sábado, 19 de junho de 2010

SARAMAGO, VÁ SEM DEUS

Estou chateada que José Saramago morreu. Ele tinha 87 anos, mas seguia lúcido. Sei, desde que escrevi meu primeiro texto sobre Ensaio sobre a Cegueira (sobre o trailer!) que montes de leitoras do bloguinho são fãs número um do escritor. Não posso dizer que estou entre esses fãs, já que conheço pouco da obra de Saramago. Até agora, li apenas Ensaio sobre a Cegueira, e gostei mais do filme, que considero um grande filme (e ainda quero falar mais dele). Quero muito ler outras de suas obras, só me falta tempo. Ele foi o único escritor até hoje a receber o prêmio Nobel de Literatura na nossa língua, se bem que o português de Portugal é meio diferente do nosso aqui do Brasil pra ser visto como “nossa língua”. Mas eu apreciava a coerência política do Saramago. Claro que, se ele fosse de direita, eu não estaria elogiando sua coerência ideológica. Mas ele sempre foi de esquerda, sempre foi ateu, e sempre deixou seu pensamento às claras.
Uma imagem que sempre me comove é aquela do Saramago chorando de emoção após a premiere do filme de Fernando Meirelles. O Meirelles lá, ansioso pra descobrir o que o autor da obra que adaptou achou da adaptação, e Saramago dá a melhor resposta que um cineasta pode querer: ele chora (além de declarar que ficou tão feliz ao ver o filme quanto ao terminar de escrever o livro).
Bom, deixo a arena pra vocês falarem do Saramago, já que o conhecem muito melhor do que eu.

56 comentários:

L. Archilla disse...

eu só tentei ler um livro dele (Memorial do Convento), e não consegui. acho muuuuuuuuito chato aquele estilo de escrever páginas e páginas sem uma vírgula sequer. admirava também a coerência política do cara, e só. ah, e gostei do que ele falou sobre o twitter. enquanto todos festejavam a evolução da comunicação, e não sei o que, ele disse algo como: "de degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido". ahahahah

ah! também sou profundamente grata ao autor por ter escrito "Ensaio Sobre a Cegueira" e dado um argumento pro Meirelles fazer mais uma obra prima, mas o livro, em si, eu não li.

o mais chato agora vai ser aquele povo que nunca leu uma linha de Saramago se declarando fã do escritor desde criancinha.

lola aronovich disse...

Lau, muito pior que esse povo que nunca leu Saramago se declarando fã é o povo que está comemorando "um comunista a menos no mundo" ou "todos os ateus descobrem deus mais cedo ou mais tarde e vão pro inferno". Ou o que já encomenda a alma de outros comunistas nocivos à sociedade - Chavez, Fidel, Niemeyer e Chico Buarque! Acabei de passar os olhos pelos 150 comentários deixados num post do tio Rei (que chama Saramago de cretino), e olha, é um bom exercício pros que acham que direita e esquerda são conceitos ultrapassados. Meu preferido naquela imensa caixa de comentários foi um leitor que disse duvidar que o Lula já tinha lido Saramago já que ele, o leitor, tem nível superior, e nem por isso já havia ouvido falar nesse tal de Saramago.

aiaiai disse...

Lola,

acho que vale a pena ler tudo desse gênio. Eu comecei por um que todos dizem ser o mais difícil "Memorial do Convento". É difícil mesmo, principalmente no começo...mas quando vc passa o começo, se apaixona pelos personagens e pela história e daí não larga mais.

Depois li o "Evangelho segundo Jesus Cristo" que é uma das coisas mais lindas e lúcidas que já li na minha vida. Eu chorava, ria, me angustiava. Lembro até hoje - isso tem uns 10 anos - quando li a passagem sobre a culpa de josé, logo no começo, e me desesperei por ele.

Esse livro reforçou muito a minha convicção no ateismo, porque mostra com muita clareza as fontes de toda religião: o ódio, a culpa, o desespero, enfim, a falta de conexão da sociedade que criamos com o univerno no qual existimos.

Tem que ler.

Depois eu li quase tudo dele, mas ainda faltam alguns que estou sempre adiando.

Não fiquei triste pela morte dele. Acho que foi uma morte normal, feliz até. Ele viveu tão bem, tão intensamente, tão pelo bem ...e morreu de uma doença lenta mas que não o deixou incapacitado, ao lado da mulher que amava e que o amava, morando no lugar que queria...enfim, uma vida plena.

Alexandre Martins disse...

