sexta-feira, 20 de novembro de 2009

SEJAM DECENTES, GAYS PORTUGUESES

Conservadores americanos disseram nos anos 70: "Deus fez Adam & Eve [Adão e Eva], não Adam & Steve". Gays gostaram da frase e adotaram o Adam & Steve.

Ha ha, o casamento gay visto por um blogueiro português:

"Aos gays é reconhecido o direito de se considerarem seres humanos: podem passear pelas ruas, ir ao cinema, ao teatro, fazer teatro, trabalhar, escrever, comprar uma casa, ter cães, gatos, amigos ou amantes à vontade, dedicar-se à decoração e ouvir Abba de forma obsessiva mas, caramba, pelo amor do Deus que criou Adão e Eva e os mandou foder, perdão, multiplicar-se, o gay tem de aprender a comportar-se com um mínimo de decência! Não pode andar por aí aos linguados e aos apalpões, pois isso incomoda muita gente e excita alguns cristãos."
Aqui tem o texto inteiro, muito divertido.

MULHERES EM 2012 E DOUTOR FANTÁSTICO

As mulheres de 2012 entraram num túnel do tempo ou nunca saíram dele?

Enquanto eu via 2012, não conseguia parar de pensar em Doutor Fantástico, grande comédia do Kubrick de 1964. Não sei se vocês conhecem essa paródia da guerra fria e da ameaça nuclear. É sobre um general americano que sai fora da casinha e consegue transmitir uma ordem para que um grupo de pilotos jogue uma bomba atômica na União Soviética. Quando o alto comando dos EUA percebe que não vai poder detê-los, o presidente americano liga para Dimitri, o presidente russo, num dos mais famosos monólogos da história do cinema. É Peter Sellers que faz o presidente falando pelo telefone com o presidente russo, provavelmente bêbado. Veja o clip aqui e acompanhe a minha pobre tradução:
Olá... Uhn, olá, Dimitri. Olha, não posso te ouvir muito bem, será que você poderia diminuir o volume da música um pouquinho? Ah, muito melhor. Sim, uh, sim. Posso te ouvir claramente agora, Dimitri. Eu também estou sendo claro? Ótimo, bem, como você diz, nós dois estamos claros. Bom. É bom que você esteja claro e eu esteja claro. Então, Dimitri, você sabe que nós sempre falamos da possibilidade de algo dar errado com a bomba. A bomba, Dimitri. A bomba de hidrogênio. Bem, o que aconteceu é que, ahn, um de nossos comandantes, ele teve um probleminha na cabeça. Sabe, só um probleminha. E aí ele fez uma coisa tola. Bom, vou te dizer o que ele fez. Ele mandou que aviões atacassem o seu país. Bem, deixe-me terminar, Dimitri. Como você acha que eu me sinto a respeito? Você pode imaginar como eu me sinto, Dimitri? Por que você acha que eu te liguei? Só pra dizer oi? Claro que eu gosto de falar com você... claro que eu gosto de dizer oi. Não só agora, mas qualquer hora, Dimitri. Só estou ligando pra te dizer que algo muito ruim aconteceu. É um chamado amigável, lógico que é. Ouça, se não fosse amigável você provavelmente nem o receberia. Eles não vão alcançar seus alvos por pelo menos uma hora. Tenho certeza, Dimitri. Já falei sobre isso com seu embaixador... Não é um trote. Bom, vou te dizer. Gostaríamos de dar a sua equipe um relatório completo dos alvos, os planos de voo e do sistema de defesa dos aviões. Sim, quero dizer... Se não pudermos chamar os aviões de volta, vamos ter que ajudar vocês a destrui-los, Dimitri. Sei que são nossos meninos. Tudo bem. Então, pra quem deveríamos ligar? Quem deveríamos chamar, Dimitri, sua voz sumiu um pouco. O Quartel General de Defesa Aérea do Povo. Onde é isso, Dimitri? Em Omsk. Ok. Ah, você vai ligar pra eles antes? Uh. Ouça, você tem o número deles? O quê? Ah, entendo, é só pedir pra Informações de Omsk. Ahn. Eu também sinto muito, Dimitri, muito mesmo. Tudo bem, você sente mais do que eu, mas eu também sinto. Eu sinto tanto quanto você, Dimitri, não diga que você sente mais porque eu sou capaz de sentir tanto quanto você. Então nós dois sentimos muito”.
Ele passa o telefone para que o embaixador russo fale com o presidente. E nota que não haverá salvação: o sistema russo reagirá automaticamente a qualquer ataque, detonando a Máquina do Julgamento Final, que acabará com toda a vida animal e humana no planeta. Mas um dos cientistas do governo americano tem uma solução pra minimizar o problema: colocar todo o alto escalão do governo e do exército, e algumas outras pessoas, em minas, para garantir a sobrevivência da espécie. Ele recomenda dez mulheres para cada homem, para que eles possam repovoar o planeta rapidamente, assim que a poeira radiotiva baixar. O general interpretado por George C. Scott gosta da ideia e pergunta: “Mas com essa esquação de dez mulheres pra cada homem, não teríamos que abrir mão dos nossos princípios monogâmicos?”. E o cientista, com um sorriso maroto no rosto: “É, nós homens teríamos que fazer esse sacrifício. E naturalmente as mulheres escolhidas teriam que ser jovens e bonitas, para que nos sentissemos estimulados para tal árdua tarefa”. Ha ha.
Doutor Fantástico, essa comédia de humor negro, tem exatamente uma atriz. Só uma, e ela aparece de biquini durante poucos minutos. Mas o general maluco que lança o ataque nuclear explica: seus “fluídos corporais” estão sendo afetados pelo flúor que colocam na água. Ele se deu conta disso ao ficar cansado na hora do sexo. O filme é inteirinho sobre sexo. Fora esses diálogos absurdos, há uma infinidade de imagens fálicas (aviões penetrando buracos de aviões, um piloto montado num foguete, o general e seu charuto, filmado de baixo pra cima, como se estivesse ereto).
Tá, e por que pensei tanto neste clássico enquanto via 2012? Não parece ter muito a ver. Afinal, as pessoas que se salvam em 2012 são (além dos políticos e membros do exército) quase todas bilionárias que pagaram para estar na nave (é bacana que o filme dê destaque aos negros, se bem que não haja homossexuais ou gordos entre os sobreviventes). E nem se fala muito em procriação. Mas, pelo jeito, vai haver uma imensa falta de mulher, já que não existem muitas bilionárias na vida real, e nem todos os chefões levam as esposas. Quando a nave começa a ser ocupada por gente, vemos apenas uma mulher (Thandie Newton), a filha do presidente americano. Ela é chamada de doutora durante o filme todo, mas doutora em quê, só deus sabe, porque seu papel é completamente inútil. As outras duas únicas mulheres com falas na nave nem doutoras são. Uma é a ex do protagonista John Cusack, Amanda Peet. Sua profissão, aparentemente, é ser mãe. A outra é a jovem namorada de um russo bilionário. Ela não tem filhos, mas tem instinto maternal: carrega consigo um cachorrinho. Profissão, nem pensar.
Acho que comentei na minha crítica ao remake de Destino do Poseidon como os homens têm profissões, enquanto as mulheres são apenas isso, mulheres. Tipos. Mães e filhas. Será que essa é uma dinâmica em todos os filmes-catástrofes ou em todos os filmes, ponto?
As três mulheres com falas de 2012 são jovens, bonitas, e não acrescentam nada à história. Elas estariam em casa tanto na nave de 2012 como nas minas de Doutor Fantástico. A diferença de idade entre um filme e outro é de quase meio século. E nós mulheres continuamos tendo duas funções: procriar e decorar o ambiente.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

TAL PAI, TAL FILHO: O FILME

Se a oposição tá tão mordida com o filme sobre o presidente, Lula, o Filho do Brasil, por que não faz um filme sobre um dos inúmeros personagens carismáticos e populares do PSDB/DEM? Tipo, sei lá, aproveitando a segunda revelação em uma semana de pai de filho não-reconhecido, que tal FHC, O Pai do Brasil? Seria um estouro de bilheteria! Podiam até organizar uma pré-estreia só pros filhos do homi!

GUEST POST: ORGULHO DE SER LÉSBICA

Conheci a Renata na UFSC, onde ela fez mestrado em Literatura em Língua Inglesa um tempinho depois de mim. E antes, sem saber, eu tinha dado aula pra namorada dela. As duas são uns amores. Renata é jornalista e tem um ótimo blog que eu adoraria que fosse atualizado com mais frequência, pois sempre aprendo muito com ele. Pedi pra Rê nos dar uma canjinha e ela atendeu. Sorte nossa.

