quinta-feira, 24 de maio de 2012

XUXA, MINHA SOLIDARIEDADE

Como estava em SP sem internet, alheia ao mundo, só fiquei sabendo na manhã de terça da entrevista da Xuxa ao Fantátisco e sua incrível repercussão. E quem me contou foi a deputada Manuela Dávila, antes do evento na USP.
Pois é, sou muito chique! A deputada federal mais votada do RS por dois mandatos consecutivos e atual candidata à prefeitura de Porto Alegre, além de ser uma pessoa encantadora e revelar-se leitora do meu blog, me falou da sua indignação com o que andava lendo sobre Xuxa (Manuela, que também tem um blog, escreveu sobre o caso). Ela me disse que já andou perto de Xuxa, e que não fazemos ideia do fanatismo que é. Manuela disse que já esteve ao lado de Pelé, de Lula, e que não tem comparação -– que as pessoas se jogam pra tocar em Xuxa, que ela é A Celebridade. E que a reação de Xuxa (como seria de quase qualquer um) é de susto, de medo, de encolher-se diante de um assédio tão arrebatador.
Assim como Manuela, eu não tenho nenhuma simpatia por Xuxa. Absolutamente nenhuma. Felizmente, cresci  nos anos 70 vendo Vila Sésamo, não Xou da Xuxa. Já na década de 80 meu pai trazia a Manchete pra casa e as capas sofriam revezamento entre Xuxa, Luiza Brunet, Roberta Close, e alguma princesa de Mônaco. Nunca vi nenhum filme infantil com a rainha dos baixinhos. Sempre achei péssimo como ela (entre outras apresentadoras) estimula(va)m o consumismo e a sexualidade precoce das meninas. 
Até considerei ousado que ela tenha feito uma “produção independente” (ter filho sem casar). Espumei de raiva quando, em pleno dia de privataria das teles, o Jornal Nacional dedicou sua edição ao nascimento de Sasha. Mas, convenhamos, se não fosse a Xuxa, a Rede Globo pegaria outra inocente útil pra alienar os espectadores. Enfim, não tenho procuração pra defender a Xuxa.
Só que o que pega é que, no domingo, Xuxa deu uma entrevista de 25 minutos pro Fantástico. E, a partir dos 18 minutos (depois de falar de coisas que não me interessam nem um pouco, como seu namoro com Pelé, com Senna, seu encontro com Michael Jackson etc), ela, que já fez campanha contra bater em criança (excelente iniciativa, certo?), revela (minha transcrição):

“Alguém conhecido dentro de casa que acabou abusando sexualmente dessa criança e ela resolve sair de casa, mas pra ela poder comer, ela acaba fazendo isso nas ruas [se prostituindo]. Isso me dá um embrulho no estômago porque eu consigo não só me colocar no lugar delas como eu abracei essas causas todas porque eu vivi isso, na minha infância, na minha, até minha adolescência, até meus 13, 13 anos de idade, foi a última vez. Pelo fato de eu ser muito grande, eu chamar a atenção, eu fui abusada, então eu sei o que é, o quê que uma criança sente, sabe. A gente sente vergonha, a gente não quer falar sobre isso, a gente acha que a gente é culpada, […] eu sempre achei que eu tava fazendo alguma coisa, ou era minha roupa, ou era o que eu fazia que chamava a atenção, porque não foi uma pessoa, foram algumas pessoas que fizeram isso, e em situações diferentes, em momentos diferentes da minha vida, então ao invés de eu falar pras pessoas eu tinha vergonha, me calava, me sentia mal, me sentia suja, me sentia errada […].
Só que eu não falei pra minha mãe. Eu não tinha essa coragem de falar, e que a maioria das crianças, dos adolescentes, que passam por isso não falam. Eu não me lembro direito, eu sei que era muito nova. Eu me lembro do cheiro. Tinha cheiro de álcool, tinha cheiro de alguma coisa, e eu não sei quem foi. E depois aconteceram muitas vezes. Parou aos 13 anos, quando eu consegui fugir. Agora, tem essas coisas que pra mim me dói, me machuca, me dá vontade de vomitar, quando eu lembro que tudo isso aconteceu e eu não pude fazer nada, porque eu não sabia, eu não tinha experiência, o que uma criança tem de experiência, o que ela pode fazer? Eu tinha medo de falar pro meu pai e meu pai achar que era eu que tava fazendo isso, porque uma das vezes que aconteceu foi com o melhor amigo dele, que queria ser meu padrinho. Eu não podia falar pra minha mãe porque uma das vezes também foi com o cara que ia casar com a minha avó. Então a errada era eu? […]
Professores, um professor chegou pra mim e disse, não adianta você falar, porque entre a palavra de um professor e de uma aluna, eles vão acreditar no professor, não no aluno. E até hoje, se você me perguntar, porque aconteceu essas coisas comigo, eu acho, eu ainda acho, que foi minha culpa, e a gente não pode pensar assim. Porque a criança não tem culpa, a criança não sabe. […] Talvez eles deveriam ter notado que quando eu não tava falando muito, eu que sou de falar demais, é porque tava acontecendo uma coisa comigo […]. Por que que você acha que eu, que de repente eu, que eu não consigo ficar, sei lá, casar, ficar muito tempo com uma pessoa, deve ter uma explicação, né? Quem sabe não deve ser tudo isso que eu vivi? O fato de eu me achar horrível, de eu me achar feia, […] deve ter a ferida ali, aquela coisa, que eu... Eu nunca falei assim pra ninguém, porque eu achava que as pessoas iam me olhar diferente, nào vão entender, ou vão entender da maneira delas. […] Talvez eu tivesse que passar por tudo isso pra hoje chegar e dizer: eu quero lutar por elas, sabe. Eu tenho o sonho de um dia nenhuma criança sofrer.”