Que ótimo ver esse tipo de pedantismo "eu da classe média tenho curso superior e sou melhor que vocês da ralé que não fizeram faculdade de nada". Como se "nivel superior" indicasse alguma coisa. Fui uma vez em um assentamento do MST aqui perto de onde moro, e um dos dirigentes do acampamento me deixou boquiaberto com o tanto de coisa que sabia de TUDO. Perguntei o que ele tinha cursado pra ter um conhecimento tão aguçado em áreas tão distantes, e o que eu ouvi foi: "ah, eu li bastante, mas não fiz faculdade não." Ali, naquela hora eu me senti a pessoa mais tapada do universo, e tive certeza que canudo mesmo só serve pra enfeite. Faculdade pra mim até agora só serviu pra fazer contatos e ficar confuso numa perspectiva mais ampla, ahahaha.

Comecei a ler o Evangelho segundo jesus cristo do Saramago. Gostei, mas é uma dinâmica estranha pra quem não está acostumado. Ele não pontua nada, o texto é bem corrido. Não é uma leitura de tão fácil digestão, talvez por isso tão pouca gente leia. Imagino que quando o filme saiu, uma multidão tentou ler o ensaio sobre a cegueira, tal qual fizeram com o harry potter, e viram que o buraco é mais embaixo, ahahahaha.

L. Archilla disse...

nossa, Lola, que horror! por isso que nem passo perto de blog de direita, cansei de me enojar!

aiaiai, o Memorial é o mais difícil? quem sabe eu tente algum outro, então... qual vc acha legal pra começar?

L. Archilla disse...

Alexandre, pra mim a faculdade serviu pra ganhar um boleto anual do conselho!

Mariana. disse...

Eu não conheço nada além de Ensaio Sobre a Cegueira, mas adorei.

O estilo de Saramago é diferente, único e, claro, surpreende qualquer leitor que esteja acostumado com parágrafos e vírgulas em seus devidos lugares.

Mas mesmo quem não conhece sua obra (como eu), pode se deliciar com algumas frases (longas demais pra um tweet só), com algumas de suas idéias, com a sua lucidez.

Quanto ao posicionamento político, tenho minhas reservas. Nada contra ser de esquerda, mas saramago silenciou sobre as torturas do regime cubano por exemplo. É o direito dele, mas... enfim. Cada um cada um.

Agora no twitter, choveu grosseirias. Eu li uma mulher que disse 'como podemos lamentar a morte de alguém que blasfemou contra deus a vida toda?'. Vi gente comemorando o fato de a morte ter ocorrido durante a copa, pq ai ngm dava mta atenção pra um ateu como saramago. Enfim, existe gente de todo tipo. E se o inferno existe, é pra lá que elas irão.

Clara Gurgel disse...

A minha mãe é católica,porém não carola e muito menos carismática(argh,como é mesmo a parada da vomitadinha?rsrsrs)Nem por isso é uma mulher burra.Ao contrário.Seu livro de cabeceira é justamente "O Evangelho segundo Jesus Cristo".A religião só oprime aqueles que se deixam oprimir.

Somnia Carvalho disse...

Lolissima,

o filme me tocou tanto que quando assisti eu disse a amiga que estava comigo que seria impossivel nao lembrar do Saramago falando no filme quando ele morresse...

me comoveu demais! eu sou uma pessima "Fã", ja que tambem li muito pouco, dois livros apenas, mas adorei... tenho respeito por ele... e o que mais me pega e saber que a morte leva qualquer um. As almas mais grandiosas, inteligentes, as mais questionadoras...

apesar de saber que ele viveu um bom tanto nao e estranho como todos nos sempre nos vamos?

beijocas!

PoshDrosofila disse...

Ola Lola,
Senti muito a morte do Saramago, muito mesmo. Eu o conheci quando tinha 12 anos, através do memorial do convento, um livro muito muito lindo. Li tudo o que ele escreveu, e muitas vezes senti um amparo muito grande em suas palavras. Ele esta pra mim no mesmo patamar que Guimaraes Rosa, que Fernando Pessoa, e mesmo que Stainback, pelo estilo que adotou em seus livros.
Vc ha assistiu Janelas da alma? Ele fala algo muito bonito neste documentario, que resume um pouco as coisas em que ele acreditava.
Se vc tiver um tempinho sobrando, leia Todos os Nomes, vc vai gostar muito.
K

primeirocego disse...

Eu li o Ensaio Sobre a Cegueira e achei ótimo, depois vi o filme e não gostei. Pra mim o melhor do Saramago era mais a forma como ele escrevia do que o conteúdo dos livros. E eu gostava muito também quando ele interrompia a narrativa pra refletir sobre ela, só que claro que não dá muito pra fazer isso no filme, nesse ficou só a história.
@L. Archilla: Concordo que o Memorial é dos mais difíceis, eu já li vários livros do Saramago e esse foi o único que abandonei. Fiz duas ou três tentativas e acabou meu gás no meio. O melhor dele pra mim é o Evangelho, mas experimenta por exemplo A Viagem do Elefante, ou a História do Cerco de Lisboa - esses acho que fluem melhor.

