quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A QUEM INTERESSA NÃO ENSINAR EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA?

Todo dia um esgoto a céu aberto. Ontem um repórter perguntou ao fascista eleito se o ministro das relações exteriores seria homem ou mulher. 
Bolso respondeu: "Tanto faz. Pode ser gay também. Você é voluntário?"
Quer dizer, o tio do pavê que elegeram pra presidir o quinto maior país do mundo não sabe a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. É meio básico: um homem não deixa de ser homem por ser gay. Uma mulher não deixa de ser mulher por ser lésbica. Veem como aulas de educação sexual são importantes? Impedem que a pessoa continue ignorante pro resto da vida.
Semana passada Bolso falou em pronunciamento do seu bunker que só quem deve ensinar sexo "é o papai e a mamãe", nunca a escola, porque escola não é lugar pra essas safadezas. O novo presidente estava indignado com uma questão da prova do Enem que usava "vocabulário de gays e travestis" para perguntar sobre como uma linguagem é vista como dialeto. Para Bolso, isso é "doutrinação exacerbada".
Mas voltando ao conceito ridículo de Bolso e outros fundamentalistas cristãos sobre como só os pais devem falar sobre sexo com seus filhos.
Em outubro do ano passado, uma adolescente de 13 anos viu uma palestra do Conselho Tutelar na escola, e logo depois denunciou seu tio. Ela contou que vinha sofrendo abusos desde os 5 anos.
Em abril deste ano, duas meninas de 8 e 9 anos tiveram aula de educação sexual na escola em Goiás e contaram para a professora que haviam sido estupradas pelo padrasto enquanto a mãe delas trabalhava fora. 
Em maio, uma menina de 12 anos de Tocantins viu uma palestra sobre educação sexual na escola e decidiu denunciar o padrasto que a estuprava. Ele foi preso. 
Também em maio, no Mato Grosso, duas meninas de 10 anos viram uma palestra sobre violência sexual contra crianças e procuraram a professora para denunciar um amigo da família que as havia estuprado. 
Também no Mato Grosso, mas em setembro, uma garota de 10 anos viu uma palestra na escola do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência. No final, ela escreveu um bilhete: "Eu já fui abusada pelo meu pai, isso pode ser denúncia? Sim ou não?" 
Em todos esses casos, não foi a educação sexual nas escolas que ensinaram as meninas a fazer sexo. Mas foi a educação sexual que ensinou a elas a se defenderem.
Segundo o Atlas da Violência, 51% dos casos registrados de estupro em 2016 foram cometidos contra menores de 13 anos. A maior parte desses casos acontece dentro de casa, por conhecidos da vítima. 
Qualquer especialista em educação e sexualidade sabe que a melhor maneira de prevenir abusos, gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, é através de aulas de educação sexual nas escolas. Na Alemanha, por exemplo, educação sexual é visto como um dever do Estado (não um direito dos pais se seus filhos devem ou não ter aulas na escola sobre o tema).
Segundo a educadora sexual Julieta Jacob, "estudos comprovam que a educação sexual não acelera o processo de amadurecimento sexual. Uma criança que teve mais orientação sobre sexo e sexualidade não desenvolverá seus instintos sexuais primeiro do que aqueles que não tiveram. Isso é mito".
O "mito" que teremos como presidente mais uma vez prova que entende de sexo e de educação sexual tanto quanto entende de economia.  

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A ESCOLA SEM PARTIDO E A PRESSA PARA VOLTAR AO PASSADO

Semana passada a votação do Escola sem Partido pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados foi adiada mais uma vez. Pode ser votada hoje. Por isso é preciso muita mobilização, in loco (no Congresso) e nas redes sociais.
Recomendo muito o documentário recente Escola Sem Censura, que aponta vários casos de professores perseguidos e traz uma discussão pertinente sobre a criminalização dos mestres. Como diz um deles, "É muito estranho ser reconhecido como inimigo sendo um professor".
