quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A ANÁLISE POLÍTICA AFIADA DE CIRO GOMES

Ontem fui na Adufc (sindicato dos docentes da UFC) e vi um cartaz mostrando que duas horas depois haveria uma palestra de Ciro Gomes na Faculdade de Direito. 
Homem fiscalizando
feminista (clique
para ampliar)
Chamei o maridão pra ir, coloquei no Twitter, e lá fomos nós. O auditório esteve longe de lotar, mas foi uma excelente análise da atual conjuntura política. Quando voltei pra casa, vi que algumas pessoas tinham mandado tuítes criticando Ciro por apoiar Pedro Paulo, o espancador da esposa e candidato a prefeito no Rio pelo PMDB. E, pior: me criticando por ter ido ver uma palestra de um cara que apoia espancador! Como se ir a uma palestra de alguém configurasse apoio, ou como se tudo que uma feminista faz fosse feminista... Confiscaram minha carteirinha feminista porque assisti a uma palestra que não tinha nada a ver com feminismo -- essa é nova!
Eu nunca gostei do Ciro. Em 2002, quando ele era um candidato muito bem colocado à presidência (foi o terceiro mais votado), escrevi um texto comparando-o a Collor. Com os anos, passei a desgostar menos dele (admito que o "debate" em que ele massacrou Constantino contribuiu). Mas eu teria sérias dificuldades em votar no Ciro, até porque o governo de seu irmão Cid mandou a polícia bater em professores no Ceará. Além disso, o partido onde Ciro se encontra atualmente, o PDT, deixou de ser sério depois que Brizola morreu.
Mas não gostar ou não votar no Ciro não quer dizer que eu não vou ouvir o que ele tem a dizer sobre algo que ele conhece muito bem: a política. Ele tem 36 anos de vida pública, foi candidato a presidente duas vezes, provavelmente será em 2018, já foi deputado, prefeito, governador, ministro. E é conhecido por falar o que pensa, sem grandes rodeios. Aí ele palestra na minha universidade (que foi também onde ele se formou). É claro que eu quero saber o que ele tem a dizer da crise política do Brasil!
Sua fala ontem teve quase duas horas e meia, e você pode vê-la na íntegra aqui (começa após o 11o minuto). Eu passei a madrugada toda transcrevendo os momentos mais interessantes pra você. E concordo com boa parte do que ele diz. 

Ciro Gomes sobre a desvalorização cambial e FHC: Nas eleições de 1998 FHC manipulou a grande mídia, não teve um único debate, o Lula passava longe de saber do que se tratava o assunto. FHC tomou posse em 99, desvalorizou o câmbio, apresentou-se uma alta de preços, meteu taxa de juros violenta em cima, veio a recessão, veio o desemprego, veio a desmoralização precoce do governo Fernando Henrique, e o Lula, e o PT, apresentaram pedido de impeachment. E quem recebeu o pedido de impeachment -- eu me odeio -- foi o Michel Temer, então presidente da Câmara. [risos do público] 
Não, me odeio porque o Lula colocou esse cara na vice-presidência do Brasil. Veja se pode a história brasileira como é. E eu disse 'Lula, não faça isso, impeachment pra governo ruim não é remédio, isso é golpe. Amanhã um de nós tá no poder e eles vão fazer conosco exatamente a mesma coisa. Não tem erro, não sei quê e tal.' [Imitando Lula:] 'Ah besteira, tu fica aí com tuas tucanagens'. Tudo bem. Eu já nem era mais tucano naquela data. Já tinha rompido, há bastante tempo. Tava no PPS -- que também virou [balaio ou pá lá? Não sei o que ele falou. Se foi pá lá, pode ser redução de palavrão], né? Com todo respeito, se houver algum presente, que são nossos aliados aqui [no Ceará], preciso me aquietar.

