domingo, 8 de novembro de 2009

CASAS INTERESSANTES EM FORTALEZA, PARTE 2

Vista do estádio no bairro de Benfica (opa, estádio é problemático).

Sei que os ânimos estão exaltados com o negócio da Uniban, mas como no domingo eu sempre tento colocar um post mais levinho, vou continuar com a minha saga dos imóveis que ando vendo (apenas virtualmente) em Fortaleza.
Esta casa parece muito boa, e o preço está um pouco abaixo do mercado, “só” 150 mil. Mas não sei nada sobre ela, nem a área total construída, a área do terreno, nem o endereço exato, só que fica no bairro que procuro, Benfica. A descrição diz que “o imóvel tem duas salas, cinco quartos (sendo quatro suítes), todos os banheiros com blindex, cozinha planejada, WC social e escada no granito”. Esta é a cozinha, e parece boa. O que me preocupa é que aquilo lá no canto é uma máquina de lavar roupa, né? Essa é a área de serviço? Tem uma sala bem bonitinha, com uma ótima escada. São dois quartos na parte de cima, pelo que entendi. E mais detalhes não tenho. Pra piorar, a imobiliária responsável por esta casa não parece das mais competentes. Já mandei dois emails pedindo mais detalhes e até agora, nada. O dinheiro que estamos pretendendo gastar com tudo, não sei se estou fora da realidade, é uns 80 mil. A gente venderia a casa daqui por uns 115 a 120 mil, líquidos, e compraria uma casa de 170 mil em Fortaleza. Mais a mudança, reforma na casa, compra de móveis e tal, daria uns 80 mil no total que teríamos que desembolsar (uns 50 mil pra casa e 30 mil pro resto).
um corretor que parece ser o mais competente. Eu falei pra ele o que queria, e ele, que tem uma imobiliária em outro bairro, no Cambeba, foi até o Benfica, andou por lá, encontrou umas casas à venda, e me mandou as informações. Bem razoáveis. Esta custa 170 mil, tem um terreno de 11 x 21, e três quartos. Não parece muito grande. Eis parte da cozinha. O que não gostei é que todos os pisos da casa são diferentes. Não tem um piso igual. O maridão diz que não liga pra isso.Ainda vou ver muitas casas quando eu chegar lá. A Manu, inclusive, mora nessa região e prometeu me ajudar a procurar. Sem falar que a mãe dela foi corretora de imóveis. Se vocês tiverem alguma outra dica, sou toda ouvidos. Não acabou! Tenho mais casas pra mostrar. E aí, qual o veredito para essas casas aqui?

sábado, 7 de novembro de 2009

INACREDITÁVEL: UNIBAN EXPULSA ALUNA

Realmente não dá pra acreditar que a Uniban, após abrir sindicância interna e avaliar aquela histeria coletiva que tomou os corredores da universidade particular de São Bernardo do Campo no final de outubro, decidiu punir a aluna. A Uniban publicou anúncios em jornais paulistas de domingo (que já circulam no sábado) com o título “A educação se faz com atitude e não com complacência”. Insistiu que Geisy já havia ido com roupas inadequadas em outras ocasiões e advertida. Decidiu suspender alguns alunos envolvidos, mas o tom é definitivamente de indignação moral contra a vítima, que teve que ser escoltada pela polícia após quase ser linchada. A Uniban justifica que “a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. Ah, era isso que a turba enraivecida gritando “Puta! Puta!” estava fazendo? Defendendo o ambiente escolar? Obrigada por avisar, porque senão ninguém saberia.
O episódio inicial, captado por várias câmeras de celular, já pegou mal pacas pra Uniban e seus alunos. Depois, houve o vexame adicional de alguns estudantes colocarem nariz de palhaço para protestar contra o retorno de Geisy à faculdade (marcada para o início de novembro; ela, orientada por advogados, acabou não indo). Sério, nem precisava de nariz postiço, precisava? Ao invés de fazer um mea culpa geral, uma reflexão sobre seu comportamento, os alunos estavam preparados para um novo linchamento, caso Geisy aparecesse. E agora essa da faculdade expulsá-la. Pior ainda: a Uniban critica a mídia (imagino que inclua os blogs, que desta vez pautaram os grandes jornais), que deveria ter usado a oportunidade para fazer um debate “sério e equilibrado” sobre “ética, juventude e universidade” (segundo o Estadão; dá pra ler o anúncio aqui). Pois é, a Uniban e seus alunos certamente entendem de coisas sérias e equilibradas.
A julgar pelo que li nos comentários de blogs, a maior parte do que a gente pode chamar de opinião pública achou a história inaceitável. Esta semana, um popular blog português linkou um dos meus posts sobre o assunto, e nossos vizinhos do além mar tampouco podem crer no que houve. Até o Reinaldo Azevedo, um notório direitista machista, se posicionou contra a turba e a favor da aluna. Claro que, tio Rei sendo quem é, acrescentou que a pobre moça pertence à camada social mais discriminada atualmente: a de mulher branca, loira e hétero (se fosse negra ou lésbica, segundo ele, Geisy estaria sendo defendida por... bem, por todo mundo que a está defendendo de qualquer jeito). Ah, e essa aposto como vocês não sabiam: a culpa desse escândalo todo é do Lula. Não, juro. Tio Rei disse isso (quiçá não diretamente). Que, apesar d'ele (tio Rei) ser contra as universidades públicas, ele também não é a favor que tantas particulares sejam abertas assim, sem critério nenhum. É difícil entender a direita: ela não quer interferência do Estado pra nada, mas, quando alguma coisa dá errado, a culpa é do Estado que não interferiu? Sim, pro tio Rei a culpa é do Lula. Ele dá a prova definitiva: o dono da Uniban foi candidato a vice-prefeito na chapa do Maluf, em 2000? O quê, vocês não veem conexão? Ué, como hoje o partido de Maluf apoia o governo Lula, a Uniban é praticamente uma universidade federal. Entenderam? É, eu também desisti. Ah, como a imaginação do tio Rei é fértil, ele mostra por A mais B que a Uniban realmente é petista e de péssima qualidade. Sabem como? Porque Vicentinho e Luiz Marinho, ex-líderes da CUT, se formaram lá (provavelmente porque não havia alguma universidade pública no ABC antes do Lula inaugurar lá uma das doze que abriu durante o seu governo).
Mas olha, se até pessoas com pensamentos tão díspares como eu e tio Rei concordamos em alguns quesitos básicos (que a reação da manada foi descabida, que não haveria roupa que justificasse aquela reação), é porque o negócio tá brabo mesmo. E, ainda assim, a Uniban decidiu peitar a opinião pública. Por quê? Imagino que uma universidade particular não cometa suicídio comercial à toa. Ela deve ter feito uma pesquisa interna com os alunos, e a maior parte, imagino, foi contra Geisy. Ou a Uniban decidiu lançar uma nova campanha publicitária para atrair alunos que se preocupam exclusivamente com a moral e os bons costumes. De repente funciona e toda a sede do TFP (Tradição, Família e Propriedade) se muda pra lá.

NÃO, O ESTADÃO NÃO É UM JORNAL DE DIREITA. NEM A ELITE É PRECONCEITUOSA

O analfabeto e uns operários burros, que não perceberam que Lula já não sabia falar em 1979.

Que o Caetano fale um monte de besteira, eu já estou acostumada. Eu o adoro como cantor e compositor, não como pessoa. Ele nunca teve a coerência do meu Chico. Esta declaração faz parte de uma entrevista que ele deu ao Estadão: “Não posso deixar de votar [em Marina Silva]. É por demais forte, simbolicamente para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem”.
Tá, até aí, nada de mais. Normal. Já ouvi isso antes. Eu só queria saber como uma fala dessas, chamando o Lula de analfabeto, é diferente do que disse aquela médica no aeroporto de Aracaju. Tirando a ofensa racial da passageira, que chamou um dos funcionários de nêgo, o resto (povo bando de analfabeto, morto de fome), é muito parecido com o que o pessoal que odeia o Lula vive falando dele. É o mesmo preconceito elitista. E eu fico pasma com essa afirmação sobre o Lula não falar bem. Gostando-se ou não do seu governo (e eu gosto), o Lula é um orador excepcional, carismático, do tipo que levanta multidões, um orador sem comparações com outros políticos (talvez, nos últimos trinta anos, Brizola tenha rivalizado com ele, em matéria de “falar bem”. O pessoal que chama o golpe militar de 1964 de “revolução” ainda dá como exemplo de ótimo orador o Lacerda... morto em 77). Deixa eu ver... Se Lula não fala bem, é analfabeto, faz um péssimo governo, ele foi eleito e reeleito por que? Só pode ser pela falta do seu dedo mindinho! Opa, não: isso também é uma lembrança de suas origens de pobre e, portanto, alvo de preconceito. Eu lembro de várias charges apontando uma característica para cada dedo do Lula, e a palavra ética sobreposta no dedo que falta. Lembro dos cartazes contra ele mostrando uma mão com quatro dedos e escrito em cima “Ele não!”. Esses cartazes foram colocados até em hospitais públicos, por médicos. É de uma beleza ímpar utilizar-se de um defeito físico de alguém para hostilizá-lo. Isso tem nome: preconceito.
A mim me parece que quem chama Lula de analfabeto está, por tabela, insultando todos os operários que não têm curso superior, apenas curso técnico. E mostrando seu desdém por profissões que a elite considera menos nobres. Não esqueço
de um grupinho de adolescentes pra quem eu dava aula de inglês. Na semana após a vitória do Lula, no final de 2002, saiu na Veja a profissão de cada presidente da República. Meus alunos trouxeram a revista pra classe e, morrendo de rir, apontavam pra foto do Lula e repetiam a legenda: “Torneiro mecânico! Ha ha ha!”. Pro resto do mundo, era uma prova de democracia e justiça social que um operário pudesse se eleger presidente. Pra nossa elite, era motivo de escárnio.
Mas o mais legal dessa entrevista do Estadão nem é a declaração elitista do Caetano, nem os comentários dos leitores do jornal, que são famosos (pelo menos pra mim) pelas asneiras que destilam (e não é fácil pra leitor do Estadão se identificar com o Caetano. Eles odeiam o astro, a quem consideram uma “bicha enrustida”). Não, o mais legal mesmo é como a jornalista Sônia Racy abre a matéria: “À exceção de alguns momentos mais incisivos, Caetano Veloso deixou claro, na entrevista ao Estado, semana passada, [...] no Rio, que a maturidade lhe subiu à cabeça. Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranquilidade interior. O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista”. É divertido isso: não só a declaração preconceituosa do Caetano é avaliada como sinal de maturidade, sabedoria e tranquilidade interior, mas a esquerda é pintada como irracional e nada realista. E no entanto, algumas pessoas insistem que não, o Estadão não é de direita. Não, os comentaristas do Estadão não são de direita. E o motivo é simples: é porque a direita não existe. É só coincidência que tanta gente siga a mesma filosofia de vida, tenha os mesmos preconceitos, deteste a esquerda, e se ofenda quando é rotulada de direita. Mas se ofende por que? Eles não são os racionais?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CRÍTICA: TOWELHEAD / Descoberta da sexualidade num mundo hostil

Uma menina descobre o que quer num mundo que quer dela coisas conflitantes (e ela não quer o Aaron Eckhart).

