domingo, 30 de agosto de 2015

BEIJING NO OMBRO

Lolinha em frente ao Cubo Aquático em Pequim (clique p/ampliar)

Como vocês sabem, entre os dias 4 e 25 de julho estive na China, numa viagem inesquecível patrocinada pelo Santander Universidades para 24 professores e 76 alunos de universidades brasileiras. 
Eu e alunxs queridos em lanchonete
próxima à Muralha da China
Este é um (outro) email que enviei pro maridão no dia 11 de julho, com esse título mesmo, que ele achou infame. O email é longo, mas vamos ver se eu consigo encontrar várias fotos que me mandaram pra ilustrá-lo.

Oi, minha paixão! Muitas saudades! Ontem não escrevi porque fiquei com preguiça. Nem acessei a internet.
Júlio (UFRPE), Heverson (Unifor) e eu
Anteontem tivemos uma excelente aula de um professor brasileiro, o Júlio, da UFRPE, sobre carnaval e manifestações artísticas do nordeste. Foi muito boa mesmo, ele misturou bem teoria e prática, incluiu vários vídeos curtinhos, chamou seus dois alunos (ele teve sorte do casal de alunos saber dançar) pra dançar forró na frente da turma, e esse casal por sua vez conseguiu chamar um casal de alunos chineses pra aprender a dançar, e todo mundo adorou.
Minha palestra na PKU
Eu fiquei na dúvida se também deveria incluir alguns vídeos na minha apresentação (que sera amanha), mas acho que não sei fazer isso, então... Ai, amor, e se minha aula for uma droga? [Não foi, foi super elogiada!]
Um dos campi da PKU
Anteontem teve a segunda aula de um professor chinês, também excelente. Foi sobre direito na China. Eles parecem ter poucos advogados por aqui, cerca de 300 mil. Prum país tão gigantesco e com 1,4 bi de pessoas, é bem pouquinho.
Também anteontem, depois das aulas, fomos ao show acrobático. Era longe... Mas valeu muitíssimo a pena. É incrível tudo que eles fazem. Coisas realmente perigosas, arriscadas, sem rede de proteção. Fico feliz que ninguém morreu, porque eu não me sentiria bem se alguém morresse pro meu entretenimento. E era uma equipe enorme. Sabe aquilo das motos correndo dentro de um globo? Então, acabaram entrando oito motos. Qualquer errinho e morre todo mundo lá dentro.
As dez moças que se equilibraram em cima de uma bicicleta em movimento também iriam se machucar bastante se caíssem, mas sobreviveriam. O carinha que subia e descia degraus altíssimos com uma só mão não teria a mesma sorte, acho eu.
Só sei que fiquei a apresentação inteira de boca aberta, aplaudindo e gritando, implorando: “Não! Não! Por favor, não façam isso!”.
Depois do show uma turma decidiu ir pra não sei onde. Só sei que ficava muito longe, mais de 4 quilômetros, e o pessoal queria ir andando. Andamos 1,5 km e aí finalmente imperou a voz da razão e pegamos o metrô. Foi minha primeira viagem de metrô na China. É muito bom. Lotado, é claro, mas tudo bem sinalizado e bilíngue. E limpo.
Eu e alguns professores no jantar
num barco
Ah, foi interessante porque dois chineses, Bella e V. (seus nomes ocidentais) nos acompanharam nesse passeio todo. Todo mundo quer sair com alunos chineses pra não se perder. E porque eles são super amáveis. E porque na hora de se comunicar (pedir comida, por exemplo), eles quebram um galhão. Bom, Bella e V. estiveram com a gente em Shanghai e, como eles constantemente andam juntos, todo mundo pensava que eram um casal de namorados. 