(Muito) tempo atrás a Lola me pediu pra escrever um guest post para o Escreva Lola Escreva sobre aspectos da vida de uma lésbica assumida. Jornalista que sou, resolvi pegar o gancho da tal da enquete do Senado sobre a aprovação do PL 122 que está causando um furor na blogosfera nos últimos dias. Não sei se quem está de fora está acompanhando, eu explico: o PL 122 é o Projeto de lei que criminaliza a homofobia e está em trâmite há anos nas casas do Congresso.
Atualmente está assim: o projeto chegou a ser aprovado pela Câmara, mas na Comissão de Assuntos Sociais do Senado foi aprovado na forma de um substitutivo, com um texto mais light que inclui idosos e deficientes. Agora tem que ser aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa para daí voltar à Câmara novamente... e aí a dança continua...
A enquete do Senado é simples: você é a favor do projeto que criminaliza a homofobia? Ela gerou um movimento tanto dos evangélicos quanto da populaçãp LGBT, nenhum lado quer perder a votação, que atualmente está 51% a 49% pra gente. A corrida para votar foi tanta que a enquete foi tirada do ar na semana passada por problemas técnicos.
Acho que para a maioria das pessoas é apenas mais uma das questões polêmicas do legislativo, ente tantas, mas pra gente que vive o preconceito todos os dias cada batalha dessas é importante. É difícil ver as pessoas tão empenhadas em lutar contra o que eu represento. Poxa, o que eles querem mesmo é o direito de continuar nos ofendendo abertamente, de pregar a "cura" dos homossexuais. Realmente fico pensando no que motiva essas pessoas.
Bom, a Lola pediu para eu falar sobre como é a vida de uma lésbica assumida: ela é assim, é saber que tem gente que perde o sono por saber que eu sou feliz por ser quem eu sou. E eu sou mesmo. Tenho orgulho de ser lésbica e lutei muito pra chegar até aqui.
Demorei para me assumir, só fui me dar conta da minha homossexualidade com 21 anos. Foi bem difícil, ninguém está preparado psicologicamente a não pertencer à sociedade. No fundo a gente sempre sabe da verdade, mas é tão complicado desafiar tudo que o mundo te prepara para ser desde criança. Meu conflito foi mais interno mesmo, mas depois de muita reflexão, de muita angústia, eu me aceitei. Esse foi o primeiro passo.
O segundo foi compartilhar isso com as pessoas que eu amo. Meus amigos foram tranquilos, alguns até já imaginavam. Já com a minha família foi um pouco mais complicado. A reação não foi das melhores, mas eu entendo que assim como eu levei um tempo para compreender e aceitar tudo isso, eles também precisaram desse tempo. Rolou muita terapia e conversa e lágrimas, mas no fim deu tudo certo. Hoje eles me aceitam, gostam muito da minha namorada e acho que se deram conta de que eu continuo sendo a mesma Renata, mesmo sentindo atração por pessoas do mesmo sexo (como se isso mudasse quem eu sou...). Depois de um tempo eu me assumi também para os outros parentes: tios, avós, primos, etc. Alguns foram tranquilos, outros precisaram de um tempinho também... Agora, cinco anos depois, parece que nem aconteceu todo aquele drama.
O último passo, para mim, foi me assumir no trabalho. Como eu não sabia onde estava me metendo, com quem eu estaria lidando, voltei pro armário nos primeiros meses. Mas se tem uma coisa que quem já se assumiu odeia é ter que ficar no armário. Depois de todas as conquistas e sofrimentos ter que ouvir piadinhas de gays nos escritório é realmente o fim. Porque as pessoas têm essa necessidade? É realmente vital ter que tirar sarro do Richarlyson todo dia? É um comportamento adequado ficar falando de ex-colegas gays o tempo todo? A ironia é que as pessoas fazem piada porque acham que não tem nenhum gay por perto... tsc tsc. Se ao menos soubessem de quantas vezes deram fora... Uma vez que eu me estabeleci no meu emprego, comecei a me assumir aos poucos pras pessoas com quem eu trabalhava, e após um tempo as piadinhas pararam (ainda bem).
E depois de tudo isso a gente ainda tem que ouvir de senadores da república que ser gay não é que nem ser negro ou ser índio, que o negro e o índio nasceram dessa forma mas que ser gay é uma "opção" e eles querem o direito de ter preconceito contra essa "opção" (as aspas são do meu repúdio pela expressão). Depois de tudo isso tenho que ouvir que preservar os direitos dos gays seria criar uma sociedade de castas, que teríamos então que ter leis que protegessem os "circenses, engraxates, empresários, lojistas, desempregados, [teríamos que criar leis para o] pipoqueiro, porteiro do prédio, religioso, padre, pastor, chefe do centro espírita, a qualquer um" (as aspas aqui para evidenciar que eles realmente disseram essas barbaridades, conforme consta nos autos―ver aqui um exemplo).
É duro ouvir isso de representantes do povo. Às vezes no meio da correria do dia-a-dia eu me esqueço que sou uma sub-cidadã brasileira, com inúmeros direitos a menos que o resto da população, mas daí vem um senador e diz isso e me lembra. É como se fosse dito: "sim, vocês são marginalizados e nós preferimos que a situação continue assim". Eles realmente não fazem ideia do que é sofrer preconceito dentro e fora de casa e ainda sair de cabeça erguida. Tenho a impressão de que eles acham que ser gay é um grande capricho e que nós queremos impor isso ao resto da população, a chamada "ditadura gay".
Bom, eu tenho novidades para essas pessoas: ninguém passa por tudo isso por capricho. A gente tem que lutar contra o mundo e tirar coragem não sei de onde simplesmente para poder aceitar que ser diferente é ok. A gente passa por um dilema toda vez que tem que dizer os pronomes certos em relação à namorada para um vizinho ou colega novo de trabalho.
Para alguém gay ou lésbica, ser assumido não termina quando você diz "Eu sou gay" em voz alta: é um ato constante.
Eu sempre digo que não é fácil ser gay, é por isso que os índices de suicídio são mais altos entre adolescentes LGBT e talvez seja por isso que ainda haja muita gente vivendo vidas duplas, com medo o tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, eu sinto que agora estou livre para ser a pessoa que eu sou realmente. Mesmo sem direitos, mesmo com o mundo contra mim, mesmo convivendo com um discurso de ódio, mesmo tendo muito mais chance de ser agredida na rua ao andar de mãos dadas com quem eu amo. Mesmo com tudo isso eu sou feliz só por poder dizer de cabeça erguida que sim, sou lésbica, e daí?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

AS MELHORES PROFECIAS DA OPOSIÇÃO SE CONCRETIZAM

Ouvi dizer que tem gente indo prestigiar 2012 só pra ver o Cristo Redentor desabar! Ô, gente, que besteira! Uma coisa é ir ver 2012 por causa do piloto russo bonitão que aparece durante uns cinco minutos, outra é pra ver um detalhezinho desses! Se for só pra ver o Cristo, não precisa. Isso tá no trailer. Embora o Brasil seja o único país da América Latina citado no filme, as cenas são muito curtinhas, vistas apenas numa TV. E acho que rolou merchandising da Globo, porque o filme diz “imagens da Globo News”. Acontece que a narração jornalística que acompanha as imagens tá em português de Portugal! Sério, que nem em Sinais, quando mostram um vídeo de Passo Fundo, Brazil, e a voz no vídeo é de um certo João Manuel (ok, estou sendo injusta: no filme ele se chama Pablo Romero). Em 2012, eu posso jurar que a narração diz: “O Cristo Redentor está a cair, pá!”. Tá, o foi por minha conta, mas me digam se não tenho razão no está a cair.
Como vocês sabem, 2012 é sobre o fim do mundo. E a culpa é toda do Lula, como lembrou o meu leitor Eduardo! Ele acrescenta: “Se no filme as imagens de TV que mostraram o Cristo Redentor caindo foram da Globo News e o repórter português só disse 'O Cristo está a cair!' e não complementou 'provavelmente resultado do PAC do governo anterior e da atual administração da Presidenta Dilma! Faltou investimento... A oposição afirma que irá convocar uma CPI para investigar o caso e promete convocar o ex-presidente Lula para prestar esclarecimento da sua gestão!', o filme foi falho, não representou bem o lado brasileiro!”.
É verdade! Esses americanos... Colocam brasileiro falando português de Portugal e narração da Globo News que não culpa o Lula! Dá pra ver que não conhecem nada de Brasil.
Veja no trailer a destruição em massa causada pelo governo do PT.

CRÍTICA: 2012 / Nem vulcões e tsunamis salvam o fim do mundo

Na minha rua isso não acontece.

Fui ver 2012 sozinha, chuif, porque o maridão está disputando os Jogos Abertos de SC e não tive tempo de convocar algum amigo. O cinema estava lotado, e, ao sair, vi que os ingressos pra sessão seguinte haviam se esgotado. Talvez eu esteja exagerando, mas tinha uma fila que eu não via desde Titanic (bom, pra ser justa, poucas vezes vi o shopping tão cheio. Os comerciantes não vão poder reclamar deste natal). Mas o maridão queria ver o arrasa-quarteirão da vez, e me fez prometer que eu reveria o filme com ele quando ele voltasse. Portanto, durante a exibição, eu fiquei pensando: “Ah, zuzo bem, posso ver o troço de novo. Tô até gostando, olha só aqueles cinco prédios se chocando, deve ser ótimo rever isso. Uau, que efeitos especiais massa! Terremoto, tsunami e vulcão juntos! Sem problema, vou quebrar esse galho pro maridão”. Isso até chegar ao terço final. Aí minha atitude mudou, meu bumbum começou a ficar quadrado no assento, e eu pensei cá com os meus botões: “O quê?! Não, isso tá chato demais! Não vou aguentar um repeteco!”. Na saída, minha conclusão era que o maridão teria que me tratar muuuuito bem durante no mínimo três meses ininterruptos pra que eu aturasse um “vale a pena ver de novo”.
Gente, o que é aquilo?! O que aconteceu? As críticas que li até agora não mencionam isso que ficou claríssimo pra mim: a verba do filme acaba no terço final! É sério. Ok, pode soar estranho um orçamento de 260 milhões de dólares não ir até o fim da produção, mas eu juro. As imagens mudam de definição. Não sei se é digital ou o quê, mas sabe imagem de TV? De filme chinfrim feito pra TV? É assim que ficam as imagens no terço final, intercaladas com um ou outro efeito especial do tempo em que eles tinham dinheiro. Não tô brincando não. Quer uma prova definitiva? Durante um dos clímax do filme, no final, a câmera não mostra o que acontece. Focaliza o rosto de um carinha que apareceu três vezes até então. As expressões faciais dele substituem as imagens da catástrofe. Eu não sou boba e já vi um monte de superprodução e sei que não mostrariam as reações de um coadjuvante (praticamente um figurante) se tivessem alguma imagem melhorzinha pra mostrar. Não sei se a verba acabou de fato ou se as plateias-teste reprovaram e eles tiveram que refilmar um monte de coisa, mas que na fase-destino-do-poseidon do filme entra água, isso entra.
Não que uma tecnologia de ponta do começo ao fim salvaria o roteiro no terço final, porque não tem salvação. É só clichê, e qualquer um que já tenha ido ao cinema umas quatro vezes na vida pode prever tudinho que vai acontecer, quem vai viver, quem vai morrer. A única surpresa é a última cena, que não posso descrever aqui, mas que tem um viés político forte. Isso porque o diretor Roland Emmerich (dos péssimos Independence Day e Godzilla) deve gostar de política. Seu filme anterior, O Dia Depois de Amanhã, é quase panfletário (e sou grande fã de Dia).
É pena que 2012 vai piorando, piorando, até deixar um gosto muito ruim. Porque a premissa é boa, e poderia render umas discussões acaloradas. O mundo vai acabar em dezembro de 2012, como já previam os maias. A crosta terrestre esquentará demais devido ao alinhamento dos planetas, e caput, adeus Terra (não confie no meu rigor científico). O governo americano sabe disso uns três anos antes, e o que faz? Nada muito útil: constrói, em parceria com a iniciativa privada e outros governos ricos (nenhum país da América Latina), uma misteriosa nave para tentar salvar uma parcela da humanidade. E vende passagens. Entendeu? Não é que seleciona os melhores da espécie nem nada. Infelizmente, o filme peca pela falta de humor, porque uma das cenas de venda tinha tudo pra ser engraçada. Um negociante de vagas na nave discute o preço com um sheik do petróleo: um bilhão. E o sheik tenta negociar, diz que tem uma família grande, e que um bilhão de dólares por pessoa é um tanto quanto salgado. E o negociante corrige: que mané dólares? Um bilhão de euros! E não sei quanto a você, mas pra mim fica estranho que alguns poucos personagens do filme façam discursos comoventes sobre como devemos salvar o máximo de gente possível... e os escolhidos são todos bilionários! Lembrei daquela fala do John quando os Beatles fizeram um concerto prum público rico (“Queria pedir um favor para a nossa última música: as pessoas nos assentos mais baratos, batam palmas. E o restante de vocês, se vocês pudessem apenas chacoalhar suas jóias..."). Parafraseando, eu pensei em: “Quem quiser entrar na nave, por favor, chacoalhe suas jóias”. E não estou revoltada só porque eu seria extinta! (se o critério de seleção fosse os melhores da espécie, eu ainda teria alguma chance... not!).
Um tema legal seria discutir se o governo deveria avisar a população mundial com antecedência. Avisar pra quê, se o mundo vai acabar? Pra Lolinha poder se empaturrar de chocolate sem culpa? Não, o filme sugere que é pra que as pessoas possam se despedir de suas famílias. Daria um outro filme, né? O que aconteceria se todo mundo soubesse que o planeta tem prazo de validade pra terminar? Seria o caos, suponho. Ou seja: não daria pra anunciar. Ignorance is bliss, é isso?
Como este texto tá longo demais, pra variar, continuo depois. Mas, pra terminar, você quer ouvir as más ou as boas notícias primeiro? Ok, as más: não sobra um só brasileiro pra contar a história. Nem o Antonio Ermírio. As boas? Os argentinos sumirão da face da Terra. Essa eu já devo ter contado umas 2012 vezes. O fim está próximo, irmãos.Divulgação de 2012 em estação de metrô no Rio. Melhor que o filme.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ADENDO AO POST SOBRE BICHINHOS QUE (NÃO) COMEMOS

