sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CRÍTICA: PRECIOSA / A culpada é a mãe

Vida difícil, mas não culpe o sistema.

Êêêêê, fui ver meu primeiro filme em Fortaleza! E foi logo num cinema dos bons, o Espaço Unibanco, que fica no belíssimo Dragão do Mar (dá vontade de virar correntista do banco só pra pagar meia entrada). E, claro, foi uma obra acima da média também. Mas, convenhamos, se tem uma época boa pra ver cinema de qualidade, essa hora é agora, antes do Oscar, quando os concorrentes chegam nos 8% dos municípios que têm sala de cinema no Brasil.
Bem, não considero Preciosa um grande filme, embora ele seja certamente diferente. Se já é incomum ver uma história com uma mulher como protagonista, o que dizer de uma mulher negra, pobre e gorda? Tramas desse tipo até existem no cinema americano independente, mas é raríssimo que ganhem repercussão, distribuição ampla, indicações ao Oscar, e desaguem no mainstream. Por isso, aproveitem.
Preciosa conta a vida de uma menina que vive no inferno. É aquela coisa: quem pensa que enfrenta problemas sérios deve ver o drama pra saber o que é vida difícil mesmo. A protagonista (Gabourey Sidibe, ótima) tem 16 anos, é semi-analfabeta, está grávida de seu segundo filho (ambos frutos de estupro do seu pai), e mora com a mãe, que é uma carrasca total. Nesse contexto, sua obesidade mórbida é o menor dos males. Mas, pra uma adolescente, com todos os sonhos teens de querer ser aceita, ser gorda é um enorme empecilho. Ainda que Preciosa esteja completamente à margem da sociedade, ela sofre influência dessa mesma sociedade que a rejeita. Mas tem os mesmos desejos, e segue os mesmos padrões de beleza. O filme já abre com uma narração em off onde a mocinha diz que gostaria de ter um namorado claro, não escuro. Ela se vê no espelho e, nas suas fantasias, se enxerga não só magra, mas também branca e loira. Ela sabe muito bem que sua cor não é considerada bonita. E ela sabe que, como mulher, seu maior mérito seria ser bonita.
Nas suas fantasias, ela se imagina em programas de TV, glamurosa, sendo aplaudida, com um namoradinho — enfim, sendo aceita. Essas partes me lembraram as fantasias da Ellen Burstyn no excelente Réquiem para um Sonho, em que ela literalmente vai à loucura tomando pílulas para emagrecer. Mas a vida de Ellen em Réquiem é um paraíso se comparada à de Preciosa. Em Réquiem, ela tem um filho viciado em drogas que lhe rouba a televisão. Ou seja, fichinha, ué. Em Preciosa, a protagonista tem uma mamãezinha querida pra ninguém botar defeito.
É Mo'nique quem interpreta essa vilã. E é uma das vilãs mais assustadoras dos últimos tempos (desde o Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez, eu diria). Mo'nique é gorda (bem menos que Gabourey), e eu já vi um ou dois filmes gracinhas com ela que tentam melhorar a autoestima de garotas gordas. Num deles, Phat Girlz, um rapaz africano se apaixona por Mo'nique — afinal, o padrão de beleza no país dele (Nigéria? Nem lembro), segundo o filme, dá preferência às gordinhas. De toda forma, o que quero dizer é que Mo'nique não é uma desconhecida. Agora, com Preciosa, ela faz o contrário do que sempre fez. Seu personagem é detestável, rejeitado por todos (uma das últimas imagens é da assistente social se recusando a tocar no seu braço). Ela não tem uma única virtude. Bate na filha, a humilha, não trabalha, vive isolada, depende da rede social do governo. Há uma cena que não entendi, em que ela se masturba e grita para a filha ajudá-la, e fade out, a cena acaba. O que isso quer dizer? Que ela também abusa sexualmente da filha? Ela sabe que Preciosa foi estuprada pelo marido. E descarrega sua raiva na filha, não no marido.
A melhor interpretação do filme, pra mim, é a de Mo'nique. Ela tem uma intensidade incrível. Quando fala baixo, é aterrorizante, porque é meio que a fala de uma psicopata, prestes a explodir. Quando parte pra violência física, ela cresce na tela, fica maior que suas vítimas. Eu fiquei com medo dela. Além do mais, ela é falsa, enganadora, manipuladora. Uma monstra.
E é aí que o filme se complica, politicamente falando. Ele dá a entender que o maior problema de uma adolscente pobre, sem perspectivas na vida, é... a sua mãe. Enquanto Mo'nique domina a história, o pai de Preciosa nunca aparece por inteiro. Vemos só pedaços dele, em flashbacks. Difícil vê-lo como vilão da história, se nem ao menos podemos vê-lo. Mas é ele quem estupra sua filha. O filme joga toda a responsabilidade de suas ações na mãe. E, gente, sei que há mães terríveis, que abusam de seus filhos ou que sabem, e permitem, que seus maridos abusem deles. Mas são a minoria. Em geral, essas mulheres são também vítimas de seus maridos. Mas Preciosa não problematiza isso, não explica que estupros dentro de casa, pelo pai ou padrasto, são tão comuns. Ou que isso pode ser pior pra autoestima de uma menina do que a mãe chamá-la de gorda inútil.
O filme individualiza uma situação (a do abuso infantil) que é uma verdadeira praga, presente em tantos lares. E, pra piorar, ele dá a impressão de lutar pelo fim de um sistema de segurança social, né? Preciosa é um presentão pros reaças que defendem que pobre só sabe mamar nas tetas do governo. Aqueles que chamam bolsa família de bolsa esmola, sabe? E que creem que, se o governo retirasse o (pouco, minúsculo) auxílio que dá a essas pessoas que não têm nada, os problemas dessas pessoas automaticamente desapareceriam.
Esses dois mandamentos — mulheres são sempre suspeitas, quando não culpadas, e ninguém precisa de governo nenhum — são típicos dos conservadores, e eles ganham força em Preciosa. O que não me impediu de gostar do filme, chorar com ele, torcer para que a protagonista encontre sua voz. Mas, tirando a parte da defesa dos gays (o diretor, Lee Daniels, é gay), Preciosa parece feito sob encomenda pro atraso político. Sei que ele pode ser interpretado de outras formas. É que acabei de ler o fabuloso Backlash, de Susan Faludi (falarei dele em breve), e Preciosa soa como parte desse retrocesso, dessa luta contra as mulheres.

