segunda-feira, 25 de maio de 2015

EU, MAIS OU MENOS BRANCA

Terça retrasada no final da tarde voltei de uma linda mesa sobre opressões e escrevi um simples tuíte:
Exemplo de reaça
Pouco tempo depois, montes de reaças no Twitter (esses são fiéis, acompanham tudo que escrevo, apesar de estarem bloqueados) passaram a ridicularizar o que eu havia dito. Mas, né, dane-se o que reaças falam e pensam. Só que algumas horas depois várias feministas negras (eu não conhecia a maioria que apareceu, nem elas me seguiam no Twitter) também passaram a zombar do que eu havia escrito. Pior: estavam furiosas.
As perguntas que elas faziam entre elas, não para mim, eram do tipo: Como assim, a Lola se identificar negra? Ela não é argentina? Ela não é judia? Ela não tem olhos azuis? Ela não tem cabelo liso? 
(As respostas seriam, respectivamente, sim, não, não -– meus olhos são verdes -–, e não, mas não entendi por que qualquer uma dessas características seria incompatível com alguém ser negro).
Pelo menos duas moças foram ainda mais longe: uma disse que queria me dar uma chinelada na boca por eu haver escrito aquele tuíte, outra, “tremendo de raiva”, disse que torcia para não cruzar comigo novamente na rua ou na universidade, porque sua vontade era de "meter uma mãozada nas fuça dela".
Não compreendo essa violência. Por que querer me bater? Por uma mulher negra (a moderadora da mesa) ter me identificado como negra? Por eu ter ficado feliz com isso? Ou por eu querer escrever sobre o assunto no meu próprio blog?
No meu tuíte eu sequer me identifiquei como negra. Disse apenas que fui identificada como uma, e que fiquei feliz. Por que não ficaria? Deveria ficar envergonhada? Deveria ter interrompido e corrigido aquela mulher negra, a moderadora da mesa, quando ela disse com orgulho, no fechamento do simpósio, de que havia lá três mulheres negras? Se eu tivesse feito isso, aí sim é que seria racismo, a meu ver.
Fui perguntar pra ela depois: “Você me identificou como negra?” E ela respondeu que sim. 
Eu na Casa TPM, em 2013
Ela disse que o fato de eu prender meu cabelo e que a melanina debaixo dos meus olhos dava a entender que eu era negra. Eu não entendi direito, confesso (brancos não têm olheiras? E ultimamente venho prendendo o cabelo porque a menopausa deve estar se aproximando e eu morro de calor). Conversamos um pouco, e eu disse que não me via como negra, mas também não me via como branca. E que já fazia tempo que eu queria escrever sobre essa minha identidade.
Toda a minha vida, eu me identifiquei como branca. E, pelo que sei, fui identificada como branca também, já que nunca sofri racismo. Mas aí comecei o blog, e vieram várias reflexões. Em primeiro lugar, eu também havia comprado aquela ideia de que na Argentina não havia negros. E não é verdade
Uma mulher que se identifica como
afro-argentina
Argentina também teve escravos negros. No tempo da colônia, um terço da população era negra. Mas esse povo foi dizimado  em guerras e epidemias de febre amarela. Enquanto os negros sumiam, os imigrantes europeus (brancos) desembarcavam. Nos anos 1920, mais da metade dos habitantes de Buenos Aires era formada por estrangeiros (meus avós ucranianos entre eles). Hoje, pouquíssimos argentinos se identificam como negros. Em 2013 foi criado um dia nacional do afro-argentino justamente para que mais gente possa ter orgulho de se reconhecer como tal. 
A linda que fez o meu cartaz e eu em
João Pessoa, 2013
Segundo que, com o blog, eu me tornei uma pessoa mais pública, mais ou menos conhecida dentro do mundinho na internet. E vi que montes de pessoas cismavam com meu cabelo. Pra elas, eu não ter cabelo liso era sinônimo de desleixo, feiura e falta de higiene. Dezenas de vezes me mandaram alisar e pentear o cabelo (como se, poder ser cacheado, estivesse despenteado). Antes disso, eu nunca tinha tido qualquer problema com meu cabelo. Gosto dele!
Daí passei a perceber que muitos dos meus inimigos não me identificavam como branca (já li que só superherói tem inimigos, mas, sei lá, eu já tive que fazer quatro boletins de ocorrência contra misóginos que me ameaçam e me difamam, então sim, eu tenho inimigos). Num fórum mascu que também é neonazista, eu sou às vezes chamada de macaca, e sempre de parda. 
Mestiço, tela de Portinari
E desde que comecei a palestrar (sobre gênero), tenho percebido minha relutância em me ver como branca. Aliás, até antes. Em várias crônicas de cinema, se eu tenho que falar da minha cor, está sempre lá: “mais ou menos branca”. Nas palestras, eu uso o exemplo da raça pra dizer por que os homens não podem ser protagonistas no feminismo: “Seria como se eu, que sou mais ou menos branca, quisesse liderar o movimento negro”. Eu não conseguia dizer “sou branca”.  Sempre saía assim, “mais ou menos branca”.
Minha mãe e meu pai na década de 80