Eu, hein? Pensei que quase todos vocês ficariam indignados(as) com a ideia de comer carne de cão e gato. Mas não, vocês estão aí dizendo que dá na mesma. Alguns, porque são vegetarianos e defendem que nenhuma carne deve ser consumida. Outros, porque são carnívoros e, já que se come um animal, que comam-se todos. Acho esses dois argumentos muito estranhos.
Vamos ao menos concordar que o que comemos é um ato socialmente construído (como todos os nossos hábitos e gostos na vida)? Então vamos. Aprendemos desde pequenos que comer isso é aceitável, e aquilo é nojento. O que não quer dizer que não possamos reaprender, lógico. Pouquíssimas crianças são criadas como vegetarianas, e, no entanto, várias viram vegetarianas quando adultas. Mas ser vegetariano, assim como ser carnívoro, é outra construção social (e o exemplo do sushi é péssimo! Quer construção social maior que aprender a comer peixe cru? Na minha infância, sushi nem existia no ocidente. Foram os yuppies que o transformou peixe crue em moda a partir dos anos 80. Sushi é um prato caro, está ligado a status. Pra fazer parte de um clubinho algumas pessoas reaprendem qualquer coisa. Com todo respeito aos comedores de sushi).
Gostar de animais para companhia também é um ato socialmente construído. Nojo de insetos, idem. Talvez, se os adultos deixassem, as crianças adotariam insetos inomináveis como bichos de estimação. Graças aos bons céus, elas aprendem que cães e gatos são muito mais fofinhos, companheiros, simpáticos e limpos que insetos. E aprendem que bichos de estimação não se comem.
Eu já disse que a maior parte de nós só pode comer carne se não tiver que pensar de onde vem essa carne. Uma coisa é ver o bife embalado, ou, melhor ainda, pronto no seu prato (tem gente que detesta cheiro de carne crua); outra é ver uma pobre vaquinha ou boi, seres lindos e totalmente inofensivos, ser esquartejada. Não sei quanto a vocês, mas eu, pessoalmente, fiquei uns meses sem comer carne suína depois de ver Babe, o Porquinho Atrapalhado. E um ano sem comer frango após ver uma vizinha matando uma galinha (e notem os eufemismos que criamos pra nos distanciar da comida: a gente não come porco, come carne suína!).
O Brasil mudou radicalmente nas últimas décadas e hoje é um país urbano. A maioria de nós vive em centros urbanos, não rurais. O que isso significa? Que podemos passar anos, senão a vida inteira, sem ver um porco, galinha, ou vaca ao vivo. Vocês já chegaram bem perto de algum desses bichos a ponto de poder tocá-los? Eu não. Tenho a impressão que, se nós estivéssemos num sítio, e fossemos apresentados ao leitãozinho que em breve seria sacrificado para satisfazer o nosso paladar, não aceitaríamos comê-lo. Seria violento demais saber que aquele bichinho querido teve que ser morto pra nos render uma refeição.
Lembro de quando eu e o maridão visitamos Chinatown, em Nova York, no começo do ano passado. Ao passar por um entre inúmeros (e bons e baratos) restaurantes orientais, o maridão parou diante de uma vitrine e me fez observar uns belos peixes, coloridos e vivos, do outro lado do vidro. Ele não tinha se dado conta que o esquema do restaurante era que você escolhia o peixe, vivo, que iria comer. Eles o tiravam do aquário e o matavam e o preparavam pra você. Eu não como peixe, mas não aguentei olhar praqueles peixinhos nos seus últimos minutos ou horas ou dias de vida. Aquilo estragou o meu dia.
Se estamos acostumados a conviver com cães e gatos e amá-los, porque fomos ensinados a fazer isso, e se não precisamos ver os bichos que comemos (galinhas, porcos, vacas), não dá pra dizer de forma alguma que “tanto faz comer um cão ou gato quanto qualquer outro bicho”. Não é igual. Fomos programados pra aceitar um modo de vida e não o outro. Uma desprogramação não é nada fácil.
E quem falou que é desejável? É isso que queremos: comer todos os bichos? Fazer campanhas para que viremos vegetarianos me parece mais realista, e mais humanitário, que essas bravatas de “vamos comer cães e gatos, ueba!”. Esse tipo de conversa nem me faz bem. Meus gatos estão me olhando estranho desde o primeiro post.

MELHOR AMIGO NÃO SE COME

Uma vez, durante uma das minhas aulas de inglês pra um grupo de adultos, um aluno disse que cachorros não deveriam viver, porque ocupavam espaço demais, faziam cocô, comiam, e eram seres inúteis―e o sujeito tinha cachorro em casa! Os alunos do grupo caíram em cima. Nunca vi nada igual, e olha que nas minhas aulas sempre calhava de discutirmos algum tema polêmico (em inglês). Eles foram unânimes: aquele cara era um monstro. Foram mais educados porque era colega deles, mas a mensagem foi bem essa.
Fico feliz em saber que cães (e gatos também) têm um lobby forte. Devem ser as duas únicas espécies que nós humanos, os donos do universo, tratamos bem. Quer dizer, bem numas. Pergunte pros heróis que trabalham em abrigos animais, recolhendo e cuidando de cães e gatos, como esses bichos são tratados. São torturados, mutilados, atropelados no trânsito, abandonados na rua. Bichinhos queridos que só querem o nosso bem, que alegram tanto um lar. E ainda assim, comparado ao modo que tratamos outros animais, cães e gatos são privilegiados.
Lembrei desse meu aluno anti-cachorro ao ler a coluna do André Forastieri. Ele escreveu que come qualquer coisa e que provaria carne de cachorro sem problemas. Estava se referindo àquele caso terrível do abatedouro clandestino que recolhia cães de rua em SP e depois vendia a carne para coreanos. Na realidade, me lembrei do meu aluno após ver a reação à coluna do André. Trezentos e poucos comentários, boa parte chamando-o de monstro.
Eu concordo: sua coluna foi de uma insensibilidade atroz. O que comemos é culturalmente construído. Quando somos bebês, colocamos tudo à boca. E cabe aos nossos pais indicar que esse caracol nojento aí que você tá segurando não se come, mas que, se você for rico, vai ter que encarar um escargot. Felizmente, vivemos num continente em que comer bichos de estimação é impensável.
Eu já falei um pouco disso quando defendi o PETA (People for the Ethical Treatment of Animals): que o certo seria não consumir nenhum produto animal. Mas, ao mesmo tempo, se a gente não comesse porcos e vacas, eles estariam quase tão extintos quanto tigres e elefantes. Não damos espaço pra quem não seja humano. E até nisso há divergências.
Olha, só sei de uma coisa: eu queria ter sido criada pra ser vegetariana. Mas vamos pelo menos garantir uma existência digna para cães e gatos? É o mínimo que podemos fazer pra fingir que levamos a sério essa palavrinha, nossa humanidade.
Mais aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O FILHO DE FHC E O SILÊNCIO CÚMPLICE DA MÍDIA

“Se a mídia me blindou? Só um pouquinho, quase nada”.