P.S.: Passei o filme todo achando que a Mariah Carey era a professora boazinha de Preciosa, não a assistente social boazinha. Ambas estão bem.
P.S.2: Gostei do carinha que faz o ajudante de enfermagem. Depois fiquei sabendo que é o Lenny Kravitz, famoso pra todo mundo, menos pra mim. Mas notem só como o filme critica as amigas de Preciosa por acharem que só mulher pode ser enfermeira. Como se as mulheres tivessem criado essa situação, ou esse preconceito...

52 comentários:

Dai disse...

Oi, Lola. Adorei sua crítica. Mas, tive um leitura diferente do filme. A minha impressão foi o mérito dele era justamente o de expor que mulheres como Mo'nique, por 'monstruosas' que pareçam, são tolhidas por um sistema, extremamente machista, da qual elas se tornam um canal de multiplicação, a partir do momento em que sua subjetividade é tolhida e massacrada pelo sistema. Eu chorei no monólogo dela com a Assistente Social, quando ela lança a questão: "quem irá me amar?". "Ninguém", é o que o diretor assinala (penso eu). Era o retrato de uma mulher despossuída, destituída de qualquer vestígio de dignidade, tentando defender-se da lógica comum (que não pauta nem escreve o roteiro de vidas como a dela). Há outras questões menores das quais discordo também, mas, de resto concordo com você,é um bom filme, capaz de "constranger" o grande público que está acostumado a novelinhas água com açucar e com potencial de levar as pessoas a refletirem sobre esse mundo-outro que, queiramos ou não, é nosso também.

Júlio disse...

Lola, vai ter bolão esse ano?

aiaiai disse...

Interessante vc citar o livro Backlash justo hoje...ontem estava pensando muito nesse livro.

Aproveito para colocar um trecho do prefácio, escrito pela própria Susan Faludi, em 1991, quando o livro foi publicado. Acho que algumas das suas leitores fariam grande proveito das informações desse livro que fala justo do retrocesso sofrido na nossa luta pela igualdade entre mulheres e homens. E quando digo "nossa", me refiro à humanidade, a todos os seres humanos.

"Ao promover a idealização da mulher tradicional,
da mulher lipoescultural, cujo trono
cativo ainda é o lar, os defensores do antifeminismo
buscam fomentar a baixa auto-estima
da mulher, enfraquecendo com isso a sua
luta pela igualdade de direitos."

Mariana. disse...

Lola, amei sua crítica. Preciosa, infelizmente, ainda não estreiou aqui em Cuiabá. Jurava que dessa semana não passava, mas... (das 18 salas da cidade, tres estão passando alvin e os esquilos ¬¬).

E aí, gostou das salas de cinema daí,então? Olha, eu estava me perguntando mesmo... agora você não tem mais a 'carteirinha' de crítica e tem que pagar pelo ingresso né? Fiquei pensando se isso diminuiria suas idas ao cinema, e consequentemente suas críticas aqui no blog. Espero que não (até porque voce tá mais rica agora né? hahaha).

E pra pagar meia (eu sei como é caro.. aqui em cuiabá, num fim de semana, um casal que paga inteira desembolsa 32 reais, é muito! Por isso vou só na segunda, eu e meu namorado, estudantes, só pagamos cincão!) eu sugiro que você seja doadora de sangue. O maridão também. Nem dói nada e ainda ajuda os outros. Voce só precisa fazer isso quatro vezes por ano! Quetal?

Roberta disse...

Tava mesmo pensando em assistir esse filme.É bem fora do padrão,pq não fazem mais filmes assim né

Shoujofan disse...

Lola, belísisma crítica. Não vi Preciosa, mas terei em mente os seus comentários quando assistir. Repassando direto para o Twitter e o Fecebbok.

Teresa Silva disse...

Oi Lola

Soube da história que envolveu a atriz do filme? A Vanity Fair pôs na capa algumas atrizes como "as promessas do cinema americano" e só mostrou atrizes brancas, magras e bonitas. Lembraram logo da Gabourey Sidibe, que apesar de muito elogiada deve ter ficado de fora por ser gorda, negra e feia. Mas esperavam o quê de uma revista Barbie?

Não vi o filme mas vejo que mostram a mãe pra dizer que, em se tratando de mulheres oprimidas, tem mulheres incapazes de serem solidárias com o drama de outras mulheres, ainda que se trate de sua filha. Lembra a história de horror que contou, da mulher que era omissa aos abusos que o marido praticava na neta?

aqueladeborah disse...

Lola,

Não li a crítica pois vou ao cinema vê-lo hoje :D

Por favor leia este meu post:

Lesbofobia, Intolerância religiosa:

http://aqueladeborah.wordpress.com/2010/02/19/para-os-meus-trolls/

Carolina Pombo disse...

Oi Lola. Ótima pedida! Mas, não gostei da sua crítica não! Esse papo de conservadores aqui e alí tá ficando chato... Um filme é sempre uma reprodução (crítica ou não, reflexiva ou não) do contexto no qual se insere, por isso, acho que a ausência de um personagem forte para o pai é um sintoma da questão e não uma maneira de reforçar a "CULPA" das mães. Acho que essa idéia foi meio forçada... Mas, obrigada pelo post! Vou tentar escrever algo sobre o filme tb, em breve, lá no blog.

Beijos

Fer disse...

Lola, uerida, interessante visão a sua. Entretanto, concordo com o comentário de Dai...tbém tive uma leitura diferente que caminha no sentido da dela. É justamente por causa de toda a repressão, de toda a humilhação,d e toda a violência sofrida que algumas mulheres (não generalizo) acabam vivenciando sentimentos como os da mãe de Preciosa. Ela (a mãe) precisa de cuidados, precisa saber que ainda é tempo de ser feliz, de mudar seu comportamento...mas é difícil, concordo. Acredito que os "fragmentos" do pai aparecem pq ele -apesar de ser o provocador de tudo - virou coadjuvante no tratamento dados ás personagens do filme: duas mulheres vítimas de violência doméstica que precisam de muita atenção para reerguerem suas vidas.

Enfim, não sou boa em análises de filmes, mas gostei bastante da sua visão (embora discorde um pouquinho).