Um artigo bastante completo e que entrevistou os dois "lados" foi este da UOL. Ele aponta que há mais de 150 projetos de lei relacionados ao Escola sem Partido nas esferas municipais e estaduais. 14 já foram aprovados em alguns Estados. Ou seja, o movimento de amordaçar qualquer tipo de discussão nas escolas (que rapidamente será levado às universidades) já é uma realidade que faz professores temerem processos e suprimirem conteúdos. As ameaças aos professores mostradas pela reportagem são de chorar. É tipo "Você fala isso e é despedido no dia seguinte".
E recomendo tudo que é produzido pelo Professores Contra o Escola Sem Partido. O grupo tem um blog, página no Facebook, e twitter.
O Escola sem Partido é um movimento que declarou apoio a Bolsonaro durante as eleições (você não acha nada irônico ou incoerente um programa que se diz sem partido pedir voto a um partido?). Um movimento criado por um advogado que incentiva pais e alunos a processarem professores e escolas (o que é ótimo pros advogados). 
Um movimento claramente ideológico que obviamente tem um lado e que escolhe fantasmas (como a "doutrinação marxista", a "ideologia de gênero" e o "kit gay" -- tudo coisa que não existe) para ocultar problemas sérios referentes à educação. Um movimento que odeia Paulo Freire, considerado não apenas no Brasil mas no mundo uma referência em educação. Mas parece que fazer os alunos pensarem, libertar e conscientizar jovens, não é o que a direita quer. 
Todos os Estados deveriam fazer como fez ontem o governador reeleito do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Ele editou um decreto garantindo que professores, estudantes e funcionários da rede estadual tenham liberdade "para expressar seu pensamento e suas opiniões no ambiente escolar". Além disso, o decreto determina uma campanha de divulgação nas escolas para mostrar que a liberdade de ensino está garantida pelo inciso II do artigo 206 da Constituição. 
Reproduzo aqui um texto da professora Helena Feres Hawad.
Graças a avanços empreendidos nas últimas décadas, hoje, no Brasil, os jovens tendem a atingir níveis de escolaridade superiores aos de seus pais. Muitos adolescentes representam a primeira geração de sua família que vai à escola; muitos universitários, a primeira que chega à graduação.
A pretensão do "Escola sem Partido" é que a escola seja proibida de apresentar ao estudante qualquer coisa que contrarie suas crenças ou as de seus pais. Se tivermos de nivelar o conhecimento a ser transmitido na escola pelo horizonte cultural e intelectual dos pais dos alunos, as instituições de ensino perdem todo sentido e relevância. O jovem precisa ir à escola justamente porque aquilo que a família pode lhe ensinar não é suficiente para a vida em sociedade, para torná-lo capaz de se orientar num mundo tão complexo.
Há um outro motivo pelo qual as "crenças da família" não podem ser a base do planejamento didático. É que, na escola, mormente na pública (e ainda bem que assim é!), o filho do católico se senta ao lado do filho do umbandista; o filho do “pai de família tradicional” se senta ao lado do filho do casal homoafetivo, ou do filho da mãe solteira; o filho do ateísta, ao lado do filho do pastor evangélico. O professor que se vir obrigado a "respeitar as crenças" de todas essas famílias vai acabar condenado à mudez.
Além do mais, é preciso reconhecer: nem toda crença pode passar sem questionamento. Uma das funções da educação formal é, aliás, prover a racionalidade necessária para combater crenças infundadas, junto com seu potencial de estrago.
Um exemplo: cresce, no Brasil e no mundo, uma turma que crê que a Terra é plana, e que a concepção de que ela é redonda não passa de uma conspiração internacional, capitaneada pela NASA, para nos manipular, para destruir a fé em deus etc. Não me peça para explicar porque não tem explicação, é doido assim mesmo. Para maiores informações, pergunte ao Google sobre "terraplanismo" (sim, a doideira tem nome).
Suponha, então, que o professor de Geografia ou de Ciências fale sobre a Terra em suas aulas e que tenha, entre os alunos, o filho de um "terraplanista". Para atender à reivindicação do "Escola sem Partido", esse professor teria de "ensinar" algo mais ou menos assim: "Alguns acreditam que a Terra é redonda, outros acreditam que ela é plana. Você, estudante, pode escolher a crença que lhe parecer melhor".
