quinta-feira, 13 de junho de 2013

GUEST POST: DEFICIÊNCIA, GÊNERO E SEXUALIDADE

Pedi um guest post pra Silvia Alves, mestranda do programa de Psicologia Cognitiva da UFPE, sobre um assunto que nunca foi tratado aqui (já publiquei alguns posts, como este, excelente, e este, comovente, mas nada que relacione sexualidade e deficiência. Seria ótimo ter mais textos assim!).
Eis o post da Silvia.

Sou formada em Pedagogia e trabalhei cinco anos numa ONG voltada para pessoas com deficiência. Sempre me interessei por estudos sobre elas e através de um vasto levantamento bibliográfico na literatura da área percebi que as pessoas com deficiência sempre tiveram sua imagem associada à incapacidade e que ainda é comum que sejam consideradas como um grupo homogêneo e assexuado. 
Em uma pesquisa realizada anteriormente com pessoas com paraplegia pude notar que questões relacionadas à sexualidade não apareceram explicitamente nos dados colhidos com as participantes mulheres (o mesmo não aconteceu com os homens), o que me levou a pensar que as mulheres com deficiência poderiam sofrer uma dupla marginalização, uma vez que tanto no âmbito público quanto no privado ainda existe uma série de diferenças e desigualdades que marcam as relações sociais e que tornam a mulher vulnerável ao preconceito social, principalmente no que diz respeito à livre vivência da sexualidade. Assim, as mulheres com deficiência seriam alvos de estereótipos e preconceitos que são destinados a esses dois grupos oprimidos.
Recordando os momentos vividos dentro da ONG onde trabalhei lembrei-me dos (péssimos) comentários que eram dirigidos àquelas mulheres com deficiência que desviavam do padrão (mulheres solteiras, religiosas e recatadas). É preciso salientar que se para as mulheres, em geral, o fato de usar determinados tipos de roupas, terem diferentes parceiros sexuais, ingerir bebidas alcoólicas, gostarem de frequentar festas, etc já se configura como comportamento inadequado, quando esses comportamentos se aplicam a mulheres com deficiência, as atitudes discriminatórias aumentam consideravelmente.
Apesar do surgimento de avanços legislativos que conferem direitos às pessoas com deficiência, ainda hoje elas vivenciam situações de exclusão, violência e segregação. E, quando a essas pessoas é somada a questão do gênero, os estereótipos e preconceitos que permeiam suas vivências aumentam, dificultando ainda mais a conquista de autonomia de vida, inclusive no que diz respeito à sexualidade.
A falta de informação acerca da sexualidade dessas mulheres alimenta a crença de que deficiência e sexualidade são incompatíveis. Dessa maneira, ainda é forte no senso comum a ideia de que a pessoa com deficiência não sente desejo, nem vivencia sua sexualidade, principalmente, quando essa deficiência é a paraplegia, por envolver os membros inferiores, onde se localizam os órgãos genitais. Entretanto, há muito que se desconstruir sobre tais concepções, primeiramente porque a sexualidade não se resume ao ato sexual nem se localiza unicamente nos órgãos sexuais. Além disso, não há nenhuma evidência que relacione a paraplegia (ou qualquer outro tipo de deficiência) à falta de desejo sexual. 
É preciso destacar que os (poucos) estudos que abordam a questão da sexualidade das pessoas com deficiência estão massivamente voltados para o homem com paraplegia adquirida, uma vez que esse teve o curso de sua sexualidade modificado pela paraplegia. Apesar de se reconhecer a importância de tal discussão, é necessário ampliar o debate, incluindo sujeitos que seguem sendo discriminados. 
Visto que debater sexualidade é discutir valores, normas sociais e culturais, é relevante refletir sobre as possibilidades e as impossibilidades que a sociedade coloca em relação a esse fenômeno, pois o tabu da sexualidade associado ao da paraplegia dificulta o processo de inclusão de mulheres com deficiência, por não considerá-las em todas as dimensões da vida. 
Apesar da deficiência, tais mulheres têm suas peculiaridades e singularidades e conservam seus direitos, seus aspectos sociais, pessoais e, inclusive, sexuais. Essas não devem ser encaradas como doentes nem como incapazes de tomar decisões na condução de suas vidas.