Pena que a grande imprensa brasileira não tenha um pingo de autocrítica, porque seria interessante saber o que ela tem a dizer sobre o fiel silêncio com que encobriu o filho bastardo de FHC. Eu li sobre o caso pela primeira vez numa reportagem de capa da Caros Amigos de abril de 2000. Não conseguia acreditar: como assim, FCH tem um filho fora do casamento? Como assim, todo jornalista sabe do caso, e ninguém noticia? Ué, um fato desses não é notícia?
Depende. Vamos imaginar se fosse Lula quem tivesse um filho ilegítimo: seria notícia? Sobre a vida de Lula a gente sabe absolutamente tudo. Lula perdeu as eleições de 1989 pra Collor por uma margem mínima de votos, e eu insisto que isso de deu por três motivos: 1) a manipulação da Globo na edição do último debate entre os candidatos, claramente favorecendo Collor; 2) imagens dos sequestradores do Abilio Diniz vestindo camisetas do PT que a polícia do Fleury os forçou a vestir (eles não tinham nada a ver com o PT; sequer eram brasileiros); e 3) o depoimento (pago) de Miriam, ex-namorada de Lula no horário eleitoral do Collor, dizendo que Lula tinha pedido que ela abortasse e que ele era racista. Esse depoimento foi amplamente divulgado pela mídia, num dos maiores golpes baixos de qualquer eleição no mundo (deve ter sido lindo pra Lurian, filha—sempre reconhecida—de Lula com Miriam, ouvir que seu pai queria um aborto).
Toda a grande mídia apoiou Collor no segundo turno. Alguns, como Roberto Marinho, fizeram isso mais publicamente que os Frias da Folha, os Civita da Abril, ou os Mesquita do Estadão. Mas foram todos. Eles morriam de medo que o PT ganhasse. E esse apoio não se dava apenas na escolha de fotos mais favoráveis a um candidato, na edição de debates, ou em capas que mais pareciam material de campanha, mas também num silêncio cúmplice. Collor não tinha um passado nada exemplar. Havia sido um playboy viciado em cocaína e que, direta ou indiretamente, estava ligado ao estupro e à morte de uma menina em Brasília. Como que eu sei disso? Não graças à imprensa brasileira, que não abriu o bico. É que a Vanity Fair publicou uma vasta reportagem investigativa sobre o candidato (o que ela não descobriu é que Collor tinha um filho não-reconhecido fora do casamento). Os americanos sabiam mais sobre a vida pessoal do nosso presidente do que a gente! A gente só sabia sobre a vida pessoal do Lula.
Mas claro que os jornalistas brasileiros sabiam sobre o Collor. Eles leram a Vanity Fair. Só não podiam, ou não queriam, falar. A mídia não morria de amores pelo Collor, não. Sabia que ele era perigoso e pouco confiável. Só o apoiou porque apoiaria qualquer um contra o Lula.
Já com FHC foi diferente. Esse a mídia gostava, não precisava fazer esforço. Então óbvio que não iria sair uma linha sobre o filho ilegítimo do cara. Todos os jornalistas sabem desse fato desde 1991, quando nasceu o menino. Inclusive porque o romance de FHC foi com uma jornalista da Rede Globo, Miriam Dutra (essas Mirians!). Uns dizem que FHC circulava à vontade com Miriam antes d'ela ficar grávida, apesar de casado com Ruth Cardoso; outros que eles se encontravam no apê do Serra. Quando ela engravidou e lhe comunicou, ele não gostou, lógico. Como ela não quis abortar, o jeito foi fazê-la desaparecer. Como? Mandando-a para o exterior, para sempre. A Globo a enviou para ser “correspondente”da emissora em Portugal, depois na Espanha (eu ponho correspondente entre aspas porque, sinceramente, você já viu alguma matéria feita por ela? Eu não!). Tomás hoje tem dezoito anos e, dizem, FHC vai finalmente assumir a paternidade (ele desmentiu essa notícia, dada na coluna de Monica Bergamo. A primeira vez que sai na grande imprensa qualquer palavra sobre o filho de FHC!).
O caso é um pouco mais grave porque extrapola os limites pessoais. Sabe, não foi FHC que fez Miriam sumir do mapa. Foi a Globo. Por que fez isso? Pra poupar FHC, claro, porque gostava (e continua gostando) dele. Mas também não podia ser pra exercer algum tipo de influência, uma tentativa de chantagem? Algo como: se você fizer alguma coisa contra nossos interesses, a gente pode fazer uma matéria bem interessante sobre você. De um jeito ou de outro, FCH retribuiu o favor. Foi um cordeirinho com a Globo e com toda a mídia. Quando ainda era ministro da Fazenda, isentou de CPMF todos os meios de comunicação. Em 2000 houve o Proer da Mídia, que custou entre US$ 3 e 6 bilhões aos cofres públicos. Ele também mudou a Constituição para permitir que a mídia brasileira, então falida, pudesse contar com 30% de capital estrangeiro. E autorizou que o BNDES fizesse um empréstimo milionário à Globo.
O Brasil não é tão fascinado como os EUA pela vida pessoal dos seus homens públicos (e note que a palavra aqui é homens mesmo, porque quando é mulher é diferente, é só ver tudo que foi falado da Marta Suplicy e da Erundina), e isso é bom. Mas se não fala do filho de um, que não se fale de nenhum, né? Porque vamos recapitular: Lula era viúvo quando teve o caso com sua Miriam. Nasceu Lurian, ele reconheceu. Toda a grande mídia falou disso, em tom de denúncia. FHC era casado quando teve o caso com sua Miriam. Ele não reconheceu o filho. Durante 18 anos, não saiu uma palavra na mídia, que ainda deu uma ajudinha pra fazer Miriam sumir de cena. É, um tratamento quase idêntico. Paranóia minha achar que a mídia é partidária.

P.S.: Azenha faz algumas perguntas pertinentes. Paulo Henrique Amorim resume o episódio com humor.
P.S.2: E eu juro que li em blogs de direita comentários como “Que orgulho ele deve ter por ser fiho do FHC!” e “Isso só aumenta meu respeito pelo homem”.

domingo, 15 de novembro de 2009

PIADA DO DIA

Este ótimo post eu li no Cloaca News. Leva o adequadíssimo título “Estão zoando com a nossa cara”.
Outro dia uma leitora indignada quis saber de onde tirei essa história absurda de que a mídia favorece (eufemismo do dia) a oposição e faz campanha sistemática contra o governo. Segundo a leitora, que provavelmente não lê jornais, essa "minha" tese carecia de provas: a mídia é neutra e imparcial, pô!
Vamos fazer um breve exercício de imaginação: imaginem por um minuto que o desabamento de três vigas recém-colocadas tivesse ocorrido numa rodovia federal. Ou em alguma rodovia governada pelo PT. A culpa seria imediatamente do Lula e a mídia não falaria em outra coisa, né? Exigiriam até uma CPI da Estrada. Mas, como aconteceu em São Paulo, estado governado há quinze anos pelo PSDB, a culpa é dos estudantes de Engenharia, que aparentemente não estão muito preparados pra lidar com grandes obras.
Isso me lembra aquela vez em que a cratera do metrô abriu em SP. A capa da Veja não foi sobre esse episodiozinho à toa. Não, foi sobre como nós amamos nossos cachorros. E é verdade, a gente ama os nossos cães, mas a grande mídia ama os dela mais ainda.

CASAS INTERESSANTES EM FORTALEZA, PARTE 3

Sala de uma casa legal, no bairro de Benfica, Fortaleza.

Vou mostrar mais duas casas, ambas no Benfica. Esta tem a melhor localização de todas, realmente imbatível, atrás da Reitoria. Infelizmente, as vantagens terminam aí. O preço é alto, 220 mil (teriam que baixar muito, inclusive porque, em comparação com as outras casas, soa fora da realidade), e as fotos são as piores das piores. Tudo fora de foco, com luz estourada. Precisa ter muita imaginação pra sacar qual cômodo está sendo retratado. Isto deve ser um quarto.Mal dá pra ver a casa, que tampouco parece grande coisa. Acho que é uma cozinha.O terreno é de 150 m2, com 144 de área construída. Difícil, né? Mas semana passada uma leitora de Fortaleza que ainda não conheci pessoalmente, a Grasi, me recomendou um outro imóvel, que parece muito bom. Esse tem cinco quartos (quatro suítes), num terreno de 5,80 x 36. Eis uma parte da sala (a outra parte, com a escada, tá na foto lá em cima, que abre este post).A casa também fica no Benfica, bem o bairro que quero, mas ainda não descobri aonde. Custa 180 mil. Há uma salinha no andar de cima (daria pra fazer uma cozinha aí, se necessário).A cozinha existente já é grande pra chuchu, e notem que a geladeira nem entrou na foto. Dá pra ver que o quarto é enorme porque tem duas janelas. Mas me ajudem a desvendar um enigma. Olhem bem pra fachada da casa. Tem uma garagem grande, e o que parece ser um portãozinho pra entrar (ao lado do número da casa). Não entendi bem o que é o troço verde, mas zuzo bem.O enigma é esse: um ponto comercial. Que tá na descrição do imóvel, mas não na fachada. Então onde fica isso? Numa lateral? Porque, óbvio, a gente não quer um ponto comercial. Teria que remover essa porta de enrolar abaixo (o maridão diz que a foto foi tirada do lado de dentro do imóvel), fechar a parede, colocar uma janela, talvez. Não sei nem de que lado da casa fica isso. E também, se tem um ponto comercial, não pode querer dizer que a rua é movimentada demais? Bom, entre esses dois imóveis, acho que não preciso nem perguntar qual é o melhor. Mas comparem com os outros que já postei aqui também, se puderem. E se souberem de mais algum, mandem! Domingo que vem tem mais.

sábado, 14 de novembro de 2009

OS MIMADINHOS DA ELITE: ELES PODEM TUDO

O meu atual troll de estimação talvez não seja muito conhecido de vocês porque costumo deletar seus comentários, que geralmente são deixados aqui só pra me insultar. Mas ultimamente Oliveira tem sido um tiquinho mais comedido nos seus ataques pessoais e dito apenas as sandices que ele diz sempre. Como que no nordeste não existem pessoas inteligentes, ou que apenas donos de empresa deveriam poder votar (no início, pensei que ele estava defendendo que só pessoas com alta escolaridade pudesssem votar, mas depois ele avisou que doutores como eu também ficariam de fora do processo eleitoral). Mais que um verdadeiro democrata, Oliveira, com esses princípios, é o tipo de pessoa que a gente quer apertar forte, bem forte, até ele ficar azul com falta de ar. Anteontem, no meu post sobre algumas questões morais referentes ao caso da médica que fez um escândalo no aeroporto de Aracaju, Oliveira deixou o seguinte comentário (não corrigi, tudo sic, que pra poder votar basta ser dono de empresa, não precisa escrever direito):

"Lola: Deixa de ser tonta. As companhias de aviação fazem a gente de gato e sapato. A mulher se descontrolou pela falta de respeito. Quem tem que ouvir é o funcionário que está ali. Ele que vai levar a reclamação até os superiores. Ou você já viu um presidente de empresa aérea na área de embarque? Chamar um sujeito de nego ou gentalha não é ofensa. É uma constatação de mal atendimento que acaba em insulto por descontrole. Quem trabalha, e é profissional entende isso. Esse negócio de racismo por qualquer coisa é uma palhaçada politicamente correta de liberais de cabeça mole e coração mais mole ainda.
Aprenda a pensar. Aquela senhora, apesar do exagero que nos choca, está exigindo seus direitos e defendendo você con
tra corporações sem olhos ou coração para o cliente, porque estão distantes, então é só com o choque com o funcionário e com o escândalo, que eles podem tomar ciência que não estamos cegos a sua cafajestagem. Aquele mulher que se expôs com seu escândalo foi mais esquerda naquela hora, do que todos que silenciamos por não queres passar constrangimento, poderíamos ser por toda uma vida, inclusive você a adoradora do Lula e do PT.
Você, ‘FEMINISTA’ está atacando uma mulher que está te defendendo contra uma empresa vagabunda que te trata como cachorro. Eu sei como são estas empresas com seus erros propositais de c
onexão para te fazer perder o vôo e ter por em outro te causando os maiores prejuízos. Eu vôo toda semana várias vezes. Você com isso passou de esquerda a direita, defensora de corporações, como o todos da esquerda que sobem ao poder. Parabéns!"