Towelhead é um drama de 2007 que um leitor querido viu, gravou e mandou pra mim, junto com outros filmes (veja o trailer aqui, sem legendas). Eu o vi faz alguns meses, fiquei balançada, e decidi revê-lo agora, pra poder escrever sobre ele. É uma história chocante (baseada no romance de Alicia Erian que agora estou louca pra ler), e o diretor, produtor e roteirista Alan Ball (roteirista vencedor do Oscar por Beleza Americana e criador da minha série de TV favorita, A Sete Palmos) sabe muito bem disso. Já começa de forma gritante, com um adulto preparando-se para depilar a virilha de Jasira (Summer Bishil), uma tímida menina de treze anos. Sua mãe (Maria Bello, de Marcas da Violência) descobre (o rapaz é namorado dela), diz pra garota que a culpa é dela, por andar com os peitos empinados, e a manda pra casa do pai, no Texas. O pai (o excelente Peter Macdissi, que seria bonito se não fosse o bigode) é um engenheiro da Nasa, um libanês (cristão) naturalizado americano ultra machista e racista. A vida de Jasira é um inferno na Terra: o pai, além de não lhe demonstrar nenhum afeto, ainda bate nela; os coleguinhas riem dela na escola e a xingam de vários epítetos racistas, como “cabeça de turbante” (o título do filme), “jóquei de camelo”, e “crioulo de areia”.
No entanto, a trama é especialmente polêmica porque mostra o despertar sexual de uma adolescente. Geralmente o cinema só dedica esse tema aos adolescentes do sexo masculino, e quase sempre como comédia. E em Towelhead vemos que uma garota se masturba (inclusive olhando pra fotos de mulher pelada), e que ela tem um misto de curiosidade e repulsa diante de um vizinho adulto (e deslumbrante, já que é interpretado pelo Aaron Eckhart, de Obrigado por Fumar e Cavaleiro das Trevas) que a fita com um olhar suspeito. O vizinho a estupra com o dedo (na realidade quando não há penetração vaginal pelo pênis o caso é considerado abuso sexual, não estupro, o que é ridículo, se bem que a lei brasileira mudou em agosto deste ano), mas ela não sabe que é estupro. Ela se envolve com um garoto de sua idade, mas, por ele ser negro, o pai não permite que eles sejam amigos.
Um dos diálogos já diz tudo. É entre Jasira e seu vizinho, que a leva pra jantar fora. A garota, meio bêbada, diz:
- Quando crescer, quero estar nas suas revistas [eróticas; foi ele que deu uma revista pra ela].
- Não, não quer! Você é uma vagabunda? Não é! Se bem que, se você continuar se encontrando com aquele menino negro, vai virar uma.
- Ele é melhor que você.
- Ah é?
- Ele só me toca quando eu digo pra ele que pode me tocar.
Essa rápida conversa, que Jasira fecha com chave de ouro, ainda assim a deixa confusa: ué, se o vizinho (e outros) gosta dessas revistas a ponto de comprá-las, por que chama as mulheres que posam nuas de vagabundas? Mais tarde, Jasira vai tirar fotos num shopping, e ela e o fotógrafo se empolgam. Através da montagem, vemos que Jasira está imitando as poses sensuais das moças nas revistas, o que é intercalado com várias outras cenas que são perturbadoras pra ela. Ela está se comportando como a sociedade a ensinou a se comportar (“seduzindo” os homens e estando sempre acessível) mas, ao mesmo tempo, a sociedade também lhe diz que essa não é a forma de mulheres “de respeito” agirem. Quase todas as mulheres, independente da idade, lidam com essas mensagens cruzadas, essa dicotomia entre puta vs. santa. O fotógrafo se aproveita da confusão de Jasira, e cabe a ela, num momento de lucidez, encerrar a sessão dizendo “Eu só tenho 13 anos!”.
Mas o filme é cheio de nuances. Nem o pai é totalmente ruim, e nem o vizinho, que mais tarde diz pra Jasira aquela frase tipicamente machista: “Eu não sou um cara ruim. Nunca teria feito aquilo com você se soubesse que você era virgem”. Nem o namoradinho é um sujeito completamente bom, se bem que ele é muito melhor que os outros homens do filme. Quando ele fica sabendo que Jasira foi abusada sexualmente, decreta que ela e ele não devem mais transar. E a adolescente, que a essa altura já está cem anos mais madura e segura que no início do filme, fala pra ele: “Eu gosto de fazer amor com você, e quero continuar. Não quero que o que [o vizinho] fez comigo tire isso de mim”.
As únicas pessoas que parecem 100% corretas, a meu ver, são um casal de vizinhos sem filhos, principalmente a mulher, grávida (Toni Collette, a mãe de Sexto Sentido e Pequena Miss Sunshine). Quando ela vê o vizinho chegar muito perto de Jasira, a avisa: “Qualquer homem dessa idade que quiser ser seu amigo é um porco”. Mais adiante, ela a protege da fúria do pai, além de lhe dar um livro sobre sexualidade. Ela faz tudo certo, e não se importa em ser metida demais. Se você visse um vizinho adulto se engraçando pro lado de uma menina de 13 anos (que não fosse sua filha), faria alguma coisa? Tá na hora da gente começar a fazer.
Embora Towelhead se passe durante a Guerra do Golfo e seja crítico aos americanos―afinal, Alan Ball é um expert em não deixar pedra sobre pedra nos subúrbios dos EUA―, o filme serve como um ótimo (e perturbador) incentivo pra se pensar sobre o início da sexualidade feminina, e este é um tema universal. Tenho toda a impressão que quando eu tinha treze anos eu ainda estava longe de pensar em sexo, mas isso não quer dizer que a situação seja igual pra todas as meninas. Aconselho muito que você veja Towelhead, que mostra uma garota não totalmente desinteressada num mundo cheio de predadores sexuais.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

CURAS MILAGROSAS PARA DEFEITOS INVISÍVEIS

Campanha do Carefree em SP: neutralize seus odores ou vire abóbora.

O maridão estava lendo uma revista antiga (ele gosta de ler revistas antigas, de dez, vinte anos atrás, e se tivesse alguma Cruzeiro dando sopa por aqui, ele também a leria), e ficou perplexo com a entrevista de um publicitário brasileiro que foi encarregado de lançar o Carefree no Brasi
l. Sabe, aqueles “protetores diários”, pequenos, que não são absorventes? O carinha dizia que as mulheres não entendiam pra que servia aquilo e que, no começo, usavam como absorvente, e não funcionava. Eu lembro de uma vez que um chefe brucutu chegou pra mim e pra algumas colegas e perguntou: “Pra quê serve um treco como o Carefree? Vocês não trocam de calcinha todo dia?”. E as outras moças, envergonhadas, tentavam argumentar que, sim, Carefree é de suma importância, e elas nem sabiam como conseguiram sobreviver sem o troço por tantos séculos. Eu não me contive e, apesar de discordar desse meu patrão 100% das vezes, respondi: “Você tem razão, boss. Não serve pra nada mesmo”. Porque, né? Cá entre nós. É totalmente inútil mesmo.
Mas o maridão lá, se identificando com a dificuldade do publicitário, tadinho, que tinha que encontrar uma utilidade praquele produto. Parece que o maridão nunca leu meu blog!
Convenhamos, não é difícil vender um produto pra mulheres. Quase todos os produtos direcionados pra gente são comercializados em cima de alguma insegurança. Primeiro cria-se um defeito, aí vem um produto pra sanar esse defeito. No caso do Carefree, é o nosso cheiro que não presta, ou é um corrimento que vai manchar tudo, ou é que somos tão sujas que deveríamos trocar de calcinha cinco vezes por dia, mas, como não podemos, usamos um protetor diário, que vai nos proporcionar grande conforto e segurança. É como a invenção da celulite. Não existia nem palavra pra isso até a década de 70. Os furinhos, ou sei lá o quê, que muitas mulheres têm na perna e no bumbum não eram vistos como defeitos. E hoje existe uma indústria bilionária faturando em cima desses furinhos.
Outro dia eu tava vendo aquela besteira que é o Jornal Hoje. Eu não vejo TV, e realmente odeio aquele telejornal, mas o maridão insiste em ligar a televisão e tirar um cochilo depois do almoço, antes de ir trabalhar. Então muitas vezes acabo vendo algum pedacinho também. E outro dia inventaram um defeito que eu nem sabia que tinha. Disseram que mulheres não podem dar tchau efusivamente com os braços, só um tchauzinho discreto, porque embaixo dos braços há muita gordura, e essa gordura balança quando se mexe o braço. Sei que estou longe de ser uma consumidora antenada, mas eu aqui, com 42 anos nas costas (e nos braços), nunca tinha me dado conta desse gravíssimo defeito que é a parte interna dos meus braços (deve até haver um nome pra isso, eu é que não sei). Quer dizer, e daí se um pedacinho de mim se mexer enquanto eu movimento meus braços? Meus seios também balançam quando ando, apesar do esforço do sutiã para restringi-los. Isso deve ter ligação com aquilo de ensinar meninas de oito anos a andarem de salto alto e fazerem chapinha no cabelo. Aí elas não brincam na escola como as outras crianças, porque não dá pra correr com salto alto, e vale tudo pra não desmanchar o penteado. O objetivo de tudo, portanto, é restringir os movimentos femininos? E movimento lembra liberdade? Estou começando a ver um padrão.
Mas voltando àquela partezinha embaixo do braço que se mexe quando a gente dá tchau (só nas mulheres, ok?). O Jornal Hoje entrevistou personal trainers e foi a academias de ginástica, tudo pra ensinar a gente como endurecer esse pedaço desagradável da nossa anatomia. E eu devo ter perdido os comerciais no meio, que provavelmente vendiam creminhos pra enrijecer o braço.
Outro dia o Jornal Hoje noticiou sobre os cankles, nome recente de uma invenção americana pra se referir àquele pedacinho do tornozelo que não se diferencia muito da perna. Sei lá, eu não entendi direito. Mas li que um estilista modificou algumas Barbies porque as roupas que ele havia criado não caíram bem nas bonecas, porque elas (as bonecas, não as roupas) não tinham tornozelos bem definidos, e sim cankles. É, sabe a Barbie, aquela boneca que representa fielmente o corpo feminino? Nem ela é perfeita. Na reportagem do Hoje, dicas de exercícios físicos para corrigir os cankles, e entrevistas com cirurgiões plásticos, que sim, já se deram conta do problema seríssimo que os cankles significam pra autoestima feminina.
Mas é aquele negócio, certo? A gente não é influenciada pela mídia, imagina. A gente usa Carefree porque quer. Cirurgia pra tratar os cankles, creminhos pra tratar a celulite, horas de academia pra tratar a parte interna dos braços—tudo isso é uma escolha pessoal. Porque o importante é que a gente se sinta bem, sempre.
Convenhamos, não é difícil vender produtos pra mulheres.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O ESCÂNDALO DA MÉDICA NO AEROPORTO DE ARACAJU, E O NOSSO

A médica e a monstra.

