sábado, 2 de fevereiro de 2008

SEXO, SÓ NA TEORIA

Aproveitando a inspiração da foto abaixo, vou falar de sexo. Não precisa tirar as crianças da sala nem nada, que só ficarei na teoria. Vou apenas contar por cima o que vi ontem no “The History of Sex”, do History Channel. Nenhuma grande novidade, pelo menos pra mim (que estou longe de ser uma sexóloga ou expert no assunto, mesmo na teoria, porque casada e monogâmica há quase 18 anos, a gente não se pega mais praticando muito): os anos 20, com a euforia pós-guerra, foram de enorme liberação, ao menos nos EUA e na Europa. Se você leu “O Grande Gatsby” ou outros livros do F. Scott Fitzgerald, e se viu filmes com o Valentino, você já sabia disso. Foram os “Roaring Twenties”, “a era do jazz”, de festas luxuosas, que só ficavam mais lascivas com a Lei Seca (proibir alguma coisa faz mais gente querer burlar a lei). Havia muito sexo fora do matrimônio e até gays saindo do armário, num tipo de liberação de costumes que demorou quase 40 anos pra voltar à tona. O Código Hays apareceu pra conter a permissividade no cinema. E aí veio a Grande Depressão de 1929 e acabou de vez com essa “pouca vergonha”. Hollywood continuou auto-censurando seu cinema por mais três décadas. Os filmes não podiam mostrar qualquer ato sexual, nudez, homossexualismo, drogas – pô, não podiam nem mostrar um casal casado dormindo na mesma cama. Os beijos eram cronometrados e não podiam durar mais que dois segundos (imagens do carnaval carioca estariam fora de cogitação). Ah, uma revelação fascinante do documentário do History Channel: lembra como recentemente eu mais ou menos tava falando mal dos carros? Pois bem, tudo tem seu lado bom - a popularização dos automóveis nos anos 30 fez com que montes de jovens pudessem experimentar sexo antes de casar, no “conforto” do seu carrinho (eu pus aspas porque, ahn, não é confortável coisa nenhuma, como você deve saber se já passou por isso). O final da Segunda Guerra não trouxe o mesmo tipo de alegria do final da Primeira. Ainda assim, milhões de americanos tiveram filhos, os chamados baby-boomers (geração da qual a Hillary Clinton faz parte; meu orientador apóia o Obama porque tá cansado deles, dos boomers). Os anos 50 foram de prosperidade, mas nem um pouco de liberdade sexual. Homossexualidade era tratada à base de eletrochoque (veja “Longe do Paraíso”). Pelo menos começaram a pipocar estudos médicos tratando do prazer masculino e, tabu dos tabus, do prazer feminino (Hollywood ainda lida pessimamente com essa parte). Só no final da década de 60 chegou a pílula e com isso a revolução sexual, com seu auge na década de 70, das discotecas e tal. Depois veio a AIDs e mandou parar. E hoje, onde estamos? Somos conservadores, reaças ou liberados em relação a sexo? Difícil dizer...

ONDE AS LOLINHAS NÃO TÊM VEZ?

Acho até sacanagem colocar essa foto do Josh Brolin, Kelly Macdonald e Javier Bardem divulgando “Onde os Fracos Não Têm Vez” quando o filme ainda não estreou em boa parte do Brasil (pelo jeito não é só em Santa Catarina). Mas você, minha querida leitora, uma das cinco, responda sinceramente: não é pra m-o-r-r-e-r de ciúme da Kelly? Chuif, chuif.

CRÍTICA: HOSPEDEIRO / O monstro do lago coreano

Só na semana passada finalmente vi em DVD o terror coreano “The Host” (O Hospedeiro), que passou no Brasil ano passado. Digo “finalmente” porque vários críticos americanos incluíram o filme na sua lista de melhores de 2007. Fiquei curiosa, decidi ver... e não gostei. Os primeiros vinte minutos até que são bacanas, o monstro é fofinho andando, quando não tá abrindo o bocão (uma mistura de Alien e Predador juntos), e a mensagem é ecológica e anti-militarista. Mas o filme é interminável. Dura duas horas; parece uma minissérie de 20 capítulos. Os personagens não convencem e o clima não mete medo. Claro que está muitíssimo melhor filmado que “Cloverfield”, mas aí até o maridão (mais sobre isso logo). “Host” foi um enorme sucesso de bilheteria na Ásia, então talvez você deva dar uma conferida. Acho que eu que não sou muito fã dessa intromissão de humor físico no gênero do horror.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

