sábado, 14 de setembro de 2013

GUEST POST: LUCAS É GAY

Rapha é professora por profissão (e vocação) e blogueira por hobby. Tem um blog desde 2007, o Fala Rapha. E me enviou este excelente guest post.

Quando as pessoas me perguntam por que virei professora não escondo que foi “sem querer”. Simplesmente aconteceu. Não fiz faculdade de Letras ou Pedagogia e nem de longe tenho o perfil da típica professora Helena, doce e que ama criancinhas.
Comecei a ensinar pela necessidade. Tinha 19 anos e precisava de dinheiro para poder visitar minha namorada em São Paulo. Como sempre fui boa em inglês e havia recentemente voltado de um intercâmbio, me candidatei com sucesso a uma vaga de professora.
O que começou como um “bico” para pagar viagens à SP, acabou virando profissão e amor. São mais de seis anos dentro de sala de aula e não me vejo fazendo outra coisa. Já vi alunos entrarem crianças e saírem já na faculdade.
Apesar de na minha carteira de trabalho constar que sou “instrutora de ensino”, me considero SIM uma professora e educadora. Estou sempre estudando, me reciclando e me melhorando como profissional, e sei em meu coração que sou boa no que faço.
Ultimamente tenho pensado muito no papel do educador na formação e na vida dos alunos, em particular na dos adolescentes, que são o grupo com que mais trabalho e tenho afinidade. Enquanto uns torcem o nariz diante do clichê "rebeldia sem causa" jovem, eu acho fascinante como suas mentes conseguem ser brilhantes e processar tanta coisa em meio do bombardeio de hormônios.
Já passei por situações inusitadas em sala de aula: aluno apaixonado, aluno fazendo gesto obsceno e até aluno que pensei me odiar chorando para que não mudasse a professora no outro semestre. Mas creio que uma das coisas mais difíceis que já tive que tratar foi o caso do Lucas (nome fictício).
Lucas era meu melhor aluno, da minha melhor turma de intermediário. Um dia estávamos debatendo sobre religião, como propunha o livro, e ao final da discussão os alunos fizeram uma pesquisa sobre as religiões na sala. Quando chegou a vez de Lucas responder ao “censo”, ele prontamente falou que era ateu. Os demais alunos, católicos em sua maioria esmagadora, o olharam com uma curiosidade saudável, buscando entender o motivo de sua descrença.
“Se Deus existisse as coisas seriam diferentes. Eu tenho meus motivos.”
“Legal”, sorriu um aluno, e foi o fim da aula. Mas alguma coisa não me deixou relaxar. Eu conhecia bem a história de uma certa jovem que, na idade do Lucas, também se considerava ateia e também tinha “seus motivos”.
Antes que eu tivesse muito tempo para pensar a respeito, a coordenadora entrou na sala para conversar sobre a turma. E no meio da conversa me cai a bomba: Lucas havia tentado se matar antes da volta às aulas. A mãe não conseguia entender porque, mas o achara azul no quarto, enforcado no fio do computador. Ele não havia falado o motivo, mas a mãe suspeitava que era uma paixão não correspondida de alguma menina da escola.
Foi aí que entendi: Lucas é gay.
Ele sempre usava o termo “pessoa” para se referir a alguém com quem iria se relacionar. O jeito delicado com que trançou meu cabelo uma vez. O ateísmo pela não diferença das coisas, caso houvesse um deus de fato. Eu deveria ter adivinhado.
De certa forma me senti estúpida por não ter visto o que estava bem na minha frente, mas mesmo sendo lésbica pouco uso meu “gaydar” que, por sinal, é péssimo. Realmente não tenho vontade ou necessidade de ter um “gaydar” apurado. Não me treinei para ver gays, mas pessoas.
Contudo, isso não é importante. O fato era que Lucas era gay e havia tentado se matar por isso. Me doía na alma pensar na dor que ele deveria estar sentindo para cogitar tirar a própria vida.
Eu sei o quão doloroso é se descobrir gay tão jovem, passei por isso aos 13 anos. Sei que ser adolescente já é muito confuso e a descoberta da homossexualidade é uma pressão que pode se provar demais para alguns.
Vários estudos, como o da Universidade de Columbia, por exemplo, relatam que jovens gays têm mais tendência a cometer suicídio do que os heterossexuais. O Centro de Estudo de Prevenção ao Suicídio norte-americano estima que 30 a 40% dos jovens LGBT já tentaram suicídio. Suicídio é a terceira causa de morte entre os jovens de 15 a 24 anos, mas o jovem gay está quatro a cinco vezes mais propenso a morrer assim do que um hétero. E o meu medo era que Lucas engordasse essas estatísticas.  
Então, sutilmente, a música trabalhada em sala era “Born This Way” da Lady Gaga. Lucas ADORAVA a Gaga. A mensagem da música é clara: “Não importa se você é gay, hétero ou bi, lésbica ou transexual, eu estou no caminho certo meu amor, eu nasci pra ser forte”.
Notei que na minha turma passou a acontecer algo que só posso definir como “bullying reverso”. A turma passou a abraçar e apoiar Lucas de uma forma sutil, mas firme. O projeto semestral escolhido, cujo tema era o combate ao bullying, foi o projeto “It Gets Better”. Esse é um projeto fundado pelo jornalista Dan Savage e o seu companheiro Terry Miller, e sua meta é prevenir o suicídio entre jovens LGBT através de adultos homossexuais que passam a mensagem de que a vida dos adolescentes vai melhorar.
E assim chegamos ao final do ano com um Lucas ainda vivo e muito bem acolhido pela sua turma. Sua mãe chegou a me agradecer, entre lágrimas, pois o inglês era a única atividade escolar que ele ainda participava, ele havia saído até mesmo da escola. 
Prontamente agradeci seus elogios, mas admito que não os aceitei. Não fiz nada mais do que meu dever como educadora. Tive a ajuda de outros seis adolescentes maravilhosos, apoiando seu colega e dando indícios dos adultos extraordinários que serão. Apenas agi como um ser humano com coração. 
Não sou mais professora do Lucas, mas mantenho contato com ele e com toda a turma pelo Facebook e na escola. Fico feliz em vê-lo retomar a sua rotina e tenho certeza de que não mais perderemos um dos bons. Retomei, aliás, a minha fé na humanidade. Pois se por um lado ouvimos tantas histórias tristes de bullying, presenciei atos de amor, carinho e respeito ao próximo que podem ter possivelmente salvado a vida daquele jovem.