Ai, ai, mais um barraco que a gente fica sabendo graças aos vídeos no YouTube e ao destaque dado pelos blogs. Eu vi o vídeo semana passada, achei um absurdo mas não ia falar nada. Porém, minha querida leitora Luma pediu pra que eu comentasse, e lá vou eu. Como você pode ver no vídeo (se não der pra vê-lo, vá no YouTube e escreva "escândalo aeroporto Aracaju", que aparece), uma jovem passageira fez um escândalo no check-in da Gol, no aeroporto de Aracaju, Sergipe. Isso foi no dia 26 de outubro. Ela e o marido iriam viajar em lua de mel para a Argentina, mas chegaram quando o embarque estava encerrado, entre sete e quinze minutos antes do avião decolar (as fontes variam). E os funcionários não os deixaram entrar. Revoltada, a moça surtou, pulou o balcão, sentou-se na esteira das bagagens, e chamou os funcionários (a maior parte negros) de cachorro, mortos de fome, e nêgo.
Mais tarde, um dos funcionários tentou entrar com queixa contra ela por crime de racismo, mas o delegado não aceitou, por falta de provas. Oi? Tinha um monte de testemunhas lá. Tem o vídeo. Pra mim, chamar alguém de nêgo parece ser racismo, sim. Por que o delegado não aceitou a queixa?
Depois descobriu-se que a moça é médica do serviço público de saúde, e que seu marido é policial federal.
Dá uma raiva danada ver o vídeo, que me lembrou um amigo, muito nervoso, que antes de fazer terapia, costumava dar piti nos aeroportos. Convenhamos: perder a calma num aeroporto não é algo difícil. Os voos atrasam ou lotam. Tem que se esperar horas (por isso que eu, francamente, prefiro ônibus pra qualquer viagem que dure até oito horas). Raramente os problemas são responsabilidade dos funcionários da empresa aérea. Acho até que dificilmente se pode culpar a empresa. Muitas vezes o problema é o mau tempo, que fecha os aeroportos. Mas todos nós temos compromissos e horários pra chegar (eu quase perdi meu concurso em Fortaleza, lembram?), o que deixa os nervos à flor da pele. Enfim, nessas horas esse meu amigo perdia a calma e gritava com os funcionários. Era embaraçoso. Até que sua filha adolescente, presenciando uma das cenas, explicou pra ele: “Pai, você tinha razão antes. Quando passou a gritar, perdeu a razão”. E é verdade: no que vai ajudar armar um barraco?
A reação da médica é típica de uma certa classe social que, contrariada, berra: “Você sabe com quem está falando?!”. É uma classe que não admite que não se dê um jeitinho pra resolver os seus problemas, já que ela está acima dos “mortos de fome”. Não tenho nenhum respeito por várias atitudes preconceituosas dessa classe (média e alta), da qual mais ou menos faço parte (pelo jeito, estatisticamente, estou mais pra C―renda familiar mensal até R$ 4,800―, e este comportamento é mais frequente nas A e B). É uma classe que não gosta do Brasil, ou até gosta das belezas naturais do país, “o problema são os brasileiros”, como costuma dizer. E lógico que numa afirmação dessas vem embutida uma enorme carga de elitismo e racismo.
Portanto, acho que a médica deveria ser processada por racismo. Acho que deveria ser obrigatório que ela fizesse terapia. E que seu crime fosse pago com serviço social e cestas básicas. Quero também que o delegado explique por que não aceitou a queixa do funcionário.
Mas agora vamos por o pé no freio, por favor. Pelo que ando lendo em alguns comentários, tanto em blogs quanto no YouTube, tem gente praticamente pedindo a pena de morte pra médica. E a chamam de mil e um palavrões, de mimada, patricinha, filhinha de papai, até os clássicos femininos (baranga, puta, vagaba etc). Um dos comentários dizia que o marido falhou porque tinha que ser másculo naquele momento e “ser firme” (incitação à violência doméstica, anyone?). Outro dizia que é assim mesmo, que quanto mais se estuda, mais ignorante se fica (vamos fechar todas as universidades, então, se estudo é tão ruim pra humanidade!). Outro queria desmerecer a moça não por causa dos insultos que disse, mas por ela provavelmente não ganhar mais que 2 mil por mês e, chute, nunca ter entrado num avião antes (ou seja, pela mensagem que captei, a médica nem seria rica o suficiente pra se comportar como tal). Mais um: que a médica deveria ser punida exemplarmente, porque manchou a imagem de Aracaju, de Sergipe, do Nordeste e de todo o Brasil (sério? Nossa imagem é tão frágil que basta um episódio individual pra manchá-la?). Outro: que ela deveria perder o emprego, porque, como médica do serviço público, lida com pobres e negros que ela tanto despreza. Esse argumento até tem lógica. A médica mostrou o seu preconceito contra a classe mais baixa. Só não concordo com a sentença: perder o emprego.
Não sei, talvez porque sou da paz, talvez porque sou ingênua, acredito na reabilitação das pessoas. Tenho certeza que essa médica se arrepende de como agiu. Entretanto, ela cometeu um crime, e deve pagar por ele. Como? Com prisão? Óbvio que não. As prisões estão sobrecarregadas e raramente reabilitam alguém (não só no Brasil; nos EUA também). Pelo contrário, em inúmeras vezes servem como escolas do crime. Portanto, prisão, no meu entender, é pra quem cometeu um crime muito grave e que representa um perigo para a sociedade. Perigo não só físico, mas também financeiro (quando a dona da Daslu não permanece presa, as chances d'ela sonegar impostos e fazer contrabando novamente são enormes. O mesmo vale para os políticos corruptos). Tá na hora da gente ter uma justiça um tiquinho cega, que não absolva os ricos e puna apenas os pobres. Mas usar essa médica como bode expiatório não melhora muita coisa. Imaginem que ela fosse estudante de uma faculdade particular. Ela chega na aula e 700 alunos a cercam e começam a gritar “Doida racista! Doida racista!”. Justifica? É isso que queremos?
Não vai ser linchando alguém que vamos ter paz. Adotar uma reação violenta nos faz tão violentos quanto o criminoso. E eu tô cansada de violência.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CASAS INTERESSANTES EM FORTALEZA

Vista dos bairros Benfica, Fátima e Centro, em Fortaleza. Mar à vista.

Como vocês gostaram de ver fotos da minha casinha em Joinville, nada mais justo que compartilhar com minhas queridas leitoras(es) os imóveis que mais tem me interessado até agora em Fortaleza. Bom, tem uma coisa que vocês precisam saber sobre mim: eu adoro ver casas e apês. Vibro com plantas de imóveis. Devo ter sido arquiteta em outra reencarnação, então pra mim não é nenhum esforço ver casas e fotos de casas. Amo.
Estou procurando uma casa bem próxima da universidade, no bairro Benfica. Casa porque estamos acostumados a viver em casa, e principalmente pelos gatinhos, que iriam odiar, a essa altura da vida (Blanche 10 anos, Calvin 9), terem que mudar prum apartamento. E “próximo à UFC” porque adorei a experiência em Detroit de morar perto de onde íamos todos os dias. Sei que é mais cara uma casa no Benfica, porque o bairro é nobre, mas a longo prazo eu acho que se paga, porque economiza-se muito em tempo e dinheiro. E tem outro ponto importante também, que eu observei aqui em Joinville. Eu, o maridão, e minha mãe somos todos professores (de inglês, xadrez e espanhol, respectivamente). É importante pra nossa renda que tenhamos alunos particulares. Acontece que aqui moramos numa casa a sete quilômetros do centro, num bairro de classe média baixa. É impossível arranjar alunos particulares no próprio bairro. O pessoal não tem dinheiro pra pagar entre R$ 25 e 35 a hora-aula. E tenho certeza que muitos alunos de poder aquisitivo mais alto desistem de ter aula conosco por não quererem vir a um bairro tão distante e desconhecido, operário (pra uma parte da classe média isso é palavrão). Eu vejo o caso de uma amiga minha, que vive de dar aula particular de inglês na casa dela. Não é uma boa comparação, eu sei, porque ela é the best, leva as aulas muito a sério, faz isso em horário integral e há muito tempo. Logo, ela tem uma clientela fixa e sempre tem aluno que a recomenda pra outro. Mas acho que influencia também que ela more num bairro nobre. Muitos dos seus alunos são de lá mesmo. Em Fortaleza, eu não terei tempo de dar aula particular. Mas pro maridão e pra minha mãe pode aparecer aluno interessado se a gente estiver próximo à UFC.
Como eu já disse antes, Fortaleza é uma cidade enorme em matéria de população (2,5 milhões de habitantes) e minúscula em tamanho (313 km2). O que significa que terrenos como os de Joinville (o nosso tem 420 m2) estão fora de cogitação. Serão menores, o que impossibilita que façamos uma casinha nos fundos pra minha mãe. O que não é incomum é o que eles chamam de casa duplex, ou seja, uma casa em cima da outra, cada uma com entrada independente. Como esta daqui, à venda por 175 mil. Por fora, parece muito feia, um pedaço de cimento. Mas é bastante espaçosa por dentro. O terreno parece ser de 6,25 x 30 m, e a área construída, de 119 m2. Pra minha mãe seria um espaço que não acabaria mais. O que uma pessoa que vive sozinha faria com três suites?! Até eu e o maridão aprendemos a viver numa boa, pelos últimos 15 anos, com um só banheiro.A cozinha parece boa. (Eu prefiro cozinhas grandes. Banheiros também. Outro dia eu tava falando pro maridão uma verdade universal: cozinha sem tesoura não é cozinha. Assim como banheiro sem banquinho). A vantagem é que já está prontinha pra morar. Não precisa fazer reforma, construir outra cozinha nem nada.A desvantagem é que fica no Fátima, a 3 km a pé da universidade (de carro dá 6 km). Certo, 3 km não é uma maratona, e eu conseguiria andar isso todo dia, acho. O problema é que todo mundo diz que Fortaleza é perigosa, e que eu darei aula à noite. Não sei se gostaria de andar 3 km à noite num lugar perigoso. Esta casa tem uma aparência bem melhor e o mesmo problema da anterior: fica a uns 3 km da universidade, num bairro de nome bonito, Damas. Eu gostei porque o terreno é grande, 500 m2. Opa, descobri que já falei um pouco dela aqui.Esta é a cozinha. É só tirar as flores de plástico que fica bonita. Sabiam que tem uma comunidade no orkut chamada "Odeio flor de plástico"? Como vocês podem imaginar, o fórum pra discussões não é lá muito movimentado. Parece ter 180 m2 de área construída, quatro quartos, duas salas, enorme. Por 170 mil. Tem muito mais fotos do quintal do que de dentro da casa; portanto, não dá pra ter uma boa noção de como a casa é dividida.Ah sim, como eu estava dizendo, o ideal seria poder construir uma casinha nos fundos pra minha mãe, como fizemos quando reformamos a edícula daqui. Acho que isso não será possível, devido ao tamanho do terreno. Nesta casa em Damas, daria pra separar uma parte da casa, fazer uma entrada independente, talvez estender um pouco pra um dos lados do terreno, e construir outra cozinha. E aí, qual das duas, por enquanto? Essas duas são fáceis de comparar porque estão à venda por mais ou menos o mesmo preço e ambas ficam a 3 km da UFC. Mas tentem analisar mais prós e contras. Há outras casas mais perto, já já mostro pra vocês.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A DESGRAÇA DA DICOTOMIA: PARE O PEDESTAL QUE EU QUERO DESCER

“Eu sabia o bastante para saber que a única coisa esperada de mim era que eu não me desgraçasse” (The Blind Assassin, Margaret Atwood, 2000, minha tradução).