Gisela disse...

Eu achei esse filme horrível. Sai decepcionadíssima. E olha que nem li o livro.

Logo que soube da morte do escritor lusitano, fiz um post no meu blog. Aliás, se alguém chegasse dizendo "como é alma, como está no céu?" Eu responderia: "mas ele é ateu. Não eu. E o blog é meu. Antes ele do que eu." ;-) Apesar de não ser atéia, compartilho de inúmeras críticas e pensamentos do povo que se diz ateu, ou até mesmo agnóstico.

Que Saramago vá "com Deus". ;-)

Ághata disse...

"Meu preferido naquela imensa caixa de comentários foi um leitor que disse duvidar que o Lula já tinha lido Saramago já que ele, o leitor, tem nível superior, e nem por isso já havia ouvido falar nesse tal de Saramago."

Huahauhauhauhauhauhuahuahauahauh!!

aiaiai disse...

L. Archilla,

Além dos já recomendados, acho que o mais fácil de todos é o último: "Caim", duro mas bem humorado. Eu li a maior parte desse livro num dia, na praia, sozinha, dando gargalhada.
a menos que vc seja muito religiosa...daí não recomendo. Ele pega meio pesado com as religiões, não tem a sutileza que faz de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" um livro inesquecível.

Dáfni disse...

Só li "O Evangelho..." e pra mim é brilhante. A passagem que mais me comoveu é a negociação de Jesus Cristo com o Diabo, numa canoa... aquilo é tão profundo e tão belo, que lembro sempre quando ouço o nome do Saramago.

Pessoa digna de respeito e admiração, fico triste sim por ele ter ido. Menos um comunista e ateu no mundo!

Beijos

Adriana Karnal disse...

Ensaio sobre a cegueira é uma bra prima...mas o que mais sentirei falta é a postura ousada de SAramago, que não é sempre que se encontra por aí...

L. Archilla disse...

valeu pelas dicas, pessoal!

Juliana disse...

"A passagem que mais me comoveu é a negociação de Jesus Cristo com o Diabo, numa canoa... aquilo é tão profundo e tão belo, que lembro sempre quando ouço o nome do Saramago." (2)

Assino embaixo, Dafni!

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Eu li apenas "O Ensaio sobre a cegueira" e considero um dos melhores livros que já li. O estilo dele, a princípio, eu também estranhei. Parágrafos longos, pouca pontuação, às vezes até me perdia... Mas na terceira página, já estava tão envolvida pela história e pelo ritmo angustiante da escrita dele, que nem estranhava mais. Acho que experimentei intensamente várias sensações possíveis com aquele livro: tristeza, raiva, ódio, alívio, alegria, ressentimento... Algumas passagens são verdadeiros "socos no estômago"... Não gostei do filme porque achei que ele não passa um quinto da emoção do livro, mas também reconheço a dificuldade em se passar pra tela certos questionamentos e impressões da mesma forma que a literatura consegue trazer...
Por outro lado, comecei a ler Ensaio sobre a lucidez, a história não me prendeu e não fui adiante.
Pretendo ler ainda O Evangelho segundo Jesus Cristo pelas críticas que já ouvi.
Também acho lamentável a perda do escritor e lamentáveis também esses tipos de comentários do blog do tio rei...

Abçs Lola!!

Alexandre Martins disse...

Ah Laura,eu acho esses comentários ótimos. De quem que eu poderia rir sem preocupação de ofender alguém se não fosse por eles?

Umrae disse...

Eu só li "Caim" (gostei muito, principalmente pelo clima meio "birrento", que foi uma maneira muito original de colocar as coisas) e "A viagem do elefante".
Fiquei chateada também, mas ele foi alguém que soube ter uma vida produtiva e plena. Quantas pessoas ele não fez pensar, né?

Flovi disse...

Ah, estou tão triste =/

Ensaio sobre a cegueira e o Evangelho estão definitivamente entre os melhores que já li. E olha que li o Evangelho em inglês, haha, olha isso (acho que teria gostado mais se tivesse lido na língua fonte, mas enfim, nunca deu certo e eu acabei achando o livro por aqui e comprei).

Ainda não li Caim, mas achei o livro Todos os Nomes bem fácil, juntamente com o fácil mas não menos brilhante A Jangada de Pedra. Lembro de achar o livro uma delícia, e ainda fiquei sublinhando tudo que é passagem que eu achei genial. Foi, sem dúvida, uma grande perda, mas o cara é, definitivamente, um imortal.

E eu já fiz praticamente todos os meus amigos aqui na Índia assistirem Blindness, nem que seja à força, haha, mas todos gostam. A PoshDrosofila disse sentir um apoio muito grande nas palavras de Saramago, e é exatamente assim que me sinto quando leio alguma coisa dele. Que ele descanse em paz!

ajudaai disse...