45 comentários:

Anônimo disse...

A dor que alguém sente na alma para sentir que precisa se matar deve mesmo ser enorme, porque é isso, ninguém quer se matar, mas ha um momento que a pessoa pensa que é a unica forma.

O que me salta aos olhos nesse relato é que estão sim sendo formadas boas pessoas, tolerantes, amorosas e corajosas, nada de desanimo.

Izabel

Anônimo disse...

mais uma "professora" marxista cultural fazendo lavagem cerebral nos alunxs.

Ana Carolina disse...

Se outro dia li uma das histórias mais tristes do blog, essa é, sem dúvida, uma das mais felizes.

São pequenos gestos como esses que tiram o melhor de nós, que mostram que a adolescência é ainda mais difícil para um rapaz (ou moça) gay, mas que com apoio e auto-estima as coisas vão melhorar, sim. Para o Lucas, com certeza já melhoraram.

Felipe disse...

Sou um desses tantos Lucas que existem por aí, com a diferença que nunca tentei me matar, apesar de pensar nisso constantemente. A parte do ateísmo me tocou nesta história. Lembro de todos os dias antes de dormir pedir a deus que não deixasse ninguém me perturbar: nunca fui correspondido. Minha infância, adolescência e vida adulta foram e ainda é um inferno, o patrulhamento e as chacotas não acabam nunca. A ideia do suicídio vem perdendo força, pois a pessoa fria, amarga e cruel que acabei me tornando continua alimentando meu ego e afastando essa ideia. Foi o único jeito que encontrei de ter forças para sair da cama todos os dias.

lola aronovich disse...

Pois é, Anon das 12 horas! Se essa """""""""professora"""""""""" (ponha muitas aspas aí, pra sugerir que, ahn, ela não é professora, ou, ela não deveria ser professora!) não fosse uma maldita marxista cultural (sempre rio ao ouvir isso), ela teria deixado o Lucas se matar mesmo. Aliás, vc acha que o Lucas virou gay depois ou antes que a """""""""professora"""""""" fez lavagem cerebral nele? Vc acha que pode ser um vírus que se espalha no ar e faz tantos meninos virarem gays? Vc usa máscara?