Parece que essa frase do romance que estou lendo atualmente vem a calhar: o que se espera de nós, mulheres, é que, além de estarmos sempre belas e jovens, sejamos respeitáveis. Não podemos nos desgraçar. Prum homem se desgraçar é mais complicado. Ele precisa matar ou estuprar alguém ou, no mundo homofóbico em que vivemos, ser pego transando com outro homem. Pra nós mulheres é mais fácil: bastar usar um vestido curto na faculdade onde se estuda, num dia em que os alunos, entediados, farão qualquer coisa pra gazetear aula. Ou executar uma dança insinuante e deixar sua calcinha à mostra, ainda mais se você tiver uma profissão “respeitável”, professora. Ou senão transar com o próprio namorado e permitir que ele filme o ato. Quando vocês terminarem, ele, pra se vingar, divulgará as imagens na internet. Ele será visto com admiração pelos amigos, mas você, por ter tido o azar de nascer com uma vagina, provavelmente vai precisar mudar de nome, de cidade, e de profissão. Chato, né?
Quem se chocou com o episódio ocorrido na Uniban precisa refrescar a memória lendo esta matéria de mais de três anos atrás. Em maio de 2006 não foi um vestido que desgraçou a vida de uma moça, Francine, também de 20 anos, mesma idade de Geyse, a aluna da Uniban. A causa da desgraça foi terem aparecido no orkut fotos pornôs de Francine fazendo sexo com dois homens. Eis um trecho da matéria de 2006. Não dá uma incrível sensação de dejá-vu?
Francine foi à faculdade, a 30 quilômetros de Pompéia. A Fundação de Ensino Eurípides Soares da Rocha, a Univem, fica em Marília, pólo de quase 200 mil habitantes que recebe estudantes de toda a região centro-oeste de São Paulo. Antes de entrar, Rud de Moura, aluno de Administração que embarcara no mesmo ônibus, avisou: 'Seu nome está nos quatro cantos da faculdade. Você sabe que o ser humano é complicado. Se houver algum problema, conta comigo'. Francine respondeu que não devia nada a ninguém e se dirigiu à sala. Nas duas primeiras aulas, nada aconteceu. No intervalo, pouco depois das 21 horas, Francine não conseguiu sair. Cerca de 300 alunos aglomeravam-se pelos corredores. O professor Otávio Custódio de Lima bloqueou a porta para que não invadissem. Os universitários, boa parte deles do curso de Direito, queriam ver 'a vagaba da internet', xingá-la de 'prostituta', avisar que eram 'os próximos da fila', atirar preservativos, empunhar cartazes de 'tire aqui a sua senha'.
[...] Chamaram a polícia. 'Não saia de cabeça baixa. Você não deve nada a ninguém', disse Rud. Ele acompanhou Francine até a delegacia e avisou a mãe da estudante. Ela conseguiu deixar a sala e vencer as centenas de metros que a separavam do lado externo do prédio graças a bombas de gás pimenta atiradas pelos policiais para abrir espaço. 'Eu me senti pequenininha. Só via as bocas mexendo e mexendo. Não ouvia. Só queria sair dali', diz. Foi o segundo linchamento moral. Uma estudante disse a ÉPOCA, acreditando que assim minimizava a violência: 'Ela não seria linchada, ninguém ia agredi-la fisicamente. Se a polícia não chegasse, no máximo ficariam passando a mão na bunda dela'”.
Ah bom! Legal saber que Francine (ou Geyse) não seria literalmente apedrejada em praça pública. Só a apalpariam! E isso toda mulher já está acostumada!
A reportagem da Época de 2006 é boa, mas deixa um gosto extremamente moralista. Provavelmente porque o caso todo foi um desfile de moralismo, mas também porque a família de Francine (daquele tipo “tradicional” de cidadezinha do interior) é um poço de conservadorismo. É o pai que não consegue mais olhar pra filha após ver aquelas fotos; é a mãe que nunca tinha visto fotos assim antes; é a declaração que ela dá à jornalista: “Eu sempre falei para a Francine tomar muito cuidado para não cair na boca do povo, porque o dia que cair ninguém mais esquece”. Sabe, aquele lenga-lenga que o mais importante na vida de uma mulher é não se desgraçar. Esse patrulhamento conta com a eterna vigilância de outras mulheres, como mostra um outro pedaço da matéria:
'Eu mesma passei as fotos para várias pessoas. Ela é uma safada—e com aquela cara de santa. Eu não transaria com dois caras, não acho certo. Um homem até pode escorregar, uma mulher não', diz uma garota de Pompéia, de 21 anos, nível universitário. 'Agora está posando de vítima. Uma pessoa normal, que tem sua dignidade, não faz o que ela fez. A única solução para ela é sair da cidade.'
A colega de Francine a acha uma puta, apesar da cara de santa, e cabe a essa colega desmascará-la, mostrar o que Francine realmente é. A única novidade nesse caso de Pompeia é que um dos dois homens envolvidos nas fotos também foi prejudicado: perdeu o emprego. Isso porque ele era casado, e por ser filho de um vereador da cidade. Não por ter feito sexo, que sexo é uma atividade saudável, natural e prazerosa dos seres humanos—bom, ao menos dos seres humanos do sexo masculino.
Não sei o que aconteceu depois. Não encontrei outras notícias falando do caso, apenas esta, relatando que as fotos eram de fato uma montagem. O mais irônico é que alunos da Univem procuraram a diretoria perguntando se Francine não seria expulsa por ter manchado a imagem da faculdade. Ela que manchou, entende?! Espero que a Univem tenha aberto espaço para discussão entre os alunos, para que eles aprendessem que aquele tipo de comportamento que exibiram é simplesmente inaceitável.
Mas, claro, a pergunta que não quer calar é: faz alguma diferença se aquelas fotos eram ou não uma montagem (ou o tamanho do vestido de Geyse?)? Para a consciência de Francine e sua família, faz. Mas para a reação do pessoal de fora, faz? Uma mulher não pode transar com dois homens? É estranho que não possa ser tolerado justo aquilo que rapazes adolescentes (numa idade não muito distante da maioria dos universitários) veem em filmes pornôs, que eles seguem como cartilha e que geralmente é sua única fonte de educação sexual. Ou melhor, talvez até possa ser tolerado, mas só se for feito por putas, não por mulheres de família. Mulheres dignas, honestas, que se dão ao respeito, não transam com dois homens. Aliás, nem transam. Só para fins reprodutivos, para gerar o ápice da criação: um herdeiro homem.
Pô, é tão tênue assim a linha que separa essa nossa dicotomia feminina entre santas e putas? Basta usar um vestidinho ou ser fotografada transando pra cair na boca do povo? Homens não têm que escolher se são santos ou putos. Eles têm a liberdade sexual para transarem com quem quiserem (desde que seja do sexo feminino), e isso só será avaliado de forma positiva. Quanto mais parceiras, melhor.
Mas, e nós? Somos santas ou putas? Nem uma coisa nem outra, óbvio. Somos mulheres, que querem exercer sua sexualidade sem julgamentos, que gostam de sexo, que exigem os mesmos padrões de liberdade sexual que os homens têm. Até porque pros misóginos, mulher é tudo vaca mesmo (a menos que sejam as mães deles, aí são santas, pois pariram um ser tão iluminado). Mas também é repulsivo que sejamos colocadas num pedestal, porque esse pedestal tem preço. Pra ser santa, temos que ser mães ou virgens, e a gente deve poder se dar ao luxo de decidir não ser nem mãe nem virgem. E é facílimo cair desse pedestal. E quanto maior a altura, maior a queda.
Eu dispenso o pedestal. Dispenso estar sob constante avaliação. Eu quero que se espere um monte de realizações das meninas, não apenas que elas não se desgracem. Por sinal, essa desgraça não é minha, nem delas, nem nossa. É de quem insiste numa dicotomia estúpida, uma dicotomia que nunca teve razão de ser, mas que tem menos ainda no século 21.

domingo, 1 de novembro de 2009

FANTASIAS DE HALLOWEEN

Ontem foi Halloween, que pra nós brasileiros tem pouco ou nenhum significado, mas gosto do caráter lúdico da festa. Ano retrasado (já passou todo este tempo!) estávamos, eu e o maridão, nos EUA durante o Halloween, e o que mais me lembro eram todas as fantasias anunciadas nos jornais para gatos e cachorros (clique aqui pelo menos pra ver uma foto fofíssima). Acho que até já escrevi sobre isso: colocar um disfarce ridículo num cão tudo bem, é possível, ele vai ficar chateado contigo durante umas duas horas, depois ele te perdoa.Gato com pensamentos impuros fantasiando em como se vingar do dono.

Mas quantas pessoas são necessárias pra fantasiar um gato? Na minha opinião, quem precisa de fantasia num caso desses é quem vai se encarregar de tentar vestir o bichano. De preferência, uma armadura, porque gatos têm garras e dentes, e não gostam de ser humilhados assim, impunemente.
Gato resignado fantasiado de lagosta (menos embaraçoso que de cão, mas ainda assim).Obviamente uma fotomontagem. Ninguém conseguiu vestir um gato desse jeito e sobreviveu pra contar a história.

Americano gasta inacreditáveis 4,75 bilhões de dólares a cada Halloween. Dá pra acreditar?Gato fantasiado de... Smurfete. Pode-se perder a guarda do bicho por crueldade contra os animais.

Não sei quanto disso é torrado nas fantasias pros bichanos, que têm bons motivos pra detestarem a data. Agora, se eu pudesse escolher qualquer fant
asia pra mim, sabe qual escolheria? Esta aqui. Acho um charme essa divulgação de Bruno (que ainda não vi, e terei de ver apenas no computador, porque não vai passar aqui de jeito maneira). Sou totalmente contra touradas, mas essa fantasia, com dois toureiros a tiracolo, é uma graça. Bem que touradas podiam ser extintas e sobrassem só as roupas.
Aliás, o filme pode ser uma droga (não sei, gostei pac
as dos primeiros dois terços de Borat; vi uns pedacinhos de Bruno na TV, e o personagem não é engraçado como Borat) mas a divulgação, com todas aquelas fantasias, foi bem criativa. Gostei também dessas de gente fantasiada de estar nua. E aí, se você pudesse usar qualquer fantasia, qual escolheria? E pro seu pobre gato ou cão?

sábado, 31 de outubro de 2009

CASO UNIBAN: TUDO CULPA DOS GAYS E DAS MULHERES

A estudante no dia da confusão, com o vestido que começou tudo.

Embora eu tenha algumas restrições a respeito do post que noticiou todo esse escândalo na Uniban, fico feliz que um blog tenha pautado a grande mídia, porque é muito mais comum o oposto. Demorou (o caso aconteceu no dia 22 de outubro), mas os jornais finalmente foram atrás. A melhor reportagem, a que parece mais detalhada e completa, é esta da Folha, que explica bem o que aconteceu. A moça que foi publicamente humilhada deu várias entrevistas, a mais longa sendo pra este site. E já pipocaram também fotos do vestido da discórdia, que, por favor, é um vestido curto, mas jura que ninguém nunca viu pernas de fora antes? (ontem ela apareceu no Geraldo Brasil, com rosto e nome). Os moralistas continuam argumentando que esses não são trajes para se usar num local de ensino, um templo da sabedoria como é uma universidade (e onde se veem cenas de turba), mas a moça diz que iria se encontrar com o namorado para ir a uma festa após a aula, e já estava vestida a caráter. Mas lógico que, se alguém tivesse se sentido incomodado com o tamanho do vestido da aluna, era só reclamar com a faculdade, que talvez pudesse pedir-lhe para, da próxima vez, usar algo mais longo (e convenhamos, mesmo essa atitude já seria estúpida).
A Uniban parece ter agido da pior forma possível. Não só não conteve o distúrbio, como mandou seguranças à sala onde estava a moça. E a primeira medida dos seguranças foi... reclamar do vestido?! Sério isso? E agora a universidade tenta desesperadamente retirar todos os vídeos do YouTube. Vamos ver o que ela faz com os seguranças e com quem iniciou a bagunça. Não quero que ninguém seja torturado ou mesmo despedido ou expulso, mas seria útil se várias palestras fossem dadas a todos os alunos e funcionários sobre machismo, homofobia, e o perigoso comportamento das turbas. Se a faculdade interrompesse por algumas horas sua grade de “preparar pro mercado de trabalho” e abrisse espaço para discussões em cada turma sobre o que aconteceu. Inclusive, sobre a imagem da universidade. Sabe, usar um ambiente universitário pra se ensinar alguma coisa? É pedir demais?
Assim que a notícia chegou aos grandes jornais, apareceram também os comentaristas dos grandes jornais. Que em muitos sentidos não são diferentes de comentaristas de blogs (não os deste blog, que realmente tem sorte com os comentários que recebe). Não resisto e preciso registrar aqui os comentários de leitores do Estadão, que aproveitam qualquer episódio (acidente de avião, marido que mata mulher etc) pra expressar sua indignação com os rumos deste país—leia-se, o governo Lula. Esse é o fio condutor por trás desses comentários. Mas outra constante é a tentativa de livrar a cara, no melhor estilo “É, o Brasil vai mal e essa é a cara do Brasil, mas o Brasil não somos nós!”. Eu coloco alguns comentários em itálico, tudo sic, e comento em seguida.
- “Ela perdeu a dignidade no momento em que se vestiu de mini-saia”. Ouviram, mulheres? Todas nós que já usamos minissaia em algum momento da vida perdemos a dignidade. Nossa honra se foi e não volta mais. Notem também como isso exclui os homens, já que homem não usa minissaia. Só os travestis, que obviamente não têm dignidade, segundo esse pessoal.
- “Eu acho essa atitude de reprimir esse tipo de vestimentas só pode vim de homossexuais, que não gostam do outro sexo. O certo era apoia essa garota, e as outras também usa esse tipo de roupa, por que elas são mais sensuais e bem vinda para os heterossexais.” Essa é uma forma ideal pra não sentir culpa: homem hétero não faz nada de errado! Todos que xingaram a moça eram ou mulheres ou gays. E que é isso de gay não gostar de mulher? Não querer transar conosco é sinônimo de não gostar da gente? Putz, pra alguns homens héteros, é. E meninas, vamos todas usar roupas curtas porque os homens aprovam, e vivemos em função deles. Quer dizer, pelo jeito nem todos os homens aprovam, né? Assim a gente fica confusa.
- “Só tem bruaca e boiola na Uniban.” Misoginia e homofobia caminhando juntos mais uma vez. As mulheres que abrem a boca para reclamar de qualquer coisa são barangas e mal-amadas. Os homens, todos gays. Os homens héteros são meros observadores desses dois grupos bárbaros! E é bem desse jeito que vamos combater o preconceito: ofendendo todo mundo.
- “É o que dá estudar na UNIBAN. Lá é quase uma escola pública de periferia. E o pessoal (Não todos! Que fique bem claro isso. Mas é a maioria.) se comporta de acordo com o meio em que está acostumado a viver.” Não, este não é um comentário elitista, imagina. Só diz que quem é pobre se comporta como animal. Mas não todos, que fique claro!
- “Vêm pra Brasília loirinha. Aqui tem muita faculdade de turismo. Aqui as gatas andam roupa curta e todo mundo gosta! A água é limpa e o céu é lindo! haha. E vocês, UNIBAMBIS, se não gostam de mulher... manda pra gente! Faculdade de Frouxos! Aqui nós temos respeito pelas mulheres e sabemos como agradá-las!” Dá pra imaginar o respeito que eles têm pelas mulheres... Deve ser o mesmo que têm por outras minorias, como os gays.
- “É fácil observar na vida que ninguém toma pedrada sem merecimento. [...] Uma pessoa de 20 anos que sairia da Faculdade trajada com mini-vestido para ir a uma festa após as 0:00, com certeza não é COITADA. SABEMOS MUITO BEM O QUE ROLA NESSAS FESTAS!” Ahá! Esse sabe tudo! O que será que rola nessas festas?! Sexo, drogas, orgias, música alta, ambiente esfumaçado? Como pode uma menina de 20 anos querer ir a uma festa?! Onde esse mundo vai parar, meu deus?
Leia mais sobre o caso aqui.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CRÍTICA: THIS IS IT / Ensaio de orquestra

É só isso, mas é suficiente.