Sou eu de volta! Por que publico uma besteira dessas? Porque, tirando os malabarismos finais que Oliveira faz pra dizer que agora eu sou de direita (obrigada por avisar!), seu pensamento é muito comum entre aquela turma do “você sabe com quem está falando?”.
Vamos relembrar o caso, que recordar é viver: a médica ia pra sua lua de mel na Argentina e chegou quinze minutos antes do avião decolar, mas com o check in já encerrado. Os funcionários não a deixaram embarcar e e ela deu esse piti, focando sua maior indignação num negro, que ela chamou de morto de fome, analfabeto, e nêgo. É um vídeo difícil de assitir. Como disse a Paola, brasileira que mora na Suécia, são atitudes como a desta médica que a fazem ter vergonha de ser brasileira, mais que a corrupção ou a pobreza. E o vídeo é duro de assistir porque o comportamento que mostra está muito perto da gente. Quem nunca viu uma reação assim de alguém que, contrariado, se ofende, grita, e exige um tratamento diferenciado apenas por se julgar especial? Alguns de nós, infelizmente, deve ter caído nessa armadilha e se comportado de forma parecida, ainda que sem o componente racista.
A médica não tinha motivo pra reclamar. Ela chegou atrasada. Há procedimentos de segurança que são iguais para todos. Se ela tivesse se atrasado devido a uma conexão, a empresa aérea lhe daria outro voo. Isso é padrão. Lógico que todos nós ficamos chateados em certas situações, algumas causadas por nós, outras não. Mas não adotamos comportamentos infantis como abrir um berreiro e chorar “eu queeeeeero”, e xingar quem nos diz que querer não é poder. Aprendemos isso quando crianças. Maturidade é saber que o mundo não gira ao nosso redor, é lidar com as frustrações. Mas algumas pessoas de classes sociais mais privilegiadas não entendem isso. Pra elas, o Brasil segue sendo seu playground particular. Alguma dúvida que a médica não agiria daquela forma se tivesse se atrasado num aeroporto da Europa ou dos EUA? Ou se os funcionários fossem loirinhos de olhos azuis? Ela chamaria de morto de fome alguém que ela enxergasse como seu igual? Não: ela, e tantos outros, Oliveira incluso, sabem que estão quase no topo de uma pirâmide social. E que, num país com enormes desigualdades, quem está abaixo deles não está apenas uns degraus abaixo, mas separado por um fosso. É o que possibilita que a classe média (não só daqui, mas de todos os países em desenvolvimento com abismos sociais) tenha empregada doméstica, por exemplo. Nos países ricos isso não existe, porque uma médica não ganha vinte vezes mais que uma empregada. E, sabe? Esse é um dos motivos por que são países ricos. Não porque falam inglês ou tem a pele clarinha.
O engraçado é que Oliveira não só justifica o comportamento da médica como ainda acha que eu devo agradecê-la por estar lutando por mim! Sim, destratar um funcionário que está apenas cumprindo seu trabalho certamente vai resolver o mau atendimento das empresas aéreas. Ela fez isso por nós, a altruísta! E a gente que não notou que seu comportamento foi pensado na coletividade! O funcionário deve aceitar tudo quieto, porque está sendo pago pra isso, e sem essas frescuras politicamente corretas de reclamar de racismo. E vejam só, insultar um subalterno e exigir ser tratada com “jeitinho”, como se fosse uma casta à parte, é comportamento típico da esquerda! Eu aprendo muito com meu troll.
Quanto a “atacar uma mulher”, não é porque a médica é mulher que não mereça ser criticada, ora! Eu já vi homens e mulheres se comportando desse jeito, à la “você sabe com quem está falando?”. Dá pra se criticar uma mulher sem ser machista.
E eu subi ao poder? Iuuupi! Eu nem sabia! Agora vou poder tratar todo mundo como subalterno. Funcionários de aeroporto, me aguardem! Posso também destratar meu troll em nome de um bem comum?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

CRI-CRÍTICA DE TRAILER: LULA, O FILHO DO BRASIL


Meu querido e antigo leitor Vitor (eu posso dizer antigo sem ser indelicada, porque ele é novinho), que já está morando em San Francisco, Califórnia, escreveu nos comentários de Salve Geral que ele tem certeza que o filme não será indicado pro Oscar Estrangeiro (é, eu também tenho, lamentavelmente). E que ele espera que, ano que vem, o escolhido pelo comitê brasileiro (que muda a cada ano) seja Do Começo ao Fim (o Thiago já viu o filme em primeira mão e gostou, não amou). Eu continuo com muita vontade de vê-lo. E Besouro também, seus fãs de Besouro (apesar do título. Sei que é sobre capoeira, não sobre o nojento bicho cascudo que é parente próximo daquele inseto inominável. Mas ontem eu vi na TV que tem uma cidade no Paraná infestada por besouros! Eu já sabia, gente! Toda noite pelo menos um besouro entra aqui em casa e fica esbarrando nas coisas e fazendo barulhos assustadores. O maridão pega com um copinho e o põe pra fora enquanto eu me escondo. Ele, ingênuo, crê que é o mesmo besouro que vem aqui todo dia. Eu provei pra ele que não: a gente tem uma tela verde aqui no escri, pra não ter que fechar a janela, e todo dia surgem uns três besouros escalando a tela pra tentar invadir o recinto através da frestinha entre a janela e a tela. E só em um dos dias apareceu uma lagartixa e abocanhou um dos besouros... e engasgou! O besouro era grande demais pra sua estreita garganta lagartixiana. Mas cadê os sapos dessa terra, meu deus? Onde estão os predadores naturais dos besouros? Os passarinhos bem que podiam ser bichos mais noturnos, viu?). Opa, parece que divaguei um pouquinho. Mas então, o único besouro que tá passando aqui na minha cidade é esse da Tela Verde. O outro não vai estrear nunca, infelizmente.
Oh deus, divaguei mesmo. Aham, voltando, o Vitor torce por Do Começo ao Fim pra festa do Oscar de 2011, mas eu disse pra ele que esse filme não tem perfil de Oscar. Incesto, homossexualidade... É muito tema polêmico pra uma só Academia conservadora (se bem que o grupo que escolhe os filmes estrangeiros é menos conservador). E tudo indica que ano que vem o escolhido pra representar o Brasil no Oscar será Lula, o Filho do Brasil. Lógico, se o filme for bom. E esse eu já acho que tem perfil de Oscar, porque fala, em parte, de uma infância difícil (Oscar estrangeiro adora criança), além de ser uma história verídica e contar com um personagem internacionalmente conhecido e popular, o nosso presidente. Que já não será mais presidente quando o filme concorrer ao Oscar, em fevereiro de 2011, se concorrer.
Eu já vi o trailer uma pá de vezes no cinema, e sempre me emociono. Não é a primeira vez que eu choro em trailer. Chorei em Central do Brasil, mas isso foi vendo o trailer depois de ver o filme. O trailer de Filho do Brasil é bem montado, bonito, feito pra comover. Funciona dependendo do que cada espectador acha do presidente. Os 6% ou 16% de brasileiros que o odeiam e querem vê-lo pelas costas já apelidaram o filme de, óbvio, O Filho da Mãe do Brasil, pra não escrever coisa pior neste espaço familiar. Esse pessoal acha péssimo que não façam um filme sobre FHC, aquele sim um iluminado. Por coincidência, muita dessa gente é a mesma que detesta cinema brasileiro porque cinema não deveria receber financiamento público (aliás, nada deveria receber financiamento público num Estado mínimo, nem educação, nem saúde), e porque cinema brasileiro mostra pobreza, o que prejudica a imagem do país no exterior (mas dizer aos quatro ventos que no Brasil nada presta, como essa gente faz, não prejudica). E sem falar que, eca, fazer um filme sobre um analfabeto, né? Cruzes! (O diretor de teatro Zé Celso escreveu um belo artigo respondendo ao Caetano). E o trailer ainda mostra várias imagens sindicais! Se tem uma coisa que esse pessoal odeia mais que analfabeto, é sindicalista, porque como alguém pode ousar constestar decisões patronais, sempre tão justas? Pra direita, sindicalista é tudo grevista, tudo baderneiro (estou mentindo?). Logo, dois minutos de trailer já têm o poder de levar ao vômito aqueles que chamam petista de petralha, e pede-se, encarecidamente, que essas pessoas se abstenham de ver o longa, porque os ruídos que produziriam poderiam incomodar os demais espectadores.
Já eu planejo inundar o cinema enquanto me derreto de orgulho pelo melhor presidente que o Brasil já teve. Nota 4 (em 5) pro trailer. O longa estreia 1o de janeiro, com a direita fazendo algazarra porque haverá exibições a preços populares. Inclusive, bem que podiam fazer um filme chamado Neurose, A Direita do Brasil.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

QUESTÕES SOBRE PERDÃO E CRIMES PASSADOS

O meu maridão não consegue matar dois caras ao mesmo tempo!