Saramago é sensacional! Não importa se é de esquerda ou de direita se é ateu ou cristão. Foi um homem sensato e de uma personalidade fortíssima. Com certeza é esse fato que incomoda as pessoas. Angela

Vivien Morgato : disse...

O Primeiro que li foi o Ensaio Sobre a Cegueira. Pirei.
Não conseguia imaginar uma metáfora mais intensa que a "cegueira branca". Tudo me impressionou no livro: personagens, mote central...as falas! ah, as falas das personagens...magicamente claras dentro de uma estrutura narrativa totalmente idiossincrática.
Depois passei pra Ensaio sobre a Lucidez: tem gente que acha menor, mas eu adorei.
Acho que tem uma dimensão maior quando lido após a Cegueira, mas dá pra ser deglutido sozinho.
"A Caverna" foi outro impacto: de certa forma, achei um tanto "kafkiano", o que só aumentou meu interesse por ele.
"Todos os Nomes" comecei, mas não curti, não bateu como os outros.
Adoro Saramago e achei a adaptação de Fernando Meirelles bastante interessante.

***

Vi Saramago ao vivo em 1992, em um encontro na Usp, um seminário sobre América.
Eu estava grávida, feliz, vestindo preto contra-Collor e vendo Saramago falar...pode ser melhor??

Senti sua morte, pois a citação de sua avó me comoveu " me dá uma pena morrer".

beijos.

Victor disse...

Não conhecia muito de Saramago - só assisti o filme de "Ensaio sobre a Cegueira". Mas adorei o título do post; imaginar os teístas mais radicais ofendidos me diverte. -RS

Victor disse...

Pelo menos a Sandra Annenberg quase chorou no Jornal Hoje de ontem (RSRSRS) quando falava dele.

Koppe disse...

Apesar da curiosidade, ainda não li nada dele, e pra isso pesa um pouco o fato de não gostar de ler em português-PT (ele não deixava adaptarem pra português-BR). De qualquer forma, descanse em paz.

olhodopombo disse...

Esta ai, um escritor que não tenho a menor vontade de conhecer sua obra literaria. Não gostava de suas posições antisemitas.Por mim, não faz a menor diferença, se foi ou se ficasse....

Gisela disse...

Faço minhas as palavras da Clara:

"A religião só oprime aqueles que se deixam oprimir." Aí nesse terreno encontram-se muitos que não acreditam em Deus. ;-0 Irônico, mas já percebi isso.

Gisela disse...

Ficou meio estranho, então lá vai: de tanto que a pessoa fala que não acredita em Deus, acaba ela mesma fácil de ser seduzida, "lavada" e por isso o pavor. E muitos falam em "lavagem cerebral" apenas referindo-se ao aspecto religioso e o que eu mais vi na vida foram pessoas que se diziam 'anarquistas livres', ou 'livres pensadores' (e fumadores) mas tremiam diante de qualquer fato impressionante e se apressavam em encontrar respostas lógicas, além de acreditarem em fim do mundo em 2012. E ateus.

Toda essa discussão é muito interessante, a partir do momento em que colocamos a Literatura de lado, porque se formos analisar a qualidade de um escritor por suas crenças (o não acreditar é também uma fé cega), Tolstoi não era nada, então. Um escritor maravilhoso e protestante da cabeça aos pés.

Sinto um "forçar de barra", como se às vezes desejassem alçar à categoria dos melhores quem se diz ateu e comunista.

Trabalhei em Ongs religiosas, morei com evangélicos, já lidei com inúmeros religiosos e mantive minha postura. Até participar de cultos e submeter-me a "tratamentos" eu me submeti.. e ganhando meu pão sem falar mal da instituição. Pra vcs verem. E é possível continuar católica não-praticante de ascendência judia (muito mais por povo) e uma "atéia de opiniões" mas acreditando em Deus. Por que não? Tudo é possível.

Morei com uma anarquista que me disse: "ah, já tive todos os lados e agora optei pela anarquia", na situação dela, abusando e desrespeitando locatários era nítida a razão pela qual tinha seguido esse caminho.

Brinquei: "ah, Anarquistas graças a Deus!"

Tadinha, ignorante e aculturada... respondeu: "Deus? Que Deus o quê?!"

Quase chamo Zélia Gattai. ;-0

Borboletas nos Olhos disse...

"Vá sem Deus" foi das mais inspiradas inscrições para uma bela lápide...

Nadia disse...

