sábado, 9 de novembro de 2013

GUEST POST: SAI, PRECONCEITO!

A N. me enviou este texto muito bacana.

Li seu texto "Não Entre nas Olimpíadas da Opressão" e fiquei feliz de ver que parei de sofrer e de me sentir oprimida, mas ao mesmo tempo percebi que somos tão alvo de preconceitos como somos preconceituosxs. Daí me deu uma vontade de escrever.
Desmembrando a palavra preconceito temos: (prefixo pré- e conceito) é um juízo preconcebido, manisfestado geralmente na forma de uma atitude "discriminatória" perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou "estranhos". Costuma indicar desconhecimento pejorativo de alguém, ou de um grupo social, ao que lhe é diferente. As formas mais comuns de preconceito são social, racial e sexual. 
Sou mulher e sofro preconceito porque não quero ser mãe, porque não gosto de cozinhar, porque não fico me maquiando diariamente, porque não corro toda vez que tem promoção de sapatos, porque tenho controle sobre meu dinheiro, porque não frequento salão de cabeleireiro... Mas isso também me parece preconceito da minha parte em relação às mulheres que se comportam dessa maneira. Viu só? Somos tão alvo de preconceitos como somos preconceituosxs.
O tempo todo vejo pessoas sofrendo pré-conceitos por razões tão ridículas que nem dá pra acreditar que tem gente que se importa tanto assim com a vida alheia! É o colega negro que é lembrado da sua cor de pele por meio de 'brincadeiras', é o outro que tem apelido por causa do peso, e mais outro que é associado à falta de cabelo... Sério mesmo que isso é legal? Que tá tudo bem? Da mesma maneira que 'brincam' com esses assuntos, falam também a verdade de uma maneira cruel. 
Trabalho num ambiente excessivamente masculino, numa transportadora. O comportamento deles é de quem está na quarta série. Falam tanta besteira e idiotices que chega a doer os ouvidos; são coisas contra homens, mulheres, animais, a própria mãe, a esposa, o filho. Usam palavras de baixo calão em meio a risadinhas. Quando ouço um deles lembrar que tem mulher na sala (eu!) e exige respeito, me dá até vontade de gargalhar! É que EU entendo que quando uma pessoa tem respeito ela respeita e ponto, sem necessidade de ser cobrada.
Tenho me esforçado para destruir esses pequenos preconceitos dentro de mim. Minha mente e meu coração estão se alargando, estão se desfazendo de pré-conceitos e tradições. Estão se 'remoldando'. Não me defino mais como uma pessoa 'normal', não me acho 'normal'. Nem sei o que significa ser normal.  
Lá em cima quando me descrevi um pouco, já deu pra notar que não faço parte do grupo comum de mulheres, das escolhas e práticas ditas esperadas das mulheres (que a tradição/cultura/religião diz que tem que ser!). Por isso, passo boa parte do tempo tendo que justificar minhas escolhas, principalmente, o fato de que eu não quero ser mãe. Pelamor! Penso que do mesmo jeito que uma pessoa decide ser mãe, outra pessoa pode decidir não ser. 
Sou casada, meu marido tem a mesma linha de raciocínio e estamos de acordo. Ele também sofre preconceito com esse assunto, aliás já são cinco anos de casamento, mas ele sofre beeem menos do que eu, ele é muito menos cobrado do que eu. Às vezes estamos juntos, lado a lado, e a cobrança de ter um filho é dirigida unicamente a mim.
Durante um tempo, eu me preocupei por não estar dentro de algum grupo, até eu me dar conta de que eu pensava diferente e que eu não deveria fazer parte daquele grupo e que as rodas de conversa que eu queria participar, na verdade, não me interessavam. Estava me esforçando à toa para integrar grupos e assuntos que não me interessavam nem um pouco, me comportando de uma maneira até falsa para agradar, mudando discursos ou evitando expor minhas opiniões. Mas isso acabou. 
Perdi a vontade de fazer parte de grupos: converso com todxs, falo sobre tudo, explico minha escolhas com o maior prazer e, no fim, só restam aquelxs que têm a mente mais aberta. Notei isso. Os que restam são sempre os menos preconceituosxs, são aqueles e aquelas que geralmente não estão fazendo piadinhas de mau gosto, um deles tem filhos, a outra não, e conversam comigo numa boa, sem querer me crucificar. Que coisa, não? Preconceito é um troço arcaico mesmo, ultrapassado, burrice.
Só me resta ser mais cautelosa, pois não dá pra sair falando pra todo mundo que sou mulher e não me enquadro na 'normalidade divina' de ser mulher. Tenho sido muito mais compreensiva e tentado loucamente me livrar de preconceber juízo à respeito das pessoas. Percebi que me sinto mais madura e mais leve, respeito mais as pessoas e tenho me posto no lugar delas com mais frequência. Até meu vocabulário tem sofrido alterações: palavras como vaca, vadia, histérica, biscate, viadinho, corno e outras que não me lembro agora, estão praticamente extintas da minha boca. 
Vou continuar absorvendo mais positividade e recriminar toda forma de ódio que queira se manisfestar em mim. Sai desse corpo que não te pertence mais! Vou continuar lutando para não desconsiderar tudo que se difere de mim, para não diminuir a dor dos outros, para não menosprezar as escolhas e comportamentos alheios, para não rotular e classificar tudo e todxs! Força pra mim! Gandhi me abraça!
Adoro seu blog, mudei muuuito desde que comecei a lê-lo e mandei um email outro dia pra te falar o quanto sou feia, meo deos! rsrs. Já passou!