Sobre o que vem junto com o golpe: Essa emenda à Constituição, que revoga a Constituição de 88, que já está no Congresso, é uma concretude, nosso povo não quis se levantar contra o golpe porque tem mil razões pra estar decepcionado com o governo Dilma -- eu também sou muito decepcionado. Mas pra nós que temos três refeições no bucho é muito fácil sair pra rua defender a democracia em abstrato. O nosso povo não, não quis sair. Mas agora vem concretudes. 
A mais grave não é essa ainda, mas essa já começa. Uma emenda à Constituição pretende, dentro da "lógica" de botar a vida do brasileiro no piloto automático e inutilizar a política, e os conflitos, os fatos, os entendimentos, e as coisas que botam o país pra frente, eles querem tabelar o gasto primário, ou seja, o gasto com universidade, o gasto com saúde, o gasto com previdência, que são essenciais, fora de qualquer controle ou regulação ou tabelamento, os juros -- a despesa mais imoral e mais volumosa, que está drenando o país, que é juro pra dívida.
Pior: sem eleição, sem plebiscito, sem referendo, sem entendimento, sem explicação, sem informação, fazê-lo por 20 anos. Segundo: desonerar os custos do trabalho, deixa o juro como está, e avança para desonerar o trabalho. Tão querendo criar em Brasília o acordo prevalecer sobre o legislado, em matéria de legislação de proteção ao trabalho. 
No momento em que o desemprego saltou, que parte importante do sindicalismo brasileiro se vendeu, nós vamos entregar às raposas o direito de fazer um acordo com o franguinho, botando no acordo o fim do 13o salário, o fim das férias, o fim da licença maternidade.

O mais interessante está na parte das perguntas do público, a partir da primeira hora do vídeo.

Sobre a Venezuela: O Brasil está mandatado pra fomentar um golpe de Estado na Venezuela e encerrar o regime do Maduro. Então o Serra, por exemplo, tá numa pressa, já hostilizou a Venezuela. Só pra vocês terem uma ideia, a Venezuela, dois anos atrás, deu 5 bilhões de dólares de superavit em favor do Brasil, ou seja, a Venezuela dá um dos maiores superavits ao Brasil de todo o mundo, e esses canalhas assumem com a tarefa claramente mandatada pelo centro do imperialismo para desestabilizar e derrubar o regime venezuelano. Tentaram comprar -- é um negócio de cinema isso -- o chanceler do Uruguai que escandalizou, pra fazer esse esforço de isolamento da Venezuela.

Um rapaz perguntou se, na vacância da presidência em 2017, seja pelo impedimento do Temer ou por decisão do TSE, o Aécio poderia vir a ser presidente. Ciro respondeu: Sim, eu tô achando que é isso que inclusive vai acontecer. Eu acho que o TSE vai cassar a chapa porque o Michel Temer não vai cumprir essas três grandes tarefas. Nenhum grupo de interesse aqui é a favor do Michel Temer, ele era um trambolho que tava no caminho do golpe, e aí acertou-se com os interesses golpistas mas tá enganando, ou não está conseguindo ou não vai conseguir entregar, e aí você já tem remarcado pro fim do ano, porque se o TSE fizesse agora, o povo seria chamado a uma eleição direta. Completando o segundo ano, a partir de dezembro, a eleição é indireta pelo Congresso, e o Congresso pode escolher qualquer um, membro ou não do Congresso. Mas não será o Aécio, em nenhuma circunstância. Esse é outro pato que ficou no caminho.

Sobre universidades: Não terão coragem ou energia política de propor a privatização das universidades, não há a menor chance de propor isso, mas vão introduzir crescente oneração, começando pelas pós-graduações, que já está proposto, e também a oneração de serviços. Mas à medida em que você constrange as universidades, elas entram em greve, comprometem o ano letivo, o que eles estarão fazendo? O que o Fernando Henrique fez: privatizar a demanda. Deixa a universidade federal se acabando, e reforça, facilita, os grandes conglomerados de educação privada.

Ciro ao ser perguntado o que realmente
acha da escola austríaca
Sobre os ideais da escola austríaca de economia: Quando Keynes teve um debate com Hayek, o mundo tinha perplexidades, hoje em dia a nossa inteligência pode observar as coisas. O laissez faire, a ideia liberal, nunca jamais foi aplicada em tempo algum. Jamais produziu êxito civilizatório em lugar algum.

Sobre Constantino: O tal Constantino, que eu não sabia quem era, ficou me odiando pro resto da vida porque eu me impacientei com ele, não tive as manhas: 'meu irmãozinho, tenha calma, não é bem assim e tal'. [Minha observação: sempre que há debate, os reaças dizem que o lado deles foi vencedor, mesmo em casos óbvios em que a adversária destrói a reaça. Mas no debate entre Ciro e Constantino, nunca vi um só reaça dizer que Constantino ganhou. Nem que foi empate. É unânime que Constantino foi humilhado para sempre].