Juro que gostaria de escrever o maior post balizado e cheio de informações pra vocês sobre o This is it, documentário que mostra os ensaios pra última turnê do Michael Jackson. Mas pra isso eu teria que ser fã do astro pop morto em junho. E lamento dizer que eu não conhecia nenhuma das músicas. Só as dos anos 80 que todo mundo que não tenha sido um eremita conhece: Thriller, Billie Jean, e mais alguma aí que esqueci o nome (Human Nature?).
Quero dizer, eu sou fã do homi em termos. Acho que ele realmente foi um astro de primeira grandeza, super profissional e competente no que fez, tanto como cantor quanto como dançarino e compositor. Mas como pessoa ele era esquisitão. E o Michael é um caso típico em que sua persona não conseguia se desvencilhar do artista. Vinha o pacote completo. Fã de verdade do MJ ama o cara inteirinho, do nariz deformado pelas cirurgias ao seu hábito de soletrar a palavra l.o.v.e (tá no trailer, e é patético, cafona pacas). No cinema pra estreia internacional do This is it tava cheio de fãs fieis. Não que a sala estivesse cheia, bem entendido. Não estava, tava até meio vazia na sessão que eu fui, na quarta. Mas quem tava lá, tirando eu e o maridão, era fãzona do cara. E sabe quando você percebe que não é gente que tem o costume de ir ao cinema? Meio como quem foi ver Dois Filhos de Francisco. Tem um pouco de elitismo estúpido na minha colocação, eu sei (e lamento). Até parece que só gente que não está aconstumada a ir ao cinema fala durante a sessão inteira! Não sei, e perdoem a heresia, mas quando as luzes se acenderam e eu vi um monte de gente chorando, eu me senti no final da sessão de A Paixão de Cristo. Fãs devotos mesmo.
No entanto, eu gostei de This is it. Lógico que o troço não teria sido lançado se o Michael não tivesse morrido (e ainda mais jovem, aos 50 anos). Mas é um documentário honesto, cheio de louvação ao ídolo, feito descaradamente para os fãs. Não é pretensioso, não tem narração, não se beneficia de uma estrutura criativa, nada. São só algumas câmeras que registraram ensaios, e o filme tem a finesse de transmitir suas intenções de cara, ainda nos créditos.
O chato é que o Michael dá muito pouco de si. Propositalmente, claro: ele diz que quer guardar a voz, e por isso prefere não cantar pra valer nos ensaios. E nem dançar tudo que sabe. Logo, o que vemos é bem meia boca, e é triste saber que ele estava se poupando para um momento que não veio (segundo fãs revoltados, ele estava doente demais para se movimentar no palco). Mas o filme compensa esse “desleixo” do Michael com cenas bacanas de dançarinos, guitarristas e músicos que têm que dar seu 100% o tempo todo. E não há dúvida que todos os envolvidos numa turnê dessa magnitude são os melhores em seu ramo. Principalmente os dançarinos. Ah, por mim o filme podia se centrar só neles, mostrando mais de que países vieram, como foram os testes, o que a aprovação significa para suas carreiras. Sabe, uma espécie de Chorus Line? Não o filme com o Michael Douglas, que deixa a desejar (embora eu goste), mas o musical que fez tanto sucesso em todo o mundo na década de 80. Eu vi a Claudia Raia em SP na época. As canções e os números de dança de Chorus Line são espetaculares. Ok, os fãs do Michael iriam chiar em ter que ver um bando de bailarino desconhecido. Mas é tocante como esses dançarinos louvam o astro pop. Sério, é bonito ver a felicidade de um grupo de excelentes profissionais que cresceram vendo e ouvindo seu ídolo podendo finalmente trabalhar ao lado dele. Dizem que a verdadeira consagração surge quando a pessoa é respeitada pelos seus iguais, e isso é o que mais se vê no documentário. Se bem que eu fiquei pensando: putz, todos esses caras dançam muito e eu idolatraria qualquer um deles (foi meio humilhante quando tentei estalar os dedos ao som de uma canção). Qual a diferença entre eles e o Michael, ou entre o Gene Kelly e o Donald O'Connor (que tem aquele número mágico em Cantando na Chuva, “Make Them Laugh”)? É porque um só dança, e o outro, além de dançar um bolão, também faz as coreografias? Nunca entendo isso.
Mas enfim, não vá esperando um biopic contando a trajetória do ídolo. O filme não dedica um segundo sequer à vida pessoal ou à morte do Michael. Tudo é ensaio. É realmente como ver um pedacinho do show que ele iria apresentar em Londres.
Por coincidência, eu tava lendo na edição da Vanity Fair de setembro umas transcrições de entrevistas que uma jornalista fez com o Michael durante quase vinte anos, de 1972 a 89. E o que ela conta é que, quando entrevistou o menininho de dez anos pela primeira vez, já avisou um amigo: “Esse menino será o maior cantor de todos os tempos, que nem o Frank Sinatra”. This is it confirma que foi justamente isso que ele foi.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A TURBA ENRAIVECIDA DA UNIBAN

Desde ontem tem um monte de gente pedindo pra que eu fale sobre o caso da Uniban. De acordo com o Boteco Sujo, numa faculdade particular de São Bernardo do Campo, a Uniban, uma estudante de Turismo foi às aulas vestindo uma miniblusa que funcionava como minissaia. Ela foi cercada por alunos, ameaçada de estupro, e teve que se esconder numa sala, até a polícia chegar. No You Tube há alguns vídeos do episódio que mostram a conglomeração de alunos antes da polícia chegar, e a escolta policial levando a moça pra fora.
Eu relutei em falar qualquer coisa porque a única fonte é esse blog, o Boteco Sujo (que eu não conhecia). Nada contra blog dar notícias em primeira mão, muito pelo contrário, mas se você vai falar de um caso que não saiu noticiado em nenhum jornal, faça com um mínimo de seriedade. Não coloque um título nada-a-ver como “Os Polanskis do ABC”, ou comece o texto falando da Grã Bretanha na era vitoriana. Porque, pra mim, tira a credibilidade. Já começa com duas informações falsas, sabe? Além do mais, nos vídeos não há qualquer indício de spray de pimenta sendo lançado para conter os estudantes.
Mesmo assim—e vou me guiar pelos vídeos, não pela história mal-contada do Boteco—, a história é perturbadora. O que vemos é um monte de aluninho rindo, gritando, e um coro de “Puta! Puta!”. Isso é agressivo, sem dúvida, e depõe demais contra os estudantes envolvidos e contra a instituição (onde estavam os professores e a diretoria pra mandar todo mundo voltar pras salas?). Mas não acho que, a partir disso, dê pra se afirmar que a moça foi ameaçada de estupro, ou que a turba reunida quisesse estuprá-la. Trata-se de um linchamento moral horroroso, de qualquer jeito. Essa turba que se vê no vídeo é isso mesmo, uma turba, atraída por qualquer movimentação fora do normal. Qualquer coisa que tivesse acontecido fora da rotina da faculdade faria um bando de gente ficar lá rondando, rindo nervosamente.
Algo muito parecido no quesito “turba enraivecida” já aconteceu comigo. Eu contei aqui, mas vou resumir. Eu fazia Pedagogia e escrevia prum jornal catarinense (ainda escrevo). Escrevi uma crônica fazendo brincadeira sobre o estágio, e isso gerou grande indignação. A minha turma, e a turma de Pedagogia de outra faculdade (ambas particulares; em Joinvilleo há curso em de Pedagogia em universidade pública), escreveram cartas pro jornal reclamando da minha postura. A diretoria me ameaçou de expulsão se eu escrevesse novamente sobre o estágio. Eu considerei isso censura, e escrevi um texto falando não do estágio, mas dessa repercussão. Na manhã em que ele foi publicado, a turma de outro semestre de Pedagogia se reuniu frente a minha sala pra gritar palavras de ordem. Havia umas quarenta pessoas do lado de fora querendo me linchar. Não sei bem o que eles fariam se eu tivesse saído da sala. Eu estava lá dentro, sentada (era horário de recreio), lendo, quando ouvi o tumulto do lado de fora, mas não sabia o que era. Só fiquei sabendo quando minhas colegas entraram na sala dizendo, assustadas, “Não se preocupe que não vamos deixar eles entrarem!”. Foi altamente ridículo, e eu só pude rir daquilo tudo. Me senti a própria Salman Rushdie. A diretoria compareceu, dispersou a turba, e tudo voltou ao normal—não sem antes me acusarem por eu ter causado o tumulto. Tipo, a sua universidade de Pedagogia (futuros professores) tem um monte de gente que quer linchar alguém por um texto de jornal, e o problema tá com quem escreveu o texto?! Nos dias seguintes, vários dos “protestantes” vieram falar comigo, respeitosamente. Porque individualmente eles não agiriam do jeito que agiram. Foi num grupo que perderam o controle.
Portanto, criar tumulto em faculdade é a coisa mais banal do mundo, e pra uma mulher ser chamada de “Puta! Puta!”, basta ser mulher. Parece que os alunos anseiam por qualquer coisinha fora da rotina pra poder matar aula e fofocar. E tem mais: não só numa universidade, mas em qualquer ambiente, ter um inimigo comum une um grupo. A minha turma de Pedagogia ficou muito mais unida depois daquilo tudo (imagina, precisaram se reunir pra escrever uma carta pro jornal). A gente vê essas alianças o tempo todo nas birrinhas de internet. Pessoas que não têm afinidades alguma podem se juntar pra repudiar um só inimigo. No caso da Uniban, as pessoas vistas no vídeo estão todas animadas, fazendo alianças com quem, provavelmente, não tinham o hábito de conversar. É uma velha estratégia que sempre funciona.
De comportamento de turba eu espero qualquer coisa, sinceramente. O que é horrível é ler comentários (escritos individualmente, longe da confusão) reproduzindo esse mesmo pensamento impensado. Este site reproduziu a “notícia” do Boteco e recebeu cerca de mil comentários. Vários não completamente inúteis, como este (tudo sic):
eu estudo nakela facul, eu estava no momento, ela chegou por volta das 19:20, todos que estvam perto, começaram a mexer com ela, ela sempre vai com roupas assim, sempre decotes muito grande, soh que dessa vez, com a saia minuscula, quando ela foi no banheiro, alguns alunos viram e começaram a zuar ela, as meninas de outras salas tambem, ela volta para sua sala, e a multidão vai na prota, ela sorri dentro sa dala, até que os meninos começam a faze olas e gritos de torcidas, a policia chega, retira a moça, em nenhum momento ninguem tentou agarrar eu agredir a moça”.
E muitos falando o certo (que, pra mim e pras leitoras deste blog, é o óbvio): que, independente do que a aluna estava vestindo, nada justificaria uma agressão. Que uma mulher deveria ter o direito de andar nua sem correr o risco de ser estuprada. Que é muito ruim pra imagem da universidade que algo assim tenha acontecido.
Mas outros comentários mostram bem que o machismo continua firme e forte. Este foi escrito por uma mulher, uma típica “mulher barbuda”, categoria sobre a qual já escrevi aqui.
Caracas gente! Bem feito para essa 'mocinha'. Onde já se viu usar mini saia num ambiente em que todos estão lá (pelo menos na teoria) para simular um ambiente de trabalho. Será que quando ela for uma profissional vai se vestir da mesma forma? Vai ganhar os clientes dela com as pernas? É puta mesmo! E, acordem gente! Ninguém iria molesta-la. Tenho certeza de que, se realmente a ameaçaram, era para realmente mostrar indignação. Ela procurou, ela que arque com as consequências! Outra ainda: NINGUÉM é ameaçado de estupro. Ou se é estuprado, ou se é puta. ACORDA GENTE! Essa 'mocinha' não deveria ter se portado desta forma! Aliás, não deve ter sido a primeira vez! Apoiadooooo!!!! Se eu estivesse lá, ainda sugeria impalamento. E outra, não é instinto. Não é jogar a inteligencia de lado e se comportar como homem das cavernas não... É fazer-se ouvir numa sociedade em que todo mundo está adquirindo os mesmos VALORES que essa 'mocinha' de minisaia.
Os comentários abaixo foram escritos por homens mesmo, daqueles que dividem as mulheres entre santas e putas:
- “Coitadinha da moça, ela tava com calorzinho....ha, ha, ha, ha, o problema é que tem uns panacas infelizmente que acham que tem o direito de fazer o que querem, eu por mim olharia dava uma babadinha se fosse gostosa(o que não é o caso pois é feia pra cacete!!!), mas deixava pra lá, nós gostamos de olhar mas na hora de escolher uma mulher sempre escolhemos uma mais séria que realmente queira fazer uma parceria pra vida toda, essas ai a gente usa só como objeto como latrina mesmo, bom pra olhar mas depois de um tempo enjoa, e também as vezes tem outros problemas tipo ela devia estar ovulando, tava com coceirinha, ou esta desesperada pra arrumar macho(que acho que não seja o caso), enfim elas podem se vestir do jeito que quiserem, problema delas, quem quer dar uma de diferente sempre vai pagar o pato, que esteja preparado pra isso e assuma os riscos.
- “Eu só quero mulher desnuda ou com roupa realçando as curvas da bunda perto de mim quando vou na zona, pois lá vou quando quero tratar de sexo. Fora de lá, seja na escola, na rua , no onibus, no metro, no trabalho, etc., não quero e não admito. Mulher que faz isso será sempre odiada e se tiver uma oportunidade eu agrido mesmo.
- “Quis ser puta, quis mostrar pra todos que é puta, foi tratada como tal. Absolutamente normal. Tem que esculachar mesmo, se o frouxo e inútil do pai não teve a competência pra ensinar valores e educação pra sua filha, outros lá fora se encarregarão disto. Foi muito bem feito, essas vadias acham que por serem mulheres podem tudo, podem andar e pisar a vontade que tudo está a mercê delas, que isso sirva de exemplo pra todos.
- “O que ha de errado em estuprar uma puta dessas? se anda com esse tipo de roupa, é porque inconscientemente (ou não) quer sexo; e é mulher, ou seja, por instinto quer adr pra alguém, é uma vagabgunda a mais, só isso. a culpada é ela.”
Aquele velho blablablá que já conhecemos, e que repudiamos todos os dias. Outro preconceito que aparece tanto nos comentários ("bando de viados" etc) como num dos vídeos (em que estudantes gritam "Bicha! Bicha!" pra policiais, aparentemente) é contra os homossexuais, provando mais uma vez como machismo e homofobia andam juntos. Mas temos que abrir os olhos também para preconceitos elitistas, que proliferam nessas horas de “textos virais”. Por exemplo, como a universidade é particular, e como é localizada no ABC, surgem comentários como este: “Logico que tinha que ser em faculdade de pobre. Pobre é uma m****, so serve pra ser motoboy”. Certo. O pessoal que escreveu os comentários acima provavelmente não é pobre, não estuda na Uniban, e nem estava no meio de uma turba. Esses tiveram tempo pra pensar. E ainda assim repetem as mesmas asneiras que são ditas faz séculos.
Mais sobre o caso aqui e aqui.