17 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto. Eu concordo com tudo. Também me tornei uma pessoa mellhor depois que conheci mais profundamente o feminismo através de blogs como esse. As pessoas decentes, de qualquer linha ideológica, vão concordar. Qualquer pessoa possuidora de um nível de desenvolvimento moral elevado e que esteja em busca de conhecimento para entender melhor o mundo por conta própria (sem doutrição e sem seguir cegamente um ídolo) vai se beneficiar dessas sábias palavras.

Love Gotic disse...

Preconceito contra as mulheres é maior de todas as formas. Falam que sou consumista porque pinto as unhas toda semana, vou ao salão . E tem também o preconceito por eu ser rockeira dizem é um estilo para macho. E daí se eu me visto de preto? Se eu uso maquiagem forte? Há o preconceito por eu usar cabelo curto e mulher tem que ter cabelo longo. Me sinto bem assim horas! Sofro por eu ser magra também. Tenho 30 anos e peso 39 quilos. Sim, isso mesmo 39 quilos e por eu ser magra me comparam as mulheres turbinadas dizem que mulher brasileira tem corão violão com bundão, pernão e peitão, Também não quero filhos e falam que minhas amigas tem filhos e eu não, tem marido para lavar as cuecas deles e eu não. AFINAL O QUE É A FELICIDADE DUMA MULHER? O que ela decide ser e fazer ou o que os outros impõem? Prefiro a primeira opção.

Anônimo disse...

Simples, tu e chata, ninguém da a minima se você quer ser mãe ou não, isso e problema seu, não muda nada na vida dos outros.
O que acontece e que vocês "engejadinhos" dão mito valor a opinião dos outros, se doem por qualquer coisa.

Carol Montagner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carol Montagner disse...

Anônimo das 13:57, quem dera ninguém desse a a mínima. O mundo seria um lugar muito melhor.

Anônimo disse...

O especismo continua sendo um preconceito tão forte que é até invisível. Quase nunca aparece quando alguém começa a enumerar preconceitos. Por que será?

Love Gotic, você fez uma excelente pergunta: o que é a felicidade de uma mulher?

Pensem nisso quando consumirem laticínios.

Anônimo disse...

Acho que vcs levam tudo a ferro e fogo,n gostar de alguma coisa n é o mesmo que ter preconceito.
Tem gente q n acha homossexualismo certo mas n xinga e nem faz piadinhas com eles.
Tb n gosto de maquiagem e detesto salão e isso n quer dizer q eu discrimine a mulher q goste.
Será q n gostar de misóginos ,racistas,machistas.homofóbicos é preconceito? Pq se for todo mundo aqui é preconceituosa.

