quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

JUSTIÇA PARA MARIANA

Naílle Conceição, estudante no interior da Bahia, me disse: 
"Escrevi esse texto depois de tomar conhecimento do caso da Mariana e fiquei inconformada com a falta de visibilidade, a insensibilidade por parte das embaixadoras do clube e dos sócios, além da morosidade da justiça. Mariana foi muito corajosa em compartilhar sua história e com ela poderá salvar muitas meninas. Eu só quis ajudar".
A segunda audiência de instrução e julgamento para ouvir as últimas testemunhas está marcada para a semana que vem, dia 4 de fevereiro. Não vamos arredar pé. No dia 26 de janeiro a tag #maribferrer esteve no topo dos TTs durante várias horas. Prova de que Mari tem muito apoio e não está sozinha. Fiquem com o texto da Naílle para entender o caso sobre esta injustiça gritante contra Mariana (e contra todas as mulheres).

15 de dezembro de 2018, uma festa em um Beach Club badalado em Jurerê Internacional (Florianópolis), cheio de gente bonita, música, comida e bebida. Parece o início de uma matéria de revista sobre o deslumbrante estilo de vida de ricos e famosos, onde a maior preocupação é manter o espumante gelado. Na superfície, pode parecer que sim, mas o que a fachada glamorosa esconde nada mais é que abominável e criminoso. Mariana Ferrer, uma moça de então apenas 21 anos, havia sido contratada para a função de embaixadora do local, pois trabalhava como digital influencer. Parecia ser um dia como qualquer outro na sua agenda promissora, e ela foi trabalhar.
Mariana foi vitima de um crime brutal e premeditado. A jovem foi violentada em um espaço reservado do clube, cujo interior era desprovido de câmeras de segurança e do qual ela saiu cambaleando, como mostram as poucas filmagens disponibilizadas pelo estabelecimento. A garota havia sido levada para o “matadouro”, como o local é chamado por alguns que o conhecem bem, por um homem depois identificado como André de Camargo Aranha, empresário do ramo esportivo, de família rica e influente, motivo talvez que o levou a pensar que suas ações não teriam consequência, que roubar a virgindade, a paz, a vida social, as noites de sono, a tranquilidade de Mariana e sua família não teria relevância. 
As evidências que foram preservadas, apesar dos esforços daqueles que se diziam amigos e parceiros da garota, detalham o acontecido, desde o comportamento errático e os efeitos colaterais das drogas colocadas na bebida -- apenas um gim, como a comanda que ela depois apresentou denota -- aos áudios desesperados pedindo ajuda e sendo respondidos com um cinismo e uma frieza absurda ao sangue e sêmen nas roupas. 
Ao ser chamado para depor, o acusado não esperava que a pessoa que tomou seu depoimento fosse colher seu DNA de um copo d’água que ele havia bebido. O empresário havia se recusado a doar material depois de conversar com seus advogados (estranho, não acha, essa postura de um inocente?).
Além disso, há vários relatos de outras jovens que passaram pelo mesmo horror, o que leva a crer que há uma “rede de estupro” nessa região, que atua há bastante tempo e conta com a morosidade da Justiça e o dinheiro como aliados. 
As portas do "matadouro" foram abertas por um sócio do clube, que depois de emitir um comunicado mal-feito sobre o caso, fez o que os outros donos do local e amigos de André continuam fazendo nas redes sociais para quem pergunta sobre o caso: bloqueiam comentários, ignoram e seguem suas vidas. E daí que aquela menina foi violentada? Vamos para Noronha curtir o réveillon!
O incrível laudo de uma médica
legista (clique para ampliar)
Após o reconhecimento do local e do acusado, o modo como a investigação estava sendo conduzida mudou. Há varias coisas incomuns acontecendo -- afastamento de profissionais, demora em realizar certos procedimentos, dificuldade de acesso a arquivos por parte dos advogados da vítima, falhas na proteção de Mariana, entre outros. Além disso, Mariana recebe ameaças. Prints de grupos de Whatsapp de funcionárias do clube mostram mulheres debochando da garota, procurando sua localização e difamando-a. Outra mulher, uma médica legista, usou suas fotos para tentar montar um perfil “narcisista e exibicionista” da jovem, para desqualifica-la. 