Não sei quanto a você, mas eu fiquei bastante comovida. Fico tocada com a dor das pessoas. E tenho como princípio não duvidar de quem narra seu abuso. Porque é raríssimo uma pessoa nessas condições mentir. Pelo contrário –- a maior parte sequer denuncia. São pouquíssimas as pessoas que denunciam. E, quando elas têm essa coragem, o que fazemos? Duvidamos delas. As chamamos de vitimistas. Dizemos que elas só querem aparecer. Que estão mentindo.
Ontem mesmo publiquei o guest post de uma mulher que foi estuprada trinta e poucos anos atrás e só agora resolveu contar o que sofreu, num suspiro, sem revisão, num email. Foi pura coincidência. Recebi o email em fevereiro, e o post já estava agendado, ilustrado e tal, desde a semana passada. E não foi o primeiro (nem será o último) post sobre estupro que publico aqui. Leia o guest post de ontem, os outros posts, e veja como a história que Xuxa conta se parece com todos esses casos. O que elas relatam é comum. Acontece direto, acontece com muita gente, e ainda assim a gente insiste em não acreditar, insiste em culpar a vítima. A gente não aprende nunca.
Quase sempre, quando publico um post desses, vem alguém me chamar de sensacionalista. Já me chamaram de Ratinho das Feministas ou algo assim. Tem feminista que não fala em abuso, em violência, em assuntos desagradáveis, porque acha que isso é se vitimizar. Então preferem ficar falando em como, sei lá, o funk, a pornografia e a prostituição empoderam as mulheres. Eu discordo. Acho que por pra fora nossas histórias de horror pode ser muito liberador. Saber que outras pessoas passaram pela mesma coisa pode ser empoderador. Não se calar, denunciar, protestar, criar uma rede de camaradagem, de consultoria jurídica, é extremamente importante. A outra opção é a gente cobrar silêncio absoluto, olhar pra baixo e fingir que estupros não existem. Assim, quem sabe, eles vão embora.
Eu fico feliz quando uma celebridade conta sua tragédia em horário nobre. Porque isso vai influenciar muito mais gente do que um mero bloguinho. Desde que Xuxa falou com o Fantástico, 285 mil denúncias foram feitas pro Disque 100, que lida com violência contra a criança e adolescente. Um aumento de 30% no número de ligações. Alguém me explica como isso pode ser negativo. Foi ótimo a nadadora Joanna Maranhão ter quebrado o silêncio em 2008 e acusado seu ex-treinador. Quer dizer, não foi nada bom pra ela, que foi processada (o crime prescreveu) e viu a mídia se obcecar pela sua história. Mas, graças a Joanna, foi aprovada uma lei (aguardando sanção presidencial) com seu nome que muda o prazo da prescrição dos crimes. Ele passa a contar a partir do instante que a vítima completa 18 anos. Isso só foi possível porque uma pessoa famosa contou sua história de horror.
Ah sim, tem muita gente falando do “filme pornô que Xuxa fez”, insinuando que a abusadora de crianças era ela. Quanta estupidez! Sei que o filme é antigo, de 1979 (lançado apenas em 82), mas pelamor! Seguinte: Amor Estranho Amor é uma entre várias obras do Walter Hugo Khouri. Que sempre fazia o mesmo filme (e não tinha nada a ver com pornochanchada; era drama, pretensioso, chatinho, com diálogos estranhos diálogos e péssima direção de atores), sobre a (hetero)sexualidade de seu alterego, sempre cercado de lindas mulheres -– todas querendo levá-lo pra cama, lógico. Lembro bem de Amor porque foi das primeiras fitas seladas a serem lançadas no Brasil (pela Globo Vídeo), e eu trabalhava numa locadora.
No filme, Xuxa faz uma prostituta de 16 anos que transa com o protagonista, um garoto de 10 ou 12 anos. Se não ficou claro, repito: Amor Estranho Amor não é um documentário. É um filme de ficção. Xuxa era apenas uma atriz, e longe de ser a principal (que era a Vera Fischer). Dizer que ela abusou de um menino porque fez esse papel é mais ou menos como dizer que Heath Ledger explodiu prédios e matou e torturou pessoas porque ele interpretou o Coringa, sabe?
E tem que ser meio ignorante, não saber nada sobre comportamento de pessoas abusadas, para perguntar “Ué, se ela foi abusada, por que fez um filme em que abusava de um menino?”. Bom, fora a diferença entre realidade e ficção (Xuxa não abusou de ninguém na vida real), existem estatísticas que apontam que boa parte dos abusadores foram abusados. Assim como boa parte dos homens que batem nas mulheres cresceram em lares em que apanhavam e viam o pai bater na mãe.
Ah, mas por que Xuxa só contou agora, trinta e poucos anos depois? Ela diz porquê: porque sentiu vergonha. Ainda sente. Ainda sente-se culpada. Como, aliás, a esmagadora maioria das vítimas de abuso. E talvez porque ela sabia que iria ser apedrejada.
Apedrejada pelo abuso que sofreu. Típico.

