seus trabalho,para assim sustentar suas opressoras.
PELA LIBERDADE DE ESCOLHA DO HOMEM JÁ.
Unha e natural, não podemos barrar a natureza, isto nadam ais é do que a recusa dos nossos próprios corpos criada pela cultura femista.
o cortador de unha e uma violência simbolica que os homens sofrem na sociedade.

lola aronovich disse...

Ô Fábio do Mingau, vc é muito ruim nesses lances de sarcasmo aí.

Fábio Henrique disse...

e vc e boa em tudo que faz professora ♥ ♥ ♥ ♥
saudades...

André disse...

Pelo menos essa opressão não é nossa culpa.

@ritahelenafer disse...

Como admiradora do blog, dei o click ávida pela leitura do texto, com tema tão interessante... Mas, acho que o foco se perdeu e a discussão acabou não sendo aprofundada. Acontece! =D

Leila disse...

Pois é, eu achei uma excelente...introdução. Achei que falta desenvolver o que significa a moda na nossa época. O que o apelo ao consumismo, não apenas ao engessamento do corpo, gera nas pessoas, nas mulheres. Não acho que a moda de hoje possa ser comparada a de séculos passados ou a de outras culturas, onde ornar o corpo trazia significados diferentes. Sou leiga no assunto, porém penso que a moda hoje, traz sobretudo uma imensa frustração. Não só em relação ao "corpo perfeito", um ideal impossível, mas também como signo de status social e poder. Estar "bem vestida" é inacessível à maior parte da população. A moda representa também um processo de tornar as coisas, que antes tinham significado em si, em objetos descartáveis. Por exemplo, na casa da minha avó, durante pelo menos uns 30 anos, a decoração da sala foi quase invariável, com mudanças apenas superficiais, peças pequenas eram incorporadas, etc. O que a gente vê hoje é uma mudança constante, que nos dá a impressão de que o que temos não serve mais, é ruim, é cafona, apenas porque está mais na moda, que na decoração muda a cada 3 ou 4 anos (mais? menos? não acompanho muito, mas é a impressão que tenho) Essa nossa moda me parece absurdamente voraz e perversa. Deveríamos estar preocupados com o planeta, com nossos semelhantes, com conforto sim, mas por que essa sede louca de consumo, de descartar o que ainda está bom?
Bem,não quero ser chata, mas essas me parecem as questões mais relevantes quando se fala em moda.

lola aronovich disse...

Claro, gente, é apenas uma introdução a alguns temas tão vastos e complexos! Acho que a Patty só quis pontuar alguns temas, todos relevantes, a meu ver. Desenvolvam aqui na caixa de comentários!


Tem gente me pedindo pra escrever sobre o Lulu. Gente, eu não tenho celular, não estou no Facebook, não tenho aplicativo nenhum, nem sei como funcionam esses aplicativos (é isso?), ou seja, certamente não sou a pessoa indicada pra escrever sobre o assunto. Mas ACEITO GUEST POSTS. Estou acompanhando a discussão muito por cima, os homens reclamando por estarem sendo avaliados, os mascus abrindo perfis falsos com nomes de mulher (o que eles fazem sempre!) pra que ALGUÉM os elogie (eles mesmos! Só assim, né?).
Mas estou completamente sem tempo. Este final de semestre está terrível. Só pra vcs terem uma ideia: hoje, além de 3 aulas, ainda preciso escrever um projeto de pesquisa (se eu não o apresentar até amanhã, só será avaliado pelo meu departamento em fevereiro). Até amanhã, também preciso entregar um projeto de extensão. Amanhã tenho uma banca (online) de manhã e uma palestra à noite, na UFC -- que ainda não preparei. Não tenho post pra amanhã.
E isso que estou falando apenas de hoje e amanhã!
Estou perdida!

Anônimo disse...

Os homens já tem o seu LULU há séculos, só vcs não se tocaram. Se chama "mesa de bar"! rsrsrsrs

Anônimo disse...

concordo contigo Leila.
Só lembrando que o próprio mercado faz materiais para não durar. Antigamente uma geladeira durava uns vinte anos ou até mais, hoje não chega aos 10, 12 anos e se dê por satisfeita.