39 comentários:

Pentacúspide disse...

estranho ninguém ter comentado ainda. e por favor, não comentem este comentário que também não tem nada a ver com o tema.

Anônimo disse...

Sou uma pessoa com deficiência, casada e também mãe. Há alguns anos, procuranda emprego nas instituições voltadas ao PCD, lembro que fui atendida por uma recepcionista cega e grávida.

Para mim era natural, mas na sala de espera tinha uma moça com surdez acompanhada da mãe "normal". Quando a recepcionista se ausentou, a mãe comentou comigo "Mas que coisa triste que fizeram com essa menina, né? Esses caras não tem um pingo de consciência né? Engravidar uma moça que vive desse jeito!" Contra-argumentei que a cegueira não era uma sentença de virgindade eterna, e que a moça tinha o direito de tentar encontrar a felicidade tanto quanto qualquer outra pessoa, no amor e na vida. E que eu mesma, deficiente física, filha de uma deficiente física, também tinha tido os meus namoros e optado por um cara em especial "normal" e que não descartava a possibilidade de ter filhos no futuro. E que um dia a filha dela tb poderia se apaixonar, pq faz parte da vida.

Ela se assustou. Acho que nunca tinha pensado na possibilidade da filha viver uma vida plena, adulta.

O preconceito da sociedade também se aninha nas famílias. Era uma mãe constituída na era anterior á internet, mas acho que falta tambem o apoio emocional aos pais quando se ganha um pacotinho azul ou cor-de-rosa portador de deficiência. Nas grandes cidades temos acesso ao ato médico, mas a saúde emocional das famílias deveria estar articulada com o tratamento a que cada criança deficiente é submetida.

A crise não é só social.Começa muito antes, na aceitação.Quando a deficiência não salta aos olhos, tende a ser escamoteada. Mesmo gritada na curiosidade mórbida das pessoas e nos atos de bullyng.

Minha mãe com osso extras, pernas tortas, 8 cirurgias de correção, não se aceita como deficiente. Meu pai nunca aceitou que eu me considerasse deficiente, ignorando meus braços tortos, minha mão infantil e as minhas três cirurgias corretivas. Meu marido não aceita que nossa pequena, fisicamente perfeita porém portadora de TDAH, seja considerada diferente.

Há que se dar sustentação para o acolhimento do outro, para a apuração do olhar. Para o reconhecimento e o enfrentamento não só da patologia, mas para se exigir a inserção cidadã do diferente no contexto social.

Bj Lola. Parabéns por ter aberto o espaço para a discussão.

Aurea

Anônimo disse...

Pentacúspide, estava tentando escrever. Ficou meio grande, mas espero que a Lola aprove. Abç,
Aurea

Nane disse...

A deficiência física ou mental de mulheres com certeza é mais um motivo para a sociedade validar a intromissão na sexualidade delas.Triste...

Elaine Pinto disse...

Aurea, é realmente incrível como as pessoas olham as portadoras de deficiência. Tenho uma amiga cega, cujo marido também é cego e que já está no terceiro filho. São pais extremamente zelosos e carinhosos, mas isso não impediu que ouvissem - principalmente ela, claro, por ser mulher - toda a sorte de despautérios sobre a educação dos filhos. A sociedade consegue ser bem cruel com quem não corresponde ao modelo "normatizado". Minha amiga é uma mulher extraordinária e consegue dar a resposta certa a qualquer "bem-intencionado" que tente impor suas verdades a ela...

Quanto ao post, excelente! Só posso imaginar os preconceitos que as mulheres com qualquer tipo de deficiência sofrem com relação à sua sexualidade. Realmente, é um assunto do qual eu nunca ouvi falar.

Anônimo disse...

Ótimo comentário, Aurea!