213 comentários:

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Anônimo disse...

Concordo que a entrevista serviu para que as pessoas tivessem menos medo de denunciar. Concordo que esses casos também serviram para abafar os casos Cachoeira, o AI5 digital brasileiro e para abafar o veto do código Florestal mas dizer que a Xuxa foi santa e dizer que se emocionou com essa entrevista muda na parte em que vêem o filme dela com o menor e esse que ninguém ainda divulgou dela dançando nua em um carnaval, numa possível zona. Esse link, ela retirou acho do Xhamster.

Herculano Neto disse...

Só sei que o nome da lei que altera as regras sobre a prescrição do crime de pedofilia é Joanna Maranhão e não Xuxa Meneghel.

Nana disse...

Vale a pena a leitura. VALEU BASTANTE pra mim (compartilho o pensamento em muitos pontos): é incrível como certas coisas ficam tão escondidinhas nas entrelinhas da vida. São raízes profundas de preconceito e sexismo que fazem com que vc não consiga ver claramente quem são os oprimidos e os opressores na vida real.

Compartilhei sua postagem no meu facebook.

Sinto-me pequena para dizer quaisquer outras palavras a respeito. Parabéns pela ótima abordagem do assunto.

Anônimo disse...

Ela abusou sim daquele menino. Se fosse uma menina que tocasse o penis de um ator seria abuso ou não? Vi o filme e ele toca ela inteira, ou seria efeito especial?
Não gostei do seu argumento, Lola. Nada a ver comparar com uma explosão de efeito especial.

Anônimo disse...

Li mtos comentários tristes.

