segunda-feira, 22 de setembro de 2014

UM DEBATE SOBRE PROPAGANDA ERÓTICA

Semana passada participei de um debate interessante na Publicidade da UFC.
Uma equipe de alunos da disciplina Laboratório em Publicidade desenvolveu uma campanha para uma doceria (fictícia?) chamada Deleite. O tema dessa campanha era apelo sexual e erotismo, para testar os limites. No primeiro momento, a equipe postou peças com mensagens eróticas mais suaves nos corredores daquele prédio da universidade. 
Depois foi intensificando, deixando o conteúdo cada vez mais agressivo, sempre associando mulher a algo comestível. A reação dos alunos foi variada, como sempre: alguns ficaram indiferentes, acharam que não era nada demais. Uns ignoraram, outros gostaram. E alguém afixou um cartaz escrito à mão onde se via "Doceria machista" (parabéns, meninas!).
No último momento, a equipe inventou que a campanha foi interditada pelo Conar, órgão regulador da propaganda no Brasil. Eu comentei com a professora que eu duvidava muito que o Conar proibisse aquela campanha, mas ela achou que proibiria sim. (Agora que vi a peça, vi que eles alegaram suspensão da doceria pelo Ministério Público). 
De toda forma, foi um teste bem bacana, que mexeu com o pessoal. E, pra finalizar, a equipe organizou um debate. Chamou o diretor de uma agência, a gerente de uma sex shop, e euzinha que vos fala.
O diretor de uma das maiores agências de propaganda do Ceará (recebeu o título de agência do ano em 2013) começando mostrando algumas peças produzidas por ele. Uma era de um tocador de dvd que abria e fechava, cada vez mais rápido. 
Outra -- segundo o diretor, o comercial mais premiado da história cearense -- é de um lubrificante íntimo. Mostra um palito de dente quebrado, parecendo duas pernas. Uma gotinha é posta em cima do palito, e as "pernas" se abrem.
Noutro comercial, este para um motel, um funcionário da limpeza passa o aspirador num museu, quando percebe que dois quadros (um de uma mulher nua, outro de um homem de terno e gravata) estão juntos, empilhados. Ele separa os quadros, mas eles se aproximam novamente. A mesma campanha tem um outro comercial, desta vez com um porta-retrato de Van Gogh entre dois quadros de nus femininos.
Num comercial da agência para outro motel que tem suítes temáticas, vemos uma mulher sem rosto, de quimono, tocando um instrumento. Há várias versões, uma para cada suíte.
O diretor também exibiu diversos outdoors feitos para aquele motel. Por exemplo, para a suíte inglesa, a chamada era "Pontualidade britânica. Venha tirar o atraso". Para a suíte italiana, o usado-à-exaustão "Quem tem boca vai a Roma". Para a suíte americana, um "Yes! Yes! Yes". Tudo bem. Mas qual a chamada pra suíte japonesa? "No Japão você come com dois pauzinhos". Essa peça foi a que mais recebeu risos dos alunos presentes que lotavam a sala.