Anônimo disse...

moda é futilidade sim,já que muita gente acha que se vc n está vestido com as roupas da moda do momento(pq muda direto),vc é mal vestido,brega.
e para roupa ser considerada boa e bonita tem q ser de estilista famoso,o resto é lixo,mal feito.

esses estilistas se consideram gênios mas só fazem roupa para mulheres esqueléticas,não conseguem ou não querem fazer roupas que fiquem bem em diferentes corpos.

e quanto a amiga dela,eu n vi onde teve preconceito,também estranhei ela estudar moda e ir parar num zoologico,nada a ver o curso com o emprego dela.

Dandara Lequi disse...

Gostei do tema, apesar de ter pouco conhecimento sobre ele.

"Os lugares que frequentamos, o que fazemos para lazer, os produtos culturais que consumimos, as gírias que usamos, tudo é influenciado pela moda"
Gostaria muito de ler mais posts sobre isso!

Fernanda disse...

Lola! Sai da internet JA! rsss...

Não tem como delegar tanto serviço? Que coisa. A area acadêmica está cada vez menos apetitosa pra mim.

Olha, Lolinha, até como introdução de topicos achei confuso. Me parece que faltou alinhavar as coisas, as ideias...

Ah, enfim, em todo caso, eu acho dificil comparar a moda em sua estrutura atual com, por exemplo, os ornamentos, vestimentas e indumentarias de tribos e outras civilzações nativas. O simbolo primario, de traduzir-se em peças de roupas ou adornos, se perdeu para a grande maioria. (Além de que, em alguns casos, o objeto --adorno ou peça de roupa -- era também considerado um objeto de poder (sagrado), e ai entramos em um outro universo bem diferente do que vemos hoje).

Alias, é assim com tudo o que foi apropriado pela industria. Eu sou formada em Artes Cênicas, e esta é também uma arte que sabemos existir mesmo entre as primeiras civilizações, e o carater ritualistico era inerente, inseparavel. Quando foi apropriado pela industria do entretenimento, virou uma outra coisa. Raras são as manifestações de artes cênicas que se mantém fiéis a este principio, a este sentido de sacralizar a representação.

A moda me parece vitima do mesmo fenômeno. E mais grave, ja que ela é um determinante de valor em nossa sociedade. Reconhecemos a "estirpe" (nem acredito que escrevi essa palavra) da pessoa pelas roupas que ela usa.

Larissa disse...

Um aspecto interessante a ser discutido sobre moda é o código profissional estabelecido em escritórios. Quanto mais femininas ou preocupadas com estética, qualidade, tendências, mais as mulheres sofrem predisposição a ter seu profissionalismo questionado.

Aliás, preocupar-se com moda, no trabalho, é visto como futilidade e funciona contra a imagem tanto das mulheres quanto dos homens. Há um grau de desleixo esperado (exceto em relação às unhas masculinas -- hahahahahaha que hilário este ser) porque o capricho é associado ao feminino e o feminino, como bem notou a autora do texto, é ofensivo.

Um abraço,

Larissa

Patty Kirsche disse...

Eu não costumo responder esse tipo de comentário, mas...

Anônimo das 13:09: Então você também é fútil, ou você anda por aí nu(a)?

E quanto ao caso de minha amiga sendo empossada num cargo público... Bem, é evidente que ela cumpria os pré-requisitos de investidura no cargo, caso contrário nem teria sido convocada. A suposta brincadeira tinha como objetivo desqualificar a formação dela. Eu também já fui servidora pública por um tempo para ganhar dinheiro sabendo que não seguiria aquela carreira, mas era meu direito porque eu havia passado no concurso.

Kittsu disse...

Achei graça do comentário sobre vestir os macaquinhos... tadinhos deles, andando nus por aí =(

Patty Kirsche disse...