O "Escola sem Partido" orienta os alunos a denunciar o professor se, por qualquer motivo, se sentirem "desconfortáveis" com o que ocorre em sala de aula. Os alunos já estão repetindo esse discurso para nós: "Não me senti confortável com o que você disse, professor"; "Me senti desconfortável com a leitura desse texto"...
Vejo-me obrigada a ser portadora da má notícia: aprender causa desconforto. Não é possível aprender nada sem sair da zona segura das certezas previamente estabelecidas -- o que, pelo menos no primeiro momento, não é agradável nem fácil. Quando se é apresentado a novas perspectivas sobre a realidade, é preciso muita coragem, humildade e honestidade intelectual para suportar a sensação inicial de que a gente estava enganada (ou, no mínimo, poderia estar enganada). Quem quer conforto não deve sair do sofá de casa. Quem quer aprender precisa encarar o risco do desconforto.
Até a Veja se posicionou contra
o Escola sem Partido
Nosso presidente eleito disse na recente campanha eleitoral: "fui treinado para matar". Eu fui treinada para pensar. E para ensinar a pensar. E para ensinar a dar valor ao pensamento e ao saber. Meu treinamento ocorreu numa época quando se acreditava que essas habilidades seriam úteis ao "país do futuro", ao país desenvolvido que o Brasil viria a ser um dia. Parece que o futuro se foi sem ter chegado. Agora rumamos eufóricos em direção ao passado. E vamos com pressa.          

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O PT MORREU?

Semana passada o MBL convocou um hiper mega blater super duper ato para celebrar o enterro do PT. Foi no ABC, numa das muitas universidades criadas pelo PT. Apareceram sete pessoas, incluindo a cinegrafista.
A multidão rivalizou com a do enterro festeiro realizado por outros reaças (todos homens brancos), numa foto que ficou conhecida como "método infalível para o controle da natalidade" (veja acima).
E a revista QuantoÉ? IstoÉ estampou na sua capa desta vez não a morte, mas a "banição" do PT. Inventaram uma palavra, já que o termo aceitável é banimento. 
Mas é isso mesmo, o PT morreu? Foi banido? Desapareceu? Isso é realidade ou torcida de quem não apenas não saber perder, mas tampouco sabe ganhar?
Vejamos. Pra começo de conversa, a morte do PT vive sendo decretada. Em 2005 um dos coronéis de Santa Catarina, Jorge Bornhausen (então do PFL, depois DEM) disse: "A gente vai se ver livre dessa raça por pelo menos trinta anos", referindo-se ao PT e à crise política. Errou por pouco. Lula se reelegeu em 2006 e fez sua sucessora em 2010, que se reelegeu em 2014. 
Um mês antes das jornadas de junho de 2013, o PT vivia um de seus melhores momentos. Sete em cada dez brasileiros julgavam que o governo Dilma era "ótimo ou bom" (em 2010, a aprovação era de 80%). Em 2014, ano em que a ONU retirou o Brasil do mapa da fome, o cenário era difícil, mas Dilma conseguiu ganhar de Aécio em votação apertada (vantagem de apenas 3 milhões de votos). E deu início a um governo ruim, com Joaquim Levy como ministro da Fazenda (ele estará no governo de Bolsonaro -- culpa do PT?). 
Em 2015 foi a vez de Luciana Genro (Psol) dizer que o PT havia morrido.
Com a vergonhosa votação do impeachment na Câmara dos Deputados, em maio de 2016 (aquela em que os corruptos liderados por Eduardo Cunha agradeceram a Deus e as suas famílias; um deles até homenageou um torturador!), o PT foi defenestrado. Isso obviamente influenciou as eleições municipais de 2016, em que o partido foi o maior derrotado (foi o ano em que Haddad não conseguiu ser reeleito prefeito de SP): o PT elegeu apenas 256 prefeitos, metade de 2012. MDB e PSDB, os partidos decisivos do golpe, foram os vitoriosos. 