Pamela Moreli Benoni disse...

Adorei o post. É incrivel o k a sociedade acaba fazendo com as pessoas... Faz com que não se aceitem como simplesmente o são. Precisamos de mais pessoas outside the box.

Luiz Prata disse...

O mundo precisa de mais professorxs/educadorxs como a Rapha.

Anônimo disse...

Nossa... revigorante ler uma história de compaixão como essa! Parabéns a autora

Anônimo disse...

Verdade! toma cuidado pra não achar uma professora dessas viu! vai que vc vira gay com uma" marxista cultura" como ela!!
Que absurdo essa lavagem cerebral que ela fez nos alunos dela! Ela devia ter incentivado bulliyng, mais ainda, incentivado que ele se matasse!
Nossa, se vc estivesse no lugar da professora marxista tudo teria sido diferente!! mandaria o Lucas se tratar, a "cura gay" foi feita pra isso!
Esse povo desinformado que não conhece o ilustríssimo Marco Feliciano, uma pena que a professora "Marxista" tenha feito isso na vida do Lucas, agora por "culpa" dela ele tá vivo e tem mais forças pra lutar contra essa sociedade preconceituosa!!
na próximo a gente chama vc! deixa o telefone pra contato!

Luiza Original disse...

Só eu acho ridículo esse tal de "radar gay"? Porque ele é baseado inteiramente em estereótipos, exatamente o que queremos deixar de lado.

Ana Paula disse...

Gente, a pessoa não tem vergonha de usar o termo "marxista cultural"? Eu tô aqui rindo até agora.

Natália Paraíso disse...

Fico feliz que hajam educadoras e educadores como a Rapha e jovens como os seus alunos. Espero que se formem cada vez jovens como esses e cada vez menos como o anônimo das 12 horas.
Linda história!

Anônimo disse...

Não sei se acho ridículo, Luiza Original, mas me causa um constrangimento ouvir isso. Aliás, acho que seria muito bacana uma discussão sobre isso, sobre os estereótipos de 'masculino', 'feminino' e como nos subjetivamos a eles ou como podemos não ser assujeitados a eles. Eicram

Anônimo disse...

Tb acho ridiculo radar gay

Valéria Fernandes disse...

Um relato dos mais relevantes e que aponta o que deveria ser a função de um/a educador/a.

Edson disse...

Sou gay e fico tão feliz quando leio histórias assim.
Eu sofro todos os dias por ser gay, não sou atacado na rua por isso. Mas me sinto inadequado. Sei que a culpa não é minha e sim do preconceito.
Nunca tentei me matar, mas teve uma época que desejava morrer, tipo dormir e não acordar mais.
Na questão da religião, hoje não tenho nenhuma, mas creio em Deus. Eu não gosto da bíblia porque nela que tiram as palavras para justificar a condenação de gays.

Sara disse...

Rapha sua profissão é linda, e dá a oportunidade maravilhosa de fazer a diferença na vida das pessoas, e pelo jeito vc usou muito bem essa oportunidade.
Assim como vc não tenho radar nenhum para detectar quem é gay ou não, e tb não acho que isso seja importante, as pessoas são muito mais do q isso.
Espero q vc continue bem sucedida em seu trabalho, e fique positivamente na memória dos seus alunos, assim como ficaram meus antigos professores.

A.A disse...

Rapha e Lola, me manterei anônima para preservar o aluno da história que contarei a seguir: Eu sou professora e assim como você Rapha, cai na profissão e me apaixonei. Também sou "instrutora" na carteira, mas educadora de coração.
Eu tenho um aluno que sempre foi ótimo, prestava atenção nas aulas, se dava bem com todos. Um dia, esse menino mudou, passou a não falar com ninguém, ser sério e meio deprimido. Eu desconfiava que ele fosse homossexual e que tivesse sua sexualidade reprimida, pois é evangélico. Levantei o tema várias vezes com a turma dele: respeito, principalmente. Um dia, ele resolveu se assumir gay, pra mim, e para todo o resto da escola. Ficou mais expansivo e eu achei que tudo iria se encaminhar bem, até que a mãe dele veio conversar comigo, pra dizer que ele estava estranho e que ela achava que ele estava usado drogas. Disse a ela que conversaria com ele. Ele me disse que estava namorando e que ela não poderia saber por que isso seria uma abominação pra ela. Fiquei sem saber o que fazer, expliquei a ele que a orientação sexual não faz alguém melhor ou pior e que a mãe dele jamais deixaria de amá-lo.
Passado uns dias, ele começou a ficar disperso e começaram a reclamar dele para mim: ele estava assediando professores, colegas de escola e inclusive meninos mais novos. Mais uma vez conversei com ele sobre essas atitudes e que isso não seria bom para ele e que poderia causar constrangimento a meninos mais novos e que na escola (onde ele também trabalhava) isso poderia inclusive ser considerado caso para demissão, o que aconteceu alguns dias depois, quando ele assediou um garoto de 11 anos, pedindo que o menino abrisse a calça.