Se dentro de casa a sexualidade feminina já é negada (lembro de uma comentarista que disse por aqui que para o pai dela, ela ainda era virgem, mesmo já tendo relacionamentos sérios, e tb dos meus primos, que na adolescência diziam que a mãe era virgem...), imaginem nessas situações, como vc bem lembrou dessa mãe.

Esse post me lembrou um trabalho que fiz como guia em um ecomuseu com um grupo de portadores de deficiência (espero que seja essa a terminologia), foi uma das turmas mais divertidas que acompanhei.
Eles estavam avaliando a acessibilidade do sítio (é um museu aberto, com trilhas etc). Acho que tinha somente umas duas mulheres, uma com "ossos de cristal", mas animada, faladeira.
No fim do passeio, teve um momento de avaliação e descontração, até pra eles descansarem antes voltar, conversaram sobre o que gostavam de fazer nos fds: churrasco, bebidas etc. No meio do papo os homens tomaram a iniciativa de falar sobre sexualidade e somente eles relataram como funcionava (trocando figurinhas de remédios etc).

Anônimo disse...

Acho válido quando assuntos como esse são abordados de forma séria.
Me lembro de uma novela da Globo,onde uma cadeirante vivia uma vida delirante,fora da realidade.Exageraram tanto que a personagem acabou virando piada.A interpretação da atriz também foi ridícula,artificial.Seres humanos com deficiência independente do sexo,idade,credo ou raça não devem ser tratados nem como inferiores e nem como ETs.

Sara disse...

Deficiências diferentes são a realidade de muita gente.
Acho q a internet nos aproximou mais dessas pessoas, pois aqui podemos conhecer melhor o q sentem e como veem o mundo, e quem sabe contribuir para uma melhor integração.
Perto de minha casa tem um shopping que reuni alguns grupos com deficiência, de cegos e de surdos.
A primeira vez q os vi, estavam conversando muito animadamente, gesticulando muito, qdo cheguei perto não pude escutar nada, até q percebi q os gestos eram a conversa.
Hje ja nos acostumamos com a presença animada desses grupos, e acho muito positivo q eles estejam ocupando espaços públicos como todos nós.

Sara disse...

OFF TOPIC

Lola a ditadura voltou com toda força , pelo menos aqui em São Paulo, horror , horror, o q estão fazendo com os manifestantes aqui.

Vitória disse...

Adorei esse guest post! Uma das minhas melhores amigas é deficiente e vejo essa dupla fiscalização pairando sobre ela o tempo todo.

Primeiro que a família dela não a considera capaz para nada, por isso ela passou um bom tempo sem receber incentivo nenhum do pai, como estudo e capacitação. As coisas eram assim em sua casa: se tiver dinheiro sobrando, vc pode fazer um curso qualquer, mas se estivermos apertados o único que receberá tais incentivos é o seu irmão (não-deficiente). Quando ela perguntava pq, o pai respondia: pq ele é homem e tem seus braços e pernas funcionando normalmente.

Só que assim, minha amiga já tem 30 anos de idade, nunca tinha trabalhado ou feito faculdade na vida. Sempre dependeu dos pais para tudo (não pq ELA queria, mas pq eles queriam assim), agora imagine se os pais morressem como ela iria ficar? O irmãozinho playboy que não iria cuidar dela nunca. Só sei que de um ano para cá ela arrumou um emprego de caixa em uma loja e começou a fazer faculdade, a muito contragosto do pai. Embora eu ache que estudar e trabalhar é pesado principalmente para ela (o ideal seria que ela tivesse todo o tempo do mundo para estudar), no final ela está certa, está conquistando a sua autonomia!

Vitória disse...

Quanto à sexualidade ela sofre com isso tb! A última vez que ela ficou com alguém foi com um colega nosso de escola, que morria de medo que os outros soubessem que eles ficavam. Então ele ia até a casa dela, eles trocavam beijinhos (e até onde sei era só beijinho), mas se se encontrassem na rua ele fingia que nada tinha acontecido. E isso já faz anos!