Mais uma vez, decretou-se a morte do PT. Falou-se até que o partido poderia perder seu registro na Justiça. Um cientista político, assessor de Temer, decretou a morte do PT, mas não de todo o PT. Apenas do PT radical, polarizador, de confronto. 
Este ano, depois do primeiro turno das eleições de 2018, um coronel eleito deputado federal pelo partido de Bolso foi mais conciliador: "É uma pena que o PT ainda não tenha acabado. O PT ainda não morreu, mas está na UTI e vai morrer em breve".
Porém, olhando assim de longe, o PT parece continuar bem fortinho. Segue sendo o maior partido de esquerda da América Latina, por exemplo.
Além de ter a maior bancada na Câmara dos Deputados (56), o PT terá também a maior bancada feminina na Câmara. Foi o partido que mais elegeu mulheres para a Câmara: dez.
Pelo TSE, o PT é o segundo partido com maior número de eleitores filiados: 1,5 milhão (o MDB tem 2,3 milhões). O PT diz que o partido ultrapassou 2,2 milhões em junho. As filiações dispararam com a perseguição a Lula (que era o franco favorito para sagrar-se presidente).
O PT é o partido mais popular. Segundo pesquisa Ibope de agosto, quando se pergunta qual partido tem maior preferência ou simpatia, 29% dos entrevistados responderam PT. É quase o triplo da soma de todos os outros partidos que pontuaram (PSDB teve 5%, MDB 3%, PDT, PSB e PSOL, 1%).
Agora em 2018, o PT elegeu quatro governadores (todos no Nordeste), incluindo Fátima Bezerra (RN), única mulher a ser eleita governadora em 2018. 
Foi um governador a menos que em 2014, mas, ainda assim, é o partido com o maior número de governadores no país.
E vale lembrar que 47 milhões de eleitores escolheram Haddad para presidente (45% dos votos válidos, contra os 58 milhões de Bolso).
Diante desses números, é realmente sensato assinar o falecimento de um partido? Ou isso não passa de wishful thinking?
Porque, sei lá, quando eu morrer, quero morrer assim, em grande estilo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

"EU CRESCI NO BRASIL DE BOLSONARO"

Gostei pacas deste texto publicado na Vice Brasil um pouco antes do segundo turno.
Não sei nada sobre o autor, Fábio Marton, e tenho certeza que não concordo com ele em muitos temas. Mas seu post é importante para compreender um eleitorado influente. Não só os evangélicos não param de crescer, como na próxima Câmara de Deputados a bancada da bíblia contará com 180 membros. E, como deixa claro Fábio, os preconceitos não são apenas de Bolso. São do próprio grupo. E não são de hoje.
Reproduzo o texto aqui.
Nunca fui petista. Na Era do Amor do primeiro mandato de Lula, lá estava eu criando um blog antipetista. Eu me arrependo de muita babaquice que escrevi, mas ainda me acho liberal em economia. 
E não pisquei em decidir por Haddad no segundo turno.
Eu tenho a mais profunda e visceral ojeriza por Bolsonaro e o que ele representa. É como se eu fosse um refugiado de um país totalitário e essa figura sebosa esteja prometendo trazer o horror em que cresci para o país em que me exilei. E vejo quem não viveu esse horror o subestimando.
Meu regime totalitário é o pentecostalismo. Com ou sem o neo, não faz diferença (demora pra explicar, tá no meu livro). Esse é meu comunismo, esse é meu fascismo — ainda que a palavra exata seja teocracia, como no Irã ou Arábia Saudita. É de onde me refugiei, e o que parece prestes a, se não dominar tudo, tornar-se parte central da ideologia do Estado brasileiro.
Na teocracia pentecostal, o que chamamos de discurso de ódio é só a linguagem do dia-a-dia, dos almoços em família. 
Para mim, Bolsonaro não tem nada de raro, exótico ou aberrante. Eu manjo a figura. Eu já vi antes e tenho visto desde criancinha. Ele não disse uma palavra que meu pai não teria dito.
O que vai a seguir é um retrato de quem, comprovadamente, pelas pesquisas, é o núcleo duro da base bolsonarista. São os que estão com ele por concordarem com o que diz. Quase tudo o que ele diz.