Quando foi a minha vez de falar, eu elogiei as campanhas da agência, que anunciavam produtos relacionados a sexo (motéis, lubrificantes, vídeos eróticos) sem apelar para a cansativa objetificação da mulher.
Falei que as peças eram boas, "com exceção do outdoor pra suíte japonesa, que é racista". O diretor ficou ofendidíssimo com a acusação. Disse que a maldade estava nos meus olhos. Eu expliquei que associar japonês com pênis pequeno é racismo, assim como associar negro com pênis grande também é. E que eu tinha certeza que ele fez essa associação ao falar de "pauzinhos" pra suíte japonesa.
Expliquei também que, embora eu tenha sido redatora publicitária em outra reencarnação, a propaganda em geral, do jeito que é feita, se choca com os movimentos sociais, principalmente com o feminismo. Afinal, a publicidade trabalha com estereótipos para passar mensagens rapidamente identificáveis, enquanto o feminismo questiona e desconstrói esses mesmos estereótipos.
Eu também disse que o feminismo ensina a ver o mundo com outros olhos. Tipo: a gente vai a um museu (como o museu mostrado no comercial do motel) e nem percebe que quase todas as representações femininas são de mulheres nuas. E que quase todos os artistas que pintaram essas mulheres eram homens. 
Mencionei a excelente campanha de um movimento chamado Guerrilla Girls, que luta contra o sexismo nas artes. O que elas falam é basicamente que a única forma de uma mulher entrar num museu é tirando a roupa. Porque menos de 5% das artistas na seção de arte moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.
Ninguém precisa cursar Publicidade ou trabalhar na área para perceber que o corpo feminino é usado pra vender tudo e qualquer coisa. No debate, citei o caso de uma revendedora de motos, que ano passado pôs uma moça de shortinho e os dizeres "Compre que eu dou pra você". Abaixo, em letras diferentes, menores, vinha o que a mulher iria dar: o emplacamento grátis. Só isso já deixava evidente que o consumidor-alvo não era o público feminino.
Mas eu fiz mal em mencionar esse exemplo, porque o diretor da agência ficou com ele na cabeça. Pelo jeito, era o único modelo de anúncio machista que ele tinha ouvido falar. E o debate enveredou por uma direção que, valha-me deus, viu? Dali em diante o cara não falou mais nada minimamente inteligente. Ele disse que mulheres bonitas tinham que ser mostradas, porque é natural, todo mundo gosta, é assim que as coisas são, foram e sempre serão. Mas que isso não queria dizer que as mulheres deveriam sair com pouca roupa pra rua. Nessa hora o público se manifestou com um murmúrio de indignação coletiva (alunos homens inclusos).
O diretor tentou explicar que ele não via nada de errado em mulher com pouca roupa e "homens bem vestidos", mas que era perigoso pras mulheres saírem com roupa provocante, porque elas seriam atacadas na rua. Nesse momento eu tive que interromper pra apontar que eu era o completo oposto daquele cara. E não só porque ele é moralista. Nossa principal diferença é que ele acha que as coisas são naturais, e eu tenho certeza que são construções sociais. Ele vive para reafirmar o senso comum, e eu, para questioná-lo.
Ele me mostrou no celular dele um vídeo que ele considerava vulgar. Era de alguma mulher dançando funk. Eu percebi que ele, e vários alunos, consideravam que havia muita mulher objetificada na propaganda porque... elas queriam! A culpa era toda delas. Elas que se submetiam a isso. 
Eu não acreditava no que ouvia: essa galera pensa que a atriz de um comercial manda alguma coisa naquele comercial? Que foi ela quem criou o comercial? O diretor até deu um exemplo: e se a Gisele Bundchen quisesse fazer uma campanha super erótica com ela mesma, não pode? (como se a Gisele fosse criadora dos comerciais que faz! E isso vindo de um cara que tem uma agência!).
Infelizmente, uma aluna fez uma pergunta muito equivocada. Ela queria saber se a nudez feminina não era mostrada por tabu nosso, das mulheres. Que se a gente não visse como um tabu, se encarasse numa boa, não haveria nenhum problema. Eu respondi que, pra começar, não é tabu mostrar mulher nua. Tanto que a nudez feminina é mostrada a torto e a direito. Mas que a colocação dela me lembrava essas do pessoal que diz que "racista é quem protesta contra o racismo", que é um pessoal que acredita que racismo não existe, e se incomoda quando alguém fala o contrário.
Uma outra aluna (acho que se chama Gabriela), no entanto, foi no ponto, e perguntou pro diretor por que ele era contra mulheres com pouca roupa nas ruas, mas a favor de mulheres com pouca roupa na publicidade. O cara não soube responder, foi grosseiro com a menina, e depois teve que pedir desculpas, alegando o stress dos últimos dias.
Foi também muito legal um aluno mencionar a campanha dos homens pin-ups, já que isso serve para desconstruir estereótipos. Por que achamos ridículas essas poses para homens, mas não para mulheres?
Agora já esqueci as muitas outras asneiras que o diretor falou. Uma foi que ele ficou indignado quando, dez anos atrás, a Globo deixou de passar um prometido beijo gay no final de uma novela, então ele quis fazer um comercial que mostrasse esse beijo. Porém, segundo ele, não encontrou dois rapazes dispostos a se beijarem diante das câmeras. Sua conclusão foi que os maiores homofóbicos eram os próprios gays.
Eu perguntei pra ele se não podia ser que os rapazes não quisessem se beijar por medo da reação de uma sociedade homofóbica, e não porque eles fossem homofóbicos. O diretor respondeu que podia ser isso também.
Alunos do 6o semestre, responsáveis
pela campanha da Deleite
Na minha hora de concluir, eu tive que falar que não estava muito acostumada a ouvir aquele tipo de discurso ao vivo. Na internet é o habitual, lógico, mas no meu dia a dia, no trato com alunos, eu lido com gente disposta a pensar, de mente aberta, jovens críticos e questionadores.
Espero não ter sido muito grossa.