Bjos apressados.
Fer.

natália disse...

oi lola! gosto demais do seu blog e leio sempre, embora nunca houvesse comentado. gostei bastante da sua crítica (como todas) e vou procurar assistir o filme pra formar a minha opinião. :)
a sugestão que eu queria te deixar (pra não dizer pedido mesmo, hehe) é que você assista e comente aqui o filme A Fita Branca. Eu vi recentemente, gostei muito, mas adoraria ler uma análise sua sobre ele.

Gabriel Nuoli disse...

oi lola, é a minha primeira vez comentando apesar de acompanhar alguns dos seus posts.

eu tenho esperado por esse filme faz algumas semanas e ainda não assisti (farei em breve). minha ansiedade se deve por justamente se tratar justamente de um filme feminino, de questões femininas (ao menos é a minha impressão - predominância de personagens femininos), que me despertam grande interesse mesmo sendo homem. eu adorei a sua crítica, mas embora não me sinta seguro pra descordar por ainda não ter visto o filme, quero me manifestar! primeiramente, acredito que por vc ser mulher e talvez mãe, vc se sinta muito atingida pelo filme. mas não vejo que o filme culpe todas as mães pelos males dos filhos. simplesmente para essa história a mãe serviu de judas (merecidamente). e em filmes de temática feminina o obstáculo da personagem sempre é outra mulher. a princesa sempre é o alvo da madrasta-rainha-má, nunca do padrasto-rei-mau. esse filme é uma fábula contemporânea, e como uma fábula, segue clichês.

eu agora quero ver o filme pra ter certeza que não falei besteira.

Anônimo disse...

Teresa,

A Gabourey Sidibe é negra e gorda, mas não feia. E faltou acrescentar que Gabourey mereceia estar naquela capa da Vanity Fair por um único (e importante)detalhe: ela está indicada ao Oscar de Melhor Atriz, junto com ícones como Meryl Streep. Carey Mulligan, que está na capa da Vanity, também foi indicada ao Oscar.

Grande abraço,

Sandra

Fernanda disse...

Oi, Lola! 8D

Então, eu leio o blog de vez em quando, mas nunca comentei, até porque as nossas opiniões são opostas às vezes - principalmente em críticas de filmes. Não me leve a mal e nem tome como ofensa, porque eu gosto bastante dos seus textos, mas eu realmente não gosto das suas críticas. Até quando a gente tem a mesma opinião, como em Avatar. Mas enfim, não é o caso aqui, até porque eu ainda nem vi o filme de Preciosa.

O que eu vim fazer foi te recomendar uma parada. Porque seguinte, eu já tinha visto o trailer de Preciosa (aliás, acho que foi aqui que me deparei com ele), mas, como maníaca por literatura que sou, não gosto de ver adaptações sem antes conferir os livros, então li Preciosa antes. E pelo seu post, pelo visto modificaram algumas coisas. Pra esclarecer, só, e ver se desperta o seu interesse: No livro a mãe realmente abusa sexualmente dela. Mas não há nenhum tipo de diminuição do crime do pai. Ele e a mãe são tratados igualmente pelo livro como "vilões" (não gosto desse termo, parece sugerir que eles são totalmente estereotipados e mal feitos). Inclusive, se não me engano, tem uma parte do livro em que a Precious afirma que o único que ela realmente odeia é o pai. E várias outras garotas do grupo também são vítimas de abuso sexual, algumas até dentro de casa, tipo a Rhonda, que é estuprada pelo irmão. E por aí vai, sabe.

Enfim. Só passei para te recomendar o livro mesmo, porque é muito bom e me parece algo de que você gostaria - eu adorei e, pelo menos em literatura, a gente parece ter opiniões parecidas (afinal, tu gostou de Para Sempre Alice e do conto "O Cobrador", né? Hahaha, toca aí). E é bem condizente com tudo que você diz, pró aos direitos dos homossexuais, feminista, etc. Muito bom. Procure se tiver tempo 8D

Má disse...

Oi Lolinha!
faz tempo que não aparecia por aqui, tb estive de mudança, agora morando em Campinas.
Como vai a vida nova?

Gostei da crítica.
Agora pior do que a vida da mãe de Réquien para um Sonho....vixe, isto deve ser terrível mesmo, pois aquele filme deixa qq um se sentido sortudo mesmo em país periférico..

Abração e boa sorte por aí!

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Li só o começo da crítica e já me animei a ver o filme...

Abração Lola!!

Vivien Morgato : disse...

Como eu já comentei aqui, o Dragão do Mar foi um dos lugares que mais gostei em Fortaleza. Fui lá quase todas as noites, pois havia sempre algo pra fazer.
Li algo sobre o filme hoje, ainda não assisti porque achei bem punk, acho que tenho que dar uma preparada pra ver e não cortar os pulsos.
Em relação à culpa, concordo em partes com vc, pois se o pai é o criminoso, ele deve ser culpado.
Mas te confesso que o silêncio dessa mãe e de outras na mesma situação me chocam igualmente. O silêncio copassivo de quem permite o mal..é o mal. Como no caso antigo do índio pataxó, onde filhinhos de papai colocaram fogo e outros..."só" olharam.
Beijos.

Felipe Guimarães disse...

Lola, li sua crítica e fiquei com muitaaa vontade de assistir o filme (antes eu não estava), mas descordo com uma coisa,em partes, que você falou : do bolsa família.
Sim, tem muita gente que precisa (e para isso foi criado) e tenho consciência disso, mas tem muita gente que abusa.
Minha mãe é professora de escola público e sempre ocorre um fato na escola dela que é quase comum: os pais tem 6 ou 7 filhos para recebem o Bolsa Família, e, ao invés de investir nos filhos, os pais gastam a grana (isso já ocorreu muitas vezes, entre elas um pai era alcoólico que ficava o dia todo no bar).