Eu tentando imitar (sem
sucesso) o gesto da está-
tua num museu
No começo da nossa longa caminhada Bella não estava junto, então perguntei pro V. porque sua namorada não veio. Ele respondeu que ele não tem namorada e que, na verdade, “he's kind of gay” [ele é meio gay]. Aí eu quis saber, como assim, “kind of”? E ele explicou que nunca tinha ficado com um cara, apesar de se sentir atraído por homens. Falamos um pouco sobre homossexualidade na China. Não existe nenhuma medida punitiva, mas é bastante tabu, segundo ele. Ele disse que muitos gays e lésbicas contam pros seus pais e são aceitos, mas há os que insistem em casamentos de aparência.
Eu e Pablo no Lama
Temple
Quando a gente estava perto do nosso destino final, senti uma poluição horrorosa. Comecei a tossir forte (estou com muita tosse esses dias, acho que foi a chuva que peguei em Shaghai, aliada à poluição), e coloquei a máscara que uma professora tinha me dado. Não sei se ajuda muito, mas fiquei com a máscara quase o tempo todo por lá. Eu me senti um ET. Ah, apareceu num telão a Dilma se reunindo com um monte de políticos chineses. A gente ficou com a impressão que ela estava na China. Depois falaram que ela estava na Rússia.
E chegamos ao grande mercado. É aquele lugar que turistas vão para experimentar comidas nojentas que eles consideram típicas mas que os chineses não comem de jeito nenhum, tipo espetinho de escorpião. Além de ser caro pra caramba (25 yuans cada espetinho, ou 13 reais), é cruel. Antes de ser grelhado, o espetinho fica exposto, com vários escorpiões vivos, empalados, se mexendo, tentando fugir. Um aluno brasileiro comeu, outros experimentaram uma ou outra patinha, e todos tiraram muitas fotos.
Tinha também churrasco grego, panquecas, algo parecido com pinhão, e espetinhos que parecem maçãs do amor, mas com frutinhas muito menores que eu não quis provar.
Eu e turminha amada
numa lanchonete na PKU
E um monte de tendinhas cheias de bugigangas. Acabei comprando mais um monte de coisinha que não preciso, tendo que negociar daquele jeito chinfrim. Os chineses gostam muito do meu dinheiro, amor.
O final da noite foi anticlimático, com um péssimo lanche no KFC [Kentucky Fried Chicken]. É que dois dos alunos brasileiros presentes nunca tinham estado fora do Brasil e portanto nunca tinham comido fast food de frango frito. Tadinho, um deles vai passar um ano estudando no Arizona assim que voltar da China e não sabe que vai se enjoar de KFC e afins por lá.
Comida chinesa é muito melhor!
No estádio olímpico de Pequim
Ontem de manhã teve um evento meio lúdico, meio de atividade física, num dos gramados da universidade (que não tem 2,7 hectares, como te falei; li em outro folheto que são 270 hectares, ou 2,7 mil quilômetros quadrados de campus). Foi divertido. Aprendemos noções básicas de Tai chi Chuan e tivemos que escrever alguns símbolos em chinês com uma caneta gigante. Eu fui a única professora que participei.
Fê, eu e Luã na cerimô-
nia de encerramento
Ontem à tarde, depois de almoçar numa das cantinas da universidade (almôndegas de porco com arroz, muito bom) e trocar mais cem dólares (acho que serão os últimos que trocarei, paixão, ou seja, gastarei uns 400 dólares no total; o consenso por aqui entre os brasileiros é que não compensa comprar eletroeletrônicos, que estão com um preço parecido com o do Brasil; os que estão mais baratos são falsificações), passei a tarde sem fazer nada. Teve um pessoalzinho que me chamou pra ir ao Summer Palace (ex-palácio do imperador), mas eu preferi não ir. Minhas pernas estão cansadas de tanto andar. Ontem meus pés doíam! 
Às 17:30 (aqui se almoça e se janta muito cedo, as cantinas da faculdade fecham às 18:30) nós professores nos reunimos em frente ao prédio 1 (estamos no 9, aqui anda-se muito pra ir a qualquer lugar) para sermos conduzidos a um restaurante no campus, longe pra caramba. E lá foi a Lolinha com seus pés exaustos andar mais um montão. 