Sobre os "crimes" de Lula e o que é corrupção: Eu sou professor de direito, crime não tem. Ele não é proprietário do triplex, ele não é proprietário do sítio, e eu tenho dito, pra completar, aí já é um juízo político, que o presidente do Brasil, se for corrupto, o sintoma não é um triplex cafona numa praia cafona de SP. Não é mesmo. Uma informação privilegiada que o Fernando Henrique distribuiu na véspera da virada do câmbio em 99 passou aos bancos privados nacionais e estrangeiros localizados no Brasil 16 bilhões de dólares. Uma noite, uma informação privilegiada. Esse é o tamanho de quem é corrupto no Brasil, não é triplex cafona numa praia cafona.

Sobre como o impeachment é golpe: Nós estamos vivendo um golpe de Estado. Não deve remanescer nenhuma dúvida em nenhum de nós, por mais que a gente possa não gostar do governo Dilma -- e acreditem, eu considero o governo Dilma praticamente indefensável por vários argumentos, há anos tenho sido eleitor dela, militante, aliado, e até o momento tô lutando, mas nós estamos sofrendo um golpe de Estado porque não há crime de responsabilidade. Pedalada fiscal, que é uma gíria que a imprensa criou, significa uma manipulação do orçamento para coisas que a vida inteira foram feitas. Algumas delas não há como não fazer.

Sobre como o mundo vê o impeachment: O mundo inteiro afirma que está acontecendo um golpe no Brasil. Eu acabei de fazer palestras no MIT, em Harvard, em Washington, num think tank, é absolutamente unânime na Europa, nos Estados Unidos, na China, o reconhecimento de que há um golpe de Estado no Brasil. Se alguém duvida, vejam a reação dos chefes de Estado. Nas últimas cinco Olimpíadas, houve uma média de 110 a 120 chefes de Estado presentes nas cidades-sede. Aqui no Brasil, nem um pediu audiência com o Michel Temer. Nem unzinho sequer. O Barack Obama até agora não deu uma ligação pra ele. O Macri, que é um reaça argentino, não veio.

Sobre a imprensa brasileira: O que se chama imprensa nacional no Brasil é um ajuntamento nepotista de cinco famílias. Cinco famílias: são os Civita [Abril], os Frias [Folha], os Mesquita [Estadão], os Marinho [Globo], e os Saad [Bandeirantes].

Sobre Marina: Não adianta botar a Marina lá, porque a corrupção é endêmica. [Quando os dois eram ministros no governo Lula]: Eu gosto dela, ela gosta de mim. [...] O Lula chama: 'Ciro, a Marina tá querendo conversar de novo'. E vamos conversar. Aí chega lá, senta, e tem uma garotada sentada ali, e eu já digo: isso é arrumação nova. Você precisa saber a razão, tem que puxar a Marina pra isso. Ela é do bem. Aí a Marina diz assim: 'presidente, esse projeto [da transposição do Rio São Francisco] é muito complexo'. Mas Marina, faz 3 anos! 'Não, olha, eu sei que você teve paciência, eu sei que você fez tudo direitinho, mas esse pessoal aqui chegou e tá me dizendo que não tem estudos relativos a ictiofauna'. 
Eu nunca tinha ouvido falar nessa expressão. Aí eu: 'O quê, Marina?' 'Ictiofauna'. 'Que diabo é isso, Marina?' 'É dos peixes, a fauna dos peixes'. 'Sim, qual é o problema da ictiofauna, Marina?' Ela diz: 'Não, não tem nenhum estudo no projeto que entenda a contaminação do encontro dos peixes da bacia com o encontro dos peixes da bacia...' -- eu não acredito nisso -- 'na bacia receptora'. Aí eu perdi a calma e disse: 'Mas Marina, o Nordeste morrendo de sede, Fortaleza na iminência do colapso do abastecimento de água, Campina Grande já está em colapso, e você chama outra reunião, três anos depois, pra discutir suruba de peixe?'

Sobre o maior erro de Dilma: Eu sou professor de Direito Constitucional, e vou bancar o risco de falar isso aqui: a Dilma fez talvez uma das maiores bobagens que um político poderia fazer -- nomear Lula ministro. Porque pareceu, e não tem quem diga que não é, que ela queria subtrair o Lula de um juiz severo, pra homiziá-lo na impunidade do Supremo. Ou seja, a primeira consequência é constranger o Supremo de uma forma absolutamente indicativa de que o Supremo iria fazer alguma retaliação ou não, o fato é que era o primeiro erro. Mas o mais grave, que precipitou o impeachment, foi a desconstituição do resto da autoridade da Dilma. O quê que ela bota o Lula pra fazer que ela não poderia fazer?