FIM DE SEMANA SEM A MAIOR DIVERSÃO

Ok, não tem jeito, você venceu: batata frita (uma das desvantagens de ficar caquética é misturar todas as expressões. Eu sou uma Magda, se Magda era o nome da figura. Margarida? Não, era Magda mesmo, né?). Não vou ao cinema nesse final de semana! Não dá. Olha o que estreou aqui (em todo o território americano) hoje: “Over Her Dead Body”, “The Eye” e “Strange Wilderness”. O primeiro é uma comédia com a Eva Longoria (“Desperate Housewives”), que agora que casou acrescentou o sobrenome do marido ao nome. Não recomendo que ninguém pegue o nome do marido (haveria alguma coisa mais ultrapassada pra mim do que ser chamada de “Sra. Silvio Cunha Pereira”?), mas pra uma estrela de cinema as consequências são piores. Em Hollywood o pessoal não costuma ficar casado por muito tempo. Já já ela vai precisar tirar (é melhor que fazer tatuagem no corpo com o nome do amado, Angelina, mas ainda assim nada recomendável). E ter três nomes artísticos, na minha opinião, é suicídio carreirístico, porque milhões de pessoas (ou pelo menos esta que vos fala) não têm capacidade mental de se lembrar de tanto nome. “The Eye” é mais um remake de terror oriental, desta vez com a Jessica Alba, que nem que se casasse com um ator respeitável e virasse Jessica Alba Depp conseguiria deixar de ser uma atriz bonitinha e sem talento algum pra coisa. “Strange Wilderness” eu nem quero saber o que é. Mais uma comédia acéfala. Eu passo.

Por falar em coisas sem cérebro, “Meet the Spartans”, paródia de “300” e afins, ficou em primeiro lugar na bilheteria da semana passada. Os críticos americanos deram média 9 pro filme. Parece uma ótima média, certo? Detalhe: é 9 em 100, não 9 em 10.

Mas eu estaria morrendo de raiva mesmo se estivesse em Santa Catarina. Percebi que “Onde os Fracos Não Têm Vez” estreou em boa parte do Brasil, mas não em SC. O que será que houve? Será que o movimento “O Sul é Meu País” venceu, e SC se separou do resto do Brasil? Será que as distribuidoras olharam pro mapa e falaram: “Esse estadinho não merece ver o flme mais elogiado de 2007”? Não, ninguém pode ser tão cruel. Imagino que pesaram tudo e concluíram: “É Carnaval... E obviamente todo mundo em SC pula carnaval. Quem vai querer ir ao cinema ver um filme indicado a 8 Oscars?!”. Ou senão foi uma questão de escolhas mesmo: “Vamos ver... Temos pra passar nas salas 'Onde os Fracos Não Têm Vez' e 'Meu Monstro de Estimação'. Hmm... Vejamos... Que dificuldade, meu Deus! Vamos ficar com 'Meu Monstro de Estimação', que os catarinenses vão gostar mais. Porque Oscar tem todo ano, mas 'Meu Monstro de Estimação' é só dessa vez!”.

CRÍTICA: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ / Um grande filme... até a metade

Antes de mais nada, preciso explicar minha série de reações a “No Country for maridão Old Men”, que no Brasil ganhou o título equivocado de “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Quando vi o filme pela primeira vez, gostei, embora não tenha compreendido o que acontece. Na segunda vez deu pra entender mais e gostar mais. Agora acabei de ler o livro do Cormac McCarthy e acho que entendi tudinho. Minha conclusão é que o filme é muito superior ao livro, e que faltou audácia aos irmãos Coen (“Fargo”) pra fazer uma adaptação cinematográfica até as últimas consequências.

Se você já viu o filme, mesmo que só uma vez, deve ter passado pelo que passei num cinema nos EUA. A maior parte dos espectadores chia, alguns vaiam, os mais educados só se entreolham e perguntam: “O quê? Acabou?! Não é possível!”. Ainda não testemunhei ninguém jogar copo de refrigerante na tela, mas deve existir. A revolta é grande. E, no entanto, os críticos americanos babam, consideram “Fracos” o maioral de 2007, e discursam que uma obra não precisa dar todas as respostas e tal. Concordo em parte. Meu problema não é tanto com a falta de respostas, mas com o fato do clímax (no segundo hotel) ocorrer antes da metade. De lá pra frente é ladeira abaixo, e isso é frustrante. Parece que acaba o gás.