Além disso, muitas personalidades da mídia que afirmavam que iriam ajudá-la divulgando o caso desistiram abruptamente. Em seu perfil no Instagram, Mariana conta que uma emissora de televisão, a Record, entrevistou sua advogada Thayse Pozzobon, mas o segmento nunca foi exibido na televisão. No SBT o caso foi abordado, mas de maneira tendenciosa, como se isentasse o denunciado de sua culpa e a transferisse para a vítima. Da Globo não se pode esperar muita coisa, pois o pai de André, Luiz de Camargo Aranha Neto, já representou a emissora em diversos casos, assim como grandes empresas, como a Magazine Luiza.
A foto que abre o post é de Mari
um ano depois do crime que
sofreu. Esta e outras são de antes
Ao tomar ciência desses fatos, é possível perceber parte da dimensão da grande batalha enfrentada por Mariana e sua família, há mais de um ano. Ele não está preso. Mas ela está. Presa naquela noite, presa às lembranças confusas, dentro de casa, com medo de sair, com medo de barulhos, como uma criança indefesa, sobrevivendo aos dias que se seguem em busca de justiça, vendo sua mãe definhar pela preocupação e pelo descaso com o qual elas vem sendo tratadas. Isso motivou sua decisão de expor os acontecimentos em redes sociais, cinco meses após a denúncia.
Durante os últimos dias, o julgamento de Harvey Weinstein tomou os holofotes. Um homem poderoso que muitos julgavam intocável, com fama, dinheiro e influência estará no banco dos réus para sofrer as consequências de seus crimes. O que o levou à derrocada foi a união não apenas das vítimas, mas de outras mulheres e homens que compartilharam suas histórias, cobraram dos órgãos adequados que tomassem uma atitude, e fazem questão de não deixar ninguém esquecer o que ele fez e o que ele é, inclusive cantam na frente do tribunal as palavras certeiras “O ESTUPRADOR É VOCÊ”.
Segundo as autoridades envolvidas no caso, André, assim como Harvey, abusou de uma menina e transformou sua vida em uma tarefa árdua que ela tem que executar todos os dias, num mar de incertezas, pesadelos, medo e raiva. Mas nós podemos ajudar para que a justiça seja feita. Vamos fazer barulho. Vamos mostrar que não esquecemos o que ele fez com Mariana e sua família. Queremos justiça. Queremos que nos dias 04/02 e 06/02 o caso seja julgado de forma transparente e que ele seja condenado. 
Eu peço para que você que está lendo para que procure as redes sociais de Mariana, compartilhe seus posts, marque os perfis referentes a órgãos públicos especializados e entre em contato com ela para oferecer auxílio, se puder. É necessário fazer barulho para trazer visibilidade não apenas ao caso dela, mas também ao de muitas outras mulheres vítimas do mesmo crime. É importante procurar e prestar apoio a outras pessoas que foram dopadas e/ou violentadas, não apenas no Café ou em Florianópolis, mas em todos os estados do Brasil. Também devemos alertar as pessoas para que não frequentem mais esse local e das precauções que devem ser tomadas em relação ao assunto. O silêncio pode facilitar muitos crimes.
Não podemos voltar no tempo ou devolver a Mariana sua vida de antes, mas podemos auxiliá-la a cumprir sua tarefa no futuro, deixá-la menos árdua. Não podemos ficar parados enquanto tudo isso acontece, pois assim como aconteceu com ela, pode acontecer com outras mulheres, nossas filhas, irmãs, amigas, vizinhas, colegas ou desconhecidas que, assim como ela, têm o direito de viver a vida livre da ameaça do estupro.
Ao olhar suas fotos antigas em matérias de revistas, vi uma menina bonita, leve, jovem e com um grande futuro pela frente. À ela eu digo, Mari, seu futuro não está perdido. Sua vida ainda nem começou. Você vai conseguir justiça e tudo que você merece, uma vida plena ao lado de sua família, sua gatinha e aquele sorriso encantador que está guardado aí. Pode levar algum tempo, mas vai dar tudo certo pra você. Tenho certeza.

19 comentários:

Anônimo disse...

Nojo de abusadores e acobertadores deles. Espero que a Mari consiga justiça!

Anônimo disse...

Esses caras não prejudicam apenas as mulheres, como também os homens por tabela. Os homens bons acabam vivenciando o medo, a insegurança e o receio das mulheres, tendo que fazer alguma coisa pra adquirir a confiança delas

Anônimo disse...

Lolinha, gostaria muito que você comentasse um vídeo nojento entre um tal de "Dr. Armando Escudero" e uma guria chamada Brunna Carvalho. Obrigada!

Anônimo disse...

Não é curioso e interessante como feministas sempre se queixam de terem namorados machistas, mas nunca se gabam de ter namorado feministo?

Lola Aronovich disse...