Deixo um recado para a Anônima da data 25 de maio de 2012 16:28

Chorei lendo seu comentário

Deixo um abraço enorme , uma oração (se vc acreditar em oração) e s enão acrediatr em Deus, deixo então minhas energias positivas pra vc

E obrigada por postar q adotou crianças, vc devolveu em alegria o que seus pais te deram em horror

Que sua vida tenha mta paz amor e belezas

Ler isso me tornou um pouco melhor

Toda solidariedade à Xuxa


Obrigada!


Lana

Anônimo disse...

Lola, muito legal sua abordagem...
Sabe, sou cristão e como cristão temos visto infelismente o quanto isso é comum. Quero que você saiba que você é compreendida, amada e querida assim como a Maria das Graças (Xuxa), e que Deus tem um plano e propósito na sua vida. Que Ele te condusa a uma vida plena a qual mal podemos imaginar... Deixo a você um versículo Bíblico para reflexão, independente do que você crê, receba essas palavras como uma forma de expressão de amor de alguém (Deus Pai) que te ama, se identifica com você, que te entende e te aceita como você é, além de te amar incondicionalmente. Que com a Graça de Deus você possa alcançar tudo o que Deus sonhou e sonha para você e a cada um dos que você tem influenciado... No amor de Cristo, Daniel...

Anônimo disse...

Não vou discutir em relação a acreditar ou não no depoimento, tenho minhas convicções que podem até estar erradas, mas uma tv que é capaz de manipular o povo durante a ditadura e na democracia faz qq coisa.
Tudo bem o relato da famosa e a comoção do povo, mas sem essa que está se expondo por causa das crianças! Nossa, o que essa moça faz pelas crianças? Em que luta realmente está engajada? Dá um tempo.

Anônimo disse...

Tristeza a repercussão que isso está dando. Não aguento mais comentários no meu facebook criticando a Xuxa por suas declaração.
O que ela fez adulta não muda o fato de ter sido vítima na infância. Quer dizer que se alguém que foi abusado na infância virar um assassino na idade adulta, iremos dizer: ah, bem feito que ele foi abusado!
Isso é absurdo!

Anônimo disse...

Tudo bem a Xuxa ir no Fantástico fazer em público o que deveria fazer diante de seu psicólogo, pois afinal alí (no Fantástico) ela ganha mais um pouco de notoriedade. Se ela foi mesmo abusada sexualmente isso é uma pena! Mas deixemos de hipocrisia! Amor Estranho Amor envolve PEDOFILIA sim! Se fossem cenas de um homem com uma menina de 12 anos estariamos querendo condenar o cara , mas como é a Xuxa fazemos vosta grossa! Esses são os meus compatriotas!

Anônimo disse...

Só vejo aqui comentários afins às tuas opiniões, por que fazes isso?
Isso empobrece seu blog tornando-o unilateral!

lola aronovich disse...

Ué, Dr. Paradoxo, não acabei de publicar o seu comentário, que vai contra a minha opinião? Aliás, DOIS de seus comentários? Este post tem 211 comentários. E lembro que teve muita discussão. Duvido muito que só haja comentários com os quais eu concorde. Ademais, no final de maio eu ainda não fazia moderação de comentários. Comecei agora, duas semanas atrás, porque metade dos comentários recebidos vinha de trolls agressivos e repetitivos. E eu acho que ter 50 comentários duplicados POR HORA, cheios de insultos e besteiras, empobrece bem mais meu blog que deletar comentários idiotas. Mas esta é só a opinião da autora do blog.

lilia lilar disse...

Achei suas palavraas tocante! Me identifiquei com algumas coisas ...Lamento que isso tire a pureza da nossa infancia de forma monstruosa!E sempre que olhar alem do pensar nisso e como fantasma e o sofrimento de nossas vidas como se fossemos culpadas...mais uma terapia e o tempo faz com que a gente veja isso la no passado ainda assim que sempre seja com nojo...mais temos o hoje...tem o amanha...vamos em busca daa felicidade !!!avida em frente estar ai e precisamos. saber VIVER!!!

Anônimo disse...

eu não acredito em nem um milímetro do que ela falou, e ao contrário de muita gente q postou ai, eu era tão apaixonada pela xuxa que so bastava ela aparecer aos sábados de manhã que eu começava a chorar, mais voltando a minha opnião eu não acredito que uma pessoa que tenha sofrido abuso sexual seria capaz de fazer um filme erótico com um garoto de treze anos...

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