CONTINUA...

A.A disse...

CONTINUAÇÃO...
Orientei VÁRIAS vezes a mãe para que o levasse a um psicólogo, antes que a situação se agravasse e ela não quis, pois queria um psicólogo evangélico (que curasse ele), já que a essa altura ela sabia da orientação do filho.
Ele continuou frequentando as aulas, brigando, provocando, saindo da sala. Conversei e conversei. Um dia ele disse algo que ofendeu uma menina (que antes era super amiga dele) e ela deu-lhe um tapa na cara. Chamei os responsáveis pelos dois e ambos assinaram uma advertência. A menina passou a sentar longe dele e mesmo assim ele continuava as provocações a ela. Saia da sala tumultuava. Há três dias eu o suspendi, pois essa mesma menina estava na lousa escrevendo a resposta de algumas questões e ele soltou que era impossível se concentrar com a "bunda grande" dela na frente dele. Eu pedi que ele parasse, ela sentou e não quis mais escrever a resposta e ele continuou a chamando de vagabunda e falando outros impropérios. Pedi que ele fosse comigo até a coordenação e ele foi, gritando, xingando e ameaçando a menina, dizendo que a culpa era dela (que não havia provocado nem nada). Ele chegou à coordenação e ameaçou a coordenadora que na hora se impôs, disse para ele sentar que ela iria chamar a mãe dele.
A mãe disse que irá interná-lo para que ele "se cure".
Ele não foi mais à aula desde então e nem a menina, que está com medo dele. Disse que irá mudar de turma e horário caso ele não mude, disse inclusive que se ele a ameaçasse novamente ela faria um boletim de ocorrência.
Eu havia conseguido uma psicóloga gratuitamente pra ele, que a mãe rejeitou, pois a psicóloga deixou claro para mãe que trabalharia no desvio de comportamento dele e que não iria curá-lo, afinal homossexualidade não é doença.
Eu não sei o que fazer. Em três meses eu vi um dos meus melhores alunos, que inclusive era monitor na escola, um aluno que só tinha notas aulas, se transformar em alguém agressivo, que mente (ele diz que está trabalhando como cantor, o que a mãe desmentiu, e conta outras mentiras diversas para os colegas, diz que saiu com um professor, que o outro estava apaixonado por ele, etc.), ofende as pessoas mais velhas que trabalham na escola (ele falou para tia da faxina, que tem uns 60 anos, que as dores nas costas dela eram "falta de dar"), assedia pessoas mais novas, pedindo para mostrar as partes sexuais ou para tocá-lo ou para fazer sexo oral nele, as notas caíram, a ponto de zerar. Eu sei que isso é causado por problemas psicológicos, que podem ter origem a um abuso ou qualquer outra origem. Às vezes ele dá a entender que ele sente como se houvessem duas pessoas dentro dele, uma que tem atitudes que ele não concorda e outra pessoa que seria a "correta" e que ele não consegue controlar essa pessoa ruim. A mãe nega a ele tratamento e eu não sei o que fazer.
Ufa... Desabafei. Desculpem pelo longo comentário.
Obrigada.

Marcelo disse...

Estou chocado,quer dizer que ao invés de orientar o garoto para que procurasse um psicológo para resolver seu desvio de comportamento,ela faz apologia ao homossexualismo com a classe inteira?
Se ela é lésbica e acha isso normal é problema dela mas não pode ficar enfiando essas baboseiras na mente de crianças e adolescentes.
Os pais dos alunos sabem disso? Porque se fosse com um filho meu,eu pediria afastamento dessa "professora" ou trocaria meu filho de escola.

lola aronovich disse...