Quando ouvi a notícia da morte do Saramago, lembrei-me de quando li Ensaio sobre a cegueira. Eu morava bem longe do trabalho, então lia pelo menos 4 horas por dia (ida e volta no ônibus). Numa determinada passagem, na volta pra casa, simplesmente eu fechei o livro e comecei a chorar copiosamente, de quase soluçar. As pessoas olhavam pra mim sem entender nada, mas foi realmente impossível controlar.

"Ensaio" foi o 1º livro que li dele e, ao contrário de muita gente, me "acostumei" logo com sua forma de escrever. Tentei ler As intermitências da morte e confesso que não gostei, assim como tento até hoje terminar Memorial do convento. Mas gostei muito de Ensaio sobre a lucidez e A jangada de pedra e acho sinceramente que todo o mundo (todo mundo mesmo!) deveria ler O evangelho segundo Jesus Cristo.
E para quem quiser conhecer melhor o Saramago, recomendo o livro O amor possível, uma extensa entrevista dele ao jornalista Juan Arias.
No mais, bela vida, estupenda obra e morte muito digna.

Clara Gurgel disse...

Gisela,te peço licença para discordar de vc em relação ao Saramago.Vou te confessar que, mesmo ele se dizendo ateu,quando eu o via falar,sentia em seu semblante uma calmaria,uma serenidade,uma coisa confortante mesmo,sabe?Bem próximo do que as pessoas costumam idealizar como sendo a presença de Deus,e o que é bem diferente do que sinto agora, nas pessoas que se dizem crentes(entenda-se por crente,qualquer pessoa que tenha uma crença ou uma religião)quando vociferam a sua(de Saramago) maldição.Isso também não é uma ironia?

Clara Gurgel disse...

Onde escrevi :"te peço licença",leia-se "peço licença"

Victor disse...

olhodopombo, eu (e, acho, a Lola também) sou tão anti-semita quanto o Saramago, se me posicionar contra a política de Israel e criticar suas ações caracterizar anti-semitismo.

lola aronovich disse...

Obrigada, Borboleta nos Olhos. Eu acabei gostando do título do post tb. Pensei nele na hora. Estava sem nenhuma inspiração, então pensei em “Vá com deus”. Mas Saramago foi ateu, então vai sem deus mesmo. Pra nós ateus ir “sem deus” não é nenhuma praga.

Hoje comprei O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim pelo Submarino (através deste blog, o que me rende, ahn, acho que dois reais). Quando chegar e eu ler eu comento com vcs, prometo. Mas antes preciso rever Ensaio sobre a Cegueira e comparar com as anotações que eu havia feito quando li o livro!

lola aronovich disse...

Exatamente, Victor. Qualquer um que for contra as ações bélicas dos israelenses é anti-semita pra Olhodopombo. Adorei como, no comentário do outro post, ela disse que não vai votar na Dilma por causa das alianças do PT com o PMDB, não porque (entre outras coisas) o governo do PT é totalmente anti-semita, sabe?, já que tenta trilhar o caminho da paz, não da guerra. Desculpe, Fátima (o nome por trás da Olhodopombo), mas a cada comentário seu, mais eu tenho que concordar com o belo apelido que a Lauren te deu: Cérebrodopombo.

Ághata disse...

Lola, quando vc vai fazer o concurso de blogueiras com relação ao tea vaidade?
Me diz que eu quero participar, viu?!!

Juliana Dacoregio disse...

A reação de Saramago ao filme Ensaio sobre a Cegueira é a melhor parte do filme! Não que eu tenha achado o filme ruim, mas aquela emoção do escritor ao terminar de assistir o filme é coisa linda demais. Creio que traduz o sentimento de qualquer artista ao ver sua obra compreendida e transposta para outros meios, possibilitando que seu legado seja conhecido por muito mais pessoas.

olhodopombo disse...

Sim Lola, cerebro de pombo,
e daí?
ter opinião propria, incomoda? ou se tem que assinar em baixo a tudo que as pessoas opinam:?
a questão de não votar na Dilma por causa do Temer é pessoal. Votei no Lula para Presidenmte e no Wagner(que é JUDEU)para governador da Bahia,
assim como votaria no Aluisio Mercadante para governador de São Paulo,(se morasse la) que alias é outro Judeu...
Quanto ao mais, gosto de ler suas opiniões para cada vez mais lembrar a Lolinha que conheci quando tinha 9 anos de idade.....

Gisela disse...

Oi, Clara. Que é isso de pedir licença, hein? ;-) Além do mais você não discordou de mim, continuou o que eu queria dizer e muito bem, inclusive. Eu não consegui me expressar assim. Penso a mesma coisa que você. Sinto e sentia o mesmo ao olhar para aquele "ascendente em Peixes calmo". Perfeita a discrição do semblante do escritor lusitano.

"Bem próximo do que as pessoas costumam idealizar como sendo a presença de Deus".