Sobre quem seria seu vice e sua candidatura: Não é hora de pensar em vice, nem sequer sei se serei candidato mesmo. Eu aceitei a ideia e a convocação do partido porque isso me dá audiência para enfrentar o golpe, pra defender a democracia, tô rodando o país, eu pedi demissão do meu emprego -- eu me odeio [risos do público] -- enfim. E tô aí na batalha. A candidatura, entretanto, tem que ter uma certa naturalidade -- quem tá falando é quem já foi candidato duas vezes. [...] 
Pra resistir a essa onda de violência contra a nação brasileira, contra os trabalhadores, contra a classe média que tá vindo aí, nós temos cem deputados em quinhentos. Forçando a mão e botando a Marina e a Rede no campo progressista, nós temos cinco partidos com cem deputados contra 400 deles. Esses 5 partidos têm 4 candidatos à presidência da República. Isto é uma farsa, uma irresponsabilidade com o país, e eu não pretendo participar dela. Desses 5 partidos -- Rede, a Marina, o PSOL tem candidato, naturalmente, o PDT quer que eu seja candidato, e o... [alguém na plateia o lembra] PT, o Lula, etc. Só o PCdoB não tem candidato. Eu vou forçar a mão pra que a gente construa um projeto.
Momento ato-falho em que Ciro
esquece que o PT existe
[Sobre ter Lula de vice]: O Lula é muito maior do que eu. Não é razoável, nem humilde, que eu vá pretender que o Lula seja meu vice, como também não serei dele, porque eu acho que o Lula nesse momento tem um papel a cumprir: dar passagem a uma coisa nova e ajudar o país a se reconciliar. Se ficar ele candidato, ele estressa todo o processo, pode até ganhar, mas o país vai ficar num clima de confrontação pra não se superar nunca mais. 

Minha pergunta foi lida no final, no minuto 2:11:30, por aí. Eu pedi pro Ciro fazer um exercício de futurologia e falar sobre os próximos anos. Ele respondeu (a partir de 2:14:00): Eu acho que o Michel Temer vai trair esses grandes interesses que fizeram o golpe e que é muito possível que o Gilmar Mendes coloque em pauta depois de dezembro a anulação da chapa por razões eleitorais. Então o 'Fora Temer' precisa ser mantido aceso, forte e firme. Feitas as eleições indiretas, haverá um grande confronto porque quem é orgânico a esses interesses estrangeiros e aos interesses plutocratas é o PSDB hoje. 
Então haverá provavelmente um grande confronto dentro do Congresso entre um PSDB "déspota esclarecido", alinhado com os interesses reais da plutocracia internacional e local, versus esse Brasil tropical, Macunaíma, desses velho deputados -- não acho que o PSDB saia vitorioso disso, essa anarquia fisiológica, clientelista, tende a ser vitoriosa, o que nos aponta para um cenário muito ruim pro Brasil nos próximos 24 meses e isso aponta para um cenário de eleição parecida com o de 89. [...] 
Vamos supor que o Lula não seja candidato. Haverá cinco candidatos com capacidade de competir: a Marina, o PSDB vai implodir, porque o Aécio tá sendo passado pra trás pelos dois paulistas, o Alckmin e o Serra estão em franca briga, o Serra, por exemplo, tá apoiando a Marta Suplicy do PMDB em SP, contra o Alckmin que tem um candidato inacreditável, o João Dória. Depois diz que o Nordeste não sabe votar. Primeiro lugar na pesquisa é o Russomanno, segundo lugar é a Marta, terceiro lugar é o João Dória, e nós é que não sabemos votar aqui no Nordeste, é como diz a Suzana Vieira, tadinha. Então você tem os três tucanos que vão implodir o PSDB, a Marina, eu, pelo PDT, e o Bolsonaro. 

Sobre Bolsonaro: Neste momento, eu acho que o Bolsonaro está prestando um bom serviço ao país. Ele é um horror, o discurso dele é ainda pior, porém este pensar existe. O mais grave, o mais problemático deste pensar que existe é a clandestinidade, é votar escondido por detrás do PSDB, é se esconder entre os evangélicos, os neo-pentecostais. Na medida em que ele encarna, explicita e qualifica a discussão que bandido bom é bandido morto, que mulher tem que ganhar menos porque engravida, que se eu tivesse um filho gay eu matava ele de porrada etc etc, ele vai qualificando o gueto desse pensamento reacionário e isso descomprime o voto que tava por pragmatismo e anti-petismo votando lá no PSDB. Isso então neste momento ajuda. Eu acho que o Brasil engole esta fruta e cospe o caroço sem problema. 