Fernanda:

É claro que as significações dos adornos mudam de cultura para cultura, como acontece com todos os costumes, aliás. Mas o que estou falando aqui é de um padrão em todas as culturas. A Káthia Castilho fala sobre isso em "Moda e Linguagem", inclusive. O corpo nunca aparece desnudo. Ainda que não sejam usadas roupas, são usadas pinturas ou marcas. O fato de que existe uma tendência humana para se utilizar a aparência como forma de expressão é o que torna a moda um assunto tão relevante e democrático. E quando a gente fala das mulheres-girafa na Tailândia, por exemplo, aquelas argolas nos pescoços delas representam uma moda naquela cultura. A questão é que nós temos uma ideia ocidentalizada do que é moda, e é preciso perceber o conceito de forma mais ampla.

Patty Kirsche disse...

Então gente, como a Lola já falou, eu teria que escrever um texto muito longo se eu fosse desenvolver tudo que mencionei. Eu quis pontuar algumas questões que podiam interessar ao público do blog de forma acessível pra quem não é da área. Pelos comentários, eu vou vendo qual é o tipo de curiosidade que vocês têm sobre o tema. Talvez eu até escreva outro texto depois. :)

Fernanda disse...

Ok, Patty, agora tô começando a entrar na onda do assunto. Ou seja: a moda existe desde que o ser humano existe, e é uma das suas inúmeras linguagens.

Legal, isso. Mas a nossa visão ocidental da moda é o reflexo da sua perda de sentido por aqui, não? Ou então, podemos considerar que ela nunca vai perder o sentido, apenas se transformar e ganhar novos sentidos. Bom, levando isso em conta, gostaria de fazer uma pergunta: o que a moda ocidental fala sobre nós mesmos e a nossa cultura?

Obrigada por responder, Patty.

Maria Fernanda Lamim disse...

"O prazer e um direito negado as mulheres". Isso e tao verdade que ate doi. Nos e negado o prazer do sexo, o prazer de comer...so temos "as dores do parto" e o tal "pra ser bonita e preciso sofrer". :(
E de fato, FabioMingau provou que mascus so sao engracados involuntariamente....

Anônimo disse...

Então você também é fútil, ou você anda por aí nu(a)?

eu não,fútil é quem diz entender de moda e ridiculariza quem não as segue.

tem aquele programa do sbt esquadrão da moda,mostra bem o que eu disse.
conhecidos do participante se acham muito bem vestidos ,indicam a pessoa que na opinião deles se veste muito mal para passar por transformação.

e os apresentadores que várias vezes estão com roupas horríveis criticam a roupa de todos e tudo pq eles "entendem de moda".

sheldon end disse...

Pelo menos essa opressão não é nossa culpa

kkkkkkkk que ingenuidade cara,para as feministas sempre a culpa é nossa,com certeza o fato de mulheres oprimirem outra dentro do mundo da moda é culpa do machismo(homens).
como tem bastante gays nesse mundo e eles também são homens a culpa é deles,claro!

da mulher nunca,já que são seres tão puros que nunca fazem nada de errado...

Ms.Minna disse...

Nao sei porque ouvi uma defesa das mulheres girafas, aquilo mais que "moda" e "vamos respeitar culturas distintas as nossas" é uma arma na mão do marido, se a mulher nao se "comportar" simplesmente se arrancam as argolas para que elas quebrem o pescoço e morram.

Podem querer tentar mitificar a moda de qq coisa, mas que é algo fútil, é. Acho que sim, temos que nos vestir corretamente, mas avaliar as pessoas pelo o que elas vestem ou deixam de vestir é fútil, sim.

Ninguém discrimina a pessoa bem arrumada como li por aí, discriminam e te olham de cima pra baixo se vc esta de cara lavada, sapato baixo. Mesmo que seja para comprar pão.

Também nao entendi o que a estudante de moda foi fazer no zoológico, alguém pode me explicar?

Patty Kirsche disse...

@Ms.Minna: "A estudante de moda", pra usar suas palavras, foi tomar posse dum cargo que era dela por direito devido a aprovação em concurso público. A vida é assim, sabe? Às vezes a gente passa em concursos públicos e pega empregos pra ganhar dinheiro. Você leu o texto antes de comentar?