Anônimo disse...

Poxa, como me identifiquei! Eu nunca tive vontade de ser mãe e sempre me olharam com espanto. O engraçado é quando as pessoas dizem "ah, vc diz isso agora, depois vc muda de ideia", como se a decisão de NÃO ser mãe fosse imatura, errada, anormal. Outra coisa também, certa vez uma colega perguntou o que eu ia fazer de almoço, eu disse que ia comer fora ou algo assim, e ela falou "nossa, cadê seu lado do lar?". Aff, brincadeira, né?!

Anônimo disse...

Muita força pra ti! Estamos juntas!

Depois que percebemos o quanto apontar dedo pra escolhas pessoais ou características "inofensivas" de outras pessoas é nocivo, pra ambos os lados, acho difícil não querer parar com isso.

Em vários guest posts recentes eu fiquei pensando isso. Lembro do da moça que se sentia criticada por, entre outras coisas, a filha ter nascido por cesárea, do post seguinte sobre o outro lado da situação, do "pelo direito de ser frívola", do da moça que se mudou de país para acompanhar o marido... alguns dos comentários davam a entender que a reclamação de algumas moças era infundada, porque afinal de contas, a situação delas era a "esperada" pela sociedade. Embora pra mim fique bem claro que nas situações descritas elas provavelmente não eram alvo de tantas críticas às suas escolhas pessoais, não consigo deixar de sentir que a crítica reversa existe sim. Comentários nos próprios posts me trouxeram essa sensação.

Digo, apóio questionar os padrões, a "distribuição" desigual de escolhas no conjunto maior da sociedade, pensar em como dessas decisões são afetadas pelo meio. Também acho perfeitamente saudável querer fazer recomendações às autoras dos guest posts, acho que os comentaristas querem se certificar de que aquelas escolhas narradas tenham sido feitas de maneira consciente, porque há uma empatia e ninguém ia querer que a autora tivesse problemas no futuro, por exemplo.

Às vezes, nuns poucos comentários, surgiam situações em que não era o padrão social o alvo da crítica, mas sim as escolhas pessoais da autora. Fico feliz de não ser na maioria das mensagens, e entendo que uma apontada de dedo ou outra escapam. Fica mesmo só como ressalva: é sempre bom ficar alerta para não reproduzir com outras pessoas essa situação.


Abaixo a "apontação de dedo"! :P

Erres Errantes disse...

"ele é muito menos cobrado do que eu. Às vezes estamos juntos, lado a lado, e a cobrança de ter um filho é dirigida unicamente a mim."

Claro, porque apesar de a expectativa de vida para os homens ser menor, as pessoas acham que os homens têm muito mais tempo para realizar coisas na vida pessoal, como casar e ter filhos. Para mulheres a primeira vez é sempre a última chance, por isso toda a cobrança para ter filhos logo.

Maria Fernanda Lamim disse...

Cara,isso sobre filhos e engracado.....eu sempre quis, fiquei um ano tentando, e to gravida agora. Vcs nao tem ideia de como me desencorajaram! Me disseram que isso ia acabar com a minha carreira, que eu nao ia ter dinheiro pra sustentar a crianca....e eu sou professora (nao sou rica, mas fome nunca passei). Ou seja: nao tem pra onde fugir. E mulher? Ta sempre errada perante a sociedade! :(

Anônimo disse...

Nós mulheres sofremos uma patrulha constante em todos os aspectos das nossas vidas. Mas quando se trata da sexualidade e da vida reprodutiva chega a ser insano a vontade que parentes, amigos, prof. de saúde, religião e a sociedade em geral tem de controlar o corpo e a vida das mulheres.
É incrível como as mulheres SEMPRE são consideradas incapazes, burras, volúveis, imaturas para decidirem sobre suas vaginas/úteros.
É por isso que é tão difícil conseguir uma esterilização voluntária por exemplo. Alguns médicos se negam inclusive a receitar/aplicar métodos contraceptivos reversíveis e de longa duração. Muitos não se dão ao trabalho de explicar decentemente como funcionam os métodos anticoncepcionais pois acreditam que não temos capacidade de entender ou pior - que um filho é sempre "bença dideus".
E tem o contrário também - mulheres que são esterilizadas sem consentimento, desejo próprio ou prévio esclarecimento.
Esse mesmo pensamento é um dos motivos da violência obstétrica - "se eu não gritar com essa estúpida ela vai fazer força errado". Se pede um parto normal arrastam para a cirurgia por que ela não sabe o que diz. Se escolhe uma cesárea é por que é uma burra desinformada que se vendeu para o sistema.
Se não quer ter filho é uma monstra egoísta mas que no fundo vai muda de idéia . Afinal TODA mulher QUER e TEM que ser mãe. Tocar no assunto aborto... chama a polícia e prende a infanticida!!!

