quarta-feira, 22 de outubro de 2014

ALGUMAS DAS CENTENAS DE AMEAÇAS QUE RECEBO

Ameaça de abril 2012 no meu Twitter (clique em qualquer imagem para ampliá-la)

Hoje fiquei com vontade de compartilhar algumas das ameaças que recebo com vocês. Só algumas das centenas que tenho guardadas. E, obviamente, não são todas as que vejo ou tiro print. Umas são enviadas pra mim pelos próprios criminosos, via tweet ou comentários no blog. 
No começo, em agosto de 2011, pelo Twitter
Às vezes aparecem num chan que eu nem saberia da existência se um dos dementes não vivesse mandando o endereço pra mim. Outras ameaças são enviadas por leitorxs assustadas, que viram aquilo em algum lugar e se horrorizaram.
No meio do nada, a pessoa diz que vai me matar. Uma leitora enviou pra mim
Estou acostumada, sinceramente. Recebo ameaças desde 2011, pelo menos, só por ser mulher, feminista, e de vez em quando escrever sobre masculinistas, que eu apelidei de mascus. 
Ainda em 2011

Final de 2013
Mascus estão praticamente mortos e enterrados agora, com dois fóruns que vivem às moscas, umas páginas no Facebook, e um ou outro blog ou vlog frequentado por uma dúzia de rapazes. 
Como eu já disse, os únicos blogs mascus que ainda crescem -- e que estão se tornando cada vez mais misóginos -- são os de finanças pessoais.
Ao anunciar que palestraria na USP, no ano passado, recebi este tweet

Há também alguns reaças mais genéricos que têm ligações com mascus, e que linkam pra textos ou vídeos deles. Ano passado, numa comunidade do Orkut, um deles imprimiu uma foto minha, ejaculou em cima dela, e publicou uma imagem disso. Pra mim, soou como uma ameaça de estupro.
Novembro de 2013, em algum chan
Um reaça rábido que não é necessariamente mascu é este Martorelli, que depois de me xingar durante dois anos no Twitter, ameaçar, divulgar meu endereço residencial (sim, todos sabem onde eu moro e trabalho -- é facílimo encontrar dados de qualquer pessoa na internet), e ainda jurar que iria me processar (a inversão de valores desse pessoal é impressionante), desistiu de falar de mim. Ainda bem!
E outros, anônimos.
Mas um que não desiste de mim é Marcelo Mello, um dos dois mascus sanctos (um ramo ainda mais extremo entre os mascus) presos pela Operação Intolerância em março de 2012 (o outro foi o Engenheiro Emerson, que de vez em quando me envia comentários dizendo que estou sendo processada por ele, mas que está mais preocupado em ser aceito por canais da extrema direita tradicionais, como no grupo de Olavo de Carvalho).
Marcelo e Emerson foram presos em Curitiba por causa de um site de ódio onde promoviam ameaças, pedofilia, racismo, homofobia, e misoginia (queriam a legalização do estupro e defendiam o estupro corretivo para lésbicas).
Passaram mais de um ano na cadeia, foram condenados a 6,5 anos, e saíram em maio do ano passado. Desde então, venho recebendo várias mensagens de Marcelo. 
Ele imagina que trava algum tipo de diálogo comigo, sendo que eu só falei diretamente com ele nesta ocasião.
Ele tem um chan, um local em que vários anônimos "falhos" (rapazes reclusos, sem nenhuma aptidão social, que têm como heróis Wellington e Elliot Rodger), competem para ver quem é mais desajustado.

Marcelo tem sérios problemas psiquiátricos e guarda rancor de qualquer um que já fez qualquer coisa "contra" ele (o delegado que o prendeu, um jornalista da Veja que escreveu esta matéria, todos que fizeram bullying contra ele na escola, e eu, óbvio).
Uma de suas fantasias a meu respeito é que eu torci para que ele fosse violentado na cadeia, como se eu algum dia tivesse defendido estupro contra alguém. Pouco depois d'ele ter sido preso, uma leitora deixou um comentário num post informando que havia rumores que ele tinha sofrido abuso sexual na prisão. 
Eu recomendo que vocês leiam os comentários daquela caixa para ver o óbvio: que não houve qualquer tipo de celebração. Nós não somos como eles.

Um dos que se destacam é Gustavo Guerra, um jovem de Caxias do Sul que já foi preso. A maior parte do que ele diz (grava vários vídeos, um deles, por exemplo, "explicando" quem pega e não pega Aids) e escreve é totalmente incompreensível, mas ele é um dos que se candidatam a exterminar desafetos, entre elas eu, óbvio.
Eles são tão perturbados que não veem uma thread dessas como ameaça de estupro.
Ultimamente, Marcelo também tem desenvolvido fixação por... meu marido.