Sim, muita gente precisa porque precisa se sustentar, mas muitas pessoas abusam. Sim, deveria existir (e ainda bem que existe), mas deveria haver alguns critérios de avaliação (ou um "limite" de filhos ou educar as pessoas mostrando o que é um preservativo [acho que deveria ser lei ter aulas de orientação sexual. Será que já não é? Eu tive pelo menos, e isso numa escola católica].
Não estou falando isso porque sou, de acordo com meu amigo, de direita (sou democráta, todos são iguais e todos tem que ser ajudados igualmente, claro que os que mais precisam, com mais atenção), mas temos sim que acabar com esse abuso.
E sabia que isso não acontece só no Brasil (já que todo mundo fala "isso só acontece no Brasil")? Agora com a crise fincanceira, tem um suporte para desempregados na Europa. Uma conhecida da minha mãe tem um parente que mora por lá e perdeu muitas empregadas em duas semanas. Para a última ele perguntou: "Por que você vai embora?". Ela respondeu: "Pra que vou trabalhar se posso não fazer nada e receber a mesma quantia?". Ou seja, não existe a diferença que todos falam de Terceiro e Primeiro Mundo: humanos são humanos.
Pois é, é a vida!

Diêgo Cesar disse...

Lola, adorei a crítica; e olha que eu estava deixando "Precious" de fora da minha listinha pré-Oscar. Do jeito que vc colocou, parecer ser um filme muito intenso. Sabe, foi esse poder de fazer refletir sobre a realidade que me chamou a atenção pro cinema. Se este longa estrear cá em Natal, vou vê-lo. A minha esperança quando aparecem filmes que tratam de questões sociais e preconceito é que as pessoas que os assistam assimilem algo, que mudem algum comportamento, que não saiam da sala de cinema e, automaticamente, deletem toda a informação.

Marie disse...

Ai aiaiai... depois de teu segundo comentário de ontem (machista e preconceituoso) eu perdi todo o respeito que tinha pelas tuas opiniões. Não que eu ache que isso vá fazer diferença pra ti, pois pelo que vc escreveu vc nem sabe o que significa a palavra respeito. Mas eu não quis deixar de comentar que citar idéias feministas logo depois de tentar diminuir outras mulheres as chamando de prostitutas é no mínimo contraditório.
Desculpa Lola me meter no teu blog, mas detesto me calar diante da hipocrisia.

Carãozn disse...

Olá Lola, adoro seus textos todo me fazem refletir muito! Peço também que faça uma crítica sobre A Fita Branca!...acompanho seu blog há mais de um ano e essa é a 1ª vez que comento, justamente por que assisti ao filme e fiz uma leitura diferente da sua. Acredito que o filme não fortalece o discurso da Direita que é contra as politicas públicas de assistência social e não reforça a culpabilidade da mãe sobre todas as desgraças que a filha enfrenta, achei que ele somente nos revela a realidade que grande parte da sociedade legitima, isto é, a culpa sempre é da mulher!
Mesmo a mãe sendo vítima ela se torna a culpada quando "permite" que o padrasto estupre sua filha, infelizmente esse é o discurso que a sociedade tanto propagandeia, o padrasto não é culpado e sim a mãe que permitiu ele em sua casa! Claro que o filme poderia ter utilizado a situação para desmitificar esse consenso, ou melhor esse absurdo! mas ele quis somente mostrar essa realidade maquiada pelo machismo.. para que nós espectadores questionassemos justamente isso " mas e o padrasto que estuprou fica em segundo plano? não vai ser responsabilizado?
É não vai ..por que essa sim, é a triste realidade em que vivemos!
A mãe até foi negligente.. mas não é a culpada por tudo que Precious sofreu, mas a Assitente social não quer saber disso, como também a sociedade em que ambas estão inseridas!
Espero ter contribuido para discussão e gostaria de saber o que você achou da lista de indicações do Oscar 2010 comparado com a de 2009?
Abraços
Marcela

Anônimo disse...

olá perdi o interesse pelo seu texto quando esbarrei na frase "Em Réquiem, ela tem um filho viciado em drogas que lhe rouba a televisão. Ou seja, Fichinha, ué." Não entendo esse tipo de comentário, vc já passou pela situação de ter filho viciado em drogas? o que aconteceu com ele, conseguiu se recuperar? Se matou? Foi assim tão fácil pra vc?

Anália disse...

Obrigada a Marie e a todos que se posicionaram sobre o comentário preconceituoso e grosseiro.
Mas até que é bom que esse tipo de comentário venha à tona, pois em geral o preconceito é velado, o machismo vem travestido de feminismo.
Assim, quem sabe a gente terá oportunidade de discuti-lo melhor. Pena que a Lola não esteja acessando os comments, quem sabe quando ela voltar!
Abçs,
Anália

karina disse...

Gente, não estou conseguindo passar batido por esta crucificação do comentário da aiaiai. Releiam o comentário dela e vejam se é pra tudo isso mesmo. Que bola de neve. Hoje eu estava lendo uma entrevista da Elisabeth Badinter na Elle francesa, e ela discute os mesmos pontos colocados pela aiaiai. Como mãe de um petit garçon de apenas três anos, consigo checar cada ponto colocado na carne. Ela fala de uma exigência de retorno ao lar que vem ganhando campo nos ultimos anos, seja por uma questão de mercado (mães pobres têm custos muito menores ficando em casa), seja por uma questão moral alienante (o bebê é o centro da casa, da vida, do mundo). Para Badinter, este estado de coisas, este retorno á casa, é uma séria ameaça aos direitos femininos mais fundamentais. Ficar em casa é alienante sim, te afasta do mundo, do tempo do mundo. Se trabalhar não é uma opção masculina, porque diabos deveria ser uma opção feminina? e, no limite, quem não trabalha de um modo ou de outro tem que pedir dinheiro para alguém, direta ou indiretamente... sei que o problema é com o ´paralelo que a aiaiaia fez com a prostituição. Mas que um adulto depender de outro para comprar até escova de dentes é um troço esquisito, ah, isso é. Enfim, Aiaiaia, concordo contigo.

karina

Ághata disse...

Gabriel Nuoli, de onde vc tirou que Lola é mãe?? XD Deve ter uns novecentos posts aqui de lola afirmando que não é mãe e nem quis ser!

Marie disse...

Oi Karina! A opinião da aiaiai pode ser longamente dialogada e posso até concordar com ela e contigo em vários pontos, mas a falta de respeito a que me refiro foi o segundo comentário dela... foi quando ela se negou a olhar para uma opinião diferente e simplesmente chamou de prostituta quem discordou dela. É aqui que aparece de forma gritante o modo machista e moralista de pensar. O que me agride nesse contexto não é a palavra prostituta em si, mas o fato dela ser usada como uma forma de julgar o valor de uma mulher. Eu esperaria esse tipo de comentário debochado de algum troll, mas não de uma pessoa que se diz antenada com a realidade feminista. Essa forma preconceituosa de falar não ajuda no diálogo.