Uma vez veio um mascu aqui dizer que as prostitutas eram essenciais para homens deficientes, uma vez que mulheres não-prostitutas não queriam nada com eles. Até nessas situações os homens deficientes tem vantagens sobre as mulheres deficientes, pq se ninguém quer se envolver com o cara ele ainda pode pagar uma GP e terá toda uma sociedade legitimando isso, afinal homem não fica sem sexo e "tadinho, ngm quer trepar com ele. sociedade preconceituosa!". Mas e minha amiga? Imagine o que falariam dela se ela fizesse o mesmo?

Acho muito interessante esse tema da sexualidade, gênero e deficiência física.

Anônimo disse...

Vitoria se sua amiga sair com um garoto de progama ela precisa sair divulgando pra todo mundo?

Lara disse...

Oi, Lola! Todos os dias leio seu blog mas raramente comento! Acho que é porque muitos dos comentaristas já falam por mim.
Hoje achei que valia a pena dar meu pitaco! Atualmente vivo nos Estados Unidos e aqui acabou de estrear uma série na tv, uma espécie de "reality show", na verdade, chamada "Push Girls". É sobre o dia-a-dia de quatro mulheres cadeirantes. Achei a proposta super bacana justamente por quebrar alguns estereótipos sobre elas. As participantes, que ficaram paraplégicas por diversos motivos (uma por acidente de carro, a outra por uma condição congênita, as demais não me lembro)saem, se divertem, namoram, trabalham (inclusive uma é atriz e outra, produtora), passam por altos e baixos, enfim, são mulheres normais! Chega uma hora em que a gente até esquece que elas são cadeirantes, essa condição não as "define", sabe? Na maior parte do tempo elas são super alto astral! Seria legal se houvesse algo semelhante no Brasil, vamos torcer!
Super beijo pra você!

Anônimo disse...

Adorei a postagem, Lola. É um assunto muito pouco difundido, e quanto mais se fala sobre, mais as pessoas tem conhecimento. :)

Lígia

Nane disse...

Um parente da minha mãe era recém casado quando sofreu um acidente junto com a esposa e esta ficou paraplégica. Adotaram uma menina e anos depois ela engravidou para o "espanto" de todos. Ainda me lembro dos comentários achando que ela só podia ter feito inseminação porque sexo não devia acontecer entre eles .Outros diziam que ele era muito bom pra ela por fazer sexo com ela naquela situação.Ai ai...

Gabi disse...

Lola muito obrigada por esse post. Conseguiu sintetizar muita coisa que eu passo sendo mulher numa cadeira de rodas. Ate hoje na questão amorosa/sexual só encontrei desprezo nas pessoas que me interessei.Mulheres cadeirantes não são vistas como mulheres. Ainda hoje tenho que ficar explicando que não tô morta, que bebo e vou a festas. No âmbito familiar já tive atritos pela minha independência mas hoje ta tudo bem,o que machuca é as coisas que você quer viver e não pode.

Ana Telles disse...

Gente, eu vim aqui comentar, quando vi que só há 15 comentários. 15. Eu realmente espero que tenha havido algum erro na moderação, que a Lola não tenha aprovado todos ainda. Porque, se isso for simplesmente falta de desinteresse, só deixa mais flagrante ainda, pra mim, o quando o movimento feminista ainda deve às mulheres com deficiência.

Mais ainda, só deixa mais claro o quanto nós, mulheres cis brancas de classe média e sem deficiência física ou mental (que somos a maioria das mulheres do movimento e das que o encabeçam), não damos a mínima para os problemas de mulheres diferentes de nós, nem nos esforçamos para colocar assuntos que dizem respeito somente a elas na agenda do movimento.

lola aronovich disse...

Carla, pode sim, claro! Mande pro meu email: lolaescreva@gmail.com



Eu também gostei muito do post e dos (poucos) comentários!

Carla disse...

Lola, posso escrever sobre a repreensão da polícia no manifesto de ontem? Você posta (se você gostar, claro)

lola aronovich disse...