Fé demais
Meu pai é filho de um pastor da Assembleia de Deus. Na juventude, passou um tempo desviado, reencontrou a fé nos seus quase 40 anos, quando eu era criança. Na minha enorme família, dá pra contar nos dedos de uma mão quem não é pentecostal.
O velho votou em Lula em 2002. Os pastores disseram que era OK. Se arrependeu em 2006, virou virulentamente antipetista. Tirando exatamente os que não são crentes, a família está em bloco com Bolsonaro. A vida inteira, meu pai falou que era melhor na ditadura e defendeu pena de morte, que bandido bom é bandido morto, etc. etc. etc. Votava em Maluf. Quando eu o descrevia para outras pessoas, perguntavam se não era um militar. Era dono de uma oficina.
Anos atrás, em tempos que devem ficar na saudade, visitei a família com uma camisa cor-de-rosa e cachecol. O velho parece não ter concordado com meu senso de moda. Ouvi dele à mesa que “se tivesse filho gay, matava”. Eu não dou a mínima para ser chamado de gay. Se fosse, quem sabe o velho fosse mais humano, obrigado a lidar com isso (obviamente iria de Bolsonaro do mesmo jeito). Mas então retruquei: “Você acha que é cristão perseguir alguém por uma coisa que ele nem escolheu?”. E ele encerrou então com: “Quem é gay tá possuído pela Pomba-Gira” (mais adiante).
Crentes (os que conheci) não são exatamente supremacistas brancos. Em geral, acreditam que racismo existe, mas não no Brasil. Meu pai sempre fez piada de preto, e vivia falando em “baiano”. E, se tinha problema com um negro e particular, a culpa virava de todos. Mas, é claro, já frequentou igreja em que o pastor era negro — como poderia ser racista?
Quando era criança, ouvi o pastor dizer jocosamente que “negro é filho do Cão”. Cão (ou Cam) é um dos três filhos de Noé, amaldiçoado por caçoar de sua bebedeira (Gênesis 9:18). A pele escura seria uma maldição — essa ouvi bastante. Não sei se ainda dizem.
A parte mais racista na ideologia crente é o profundo ódio que destinam às religiões afro. São nada menos que os representantes de Satã na Terra. Quando falam em demônios, eles dão nomes do Candomblé: Pomba-Gira, Exu Caveira, Exu Tranca Ruas. Isso é absolutamente central na vida do crente, é parte do apelo, do espírito de guerra, de cruzada, que torna a coisa tão emocionante. Odiar Satã é odiar o candomblé. Eles provavelmente têm mais fé no trabalho deixado na esquina que quem o deixou -- para eles, “macumba” sempre pega e só exorcismo cura. (Uma vez até comentei com o velho: “Você não é cristão, é politeísta. Você acha que deuses africanos são reais”. Não entendeu nada.)
Meu pai teve dois filhos. Então meu velho nunca disse o “fraquejei e tive filha”. Mas Bolsonaro nem de longe inventou isso. Vinte anos antes, eu já ouvia isso quase toda a vez que um crente se apresentava a outro, falando da família. Era um clichê, um “pavê ou pacumê” de crente.
Essa parte é um pouco paradoxal. Mulheres tem uma presença definitivamente maior nas igrejas pentecostais que na Católica. A maioria hoje admite pastoras. Mesmo as mais tradicionais sempre permitiram que as irmãs viessem ao púlpito para dar seu testemunho. E, ainda assim, misoginia é parte integral do pacote.
Nunca fui a um casamento na família sem ouvir "o homem é a cabeça da mulher" (Efésios 5:23) (ao que se segue “e Deus é a cabeça do homem”). Na igreja, o “só casando” é absoluto; na prática, a filosofia do velho era, cito: “segure suas cabritas que meu bode tá solto”. Ele próprio teve 7 esposas, inclusive algumas não oficiais. O pastor nunca falou nada. Ele pagava o dízimo em dia.