Ághata disse...

...peraí, esta frescura toda foi porque aiaiai num comentário usou a expressão "prostitutas de maridos" fazendo referência à "donas de casas" que dependem financeiramente do marido e vivem de criar crianças?
Ah, meo deos... Menos.

Então, eu gostaria de dizer que acho que, de fato, é um termo pejorativo, sim, mas pras prostitutas, né.
Quer dizer, elas tem de se submeter a todo tipo de coisa para conseguir o seu sustento e serem comparados logo com as meninhas que deixam de ser sustentadas pelo papai para serem sustentadas pelo marido...?

É muita avacalhação.

Ághata disse...

Oks, falando sério, agora:

- O segundo comentário eu não vi;

- As meninas podem ficar ofendidas mas existem sim muitas mulheres que, devido a dependência financeira, não se divorciam e aguentam comportamentos absurdos por parte do marido;

- não dá pra apoiar um estilo de vida na qual alguém vai viver às custas de outro alguém devido a um relacionamento amoroso. Não dá, porque o relacionamento pode acabar e aí? A pessoa que é dependente financeiramente vai fazer o quê? E nossa sociedade só aceita isto porque o macho tem o papel de provedor e a fêmea tem papel de sacrifício.
Se a pessoa quer porque quer dependender do cara só pra cuidar de criança, oks, mas não dá pra defender este comportamento como algo exatamente válido. *Oi, vamos lutar pelo direito de, hã, abrir mão da independência? Porque, querida, não tem independência, em nossa sociedade, com dependência econômica.*

karina disse...

Ok, Marie. Entendi, agora. Ainda assim acho que houve uma bola de neve. Mudando de assunto um pouco, tô super a fim de ler este novo trabalho da Badinter. Em francês ele se chama "Le Conflit. La Femme et la Mère". Não sei o titulo original ou se haverá tradução para o português. Alguém sabe?

Liana disse...

ser feminista é não aceitar q existam mulheres q vivam às custas dos maridos? E se elas escolheram isso? Tô fora!!!

tenho PAVOR de depender de qq pessoa q seja, mas quem quiser viver assim q viva. Difícil respeitar e aceitar q existam pessoas q queiram viver assim? Muito difícil aceitar escolhas diferentes das nossas? PAVOR de feminista q pensa assim e PAVOR de machista q pensa o oposto disso. A favor da liberdade de cada um viver como bem entender sem ser julgado por isso (ou comparado com "prostituta de marido" - eu vi o coment... pq apagaram? vergonha?).

Ághata disse...

Ué, ninguém tem de aceitar nada, Liana, agora, dizer que isto é uma 'escolha'...?
Acho que a maioria das mulheres vive desta forma por pressão de marido. Pelo menos, as que eu conheci que não trabalharam foi por isso. Agora, é claro que deve ter muitas que escolhem viver assim (do mesmo jeito que existe um bando de filhinhos de papai que chegam aos 28 sem trabalho, só vivendo de farra, com o papai sustentando).
O que há para se orgulhar numa 'escolha' dessas...? Isso é escolha ou oportunidade?
Se tua classe social - ou a do seu marido - permite estes privilégios beleza. Mas é só isso, privilégio. (Agora, eu acho que é bom as mulheres estarem preparadas porque estão numa posição muito vulnerável.)

E acho besteira ficar se ofendendo com esse negócio de prostituta, acho que aiaiai pode sim ter exagerado quando falou das mulheres que, para não trabalhar, viram gato e sapato do marido, - acho que ela quis exagerar na ideia para entenderem o ponto de vista dela - mas ela não tava falando de ninguém em espécifico, estava falando de uma tendência de comportamento.
E acho válido sim discutir e dar opiniões sobre determinados comportamentos que são originados do sistema patriarcal.

Isabella disse...

Oi, Lola! Tudo bem? Passo por aqui de vez em quando, desde que a descobri através do blog da Marjorie Rodrigues. Seu espaço tem muita coisa interessante. Até hoje, no entanto, eu nunca tinha comentado. Assisti "Preciosa" e estava procurando por críticas. Acabei dando de cara com seu post (que bom!). Parece que tivemos uma visão bem distinta do filme, embora tenha achado interessante o seu ponto de vista. Não acho que passou a mensagem simplista de que "a culpada é a mãe", "a mulher é sempre a culpada". Preciosa é um filme que, a meu ver, não traz mensagens mastigadas, conclusões óbvias e legitimadoras do sistema, do machismo, da discriminação. Muito pelo contrário. Por exemplo, como vc mesma ressaltou, vemos a personagem principal se imaginando magra, clara e loura ao se observar no espelho, o que de modo algum leva (ou não deveria levar) à conclusão de que “mulheres se preocupam exageradamente com a beleza, causando seus próprios sofrimentos” ou, pior, “negros são racistas com eles mesmos, sendo responsáveis pelo que sofrem”. O que vem à cabeça é que é triste e injusta a situação de objeto/enfeite/apetrecho sexual a que a mulher não consegue escapar na sociedade, e ainda por cima tendo de se ajustar a um padrão. Eu senti uma tristeza profunda ao pensar que, mesmo nos sonhos em que Preciosa buscava fuga da realidade, seus devaneios giravam em torno de suas roupas, corpo, sexualidade, um homem protetor (branco e “do cabelo bom”). Da mesma forma, a personagem da mãe, quando entendido dentro de todo o conjunto do filme, não me permitiu essa conclusão de que “a culpa é da mulher”. O pai, em sua ausência, não me passou despercebido de forma alguma. O filme o invoca a todo momento, pelos rastros que ele deixou: além dos terríveis flashs dos estupros, observamos o rancor e desequilíbrio da mãe (claramente vinculados a ele, como revela o final do filme), os filhos sofridos de Preciosa, a infecção pelo vírus da AIDS. O pai se revela totalmente na sua ausência e no que deixou para trás. E o filme volta-se, então, principalmente para as personagens femininas. A mãe, de fato, é terrível e causa revolta, mas é uma personagem tão complexa que não se pode resumi-la no estereótipo de “vilã”. A impotência e desgraça de Preciosa não me parecem dever-se principalmente à mãe, mas a esta e, ao mesmo tempo, a todos os que magoaram e aos que a negligenciaram, colocando-a sob a dependência desta mãe, portanto largada ao arbítrio desta. O que me agradou muito nesse filme é que não há uma pretensão de empurrar uma noção de “essência feminina”: mostram-se mulheres complexas e distintas. Preciosa, a adolescente com uma vida tão difícil e vivendo tantos dilemas; a professora homossexual, prestativa e humana que oferece tanto alívio emocional a Preciosa e suas colegas; a mãe cruel, omissa, carrasca e com um quadro psicológico tão deturpado e complexo, conforme vemos no fim do filme; a assistente social bem-intencionada e chocada com a história da família; as colegas de classe tão diferentes, incluindo aquela que, num mundo machista, não deixou de se impressionar com o enfermeiro (“profissão de mulher”)... Em suma: mulher é gente! E mulher também está inserida no mundo, tal como ele é (machista, racista, excludente...), ainda que ela esteja em desvantagem na sociedade em que se insere.

