segunda-feira, 24 de junho de 2013

PROTESTAR OU NÃO? A MANIFESTAÇÃO DOS BRASILEIROS EM PARIS

Creio que uma das maiores perguntas acerca dos protestos é se, agora que boa parte das pautas foi desvirtuada, pessoas mais conscientes, de esquerda, devem ou não continuar participando. Esta foi, afinal, a dúvida do Movimento Passe Livre, que voltou atrás e disse que não pretende deixar os protestos.
Protesto em Roma, Itália
Sair das ruas equivale a deixar o espaço aberto pra manifestantes conservadores. Mas seguir participando pode significar estar numa manifestação que tem pouco a ver contigo, ao lado de reaças que gritam genericamente contra corrupção e aplaudem a cura gay e o Estatuto do Nascituro. Foi por conta disso que a Marcha das Vadias de Brasília decidiu fazer um protesto separado, com suas próprias reivindicações.
Protesto em Auckland, Nova Zelândia
A impressão que os protestos foram "cooptados", de que houve uma guinada à direita -- pelo menos em algumas cidades, não todas -- é tanta que fez os organizadores da manifestação de Paris, marcada para o último sábado, cancelarem o protesto. Fernanda explica:

"Fui uma das organizadoras do protesto que houve em Paris. Na verdade, nós anulamos a manifestação que havíamos organizado no dia 14, sexta, para o dia 22, sábado, porque nessa semana de intervalo muita coisa aconteceu e o panorama geral dos protestos mudou. Em Paris deve-se pedir autorização formal e assinar documentos na prefeitura para ter responsáveis pela manifestação. 
Fomos muito criticados pelas pessoas que queriam participar dessa reunião política (que se tornou um evento patriótico e festivo) e que se inscreveram no nosso grupo sem ter olhado sequer que tínhamos uma pauta a defender. O que eles queriam era se reunir em Paris e levar sua insatisfação para as ruas. Nos chamaram de tudo o que era possível quando anunciamos que havíamos anulado o protesto.
Mesmo havendo anulado, fomos para a Place de la Nation, onde era o local da manifestação, para avisar que o ato estava na ilegalidade, e entregamos nosso texto explicando o porquê das coisas. A polícia foi muito gentil e preferiu não dissuadir os grupos, pediu para que fizéssemos isso. Sete pessoas não podem controlar 900, assim decidimos deixar correr a manifestação teoricamente anulada e ficamos a todo momento ao lado dos policiais para poder ajudá-los. Conversamos com as pessoas sobre a incongruência de estarem lá naquele momento, pois a situação no Brasil era tão indeterminada que aquele ato não tinha sentido para nós".

Protesto em Tel Aviv, Israel
Também é sintomático que, mesmo com o protesto cancelado, quase mil pessoas tenham aparecido para protestar (veja vídeo)! Ou seja, a vontade de se manifestar é enorme. 
A imprensa cobriu este impasse, como pode ser lido neste artigo da Folha, da RFI, e da Terra.
O texto que publico a seguir é a justificativa dos organizadores de Paris para cancelar a manifestação. Segundo Fernanda, "Estamos contentes por não termos participado dessa manifestação e por termos feito esse gesto político importante de anulá-la".

Os acontecimentos do Brasil começaram com teor bastante claro há 3 semanas, com reivindicações pautadas pelo Movimento do Passe Livre exigindo revogação do aumento das passagens dos transportes coletivos. Multidões tomaram as ruas em torno dessa pauta com uma força sem precedentes nos últimos 20 anos. Nesse contexto, houve uma criminalização do movimento por parte da grande imprensa que legitimou a ação desproporcional da polícia. Naquele momento, nós organizadores, enquanto estudantes brasileiros residentes em Paris, resolvemos convocar um ato, previsto para sábado dia 22, em solidariedade para com aquele movimento, para com suas reivindicações e contra a violência da polícia. 
Na última semana, a natureza dos acontecimentos, entretanto, mudou. Tomando embalo na força popular mobilizada então, a grande imprensa e a direita brasileira passaram a apoiar as manifestações, visando diluir seu conteúdo e assim impor a elas sua pauta conservadora. Desde então, passamos a ver o aumento de discursos reacionários e a proliferação de posturas fascistas tomando as ruas das cidades. Nessa mesma esteira, um anti-partidarismo difuso e raivoso passou a incitar a violência levando alguns grupos autoritários a se sentirem confortáveis em agredir membros de organizações da esquerda que sempre construíram as grandes manifestações no Brasil. 
Sabemos que grande parte das pessoas nas ruas não compactuam com esse comportamento, mas, lamentavelmente, houve consentimento desinformado por certa parte delas. Tal situação coloca em risco o direito à livre manifestação e livre organização política conquistados com luta histórica encabeçada pela esquerda que quinta-feira, dia 20, foi espancada nas ruas. 
Certa mídia se aproveita desses acontecimentos, pintando-os como uma batalha pela desestabilização do governo. É sem dúvida essa a posição da direita. Nós também, mas por motivos completamente diversos, temos críticas a fazer às esferas federal, estaduais e municipais do governo, inclusive no que toca o modo pelo qual conduziram a negociação com o Passe Livre. Nós nos indignamos com a maneira tecnocrata de lidar com as reivindicações populares, e lamentamos o governo federal ter abandonado o diálogo com os movimento de base dos quais seu partido nasceu. Porém temos clareza que em momento nenhum pretendeu-se –- nós não pretendemos -– fazer dos protestos uma marcha pela deposição de governantes democraticamente eleitos, por mais críticos que sejamos a eles.
É preciso comemorar, sem dúvida, a conquista que o Passe Livre obteve nas ruas, assim como o fato de que as mobilizações tenham feito valer sua vontade perante as esferas representativas do poder. As manifestações conseguiram colocar em debate o que significa um estado efetivamente democrático, assim como sensibilizar parte da população de que é a participação política direta que traz conquistas. 
O que acontece hoje em nosso país é algo muito importante cujo sentido, porém, permanece indeterminado. A organização deste ato não compactua com o rumo que a grande imprensa e a direita têm tentado impor às mobilizações nas ruas em curso no país. Seguiremos mobilizados pela transformação social no Brasil e em defesa das pautas históricas dos movimentos sociais.