Quanto a mim, pude trazer namoradas para o quarto (elas não eram crentes; se fossem, teria sido diferente). Só reclamou uma vez, quando trouxe um amigo e uma amiga, todo mundo bêbado, e eles dormiram no chão. Ele ficou escandalizado com o suposto ménage. Mas reclamou mesmo é que a moça era feia.
Imagino como seria se eu fosse mulher. Uma prima minha foi pega num armário com um rapaz num retiro evangélico. Ouviu “puta” de todos os bons cristãos que, normalmente, usavam linguagem Sucker and Fucker, falando “ferrar” no lugar de foder. Inclusive seu pai, que a conduziu pra casa aos bofetões.
O pai dela, aliás, é o antagonista de meu livro: o Nadir. Um tio agregado santarrão que batia na mulher e filhas (meu pai nunca fez algo do gênero, isso tenho em favor dele). O resto da família detestava o cara, mas nunca tentou algo como uma denúncia. Sua esposa, irmã de meu pai, fugiu de volta para ele quando resgatada. Na igreja, nunca foi repreendido.
Jesus contra o Mundo
Eu fui criado num mundo de verdade alternativa. São criacionistas de Terra jovem, acham que o planeta surgiu há mais ou menos 7500 anos e dinossauros são animais pré-dilúvio.
Tudo no mundo se divide em coisas de Deus ou do Diabo, numa batalha encarnada não só em pensamentos e desejos, como também objetos. Coisas podem ter o Diabo nelas.
Xuxa teria feito pacto com o Diabo (virtualmente todas as pessoas de sucesso que não são crentes fizeram). Então chiclete da Xuxa deixaria as crianças possuídas e, claro, virar disco ao contrário traz recadinhos de Satã. Fofão era “consagrado” ao Tinhoso e o boneco vinha com faca dentro (não sei se os crentes são a origem da lenda urbana ou só aderiram). Até a batata Pringles podia te contaminar capetice. (Esse é um caso de fake news de crente internacional, com origem conhecida: nos anos 90, funcionários da Amway, empresa de marketing multinível com donos evangélicos, passaram a espalhar que o executivo da Procter and Gamble havia se assumido satanista na televisão).
Crentes também não ouvem música “do mundo” (isto é, dos não crentes, os que estão irremediavelmente com o Demo). Toda música que não é gospel é do Coisa Ruim. A maioria dos filmes e livros, se tem algum conteúdo que soe “do mundo”, é proscrita — Harry Potter, falando em bruxaria de forma positiva, está na unha do Capeta e quem o ler vai acabar possuído. Seguidores de religiões afro e espíritas, já dissemos, são mais satanistas que disco do Black Sabbath tocado no reverso. Católicos também estão com o Diabo, pois “adoram a imagens de escultura” (Deuterunômio 5:8). Já ouvi muito (mas não é um consenso universal) que o Papa é o próprio Anticristo. Quando ouvia alguém usar a palavra “cristão”, queria dizer em primeiro lugar outros pentecostais, raramente outros protestantes. Jamais católicos. Por definição bíblica, “cristão” exclui os “adoradores de esculturas”.
A mídia como inimiga é coisa antiga. No mínimo, desde o incidente do chute na santa (de novo, “adoração de imagens de escultura”), em 1995. Ou todas as críticas à Igreja Universal. Como Edir Macedo foi pego contando dinheiro e nunca deu em nada. Toda crítica é conspiração do “mundo” e os jornalistas provavelmente estão possuídos pelo Exu Trinca Bolas ou algo do tipo.
E chegamos ponto mais central: política. A visão pregada nas igrejas é um tipo de absolutismo teocrático.
Razão crítica é o Diabo falando em sua orelha (eu literalmente imaginava isso quando comecei a duvidar). Meu pai ia numa igreja (neopentecostal) cujo líder era um óbvio picareta. Andava de BMW e falava que sua prosperidade era uma bênção de Deus, que podia ser também sua. Quando eu perguntava por que não viam o óbvio, que ele era um ladrão, respondiam: “A gente tem a obrigação com Deus de seguir o pastor e dar o dízimo. Se o pastor estiver roubando, é algo entre ele e Deus”. Não é muito mistério quem ensinou isso ao rebanho.