Isabella disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabella disse...

Ao contrário, o filme “Avatar”, sobre o qual li uma crítica positiva sua, me irritou nesse aspecto: pareceu consagrar aquele mito clássico da mulher mística/mãe natureza... A mulher é imanência, natureza, vida e morte, mistério, amor, generosidade, intuição (razão é sempre pra homem), blá, blá, blá... É só reparar que, a despeito da mãe “líder espiritual”, o líder do clã é o homem. A moça diz a Jake Sully, em dado momento, que ele poderia “escolher agora uma mulher”. Bondosamente, então, ele concede a esta mulher a faculdade de escolhê-lo também, o que não me pareceu ser do costume do povo. Detesto qdo encerram as mulheres dentro de uma essência inventada, quer a pretexto de dizê-la “superior” (sempre espiritualmente, simbolicamente ou de um jeito que reforça preconceitos reais em troca de uma vitória cinematográfica), quer para inferiorizá-la descaradamente. Tenho problemas com quem separa homens e mulheres em dois grupos estanques e consagra essências masculina e feminina, ainda que reconheça de forma cavalheiresca uma generosa "superioridade feminina" sem qualquer vantagem concreta. Nossa, é por isso que eu num comento. Escrevo demais. Desculpa. :-p

Anália disse...

Realmente é muito assustador ver pessoas que se arvoram como juízes de como os outros vivem. A gente não tem que entender nada da vida dos outros, porque isso é simplesmente impossível: vc nunca vai saber quais as experiências, necessidades, vivências dos outros. Quem acha que pode condenar os outros o faz com base apenas em uma óptica subjetiva e portanto, distorcida. A gente tem que aprender a ser humilde e respeitar as escolhas alheias, mesmo que elas sejam muito diferentes das nossas.
Agora a história de "prostitutas do marido" realmente foi a cereja do bolo! Falta de tolerância e de educação mesmo!
Anália

Samira disse...

Gosto demais deste blog e acho que em geral se criou uma boa discussão a partir do comentário da aiaiai.Aguardo agora o post da Lola sobre o assunto e as novas discussões que certamente se seguirão.
Mudando de assunto, queria comentar sobre o que disse o Felipe, sobre o "abuso" de quem recebe os benefícios sociais. A Lola até já comentou esta questão para o Brasil, então não vou nem falar do caso do bolsa-família, mas o caso das empregadas européias. É uma escolha perfeitamente racional preferir ficar em casa se é pra receber a mesma coisa, e é difícil pra mim entender pq as pessoas não vêem desta forma. Empregada doméstica não costuma ser o emprego dos sonhos de ningém, e não tem a menor perspectiva de progressão funcional, certo? Não conheço nenhuma empregada que começou como junior,evoluiu pra senior,e se aposentou como master. ou seja, o emprego do qual ela hoje pediu demissão, quando acabar o benefício ( deve ser o seguro desemprego) estará lá do mesmo jeito que ela deixou, ela não perdeu nada, até pq ninguém quer saber quantos anos de experiência tem uma empregada doméstica... Então, não é melhor ficar em casa e fazer o que gosta, ou aproveitar o benefício pra tentar se qualificar pra consegui um emprego melhor depois que o prazo desta acabar?? Se há algum problema nesta situação, é ou o nível do salário que está muito baixo ( Como é o caso do Brasil) ou o nível do benefício que foi estabelecido pelo governo (e eu acho que não é isto...).

karina disse...

Ô Liana, e quem aqui está dizendo como a Maria, a Paula, e a Fernanda têm que viver? estamos discutindos modelos, idéias, perspectivas de vida, que se manifestam mais ou menos nas vidas das pessoas, de um modo pra uma, de outro modo pra outra. Mas generalizações são fundamentais na situação de uma discussão... ah, que bobagem monstro vc escreveu. De acordo com você, então, não se discute nada, né?" cada um faz o que quer, cada cabeça uma sentença, e fica como fica. Humpf.

Ághata disse...

Ninguém aqui tava apontando o dedo pra cara de ninguém, tava falando de comportamento, por isso acho descabido ficar ofendida com isso.

[Mas notaram as discussões paralelas? Gente defendendo o direito[?] de algumas mulheres viverem às custas dos maridos (o que leva a uma posição vulnerável) e outras pessoas atacando as pessoas que, com auxílios do governo, conseguem sair de uma situação de exploração (empregadas domésticas trabalhando mais de oito horas e ganhando salário de fome).]

Vivien Morgato : disse...

Eu li os comentários e vou me arriscar a dar uns pitacos aqui.

Não creio que o fato de trabalhar seja, necessariamente, um fatos que liberte pessoas de opressão. Não sei se me faço clara, mas ser controlada ppor um patrão não me torna mais "livre".

Eu trabalho desde os 16 anos, hoje sou professora e convivo com amigas que optaram por trabalhar fora da sua casa e outras que optaram por trabalhar dentro da sua casa.

O que constatei é que nos dois grupos, repito, nos dois grupos, independentemente da escolha, existem mulheres acuadas, oprimidas por seus companheiros...e existem as que efetivamente vivem em uma situação de dcompartilhamento e respeito.