domingo, 21 de setembro de 2014

CURSINHO DE PRECONCEITO EM FORMA DE PIADA

Sobre piadas preconceituosas nos cursinhos (e o combate a elas), surgiram muitos comentários interessantíssimos:

"No ensino médio, eu tive um professor de história que era excelente. Engraçado, divertido, sabia prender nossa atenção e... pasmem! Não fazia piadas preconceituosas. Meldels, como pode alguém conseguir ser divertido e engraçado sem apelar pra piadinhas racistas/ homofóbicas/ machistas/ whatever? Ele conseguia. É uma questão de usar inteligência, criatividade, de saber inovar e pensar em formas diferentes de fazer humor. Tem que usar a cabeça, os neurônios, raciocinar. Quem não tem nada disso, apela pra essas piadinhas idiotas porque são mais fáceis. 
Agora vai aparecer um monte de reacinha mimado falando que não pode fazer piada com mais nada, mimimi, estão acabando com o humor, mimimi, politicamente incorreto está estragando tudo, mimimi... porque na cabeça desse povo, a única forma de humor que existe é aquela que ofende as pessoas. Parece que seus cérebros minúsculos não podem pensar em nada diferente disso. 
E na boa... desde quando fazer piada com grupos oprimidos é revolucionário e politicamente incorreto? Se não me engano, as pessoas vem fazendo isso há séculos, não tem nada de original nisso. Qualquer ameba consegue fazer esse tipo de humor e qualquer ameba é capaz de rir dele." (Mallagueta Pepper)

"Eu tive uma experiência bastante ruim no que se refere a preconceitos. Mas eu precisava tanto das aulas (só fazia porque tinha bolsa) que seguia em frente, um dia de cada vez. 
Uma vez teve um professor que resolveu brigar com um aluno que o provocava. O sujeito o xingou de 'filho da puta' e disse 'sua mãe está dando'. Claro, porque pra ofender um homem é a sexualidade da mãe dele que vira alvo.
Acho que o mais grave que aconteceu comigo foi um professor (o mesmo que havia achado surpreendente eu responder algo certo por ser mulher) ter me coagido a dar um beijo num moleque aniversariante. Eu não queria; mas ele insistiu tanto, disse que era só um 'ósculo', e eu acabei beijando só pra aquele tormento acabar. Hoje percebo que isso foi um abuso." (Patty Kirsche)

"Quando eu fiz cursinho, na Fortaleza do ano 2000, um professor de literatura ao 'analisar' o conto 'Preciosidade', de Clarice Lispector, disse: 'se eu passasse em um beco de madrugada e encontrasse uma mulher, eu também dava pelo menos uma dedada... Quem não daria, se não tivesse ninguém olhando?'. Aquilo me causou profundo mal-estar de imediato, e me senti bem pior quando a maior parte da sala riu. Nunca esqueci. Obviamente, hoje, eu não me calaria como me calei (e baixei a cabeça) há 14 anos." (Anônimo)