Toda semana Marcelo tem alguma ideia para fomentar seu ódio.

Outro completo obcecado por mim é Christopher Rodrigues. 
Mas nem vou falar nele, que raramente me ameaça. Ele só me xinga e inventa mil e uma mentiras sobre mim, todos os dias. Ao contrário da maior parte, ele deixa o nome e cidade onde mora. Merece vários processos por calúnia e difamação, mas dá muito trabalho. Fico com preguiça.
Chris inventa que meu amado pai me estuprou
Eu só fiz boletim de ocorrência uma vez, no começo de 2012, quando inúmeras ameaças se intensificaram. Mas as delegacias não estão preparadas pra lidar com ataques virtuais. Nem sabem o que fazer. O que faço é enviar boa parte dos prints para um contato na Polícia Federal. Ele não trabalha com crimes cibernéticos, mas encaminha as ameaças para os agentes que lidam com isso. Também não há grande coisa a ser feita.
Nunca tive medo, e não vou começar a temer agora. Só queria dizer que, se alguma coisa acontecer comigo, não foi acidente. Não será latrocínio, não será suicídio, não será atropelamento sem querer. Depois de três anos e meio de ameaças, acho que podemos concluir que é tudo bastante premeditado.
Eu quase nunca recebo qualquer tipo de apoio. Pelo contrário, quando digo que sou ameaçada, vem gente me chamar de vitimista. Mas só acho que às vezes devo compartilhar as ameaças que chegam, pra que vocês saibam. Não é justo guardar tudo sozinha só pra mim. Afinal, não sou ameaçada por ser a Lola. Sou ameaçada por ser autora do maior blog feminista do Brasil.
E, quando tanto se fala sobre mulheres gamers que vem sendo ameaçadas nos EUA (aliás, se alguém quiser escrever um guest post sobre isso pra cá, eu publico com todo o prazer), eu queria evidenciar que esse tipo de insanidade não acontece só lá fora.
O mundo e a internet são lugares misóginos, e ainda piores para meninas e mulheres que se expressam, que lutam. Mas ter medo e calar-se é fazer o jogo deles. 
Do último sábado

terça-feira, 21 de outubro de 2014

VAMOS MOSTRAR QUE MACHISTA NÃO TEM VEZ

Na quinta passada, o maridão foi levar o carro pra oficina. Sabe oficina? Um lugar ainda com poucas mulheres, exceto as modelos nuas adornando o local. Um espaço que pode ser considerado machista. 
Mas conversa vai, conversa vem, e o mecânico perguntou ao maridão em quem ele iria votar. O maridão respondeu "Dilma". E o mecânico disse que ele também iria votar nela, porque achou que Aécio não respeitava mulheres, porque o presidenciável havia sido agressivo e machista com Dilma em algum debate na TV. Quando um mecânico vê machismo num candidato a presidente, é porque a coisa é visível mesmo!
A campanha do PT logo percebeu, e está explorando esse machismo com imagens como esta:
É provável que essa percepção entre a população, principalmente entre a população feminina, seja responsável pela queda de Aécio nas pesquisas. 
O PSDB definitivamente acusou o golpe, pois está agora apostando todas as fichas em desconstruir essa imagem. Agora organiza reuniões de mulheres. 
Depois que a misoginia do candidato passou a pautar as conversas, Áecio posou com Marina beijando suas mãos e elogiando seus cabelos; lançou um vídeo em que as mulheres da vida de Aécio (ou pelo menos algumas, como mãe, filha, irmã muito conhecida dos mineiros, atual esposa). No vídeo, a filha lembra do pai dançando sua valsa de 15 anos. Nada machistas, essas tradições...
Anteontem, no Facebook, uma moça chamada Camila publicou algo parecido ao que aconteceu na oficina: um relato de como as pessoas estão acordando. Não só para o machismo de Aécio, mas para o machismo em geral (clique para ampliar):
Eu já disse várias vezes que não votaria em alguém com o perfil de Aécio nem que ele fosse de esquerda. 
Tudo que ele diz (fazendo uma divisão entre "donas de casa" e "trabalhadores", por exemplo), o sorrisinho sarcástico com que ele se dirige a Dilma, as agressões, tanto dele quanto de seus eleitores, chamando a presidenta de vaca, puta, baranga, e tantos outros termos que são usados apenas para xingar mulheres. Eu jamais compactuaria com isso.
Agora acabou de surgir no Facebook (foi mandando pra mim por uma leitora querida) este relato estarrecedor, já que a palavra está na moda:
Esta é a notinha publicada na coluna de Joyce Pascowitch em 2006:
Eu sempre pensei que José Serra fosse o pior candidato que o PSDB poderia lançar. Estava enganada. Aécio é muito, muito pior. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