Estou careca de ver inúmeras professoras que trabalham há dois mil anos murmurarem frases tão machistas e obedecerem ( sim, obedecerem ) a seus maridos apesar da suposta independência financeira.


Assim como estou careeeeeca de ver mulheres que, por diversos motivos, optaram por ficar em casa por alguns anos ou por tempo indeterminado e são mulheres seguras e respeitadas por seus parceiros.

Não credito em "liberdade" dentro do capitalismo....as classes populares já convivem com o trabalho feminino há décadas, não sendo esse um estandarte que glorifique mudanças. Depender do patrão e do lucro do mesmo? Isso realmente seria liberdade?

Quanto a comparação com prostitutas, subtraindo aquelas que podem se dar ao luxo de escolher seus parceiros, a maioria faz sexo sem desejo, com aquele que paga. Comparar o cotidiano de uma mulher sem escolha com outra com escolha, apenas porque ela decidiu não ser "livre" dentro do capitalismo, me parece uma redução ímpar.

De mais a mais, homens interessantes continuam interessantes tendo suas companheiras trabalhando ou não...e os canalhas, esses permacem canalhas.

E viva a diversidade.

Liana disse...

Ághata,
EU CONHEÇO algumas mulheres q sim, ESCOLHERAM viver assim pra se dedicar aos filhos e sofreram foi pressão do marido pra não largarem tudo, e sim contratarem babás etc. Eu nunca faria isso, mas quem quer q faça e eu não tenho nada q criticá-las.
E não, não me ofendi com o "prostituta de marido" - até pq não sou e nunca pretendo ser uma. O ofensivo é a falta de respeito com as mulheres q assim vivem, seja por escolha própria, seja pela falta de escolha. O mínimo é respeitá-las. E se há falta de escolha, quem deve ser criticado não é a mulher, sim a sociedade, o marido, afinal, elas não escolheram isso.

Karina,
discutir é bem diferente de querer impor sua opção aos outros e/ou não aceitar as escolhas alheias (e é isso q vejo aqui nos coments, inclusive quando aparece algum coment discordando do geral). Bobagem dizer q cada um q viva como quiser??? Pra mim bobagem é julgar os outros por como eles vivem - e sim, cada um q viva como quiser.

Arslem disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ághata disse...

Liana, se uma mulher quiser viver desta forma ou mesmo se tornar prostituta, ninguém deveria dizer pra ela não viver assim ou de outra forma. Não tô criticando fulana ou sicrana, não critico nem meus amigos que tomam droga, afinal, foi escolha deles, né?

Agora, que eu saiba aiaiai estava criticando tendência de comportamento e não alguém em específico, pra mim É diferente.
Uma coisa é falar mal de sicrana porque ela faz isto e aquilo e outra coisa é expressar sua opinião por tendência de comportamento.

É, eu também não viveria desta forma. Por que será que você não viveria desta forma? Eu não viveria assim porque só traz prejuízo para a mulher. Todo mundo é muito legal até deixar de ser. Num dia o cara tá pagando suas contas, no outro te larga na rua junto com uma criança recém nascida ou pequena e se nega a pagar pensão. E aí? Cadê sua escolha? Que escolha você tem? A escolha é do seu marido: se ele vai te sustentar ou não.

Mas, não sei se me enganei, mas as prostitutas de marido a quem aiaiai se referia eram mulheres que se sujeitam a determinadas situações para continuarem sendo sustentadas por marido. O que é diferente de mulheres que abdicam de carreira e independência para cuidar de pivete. (Embora eu ache que, no final das contas, ficam vulneráveis do mesmo jeito.)

Pois é, acho que aiaiai carregou na expressão para expressar sua opinião de um jeito bem forte, mas, como disse, acho exagero este estardalhaço por causa disso.
[Acho que é mais falta de respeito usar o termo 'prostituta' de forma pejorativa do que se referir á outra pessoa desta forma, sinceramente.]

Sim, eu tbm acho que quando há falta de escolha para a mulher, a responsabilização é da sociedade, mas não acho que aiaiai esteja se referindo a elas. Posso ter entendido errado.

karina disse...

Liana, repito. Não estou julgando o modo de vida de ninguém. Conheço várias mulheres que não trabalham e nunca, em nenhum momento, sou desrespeitosa com elas, ou sou incapaz de entender seu modo de vida. Mais uma vez, estamos falando de modelos e orientações gerais.

Mas, vamos particularizar a coisa um pouco, então.

Existe um contexto geral em que vivemos no qual eu só consigo obter uma escova de dentes se eu der dinheiro em troca dela. Nunca ganhei nada do Carrefour. Quer dizer, até ganhei, umas degustações de cafezinho, mas eu não conseguiria me nutrir com isto.

O trabalho oprime e não é libertador, vc tem razão. Existe toda uma idelologia do valor do trabalho que é, quem sabe, o que há de mais opressor no mundo. Mas, vamos às alternativas. Dado este sistema geral em que não me deixam levar a minha escova de dentes sem pagar e nem me deixam entrar no cinema quando bem entender, também sem pagar (absurdo), posso estar nas seguintes situações:

a. trabalho, recebo um dinheiro em troca e compro a danada da escova.

b. não trabalho, meu marido me dá dinheiro e eu compro a minha escova

c. sou incrivelmente rica, não trabalho e compro a escova de dentes assim mesmo.

d. não escovo os dentes.

A unica alternativa que se aproxima de alguma coisa parecida com liberdade é a alternativa c, mas a probabilidade de eu estar nela é muito pequena. Ou a alternativa d, mas eu não consigo ficar sem escovar os dentes. Detesto mal hálito, sou fumante, então tenho que cuidar dos meus dentes melhor do que os outros.

A alternativa b - meu marido me dá dinheiro para comprar a escova - implica em uma séria de relações conflituosas, que podem até ser menos opressoras do que o trabalho, mas que dão mais trabalho do que o trabalho.

Me sobrou a alternativa a. Sou adulta, pago a tal da escova de dentes e fico limpinha por conta prória. Nem preciso falar pra ninguém o que vou comprar.