Em pelo menos uma dessas palestras, cerca de um ano atrás, em Curitiba, uma senhora, negra, veio falar comigo depois pra dizer que, com esse cabelo, com essa minha cor, já estava na hora de eu repensar minha identidade racial. Naquele dia eu dei duas palestras em Curitiba e, depois da segunda, saí pra jantar com os alunos da UFPR que haviam organizado o evento, todos uns amores, super politizados, um papo excelente. 
Eu em Campina Grande, PB, 2013,
posando com leitoras queridas
Contei pra eles o que a mulher negra havia me dito, falei das minhas inquietações. Disse que, quando estive na Paraíba, depois de três dias de praia, eu havia “mudado de cor”. Essa foto, ao lado de mulheres brancas, pra mim é incrível. Eu não estou branca! Um dos estudantes que estava lá era negro, e perguntei pra ele se ele achava que eu deveria me identificar como  parda. Ele respondeu, com muito entusiasmo: “Claro!” A visão dele era que quanto mais gente se assumisse preta e parda, melhor pra luta. 
Ronaldo Fenômeno se declarou branco
em 2005
Aconteceram vários outros incidentes, e não vou narrar todos, porque o texto já está gigantesco. Mas, assim, quando fui renovar minha carteira de identidade, em fevereiro, aqui em Fortaleza, eu vi que a funcionária colocou para minha raça -– parda. Isso não vai na carteira, e creio que não é perguntado. Mas num dos itens os responsáveis têm que colocar a raça, e eu fui vista como parda. Só que, uns quarenta dias depois, quando fui depor numa delegacia, a escrivã escreveu branca pra mim. 
Minha mãe e eu no último natal
Fui conversar com minha mãe sobre isso. Sei que na família do meu pai são todos brancos. Meus avós, ucranianos, judeus, migraram da Ucrânia para a Argentina antes da primeira guerra. Mas da parte da minha mãe, eu não sei nada. Nunca conheci os pais dela, a irmã, nada. Nunca vi fotos. Minha mãe sempre foi muito misteriosa nesse sentido. Perguntei pra ela se havia algum antepassado negro na nossa família. Ela disse que não -– “Índios sim, negros não”.
Em março, dividi um quarto com uma blogueira negra bem conhecida e querida. Não vou citar o nome porque não quero envolvê-la na confusão. Não sei como começamos a falar sobre o assunto, mas ela disse que quando ela está de turbante ninguém duvida da sua negritude. Porém, quando ela está com o cabelão (lindo) dela, sempre vem gente dizer que ela não é negra, que a pele dela é clara. E ela concorda que, por não tomar quase nada de sol, fica com a pele descolorida mesmo. Mas o pai dela é negro. 
Até um tempo ela se identificava como mulata (hoje essa é uma palavra não aceita, pois vem de mula), depois como parda (mas muita gente do movimento negro defende que a pessoa parda deve se identificar como negra, que “parda” é um agrado ao mito da democracia racial). 
A atriz Jana Guinond diz: "Me tornei
negra, foi um processo"
Aliás, um parênteses aqui, mais um: já participei de várias mesas em que havia um ou mais representante LGBT, um ou mais representante negro, e uma ou mais feminista. E quase sempre tem um momento em que a pessoa negra conta a história de quando “percebeu” que era negra, e não morena ou bronzeada ou mestiça. De quando se assumiu negra como identidade política, de luta, de combate às opressões. De quando passou a ter orgulho de ser negra. Essa é uma narrativa que nos aproxima bastante, porque feministas de toda cor também falam de quando se descobriram feministas. 
Mas voltando a essa feminista negra com quem dividi um quarto: no meio do nosso papo ela disse que nunca me viu como branca, principalmente por causa do meu cabelo. A dica que ela dava a qualquer pessoa que quisesse se identificar negra era: saiba se você tem antepassado(s) negro(s) na família antes e quais são.
Meus avós ucranianos com
minhas tias no colo em
1922, antes do meu pai nascer
Eu acho que não tenho. Mas só ter parentesco negro pode não ser suficiente. Mês passado, no curso de extensão sobre gênero, literatura e cinema, pedi pra turma ler um artigo da Sandra Azêredo, "O que é mesmo uma perspectiva feminista de gênero?". Ela narra que, no início da década de 80, quando foi fazer doutorado na Califórnia, explicou pra sua orientadora (a festejada Donna Haraway) que, no Brasil, há preconceito de classe, não de raça. Naquela época, Sandra ainda acreditava nesse mito. Mas passou a refletir sobre sua vida, e lembrou-se que, quando era criança, alguns colegas confundiram sua mãe parda com uma empregada doméstica. 
Em 2009 uma estudante (à esquerda) se
declarou parda e entrou na UFSM por
cotas. Uma comissão tirou-lhe a vaga,
pois não viu a aluna como parda
O artigo gerou uma discussão riquíssima na classe. Dois rapazes disseram que sabem que têm a pele escura, e por isso gostariam de se identificar como negros, mas têm o cabelo liso de índio e nenhum outro fenótipo negro. Portanto, sentiriam-se mal se entrassem no movimento negro, porque não gostariam de “roubar protagonismo”. E eles não estão sozinhos. Esses dias vi um comentário parecido numa rede social:

