sexta-feira, 15 de agosto de 2008

CRÍTICA: VIOLÊNCIA GRATUITA / Pra sofrer no cinema

- Não deixa ele entrar, Naomi!

Por onde começo falando de Violência Gratuita (Funny Games)? Posso dizer que vi o filme austríaco há dez anos, no Recife, e gostei muito. Fiquei impressionada. Depois o vi outra vez em dvd, em Joinville. E em março, em Detroit, vi a refilmagem. Sou mesmo uma pessoa cosmopolita! Mas deixe-me explicar, caso você conheça pouco ou nada do filme (veja o trailer aqui). Primeiro: apesar do título original, não há nada de minimamente divertido com os jogos da trama. A história em si é simples. Dois jovens, sem motivo algum, invadem a casa de uma famíla rica (casal e um filhinho), e atormentam a todos. O diretor Michael Haneke (dos interessantíssimos A Professora de Piano e Caché) deve ser um dos poucos cineastas do mundo a refilmar, praticamente quadro a quadro, sua própria produção. Este Violência Gratuita de agora é quase idêntico ao Violência original, de 1997, mas com astros como a Naomi Watts (Senhores do Crime) e o Tim Roth (Hulk) no elenco.

Por que um diretor refilma seu próprio filme, que é relativamente recente (uma década apenas), só que em outra língua e com outros atores? O maridão até que deu um argumento válido. Disse que na música isso é comum, e que Tom Jobim foi pros EUA regravar Garota de Ipanema e Águas de Março em inglês. É verdade, mas cinema é um meio tão mais caro que música (e que qualquer outra arte), que essa não é uma boa desculpa. Pensei, pensei, e concluí que Haneke refilmou Violência porque pôde. E porque o filme original era pequeno, e tirando eu, no Recife, pouca gente viu. E porque a trama critica justamente a violência do cinema americano, então fazer um filme desses e os americanos nem tomarem conhecimento deve ser frustrante. O problema é que, mesmo que este Violência seja em inglês e com a Naomi, ainda é prum público limitadíssimo, mais de cinema de arte mesmo. É o anti-Hollywood, já que quase toda a violência acontece fora do alcance da câmera. Acho que tem somente um soco que a câmera capta, mais nada.

Trata-se de um thriller envolvente, nem um pouco chato, e bem do tipo “O que você faria?”. Pode-se gostar ou não de Violência, mas o fato é que ele é inesquecível (o maridão às vezes se esquece do título. Quando eu digo “O dos ovos”, ele se recorda na hora). O filme brinca com as expectativas do público. A primeira vez que vi fiquei revoltada que os personagens gastariam tanto tempo tentando reativar um celular. Eu devo ter gritado com a tela: “Vai logo! Esquece essa porcaria!”, e desta vez, nos EUA, vi o mesmo acontecer. A gente torce como nunca pra que um dos “mocinhos” vire Rambo e mate aqueles dois miseráveis. Em mais de uma ocasião eles falam com o espectador(a), olhando diretamente pra câmera. Uma diferença gritante entre o original e este remake é que, depois do negócio com o controle remoto, o Haneke tira a fala do vilão, “Você ia gostar disso, não ia?” (e ia mesmo). Eu gostava dessa fala!

Porém, nem preciso me guiar pelo barulho do público pra medir como Violência mexe com os brios. A reação do maridão me basta. Não há outro filme que deixe minha cara-metade tão nervosinha depois! Lembro que tivemos uma briga parecida cinco ou sete anos atrás, quando vimos o original em dvd. O maridão é cético, acha que não dá pra fazer nada mesmo, e que todos, naquela situação angustiante, seriam cordeirinhos indo calmamente pro abate. Eu argumento que não, que tentaria conversar com os caras e fazer alguma coisa. O quê eu não sei. Mas se é pra morrer, vou morrer lutando.

Pois, o diálogo principal em Violência é: “Por que vocês simplesmente não nos matam?”, respondido com “Não se deve subestimar a importância do entretenimento”. É meio isso que Haneke critica: dá pra se divertir com uma obra ignorando sua mensagem? Dá sequer pra separar a mensagem da obra? O público de cinema vive dizendo: “Ah, eu só quero me divertir! Não vamos levar o filme tão a sério!” Daria pra falar isso de Triunfo da Vontade (aquele belo filme que a Leni Riefenstahl fez pra festejar Hitler)? No fundo, Violência é um dos maiores exercícios de tortura do público já vistos no cinema. E esse remake parece muito um “f**k you” do Haneke pra todos os americanos. Pela reação dos críticos dos EUA, funcionou lindamente. Eles odiaram o filme. Fizeram comparações com torture porn como Jogos Mortais e Albergue (gênero que nem existia quando Haneke fez o Violência original). Disseram que Haneke está cuspindo no prato que comeu. É fascinante, porque a maioria desses críticos conhece – e adora – o original. Mas quando não há mais distanciamento possível e a pimenta entra nos olhos deles, não é mais refresco. Olha, sinceramente, fazia tempo que um filme não causava uma rejeição tão visceral da crítica americana. Sinal, pra mim, que tocou na ferida.Michael Pitt ignora suas vítimas e fala sobre coisas insignificantes.