Sem sombra de dúvida, até o meio “Fracos” é um grande filme. Começa com um sujeito matando um policial, e em seguida um outro encontra no deserto texano uma transação de drogas que não deu certo. É impressionante o que os irmãos Coen (“Fargo”) fazem com tão pouca trama (tá, tem toda uma crítica aos EUA sobre esse não ser um país para velhos, como diz o título original. A Susan Sarandon de “Telma e Louise” bem que fazia em se recusar a pisar no Texas, esse lugar onde todos parecem ter revólver e chapéu de cowboy). Embora seja só um cara perseguindo outro, a tensão é de matar. Totalmente perfeito. Porém, a partir do momento em que o Josh Brolin desaba após comprar o casaco de um turista e vai parar num hospital mexicano, bom, não é que o filme desabe também, mas que cai muito, isso cai. E não se levanta mais. Além de anticlimático, fica cheio de monólogos demasiadamente longos que param a trama (e torço pra que você veja o filme com legendas, pra decifrar o sotaque texano do Tommy Lee Jones). O livro é igual. A gente já entendeu o tema desde o título, e o xerife segue falando a mesma coisa. É redundante. Os personagens mais fascinantes são despachados, e o livro continua mais 50 páginas só com o xerife dizendo que tá velho demais pra isso. Pô, eu também! Acho que os Coen tomaram a decisão errada ao tentarem ser fiéis, porque deixaram de realizar um clássico. Toda a segunda metade é literária demais e cinematográfica de menos - o contrário da primeira hora.

Daí em diante, quase todos os confrontos que anseamos ver vão acontecer fora da tela. O xerife do Tommy pode ser a consciência da história, mas não deveria ser o personagem principal. Certamente não é ele o ímã do filme, é o Javier Bardem fazendo o psicopata Chigurh. Ou, sei lá, talvez o ímã seja o jogo entre o psicopata e o Josh. Mas nada disso inclui o Tommy. E quando a segunda metade se concentra mais nele, o filme sofre. Ah, aproveito pra te dar uma colher de chá e você ficar com uma dúvida a menos: a ação se passa em 1980. A gente sabe disso porque o Chigurh fala sobre uma moeda de 1958 que tá com ele há 22 anos, e por causa de um túmulo. E atenção, outro serviço lolístico de utilidade pública: aquele equipamento estranho que o Chigurh usa pra matar boa parte de suas vítimas é uma arma pra abater bois. Que bom que eu pude ajudar!

Chigurh. Guarde esse nome cuja pronúncia, ironicamente, lembra “Sugar” (doce, açúcar). O que o Javier faz com esse personagem é “the stuff legends are made of”, sei lá como traduzir isso, o estofo que compõe as lendas? Desde os enquadramentos iniciais já nos sentimos cativados. Esse já entra na galeria dos vilões mais assustadores da história do cinema, sabe, tipo Hannibal Lecter. Sério. O Javier é maravilhoso, como qualquer um que viu “Antes do Anoitecer”, e principalmente “Mar Adentro”, já havia se dado conta. Mas aqui ele faz algo sinistro, com aquele cabelão, um sorriso tímido que vai se abrindo até ocupar o rosto todo, o olhar de peixe morto – não dá pra descrever. Você precisa ver pra crer. Ele é o elemento absolutamente marcante de “Fracos”, e merece o Oscar de coadjuvante que seguramente vai ganhar (a única barbada do ano). Por mim podia concorrer na categoria principal. Seu vilão é tão sobrenaturalmente mau que parece uma versão em carne e osso daquele monstro caricatural de moto de “Arizona Nunca Mais” (também dos Coen), o que atirava em coelhinhos. Por sinal, com tantos cachorros mortos, pássaros ameaçados, e arma pra matar boi, temi pela vida do gatinho que aparece tomando leite no hotel. Aposto como os Coen fizeram isso de propósito.

Um ponto que me faz amar o filme é aquela parte de “E se fosse com você?”. Se eu encontrasse um massacre no meio do deserto e uma mala com dois milhões de dólares (em 1980; deve valer pelo menos cinco vezes mais hoje), ficaria com ela? Mas que diabos eu taria fazendo no Texas? Outro dos meus temas preferidos também tá presente: dá pra fugir sem deixar rastros? Num mundo tão grande, onde se esconder, como sumir? (eu adoro essa parte até em “Dormindo com o Inimigo”).

Mais perto do fim, há uma cena do Javier no quarto de hotel, e a montagem (dos irmãos Coen, que sempre editam seus filmes mas assinam com um pseudônimo) é tão problemática que só pode ser intencional, pra gente não entender bulhufas. Fica um monte de pergunta sem resposta: o Javier tá escondido atrás da porta? Ele tá num outro quarto? Embaixo da cama? Tudo não passa da imaginação do outro personagem em cena? Horrível de confuso. O maridão se desesperou: “Puxa, ninguém entrevistou o Javier pra perguntar onde ele tava?”. Mas isso dá pra relevar. O chato é o cheiro de desperdício que fica no ar.


ATENÇÃO: Se você já leu o livro e viu o filme, leia meus quatro longos posts cheios de spoilers comparando livro e filme e dando todas as respostas. Primeira, segunda, terceira e quarta partes aqui.