Não, Ana, infelizmente não há nenhum comentário aguardando a publicação na moderação... Não é um assunto que atraia muito gente. Ontem foi um dia de poucas visitas. Mas, enfim, é um tema fundamental, e me sinto orgulhosa de ter publicado este post.
Lendo alguns comentários, pensei num outro assunto: e em casos de deficiência mental, como fica a sexualidade? Imagino que haja uma proteção enorme por conta dos pais. Sexo com uma pessoa com deficiência mental não pode ser considerado estupro de vulnerável em alguns casos?

Vitória disse...

Anônimo das 21:30


Não sei se vc leu a parte em que eu disse que ela é deficiente. Ou seja: ela precisa de companhia pra tudo, até pra ir ao trabalho e à faculdade. Ela nao precisaria dizer para todos se fosse sair com um gp, mas pela própria condição dela ao menos os pais acabariam sabendo.

Anônimo disse...

Eu não consigo imaginar a dimensão do tabu que deve ser falar sobre a sexualidade com portadorxs de necessidades especiais.
Eu fiquei assustada a história do parente da Nane. Então as pessoas pensam que ele está fazendo um favor, um ato de caridade ao fazer sexo com a esposa? Cada vez mais medo da humanidade!!!!

Tempos atrás, eu vi um casal no ônibus, na verdade já os vi mais de uma vez. Ela é cadeirante, bastante jovem, então não sei se são casados ou namorados. Achei lindo a forma como os dois se olhavam e trocavam carinhos.
Amor, atração e sexo é algo natural e simplesmente acontece, indiferente da condição física.
Me parece uma coisa horrenda tentar negar (negação essa disfarçada de proteção) o direito de viver a sexualidade a uma pessoa que com certeza, mata um leão por dia para fazer as coisas simples do dia a dia!

Jane Doe

cianaly disse...

Interessantíssima a postagem. Não sou de comentar muito, mas devido à falta de comentários, resolvi dar minha contribuição.

Percebo que se fala pouco sobre isso, inclusive as próprias deficientes não falam sobre, imagino que até elas próprias não se veem dignas de serem desejadas sexualmente, até por causa da fiscalização alheia.
Vejo que isso pode estar relacionado também à maneira como os pais veem essa parte da vida dos filhos deficientes, uma vez que a maioria deles tem os pais como companhias mais próximas, inclusive quando adultos e, como mostra o relato da Aurea lá em cima, eles não são abertos, na maioria dos casos, a essa discussão.

Anônimo disse...

Lola, acho que o assunto é mais delicado qnd se trata de deficiência mental.
Não só pela questão da 'capacidade de julgar' da pessoa estar em déficit, mas também no como a família lida - há aquela que envolvem a criança numa bolha e outras que não cuidam mesmo.
Quando eu era criança, na casa vizinha, era claro que a filha mais nova tinha algum problema.
Os pais eram separados, ela vivia com a mãe e tinha umas 4 irmãs, não recebia a devida atenção, era tratada como se fosse uma criança 'normal'.
A guria cresceu e passou a dar pra todo mundo e, por conta da doença, os caras se aproveitavam mesmo, bem no estilo usar e descartar.
De forma alguma condeno ela, mas fico pensando, será que ela está ciente disso? Será que ela possui uma libido exacerbada ou é somente a falta de noção? Será q é realmente isso que ela quer?
Lembra do filme Nell em que ela vai pra cidade, chega num bar, o cara se aproveita dela fazendo ela tirar a blusa sem que ela tenha noção do que era isso?
Penso que é mais ou menos assim.

cianaly disse...

Eu tive um parente próximo que por um problema de saúde, acabou paraplégico. Eu ainda era criança, uns 9 anos, me lembro de vê-lo conversar com minha mãe sobre seu desejo sexual, falando que tentou falar com a mãe dele sobre isso e ela não lhe deu ouvidos, sendo ríspida, nos relatos dele, ela lhe disse que já tinham muitas coisas pra se preocupar, em relação à saúde dele, não ia dar ouvidos para algo que não importava.