10 comentários:

Bárbara Dayrell disse...

oi lola!
assisti a esse filme e nao sabia que era remake. Um amigo viu o trailer no cinema e pediu para o meu marido baixar da internet (nós somos a video-locadora da galera daqui). Eu nao tinha expectativa nenhuma. O tal amigo tinha dito que seria algo que lembrasse o Saw (Jogos Mortais), que nao assisti e nao tenho a menor vontade. Comecei a ver pensando que se fosse muito forte eu simplesmente pararia de ver e meu marido terminaria em outra ocasiao, quando eu nao estivesse em casa.
O filme foi uma supresa (boa) é violento, mas nem tanto, já que ele nao mostra as cenas mais pesadas, foca nos rostos dos que estao vendo a violencia gratuita (gostei do nome em portugues). Você se vê o tempo todo xingando os personagens, que parecem nao fazer nada (concordo com você, morreria lutando)... "Larga de ser burra mulher!" "Anda logo, sai daí!" e etc...
Achei que o filme faz uma retomada do tema discutido em Laranja Mecanica, e os personagens lembram muito a gangue do Alex, as roupas sao "praticamente" as mesmas. A primeira parte do filme(LM), pelo menos.
Odeio violência, mas adorei o filme!

abraco

cavaca disse...

Lola, Walle estreiou por aqui só hoje, parece que está tudo atrasado em lisboa e eu também estou curioso para ver brincadeiras.
Quanto a xenofobia com os brasileiros em portugal ela sempre existiu e acho interessante ler um post a respeito. O que acontece é que agora as pessoas encontraram um bom motivo para expô-la sem medo. Sem serem consideradas incorretas politicamente (ainda mais). A poucos dias, um cliente ao me ver falando com um turista americano, comentou: - Você fala muito bem inglês pra um brasileiro. Fiquei sem palavras.
Numa loja onde fui comprar uma lente macro para a minha camera o sujeito me encheu de nomes técnicos e depois perguntava: Tu não sabes o que significa isso? Querendo dizer na verdade: Você é mesmo um brasileiro burro. Mas esse eu não fiquei sem palavras, e disse: Porquê você está fazendo isso comigo?. Eu estou aqui para gastar 450 euros querendo um minimo de informação educadamente e você me falta com respeito troçando daquilo que só profissionais conhecem.
_ O seu gerente está?
Ele começou a ficar azul.
_ Tudo bem - eu disse. - Obrigado na mesma e tenha uma continuação de uma boa tarde.

Pedro disse...

Opa Lolinha, ainda não assisti o original e realmente essa fala que vc falou, ficaria mais foda se tivesse no re-make e ter um motivo para deixar a Naomi surpreender a gente com uma atuação foda já é suficiente para a refilmagem não ?

Eu acho que a semelhança com Laranja Mecanica pode ser mais percebida com o clone/trailer do que com o proprio filme, afinal hoje em dia um sempre tem algo do outro, mas nao achei essa semelhança, muito menos com Jogos Mortais.

O filme é um nota 9 de 10 mais ou menos, mas não sei pq eu ainda esperava mais hahaha, essa expectativa fode tudo...

Abr Lolinha

lola aronovich disse...

Barbara, não entendo como o pessoal pode comparar Violência Gratuita com Jogos Mortais (Saw). Não tem nada a ver! O tipo de sadismo de um e outro é totalmente diferente. Violência gera muitas reflexões intelectuais. JM não gera nada, é só uma franquia lucrativa cuja única “criatividade” é encontrar novas formas de infligir dor a uma vítima. É meio como se fosse aquele documentário asqueroso, Faces da Morte, mas ficcional. E Violência não é nada disso. Li montes de críticos americanos citando JM ao falar de Violência, e não consigo entender. Os dois filmes não são nem do mesmo gênero! Agora, muito interessante vc citar Laranja Mecânica. Eu não vejo muita relação. As roupas são mais ou menos parecidas, e a gangue do Alex também invade casas para um pouco de “ultra-violence”, mas... Acho que as semelhanças terminam aí. A dupla de Violência quer jogar um jogo, mais ou menos (o que é apenas um pretexto pro cineasta nos fazer refletir sobre o nosso fascínio por filmes violentos). O Alex não propõe jogo nenhum!
Mas sobre o “morrer lutando”, o que pega é que a gente não sabe qual é a hora de começar a “morrer lutando”. Sempre tem esperança de se safar...

lola aronovich disse...