Mas é exatamente isso o que desejo dizer! A fé é tranquila. A fé não é cega, nem objetiva, e no entanto enxerga. E pode ser apaixonada, por que não? Se na medida dessa paixão, ela render bons frutos e lutas (caso de Saramago), que bom uso fizemos dela! A fé fanática é prejudicial, porque se esquece da humildade, porque se liga a grupos, porque ameaça, porque é onipotente e porque escraviza.

Exemplo de semblante tranquilo num ser aparentemente cético: meu pai quando morreu praticamente nos meus braços. E eu tentando fazer com que aquela passagem fosse pacífica para alguém que tinha absoluto medo desse dia. Sem mostrar! Eu que vivia com ele sabia. Ninguém mais. Senti/sinto isso em Saramago. Meu pai não era ateu, nem religioso (o que eraentão? Oh, os loucos por rótulos ficam mais loucos ainda!) mas eu sinto um medo tão grande nas pessoas céticas demais... Devo te dizer...

No caso do meu pai, era a negação do problema de saúde e o pavor de dar problema, de cansar as pessoas, de ser um estorvo (especialmete para mim a quem ele via como cheia de vida, mas estava triste) ficar numa cama como minha avó. Ele queria morrer como a minha mãe, que sofreu com um câncer no pulmão, mas muito rapidamente faleceu. Um mês depois do exame. Ele queria isso, teve isso e eu contribuí para tal; inclusive conversando com a enfermeira na ambulância, "olha, moça, ele é um ótimo cozinheiro". Quis dar meu último presente a esse homem que me deu a vida e me ensinou tudo que sei e nunca aprendi num livro; ele quase sendo como o pai de Saramago, quase analfabeto. Esse "quase" designa os muitos leitores analfabetos no Brasil e muitos sábios entre esses leitores.

Tive que usar o exemplo do meu pai que no fim da vida foi doando mais coisas ainda (já fazia muito, sempre fez) carregando santinhos os quais nem ele mesmo sabia para que serviam. ;-) Essa é a fé. A gente não pode descrever isso.

E eu que gosto e já li muitos livros de Psicanálise, discordo em absoluto (apesar de compreender) da frase "a fé é um sintoma".

Que coisa, né?!

Gisela disse...

Eu não me referia a Saramago quando falei "gente que não acredita em Deus"; especifiquei logo depois que não queria misturar literatura nisso, ou seja, o cara é/era gênio e a mim não importa a crença, mas na medida que o assunto cai nisso, xô Lieteratura, e vamos falar de ateísmo e afins.


Expliquei e falei de alguma spessoas que conheci cujo caráter era duvidoso. Essas pessoas, de repente 10% da população. É chato ter que se explicar falando em estatística toda hora. É um tipo: "o mundo vai acabar", pregam que todos guardem mantimentos, botam medo para poder seduzir melhor. Ninguém nunca viu? E muita gente fdaz isso se dizendo atéia. O que eu critico é dizer que "lavagem" é apenas na religião. Tá cheio de espertinho aí.

Fazem parte da categoria: bons oradores. Muitos deles são religiosos e "escritores" esotéricos. Nem preciso dizer o nome. Mas muitos são ateus também. A propósito, exluir a idéia de Deus não exclui a irracionalidade. O cara pode falar um bando de coisa sem sentido e ser ateu. O "ser ateu" às vezes serve como capa do "sou racional". Isso que critico. Percepção PESSOAL.

O que me irrita um pouco é que na cabeça da maioria das pessoas (ao menos é o que percebo) é que é impossível que alguém goste de Tolstoi, Saramago, Paul Auster, seja esquerda, e às vezes direita, e às vezes lado (não importa o assunto) e não seja contra o cara jogar na bolsa de valores. E também votar no Pt. Hoje o mundo é assim. Podemos ter opiniões certas, mas o "corpo de baile" é grande demais para inserir as pessoas num buraco ou noutro.

Não gosto e não admito ser rotulada. Posso ir à igreja, ter fé e ler Saramago, Zweig e Hilda Hilst. E depois assistir ao filme sobre Chico Xavier e sair chorando, porque, de repente, o diretor usou algum quadro que me fez lembrar algo pessoal.

E uma semana depois fazer um texto sobre Pier Paolo Pasolini que aliás foi tema da minha monografia há muitos anos e compreender que não cinema não carrega termômetro: "chorou e riu então é bom". Não gosto disso: judeu é isso e muçulmano aquilo; tem judeu ateu, sabiam? Judeu é povo também.

E também como carioca posso reclamar se estamos saturados de não receber e só dar, "servir" (não no sentido de servilidade).

Enfim, é a mistura. "sou contraditória, contenho multidões"

citação de What Whiltman - não se se escrevi o nome dele certo! ;-)

Gisela disse...