AA, minha solidariedade a vc, a esse aluno, e às pessoas que ele está ferindo. Espero que ele consiga sair dessa. Suponho que, pra quem é de uma religião que considera sua orientação sexual uma "abominação", deve ser ainda mais difícil se assumir. Ainda mais com uma mãe que quer que ele se cure. É muito triste tudo isso. Torço para que ele saia logo da fase da revolta.


Marcelo, chocada estou eu, com o seu comentário. (NOTA: Marcelo escreveu isso para e sobre a Rapha, a autora do guest post. O comentário da outra educadora, AA, ainda não havia sido aprovado quando Marcelo escreveu essa porcaria). "Baboseiras", Marcelo? O garoto tentou se matar por causa dessas "baboseiras". Fico na torcida para que vc não tenha filhos, porque haveria grandes chances de um filho seu se suicidar.

Anônimo disse...

A.A.

Busca-se ajudar, mas quando foge ao controle, o caso é de polícia. Ajudar o menino é bonito, é ok, mas e as pessoas que ele agride? No caso a amiga, como ela fica?

Admiro pessoas engajadas como você,

P.

Anônimo disse...

Nossa, que incrível! Nunca tinha ouvido uma história de uma turma de escola que apoia-se umx colega gay!

Até hj só vi ódio em escolas, esse é realmente um caso isolado.

Maria disse...

Chorei, de verdade.

LC disse...

Sou gay e entendo muito bem isso, nunca pensei em me matar, mas sempre me achei “inadequado”, sofria bullyng da sala e nunca fui estimulado a responder ou pelo menos enfrentar as provocações, era estimulado a corresponder à expectativa dos outros, por isso com 16, 17 anos eu tinha medo de gente e não tinha nenhum amigo

Já teve situações de eu sair da sala pra vomitar só porque a professora falou comigo (detestava virar o "centro das atenções" da aula)

Meus problemas existem desde criança, quando minha mãe me obrigava a jogar futebol, nunca tive interesse nisso e sempre deixei isso claro, mas era obrigado talvez por todo mundo achar que era "coisa de homem", só sei que na época quando a gente ia pro clube, eu costumava fugir e me esconder, não gostava nem de assistir futebol e, apesar da minha mãe praticamente me obrigar a ser são-paulino (alguém já percebeu que a gente é, sem razão nenhuma, condicionado a um time desde criança?) eu não tinha time nenhum, talvez pra não me sentir tão “deslocado” inventei que era corinthiano (time do meu pai) porque ele não forçava muito a barra (as pessoas costumavam reagir com um “VOCÊ NÃO TEM UM TIME?? MAS TODO MUNDO TEM UM TIME!!”)

Essa determinação das atividades como masculinas ou femininas serviu pra me deixar confuso também, uma vez que eu não era completamente desinteressado de coisas mais convencionadas como “masculinas” (gostava de pião, bolinha de gude, pipa etc...)

Na escola eu era humilhado e achincalhado todo dia, e minha família implicava com meu único amigo (sem nunca deixar claro o “porquê”), não deve ser à toa que meu amigo “virou” gay quando cresceu também

A gente cresce achando que se não fizer uma intervenção em si mesmo, você vai se transformar na "Vera Verão", e pensa que isso é a pior coisa do mundo

Eu não tinha nenhum amigo, eu era humilhado e fui inclinado a acreditar que a culpa era minha, eu fui obrigado a pelo menos tentar gostar de coisas que eu nunca gostei, mas o que dizer de uma sociedade que, diante da tentativa de suicídio de uma criança, pensa que a perspectiva mais ameaçadora é essa criança “virar” gay?

Ainda temos muito o que mudar

Anônimo disse...

Maria, eu também chorei lendo isso, parabéns para a professora

A.A disse...

Anônimo das 19:03 eu busco ajudá-lo e busquei ajudar também a menina que ele agrediu. Inclusive suspendendo-o e apoiando-a caso ela quisesse denunciá-lo. Inclusive orientei que este era o direito dela.
Mas dói, porque eu sei que ele está sofrendo também, quer chamar a atenção de qualquer maneira.

=(

Rapha disse...

Queridos do "Lola",

estou acompanhando os comentários de perto e já lhes digo que meu coração está com vocês :)

A.A querida, é realmente complicada a situação em que você se encontra. Espero que algo ilumine em você e em seu "Lucas". Que essa fase rebelde passe e que ele se ache.