11 comentários:

Unknown disse...

"Partido político "virou coisa de eleição" e "deixou de ser instrumento de mobilização das ruas", constata Lindbergh Farias, ex-líder dos caras-pintadas que em 1992 ajudou a pressionar pelo impeachment do então presidente Fernando Collor.

Há dez anos no poder, o PT e outras siglas de esquerda experimentam "um afastamento" das demandas da sociedade, "principalmente desse contato com a juventude", afirma Farias. "Acho que houve um descolamento da vida das pessoas".

Aos 43 anos, hoje senador da República pelo PT do Rio de Janeiro, Lindbergh acumula vasta experiência no currículo sobre protestos de rua. Foi do PC do B, do trotskista PSTU e virou petista em 2001.

Para ele, o PT ficou ao largo dos atuais protestos. "A lógica de estar nos governos acaba distanciando de uma pauta mais real". E falar de conquistas passadas "não basta mais", diz ele. "Se nós do PT ficarmos na agenda antiga dos [últimos] dez anos, nós vamos ser superados".

O petista compara as manifestações de hoje com as de duas décadas atrás e lembra que, no impeachment, demorava até 15 dias para marcar uma passeata. Hoje o movimento é instantâneo por meio das redes sociais.

A composição demográfica também se alterou. "Na minha época era mais juventude de classe média. Agora tem classe média e periferia, que é essa nova classe média." A seguir, trechos da entrevista:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/poderepolitica/2013/06/1300171-partido-deixou-de-ser-instrumento-de-mobilizacao-diz-senador-lindbergh-farias.shtml

Thomas disse...

Eu ia argumentar alguma coisa, mas essa imagem aqui diz tudo.

https://fbcdn-sphotos-f-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc3/s720x720/6527_601821433183630_113653346_n.png

TheBarbaraNunes disse...

Conheço esse senador lindinho desde os caras pintadas. Aproveitador de merda, sinceramente. E ladrão. Já vejo ele concorrendo ao governo do rio se aproveitando de tudo o que esta acontecendo nas tuas. Alias, sera que teremos ao menos UMA opção no Rio? Garotinho lidera. Contra ele Lindinho, Pezão... quem sabe crivella. Ai deus do ceu dos ateus, e agora?

Raphael Leonardo disse...

Agora que despertamos do breve torpor ou inércia em que fomos submetidos,devemos continuar!:D

Abraços
:brasileiroguei.blogspot.com

° Emy ° disse...

J'zuis! Esse Fábio é fake do titio? Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Ai ai Lola, cê consegue divertir a gente com esses trolls! Kkkkkkkkkkkk

sammia disse...

Lola, queria saber pq "pessoas mais conscientes, de esquerda"? Nós demais que não somos DE ESQUERDA somos um monte de merda? Afinal, este governo q está aí desde o Lula, não é de esquerda? E olha oq esse (des)governo despertou...Nunca se roubou tanto, tão descaradamente. Vc que critica o INFeliciano, Calheiros, não estão aí graças ao nosso governo de Esquerda? Vc não acha meio contraditório?

sammia disse...

Não gosto de ser chamada de idiota por causa de minhas convicções políticas

Dani Rabelo disse...

Thomas, fantástico o seu "não" comentário.
Adorei a imagem.

bruna disse...