Não acredito, Cavaca! Wall-E só estreou em Portugal hoje?! Que demora!
Sobre a xenofobia, não sei se uma frase como “Vc fala muito bem inglês pra um brasileiro” possa ser considerada preconceituosa. Depende do tom. Eu ouvi bastante o “Vc fala muito bem inglês” lá nos EUA, e às vezes ela vinha acompanhada de “para um estrangeiro”, ou “para um brasileiro”, mas nunca denotei qualquer tipo de maldade ou crítica. Encarava como um elogio, sempre. Mas claro, depende também de quem está dizendo isso. Como é Portugal no meio de uma crise xenofóbica, deve ter maldade sim. E sobre o outro caso, do vendedor da câmera, esse é o exemplo típico do péssimo vendedor. Vc fez muito bem em chiar e não comprar lá. Ah, vai pastar, né?


Pedrinho, vc não viu o original? Veja e compare! Na mesma semana que eu vi o remake passaram o original na faculdade, e fiquei muito tentada a ver. Só que o maridão não quis (ele já havia visto o original e o remake, e sofre muito com os filmes). Aí acabei não indo. Mas é muito interessante pra comparar. Gostei mais do original porque pra mim foi mais novidade, mas adorei o Michael Pitt no remake e também todo o subtexto dedicado aos americanos. Num filme falado em inglês com astros de Hollywood esse teor crítico transaprece ainda mais! Eu tampouco daria um 10 pro filme, mas 8 eu daria tranquilamente.

Luciano JR disse...

Eu simplismente ADORO o filme original. Nunca um filme me marcou tanto.O remake eu ainda não vi porque não queria baixar nem nada, queria ver no cinema. Mas, Lola, sinto ter que dizer que o filme não estreiou no Brasil, infelizmente. Fiquei triste em saber que o Haneke tirou a fala depois da cena do controle. Era uma das melhores do filme. Pena!

Luciano JR disse...

O filme não tem nada a ver com Jogos Mortais. Funny Games não precisa mostrar sangue nenhum pra chocar! Uma das partes que adoro é depois do... (quem viu sabe)... fica aquele plano sequencia sem corte por dez minutos. Sem fala nenhuma. É uma angustia, uma tristeza... nossa, eu me senti muito mal nessa parte.

Bárbara Dayrell disse...

so para esclarecer uma coisinha... que disse que o filme seria algo como o Saw foi um amigo meu que só viu o trailer, e eu nao vi o trailer e nem Saw, por isso nao sei o que dizer.
Quanto ao Laranja Mecanica, lembrei dele o filme todo, nao sei se pela roupinha branca ou pela cara "descarada" do Michael Pitt, que me lembrou o Alex. O tipo de violencia eh mais ou menos o mesmo também, gratuita. Mas vc esta certa quando diz que em LM eles nao propoe jogo nenhum, é violência pura e simplesmente... Eles usam da violência como se fosse uma droga, só para dar onda.
Estou comparando um com o outro, mas é interessante pensar que é justamente esse tipo de violência em filmes que o diretor de VG está criticando. Enquanto o LM mostra o Ultra-violence, em VG é você que imagina as cenas, porque eles nao mostram nada... Justamente por isso gostei tanto!
abraco

lola aronovich disse...

Luciano, vc sabe se o filme original tem em dvd? Minha mãe quer vê-lo. Eu não me lembro se vi o original em dvd ou vídeo, há uns 5 anos. Ah, tem a fala depois da cena do controle! O Haneke só tirou a “Vc ia gostar disso, não ia?”. Mas tem uma outra fala antes disso, né? Não conheço o filme tanto quanto vc! É uma angústia terrível mesmo. O filme sem dúvida mexe com a gente. Espero que o filme estréie no Brasil (pelo jeito, tá difícil. Já foi adiado duas vezes!), ou pelo menos que chegue logo ao dvd. Depois quero ouvir sua opinião sobre o remake. Acho que vc vai gostar. Quer dizer, é quase idêntico.


Não precisa se explicar não, Bárbara! Entendi que não foi vc que comparou Violência a Jogos Mortais. E também não culpo o seu amigo. O trailer é meio enganoso. Ele compila todas as piores cenas, as mais sádicas, em dois minutos. Passa uma impressão totalmente errada do filme! O que não aceito é que os críticos americanos, que viram o filme, o comparem com Jogos Mortais! ELES deveriam saber. Sobre Laranja, é verdade, o Michael Pitt tem um quêzinho de Alex. Bom, eu acho essa violência do VG muito mais eficaz que a de filmes realmente violentos. Tem alguém apanhando, e a câmera fica em outro personagem. É tudo sugerido. Mas muitas vezes nossas “sugestões” do que está acontecendo são muito piores do que se a violência fosse realmente mostrada.

Luciano JR disse...

Então, Lola, tem em dvd sim. Aliás, tem na locadora aqui perto de casa. Mas, da primeira vez que vi foi no youtube. Aliás, quem quiser os links é só me pedir. O filme está completo e legendado. Quem tiver paciência... Vale muito a pena. É incrível!

Vamos torcer para que, no dia 29, O Nevoeiro realmente chegue aqui!