Quanto à questão das mulheres-girafa, onde vc viu defesa? Eu só estou explicando que a moda reflete a cultura. A cultura por si só não é boa ou ruim, ela só existe. Isso é antropologia; nem todo mundo dorme deitado/a.

Patty Kirsche disse...

@Fernanda: Sim, isso mesmo. A moda é uma forma de linguagem. Todos os esforços que concentramos na aparência têm como objetivo veicular um discurso. Isso não se restringe às roupas e calçados que escolhemos. Cabelos, tatuagens, joias ou bijuterias, maquiagens, barbas, bigodes, unhas; tudo isso tem um significado.

Patty Kirsche disse...

Agora, só pra fechar o lance da "futilidade". Todo mundo aqui que se preocupa em cortar os cabelos, fazer a barba ou vestir uma camisa limpa para ir ao serviço se preocupa com moda, ponto final. Não vou mais me pronunciar sobre essa questão.

Ms.Minna disse...

pois é a moda... a mesma que faz ablações nas meninas da africa... cultura....

Leila disse...

Bom, sem ser da área, arrisco dizer que "costumes" não são o mesmo que "moda". As mulheres girafas, como as orientais que usavam aqueles sapatos que deformavam os pés, as muçulmanas que usam burka, nada disso pode ser considerado "moda". São formas de dominação e hábitos culturais que têm seus sentidos em cada cultura específica. Não posso falar especificamente de nenhum, pois como já disse, sou leiga. Porém me parece que só se pode falar de "moda" com o surgimento da sociedade de consumo. Antes disso, havia uma "moda" da aristocracia, que não chegava à população em geral por motivos óbvios. Pode-se observar ao longo da história as mudanças dessa "moda" aristocrática, mas não pode-se comparar essas mudanças com o que ocorre hoje, esse frenesi generalizado de mudança a cada ano. Lógico que isso tem a ver com o desenvolvimento da industria textil, com o desenvolvimento do comércio, do mercado e de uma sociedade com poder de consumo.
Então me parece que não se pode comparar o fenômeno "moda", como é vivido e não apenas entendido hoje, com costumes culturais seculares de outras sociedades.
Também discordo da idéia de que não há culturas boas ou ruins. Do contrário não lutaria para mudar a nossa, onde as mulheres são cotidianamente oprimidas, entre outras coisas, pela indústria da moda.

Patty Kirsche disse...

@Leila:
A questão de consumismo não é restrita somente à moda (no que se refere a aparência), né? A gente até pode pensar que atualmente exista uma moda de consumismo, mas isso se estende a vários objetos, como carros e eletrônicos.

A questão é que a moda é apenas um indicador cultural do que acontece nas sociedades. A humanidade muda, então a moda muda. Houve um tempo em que dizer "um barato" era dizer que algo era legal. Hoje em dia pode ser "aí sim". Como qualquer linguagem, a moda é dinâmica.

Sara disse...

Muito boas suas considerações a respeito de um tema que nunca me foi muito caro Patty.
Nunca havia atentado para o fato, mas realmente todas as culturas tem seus adornos específicos, tb concordo no que vc diz sobre que seja uma necessidade humana enfeitar-se, muito raramente buscamos o oposto disso, ainda que os gostos sejam muito discutíveis.

Leila disse...

Patty, eu tendo a pensar o contrário: a moda é um fenômeno da sociedade de consumo, e só dela. Em outros contextos culturais ela não é possível. O carro, os eletrônicos, a decoração,a música, etc, todas as manifestações culturais da nossa sociedade foram absorvidas pela economia do consumo e, desta forma, se expressam como "moda". E "estar na moda"
é indicador de status, poder, beleza, juventude, os valores da sociedade do "ter" e não do "ser" com o perdão do lugar comum. :)

Erres Errantes disse...

Achei interessante a parte do texto que se refere aos tamanhos das roupas.

Eu nem sou gorda, mas tenho uma dificuldade enorme para comprar roupas. Motivo: eu só acho roupas curtas demais ou tapadas demais. Parece que a indústria da moda quer que a gente só ande ou com a barriga de fora, ou como uma crente das mais radicais.

Eva disse...