"No Anglo Tamandaré, as piadas preconceituosas eram frequentes e até incentivadas pelos professores. Lembro como era humilhante ouvir a sala toda cantando a 'música da visita', destinada a garotas de outras salas que vinham assistir à aula de determinado professor. Era uma letra cheia de xingamentos e convites a situações de caráter sexual. Imagine ouvir vários garotos cantando isso enquanto batem nas carteiras e olham pra você com olhar de deboche. Eu tinha que abaixar a cabeça enquanto ouvia 'senta na ponto do meu pau' em coro. Para muitos era apenas uma brincadeira, uma piada. Para mim e para tantas outras garotas, era humilhante." (Lidia)

"Eu tive um professor de matemática que vivia fazendo piadas preconceituosas. Humilhava especialmente um aluno que tinha cabelos crespos dizendo que a mãe dele devia gastar dinheiro demais com fronhas novas já que o cabelo dele rasgava todas. O surpreendente é que a própria turma se rebelou contra o professor e formalizou uma reclamação na direção, e o cara parou de palhaçada. Foi a melhor turma em que estive, nenhum colega sofria bullying! Estudei nessa escola só um ano porque era cara demais, mas foi uma experiência legal. Mais do que conteúdo eu aprendi muito sobre respeito!" (Anônimo) [Eu: adorei este comentário porque ele mostra como alunos muitas vezes fazem bullying "inspirados" por professores].

"Em um cursinho pré-vestibular eu tive um professor que foi precursor do Marco Feliciano. Ele disse que quando Noé amaldiçoou Cam, a pele dele se tornou negra e os cabelos ficaram crespos (não sei de onde ele tirou isso), e que a religião Candomblé tem origem nisso, no filho amaldiçoado Cam, de Candomblé (muita ignorância e burrice juntas).
Um professor de geografia tão ignorante, que não sabe que uma palavra (Cham) tem origem no hebraico e nada tem com a palavra do continente africano de origem Bantu. Mas com certeza ele gostou dessa versão (por ser racista) e a adotou, sem procurar saber se era verídica. 
Mas ensinar em um cursinho pré-vestibular, enquanto ensinava sobre etnias é brincadeira. Claro que ele usou o famoso: 'de acordo com a Bíblia (uma grande mentira)'. Como aquilo me magoou, ainda mais quando lembro da expressão de deboche racista dele ao contar isso!
Pena que eu não tinha conhecimento para debater com ele na época. Fiquei chocado, mas sem saber o que responder." (Eduardo Nobre)

"Eu tive um professor de Literatura no cursinho que dava a melhor aula de todas que eu já tive na vida. Nunca precisou fazer piada com quem já era pisado todo dia. Eu fechava o livro e viajava nas palavras dele. Sensacional.
Em compensação, o professor de matemática, no primeiro dia, antes de começar a aula, 'provou' que mulher = problema. Eu, no alto dos meus 18 anos, nunca tinha namorado, poucos amigos, fiquei sem entender o porquê de eu ser um problema." (Luiza Original)

"Olha, Lola, faço cursinho no Anglo da Sergipe e posso dizer que o preconceito continua firme e forte lá. Mostrei a matéria da Folha pra uns colegas e todos a acharam ridícula e desnecessária. Antes de começar o cursinho ouvi de diversos amigos que os professores eram brilhantes, e foi impossível não me decepcionar quando comecei a perceber os preconceitos. 
A minha impressão é de que as aulas são ministradas por homens (brancos, heterossexuais, cis, de classe média-alta, o bonde da opressão todo) para garotos idem, durante as quais eles gostam de zoar aqueles seres não tão importantes: as mulheres, os homossexuais e os negros. Coisa mais comum é ouvir os profs falando coisas machistas e logo depois completar 'imagina, hein, não sou machista, é só brincadeira'. Já o racismo parte só dos alunos mesmo. Os que se incomodam com essas 'piadas' são minoria absoluta e, claro, sempre vistos como chatos estraga-prazeres." (Anônimo)