Neymar, numa entrevista aos 18
anos, disse que não era preto
É complicado determinar quem é negro e quem não é. Negro é quem a polícia vê como negro? Negro é quem é vigiado ao entrar numa loja? Quanto mais escuro, maior a discriminação e o preconceito contra essa pessoa, isso sabemos (é o que se chama de colorismo). Mas no caso desses meus dois alunos, quem decide se eles são negros? (eles mesmos, certo? Já que no Brasil a raça é autodeclarada).
Para muitos, o ex-presidente Lula é
mestiço ou não branco
Voltando a mim, que este post quilométrico é todinho sobre mim, sobre uma problematização minha da minha identidade: aquele mero tuíte da semana retrasada gerou uma revolta e tanto. E até agora não entendi o porquê. Não tenho o menor interesse em ocupar um espaço que não me pertence. Se nunca quis o protagonismo no feminismo, vou querer muito menos no movimento negro. Além do mais, identidade tem muito a ver com um sentimento de pertencimento. E obviamente não foi isso que senti como resultado do meu tuíte. 
Fui chamada até de racista por ter ficado feliz por uma negra ter me identificado como negra! Evidente que ser identificada como negra não faz de mim negra, assim como ser chamada de racista não faz de mim racista. Eu sempre lutei pelo fim de todos os preconceitos, pois considero que o combate ao racismo não cabe apenas aos negros, mas a todos (tal e qual o combate ao machismo e à homofobia é um dever de toda a sociedade, não só de mulheres e LGBTs).
Minha identidade racial agora é uma que eu percebi que venho adotando faz tempo: mais ou menos branca. Talvez um dia, quando ninguém estiver olhando (no Censo do IBGE, por exemplo, ou quando eu não tiver mais blog), eu seja realmente audaz e me diga mais ou menos preta.   

domingo, 24 de maio de 2015

CLARO QUE EXISTEM MULHERES MACHISTAS

No post sobre dois professores que agiram mal, um dos casos era o de um catedrático de Direito da PUC RS que disse que "as leis são como as mulheres, devem ser violadas". O pior é que houve uma manifestação com maioria de alunas mulheres para defendê-lo.
O fato ocasionou uma discussão na caixa de comentários sobre se existem ou não mulheres machistas, ou apenas validadoras do machismo, ou apenas vítimas do machismo, ou apenas mulheres que internalizaram e reproduzem o machismo. Acompanhe aqui os melhores momentos:

"Me desculpem, mas mulher que chama a outra de 'vagabundinha' não precisa de 'acolhimento' e 'educação' merda nenhuma." (Raven)

"Esse papo de que não existe mulher machista já deu né? 
Gostaria que me explicassem como as moças que defenderam o professor, a ponto de pateticamente terem adotado bigodes fakes e criado a #somostodosAzambuja são vítimas e estão 'apenas' reproduzindo o machismo por serem pobres almas desavisadas. 
Eu entrei no evento para ver qual era e me deparei com uma série de moças brancas, bonitas, no padrão de beleza vigente, inteligentes, e que cursam uma faculdade particular de direito.
Vi essas mesmas moças silenciando várias garotas que aderiram ao protesto contra o professor e desqualificando as denúncias dizendo que 'era coisa de quem não tinha prestado atenção na aula'. 
Vi as mesmas garotas deixarem homens me atacarem (coisa do tipo como você é advogada e escreve errado na internet hahaha). 
Então desculpa, mas as moças aí não são vítimas do machismo, são a causa do dito. São as modelos do patriarcado que servem para homens dizerem 'viu, se elas não se importam, vocês também não deveriam se importar'". (Samantha)