Gentem, não há desculpa! Há muita língua na minha cabeça. Socorro, pai. "Descrição!!" Cruzem credo. Falei "discrição" pensando em "semblante discreto". Ai, ai, deixa a Isoldina se desshhhculpar. Tô com medo do João. Brincadeira, João. hehehe

Andrea disse...

Ele com certeza já faz muita falta!

Amei todos os livros de Saramago que li: http://segredosdaborboletadomar.blogspot.com/2010/06/meus-saramagos.html

Clara Gurgel disse...

Gisela,sinceramente não quero polemizar,mas só complementar... não discordei de vc, quando vc disse:"Aí nesse terreno encontram-se muitos que não acreditam em Deus".Mas sim, quando vc disse:"mas ele é ateu. Não eu. E o blog é meu. Antes ele do que eu."
Só isso...prá finalizar!

Gisela disse...

Oi, Clara, não é do meu feitio ser didática. Não sou nem dando aula! ;-) Até porque me formei em Comunicação/Jornalismo. Não é nada de polêmica, não. Pode deixar. Comigo é na conversa.

Eu faço questão de mais uma vez explicar algo que muitas vezes considero inexplicável: o sentido de ironia e senso de humor. O "antes ele do que eu" é justamente brincando com essa coisa de morte que a maioria parece ter medo. O "antes ele do que eu" veio dentro de um contexto e está lá em cima no meu primeiro comentário:

Primeiramente, falei do filme, que não gostei:

"Eu achei esse filme horrível. Sai decepcionadíssima. E olha que nem li o livro." - que lê o livro e depois vê o filme, geralmente sai decepcionado, apesar das linguagens serem diferentes. Mas não tão diferentes assim a ponto de ser possível destruir uma obra. Abstenho-me de comentar "Ensaio sobre a cegueira" tendo como ponto de partida o filme de um realizador que nunca me agradou.

Em seguida, comentei:

'Logo que soube da morte do escritor lusitano, fiz um post no meu blog. Aliás, se alguém chegasse dizendo "como é alma, como está no céu?" Eu responderia: "mas ele é ateu. Não eu. E o blog é meu. Antes ele do que eu." ;-)"

Há a citação "morreu: antes ele do que eu" - ela por si só já guarda um pavor diante do 'absoluto', desconhecido."

"Antes ele do que eu" foi para justamente dizer que se alguém quisesse que um "vá sem Deus", eu responderia delicadamente que A MIM é dado o total direito de escrever algo sobre um ateu sem ser atéia. E também escrever algo sobre um escritor (sendo ele ateu ou não) sem compartilhar de sua fé - no ateísmo ou não. Ou esta pessoa acreditando no sentido da palavra "fé" ou não.

Finalizei:

"Apesar de não ser atéia, compartilho de inúmeras críticas e pensamentos do povo que se diz ateu, ou até mesmo agnóstico.
Que Saramago vá "com Deus". ;-)"

Liberdade é isso: é ter um blog, escrever nele e poder ser "não-atéia" escrevendo sobre um "ateu" e dizer "vá com Deus" ou "sem Deus."

Falei sobre liberdade, fazendo "jeu de mots" com o "antes ele do que eu".

Gisela disse...

O "a mim" é caixa baixa. Sorry. Escrevi caixa alta para designar o indivíduo, mas ficou bem horripilante, como se fosse apenas "para mim", ueba! Enfim...

Malu Machado disse...

Olá Lola,

Adorei seu blog, cheguei nele por outra seguidora, a Dydy.

Sobre Saramago, recomendo As intermitências da Morte e, é claro, Evangelho Segundo Jesus Cristo.

As páginas e páginas de diálogo entre Jesus e Lúcifer em uma barca te marcarão para todo sempre. Ninguém lê aqui impunimente.

Por isso lamentei a morte de Saramago, que aos 87 anos ainda mantinha uma produção admirável.

Se der, visita o meu espaço. www.abbsinto.blogspot.com

Um abraço,
Malu Machado

Pentacúspide disse...

L. Archilla disse...

eu só tentei ler um livro dele (Memorial do Convento), e não consegui. acho muuuuuuuuito chato aquele estilo de escrever páginas e páginas sem uma vírgula sequer.