(Putz, escrevi este post faz uma semana, e o momento passou. Mas façam um esforço e participem, por favor!). Num comentário sobre o caso da passageira racista no aeroporto de Aracaju, a Lauren cantou a bola pra um ponto interessante: é enorme a quantidade de gente falando do marido da médica. Ele foi pateta por deixar a situação ir longe demais? (Uma coisa é certa, pra mim: ele decidiu encerrar a confusão depois que sua mulher usou a palavra nêgo. Ele percebeu que ela estava incorrrendo no crime de racismo). Será que ele anulou o casamento, como dizem alguns boatos? E, se não anulou, é porque é tão racista quanto ela? Ou a gente tem pena dele porque ele não sabia que tinha se casado com uma mulher que dá piti racista e elitista?
A Lau acha que, hoje em dia, ninguém se casa mais sem saber como é o parceiro(a). Eu tenho minhas dúvidas. Vai que o sujeito nunca tinha visto sua amada numa situação de stress. Vai que eles não passaram muito tempo juntos antes de casar (mais um argumento em favor de morar junto antes de fechar definitivamente o negócio). Vai que ele, e sua família, e seus amigos, quando estão entre eles também falam do presidente como aquele analfabeto nordestino morto de fome que nem tem onde cair morto. Tipo, não é que a gente nunca ouviu esses “argumentos” antes, é? (Vocês não me veem, mas tô aqui piscando um olho pra vocês). Porque pra quem pensa que o Brasil não presta, que é tudo um bando de analfabeto que se vende por uma bolsa-família, destratar um subalterno que supostamente se enquadra nessa categoria é um passinho. Imagino que funcionários de aeroportos lidem com gente com essa atitude de “você sabe com quem está falando?” praticamente todo dia. Deve ser um inferno. Juro que preferiria trabalhar em rodoviária.
Mas não era sobre isso que eu queria falar. Bom, uma das questões era essa mesma: é possível se casar com alguém sem a gente saber quem ela é? Ou a gente descobre novidades frequentemente (desculpe, Lau, mas acho que, pra quem é casado, a resposta é óbvia). Tá, mas eu queria falar de perdão. Não de eu ou você ou o funcionário ou a justiça perdoar a médica (ela deve pagar pelo seu comportamento, isso é ponto pacífico), mas do marido. Supondo que ele não pense como ela, ele deve perdoá-la? Se ela se mostrar arrependida e jurar que quer deixar de ser preconceituosa, o marido deve dar uma segunda chance? As pessoas podem mudar? (vocês já sabem a minha opinião pra quase todas essas perguntas, mas eu queria muito saber a de vocês).
Vamos imaginar um outro cenário. Vamos supor que o marido anula o casamento. A médica cumpre serviços comunitários pelo seu crime, paga multas pesadas, vai a grupos de discussão pra enfrentar o seu racismo, e quem sabe muda de cidade, onde ninguém mais sabe quem ela é ou o que fez. E aí ela conhece um outro rapaz. Ela está reabilitada, ok? Ela compreendeu que o que fez foi completamente errado e não pensa mais assim. Ela não tem mais nojo ou raiva de pobre. Talvez ela até vote no PT pela primeira vez na vida nas próximas eleições (outra piscadinha). Enfim, passa-se um tempinho, e o novo marido dela não sabe dessa história toda. E aí ele entra num blog de anos atrás por algum motivo e vê que a sua amada já armou um barraco desses. Ele releva isso? Fala com ela sobre o assunto? Finge que não viu? Pede o divórcio no ato?
Tenho mais perguntinhas não-retóricas pra vocês: o que serve como um bom motivo pra romper uma relação? A Lau mencionou que termina o namoro se descobre que o carinha é preconceituoso, e eu concordo (pessoalmente, eu também não poderia viver com alguém que não adora gatos e cachorros ou não sinta que a missão deles na Terra seja dominar os humanos). Quais defeitos vocês não podem aturar de jeito nenhum? E o mais importante: esses defeitos são retroativos? Por exemplo, a pessoa fez algo muito, muito errado/criminoso/terrível uma vez, e não dá pra esquecer jamais?
Na realidade, eu penso nisso desde que vi o excelente filme Marcas da Violência. Lembram? Tá lá um carinha pacato, bom marido, pai de dois filhos, sujeito bacana, lindão, já que é interpretado pelo Viggo Mortensen, e, numa ocasião estressante, em legítima defesa, ele mata―com extrema habilidade―os psicopatas que entraram na sua lanchonete. E aí o pessoal começa a ver que um homem “normal” não seria tão competente na eliminação de adversários. Descobre-se que, vinte anos atrás, antes d'ele conhecer a mulher, ele era um tipo completamente diferente. Fazia parte da máfia. Matava e torturava gente. Isso cria um grande conflito pra esposa dele, evidentemente, que desvenda algo sobre o passado do marido que nem podia imaginar. E mais não conto, vocês terão que ver ou rever o filmaço do Cronenberg. Mas isso me fez pensar: e se o maridão tivesse cometido um crime terrível vinte anos atrás, antes de me conhecer? Ele nunca mais fez nada parecido, mas o seu passado recém-descoberto é assustador. O que vocês fariam? Não em relação ao maridão, deixem de ser bobas, mas aos respectivos. E mais uma questão de ordem moral: faria diferença se ele foi ou não punido?
E só pra confundir de vez a cabecinha: e se vocês estão lá, apaixonadonas por um cara, e descobrem que, muitos anos atrás, ele foi dono da Uniban e vice na chapa do Maluf? Aí não tem perdão, tem?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FELICIDADE NÃO TEM FIM

Oi, gente ótima! Escrevo este mini post apenas pra anunciar que um dos meus top worst possible scenarios (piores cenários possíveis) acabou de ir pro espaço. A coordenadora do curso tirou o curso de Fonética de mim, acreditam?! É, ela é um anjo. Quando recebi a relação das turmas, na sexta, mandei um email pra ela. É meio cara de pau pedir pra trocar matérias antes mesmo de ser contratada, eu sei. Mas eu só mandei porque era pra ela. Porque ela foi a presidente da banca do concurso e eu a adorei à primeira vista. Eu vi como ela trata os alunos, com toda a atenção e o carinho. E entendi porque um amigo meu, que é professor universitário e agora está no meio do doutorado, a chama de sua "mãe acadêmica". Enfim, eu sabia que ela não ficaria ofendida, mas também não imaginava que ela daria Fonética pra outra professora. Eu fiquei comovida quando, anteontem, ela me mandou um email dizendo "Não se preocupe. Vou resolver o seu problema". Por que quem tem essa preocupação com alguém que ainda nem trabalha com você? E hoje ela enviou a nova lista. E não posso nem mensurar o tamanho do meu alívio por não ter que dar aula de Fonética. E a minha gratidão, né? Tipo assim, ela pode ir lá em casa em Fortaleza comer pudim de café todo dia (vou pedir pra minha mãe fazer). Eu libero o maridão pra fazer o que ela quiser (hum, talvez pra pendurar quadros ele possa ser útil, se ela não ligar pros quadros ficarem meio tortinhos e ele começar a culpar a parede se ela reclamar).
Então aquele cenário dos alunos em frente a minha porta gritando "Bur-ra! Bur-ra!" diminuiu bastante. Isso ainda pode acontecer, lógico, mas não será por causa de palato mole.

CRÍTICA: SALVE GERAL / Não é a salvação da lavoura

Andréa Beltrão e o pano de fundo.

Provavelmente o que você sabe sobre Salve Geral é que é aquele filme nacional que foi selecionado pra ser o concorrente do Brasil no Oscar do ano que vem. E, de fato, esse deve ser o maior atrativo do filme, que não vem fazendo muito sucesso. Ele está longe de ser ruim, cativa o público, tem um bom ritmo, mas não tem nada de memorável. Fala de um episódio da nossa história recente, quando a facção criminosa Primeiro Comando da Capital aterrorizou São Paulo, em 2006. O diretor Sergio Rezende (O Homem da Capa Preta, Zuzu Angel) disse, em entrevistas, que isso foi “o nosso 11 de Setembro”. Mas lógico que não foi. Se tivesse sido, mais gente se lembraria. Mesmo assim, esse cenário é praticamente um pano de fundo pra protagonista da trama. Andréa Beltrão está muito bem como uma professora de piano que precisa se adaptar a uma nova vida. Depois que seu filho (Lee Thalor) mata alguém e vai preso, ela relutantemente usa sua formação de advogada pra passar recado entre os líderes do Comando, todos presos. Salve poderia ser sobre um dos vários líderes, sobre a vida na prisão, sobre a linha tênue que separa alguns advogados que trabalham pra criminosos dos próprios criminosos, mas não é. É sobre uma mãe coragem.
Mãe coragem, pero no mucho. Quando ela se envolve com um líder criminoso jeitosinho, deixa de visitar o filho durante três semanas. Eu também deixaria, na boa. O rapaz é um mala.
Ele já era um mala antes de cometer seu crime. Fica fazendo cara feia pra mãe, que luta pra sustentá-los. Assim que ele chega na cadeia, é chamado de playboy pelos outros presos, que não sabem que ele vivia num subúrbio pobre de SP (é boa a cena em que seu amigo negro vê a casa onde o “playboy” mora e se decepciona). Depois de preso, mesmo não sendo um playboy no sentido financeiro (embora seu padrão de vida seja bem superior ao da maioria), ele se comporta como um menino mimado. “Mãe, arranja 500 pila pra mim”, e não quer nem saber como ela vai arranjar. Mãe, faz isso. Mãe, você não veio me visitar! Depois dessa, eu perguntaria: “Quem é você?” e ia embora pra nunca mais voltar.
O interessante é que, de todos os presos, o que é mais humano está longe de ser o rapaz-malinha (que sequer parece se arrepender de seu crime). E tampouco é o “Professor” (Bruno Perillo). A gente empatiza um pouco com ele apenas porque ele parece gentil e se apaixona pela protagonista. Mas o mais humano é um preso (Taiguara Nazareth), negro, bonitão, que está saindo da cadeia em condicional, mas para isso precisa colaborar com a polícia corrupta. Ele quer se reabilitar. A gente o vê chorando, acompanhando sua mulher quando ela dá à luz. Lógico, seria um outro filme se Rezende se centrasse nesse personagem. Há também um outro negro, amigo do filho da protagonista, que acredita que o que eles estão fazendo é uma revolução, no sentido político. Pena que Salve não explique melhor esse ponto de vista.
Essa talvez seja a maior falha do filme pra mim, centrar-se no lado pessoal de uma mulher de classe média ao invés de enveredar pelo lado político. É risível que, mesmo sendo apolítico, Salve tenha sido atacado como uma tentativa petista de politizar o Oscar. Na realidade, eu nem sei se foi muita gente da direita que inventou esse absurdo ou se foi apenas um paquiderme de plantão, conhecido por criar um blog anônimo pra difamar Luis Nassif (entre várias outras trollagens). Pois bem, o cara disse que Salve Geral foi escolhido pelo governo pra representar o Brasil no Oscar para manchar a imagem do PSDB em ano eleitoral. É muita criatividade pra um paquiderme conspiratório só! Quem escolhe o filme que representa o Brasil não é o governo, mas um comitê independente (que muda todo ano) composto de críticos de cinema, produtores e diretores. Ano passado um outro comitê optou por Última Parada 174, provavelmente pra falar mal do... ahn, nem sei qual o partido que governava o Rio na época. Praticamente todos os filmes brasileiros recebem financiamento público, entre eles muitos que a classe média critica por “mancharem a imagem do país no exterior”. O BNDES acabou de dar dinheiro pro José Padilha, diretor de Tropa de Elite, fazer um filme sobre o mensalão, com o sugestivo título de Nunca Antes na História Deste País. Estranho, porque eu pensava que o BNDES só dava dinheiro pra filme que falasse mal do PSDB! Enfim, se essa acusação de que Salve foi escolhido pra representar o Brasil no Oscar já era ridícula no papel, depois de ver o filme, então... Não tem nada na trama que sequer indique que o PSDB governava SP. Eu lembro de quando as notícias tomaram a mídia. As pessoas com quem eu falava aqui em SC associavam o problema da criminalidade ao governo federal, não ao estadual. Aliás, pouca gente fora de SP sabe que o PSDB governa o Estado ininterruptamente desde 95 (e nesse caso aquele argumento de como alternância no poder é algo positivo não conta).
De toda forma, duvido que a Academia indique Salve para melhor filme estrangeiro. Além de não ser uma produção marcante, não tem o perfil dessa categoria do Oscar, que tá mais pra O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (que ficou entre os oito pré-selecionados em 2007). Sabe, algum momento histórico visto pelos olhos de uma criança, perda da inocência, essas coisas.
Ah, mas eu preciso dizer que um dos meus temas preferidos de todos os tempos é apenas sugerido por Salve. Tá, você vai ver o filme e não vai entender nadinha. Mas o meu tema é esse: ter que fugir de um lugar e fingir ser outra pessoa, sem ser reconhecida, com outro nome, em outra cidade. Esses temas raramente são explorados no cinema. Tem um pedacinho do Butch Cassidy na Bolívia (mas eles vivem do crime, e, vamos admitir, um Paul Newman e Robert Redford chamariam a atenção em qualquer lugar do universo. Na Bolívia, dois americanos não passariam incógnitos). Tem um pedacinho de Dormindo com o Inimigo em que a Julia Roberts foge do marido abusivo, que promete matá-la, e vai parar num lugar do outro lado dos EUA (ele põe um detetive particular na sua cola). Nos filmes de Hollywood, quando alguém tem que fugir, cruza a fronteira e vai pro México. Aqui, temos a vantagem que não precisamos mudar de país. É só mudar de estado. A menos que saia o nosso perfil num Linha Direta da vida, acho que dá pra viver escondido, sem ninguém suspeitar. Falei sobre tudo isso com o maridão. Falamos de como mudar a nossa aparência (ele usaria barba, eu tingiria o cabelo de loira e engordaria mais ainda, porque emagrecer tá difícil). Falamos do José Dirceu, que fez cirurgia plástica pra mudar totalmente o rosto e poder voltar com outro nome ao Brasil da ditadura. Perguntei pro maridão que cidade seria boa pra se esconder, se uma pequena, uma média, ou uma metrópole. Média, ele disse. E aí sugeriu fugir pra... Curitiba! Eu fiquei indignada: “Amor, Curitiba fica a duas horas de distância de Joinville! E a gente já esteve lá inúmeras vezes. Seria inevitável esbarrar em algum conhecido”. Ele não quis saber. Eu dei graças aos céus que a gente não tenha que fugir, porque ele não duraria um mês sem ser descoberto. Mas eu, eu tenho uma mente criminosa, ha hi ha hi (risinho diabólico).
Lógico que isso não tem nada a ver com Salve Geral, mas eu precisava desabafar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O PIOR CENÁRIO POSSÍVEL E MINHA CRISE PASSAGEIRA