Professores na embaixada do Brasil na
China
Foi um jantar de confraternização. Havia alguns (poucos) professores chineses (a maioria está de férias agora). Um deles, que atua na linha de Brazilian Studies, fala português muito bem, passou um ano e meio na UnB e trabalha com literatura comparada. Fiz pra ele a sua pergunta -– se os chineses sabem do poder e da importância que têm -– e ele respondeu sorrindo que sim. “É o nosso marketing,” disse ele.
Pablito e eu na Muralha da China
Ele também disse que a China continua sendo um país comunista, mas só politicamente. Na economia, como sabemos, é capitalista. No campo político, o Partido Comunista daqui tem 87 milhões de membros filiados. Mais que a população total de vários países.
Rindo ao ter que posar
com estátua na PKU
Também conversei com uma professora chinesa e comparamos a situação das mulheres em cada um dos BRICS. Chegamos à conclusão que é pior na Índia. A situação da Rússia também é bastante ruim, pelo que li, inclusive com perseguição política a grupos feministas. E a África do Sul detém o recorde mundial de estupros (com atenção especial ao estupro corretivo de lésbicas). E partes mais distantes da China ainda cometem abortos e infanticídios de meninas. Ou seja, EM COMPARAÇÃO, o Brasil parece não estar tão mal. Essa professora se declarou feminista e disse que estará na minha palestra amanhã. (E sabe que vergonha, amor? Eu não trouxe cartão de visita pra entregar! É verdade o que tinha ouvido: eles entregam o cartão com as duas mãos).
No Museu de Planejamento Urbano,
ainda em Shanghai
Uma executiva do Santander, uma chinesa que mora em Madrid mas visita a China cinco vezes por ano, disse ter a impressão que em países comunistas como a China havia menos desigualdade entre homens e mulheres, pelo menos no mercado de trabalho e no pagamento de salários. Eu disse que várias alunas chinesas contaram ter menos oportunidades de trabalho que seus colegas homens, e ela achou estranho, porque na filial do Santander em Pequim só tem mulheres, segundo ela: “they're all ladies”.
Com alunxs fofos na saída da Cidade
Proibida
Foi um jantar muito bom, naqueles restaurantes com mesa giratória e cheia de pratos. O pato estava excelente. Pato é gostoso, se a gente abstrair e não pensar no pobre bichinho.
Agora estou aqui, domingo de manhã (acordei às 6), escrevendo este email gigantesco pra você. Vou tirar a manhã pra responder emails, coisa que não faço há dias.
Melhor não comentar. Pablo me
força a fazer essas poses. Foi no
Lama Temple, e eu me senti no
Caçadores da Arca Perdida
Talvez fazer um post pro blog pra amanhã. Hoje depois do almoço vamos sair. Mas tenho que revisar minha palestra de amanhã.
O chocolate aqui não é bom, minha paixão.
Queria que você estivesse aqui comigo.  
Te amo, meu lindo!
Da sua Lolinha

sábado, 29 de agosto de 2015

GUEST POST: "NUNCA TIVE A CHANCE DE DAR MEU CONSENTIMENTO"

Recebi este relato da B.: 

Meu nome é B. e acompanho seu blog desde 2012. Foi um marco muito grande na minha vida, no sentido de me descobrir como feminista e de identificação com outras pessoas.
Por isso, pensei em te escrever sobre algo que aconteceu há dois anos na minha vida e que ainda me afeta, na realidade. Fiquei bastante tempo pensando em como escrever esse email. Então, vamos lá.
Era uma vez uma garotinha de 17 anos, uma pessoa alegre, cheia de sonhos, determinada, com alguns objetivos muito bem definidos. Era uma vez eu. Eu queria descobrir o mundo, conhecer outros países, mudar de cidade, fazer uma graduação, um mestrado, um doutorado... Até esse ponto, considero que eu fui muito bem-sucedida na minha "missão". Passei um ano fazendo intercâmbio em um país bem diferente durante o ensino médio, voltei, mudei sozinha pra outra cidade, fiz cursinho e depois de um ano consegui passar numa ótima universidade pública. Tudo ia bem.