"As moças são também vítimas, elas estão numa Síndrome de Estolcomo pensando que ficar do lado do opressor será menos pior; algumas mulheres acham melhor ficar ao lado dos homens se auto oprimindo ao invés de se ajudarem." (D Stoffel)

"Bom, já expressei meu incômodo com isso de 'mulher machista' vs. 'mulher que reproduz machismo'. 
Compreendo que todas, cedo ou tarde, vão ser massacradas pelo machismo. O que essas mulheres fazem é dar um tiro de morteiro no pé. 
Mas de 'boinha' -- elas não merecem chazinho (só se for de cicuta, como disse a Raven) nem abraço. Tomar esse tipo de atitude é ser condescendente com o mal que elas causam. O machismo delas é tão destrutivo quanto o machismo vindo dos homens.
Além do mais, é muito fácil falar em abraços quando não se foi/é vítima por anos a fio de uma machista." (Jane Doe)

"'Ah para né! Pra mim essa papinho de 'mulher só reproduz o machismo' é só conversinha pra tirar o delas da reta'.
Então me explique como uma 'mulher machista' se beneficia de alguma forma com o machismo?
É como um negro achando que tem benefício com a escravidão, e servindo de 'capitão do mato' para o seu 'dono', que jamais vai vê-lo como um igual, mas sim como um inferior útil.
O feminismo deve sim procurar abrir os olhos dessas mulheres, e não julga-las, 'pondo o delas na reta', seja lá o que isto queira dizer.
Enquanto nos dividimos em 'mulheres machistas' e 'mulheres não machistas', os verdadeiros inimigos machistas se beneficiam de nossa divisão, nos iludem com bobagens românticas heteronormativas. 
Devemos unir esforços para desconstruí-los, e como biologicamente não podemos deixar de co-exitir com eles, pelo menos, podemos torná-los mais humanos". (Anon)

"Anon, esse argumento de 'não existe mulher machista porque ela não se beneficia do machismo' não é bom. Primeiro que vc não precisa se beneficiar de algo pra ser algo. Muita gente é e faz coisas que vão contra elas mesmas por ignorância. Segundo que há, sim, mulheres que se beneficiam do machismo. Uma mulher que quer ser avaliada apenas pela sua aparência, por exemplo, poderia estar se beneficiando do machismo, pelo menos a curto prazo. 
Temos que combater sistemas -- machismo, racismo, homofobia, transfobia --, não pessoas. E não há divisão entre mulheres machistas e não machistas. As mulheres são 'divididas' em várias outras categorias. E, pra uma corrente que diz que 'não se deve julgar mulheres', o que mais vejo feministas radicais fazendo é julgando mulheres (e homens também). E não estou só falando de mulheres trans..." (euzinha)

"Sobre dividir mulheres em machistas/não machistas, só penso o seguinte:
Eu sei que tem muita mulher que fala/faz bosta machista. Mas enquanto outras ficam apontando que 'tem mulher tão machista quanto homem', os homens em geral passam pano pra todas as merdas que os outros fazem/falam. Isso pelo menos a gente tinha que aprender com eles.
Não acho que essas moças aí do protesto a favor do professor merecem chazinho e abraço, mas nem perderia tempo brigando com elas por causa do machismo, porque eventualmente mulher se ferra só por ser mulher, machista ou não. Quer aprender sobre feminismo ok, não quer, eu sigo em frente. Mas eu não aponto o dedo pra mulher porque acho que estamos todas no mesmo barco, no fim das contas. 
E só para esclarecer, não estou aplaudindo o machismo vindo das mulheres, só acho que se for pra brigar, melhor brigar com quem me oprime. Novamente: isso vale para mim, não estou querendo mandar no comportamento de ninguém." (Bizzys)

"'É muito fácil falar em abraços quando não se foi/é vítima por anos a fio de uma machista.'
Que frase...QUE FRASE. Se alguém aqui ainda acredita nessa lenga-lenga de 'mulher só reproduz machismo', essa frase pra mim já exemplifica muita coisa." (B.)

