terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NÃO É O UNIFORME QUE MASCULINIZA

É boa esta curta reportagem do Fantástico de domingo retrasado sobre a tenente-coronel que comandou o reveillon 2011 do Rio. A reportagem coloca alguns dados importantes pra todo mundo saber (mulheres ganham 71% do salário de um homem; 35% dos lares brasileiros são tocados por mulheres; mulheres na força policial foram de 2% para 13% nos últimos trinta anos), mas cai naquela ladainha que vemos em todas as reportagens sobre mulheres no poder ― lá pelas tantas, o espectador é lembrado que a tenente-coronel é vaidosa e adora vestidos, apontando como toda mulher deve agir. Porém, gostei do que a tenente responde ao ser perguntada se a farda masculiniza a policial. Ela diz que a farda não a deixa feminina, e nem deve fazer isso, afinal, é uma farda: "É farda, uniforme, não precisa deixar feminina", a tenente ensina à repórter. Ora, vivemos numa sociedade em que o poder ainda é visto como algo masculino. Não é uma farda ou um tailleur ou uma faixa presidencial que masculiniza ― é o poder, stupid!
Como mudar essa percepção de que mulher e poder não combinam, apesar de rimar? Só mesmo tendo mais mulheres em posição de poder, penso eu.

15 comentários:

Diana disse...

É isso aí.
Vc acha bacana a ideia das cotas de candidatas, Lola?

Dária disse...

Isso me lembrou outra coisa. Já assistiram o documentário "South of the Border"( ou Ao sul da fronteira), do Oliver Stone??

Ao entrevistar Cristina Kirshner o Oliver, com tanta coisa que se poderia perguntar a uma presidente de um dos maiores países da América Latina, pergunta "quantos pares de sapato você tem?", ao que ela prontamente respondeu que não sabia, nunca havia contado e protesta por não fazerem a mesma pergunta a presidentes homens.

Machismo está em todas as esferas.

Carol Passuello disse...

Sim, mais mulheres em posições de decisão! E mais pessoas inteligentes falando sobre elas? Lestes o caderno especial do Valor Econômico sobre executivas? Mostra mulheres que deram um duro danado para dirigirem grandes organizações, mas fecha com uma reportagem patética sobre sapatos que a executiva tem que usar para mostrar poder. Se puderes, gostaria da tua opinião no post: http://vinhosviagenseumavidacomum.blogspot.com/2010/12/executivas.html
Um abraço!!

aiaiai disse...

E o Marcos Bagno escreve delicioso texto sobre o uso de Presidenta!

http://www.cartacapital.com.br/politica/presidenta-sim

Luciana disse...

Mas se fosse o contrário? Mostrando mulheres sem vaidade? Será que não estaríamos reclamando que estão querendo masculinizar a mulher também? Que ela somente será aceita se agir como homem? Fica a questão para ser discutida.

Sammy disse...

Eu adorei a resposta dessa oficial. Uniforme é uniforme, não foi feito para deixar 'bonito' e sim para uniformizar, para caráter de identificação.

O que me lembra, mais uma vez, que sempre somos cobradas pela nossa aparência. Em uma empresa mais liberal com relação aos trajes de roupa, se um cara aparece "largado", pouca gente comente. Geralmente dizem que é "o estilo dele". Mas vai uma menina aparecer mais largada, quero dizer, sem salto, maquiagem, roupas estruturadas da moda, etc. É criticada e até recebe um TOQUE DAS AMIGAS.

gustavotche disse...

Desde quando vaidade torna algo mais feminino? Talvez coubesse a discussão de poder exacerbar vaidade durante o trabalho policial.
Então um sujeito é menos homem ou mais mulher pq é vaidoso?

Leila Silva disse...

Eu vejo raramente o fantástico, mas esse dia por acaso eu vi e também gostei bastante da resposta da policial.
Não entedi a pergunta da Luciana, mas o caso aqui é que se trata apenas de um uniforme, de homem, de mulher, pouco importa.

Renata de Oliveira disse...

Lola, acabei de postar essa notícia, com o meu comentário de introdução, em um grupo de discussões do qual participo, composto por delegados de polícia.
De vez em sempre, gosto de provocar discussões sobre questões de gênero, e já tive gratas surpresas, apesar de alguns posicionamentos, bem, normais, considerando que é um grupo heterogêneo mas mais masculino (polícia) e conservadores (tendência mundial em todas as forças policiais).

Segue o meu comentário no grupo, e a notícia que compartilhei, sobre a primeira mulher a chefiar uma instituição policial civil no brasil, na PCDF.
Ah, vale notar que, na área de segurança pública, notadamente composta em sua maioria absoluta por homens, a Secretaria Nacional de Segurança Pùblica - SENASP, passou a ser comandada por uma mulher, a Regina Miki.

Abs

Renata
Renata

A presidenta Dilma Rousseff parece haver alargado um pouco mais a
brecha para que mulheres ocupem cargos políticos de chefia no Brasil.
Além de 25% dos ministérios serem ocupados por mulheres, a Secretária
Nacional de Segurança Pública é uma mulher, a Regina Miki.