Isso era 2013, no meu primeiro semestre de faculdade. Mas aí, durante esse ano, comecei a sentir muitas coisas ruins (angústia, medo, desesperança), que evoluíram para um quadro de depressão grave em 2014. Eu comecei a ter crises de choro inexplicáveis, que pareciam ataques de pânico. O ano de 2014 destruiu aquela pessoinha alegre que eu era: eu me isolei, sair da cama era um esforço tremendo, fiquei agressiva, perdi meus objetivos, me descobri infeliz no curso. Os pontos mais difíceis foram no segundo semestre do ano passado e agora em 2015. Eu pensava em me matar o tempo todo, e cheguei a tentar me cortar três vezes.
O primeiro semestre desse ano foi terrível. Não conseguia mais ir pra faculdade, acabei trancando quase todas as matérias, passava muito tempo dormindo ou só deitada. Passei por várias experiências desagradáveis com psiquiatras/ psicólogos, até que comecei a fazer acompanhamento com uma psicóloga maravilhosa.
Pois bem, depois de toooda essa história... Foi com essa psicóloga que eu consegui investigar melhor o que estava, e ainda está, acontecendo comigo. E o que eu acho mais estranho é que o fato surgiu de uma maneira acidental na conversa. Talvez tenha sido meu inconsciente, não sei. Bem, o que aconteceu foi lá no meu primeiro semestre de faculdade. É bastante comum na universidade acontecerem "happy hours", que são basicamente aquelas festinhas no campus mesmo, no espaço público. 
Em maio de 2013, fui em um desses happy hours com uma colega. Bebi duas cervejas e, não sei porquê, fiquei totalmente alterada. Hoje eu suspeito que tenham colocado alguma coisa na minha bebida. Depois disso eu fiquei fora do ar por umas 3 horas, acho. Só lembro de alguns flashes. Eu mal conseguia ficar em pé, alguém me pegou pela mão, me colocaram dentro de um carro, esse alguém me penetrou, me acharam passando mal no estacionamento. Continuei bem mal até ir embora com essa colega. No dia seguinte, quando eu acordei, isso voltou na minha cabeça e, quando eu fui no banheiro, tinha sangue na minha calcinha. 
Fiquei bem assustada, passei na farmácia e comprei a pílula do dia seguinte. O fim de semana foi horrível, porque eu viajei pra uma formatura e não podia conversar com ninguém. Voltar pra faculdade na segunda foi pior ainda, porque na festa meus colegas de curso simplesmente estavam achando muito engraçado meu estado, e eu não fazia ideia de quem fez aquilo. Eu "resolvi" que não ia deixar isso me afetar; decidi na minha cabeça que eu tinha transado com um desconhecido e era isso.
Sabe, Lola, até hoje, depois de muito e muito trabalho, ainda me questiono se isso foi um abuso. Mas quando essa pessoa passou e me puxou, eu nunca tive a chance de dar meu consentimento. Eu não tinha capacidade nem de lembrar meu nome. E hoje eu entendo que apesar da "decisão" que eu tinha tomado, de não deixar isso me afetar, o que aconteceu mexeu muito com a minha cabeça. Meu estado de negação fez com que meu choque voltasse das formas que te contei ali em cima. 
A forma como eu passei a me relacionar com homens também mudou completamente; durante esses dois anos, eu quase não disse "não" pra sexo. Hoje posso afirmar que não queria de fato ter estado com 80% das pessoas com quem estive. As coisas se tornaram muito mais uma questão de "tá, vai logo" do que realmente vontade. Sem contar que depois disso, comecei a sentir muita dor durante as relações e nunca falava nada. 
Ainda é bastante difícil encarar o que aconteceu. Foi depois que isso surgiu na terapia que eu comecei a melhorar. Estou bem mais saudável do que há alguns meses atrás, e estou começando a me sentir otimista apesar de alguns dias ruins. É engraçado como renomear as coisas muda os efeitos delas sobre a gente. O que eu estou sentindo agora é um misto de medo, desconforto e alívio. 