Sobre Lula e o PT: O Lula não será preso, na minha opinião, porque não há nada, daquilo tudo que se conhece presentemente, nada que juridicamente o inculpe. Eu considero que o Lula fez erros intoleráveis, concessões absolutamente intoleráveis pra quem é do nosso lado, sabe, começou a brincar de deus, e fazer e acontecer, e gostar de festa, mas nada disso é crime sob o ponto de vista do direito. 
Eu tô falando como bacharel de direito, analisei o assunto todo, a pedido dele, inclusive. Então não acho que ele será preso nem que o PT será excluído do processo eleitoral. O PT vai purgar, vai purgar merecidamente em parte por seus equívocos, mas acho que continuará a ser um partido importante pra democracia brasileira. 

GUEST POST: A FALTA QUE FAZ O ESPORTE FEMININO NA TV

Allan Patrick é um leitor antigo do blog que eu considero meu amigo. Além de colaborador frequente do blog, ele é auditor fiscal da Receita Federal. 

Há dois anos faleceu o locutor esportivo Luciano do Valle. Depois que ele saiu da Globo ao final da Copa do Mundo de 1982 foi trabalhar em outras emissoras, sendo hoje em dia mais conhecido pelo período que esteve na Band, desde a segunda metade dos anos 1980 até quando veio a falecer em 2014.
O que há de tão especial em sua carreira profissional? Quem acompanha o twitter da Lola sabe que frequentemente, em especial em época de Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos, surgem debates sobre questões de gênero no esporte. Quando falamos de futebol feminino, de esportes que só tem visibilidade no período olímpico ou da ausência de narradoras de futebol na TV, em todas essas ocasiões costuma vir ao debate o nome de Luciano do Valle.
Por que isso? Durante a segunda metade dos anos 1980 e todos os anos 1990, quando a TV por assinatura era uma raridade no país ou extremamente cara e a TV aberta era dominada, a Band cavou um espaço no mercado publicitário, "O Canal do Esporte". Transmitia várias competições esportivas famosas em sinal aberto, como a NBA nos tempos em que Michael Jordan e o Chicago Bulls venceram vários campeonatos, chegando ao extremo de ter uma programação dominical quase exclusivamente dedicada ao esporte, com 10 horas de transmissão.
Pois bem, embora essa abordagem tenha garantido um nicho confortável à emissora (especialmente se comparamos com sua situação de penúria atual, com boa parte da programação alugada a igrejas pentecostais; os programas minimamente interessantes, como o MasterChef, são exibidos em horários proibitivos), a marca do "canal do esporte" implicava entretanto num grave problema para uma emissora que à época tinha a ambição de ir além: na hora de comercializar publicidade, grande parte dos anunciantes não demonstravam interesse numa emissora com um perfil de audiência muito masculino.
O esporte feminino como estratégia de sair do impasse publicitário
Todo mundo deve conhecer a anedota dos vendedores de sapato que chegaram numa cidade onde todo mundo andava descalço. Enquanto um deles estava certo de que iria à falência, o outro via naquela situação uma oportunidade única.
Foi assim que Luciano do Valle (que era muito mais do que um simples narrador de eventos esportivos, tendo grande influência nos rumos da emissora) enxergou a situação como uma oportunidade, e a emissora teve um grande papel no estímulo à transmissão de esportes femininos.
Foi na Band que o Brasil pôde ver Marta e Hortência serem campeãs mundiais de basquete feminino em 1994 (quantas leitoras e leitores sabiam que o país já havia sido campeão mundial em basquete feminino?).
O vôlei feminino, numa época em que ainda não havia ganho nenhuma medalha ou título de Grand Prix, tinha espaço também na programação da emissora.
A emissora transmitiu a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1995. Se o esporte sofre com a falta de condições hoje, que o Brasil rotineiramente chega às semi-finais, imagine transmitir esse campeonato em TV aberta comercial num tempo em que o Brasil ficava em último lugar do seu grupo na primeira fase!
Na mesma época, também tentou emplacar uma narradora para as transmissões de futebol. 
Legado
Qual o legado dessas iniciativas? O fato de não terem se perenizado indica que fracassaram? Provaram que ninguém quer saber de esporte feminino?
Se há uma característica do capitalismo que não é posta em prática no Brasil é tal da livre concorrência. A Globo entendeu perfeitamente o risco que o sucesso do esporte feminino poderia representar, abrindo a possibilidade de que sua concorrente deixasse o nicho publicitário e disputasse anunciantes de maior qualidade. Impôs então um apagão noticioso na área. 
Eu lembro bem porque na época era adolescente e 1994 foi um ano marcante pra mim (entrei na faculdade e vi o Brasil ganhar uma Copa do Mundo de futebol masculino após 24 anos de jejum). A repercussão de ser campeão mundial em basquete feminino na Globo e demais emissoras de TV aberta foi ZERO. Nem uma notinha no Jornal Nacional. Tampouco a mídia impressa, como a Folha de S. Paulo (meu pai era assinante na época), fez mais do que minúsculas matérias protocolares.
O basquete feminino era tão desimportante assim? Então porque até hoje Paula e Hortência, as estrelas daquela equipe, ainda têm destaque nos quadros das emissoras de TV quando há Jogos Olímpicos? Paula, inclusive, chegou a ser comentarista na TNT das finais da NBA (liga profissional de basquete masculino dos EUA) até bem pouco tempo (saiu porque a TNT não transmite mais NBA no Brasil).
No caso dos esportes que conseguiram romper o cerco rumo a uma maior popularidade, como o vôlei feminino, a Globo foi lá e comprou todos os direitos de transmissão e confinou a modalidade à TV por assinatura.
Conclusões
Atualmente, vivemos o que a Lola já chamou aqui no blog de backlash, uma espécie de volta no tempo em termos de representatividade da mulher, e o espaço para transmissões de esporte feminino na TV aberta é praticamente nenhum. 
Minha geração, apesar de só dispor de 4 ou 5 canais de TV, tinha um acesso razoável a esporte feminino na TV. A atual, para tanto, tem que assinar TV paga e correr atrás de pacotes mais caros que incluam os canais esportivos adequados.
A TV Brasil até que tenta furar o cerco e, desde o ano passado, transmite o campeonato de futebol feminino. Mas as iniciativas da TV pública (ainda mais o campeonato sendo patrocinado por um banco também público, a Caixa) entram imediatamente no index prohibitorum do que a mídia se nega terminantemente a repercutir. E o governo golpista já tem planos de simplesmente acabar com a existência da TV Brasil.
Enfim, as mulheres querem praticar esporte, querem ver mulheres praticando esporte, mas as forças contrárias ao "livre mercado" continuam sabotando as iniciativas de criação de espaços de representatividade da mulher.
P.S.: Me permite um pequeno off-topic com gancho nas Olimpíadas? Lembra quando queriam (aliás, ainda querem) esfolar o Lula por promover empresas brasileiras no exterior? Aí o que faz o Primeiro Ministro do Japão na Cerimônia de Encerramento das Olimpíadas? Se fantasia com as vestimentas de um personagem de videogame de uma empresa japonesa! Não lembro de ninguém na mídia ou nas redes sociais propondo a prisão dele.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