NÃO VOTO EM PLAYBOY

Ontem vi um vídeo que o mascu sancto Engenheiro Emerson fez em Curitiba. Ele, que foi condenado a mais de seis anos de prisão por manter um site onde ameaçava esquerdistas e pregava a legalização da pedofilia e do estupro, entre outras abominações, torce desesperadamente para que Aécio se eleja presidente. 
E, portanto, foi a um comício de Dilma para provocar. Lá ele filmou o que considerou um discurso de ódio. Não, não era algo como "Seja homem: Mate uma mulher hoje", coisa que Emerson publicava cotidianamente em seu site. Não. Discurso de ódio, pra ele, era uma manifestante ousar chamar Aécio de playboy.
Eu nem sabia que playboy era insulto. É o nome de uma revista muito popular. Pra várias pessoas, é elogio. Termo exclusivo para homens, playboy é um cara com vida fácil, um bon vivant, que tem dinheiro e conquista um monte de mulheres. Ou seja, o que muitos rapazes aspiram ser. Afinal, o senso comum dita que dinheiro e sexo são os medidores de sucesso de um homem hétero (pra mulher, obviamente, é bem diferente; e pra homem gay, a promiscuidade é condenada, não aplaudida).
Aécio quando criança
Pessoalmente, como eu não compartilho desses medidores de sucesso, playboy tem uma carga pejorativa. Eu conheci alguns playboyzinhos na minha vida pessoal, e eles não eram gente boa. Vou tentar explicar: na minha adolescência de classe média alta, tive muito contato com gente rica. Estudei numa escola caríssima em SP. Vários dos meus colegas e amigos eram ricos, mas não eram playboys. Muitos se envolviam em episódios auto-destrutivos meio típicos da juventude: enchiam a cara, alguns usavam drogas. Só que não colecionavam conquistas. Sentiam empatia pelas pessoas.
Eu passava as férias em Búzios nos anos 80, e lá havia alguns caras ricos da minha idade que eram diferentes dos meus amigos ricos. Eram playboys. Eu me lembro de três, todos filhos de diretores importantes da Rede Globo. Havia vários rumores em Búzios, cidade minúscula, sobre o que aqueles três jovens com tanto dinheiro e poder faziam a portas fechadas em suas enormes casas, quando levavam meninas. Era sexo, drogas, bebida, um ou outro escândalo. Esses rapazes cresceram. Hoje, mais de trinta anos depois, devem ocupar a mesma posição de seus pais na mesma empresa (decerto por sua habilidade, não por nepotismo). E seus filhos homens devem estar aproveitando a vida. (E isso que nem vou falar dos playboys que saem por aí de madrugada espancando empregadas domésticas ou incendiando mendigos em pontos de ônibus).  
Desculpe o aparente moralismo, mas eu não gostava daqueles jovens. Eram arrogantes, irresponsáveis, egoístas. Só pensavam em si, só falavam de si. Sexo para eles estava relacionado não a prazer, mas a poder. Era mais uma tentativa de exibir troféus que de qualquer outra coisa. Uma competição de quem pegava mais, quem pegava as meninas mais bonitas. Eu nunca cheguei perto deles, porque eu também estava aproveitando a vida, transando com carinhas bonitos e bacanas. Mas uma conhecida minha, uma linda menina de 15 anos que vinha de algum bairro periférico do Rio, estava sempre nas festinhas do trio. Eu nunca entendia por que ela ia lá, fora a vontade de ficar com caras ricos, que certamente não a viam como igual. 
Acho difícil imaginar como deve ser a mente de um cara que já nasce em berço de ouro, que desde muito cedo passa a se considerar merecedor de uma série de privilégios que ele não vê como privilégios, e sim como mérito pessoal. Aécio Neves é um desses caras. Nos debates, ele não para de falar em meritocracia, um termo curioso pra alguém que nasceu numa família de grande poder político. Tancredo Neves, seu avô, só não foi presidente (não eleito por voto direto) porque morreu antes de assumir. Seu pai, Aécio Cunha, foi deputado federal pela Arena, partido de apoio ao governo militar. Aécio conseguiu seu primeiro emprego -- de oficial de gabinete em Brasília -- aos 17 anos, enquanto estudava no Rio. 
É o que se costuma chamar de filhinho do papai, ou, neste caso, netinho do vovô, que era então governador de Minas. Com 19 anos, ainda morando no Rio, Aécio virou assessor parlamentar do pai. Um pouco mais tarde, secretário particular do avô. Com a morte de Tancredo, Aécio recebeu um cargo de José Sarney. Em 1986, foi eleito para seu primeiro mandato de deputado federal. (Compare com a trajetória da jovem Dilma, que lutou contra a ditadura militar, a ponto de ser presa e barbaramente torturada). 
Eu nunca votaria num candidato com esse perfil, nem que ele fosse de esquerda. Assim como, quando eu era jovem, fiz campanha nas ruas contra Collor, um político com uma vida bem parecida à de Aécio. Óbvio que não fiz campanha contra Collor por ele ser playboy. Aliás, era quase um tabu se falar nisso na época. Havia altos boatos sobre seu vício em cocaína e até seu envolvimento na morte de uma menina em Brasília, mas eram outros tempos, pré-internet, e a mídia brasileira, que apoiou Collor em bloco contra Lula, não tocava no assunto. Foi preciso que uma revista americana, a Vanity Fair, contasse esses podres. 
Aécio tem um podre bem mais recente, e nem vou falar no suposto empurrão que deu na atual esposa, então namorada, numa festa num hotel carioca, com testemunhas, em 2009. Não, eu me refiro a um caso em que não restam dúvidas, e que é relevante, e que poucos conhecem (na internet, acho que todo mundo sabe, mas ontem li uma pesquisa que dizia que 90% da população desconhecia o episódio). Em maio de 2011, às 3 da manhã, no Leblon, Aécio foi parado por uma blitz da Lei Seca. Ele estava dirigindo sua Land Rover, e recusou-se a usar o bafômetro. Os guardas também viram que sua carteira de habilitação estava vencida. Aécio foi multado por recusar o bafômetro e por dirigir sem habilitação. 
Beber não é crime, mas dirigir embrigado, é, até porque costuma ser a causa de inúmeros acidentes fatais. É o que a gente costuma ver a toda hora. Inclusive, um dos jovens playboys que citei acima também passou por isso, em sua juventude nas férias de Búzios. Não havia Lei Seca, mas já era proibido um menor de idade dirigir bêbado o carrão do pai. Naquela época, o rapaz pagou propina ao guarda, e nada aconteceu. Com sorte, levou bronca do pai. 
Um filhinho de papai, um cara que cresce com essas benesses, que até os 50 anos vive como um adolescente, não me representa. Mas a ironia das ironias é que os mascus têm certeza de que Aécio os representa.