Eu conheci um cara muito bacana recentemente, que eu sei que me respeita totalmente, mas estou com muito medo de me relacionar com alguém. 
Parece que eu finalmente estou voltando a ter consciência do que eu sinto e retomando minha capacidade de agir sobre isso, depois de muito tempo apática. Não sei como vai ser daqui pra frente, mas fico feliz só de eu conseguir pensar em um "pra frente" pra minha vida.  
Ninguém deveria passar por isso, de verdade. Eu tenho chorado por mim e por todas as mulheres que sentiram isso, e espero que todas recebam a ajuda necessária pra superar. Acho que a gente nunca volta a ser quem era antes, mas isso talvez seja simplesmente relacionada a mudanças na vida.
Bem, Lola, era isso... Desculpa pelo tamanho do texto e se eu tiver gastado muito do seu tempo. Mas senti que seria bom te escrever. Seu blog é um dos únicos lugares em que eu sinto que há espaço para tolerância e não a propagação desse ódio tão característico dos movimentos atuais.

Meus comentários: Que horror, B. Espero que você hoje tenha consciência de que você foi estuprada. E é definitivamente muito difícil deixar algo assim "pra lá". Sabemos também que é incrivelmente difícil denunciar. Denunciar quem, pra quem? Se até quando uma vítima tem provas ela é desacreditada... E isso segue acontecendo nas universidades (e não só nas brasileiras). E é preciso denunciar, fazer barulho, falar com os coletivos feministas da sua faculdade. 
Porque não é nada aceitável que alguém te leve pra dentro um carro -- te carregue, como você sugere, porque você mal tinha sequer condições de andar --, faça sexo não com você, mas em você, e te deixe no estacionamento. Isso é estupro. E é provável sim que tenham colocado algo na sua cerveja. Se você visse como tem "guias" na internet sobre como dopar meninas e mulheres para depois estuprá-las... 
Admiro sua força e sua decisão consciente de "resolver" que aquilo não iria te afetar. Mas, infelizmente, como você viu, não funciona assim. O trauma permanece, a dor reaparece, o corpo cria mecanismos pra se "desligar", para que você não sinta essa dor... Claro, as pessoas têm maneiras diferentes de lidar com isso, mas uma experiência traumática não é chamada de traumática em vão.
Ainda bem que você está fazendo terapia e que hoje você passa por um novo momento na sua vida. Mesmo assim, querida, você sendo feminista, é bom fazer parte de um coletivo e conversar sobre o que pode ser feito pra que isso que aconteceu com você não aconteça de novo, com outras alunas. Agora que você não está mais apática, talvez ajudando outras colegas você possa se sentir melhor. Fique bem, linda!

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CINCO VEZES LUANA: DOCUMENTÁRIO SOBRE RAPPER FEMINISTA, NEGRA E LÉSBICA

Amanhã é o dia da Visibilidade Lésbica, uma data necessária pra mostrar o óbvio que muita gente ignora: que lésbicas existem e devem ser respeitadas. 
Para comemorar o dia, eu ia falar de algo trágico como estupro corretivo. Este mês, uma repórter me procurou para saber se eu tinha conhecimento de casos em que mulheres lésbicas ou pessoas trans são violentadas para serem "corrigidas". Eu respondi que não. Trocamos vários emails, ela descobriu casos que acontecem até em saídas de baladas, e fez uma ótima reportagem
Um hospital em SP atende cerca de uma vítima de estupro corretivo por mês. Como estupro é o crime mais sub-notificado que tem, deve haver no mínimo outros dez, que não são nem denunciados.
Na mesma semana, vários veículos noticiaram que estupros corretivos são uma prática recorrente no Peru. Um estudo feito em Lima apontou que, de cada dez lésbicas, 4,3 já sofreram algum tipo de violência em família. 
Horrível e comum. Mas eu queria publicar um texto mais "pra cima" pra falar da visibilidade lésbica, e fiquei muito feliz ao descobrir Luana Hansen, rapper incrível que fará show amanhã no Largo do Arouche (SP). 