R$ 5 PRA VOCÊ ENTENDER O QUE É ESTUPRO

Uma jovem africana/indiana chamada Nafisa Ahmed escreveu esses dias uma série de tuítes em inglês que talvez ajudem aqueles mais tapadinhos a entender o que é consentimento e estupro. 
Ela usa uma comparação que muitos dos tapadinhos adotam ("você vai a uma favela de Rolex e não espera ser assaltado?") -- dinheiro. Vou traduzir seus tuítes. Prestem atenção:

Não entendo como estupro é tão difícil de entender para alguns homens. Mas, se você põe as coisas dessa forma, eles entendem:
Se você me pede R$ 5 e eu estou bêbada demais para dizer sim ou não, não é legal tirar R$ 5 da minha bolsa... só porque eu não disse não.
Se você põe uma arma na minha cabeça para me obrigar a te dar R$ 5, você ainda roubou R$ 5. Mesmo que eu fisicamente te dei os R$ 5.
Se vc pega R$ 5 emprestados de mim, isso não dá ao seu amigo o direito de tirar R$ 5 da minha bolsa. "Mas vc deu pra ele, por que não pra mim?"
Se você rouba R$ 5 e eu não posso provar isso num tribunal, isso não significa que vc NÃO roubou R$ 5.
Só porque eu te dei R$ 5 no passado não quer dizer que devo te dar R$ 5 no futuro.
Se você consegue entender TUDO isso, como você não entende o conceito de estupro?