UM EXEMPLO BOM E UM PÉSSIMO DE PROFESSORA

Isso é do meu Yearbook (livro registrando os alunos e professores de cada ano), mas juro que não fui eu que fiz esses rabiscos.

O Dia da Professora (vamos admitir, a enorme maioria das pessoas nessa profissão é mulher) passou e eu nem pra me lembrar dele. Mas, em homenagem posterior (eu ia escrever póstuma), vou lembrar de duas professoras que tive.
Lembrar numas, porque desta primeira que vou falar não me lembro nadinha. Nem nome, nem rosto, alguma característica marcante, nada. Lembro apenas que eu tinha sete anos e estudava na Escola Parque, no Rio. Hoje sempre que ouço falar na escola vem junto uma descrição, “escola de elite”, mas na época, obviamente, eu não sabia disso. E imagino que a escola deve ter mudado muito, porque nos anos 70, quando estudei lá, ela só ia até a sexta série. O lugar era lindo, cheio de árvores. O que mais lembro são as jacas. Sempre tinha jaca caída no chão. Enfim, um dia a professora levou a turminha pra uma aula ao ar livre, no meio da natureza da escola, e pediu pra que a gente desenhasse alguma coisa. Não sei se era homenagem à árvore, à natureza... Triste, até recentemente eu sabia contar essa história com mais detalhes. Mas o que lembro é que disse pra professora que eu não sabia desenhar direito, e perguntei pra ela se podia escrever um poema. E ela fez o que uma excelente professora deve fazer: não seguiu regras inflexíveis; pelo contrário, disse “Sim, fique à vontade”. Eu escrevi um poema, ela gostou, mostrou pra todo mundo, e esse foi o início da minha longa carreira poética, que durou até os meus dezenove anos, quando publiquei um livro, e depois, nunca mais. Se ela houvesse respondido algo como “Deixa de ser fresca, menina, e faz um desenho aí”, é bem provável que eu teria tomado gosto pela escrita do mesmo jeito—eu recebia muito incentivo em casa. Mas que esse foi um belo empurrão, não há dúvida. E tudo começou com um simples sim.
Agora o contraponto, e deste eu me lembro muito mais. Depois que a gente se mudou pra SP e tivemos uma ou outra experiência mal-sucedida com escolas particulares rígidas (o oposto da Escola Parque), minha mãe decidiu que deveríamos estudar numa escola americana. E fomos parar logo numa escola católica, a Chapel, que de liberal não tinha nada (mas a essa altura do campeonato ter contato diário com o inglês tava no topo das prioridades maternas). Não vou reclamar, porque depois, principalmente no high school, a escola revelou-se ótima, e era uma maravilha fazer amigos de tantas nacionalidades diferentes. Mas, se eu tivesse filhos, eles não estudariam lá. Primeiro porque a escola é caríssima, e eu não teria nem como pagar (sem falar que meus filhos estudariam em escola pública, porque acredito que educação de qualidade é um direito do cidadão). E segundo porque, ahn, se a família não é religiosa, por que colocar os filhos pra sofrer em colégio católico?
Mas eu divago. A Chapel (apelido pra Mary Immaculate School, capela, em português) tinha umas nove freiras quando entrei, acho. Todas davam aulas (uma até de Ciências, e ela era boa), e lembro que foi uma revolução quando, no final do meu tempo na escola, entrou uma freira brasileira, da Teologia da Libertação, e levou várias pra conviver com crianças pobres na favela, mas eu dr. jivago de novo. Eu lembro de uma freira louquinha, a Sister Benjamin, e de como um dia ela deu um tapa num menino que estava balançando a cadeira, e ele caiu pra trás. Mas o terror de todo o elementary school (séries iniciais, até a sexta série) não era ela, e sim a Sister Agatha. Havia duas sextas séries, uma com a Mrs. Crane, e outra com a nazi nun, a freira nazista, que foi o apelido carinhoso que eu dei pra Sister Agatha. Ela era americana-polonesa e tinha uma aparência hiper rigorosa de gente que não sorria nunca. E pequenos óculos nazistas, à la Caçadores da Arca Perdida (sabe o nazista que pega o medalhão, e a mão dele fica em carne viva?). Como ela tinha reputação de bater nos alunos, e como eu, com a minha sorte, não fui parar na turma da Mrs. Crane, meu pai foi falar com a direção da escola logo que soube que eu teria a Sister Agatha como professora. E avisou que, se a Sister encostasse um só dedo cristão em mim, ele a colocaria pra fora e processaria a escola. Ou algo do gênero. É muito, muito estranho escrever essas linhas com naturalidade, dizer “ela batia nos alunos” e ninguém fazer nada, e ela traumatizar turma após turma de crianças da sexta série e continuar lá. Imagino que hoje em dia bater em alunos não seja mais permitido. E não é por nada não, mas se você é pai, tá pagando uma grana preta pra escola, e vê que sua filha vai passar um ano inteiro tendo uma jararaca como professora, você não levaria a menina pra estudar em outro lugar? Não, porque ter contato diário com o inglês estava acima de tudo. Mas aquele ano foi um inferno. Aliás, encontrei um texto que escrevi pra algum curso no Chapel mesmo, já no high school (no início do high school, espero, porque o texto tá elementar, meu caro watson). Como minha memória estava mais fresca naquela época, vou traduzi-lo aqui:
Meu pior ano escolar. Acho que meu pior ano escolar foi na sexta série. Aquele ano foi difícil para mim e para meus colegas, principalmente por causa da professora. A professora era a Sister Agatha, e ela fez com que gostar das suas aulas fosse impossível. Toda vez que passávamos pela porta éramos tomados por um sentimento de medo. O que ela vai dizer sobre a maneira como estou vestida? Ela vai começar o dia brigando só porque esqueci um livro no meu locker? [armário que cada aluno tem, que fica do lado da sala]. Quem ela vai escolher pra brigar hoje? Portanto, íamos à aula sem nenhum interesse. Ela adorava matemática, então tínhamos que estudar matemática durante metade do dia. Ela odiava qualquer um que não entendesse o que ela explicava. Ela adorava humilhar as pessoas. Lembro que todo mundo chorou na classe dela. Ela tratava todo mundo tão mal que todos nós tínhamos medo e a odiávamos também. Lembro de uma vez, quando eu não entendi um problema de matemática. Ela começou a gritar comigo, a me insultar. E eu chorei. Por que ela tinha que humilhar as pessoas? Às vezes ela tentava bater em alguns alunos. Esse foi meu pior ano, mas também foi o pior de todo mundo que passou pela sua aula”.
O professor, corporativista, escreveu na minha redação: “Acho que não foi, porque alguém escolheu este ano como um bom ano de aprendizado porque a pessoa teve que estudar tanto”.
Eu não sou adepta do estilo exército de que pra se aprender alguma coisa é preciso sofrer. Sinto muito, acho que dá pra aprender tendo prazer, com paz e amor. Tenho a impressão até que se aprende mais num ambiente pacífico que num campo de concentração.
Bom, não sei o que aconteceu com a Sister Agatha. Ela torturou aluninhos durante mais alguns anos (meu irmão, inclusive, calhou de cair na classe dela também), e depois se aposentou, ou foi trabalhar numa penitenciária, sei lá.
Ah, mas só pra terminar este texto quilométrico num tom pra cima, vou relatar uma das piores perguntas que se pode fazer a uma turma de alunos. Não é piada. Essa eu presenciei num estágio de quinta série, de uma professora de inglês numa escola municipal em Joinville. Prestem atenção à pérola que ela disparou a seus alunos, após uma explicação: “Todo mundo entendeu tudo ou tem alguém aqui que não entendeu e eu vou ter que explicar tudo de novo?”. Sério, o que essa professora espera da vida? Que algum aluno levante a mão?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ALGUMAS CONTRADIÇÕES DOS NÃO-RACISTAS

Esse pessoal que jura de pé junto que não existe racismo no Brasil se contradiz demais. Não tem noção do ridículo. Primeiro, insiste que não há nada de racismo por aqui, só uma ligeira desigualdade socioeconômica. Mais pra frente, acaba dizendo que sim, lamentavelmente, existe racismo—mas da parte dos negros! Eles é que são racistas. E também são racistas pessoas brancas como eu e você, porque ficamos prestando atenção nesse negócio de raças. Se a gente visse todo mundo como humanos, não como negros, brancos, amarelos etc, esse tal de racismo automaticamente desapareceria da face da Terra, e todos nós poderíamos ser felizes nesse mundo cor de rosa em que é pura coincidência que mulheres negras ganhem um quarto do salário de um homem branco.
Outra contradição que eu adoro é quando o pessoal branco que não vê racismo diz, indignado, que não aceita ser cobrado pelos erros de seus antepassados. Isso de escravidão é tão antigo, passou, não tivemos nada a ver com isso, troquem o disco. Mas geralmente, na mesma frase, a pessoa revoltada não com o racismo, mas com a acusação de racismo, vem com uma pérola dessas: “ninguém fala dos próprios africanos que capturavam negros e os vendiam como escravos”. O raciocínio é lógico: essa pessoa branca não tem responsabilidade alguma pelos seus tataravôs terem sido donos de escravos, mas os negros de hoje, esses sim, deveriam se envergonhar dos seus antepassados na África que venderam seus semelhantes como escravos. Venderam pra quem mesmo? Ah, isso não importa. No cartum, intitulado "Uma história concisa das relações entre negros e brancos nos EUA", um menino branco usa um escravo, negro, pra subir numa plataforma, enquanto afirma "Isso é pro seu próprio bem". Ao chegar lá em cima, diz pro negro: "Sinto muito por ter sido racista antes. Agora não sou mais". O negro responde: "Ótimo. Você pode me dar uma mão pra eu subir?". E o branco: "Claro que não! Isso seria racismo inverso". E emenda: "Veja bem, se eu consegui subir aqui sozinho, por que você não conseguiria?". Nossa história é muito diferente?