Aos demais deixo meu carinho e minha felicidade em poder compartilhar esta história com vocês.

Beijos.

Sam disse...

Sou lésbica, professora de inglês e já passei por situações assim em sala de aula. Chorei litros lendo esse relato lindo! Para todos os Lucas que estão por aí pensando em se matar, tenham certeza que a vida realmente melhora com o tempo! Força <3

Anônimo disse...

Cara A.A., isso não é necessariamente um caso de polícia. Levar um adolescente a uma delegacia, um adolescente em crise de identidade, não vai resolver nada. O pior que pode acontecer é ele ser representado por ato infracional equiparado a algum crime de injúria ou lesão corporal, passar por processo super constrangedor na Vara da Infância (destoando da triste realidade dessas varas, onde predominam roubos e tráfico) e receber alguma medida socio"educativa" que jamais seria internação ou semiliberdade, por não se tratar de ato infracional grave (não, esse rapaz não iria para a Fundação CASA).

Por isso a Lei do Sinase previu o círculo restaurativo, a mediação como prevalente em resolução de conflitos envolvendo adolescentes, especialmente por psicólogos.

O que você pode (e acho que deveria) fazer é comunicar o Conselho Tutelar da situação, e também o Ministério Público da infância e juventude - especialmente porque há risco de a mãe ter internado o filho à força, e isso seria crime de sequestro. Sério, é muito grave!

Anônimo disse...

Textinho mais gramscista hem ?

Desconstrução social pura.

Anônimo disse...

Exatamente porque uma educadora de inglês, estaria falando sobre religião em aula ?

Antonio Gramsci explica !

Anônimo disse...

Isso ai, Marcelo, propagando o preconceito para todo sempre <3 Pra que ser uma pessoa normal e gostar e respeitar os outros? Deixar os adolescentes perto desses gays? Que horror! Deus me livre!

(Cresce, cara. Só cresce!)

Anônimo disse...

Nós,cristãos não somos contra homossexuais.Não existe justificativa cristã para agredir,maltratar ou praticar qualquer violência contra homossexuais.O cristianismo apenas considera homossexualismo pecado,assim como o adultério e alcoolismo,mas todos tem o livre arbítrio.Nínguem quer obrigar os gays a serem heteros,o projeto de lei apelidado de "cura gay"é para os gays que QUEREM tentar mudar o comportamento sexual E acreditem: á muitos que querem ajuda de psicólogos por serem gays por terem sofrido abuso sexual na infancia.

Thábitta disse...

Amei o post. Precisamos de professorxs assim. Para aquelas pessoas que acham que uma professora de inglÊs não deveria falar desse assunto na sala de aula, eu digo que todo lugar é lugar, toda hora é hora de combater preconceito.Todos devemos e podemos combater. Nenhum "Lucas " deve morrer.

Chii disse...

Porque se aprende um idioma com conversa, assuntos que fazem parte do seu cotidiano. Já tive aulas focadas em drogas e religião pra mostrar vocabulário mais específico..

Anônimo disse...

Eu não sofri abuso sexual na infância, cresci em um ambiente familiar saudável,sempre ganhei o que queria, sempre fui para a igreja e sempre fui ensinada de acordo com os valores da bíblia , e mesmo assim sou lésbica. Qual o departamento da " cura gay" eu procuro?

Anônimo disse...

Anônimo das 00:55, você já fez aula de inglês? Livros propõe temas diversos. Aliás, se você voltar ao post e ler cuidadosamente, tá dito que foi o tema proposto pelo material didático. De qualquer forma, qual o problema em se falar de religião? Não pode? Devemos nos envergonhar de ter ou não religião?

Rapha,um professor (sou professora há onze anos e nunca me chamei de educadora, que dá um caráter mais parental. Minha relação é na sala de aula) dita o tom do relacionamento dos alunos em sala. Você tem todos os méritos de criar uma relação saudável e respeitosa que vai marcar a memória de muitos deles. Parabéns!

Anônimo disse...