Entendeu? dos males o menor (rss se meu chefe ler isto vai descobrir que não gosto muito de trabalhar)

É óbvio que eu sei, e até escrevi isto em algum comentário anterior, que existem situações - muito comuns, aliás - em que o custo de se trabalhar fora é maior do que o custo de ficar em casa. Foi o caso da minha mãe, particularizando, de novo. Sem formação técnica ou superior, na verdade sem qualquer escolarização, ela não receberia um salário que pagasse creche, escola, etc. Era mais barato ficar em casa. Mas ela pagou o preço.

Ou situações em que uma mãe sinta ser melhor para o desenvolvimento afetivo, cognitivo ou seja lá o que for do filho, ficar em casa com ele. Altamente discutível, assunto para outra discussão, mas adianto que o risco do rei bebê é grande, assim como o risco do bebê em detrimento a tudo.

Mas essas particularidades não mudam o caráter da discussão geral, desta questão dos modelos, etc.

Liana, não me leve a mal por ter escrito tanto, gosto muito das suas opiniões, do modo como escreve, até sou leitora do seu blog.

Lola, desculpe por usar seu blog para escrever este testamento. Quase um post, né? mas é um assunto no qual tenho pensado bastante...

Ághata disse...

Aaaah, Liana!! A Liana do Blog Life is a drag!!!
[Não sabia!]

Liana disse...

Karina, levo a mal nada, por mim todo mundo tem mais é q expressar sua opinião. Só não gosto é das pessoas julgarem outras e acharem q sua opinião ou opção de vida é melhor q a dos outros (não estou dizendo q vc fez isso, pra ficar bem claro).

Felipe Guimarães disse...

Samira, minha empregada por exemplo, ganha mais ou menos mil e poucos reais por mês, sabe por que? Nunca parou de trabalhar. Tenho ela desde que era criança e amo ela! Claro, muitas pessoas dão salário mínimo e acabou o assunto, mas meus pais (e quando eu morava com minha avó, ela também) não apenas respeitavam o trabalho dela como demonstraram conhecimento ao aumentar o salário dela. Como? Trabalhando oras! E uma coisa: esse seguro desemprego da Europa deve acabar rapidinho. O que as empregadas vão fazer? Sair correndo pra pegar um emprego? Quem vai aceitar? Melhor já ter o seu e investir nele do que não fazer nada...

Felipe Guimarães disse...

SAmira, Claro que o salário dela ainda é baixo, mas de quem não é além de politicos e empresários? Sem falar na ajuda que minha fez, pagando material escolar dos filhos, ajudandado quando um tivesse que ir ao hospital, ajudando na aposentadoria dela, ou seja, sempre ajudamos ela. E não sou milionário não: minha mãe é professora do Estado (trabalhou duro por tão pouco, pois ama o que faz e prefere ficar fixa do que ser despedida do nada como fizeram no meu colégio esse ano, demitindo muitos professores, mesmos os que estavam lá há muito tempo) e meu pai trabalha numa empresa. Recebemos bem, mas quem disse que da para sustentar tudo? Às vezes dá, às vezes precisamos de empréstimo.

Mariana. disse...

Olhem, me desculpem os defensores da aiaiai, mas no outro post ela SE RECUSOU a argumentar SIM, porque não iria 'discutir com prostitutas dos maridos'.

Acho ela uma retardada. E essa patrulha feminista distorce as idéias do feminismo e simplesmente ignora a liberdade de escolha.

Anália disse...

É isso aí, Mariana. Assino embaixo.
Anália

Anônimo disse...

Vc deve ser uma pessoa incrível. Pena que insista em enxergar tudo e todos como uma enterna guerra dos sexos... Em nenhum momento vi nenhum tipo de mensagem, seja conservador, seja machista ou feminista nessa película.
Seja menos neurótica, pra não acabar correndo o risco de lutar contra moinhos de vento... bjos

Binha disse...

No filme faltam momentos importantes do livro. Claro, o filme tinha que ficar mais leve, o livro é muito pesado, descreve o abuso dos pais com detalhes e palavras que não cabem na telona. Mas achei que faltou um pouco da experiência dela no grupo de pessoas que sofreram abuso por parte de parentes próximos. Ela percebe que o fato de ser negra e gorda não faz dela uma pessoa sem valor e por isso odiada por seus pais. Ela percebe que o que sofreu foi estupro, porque antes ela sabia que era errado o que o pai fazia mas não sabia nomear. Ela se espanta ao ver a quantidade enorme de mulheres abusadas sexualmente por pais, irmãos, tios, e percebe que há muitas mulheres brancas, com dinheiro, que também sofreram abuso. Nessa hora ela se dá conta que o problema não é ela. Como feminista dá uma vontade enorme de que nessa hora a cultura do estupro seja abordada no filme/livro!
Também acho problemático no filme a culpabilização das mulheres. O filme enfatiza muito a mãe, o livro menos.
A

Sheila Campos disse...

Lola, boa tarde!

Apesar de já a ter visto ao vivo, de adorar suas colocações, de admirar profundamente seu ativismo, é a primeira vez que comento em seu blog.

Assisti "Preciosa" também por ocasião de seu lançamento, e confesso que algumas das passagens que cita eu já havia até perdido nas lembranças... Mas adotei a partir da experiência uma espécie de "slogan" para explicar minhas próprias dificuldades a amigos muito próximos: "quem teve a mãe que tive, não precisa inimigos; você assistiu 'Preciosa'? Aquela é a minha mãe"!...

Concordo com você quando aponta que há uma demonização da(s) mãe(s) e uma omissão perversa da responsabilidade e culpa dos pais quando se trata de famílias tão desestruturadas. Em minha casa, fui vítima de uma violência física indizível; no entanto, mais de vinte anos de terapia foram necessários para que eu começasse a reconhecer meu pai como co-autor daquela realidade, como algoz de igual importância. Em parte isso aconteceu porque levei surras atrozes dele INSTIGADAS por ela (!); então, só identificava minha progenitora como inimiga.

O machismo de minha mãe era (e é) tamanho que a levou a odiar a própria filha (primogênita), confundindo-a com uma rival!... Todo o processo de "reprodução" da mentalidade patriarcal - a rivalidade entre mulheres, o ódio pela outra, a raiva pela juventude frente ao próprio envelhecimento, o ódio pela liberdade que a nova geração terá quando já não lhe restam forças para lutar pela sua própria, etc, etc. e tal...) me escapava.

Agradeço demais pela publicação! Desculpe-me pelo desabafo, aceite meu beijo fraterno! __/\__