Em relação à deficientes mentais, acho que ainda deve ser mais complicado, me lembro de ir às lágrimas, quando vi o filme "The Other Sister", por aqui "Simples como Amar", vc já viu Lola?. Me lembro do desespero da mãe da personagem-título ao saber que a filha estava namorando.

Anônimo disse...

outro aspecto pouco abordado, devotee, eu simplesmente tenho uma grande atração por mulheres amputadas (preferencia por pernas), algumas pessoas preferem loiros, morenas, eu amputadas, mas há uma enorme dificuldade de buscar e se aproximar. além, é claro, do obvio preconceito

Anônimo disse...

um dilema filosofico, se a pessoa - deficiente - não ve determinado ato como abuso, alguem abusa-la é um abuso?

André disse...

Por que todas as moças deficientes que ilustram o post são magras, loiras e lindas?

Gabi disse...

Lendo os comentários, lembrei de um detalhe. Assim como muitas vezes os pais não sabem lidar com aquele filho com deficiência, também não estão preparados pra lidar com a sexualidade daquele filho. Tudo o que sei sobre este assunto veio de papos, leitura, filmes, desde muito criança, depois que perdi minha mãe. Ela sim, explicava tudo, queria que eu casasse e tivesse filho. Sobre os poucos comentários sobre o assunto, como meu pai diz" só se preocupa com o deficiente, em dois casos: se tu tem um filho com deficiência ou se tu ficou deficiente por um acaso da vida. Se tu não tá nessas duas situações, tu ta cagando e andando pra esse assunto.

Gabi disse...

E respondendo ao André, todas as moças das fotos são loiras, magras e lindas por vários motivos dentre eles, que na Europa se tem um pouco mais de abertura no mercado da moda quanto a mulher com deficiência. Até hoje não vi nenhum editorial nacional , de revista, blog ou o que for com deficientes, sejam elas, loiras, morenas, ruivas

Fabiana disse...

Vejam só. Existe uma Lei, que é a n. 11.804/08 que trata sobre alimentos gravídicos. Para quem (felizmente) não entende estes termos, trata-se da pensão alimentícia que o pai tem que pagar ao nascituro, o que na prática, acaba sendo um valor prestado à mulher gestante. Nessa lei, ultrajante, diga-se, há uma disposição de que caberá ao pai o pagamento desta obrigação quando o juiz for “convencido da existência de indícios da paternidade”. Isso significa que a palavra da mulher não basta, ela tem que mostrar o recibo do motel do dia da concepção, ou uma notificação com AR de recebimento do cara convidando-a para sair na semana que coincidiu com a primeira semana do feto. Enfim, quem trabalha na prática sabe que isso é um campo minado para argumentações sobre a vida sexual da mulher e que a discussão se deu ou não deu, se deu pra outros acaba se estendendo por meses, anos.., Se esse Estatuto quisesse proteger a vida do nascituro, por que não alterou essa Lei, dispondo que basta a palavra da mulher para responsabilizar o homem pelo pagamento destes alimentos? Ou por que não previu expressamente que em caso de dúvidas do juiz (no caso de ele não ter se “convencido” – me dói escrever isso - da paternidade) caberia ao Estado auxiliar financeiramente a mulher? Seria uma “bolsa vagabunda”, mas pelo menos os protestos seriam do outro lado... Por que não estabeleceu prazo para o Estado realizar um exame de DNA? Por que não fala em prioridade de julgamento em processos judiciais desta natureza? Quem trabalha com isso sabe que demora tanto para um juiz ser convencido desta paternidade, que a criança nasceu, fez aniversário e o homem não foi responsabilizado.
Esse Estatuto não resolve nada, não traz nada de novo a sociedade, não protege ninguém. Apenas vem para enfatizar a culpa da mulher que deu para o cara “errado”, para alimentar concepções machistas, obrigar moralmente as mulheres. Triste por estarmos discutindo esse retrocesso. É coincidência ou não, mas essa discussão veio a tona logo depois que o Conselho de Medicina posicionou-se a favor do aborto?