Não é verdade. Vc não deve conhecer muitas feministas. As que eu conheço e são casadas ou têm namorado se gabam de namorar um homem feminista. Bom, não sei se "se gabar" é bem a palavra. Mas elas atribuem o sucesso de seu relacionamento a ter um cara legal que acredita em igualdade e exerce isso na prática.

Anônimo disse...

Mentir não valida o seu argumento, Lola. A menos que você prove, nenhuma feminista (e nenhuma mulher) gosta de namorar/ser casada com um cara que acha OK ser submisso ao sexo feminino.

Lola Aronovich disse...

Vai pastar em outra freguesia, mascutroll. Só na sua cabeça demente que feminismo é homem ser submisso à mulher. Tem estudos provando que relacionamentos feministas duram mais e são mais felizes. Pra mostrar como machistas não rendem bons relacionamentos, é só ver como mascus são uns fracassados em todas as áreas da sua vida, mas principalmente no amor.
E o que isso tem a ver com o post mesmo?

Anônimo disse...

Não creio em posições absolutas, mas conheço relações abusivas e um caso em particular que me intriga: a esposa é uma eterna estudante com 9 anos de formada e sem trabalhar enquanto o indivíduo morre de trabalhar para sustentar os dois e é um completo capacho pisado por ele, inclusive na presença de amigos e família. Claro, isso não é regra, mas relacionamento de submissão do homem nunca vi dar certo.

No meu caso eu e minha noiva nos damos bem e creio que sem um se sobrepor ao outro, mesmo eu sendo o provedor, inclusive dou mesada para ela estudar e passar em um concurso, o que considero um investimento em nossa vida futura. Não obstante, sou cristão e vivo pelos preceitos tradicionais de família e passo longe de fracasso como a sra deste site gosta tanto de generalizar embora não goste quando o oposto é feito.

Somente uma singela opinião, não requisitada, mas creio que pertinente.

Anônimo disse...

a) Estou arrasada com a historia soube no facebook e compartilhei e absurdo que a TV aberta nao fale nada.

b) Lola se possivel fale do BBB 20 um dos participantes esta assediando meninas

Alan Alriga disse...

Só não estou compartilhando esse caso por causa que estou sem acesso as minhas redes sociais, mas deixo o meu apoio para ela e todas as mulheres que também são vítimas diárias de estupradores.
E para quem ficou chocado com esse caso, vou falar de outros casos onde muitos sabem mas não se importam de forma alguma, que são funkeiros dançando ao som de letras de funk que faz apologia ao estupro, faculdades defendendo cantor de funk que faz "músicas" que fazem apologia ao estupro e violência contra mulheres, feministas calando alunas que são estupradas dentro de faculdades, para que o Estado não ponha policiais dentro de faculdades, para que os seus traficantes de estimação não sejam presos como o Fantástico já denunciou, militantes de esquerda defendendo o "rolezinho do sexo" onde o programa A Liga já denunciou que uma menina de 7 anos foi estuprada por 15, com a desculpa que o Estado Branco não quer que crianças negras socializem fora das favelas, e esses mesmos militantes de esquerda também defendem os proibidões ondem tanto mulheres adultas quanto crianças são, embebedadas, drogadas e estupradas no meio da rua, sem falar dos bailes funk, onde alguns cantores de funk e DJs obrigam dançarinas a dançarem nuas ou pelo menos exibir a ppk, já outros obrigam elas a deixar que homens que são escolhidos na platéia a "mamar" nelas e sem falar das surras de ppk na cara dos escolhidos.
Já ia me esquecendo de um "show" de funk onde uma mulher que foi escolhida da platéia teve a sua calcinha rasgada em cima do palco, e se não fosse por um segurança ela poderia ter sido estuprada lá mesmo, e também dos bailes funk onde mulheres que são escolhidas são intimidadas a tirar a roupa em cima do palco em troca de bebidas.
Bem aposto que agora vai ter muitos de vocês de esquerda que sabem disso tudo, mas não fazem nada para mudar isso, então O VIOLADOR TAMBÉM SÃO VOCÊS.

Continue com o ótimo trabalho Lolinha ʚ♡⃛ɞ (ू•ᴗ•ू❁)

Ana disse...