Eu fui nessa manifestação mesmo concordando com os argumentos do cancelamento, e o que fez a galera ficar mais irritada com os organizadores foi o cancelamento na sexta à noite. Eu mesma vi que tinha sido cancelada no sábado à tarde. Teve gente que saiu de outras cidades e veio pra cá só pela vontade de sair na rua e manifestar, como aconteceu no Brasil. Pena que aqui esse ato aconteceu tarde, depois que toda essa bagunça começou.
Eu fiquei feliz de ter ido, pois vi muita gente com cartazes em apoio à Dilma, aos partidos de esquerdas e os escritos "fora reaça", que acho que não eram muitos ali, como o senhor da foto aí do post. O que eu percebo é que as pessoas são despolitizadas mesmo, gritam qualquer coisa por causa da insatisfação... fora Dilma, fora Serra, fora todos os partidos não importa! Vejo isso nas pessoas que eu conheço, alguns amigos e família...

Milena disse...

Sammia, talvez um dia o PT tenha sido um partido de esquerda, mas isso faz muuuito tempo e, já na década de 90, teve militante sofrendo processo de expulsão do partido por defender o socialismo em textos pessoais...
Há décadas o PT passa por essa metamorfose da consciência de classe, e se torna um partido mais característico de democracias representativas (que para a esquerda são limitadas)...
Mas acho interessante essa constatação de que nunca houve tanta corrupção como agora, pois, na minha percepção sempre houve tanta corrupção quanto agora... tanta ou mais, afinal, acredito que o que sai na mídia é apenas uma pontinha do iceberg... Estudos seriam importantes nessa discussão... essa semana eu vi um estudo, que não vou postar aqui, afinal como ele se refere aos 10 últimos anos, vi muita gente de direita questionando sua validade... mas gostaria de ver mais estudos desse tipo...
Acho que a Lola nunca escondeu sua orientação política no blog... e ter uma orientação política, expondo suas opiniões e perspectivas, é muitas vezes travar embates com quem pensa diferente e, no caso, por você ser de direita acho que muita coisa em blogs de esquerda vão te incomodar. Ser de direita não necessariamente significa ser idiota, para quem é de esquerda. Sou de esquerda e acho que muitas pessoas de direita são espertas, inteligentes e, por isso mesmo, eu acho que elas são perigosas... afinal o mundo que elas almejam não é o mesmo que eu almejo...
Agora, que há pessoas de direita com propostas e ideias seriamente limitadas, isso há... isso é notável inclusive por algumas formas de protesto de pessoas de direita que tenho assistido nas ruas (por exemplo gente que levanta cartaz contra a PEC 37, sem nem saber o que ela diz, ou dizendo que ela “tira o “poder”” de investigação do MP...).
E é claro, que há o direito da opinião pessoal de eu achar alguém de direita limitado por essa pessoa não compreender as contradições e injustiças do modo de produção capitalista ou, pior, compreendê-las e desejá-las... PARA MIM isso é limitação ‘para mais de metro’.... (alguns diriam idiotice, mas eu não gosto dessa palavra...).

Estela Fernandes disse...

Lola, achei excelente sua observação. Não fui nas manifestações da minha cidade, por não concordar com a pauta (concordava parcialmente, mas o que eu queria protestar por outras coisas, a nível nacional), então fico mais na internet mostrando meu apoio a todas manifestações.

O que eu andei observando é que nas notícias nos sites sobre a manifestações, está chovendo comentários que querem que a Dilma saia, e muitos criticam não só ela como o PT. Muitos mesmo, é um antro de antipetistas que se dizem apartidários, mas nunca falam mal do PSDB e outros partidos de Direita. E criticam quem criticam esses partidos. É mole?

Aí que me lembrei daquele movimento da Direita que teve em 2005, chamado "Cansei" (sic). Se lembra?
Será que não são esses mesmos que andam nesses comentários? Será que não estão se infiltrando nos protestos?
Mesmo que essa manifestação tenha começado por um ideal de esquerda (MPL), temo que tenha algum movimento de direita por trás das manifestações, e isso só vai servir pra dividir o povo, aproveitando a insatisfação e assim os induzir às eleições de 2014 a querer trazer o PSDB de volta ao poder, que é um retrocesso, especialmente à população pobre. Trazer à tona e massivamente o neoliberalismo é voltar ao passado na época do FHC, arrocho salarial, desemprego em alta e por aí vai. Não quero isso pro meu Brasil.

Antes de tudo NÃO sou PETISTA. E tenho dúvidas se sou de centro ou esquerda. Ou melhor, mal entendo de política. Mas acho que entre os partidos que tem por aí, é umas das opções menos piores. Prefiro o PT no poder do que os entreguistas do PSDB.

Desculpe se ficou confuso, é que não consegui escrever de forma linear e lógica. Mas espero que não só vc Lola, mas os leitores desse blog maravilhoso tenham entendido minha mensagem. Reflitam! Não se deixem ser manipulados! Fiquem espertos.