Lucio Fernandes disse...

O filme As Sessões mostra um pouco desse tema. O protagonista é virgem e praticamente não pode se mexer, e vê outras pessoas com deficiências que têm uma vida sexual e acaba querendo experimentar o sexo e marca consultas com uma terapeuta sexual substituta (com quem transa).

Nane disse...

Gabi, eu não tenho deficiência e não tenho ninguém próximo que tenha, mas me interessa e muito. Tenho muito interesse em minorias e em sexualidade . E esse post uniu as duas coisas. Adorei!

P. disse...

Muito bom o post. E gostei muito de ler o relato da Áurea tbem.

Gabi, quanto a não dar a mínima... concordo e discordo, pode? rs

Só posso falar por mim, claro. Mas, como mulher sem deficiência, posso dizer que meu sentimento é mais de, simplesmente, não saber o que dizer, o que pensar, como agir.

Porque a gente não cresce numa sociedade realmente diversa. A gente não cresce e não é criado pra realmente acreditar que, mesmo que sejamos diferentes, somos tbem iguais. A gente cresce pra aceitar quem é igual a gente. Quem tem alguma diferença - e se a diferença for deficiência, pior ainda - entra dentro dum espaço feito de interrogações, feito do não-saber. E a gente intui que a pessoa é como a gente, tem medos, problemas, felicidades, desejos como a gente, mas não consegue de fato saber essas coisas. Porque tem uma cadeira de rodas, tem um braço a menos, uma visão, uma audição... que nos impedem de enxergar a pessoa pra além da deficiência.

Pelo menos é assim comigo. Tenho que me treinar pra afastar sentimentos como compaixão ou culpa quando o assunto é esse.

Acredito que só quando a gente construir uma sociedade realmente integrada, em que desde cedo aprendamos a conviver com todas as diferenças, poderemos aceitar essas diferenças e nos aceitar como iguais, por mais paradoxal que possa parecer. E aí, questões como a sexualidade serão menos importantes, afinal, se eu não questiono o desejo sexual do Fulano, pq questionaria o do Cicrano? Pq ele não enxerga? Não ouve? Não anda? Quem determinou que são esses os requisitos pra ter desejo?

Existem mtas maneiras de fazer sexo nessa vida. Sexo não é penetração de um pênis numa vagina. Tem gente que gosta muito mais de outras coisas, mas como tem a capacidade de fazer de tudo, a gente nem questiona. Se alguma função sexual estiver debilitada numa determinada pessoa com deficiência, a gente passa a questionar toda a sexualidade dela, como se só houvesse um jeito de ter prazer nesse mundo.

Enfim, acho que me alonguei demais. E peço desculpas desde já se chateei ou ofendi alguém. Mas só queria explicar que o que parece indiferença é, simplesmente, uma dificuldade enorme de compreender, de se colocar no lugar, de saber como agir.

Eu tenho essa dificuldade. Sei que é um trabalho pensar em questões como essas e me trabalhar pra não ser indiferente. Mas torço pra que as nossas futuras gerações precisem trabalhar menos, pois já terão, desde cedo, aprendido a conviver com a natureza e toda a sua variedade.

Anônimo disse...

P. :

faço as suas as minhas palavras, não é não dar a mínima, é mais não saber exatamente oq pensar...

Tenho tentado sempre, todos os dias exercitar o sentimento de empatia,me colocar no lugar dos outros, tentar pensar como eu agiria em determinadas situações se eu tivesse tido outras experiências de vida, passado por outros desafios ou mesmo sendo parte de outra minoria (sou homossexual)

Já pensei bastante sobre a questão dos deficientes e vejo o quanto de barreiras físicas lhes são impostas no dia a dia, algo que para mim é simples,como subir uma escada, para pessoas com determinadas deficiências é impossível ou muito penoso.