O texto abaixo foi escrito por Larissa Teixeira, estudante de jornalismo da USP e uma das autoras deste documentário fenomenal sobre Luana.
Foi no dia 8 de março de 2014, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a primeira vez que ouvi o nome Luana Hansen. 
Nesta tarde, eu e algumas amigas da faculdade decidimos participar de uma passeata pelos direitos das mulheres que percorreu as ruas do centro de São Paulo, organizada pela Marcha Mundial das Mulheres. Pintamos o rosto e descemos com a multidão pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt, entoando gritos e palavras de força contra a violência e o assédio diário que sofremos.
A jovem MC Soffia
Ao final da caminhada, paramos em frente a um trio elétrico, onde haveria discursos de coletivos e partidos políticos. Além disso, algumas cantoras feministas iriam se apresentar, entre elas MC Soffia, Sharylaine e a MC Luana Hansen. 
Sharylaine
Eu nunca tinha ouvido nenhuma música delas, e fiquei para saber do que se tratava. Recebemos papéis com a letra da música "Ventre Livre de Fato", canção que fala sobre a hipocrisia de uma sociedade que não aceita o aborto. Cantamos alguns versos junto com a Luana:
“Um direito que em vários países já é estabelecido
No Brasil, quase sempre, passa despercebido
Hipocrisia, pra desconhecido é punição
Mas se for da família, é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela”.
Saí da marcha feliz por saber que não estava sozinha. Centenas de mulheres caminharam juntas para exigir algo que não deveria ser necessário: os mesmo direitos que já são garantidos para os homens. As letras das músicas ficaram na minha cabeça por muito tempo.
Algumas semanas depois, na aula de documentário da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde curso jornalismo, recebemos a tarefa de produzir um filme durante o semestre. Poderíamos escolher qualquer tema, e nossas discussões nos trouxeram algumas opções: artistas feministas, coletivos artísticos formados por mulheres, mulheres e quadrinhos, entre outros. 
Para clarear as ideias, eu e as outras meninas do grupo fomos até o Festival Autônomo Feminista, que ocorreu em São Paulo no final de março. Lá, assisti novamente ao show da Luana e ouvi os versos de "Flor de Mulher": "Sim eu sou mulher, estou pronta pra lutar. Sim eu sou mulher, vou sempre avançar. Sim eu sou mulher, ninguém vai me parar. Ninguém vai me parar”. No mesmo dia, eu e minha colega, Ana Carolina, conversamos com Luana e perguntamos se poderíamos marcar uma entrevista. Ela topou na hora.
No dia marcado, nos encontramos na Praça Roosevelt. Mas por que esse lugar? 
Luana nos contou que nasceu ali, no centro de São Paulo, antes de se mudar para a periferia e passar por outras cidades. A praça era um lugar de encontro, e também um ponto que frequentava para vender e consumir drogas. Foi um período difícil na vida dela antes de se encontrar na música. Resolvermos não dar destaque para isso na entrevista, valorizando outros aspectos que consideramos mais importantes: uma mulher negra, lésbica e da periferia que vive como rapper independente. 
ATAL posa com Caetano em 2010
Ela nos contou que, há 14 anos, no começo da carreira, fazia parte de um grupo de mulheres chamado ATAL. “Só que o grupo era sexista. Eram três negras sempre muito bonitas, sempre muito preocupadas com a estética. Eu tinha que ser uma barbie negra”, lembra. Além disso, ela tinha que lidar com o preconceito na própria banda por ser lésbica. Ao sofrer tanta discriminação nos shows e nos estúdios de gravação, ela se descobriu também feminista.
Foi uma virada na carreira. Hoje, Luana compõe e produz suas músicas em um estúdio caseiro, com a ajuda do irmão, de amigos e da namorada. Fala sobre violência contra a mulher, legalização do aborto, homofobia, racismo, preconceito, desigualdade social e legalização das drogas. Luta pelos direitos das mulheres e é presença confirmada em quase todos os eventos culturais, artísticos e políticos que falam sobre gênero e feminismo.