Em algum ponto anos 90, assisti a uma pregação em uma Igreja do Evangelho Quadrangular. O pastor falou sobre a ordem do mundo: “criança obedece à mãe, a mãe ao pai, o pai ao chefe, o chefe ao patrão, o patrão ao presidente. Porque Deus, que não deixa uma folha cair da árvore sem sua permissão, foi quem colocou todos em suas posições”.
Aos 15 anos, já achei que isso parecia fascismo. Há uma mensagem profundamente antiliberal (no sentido político, não econômico), martelada a cada pregação, de aniquilação da individualidade, de submissão ao divino e seus representantes, de demonização de quem está fora e de guerra, com metáforas militares cravadas nos hinos, contra o Inimigo, o Diabo. Neste momento, o Inimigo é encarnado pelo mesmo PT que os pastores recomendaram em 2002. Ao pentecostal, não existe neutro: ou é de Deus ou do Diabo.
Deixei de seguir muita gente nas redes sociais, mas continuei acompanhando o que minha família postava. Eles são meu ponto de contato com o mundo bolsonarista nesta eleição. Um dia antes do primeiro turno, uma prima compartilhou uma montagem falando literalmente que no dia seguinte começaria o governo de Deus na Terra.
Brasilsão de Deus
Não estou dizendo que todos os pentecostais pensam como o que descrevi. Sei sobre ao menos um caso de um pastor perseguido por não apoiar Bolsonaro. Existem figuras como Marina Silva — uma pentecostal que tenta equilibrar certo conservadorismo nos costumes com uma pauta progressista (e enfrenta muitas críticas por isso). As pesquisas de voto não dão 100% a Bolsonaro entre pentecostais, ainda que sejam o grupo mais pró-Bolsonaro de todos.
Meu ponto é que o fenômeno da teocracia pentecostal existe. E que o núcleo duro de Bolsonaro não é o fascismo de suspensório e coturno, mas a teocracia de terno ensebado e testa suada, berrando ao microfone. Fascistas são uma gangue. São milhares. Teocratas, um país. Milhões. O ódio aos gays e à cultura negra, a misoginia, o espírito militarista de cruzada, de caça às bruxas, a visão anticientífica do mundo, a desconfiança total da mídia, e, por fim, o autoritarismo teocrático, tudo isso vem sendo pregado há décadas nas igrejas. Para quem vê de fora, a gritaria, entrecortada por música ruim, línguas estranhas e pedição de dinheiro, dá um ar folclórico à coisa. Encobre o fato de haver uma mensagem sendo passada ali muito mais perigosa que “ame Jesus, pague o dízimo”. O Diabo, o inimigo, sempre foi identificado foi com tudo que não é de crente. Agora, o Diabo são os petistas.
A gente não está diante de um Mussolini nem um Hitler. Sequer um Castelo Branco. Mas lembra um general Franco ou os aiatolás do Irã. Bolsonaro é levado ao poder por um nacionalismo teocrático, o “Deus acima de todos”. E pode esperar a lei contra “cristofobia”, proibindo um texto como este. Deve ser uma das primeiras pautas – mesmo na remotíssima chance dele perder, aliás. Sua bancada deve propor.
Bolsonaro se diz católico. Ele se batizou na (pentecostal) Assembleia de Deus em 2016, o que implica a rejeição da fé original. Ou ele mentiu ao se batizar, ou mente agora. Talvez nem fé ele tenha. Talvez ele seja um crápula cínico também nesse ponto. Mas é o candidato oficial do autêntico pensamento teocrático evangélico brasileiro. Que manteve acesa a chama do mais radical, virulento e tapado reacionarismo brasileiro enquanto todo mundo só prestava atenção na sacolinha de dinheiro.
As pessoas ficam procurando o ovo da sucuri em festinhas Oi! no ABC, na irrisória alt-right tupiniquim, na velharada malufista e na playboyzada machista do cacete. Esses aderiram. A anaconda enroscada no Brasil e partindo suas costelas nasceu na igreja da esquina.