Não faz muito tempo que sofri um acidente e fiquei mancando por aproximadamente um mês...certas coisas se tornaram bem difíceis naquele período, como o ato de ter que descer e subir o meio-fio para atravessar a rua. Daí fiquei pensando caramba, foi só um mês e eu só estava um pouco manca, imagina as pessoas com deficiências físicas? São problemas duradouros, muitas vezes para a vida inteira e muito mais severos que o simples mancar!

Quanto ao emocional, confesso que na minha ignorância nunca tinha pensado na questão sexual e caramba! Fiquei realmente incomodada com o post da Lola, que barra heim? Além da questão física, emocional ainda ter que lidar com a patrulha dos incomodados com o exercício da sexualidade alheia? E saber que essas pessoas muitas vezes são seus próprios parentes e familiares (justamente aquelas pessoas que vc não pode evitar ou fugir eternamente) é de embrulhar o estômago.

É triste ainda pensar que todo esse discurso de patrulhar a sexualidade alheia vêm escondido por um "eu faço isso pq gosto delx, x estou protegendo"...

Igualmente gostei de ler o relato da Aurea.

Gabi disse...

Nane
Eu diria que hoje existe uma chama acessa, em tudo que se refere a deficiência no mundo inteiro. E isso é maravilhoso de se ver.
Que pessoas com o teu pensamento se espalhem cada vez mais.

Gabi disse...

P.
Sabe que apesar de essa parte ser a mais penosa de conviver com as pessoas, é a que mais me da um certo orgulho de viver nessa situação. Uma das minhas maiores felicidades é mudar o sentimento e a visão de alguém que nunca conviveu com uma pessoa com deficiência.
Pisar em ovos com o teu semelhante é normal, porque tu não tá habituado, tu não vê na tv, na rua. Mas isso ta mudando, ainda bem. O importante é ta sempre disposto a aprender, respeitar e ti colocar no lugar do outro.

Anônimo disse...

Excelente postagem, assunto pouco abordado, deixado de lado pela maioria, mais muito, muito interessante.

A sexualidade ampla, independentemente de se ter ou não uma deficiência, existe e se manifesta em todo ser humano. O erotismo, o desejo, a construção de gênero, os sentimentos de amor, as relações afetivas e sexuais, são expressões potencialmente existentes em toda pessoa, inclusive naqueles que têm deficiências.

Parabéns a estudante Silvia Alves e parabéns a você Lola, por ter cedido o espaço para tratar deste assunto!

Cora disse...


excelente postagem mesmo!

se a sexualidade da mulher ainda é, de certa forma, negada (já q sempre negativamente julgada), imagina a de uma mulher com deficiência.

e é incrível q, mesmo nesta situação, permaneça a desigualdade entre homens e mulheres, q permaneçam as negações e os julgamentos.

e qdo pensamos em deficiência intelectual, então, a coisa fica realmente complicada.

como disse a P., não vivemos numa sociedade realmente diversa. ao contrário. a tendência sempre foi de rejeitar ou segregar o diferente (apesar do meu pessimismo incurável, acredito mesmo q estamos nos tornando mais inclusivos).

por contingências da vida sempre convivi com pessoas portadoras de alguma deficiência ou com limitações de movimento. professores, colegas de escola/faculdade, amigos, parentes... e eles namoravam, casavam, tinham filhos. qdo a convivência é mais próxima, ninguém define ou reduz a pessoa à sua deficiência, à sua condição física. é mesmo questão de convivência, de acabar com a invisibilidade.

ultimamente tenho falhado bastante, mas acompanhei por muito tempo o blog “assim como você”, do jairo marques, jornalista sensível a essas questões e, ele próprio, cadeirante. recomendo.

sobre a superproteção da família, tem um tanto de preconceito mesmo, de achar q a pessoa é menos capaz, qdo na verdade, td é questão de acesso, oportunidade e autoconfiança. mas tem tb a insegurança dos familiares. medo mesmo. e isso muito em função das ruas e ambientes (e pessoas) serem hostis ao deficiente físico. no brasil, a acessibilidade, só recentemente, está se tornando realidade (ainda assim, lentamente e muitas vezes não passa de remendo pra inglês ver).

muito bom o comentário da anon 09:08.