A conversa foi tão intensa e reveladora que, ao final, não havia mais nenhuma dúvida: faríamos um documentário sobre ela. O próximo passo foi conhecer a intimidade da sua casa, em Pirituba, na periferia de São Paulo.
Do lado de lá
Era um dia nublado e chuvoso quando chegamos à estação de trem Piqueri, na zona noroeste da capital paulista. Em Pirituba, como a Luana nos contou, a linha de trem separa o bairro em duas zonas: o lado mais “rico”, onde se encontram prédios, condomínios e até faculdades, e o lado “abandonado”, nas palavras dela, onde fica a favela. Luana mora na parte menos estruturada, em uma casa alugada perto de uma biqueira de drogas.
Lu com Mario e MC Bibol cantam
"Samba Brasil"
Ela nos buscou na estação e caminhamos juntas até o local. Após subirmos uma longa escada, ela abriu a porta da sua vida e da sua intimidade para cinco estudantes que nem sequer conhecia. Eu e a Ana, paulistanas, e outras três intercambistas que vieram estudar um período na USP: a Laura e a Inma, da Espanha, e a Helene, da França. Após uma breve apresentação do espaço, caímos diretamente no coração da casa: o estúdio. Discos, discos e mais discos chamaram a nossa atenção: havia de tudo, desde Jorge Ben Jor até grandes compositores de música clássica. 
O toca-discos é a maior relíquia da Luana, comprado com o dinheiro que veio do trabalho. Hoje, ela consegue manter a casa e as despesas apenas com a sua música. Passamos a tarde conversando, ouvindo música e aprendendo como as faixas do álbum foram produzidas de maneira independente.
Na cabine de gravação, ela cantou a música “Les Queens”, hino contra a lesbofobia. Na laje da casa, um dos lugares onde ela passa o tempo com os amigos ou sozinha, nos mostrou a divisão do bairro e falou sobre a relação com a família. 
A mãe, que no começo demorou a aceitar a orientação sexual de Luana, hoje é uma grande amiga e parceira. Nordestina e descendente de alemães, Sonia Hansen veio de Recife para São Paulo buscar uma vida melhor. Teve seis filhos, três não registrados pelo pai, e vive hoje na “melhor parte” de Pirituba, como costumam dizer por lá.
Luana fez questão de nos levar até a casa da mãe, em um condomínio fechado do outro lado da linha de trem. Dona Sônia é engraçadíssima, e fala com bom humor da infância tranquila e da adolescência conturbada da filha, quando assumiu que era lésbica. Branca, loira e de olhos claros, ela contou que já chegaram a duvidar que a Luana era realmente sua filha.
Policial com arma em punho na
casa de Luana: "normal"
Outro ponto alto -– ou chocante, se preferir -– do documentário aconteceu inesperadamente. Duas das meninas estavam com fome, e Luana resolveu levá-las até um mercado próximo para comprar alguma coisa. Nesse meio tempo, um policial apareceu na porta da casa e nos perguntou se havia entrado “alguém estranho” ali. 
Ana respondeu que não, enquanto ele apontava a arma para dentro do muro buscando algum suspeito. Por sorte, ou azar, ela estava filmando bem na hora. Quando Luana voltou, explicou que alguns meninos passaram por elas fugindo da polícia, enquanto as viaturas os buscavam. Segundo ela, essa invasão da intimidade de sua casa pela polícia é “rotina, nada que não aconteça todo dia”.
O resultado do nosso mergulho no mundo da Luana é esse
Obrigada a Drika Ferreira, companheira e backing vocal da Luana que nos ajudou tanto na produção do documentário. E um grande obrigada às minhas colegas da universidade que produziram o documentário comigo: Ana Carolina Marques, Gabriela Stocco, Inma Benedito, Laura Jotace e Helene Baras. 
Agradeço também a Lola por ceder o espaço para compartilhar esse processo tão enriquecedor. 
Por fim, obrigada a Luana por abrir as portas da sua casa e fazer com que nos sentíssemos acolhidas.
Espero que gostem e compartilhem!