Sabe, se alguém me perguntar qual é a profissão mais exercida no Brasil eu vou responder que é "porteiro de bu****"


Jane Doe

Douglas S.M disse...

Adorei mesmo. Seguindo, a partir de hoje. Bom domingo !

Marcia Baratto disse...

Força! É importante entender que também ocupamos posições de opressão. Não vou dizer que sãos as mesmas dos nossos opressores, mas né? Ninguém escapa da pressão de ser um babaca nessa sociedade egoísta e pouco afeita à solidariedade.

Agora é incrível como mulher alguma pode se sentir bem na própria pele. Cada vez que leio os comentários aqui e vejo como mulheres são reprovadas o tempo todo pelos mais diversos motivos, fico de cabelo em pé: estamos constantemente vigiadas e cobradas.
Acho que ainda é fácil identificar o padrão 1: seja profissional, mas ganhe menos que seu marido, (heterossexualidade é padrão máximo...) cuide da casa, tenha filhos (mas não muitos), seja religiosa, seja vaidosa (mas só para ficar com a cara de 'natural e bonita'), seja magra (mas não feito uma modelo), sirva carne para sua família (pelo amor de deus, nunca insista só numa dieta vegetariana) e, nunca, mas nunca se atreva a contestar o mundo que te cobra tá? Afinal, nada pior do que 'mal-comida-sem-senso-de-humor' que 'acha que pode criticar os outros'.

Aff... para o mundo que eu quero descer! Acho que não conheço mulher alguma que seja sequer parecida esse padrão imaginário, mas oh! Estamos sendo cobradas por ele e por qualquer mínimo desvio todos os dias.


Anônimo disse...

esses dias falei bem de uma mulher, que ela era "bonitona" e tal, aí falaram pra mim: mas ela, bonita? é magra demais.

e eu: poxa, se é gorda falam, se é magra falam, não tem como não falar?

Anônimo disse...

O esculacho as escolhas femininas parece ser usado pra puxar assunto: se não tem filhos, pergunta sobre quando vai ter filhos; se está grávida, pergunta como vai cuidar/sustentar/manter a carreira, e assim por diante...

No jogo da vida, as mulheres sempre perdem, não tem jeito.

Vou aproveitar o embalo e dizer que estou aos poucos me livrando de amizades nocivas (gente machista ou misógina.
Me sinto muito melhor! =D
De repente te mando um e-mail contando a história toda, Lola!

Anônimo disse...

Nesse final de semana, depois de quase 5 anos sem me maquiar, eu fui no aniversário de uma amiga e todos resolvemos nos parecer com ela, usando maquiagem dela. Cheguei em casa maquiada, e meu irmão me chamou de hipócrita.
A questão é que eu nunca falei porra nenhuma de quem se maquia, se depila, alisa o cabelo nem nada. Cada um faz o que quer, e eu só vou mandar tomar no cu quem vier ME encher o saco porque eu não me maquio ou quem vier falar mau de alguma garota porque ela se "maquia demais" ou coisa assim. Só dizia que EU não gostava e EU não me sentia bem. Mas aí eu tenho que ser pra sempre a pessoa que não usa maquiagem e que fica em cima de um palco gritando num microfone que quem usa tá errado? E quando eu me maquio uma vez é porque eu deixei de lado toda a minha "crença" e "ideologia"?

Ps: Depois de maquiadas, nós fomos andar de patins. :)