Lola, estava conversando com a minha namorada e logo depois abri seu blog e li essa postagem. Nunca quis me matar e nem algo parecido, mas, de certa forma, me identifiquei. Aqui vai um trecho da nossa conversa de hoje:

EU
não posso dizer q ganhei nada
não posso dizer que tô com saudade de você

ELA
é, não pode

EU
tenho que contar mentiras pra ela (minha mãe) não desconfiar

ELA
entre outras coisas

EU
sabe,
a karol (minha amiga), por exemplo, qnd desligava o telefone e a mãe dela perguntava quem era, ela respondia "é o raphael"
e isso já estava claro q era o namorado dela.
Eu sinto culpa de te ligar do celular da minha mãe, pq ela pode ver algo errado, estranho

Não posso ter um porta retrato com foto nossa (e nem precisa sem beijando, nem nada) simplesmente não posso porque "vai dar pinta"

Não posso levar você pra comprar meu material de escola, mas se vc fosse um namorado , poderia

Tenho que me policiar no meu bairro pq alguém pode ver, pode contar

Tenho que ouvir "conselhos" sobre como arrumar um namorado (rico, é claro) e ficar calada, dar sorriso amarelo.

Fingir ser solteira é muito chato, cara! Nunca quis botar num outdoor , contar meus relacionamentos pra deus e o mundo, mas esconder também é horrível!

E ainda tem filho da puta pra dizer que é algo que nós escolhemos!
Sério, ninguém, se pudesse, escolheria.
Não é onda, não é porra nenhuma ficar se escondendo!

ELA
Não é mesmo

EU
E isso vai muito contra ao meu "seja honestx"
Me sinto a traidora, a pior pessoa no mundo, quando, na verdade, não tem NADA errado

Sabe, Lola, é muito triste não poder contar nada por medo da reação da minha mãe. às vezes dá vontade de "abrir o jogo", mas ainda dependo dela (financeiramente falando)e não posso sair de casa.

Anônimo disse...

Ah, e Rapha, parabéns pelo seu trabalho! Bons professores realmente mudam a vida das pessoas /o/
"Continue a nadar!"
:)

João Pedro A. Colletti disse...

Inspirador!!! =)

Flávia Giraldes disse...

Lola, estou com lágrimas nos meus olhos. Pela atitude dela, muito sensível, e da dos colegas. Adorei mesmo.
Beijão, Flávia

Anônimo disse...

parabéns professora do Lucas!!!!

*-* disse...

Oi pessoal, Levei um tempinho pra ler tudo com calma.

Me chamo Eduardo, sou gay e fui professor infantil (inglês também) durante 5 anos. Parei porquê fui fazer computação.

Sempre me atormentou a ideia de algum dia ser confrontado com isso. Sou gay e na época não era assumido (não teria sido professor se fosse assumido).

Achei a atitude da Rapha fantástica! Parabéns, você merece esses parabéns! Você salvou uma vida!

Quanto ao desabafo da A.A.

Querida, tenha força!

Pessoas são capazes de coisas horríveis quando estão sofrendo como seu aluno está.

Se ele precisa de ajuda e a mãe se recusa a dar, você precisa intervir!

É uma decisão difícil, pode ser que não dê certo mas como seres humanos nós temos que escolher o caminho correto.

O conselho tutelar pode SIM intervir e obrigar o jovem a ser acompanhado por um médico.

A justiça pode inclusive afastar esse jovens dos pais, caso seja necessário.

Eu queria deixar um alerta aos leitores. Pais como esses são perigosos! Essa mãe realmente acredita que a pior coisa que pode acontecer é o filho "virar gay".

A possibilidade de um suicídio nesse caso é muito forte (embora não pareça).

Ele só precisa entender que pode sobreviver a isso tudo. Ser colocado pra fora do armário é a pior coisa que pode acontecer.

Eu não tenho a mínima dúvida que ele está sendo humilhado e perseguido diariamente em relação a sua sexualidade por essa mãe.

Minha saída do armário foi totalmente diferente (24 anos, morando só e pagando as próprias contas) e minha mãe nem de longe era uma religiosa fanática. Ainda assim eu tive que ouvir milhões de baboseiras, lamúrias, acessos de choro e inclusive ouvir da boca da minha mãe que ela não podia fazer nada (por eu ser independente) mas se pudesse ela faria.

Eu tinha maturidade e força pra rebater. Será que esse garoto tem? Você tem? Você aguentaria todo dia sofrer humilhações dentro de casa?

Converse com o conselho, se eles não resolverem procure o ministério público.

Estamos com você! Um beijo no coração!

Leio Lola Leio disse...

Puxa! Que história bonita! Difícil alguém ter essa sensibilidade para notar o aluno. Também reforcei minha fé na humanidade com esse relato!