Gente boa, muito obrigada de coração por todos os conselhos e palavras de apoio que vocês me deram durante a minha crise existencial. Como eu disse nos comentários, uma das vantagens de ter postado sobre o meu ataque de pânico tão pessoal é que minha mãe veio falar comigo com uma reação diferente do que eu esperava. Nada de desespero. Ela disse que se solidarizava comigo, que entendia o receio em largar a vida boa que temos aqui pra nos aventurarmos numa outra cidade, que a criminalidade de Fortaleza realmente é um problema, mas, em compensação, teríamos uma vida cultural mais intensa e com mais amigos que a que temos em Joinville, e diagnosticou, talvez corretamente, que o meu medo maior era de voltar a morar numa cidade grande, mais do que de um novo emprego. E emendou que, caso eu decida que iremos permanecer em Joinville, devo avisá-la com antecedência pra ela poder se matricular nas aulas de cerâmica e pintura a tempo.
Não sei por que estou desse jeito, tão medrosa. Não tem muito o que dar errado. Quando eu me mudei de São Paulo pra Joinville, 16,5 anos atrás, em julho de 93, eu não tinha nada além da casa, que havia acabado de comprar por 7,500 dólares. Todo o dinheiro que tinha era o que sobrou dos dez mil dólares que eu havia guardado nos sete anos anteriores. Eu tinha 26 anos, não tinha diploma, não tinha profissão definida (até então eu havia sido redatora publicitária, assessora de imprensa, e revisora), e mal tinha um namorado (o maridão hesitou em vir pra Joinville e só se mudou pra cá um semestre depois, o covardão—bom, ele me ajudou com toda a mudança, mas só veio em definitivo em janeiro de 94). Ele também não tinha grande coisa: um Chevette vermelho ano 78 que pouco tempo depois começou a ter goteira, e um “patrimônio” calculado em portas de madeira (é uma longa história: a família do maridão, nos anos 80, teve um depósito de material de construção. Quando o troço fechou, o maridão teve que optar se ficava com um apartamento ou centenas de portas. Adivinhem o que ele escolheu? Isso tudo foi antes d'ele me conhecer e poder evoluir como ser humano, então o perdoo. Mas ele trouxe as centenas de portas pra Joinville, e elas ocuparam nossa garagem durante vários anos. Ainda que muitos dos móveis que ele fez pra casa tenham sido feitos usando algumas portas, podemos dizer que ele superestimou o valor de seu patrimônio). E, lógico, a gente tinha o nosso charme, a nossa juventude, e nossa habilidade de jogar xadrez (a dele mais que a minha, cof cof). Num outro post eu contarei mais sobre minha primeira atividade comercial em Joinville, prometo. Tenho certeza que realmente tínhamos pouca coisa porque, uns poucos anos depois, surgiu a oportunidade de comprar um terreno por 20 mil reais, e a gente ficou muito inclinada a comprá-lo, mas ia ficar com a conta zerada. E, apesar de chegar aqui sem nada, nunca passamos pela menor dificuldade. Somos privilegiados e sabemos disso: conseguimos emprego, juntamos dinheiro, eu fiz (nesta ordem) especialização, graduação, mestrado e doutorado.
Quer dizer, não dá pra comparar a situação que tínhamos quando chegamos a Joinville com a situação que teremos chegando a Fortaleza. Dinheiro no banco, uma casa que vale mais, mais experiência profissional, diplomas e títulos. Apenas isso já seria suficiente pra avalizar nossa mudança. Some-se a isso que pelo menos um de nós dois terá um emprego garantido com um ótimo salário, numa profissão que estudou anos para poder exercer, e o medo que a nossa nova vida possa dar errado cheira mesmo a estupidez. Mas eu sou humana, né? (ok, há divergências). E, lógico: querer mudar quando a situação está ruim (como estava quando eu vivia em SP) não é difícil. Mas quando ela está boa, ninguém quer mudança nenhuma.
O legal dos recados que vocês me deixaram é que pude ver como vários deles são parecidos com os que eu dou a pessoas em situação parecida. Então por que eu não pulei uma etapa e dei eu mesma esses conselhos pra mim? Porque não funciona assim, evidente. Mas só posso concordar com vocês: nada é para sempre, nada impede que, se algo der errado, eu me mude de novo, ou mesmo se der certo eu ainda posso me mudar e curtir a aposentadoria noutro lugar. Eu adoto sempre uma tática do worst possible scenario, mas desta vez isso me escapou, o que foi um erro. Nessa tática do pior cenário possível, eu imagino tudo de ruim que pode acontecer. Eu adoro isso porque, quando a gente pensa em termos mais específicos, menos abstratos, acaba vendo que o pior, muitas vezes, nem é tão horrendo. Claro que em certas ocasiões me falta imaginação pra pintar cenários de horror, portanto, conto com vocês. Mas e aí, o que pode acontecer de tão ruim se eu me mudar pra Fortaleza? (sem altos terrorismos do tipo “eu posso ser assaltada e como sou pão dura e nunca tenho dinheiro o ladrão pode me matar como retaliação”. Essas fatalidades mais extremas não contam. Porque senão eu usaria “eu posso ser atingida por um helicóptero enquanto estou descansando na minha casinha em Joinville”). Vejamos os piores cenários:
a) eu pego Fonética não só no semestre que vem, mas no ano inteiro. Seria horrível, mas seria a mesma disciplina. Não teria que preparar tanta aula na segunda vez.
b) eu percebo que estou muito mal acostumada e que cansei de trabalhar duro, mas isso depois de no mínimo um ano, né? Eu largo o emprego e dou aulas de inglês numa escola de idiomas de Fortaleza. Até lá o maridão já tem renda pra nos sustentar.
c) eu não me adapto a Fortaleza (e a cidades grandes em geral) por vários motivos: sou assaltada, o trânsito é caótico demais pra eu dirigir nele, algo muito ruim acontece com meu gatinho Calvin (eu morro de medo disso, porque aquele inútil sai toda noite por aqui, mas em Fortaleza haverá mais carros, mais cercas elétricas, mais perigos). Eu aguento um pouquinho mais enquanto me preparo para outro concurso numa cidade menor, e aí nos mudamos.
d) adendo ao c: não há outros concursos porque o PSDB ganha as eleições de 2010. Esse realmente é o pior cenário possível! A gente se muda pra Suécia. Ou pro Uruguai. Não, sério. A gente pode se mudar pra uma cidade brasileira mais tranquila, onde dou aulas de inglês numa escola de idiomas.
e) os alunos, revoltados com a minha suprema ignorância em Fonética, armam uma reação à la Uniban. Reúnem-se diante da minha sala gritando “Bur-ra! Bur-ra!”. Tenho que pedir escolta policial pra sair. Após sindicância interna, a UFC decide que eu provoquei quando falei de palato mole e me demite. No dia seguinte ela revoga a decisão. Eu vendo a casa em Fortaleza e, com o dinheiro, compro uma noutra cidade.
Tá, tirando o cenário da volta do PSDB ao poder, nenhum deles parece assim tão terrível.
Estou mais tranquila. A crise passou. Eu disse que minhas crises eram vapt-vupt, não disse?

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

UNIBAN VOLTA ATRÁS

A Uniban decidiu voltar no tempo. Quer dizer, mais ainda. Agora a universidade desfez sua decisão de expulsar Geisy. A pressão deve ter sido enorme, com declarações da UNE, do MEC, da ministra Nilcéa Freire etc. E isso só pra falar do pessoal mais à esquerda. O repúdio à decisão da Uniban foi quase unânime. O "quase" fica por conta dos alunos da universidade, que não veem culpa alguma no episódio e acham que Geisy é que foi culpada por manchar a imagem de uma faculdade assim tão respeitada.
Descobri ontem, sem querer, um artigo de março do Ministério Público Federal. O Ministério queria que a Uniban pagasse aos cofres públicos uma multa de meio milhão de reais por descumprir uma lei que exige que uma instituição de ensino superior, pública ou privada, tenha no mínimo 30% de seu corpo docente trabalhando em regime integral. A Uniban tinha apenas 26,5% (quanto terá meio ano depois?). Pelos critérios de avaliação do MEC, ela figura como a décima pior do país e a quarta no estado de SP. Mas, claro, maldita Geisy que foi lá denegrir essa fabulosa reputação!
Geisy chorou hoje durante uma entrevista coletiva ao lado de seu advogado. Ela quer voltar à faculdade para ao menos terminar o semestre. Ano que vem, pretende sair da Uniban. Não sei o que as faculdades privadas concorrentes estão fazendo que não a convidam logo. Será corporativismo? Todos os donos das particulares são amigos e cumpadres?
Geisy deve processar a Uniban, e tem tudo para ganhar. Ela tem um anúncio inteiro publicado em jornais de todo o estado como prova de constrangimento moral. Os muitos vídeos no YouTube passam agora a ser provas secundárias perto do absurdo do anúncio, que culpa Geisy pelo episódio. Antes podia ser difícil condenar a universidade por danos morais causados por uma turba de alunos. Depois que a Uniban defendeu a turba, fica tudo mais fácil. Voltar atrás e revogar a expulsão não muda nada. Só mostra mais uma vez que a universidade não sabe lidar com o que está acontecendo.
UPDATE: Hoje à noite houve uma manifestação em frente à faculdade, organizada pelo Movimento pelos Direitos das Mulheres e UNE (aqueles grupos que a direita odeia e que, segundo o tio Rei, não apareceram para socorrer Geisy). Alunos da Uniban vaiaram as manifestantes e gritaram coisas como “Vai trabalhar” e “Vai arrumar emprego”. Soa familiar? É igualzinho ao que os reaças gritam contra qualquer pessoa que protesta porque, afinal, gente que prostesta é baderneira e vagabunda. Sabrina Sato era uma das manifestantes, e ela usava um vestido curto em homenagem a Geisy, o que fez alunos ensaiarem um coro de “Gostosa! Gostosa!”. Um aluno que não quis se identificar justificou a incoerência em linchar Geisy e elogiar Sabrina: “Se a gente chamasse a Geisy de gostosa, todos iam achar que homem da Uniban gosta de baranga”. A preocupação com a imagem da universidade, de novo. Os estudantes preferem serem vistos como talibãs que como apreciadores de "barangas". Pelo jeito, cada aluno tem a faculdade que merece.