Tudo bem, é claro que mascus, por serem de direita, votariam no adversário da Dilma mesmo que fosse Satanás ou Hitler (esses são os exemplos que mais tenho visto). Mas é mais que isso. Eles sentem uma admiração imensa pela pessoa de Aécio. Justamente por ele ser playboy.
De um blog mascu. Note a legenda
No Brasil, mascus são rapazes misóginos, racistas e homofóbicos de 25 anos, em média. São em sua maioria solteiros, antissociáveis, de classe média e classe média baixa, moram com os pais, e odeiam sua própria vida. Praticamente todos viraram mascus após uma desilusão amorosa (ou nenhuma garota nunca lhe deu bola, ou foi traído). Logo, odeiam mulheres acima de tudo e as chamam de vadias. Todas são vadias, não existe mulher exceção -- é um de seus mantras.
Porém, para justificar seu fracasso, mascus dividem os homens em duas categorias: alfas e betas. O alfa seria o homem bonito ou rico que pega geral, enquanto os betas seriam... eles. Não há consenso se um beta pode se tornar alfa. Aliás, suas categorias de betas e alfas parecem meio flexíveis às vezes (se um cara qualquer namorar uma mulher linda, ele é automaticamente um alfa; e George Clooney, um alfa por definição, cedeu à "betice" ao se casar com a advogada nariguda). 
JPBF quer dizer jovens pobres betas feios
Em geral, mascus detestam todos os homens que não sejam mascus. Isso inclui os alfas. Mascus até criaram uma estatística para provar como o mundo é injusto: 20% dos homens pegam 80% das mulheres. A injustiça, claro, é que eles não estão entre esses 20%. Mascus não fazem muita diferenciação entre alfas e cafajestes. Ninguém presta mesmo.
Menos Aécio. Todos os mascus apoiam Aécio, embora politicamente, se alinhem mais com Bolsonaro. Mas votam em Aécio não só por ele ser anti-PT (e o PT é representante do feminazismo e do gayzismo pra eles), mas porque o presidenciável namorou várias beldades e hoje está casado com uma. Quer dizer, eles até perdoam este lapso de Aécio -- casar! Por que um cara bem-sucedido vai se casar, perguntam eles, se pode ter todas as mulheres que quiser (é, todas; mascus creem que um alfa pega todas as mulheres do universo que ele desejar), e se pode pagar prostitutas? 
É muito bizarra essa identificação dos mascus com Aécio. Mas até compreensível: ele é tudo que eles gostariam de ser. Mascus também se identificam bastante com Charlie Sheen, ou com o protagonista de O Lobo de Wall Street, um cara corrupto e viciado, mas, acima de tudo, um playboy. 
E você, se identifica com Aécio por quê?