Boa noite a todos do grupo!
Infelizmente minha irmã não deve a chance de sobreviver .
Minha irmã morreu em um suposto acidente em marau na bahia .
Depois que saiu de São Paulo para fazer show no Café de la musique na Bahia.
Até hoje a história ficou mal contada ...a polícia de lá nada fez contra a pessoa !.
Uma história sem pé e nem cabeça foi contada a nós dá família.
Na época procuramos as TV para divulgar o caso da morte e não conseguimos apoio.
Por serem pessoas de nomes ..não deram atenção necessária...até hoje nós da família sabemos e acreditamos que ela não morreu nesse suposto acidente.
Acreditamos que possa ter acontecido coisas piores com ela !
O que nós deixa ainda mais indignada e que as pessoas do Café de lá musique e seus amigos "Se posso chamar eles de amigos"sabem o que aconteceu e esconderam a verdade !
Amigos esses que ela tanto confiava!
Quem quiser pesquisar sobre ela era Milky Mota.
Tenho nojo dessas pessoas!
Uma coisa eu sei ...que pra Deus nada passa .
Um dia a justiça de Deus irá cobrar tudo o que aconteceu com ela.
Já que a justiça da terra pôde ser comprada!
Infelizmente aqui no Brasil manda quem tem dinheiro!
#todospormaribfeer
Espero de todo o coração, que maribferr consiga justiça!

Anônimo disse...

O caso da Mari trouxe à tona muitos nomes e casos que eu desconhecia. Estou enojada.

titia disse...

Eu não tenho redes sociais, mas se esse post chegar à Mariana, mando a ela todo meu apoio e desejos de dias melhores e de uma vida feliz. A cupa nunca foi e nunca será dela, então recuse-se a carregar esse sentimento consigo, moça. Não permita que lhe digam que você era a errada ou a culpada, porque a culpa nunca foi e nunca será sua. Abraço e muita admiração pela sua força e determinação.


Alan Alriga esse é o motivo pelo qual pautas identitárias são necessárias. Muita gente por aí vive fazendo mimimi, chamando pauta identitária de frescura e dizendo que os problemas das minorias se resolvem com a extinção da desigualdade econômica, mas olha aí a prova de que dinheiro não acaba com o abuso e a violência. Tanto homens ricos quanto pobres, tanto de esquerda como de direita, tanto conservadores quanto liberais ainda acham que tem direito a tratar as mulheres como objetos à disposição do prazer deles. E isso só as "pautas identitárias frescurentas" do feminismo combatem. O mesmo com os movimentos LGBTs, indígenas e negros.

Anônimo disse...

Lola, acho que você já está sabendo, mas a identidade do GOEC finalmente foi revelada. Um dos investigados na operação Bravata, aquele Rafael Rissetti Ilha, fez delação premiada e assumiu que GOEC era ele e um tal de Fernando Vallier. Pode apurar com as suas fontes que é verdade.

Felipe Roberto Martins disse...

Faço das palavras da titia as minhas! Assino embaixo.

Anônimo disse...

Não sei do caso específico, mas vc já se perguntou se não foi tipo, uma overdose, pq nesses lugares, os frequentadores quanto as "convidadas" sempre são movidos a muita droga. Talvez sua irmã tenha usado tanta droga que deu ruim, e esconderam a história pra vcs da família. Isso acontece direto.

Anônimo disse...

Mas os MGTOWs JURAM que o verdadeiro problema são os pais que são obrigados a pagar pensão a seus próprios filhos.

Anônimo disse...

A Mariana mora no sul e mesmo cidades mais desenvolvidas impera o machismo, preconceito, até por parte das mulheres, não é a toa que Bolsoshower ganhou disparado nos três Estados do Sul, muita gente aqui reproduz o discurso e besteiras dele sem pudor ou receio, pois quem é contra precisa ter cuidado e atenção por aqui, menciono isso, pois moro em uma cidade do oeste catarinense tem oito anos, a cidade onde moro mulheres não votam em mulheres, quem indica o candidato é o marido ou filho homem caso seja viúva, caso não tenha filhos ou marido algum homem vai opinar, até o genro. O caso desta moça é muito triste e quem age como o ser que cometeu este crime hediondo tem vários exemplos, em Cotia, grande São Paulo tem um produtor de eventos na cidade que faz isso direto e fica por isso mesmo, pois ele tem amigos, gente que o ajuda e defende, no final a vítima se torna culpada, vi isso de perto, tentei denunciar, pois eu reparava na atitude dele em ver se alguma mulher estava embriagada para agir, mas fui silenciada por seus amigos que eram e ainda são muitos.

Anônimo disse...

Alan, parabéns. "Ha mais mistérios entre o céu e a terra do que diz a nossa van filosofia" . Cada caso recente é apenas nuance da ponta do iceberg mas realmente cada um faz o que pode dentro do que acredita ser suas limitações. Sabemos que podemos fazer mais cara, vamos continuar fazendo e alcançar maiores resultados. Seria incrível se houvesse mais pessoas como você lutando conosco. Abraços.