O lance é que a moda é um meio de comunicação e expressão, assim como a linguagem - que por si só não é boa e nem ruim, só reflete o que existe. Para além da definição, precisamos nos debruçar sobre o tipo de coisa que essas linguagens andam falando.
Brigada pela introdução Patty, me ajudou a organizar umas ideias na minha área (Letras)^^

Anônimo disse...

QUe engraçado,hoje memso quebrei o pau com meu namorado porque ele não para de me enfernizar pedindo para que eu use salto alto, maquoagem sempre, etc..

Acho que mdoa é sim importante, pois reflete um pouco da nossa personalidade. Ou não? Claro que quando usamos tal ou tal roupa enviamos uma mensagem para o mundo, e não adianta negar, falar que não deveria ser assim. A mdoa reflete valores da nossa sociedade, fala um pouco sobre a gente.

E acho feio falar que moda é futil, porque passa a ideia que moda é feminino, logo, é futil. Sempre denegrindo o feminino, não tem jeito.

Lilith

Fabs disse...

Para aqueles que tem duvidas sobre a questão da moda em outras sociedades, acredito que além de um enfoque antropológico, seja preciso um enfoque sobre a questão da distinção. Primeiro, que como a Patti afirma, a moda é de modo forma mais geral um indicador social, uma manifestação cultural em todas as sociedade e a isso se liga a questão do costume mesmo.
Mais que indicador cultural das sociedades, principalmente em nossa sociedade, vejo a moda também como uma lógica social; e aí entra a questão da distinção e da efemeridade que sempre permearam grande parte das sociedades. Acontece que antes do surgimento do pret-a-porter, a moda pronta para usar, mais acessível a maioria das pessoas, era um instruento de distinção das classes privilegiadas. Com o acesso geral aos itens de moda, e mais, com a emergencia de uma sociedade voltada ao consumo e a participação das mulheres do mercado de trabalho, as estrategias de distinção vão se alargando e a moda cada vez mais se torna uma lógica de distinção pautada pela efemeridade e pela renovação imperativa.

donadio disse...

"O lance é que a moda é um meio de comunicação e expressão, assim como a linguagem - que por si só não é boa e nem ruim, só reflete o que existe. Para além da definição, precisamos nos debruçar sobre o tipo de coisa que essas linguagens andam falando.
"

Bom...

Na linguagem propriamente dita, nós encontramos todos os discursos, desde Olavo de Carvalho até Marx, e desde Fernando Pessoa até Sidney Sheldon.

... mas nós encontramos todos os discursos na moda? Onde estão os discursos críticos? Onde estão os meta-discursos?

Se a moda é uma "linguagem", então é uma linguagem que é território privilegiado do não-pensado. A questão então é: isso pertence estruturalmente à moda, ou é um epifenômeno?

donadio disse...

"E acho feio falar que moda é futil, porque passa a ideia que moda é feminino, logo, é futil. Sempre denegrindo o feminino, não tem jeito."

E onde está escrito que "moda é feminino"?

Pelo contrário, me parece uma peça essencial do patriarcado.

donadio disse...

Tive que achar graça na coincidência do encadeamento das comentaristas das 00:12 e 06:46...

Primeiro Eva e depois Lilith.

André disse...

Cortar os cabelos, fazer a barba ou vestir uma camisa limpa não é preocupação com moda, mas com higiene. Cortar os cabelos igual o cara da Globo, fazer a barba igual ao do jogador de futebol ou vestir uma camisa limpa e estilosa é preocupação com a moda. E se é uma preocupação fútil ou não, depende muito mais do tempo gasto com tais atividades.

Anônimo disse...