MEIO CRI-CRÍTICA DE TRAILER: AVATAR E O MARIDÃO

Veja o trailer aqui, se quiser.

Fomos ver Bastardos Inglórios pela terceira vez em menos de duas semanas. Mas, quando eu estava lá, na fila (minúscula) da bilheteria (felizmente, eu não pago cinema, já que, pelo menos aqui em Joinville, tenho uma carteirinha de crítica, com direito a acompanhante. Mas preciso pegar ingressos de qualquer jeito), lembrei que teria de ver os mesmos trailers pela terceira vez seguida. E um dos trailers eu não gostei nem um pouco, que é o de Avatar, o novo filme do James Cameron. Sei que a expectativa é grande—afinal, é sua volta à direção após doze anos, desde Titanic—, e que muita gente espera algo fabuloso relacionado à internet e novas tecnologias, e lógico que vou ver o filme, mas o trailer não me inspirou nenhuma vontade. E já vimos o mesmo trailer umas sete vezes, no mínimo, no cinema. Eu já não aguento mais (dou nota 2, em 5, pro trailer). Então falei pro maridão na fila:
“Ih! Quando passarem o trailer de Avatar, você vai ter que me beijar. Eu não quero ver aquilo de novo! Prepare-se pra quase três minutos de beijos ininterruptos”.
Acho que uma mocinha ouviu o que eu disse e pensou que os dois velhinhos devem ter um relacionamento muito intenso. Felizmente, ela não viu o maridão revirando os olhos e fazendo careta.
Mas o cinema tinha mudado todos os trailers. E quando vi que não iam passar Avatar, falei pro maridão: “Se safou, hein? Eles não vão passar o trailer. Agora você não tem que me beijar. Faça o favor de dizer 'Droga! Droga! Droga!'”.
Ele: “Droga! Droga! Droga! [Pausa] ...eu gostava do trailer de Avatar!”

terça-feira, 27 de outubro de 2009

VENDE-SE MINHA CASA

Comprem, por favor. Façam fila. Não fazemos fiado.

Continuo sem saber quando vou pra Fortaleza, ou sequer se irei. Já pensaram o preju que será se eu não for chamada? Sim, porque só passar num concurso não é garantia de contratação. O prazo de validade do concurso é por um ano, ou seja, até agosto do ano que vem. Mas, como 2010 é ano eleitoral, e pela lei não se podem realizar novos concursos ou contratações até seis meses antes das eleições, quem não for chamado até abril dança. Meu nome saiu no Diário Oficial, e boto fé que eu seja chamada em dezembro. A UFC abriu um novo vestibular de Letras-Inglês à noite, e não há professores suficientes para tocar essa novidade. O governo Lula está investindo pesado nas universidades federais, e não vai andar pra trás logo agora que chegou a minha vez, vai? Portanto, acho que me mudarei pra Fortaleza, sim. Mas, caso não me chamem, há uma chance de trabalhar em Marabá, Pará (que minha mãe não me ouca. Ela tá louca pra ir pro CE). Salinha de casa. A mesa de xadrez foi o maridão que fez.

Por enquanto, estou só em compasso de espera, aguardando ansiosamente. Já fiz quase todos os exames médicos, mas acho que terei que refazê-los quando chegar a hora. Ando dando uma olhada em algumas casas próximas à universidade, no bairro de Benfica, em Fortaleza. E minha casa em Joinville está à venda desde o comecinho de setembro. Infelizmente, até agora, só dois interessados vieram vê-la. Acho que tá hiper devagar, e a casinha é muito legal. Não vai ser fácil encontrar outra assim em Fortaleza.
De repente alguém na internet queira comprá-la, então vou colocar umas fotos aqui. Aí minhas leitoras queridas(os) podem ter uma noção melhor de onde vivo. Não reparem na bagunça. Aqui, mais uma foto da salinha. Gosto de espaços com poucas portas.Esta é a sala de jantar, ou antesala, sei lá. Onde passamos muito mais tempo que na sala. E parte da cozinha. Mais cozinha. Viram que linda mesa? O maridão que fez também. Mas todo a concepção intelectual foi minha, óbvio. Opa, não dá pra ver direito. Mas a outra mesa é obra do maridão também. Concepção intelectual minha, de novo.Um dos quartos, que reservamos pros hóspedes. Em cima do sofá-cama, três cópias encadernadas da minha tese.Outro quarto, que usamos como escritório. Essa bagunça toda é do maridão. Vocês já viram este quarto aqui, quando gravamos uma crítica falada. Ah, e aqui também.Quarto onde dormimos. Já mostrei esse quarto nos mínimos detalhes neste vídeo. Gatos em cima da cama não inclusos.Banheiro. O maridão não é capaz de limpá-lo nem pra tirar uma foto. À esquerda tem um box, que já expus aqui, numa história de terror.
A imobiliária avaliou nossa casa em R$ 128 mil, mas na realidade você compra uma casa de 80 m2 num terreno de 420 m2 e leva mais uma, de 60 m2.Então deixa mostrar a casinha dos fundos, onde mora minha mãe. Eu acho esse sobradinho um charme, e moraria ali tranquilamente.A cozinha da casinha dos fundos.Este é o banheiro da casinha. Adoro o espelho.O quarto onde minha mãe dorme. Fofo, não?A sala no andar de cima, que minha mãe usa como ateliê. Tá meio bagunçado, tem umas caixas aí, porque finalmente a convenci a doar sua coleção da Enciclopédia Britânica. Edição de 79.A sala vista por outro ângulo (observe a varandinha).Vista aérea do depósito em frente à casa dos fundos.Garagem com o nosso carrinho. Mas cabem dois ou três carros. Tem uma churrasqueira também, dá pra ver na foto?E esta é a vista da rua, asfaltada, arborizada (pelo menos a parte que nos toca), tranquila e tal. E aí? Você compraria uma casa usada de uma Lolinha?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA

Durante uma das aulas do doutorado, falávamos em ação afirmativa, que engloba o sistema de cotas. Todas as cinco alunas e a professora, todas nós brancas, éramos a favor do sistema de cotas. Mas aí a coisa complicou. Alguém perguntou: tá, cotas pra alunos, tudo bem, mas e se forem cotas pra professor, como tem nos EUA? Nosso coração acadêmico, tanto o da professora quanto o das futuras professoras universitárias, balançou. Já não era tão fácil dizer que éramos a favor. Tivemos que pensar um pouco.
Um adendo: a ideia das cotas (para alunos; para docência nem está em cogitação), ao contrário do que muitos pensam, não é incomodar o pobre aluno branco de classe média. É dar chance a um grupo que simplesmente está fora da universidade.
Nesse meu primeiro concurso em universidade pública, na Universidade Federal do Ceará, éramos 15 candidatos disputando três vagas. Lá no edital havia uma cláusula que reservava uma das vagas para a pessoa portadora de deficiência física (há uma lei de 1990 que garante reserva de 5% das vagas em concursos públicos para portadores de deficiências).
Quando li o edital, você acha que passou pela minha cabeça pensar: “Putz, que injustiça! Só faltava eu perder a minha vaga pra um cadeirante!”? Não passou. Pelo contrário: eu considerei justo que uma pessoa com necessidades especiais, que já tem mil e um obstáculos a mais que eu na vida (literalmente falando, inclusive), tivesse um tiquinho de vantagem. Agora, repare só num detalhe: em nenhum lugar do edital tá escrito que era só um cego passar na frente da universidade que, pá pum, seria contratado. O candidato com necessidades especiais, pra se inscrever naquele concurso, teria que ter no mínimo mestrado na área, fazer as provas como qualquer um, e tirar as notas mínimas (sete). Se ainda assim ele passasse, uma vaga seria dele. Não houve nenhum inscrito com deficiência.
Não estou comparando pessoas com necessidades especiais com outras minorias (igualmente) historicamente discriminadas. Mas por que tanta gente aceita de bom grado que sim, deficientes físicos enfrentam grandes dificuldades num mundo que não foi pensado pra eles e merecem uma forcinha, e negros não? Sendo que um negro no Brasil ganha 40% menos que um branco?
Dos 15 inscritos no meu concurso, 9 eram homens, 6 mulheres. Prum curso de Letras! Embora a maioria dos alunos no ensino superior, hoje, já é de mulheres, ainda há bem mais professores que professoras universitárias. E você conhece muitas reitoras? Pois é, nem eu. Eu fui a única mulher aprovada no concurso. E havia apenas um negro entre os 15 inscritos. Dos quatro candidatos aprovados para a prova didática, ele era o único mestre. Todos os outros eram doutores. Compreensivelmente, ele estava muito inseguro, crente que não conseguiria uma das três vagas. E passou. Confesso que fiquei super feliz por ele. Não só por ele ser simpático e competente (os outros também eram), mas por ele ser negro. Se alguém acha que isso é racismo inverso, paciência. É querer tapar o sol com a peneira. Se eu festejasse a aprovação de um candidato branco, eu estaria sendo racista. Festejar a aprovação de um negro, num contexto em que existem pouquíssimos docentes negros, é vibrar por uma sociedade um tiquinho menos desigual.
Entre os meus professores na UFSC, nenhum era negro. Quando dei aula de estágio docência, não tive nenhum aluno negro (e olha que é Letras, “curso de pobre”, como dizem). No mestrado e doutorado, não tive colegas negros. Não sei se na UFC é diferente, mas duvido. Na USP, sabe o porcentual de professores negros? 0,2%. Não chega a um por cento, num Estado que tem 31% de população negra! Quem nega a existência do racismo no Brasil pode tentar interpretar esses números da melhor maneira possível. Pode dizer que, ué, de repente negros nem ambicionam ser professores universitários, e eu aqui, querendo forçá-los! Pode dizer que o problema não é racial, é socioeconômico, que pra ser professor universitário tem que ser classe média pra cima, então os negros não estão inclusos nessa. O que eu acho engraçado é que essa gente que nega o racismo nunca se pergunta por que, se vivemos num país com oportunidades iguais para todos (e quem crê em meritocracia crê também em oportunidades iguais), tantos negros são pobres, e tantos pobres são negros. Na tentativa de explicar o inexplicável, a pessoa precisa acabar assumindo seu racismo: é por que negros são preguiçosos? Não se aplicam tanto? Esses argumentos circulares me lembram um grupinho de alunos adolescentes que tive. Normalmente adoro adolescentes, mas esse grupinho era fogo. Eram só uns seis pra quem eu dava aula de inglês. Todos apáticos, do tipo que você perguntava “O que você mais gosta de fazer?”, e o rapaz respondia, “Dormir”. E eram todos brancos, claro, ricos e mimados. Um dia eu comecei a falar, em inglês, sobre desigualdade racial. E mostrei os dados que dizem que uma mulher negra ganha, em média, um quarto do que um homem branco ganha no Brasil. Meus aluninhos, rindo, nem piscaram. Num dos raros momentos que despertaram de sua apatia, gritaram em coro: “Mas é claro, né, teacher? Todas as mulheres negras são empregadas domésticas!”. O raciocínio deles parava aí. Eles não se permitiam perguntar por que tantas (claro que não todas) mulheres negras são empregadas. Não viam racismo algum nessa situação. E obviamente não se consideravam privilegiados. E muito menos racistas.
Lá em Detroit, onde passei um ano fazendo doutorado-sanduíche (ou seja, tive o privilégio de ser paga pra pesquisar), mais de 80% da população é negra. Mas, na universidade, Wayne State, nem a pau que 80% dos alunos era negra. Dos professores, então, nem se fala. O reitor sim era negro. Se isso faz você se sentir melhor, eu até escondo o fato que ele foi o primeiro e único reitor negro em 140 anos da universidade.
Sabe, é como a anedota de um aluno que estuda numa das melhores e mais caras escolas do Brasil. Tem cem alunos na turma dele. E aí ele se levanta e discursa: “Pô, não entendo por que esse sistema de cotas quer dar tanta vaga pra negros! Pra quê isso? Só tem um negro aqui na sala!” (adaptei daqui).
A propósito, naquela aula no doutorado, chegamos à conclusão que somos a favor das cotas para negros na docência, também. Por uma questão de justiça.