LARCHI, tens a certeza de que leste Saramago? Desculpa a agressividade, mas tens a certeza de que leste alguma coisa alguma vez? Vi o teu blog e és prolífera a escrever, além de mais és psicóloga, de tal maneira que se torna duro ler o que acabaste de escrever. Como é possível uma mensagem ser clara sem uma "vírgula sequer" num período extenso quanto mais numa página inteira? (nem sei se formulei bem a questão).
este é um erro crasso dos que nunca leram saramago dizem que o leram, afirmar que ele escreve sem pontuação. Tenho explicado isto por vários sítios, mas como estou com paciência, explico aqui, esperando que sirva para ajudar alguém: o saramago não usa são as travessões nos diálogos. onde habitualmente se usa, ele mete vírgula e começa com letra maiúscula; ele não usa parágrafos para inserir diálogos, para o texto parecer uma narrativa coloquial, ou melhor para parecer fluentemente natural (nem sei se me exprimi claro).
De resto, saramago, sim é difícil de ler por causa dos períodos extensos e do seu vocabulário rebuscado, com a prosa por vezes a roçar a Pascoaes. Eu não sou fã dele, mas já lhe li cinco livros, desisti de ler dois, e só gostei de três (não os fiz por gostar dele, mas porque nessa altura calhou-me só ter livros dele e eu devoro livros).

Paola disse...

Lola,
eu que sou fã do Saramago desde que tive a maior dificuldade para ler o Memorial do Convento... levei anos!
Inventei um método de aclimatação, achei um livro de contos, Objecto Quase, depois li o Evangelho, afinal era uma história minimamente conhecida, a partir dai li tudo...
Me encanta é a consistência, conforme você vai lendo vai tendo a noção de que todos os personagens se conhecem, ninguém tira da minha cabeça que a mulher do médico e o Tertuliano(do Homem Duplicado) foram alunos do RAimundo Silva ( o editor do Cerco de lisboa) e claro que foram registrados pelo José Silva de Todos os nomes). Qunado o país se desgrudou do continente (JAngada de Pedra) eles viram quando os pássaros se juntaram na praça.
é assim que penso, sinto e compreendo Saramago.
PAola

Paola disse...

Ah! E quanto aos ateus? Deveriam, todos eles lerem CAim....rá! É ótimo, afinal ele questiona deus em sua imensa injustiça e preguiça!
.... em tempo, eu disconfio de algumas pessoas que dizem que leram Saramago, mas elas não conseguem lembrar de nenhum personagem, nenhuma situação além daquelas mostradas no filme!
Ai esse é um assunto que me deixa hiperativa!
Bj
PAola

L. M. de Souza disse...

você cometeu um equívoco: o português escrito é o mesmo em portugual ou no brasil (repare que não há tradução das obras do português de portugal para o portugues brasileiro, não há necessidade), e é isso que a reforma ortográfica representa. o português falado sim é diferente, e muito diferente, praticamente em todos os níveis da gramática.

L. M. de Souza disse...

by the way, gosto muito do Saramago.

Rita disse...

Oi, Lola. Só pra reforçar o comentário da aiaiai, lá no início da caixa: Evangelho Segundo Jesus Cristo é leitura obrigatória. Como li bem mais que uma linha do cara, acho que estou liberada para dizer que sou fã de carteirinha e, olha, escrita arrebatadora que me arranca do chão. Senti muito, fiquei triste de verdade. Minha família fofíssima me consolou com um carinho gigante e ganhei dois dos livros dele de aniversário: A Caverna e Caim. Não vejo a hora. Eu tinha interrompido A Viagem do Elefante para ler outra coisa que ainda não acabei. Mas logo retomo e leio tudo. Só duvido que superem Evangelho.

Bj,
Rita

Leo disse...

Eu só li o "ensaio", e com certeza tá no meu Top 5 de melhores livros...
Queria que você falasse mais sobre por que gostou mais do filme que do livro! O filme é ótimo, mas o livro é fantástico!
Queria ler mais coisas dele, mas por aqui não encontro, né? Tenho que comprar no Brasil...

fabiii disse...

lola

eu amo, amo enlouquecidamente saramago. eu nunca tinha me emocionado pela morte de uma pessoa pública, sempre achei estranho ver as pessoas chorando por alguém com quem nunca falaram... até a morte do saramago! pela primeira vez na minha vida, chorei por uma figura pública com quem nunca tinha tido contato físico. mas o meu contato com ele foi através dos seus livros, os quais amo muito.
minha primeira vez com saramago foi com o livro "o homem duplicado" e não deu certo. tentei ler e não rendeu, não me acostumei com o seu estilo particular de escrever. aí um amigo me emprestou "as intermitências da morte" e de lá pra cá posso dizer que saramago é um dos meu escritores favoritos. já li quase tudo que ele publicou, vi duas vezes o filme "ensaio sobre a cegueira" (o filme é bom, mas ainda prefiro o livro) e a cada dia que passa, me apaixono mais por ele. não só os livros, mas ele como ser humano. eu o admiro mais ainda porque ele morreu sendo exatamente aquilo que sempre foi, morreu sem trair os ideais que sempre pregou. recomendo à todos que leiam saramago, ele é extraordinário.

termino com a frase do livro "memorial do convento" que ficará escrita em uma pedra, ao lado das cinzas dele: "Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia".

bjão