Eu tenho tendência para engordar e apesar de não ser gorda eu nunca precisei parar de comer na minha vida. Como tudo o que eu quero e que eu preciso e como eu falei mesmo tendo tendencia para engordar e não sou gorda me alimentando muito bem e fazendo caminhada. Não sou a única neste mundo assim, não sou uma 'aberração' nem nada. Não é impossível para uma pessoa mesmo tendo tendencia para engordar se alimentar muito bem e mesmo assim estar longe do sobre-peso. Eu adoro comer, mas excessos nunca me fizeram bem. Por favor, não diga que é preciso 'parar de comer' para não ter sobre-peso que isso não é verdade, é uma afirmação e generalização leviana, irresponsável e mentirosa. Uma afirmação erronea que alimenta um prato cheio para cada vez mais haver preconceitos, julgamentos e agressões intermináveis contra mulheres não-gordas em blogs como esse. Quanto a desenhar roupas para macaquinhos prisioneiros de zoológicos, antes para eles do que para seres humanos arrogantes, preconceituosos e ignorantes.

donadio disse...

Tem gente muito impressionada com o fato de que uma pessoa formada em moda trabalhe num zoológico. Uma coisa não tem nada que ver com a outra; o serviço público está cheio de cargos que exigem curso superior - qualquer curso superior. Uma pessoa formada em moda que trabalha em um zoológico não está lá para desenhar modelitos para macaquinhos, mas, com toda probabilidade, para desempenhar tarefas burocrático-administrativas. Da mesma forma que uma pessoa formada em arquitetura que exerce o cargo de fiscal do trabalho não está lá para ver se os tapetes da empresa combinam com as paredes, mas para verificar as relações de trabalho e multar os maus patrões.

lispecting disse...

A Hollister é um exemplo de marca que não produz grandes confecções para que ''gordinhos'' não vistam suas roupas. Lamentável.

Lola, quero ver uma palestra sua em Curitiba!

Anônimo disse...

Dionadio, ninguém falou aqui que moda é feminino,mas de um modo geral, é visto como assunto feminino por excelencia, ou você vai falar que não?

Lilith
- realmente ficou engraçado primeiro a Eva e depois eu! - :-)

Crisx disse...

"Pelo menos essa opressão não é nossa culpa"

Concordo muito com esse comentário feito lá em cima. E como o texto só dá uma introdução no assunto (uma boa e esclarecedora introdução, mas ainda assim não mais que isso), não se chega a essa reflexão: o que fazer quando existe machismo, ou algo derivado dele, num ambiente dominado por mulheres e homens gays?

Onde estão as feministas radicais agora pra tentar explicar a qualquer custo que mesmo assim a culpa aqui é masculina?

Anônimo disse...

Também concordo, Crisx. Feminista (eu sou, mas discordo delas nesse ponto), adora falar que não existe mulher machista, mas CLARO que tem mulher muito, MUITO MUITISSIMO machista. E nesse ponto vc tem rzão. Se é dominado por mulheres, qual é a desculpa dessa vez, que não tem mulher machista?

donadio disse...

"Dionadio, ninguém falou aqui que moda é feminino,mas de um modo geral, é visto como assunto feminino por excelencia, ou você vai falar que não?"

Acho que não é não... pelo menos, não para quem olha direito.

Olha só o que a autora do post escreveu:

"Minha turma tinha sessenta vagas, com algumas poucas ociosas devido a desistências. Apenas quatro delas foram ocupadas por homens, sendo que três deles eram homossexuais assumidos. Exato, havia apenas um homem heterossexual na sala.

Agora compara com os nomes dos estilitas que desfilam nas passarelas: quantos são mulheres?

Como a grande maioria das atividades, a moda é "feminina" na base, e beeeeeem "masculina" no topo.

Anônimo disse...

Exatamente. A moda é feita por homens, os grandes estilistas são homens.
Então, a "expressão" que a moda representa não parece ser exatamente a de quem usa, mas sim a de quem faz.

donadio disse...

"Então, a "expressão" que a moda representa não parece ser exatamente a de quem usa, mas sim a de quem faz."

Sim, essa é uma excelente pergunta. Se a moda é uma linguagem, quem é o falante? O usuário da roupa? O estilista? O fabricante?

Outra coisa, e perigosa: se a moda é uma linguagem, então é possível dizer "estou a fim de dar pra todo mundo" em modês? Ou "sai pra lá que eu sou uma mulher séria"? Vamos pensar nas implicações disso?

Anônimo disse...

o curso de textil e moda da usp é um lixo '-' eu passei e fui uma dessas que não são poucas que abandonaram o curso lol