E hoje, acabo de ler a seguinte notícia:

Primeira mulher a assumir direção da Polícia Civil promete muitas
mudanças

Luís Augusto Gomes
luisaugu...@jornaldebrasilia.com.br

Buscar investimentos para aquisição de tecnologias de ponta, aumentar
o efetivo, elevar o índice de elucidação de crimes, tornar a
comunidade parceira da polícia e expandir a polícia comunitária. Estas
são algumas das principais promessas da delegada Mailine Alvarenga ao
assumir a direção-geral da Polícia Civil do Distrito Federal, ontem à
tarde, no auditório do Departamento de Polícia Especializada (DPE).
Ela é a primeira mulher a assumir o posto máximo da corporação.

Além disso, a nova diretora promete valorizar e estimular os
policiais, aprimorar as condições de trabalho, oferecer assistência à
saúde física e psicológica dos integrantes da corporação, intercâmbio
de informações nas áreas de inteligência e operacional com as polícias
do Entorno, uma polícia cidadã, uma corregedoria-geral atuante,
combate incansável ao tráfico de drogas com repressão e monitoramento
de traficantes de drogas e de grupos criminosos.

Mailine assume com certa resistência entre policiais. Parte da equipe
não teria ficado satisfeita com mudanças nos cargos de chefia nas
delegacias. O governador Agnelo Queiroz disse que as insatisfações não
passam de rumores. Afirmou que a polícia não terá fins políticos.
Garantiu que a nomeação de Mailine foi técnica e a polícia está em
boas mãos. "Nós queremos justamente despolitizar. Essa instituição é
do estado, do povo do DF", disse o governador que prometeu
investimentos para que a Polícia Civil seja reconhecida como a melhor.
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=Maíra= disse...

É um saco estarmos neste eterno concurso de miss promovido pela mídia... E DAÍ se a farda masculiniza ou se a mulher usa salto? O grande problema é isso ser tão recorrente em particamente todos os textos jornalísticos que tratam de mulheres no mundo profissional...

Tiago disse...

Luciana

Se a reportagem mostrasse a policial sem vaidade, ela seria imediatamente masculinizada, afinal, se ela não tem vaidade, então não é uma mulher "de verdade". Alias, não é isso o que acontece com muitas mulheres no poder, acabam sendo masculinizadas? Vide o caso da nossa presidenta, por exemplo.
Então, o ponto é justamente que NÃO IMPORTA a vaidade das pessoas envolvidas. Supondo que fosse feita uma reportagem com um policial homem. Será que a reportagem iria indagar se ele é vaidoso? É claro que não, afinal o homem não precisa ser vaidoso para provar sua masculinidade, muuuuuito pelo contrário. Alias, será que a reportagem precisaria fazer algo para "provar" sua masculinidade? Provavelmente não, afinal, é um homem no poder!
Então, pq a reportagem com a policial mulher precisa falar de sua vaidade? Por acaso é necessário provar a feminilidade da mulher em questão? Mesmo sendo uma mulher no poder, ainda assim ela precisa estar sempre pronta pra agradar os homens?
É o mesmo caso que a Dária citou acima, por acaso Oliver Stone perguntaria a um presidente homem qtos pares de sapato ele possui?
Por isso que essa questão da vaidade, seja uma característica da policial ou não, deveria ser simplesmente ignorada, como seria se fosse um homem no lugar.

Ped, disse...

A polícia garante a dominção de classe. Ou seja, garante a própia instituição de valores da classe dominante, pode incluir aí o machismo.

Koppe disse...

Quando servi na Aeronáutica, lembro que tirar serviço era considerado por todos quase como um castigo. Mas, entre todos os tenentes que ficavam de oficiais de dia, tinha algumas mulheres. Quando alguma delas era escalada para ser oficial de dia, surpresa, quase todos os soldados gostavam da idéia de tirar serviço naquele dia. Será porque elas eram mais justas e menos rigorosas na forma de comandar? Tive colegas que se vangloriavam de ter tirado serviço com a tenente fulana de tal... E nunca, nunca vi nenhum comentário sobre elas serem femininas ou masculinizadas. Entre os soldados até que não parece mais tão estranho uma mulher no comando. E de agora em diante vai ser menos estranho ainda, já que a comandante de todas as forças armadas brasileiras agora é uma mulher...

Rita disse...

Quanto a mais mulheres em posições de poder, pensa e pensa muito bem! e qualquer mulher que deseje controlar a sua propria vida deve pensar da mesma maneira pois sem poder, económico, político e cultural ninguém vai a lado nenhum ou melhor só vai onde os outros, que tem poder, querem que vá.

Anônimo disse...

a reportagem tem que enfatizar que ela é mãe divorciada...querendo dizer algo do tipo: Está vendo o que acontece com essas mulheres que tem dinheiro e tiram o lugar dos homens??hein??acabam sem homem...se for um que me fazça infeliz prefiro ficar sem...