sábado, 23 de maio de 2015

HINO MACHISTA NOS JOGOS UNIVERSITÁRIOS, AGORA TAMBÉM NO NORDESTE

Uma aluna da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco, que tem campi em três Estados: Pernambuco, Bahia e Piauí) me mandou este email ontem:

Sou aluna do curso de Psicologia da Univasf e o que relatarei agora é a história contada pela minha perspectiva. Peço para que investiguem e noticiem o ocorrido no intuito de pressionar a minha universidade a tomar as devidas medidas, bem como o Ministério Público, que já foi acionado por mim e outras colegas, mas que ainda não se manifestou.
Na penúltima sexta-feira, na abertura dos jogos estudantis da Univasf, membros da Atlética de Medicina, vestidos com as cores dessa organização, distribuíram hinos machistas e violentos e os cantaram com o acompanhamento de um grupo de percussão, direcionando o hino para o curso adversário. 
Letra inteira. Clique p/ampliar
As letras falavam que as meninas do curso adversário eram “fodidas” pelos futuros médicos e tinham bigodes e corrimento -- uma agressão violenta e ofensiva, além de desnecessária. 
O fato rapidamente causou imensa indignação no Facebook, em especial na página Grande Família Univasf, mas em reunião do Diretório Acadêmico de Medicina, aberta apenas aos alunos do curso, houve a decisão de não identificar os responsáveis da Atlética (cujos membros são parte do próprio Diretório Acadêmico) e a exigência de um pedido de desculpas aos que relacionaram a própria Atlética com o ocorrido nas redes sociais.
Embora o reitor tenha afirmado que iria averiguar o assunto, o coordenador do curso não se posicionou oficialmente sobre o ocorrido. Até agora nenhum responsável foi identificado. A impunidade hoje alcança uma semana, com deboches nas redes sociais pelos membros da Atlética. 
Enfim, como mulher, me sinto extremamente humilhada, sobretudo pela falta de ação dos que poderiam identificar (ou já sabem quem são, no caso do DA) os culpados e garantir o fim dessa agressão. Envio o hino e uma pequena matéria sobre o assunto, talvez a única que tenha sido escrita. Este caso precisa de repercussão.

Meu comentário: Hinos machistas, racistas e homofóbicos são comuns em jogos universitários do sul e sudeste, onde os trotes costumam ser muito mais violentos e humilhantes que em outras regiões no país. Sabemos que em alguns estados essa cultura da humilhação é mais frequente que em outros. E também sabemos que alguns cursos, quase sempre os mais elitistas, como Medicina, são aqueles que mais "capricham" na violência. 
Só pra lembrar: ano passado um hino "histórico" da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto só caiu em desuso porque o Coletivo Negro do campus o denunciou. O hino, que era cantado em jogos universitários e festas, falava de "preta imunda" (a letra é esta ao lado). O grupo responsável pelo hino se justificou: não era racismo, era tradição. Era um hino dos tempos em que "racismo e preconceito eram comportamentos corriqueiros". 
Porque deixaram de ser, né? Não tem mais isso.
Óbvio que ainda existe muito preconceito nas universidades do Norte, Centro-Oeste e Nordeste, mas os trotes violentos, que causam mortes e estupros (tantos que a Câmara de SP dedicou uma CPI aos casos), não são frequentes. E não os queremos nas nossas universidades. Por isso, é preocupante e lamentável que uma atlética, criada para organizar jogos e atividades esportivas, ache que seu dever é compor, cantar e espalhar hinos misóginos. 
O Núcleo da Marcha Mundial das Mulheres Sertão lançou uma excelente nota de repúdio ao hino. Pra piorar ainda mais a situação, o mesmo campus da Univasf em Petrolina, PE, foi palco de um feminicídio há três semanas. Rosilene Rio, uma estudante de enfermagem, foi morta a facadas pelo ex-companheiro no horário de almoço dentro do restaurante universitário. Diz a nota do núcleo:
Leia a nota inteira aqui.

Em fevereiro, o Mulheres do Sertão já tinha organizado um ato contra a violência. Uma professora de enfermagem da Univasf, também em Petrolina, foi brutalmente agredida pelo ex-namorado na própria casa, na frente de sua filha de 6 anos.
Enquanto mulheres lutam para combater a violência machista que mutila e mata, um grupo de estudantes acha graça em entoar cantorias que dizem "Fudendo com as putas e quebrando os cuzão! É Med!" E tudo em nome da "integração". 
Temos que ser intolerantes mesmo com essa misoginia: não passarão!