domingo, 25 de outubro de 2009

DIÁLOGOS CARECAS

Este diálogo é recente. O maridão ganhou de mim duas vezes no mesmo dia no Scrabble (que é tipo palavras cruzadas, mas diferente). Isso nunca acontece. Eu é que costumo massacrá-lo, mas não estava num bom dia. Então ele me abraça e diz, saboreando cada palavra:

“Eu não gosto de ganhar de você dessa forma acachapante, como se você fosse um ser desprezível que merece ser pisado. Isso me afeta!”.
-----
E este diálogo é mais antigo.
Eu: “Eu nunca falei nada de mal do seu corpo...”.
Ele: “Às vezes você diz que eu sou careca”.
Eu: “Mas você é careca”.
Ele: “Taí! De novo!”
Eu: “Mas eu gosto”.
Ele: “Estúpida!”

sábado, 24 de outubro de 2009

VOU PEGAR NOSSA MÍDIA PRA CRISTO

Ah gente, que dá preguiça de ler jornal ao ver cada fala do Lula servindo pra mídia fazer um escândalo, isso dá. Não sei se vocês estão a par de um trechinho da entrevista que o Lula deu à Folha (e a gente pode discutir o que o Lula tá fazendo dando entrevista a uma imprensa que trabalhou vinte anos pra que ele não fosse eleito, e gastou os últimos oito tentanto derrubá-lo). Lula disse pro jornalista:
Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.
Pronto! Foi o que bastava. Segundo a oposição, Lula não estava falando de acordos políticos que precisam ser feitos no Brasil (e em todo lugar do mundo) para poder governar. Não, ele estava era se comparando a Cristo! E ainda por cima sendo herege. O CNBB (e a igreja católica não tem mais nada a ver com a Teologia da Libertação faz um tempão, ok? O último papa se encarregou de exterminar qualquer resquício de esquerdismo dos padres e bispos brasileiros) não perdeu a oportunidade de atacar Lula por invocar o santo nome em vão. Marina, que é evangélica, também vociferou contra Lula. Vários políticos fizeram o mesmo.
Mas o mais engraçado foi ver ateus mais ou menos confessos atacando Lula e defendendo Jesus. Primeiro, foi Roberto Freire quem criticou Lula pelas suas alianças. Roberto Freire, que já foi comunista e que faz aliança com o DEM há mais de quinze anos.
E, lógico, FHC teve que falar: “Jesus se aliar a Judas para fazer política soa como uma blasfêmia. Não foi isso que a gente aprendeu na escola, nas aulas de religião”.
FHC, pra quem não lembra, perdeu em 1985 a eleição pra prefeito de SP, contra aquele tresloucado do Jânio Quadros, porque o Boris Casoy perguntou pra ele, na lata: “O senhor acredita em Deus?”. E nosso ilustre ex-presidente FHC respondeu: “Você disse que não me faria essa pergunta”, enrolou mais um pouco, e todo mundo entendeu a resposta. Bom, eu sou ateia assumida e não sou política ou candidata a nada. Entendo que seja complicado ser ateu declarado num país religioso como o Brasil (ou os EUA), então não culpo o FHC por, em 1994, entre várias mudanças que fez em sua imagem, trasformar-se em cristão praticante desde criancinha. Mas uma coisa é imagem, persona pública. Outra é sair por aí dando bronquinha em alguém por quem ele notoriamente se morde de inveja, e ainda falar de aulas de religião. Fica um tanto ridículo.
Num país em que a mídia precisa fabricar factóides todos os dias pra fingir que é relevante (porque não é mais formadora de opinião oficialmente desde 2002), o que todo mundo quer saber é: vai rolar uma CPI do Judas? Achei estranho o tio Rei não pedir o impeachment do Lula esta semana. A declaração do presidente é digna de pena de morte!
E tem uma outra notícia interessante que, lógico, a mídia não deu, nem vai dar, pelo menos nunca em manchete (o que é compreensível, já que as manchetes estão todas ocupadas por declarações incendiárias do Lula). Seguinte: perguntaram prum membro inglês do Comitê Olímpico Internacional se as cenas de guerra no Rio, com helicóptero derrubado e tudo, duas semanas depois da escolha do Rio pra sediar as Olimpíadas 2016, não o preocupavam. E o carinha disse que não, porque, bem, as Olimpíadas não vão ser depois de amanhã, e sim daqui a sete anos, e que se a questão fosse violência após o anúncio da sede, um dia depois de Londres ter sido eleita pra sediar as Olimpíadas 2012, houve um atentado terrorista que matou 52 pessoas e feriu 700.
E aproveitando que tô falando de política, queria saber: o Lula poderia ser candidato a vice da Dilma? Ninguém está cogitando nada, e sequer se sabe se Lula vai se candidatar novamente em 2014. Duvido muito que ele queira ser vice. Mas a minha pergunta é: ele poderia, se quisesse?
A outra pergunta é: qual será o factóide da próxima segunda? Acho que a mídia aceita sugestões.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

COMIDAS GOURMET

Não sei se esses tais de macaroons são de comer, mas que belezuras.

Esses dias deixei um comentário num blog que eu amo, o Technicolor Kitchen, dizendo pra autora, a Patricia, que eu estava seriamente cogitando virar uma troll por lá. O meu plano terrorista era reclamar da obsessão da autora toda vez que ela colocasse uma receita que não fosse de chocolate. Bolo de banana? Reclamação minha sobre como alguém pode ousar comer algo não chocolatal! Sorvete de limão citriano? Lá iria outra queixa minha insultando a autora pelo seu mau gosto. A Pat, que é muito boazinha e, além do mais, deve ter tremido nas bases por arranjar uma troll como eu, colocou uma receita de brownies com um leve sabor de laranja. E claro que a trollzinha aqui não se deu por vencida e ainda escreveu: o meu eu queria sem laraja pra contaminar o chocolate, por favor. Enfim, na hora eu não me toquei que estava fazendo uma analogia com os trolls que entram aqui, num blog feminista e de esquerda, pra reclamar quando... eu escrevo um post feminista e de esquerda.
Mas ficando no assunto comida, eu tive que confessar a Pat que não sou o público-alvo de um blog culinário, e que se o Technicolor Kitchen se guiasse por mim, não duraria nem metade dos quatro anos que tem de vida. Na realidade, o TK é o único blog nesse segmento que acompanho, o que não quer dizer que eu não tenha visto outros blogs culinários pra saber que o TK é disparado o melhor. Eu adoro as fotos e o estilo de escrever da Pat, que além de ser fissurada em cozinhar, é cinéfila e simpática com suas leitoras. Eu gosto muito disso de falar um pouquinho da vida antes de publicar uma receita.
Mas não sou a leitora-padrão de um blog assim porque, pra começar, sou muito conservadora. Pra se aventurar na cozinha tem que ser ousada. E eu sou do tipo que não se importa em comer a mesma refeição todos os dias. Felizmente, o maridão é igual. Se a gente gosta de um prato (que seja barato) num restaurante, eles ganham uma clientela fixa pro resto da vida. Uma clientela que jamais vai tentar experimentar outro prato! É muito triste ser como somos, eu sei. Não tô fazendo propaganda. Outro motivo pra não seguir receitas é que, embora eu goste de cozinhar de vez em quando, não sou muito boa nisso. Não há justiça no universo e a prova disso é que a gente muitas vezes não fica boa nas atividades que adora fazer (por exemplo, pra mim, xadrez, entre outras: adoro jogar partidas de xadrez de cinco minutos. Perco todas no tempo). Eu e o maridão, muitos e muitos anos atrás, ainda em SP, nos inscrevemos num curso de como fazer queijos (porque queijo deve ser minha comida preferida no mundo salgado). E acho que até hoje ainda sabemos como preparar um requeijão. Foi um tempo de grandes descobertas pra mim, aquele tempo em que aprendi a acender o forno e soube pra que serviam aquelas coisinhas de que saem fogo no topo do fogão. Naquela época eu também fiz um curso de salgadinhos fritos. Foi tão legal durante um tempinho preparar croquetes de carne! Mas isso não teve vida longa porque a gente não faz fritura aqui em casa. Uma lata de óleo aqui dura meio ano. Nas raríssimas vezes que fizemos salgadinhos, batatas fritas ou outras gostosuras, não sabíamos o que fazer com o óleo. Lógico que a gente o reutilizava umas três vezes antes de jogar fora. Mas quando chegava a hora de jogar fora, dava um aperto no coração (me falaram que dá pra doar). Enfim, paramos.
Mais um motivo pra eu não tentar receitas: sou uma pão dura miserável, digo, uma pessoa economicamente responsável, e muitos ingredientes dessas receitas custam caro. Mas realmente a principal razão é minha falta de vontade em testar coisas novas. Principalmente na área de sobremesas. É fácil me tratar como um ratinho de laboratório e fazer uma experiência comigo: coloque lado a lado um chocolate (pode ser do mais chinfrim, pode não ter boa aparência, o importante é que seja chocolate e tenha cor apropriada—tipo, chocolate branco não é chocolate) e uma outra sobremesa. Pode ser um prato altamente elaborado, lindão. Sei lá, um quindim. Uma torta de maçãs. Um sorvete de maracujá. Não importa, porque eu nem vou olhar pro outro lado. Só terei olhos pro chocolate. E não apenas olhos, claro. (Nisso o universo foi justo, porque me emparceirou com um homem que adora frutas e não é grande fã de chocolate. Não brigamos por comida. Se bem que de vez em quando ele reclama por eu não ter oferecido um pedaço do meu chocolate pra ele. Tento explicar, digo que um chocolate comigo raramente dura o tempo suficiente pra eu poder oferecê-lo pra alguém. Mas, pra eu me sentir culpada, toda vez que ele come uma fruta, ele me oferece um pedaço: “Quer kiwi?”. Só porque ele sabe que eu não vou aceitar. Tô pensando em pegar um pedacinho pra jogar na cabeça dele).
Mas a coincidência é que no mesmo dia em que a Pat colocou a receita de brownies com laranja eu vi um post sobre comida num outro site. O post chama-se “As 50 melhores coisas pra se comer no mundo e onde comê-las”, e tem lindas fotos. Infelizmente, a reportagem original, que é do The Guardian, não pôs quanto custa cada prato ou sequer o nome do prato, em alguns casos. E a primeira foto é de ostras, argh. Eu não como nada que venha do mar. E não tem nadica de nada do Brasil. Nem da Argentina ou do Uruguai, onde as carnes são de primeira. Como este post já está quilométrico, só queria comentar algumas coisinhas sobre as escolhas do tal crítico culinário:
3) hambúrguer em NY: o que é isso, um microhamburguer? Como que se serve hamburger com palitinho? Eu gosto daqueles hamburgers super gordurosos de bar.
6) macaroons em Paris: seja lá o que for isso, amei a foto toda colorida (lá em cima). É alfajor?
8) milk-shake em LA: eu não consigo mais olhar prum milk-shake do mesmo jeito desde que o Travolta criticou a Uma por pedir um shake de 5 dólares em Pulp Fiction. Aposto como o shake da foto custa o dobro hoje em dia.
36) raviolis em NY: tá vendo? Odeio isso! Vem três raviolis no prato! Três, eu contei!
40) bolo de chocolate em Paris: duvido que seja melhor que o da minha mãe mas, de todo modo, o meu eu queria sem os troços laranja por cima, s'il vous plait. Merci, e au revoir, mes enfants (meu francês é ulalá).