LOLINHA EM CRISE

Estou em crise. Não muito séria, que minhas crises nunca são muito sérias. Mas estou. E nem sei se devo revelar algo assim neste espaço, que é público, mas vocês me conhecem. Então. Na terça acordei pensando se eu quero mesmo me mudar pra Fortaleza pra dar aulas na UFC (a universidade ainda não nos chamou, mas parece que é só uma questão de tempo. As aulas começam dia 18 de fevereiro).
Financeiramente, não vale a pena ir pra lá, só a longo prazo. O maridão está ganhando bastante bem. Se a gente ficasse aqui em Joinville e eu desse umas 15 a 20 horas de aula de inglês por semana numa escola de idiomas (como fazia antes de entrar no mestrado, e voltei a fazer durante um semestre, em 2005, que foi o tempo de espera pra entrar no doutorado), mais o dinheirinho que recebo do jornal, já daria pra equipará-lo. Juntos, receberíamos por mês o que mais ou menos eu ganharia sozinha em Fortaleza (líquidos, imagino, uns 5 mil. O salário inicial pra doutor numa federal é R$ 6.700). Mas sem stress de mudança, sem ter que comprar uma casa nova.
É tudo confuso, porque já estamos em Joinville desde 1993 (não seguidamente: durante parte do meu mestrado e doutorado, eu ficava em Floripa e só vinha pra cá no final de semana. E passamos 2007-8 em Detroit). Gostamos muito daqui, temos uma vida boa, recebo ingressos pra ir ao cinema de graça (infelizmente não há muitas salas, mas pelo menos quatro novas abrirão até abril), conhecemos os lugares onde gostamos de comer, eu dirijo numa boa, e a criminalidade é baixa. Não tem isso de “separar o dinheiro pro ladrão”, como eu fazia antes de sair em SP, quando eu vivia com medo. E vocês viram que nossa casinha é fofa, arborizada, com jardim, iluminada, aconchegante.
Assim que comecei o doutorado, falei pro maridão que, quando terminasse, eu prestaria concurso pra dar aula em qualquer lugar do país. Porque o mestrado eu fiz puramente pelo prazer de estudar, mas o doutorado leva tempo pra caramba, e é um sacrifício em vários sentidos. Meu amor concordou. Tive uma sorte imensa de passar logo pro primeiro concurso que tentei, e bem numa capital nordestina, que era exatamente o que queríamos. Mas agora, chegando a hora de mudar, eu fico com o pé atrás de largar tudo aqui. Duvido que encontremos uma casa lá tão boa quanto a que temos aqui. Lá é cidade grande, e vou ter que voltar a me acostumar com a criminalidade e o trânsito caótico. Sem falar que o custo de vida é mais alto que o de Joinville. E vou ter que trabalhar muito, muito mais.
Tem outra coisa. Eu e o maridão nunca ganhamos bem, mas, como sempre gastamos pouco, praticamente todo mês conseguimos guardar dinheiro. Pelos meus cálculos, mantendo um custo de vida baixo, como o nosso, daria pra gente se aposentar em menos de cinco anos. Por mais que isso pareça sedutor, nem eu nem o maridão pensamos no que faríamos sem trabalhar. Quem disse que eu quero me aposentar antes dos 50? Eu realmente não sei.
Bom, essas eram as dúvidas existenciais que eu tive ao acordar na terça (o maridão estava jogando um torneio de xadrez em Vitória, só voltou à noite), e que não se resolveram. Aí, na sexta, o departamento da UFC passou pra todos seus professores (incluindo os novatos) as matérias que cada um pegaria no semestre que vem. Vocês querem ouvir a boa ou a má notícia primeiro? A boa notícia é que minhas aulas não serão à noite. Poderei ir andando pro trabalho, se a gente não morar muito longe. A má notícia é... nem sei como dizer. Segue o diálogo que tive com uma amiga.
Eu disse: “Estou arrasada. Imagine a pior matéria que eu poderia pegar. A pior de todas, a que menos gosto”.
Ela: “Não sei... Literatura inglesa do século 11?”
Eu: “Literatura? Qualquer literatura seria uma benção! Claro que não! Fonética, foi isso que eu peguei!”. E ela, que também é da área de Literatura, admitiu que esse realmente é um baque duro.
Não vou repetir neste post que já está enorme a minha aversão por Fonética. Muitos anos atrás, antes até de entrar no mestrado, falei sobre isso. Sofri recentemente porque um dos quinze pontos do concurso era sobre Fonética. Eu me preparei; felizmente não caiu. Mas é que eu pensava que, como no concurso (que realmente era pra Literatura e Linguística) a Literatura foi privilegiada, eu iria só dar aulas de Literatura. Chuif. Fonética! Uma outra matéria é Fins Específicos, relacionada à Leitura (outro tema linguístico). E só minha terceira disciplina será de Literatura.
Falei com uns amigos do meio universitário, e eles disseram que é assim mesmo, que ninguém pega as matérias que quer no primeiro ano, mas que depois melhora. Que em qualquer universidade que entrasse, eu teria que dar aulas sobre temas não totalmente do meu agrado. O maridão falou que não quer nem saber de frescuras e que confia em mim para garantir-lhe uma bela rede na praia e água de coco, e até deu um bom argumento: numa escola de línguas também haveria turmas difíceis (é verdade, eu sempre preferi mil vezes dar aula pra turma avançada que iniciante). Meus amigos ainda afirmaram que, se eu não assumir o cargo, a universidade perde a vaga, pois não terá tempo hábil de realizar outro concurso. E os temores de sempre sobre como não teremos mais contratações ou novas federais se o PSDB voltar ao poder.
Depois fui ver a grade curricular do curso de Letras Português e Inglês da UFC e constatei que há poucas disciplinas referentes à Literatura em Língua Inglesa (veja aqui). E mais: lá não há pós-graduação em Literatura em Língua Inglesa, só em Linguística. Logo—e não sei se estou sendo ambiciosa ou lunática demais—eu e meus colegas simplesmente teremos que abrir um curso desses. Ou vai ou racha.
Bom, estou melhor e mais otimista depois de falar com meus amigos, mas minhas dúvidas existenciais vão e voltam. Minha mãe vai ter um treco ao ler isto, porque ela nem sabia que correu o risco de não ir pra Fortaleza... Claro que eu ainda posso ser reprovada nos exames médicos. Já contei que vi meu raio x das costas, e veio escrito “alterações degenerativas da coluna dorsal”? Minhas costas começaram a doer no ato, e olha que eu raramente tenho dores! Quando o maridão voltou do trabalho eu já tava falando de não ser aceita pela UFC e de me aposentar por invalidez. Ele falou pra eu googlar o troço, e, de fato, eu ainda não me tornei uma completa inválida. Parece que todo ser humano tem essas degenerações, por sermos bípedes. Aqueles em idade mais avançada como a minha têm mais.
E sim, tenho ciência que estou reclamando de barriga cheia e coluna degenerada: vou receber um super salário, morar numa cidade linda, e trabalhar numa ótima universidade. Bem melhor que ser professora na Uniban, eu sei, eu sei.

domingo, 8 de novembro de 2009

CASAS INTERESSANTES EM FORTALEZA, PARTE 2

Vista do estádio no bairro de Benfica (opa, estádio é problemático).

Sei que os ânimos estão exaltados com o negócio da Uniban, mas como no domingo eu sempre tento colocar um post mais levinho, vou continuar com a minha saga dos imóveis que ando vendo (apenas virtualmente) em Fortaleza.
Esta casa parece muito boa, e o preço está um pouco abaixo do mercado, “só” 150 mil. Mas não sei nada sobre ela, nem a área total construída, a área do terreno, nem o endereço exato, só que fica no bairro que procuro, Benfica. A descrição diz que “o imóvel tem duas salas, cinco quartos (sendo quatro suítes), todos os banheiros com blindex, cozinha planejada, WC social e escada no granito”. Esta é a cozinha, e parece boa. O que me preocupa é que aquilo lá no canto é uma máquina de lavar roupa, né? Essa é a área de serviço? Tem uma sala bem bonitinha, com uma ótima escada. São dois quartos na parte de cima, pelo que entendi. E mais detalhes não tenho. Pra piorar, a imobiliária responsável por esta casa não parece das mais competentes. Já mandei dois emails pedindo mais detalhes e até agora, nada. O dinheiro que estamos pretendendo gastar com tudo, não sei se estou fora da realidade, é uns 80 mil. A gente venderia a casa daqui por uns 115 a 120 mil, líquidos, e compraria uma casa de 170 mil em Fortaleza. Mais a mudança, reforma na casa, compra de móveis e tal, daria uns 80 mil no total que teríamos que desembolsar (uns 50 mil pra casa e 30 mil pro resto).
um corretor que parece ser o mais competente. Eu falei pra ele o que queria, e ele, que tem uma imobiliária em outro bairro, no Cambeba, foi até o Benfica, andou por lá, encontrou umas casas à venda, e me mandou as informações. Bem razoáveis. Esta custa 170 mil, tem um terreno de 11 x 21, e três quartos. Não parece muito grande. Eis parte da cozinha. O que não gostei é que todos os pisos da casa são diferentes. Não tem um piso igual. O maridão diz que não liga pra isso.Ainda vou ver muitas casas quando eu chegar lá. A Manu, inclusive, mora nessa região e prometeu me ajudar a procurar. Sem falar que a mãe dela foi corretora de imóveis. Se vocês tiverem alguma outra dica, sou toda ouvidos. Não acabou! Tenho mais casas pra mostrar. E aí, qual o veredito para essas casas aqui?