"Eu adorei ler essa notícia, trabalhei como professora de línguas em cursinhos e era um ambiente horrível. A maioria dos professores é homem e, pelo menos na época, muito machistas mesmos, não todos, felizmente. Uma vez uma amiga foi me substituir e ficou horrorizada: 'como você aguenta?'. Eu não passava muito tempo na sala dos professores para não ouvir as gracinhas, sim, além das salas de aula tinha também a sala dos professores. Eu fico muito feliz com esses jovens que reagem, que não engolem o preconceito. É bom pra todos, até para o próprio professor aprender que isso não é legal, pensar duas vezes antes de soltar a bobagem. " (Leila)

sábado, 20 de setembro de 2014

SUZANE, UMA SOBREVIVENTE DA MISOGINIA

No final de novembro do ano passado aconteceu um crime horrível. 
Suzane Jardim, uma jovem negra de 22 anos, ativista feminista, mãe de um filho de 4 anos, e estudante de História da USP, estava saindo pela terceira vez com o autônomo Luís Henrique Nogueira, de 27 anos. Por volta das três da madrugada, eles deixaram um bar em Diadema (cidade onde ambos moravam) para ir a um apartamento na Vila Mariana com Tito e Adelly, que haviam conhecido naquela noite.
Depois de um tempo no apartamento, Luis passou a agredir verbalmente Adelly, chamando-a de "piranha" e "puta". Suzane decidiu defender a mulher, e acusou Luis de ser um "machistinha". Luis a desafiou a colocar a cabeça para fora da janela e repetir. Suzane, sem se amedrontar, fez isso. Então ele agarrou os tornozelos dela e a jogou pela janela. Uma queda livre de no mínimo 9 metros.
Apesar de arremessada do quarto andar, Suzane sobreviveu. Quando a polícia chegou, Suzane, ainda consciente, contou que havia sido jogada. Luis Henrique disse que ela estava surtada, e a polícia registrou o crime como "queda acidental". Depois, provavelmente contando com a morte de Suzane, Luis alegou que ela havia tentado suicídio. Foi liberado e sumiu. 
Adelly fugiu quando a polícia veio. Encontrada dias mais tarde, relatou ao delegado que Luís havia jogado Suzane pela janela. Interrogado, Tito, o dono do apartamento, afirmou não ter visto o incidente, porque não estava no recinto. 
Suzane passou vários dias no hospital se recuperando da fratura de dez costelas, clavícula, bacia e perna, da perfuração de um pulmão, e de múltiplas hemorragias internas. Nos primeiros dias, precisou da ajuda de aparelhos para respirar. Assim que teve forças, contou o que aconteceu. Eu falei um pouco sobre isso tudo neste post.
Luis Henrique foi indiciado por tentativa de homicídio duplamente qualificado (motivo fútil e recurso que impossibilita a defesa da vítima). A prisão preventiva foi decretada, mas Luis não foi encontrado. Hoje foragido, ainda é procurado, dez meses depois. Há rumores de que ele esteja morando em Minas Gerais, usando documentos falsos. Por favor, se você o reconhecer pelas fotos, denuncie. Não só porque é terrível que uma tentativa de feminicídio fique impune, mas também porque um sujeito desses pode ser perigoso a outras mulheres. 
Publico aqui a carta recente de Suzane, uma sobrevivente da misoginia:

Caras pessoas,
Muitxs de vocês conhecem minha história. Diria até que grande parte dos meus contatos por aqui entraram em minha vida após meu caso se tornar público.
Para os que não acompanharam, relato aqui o ocorrido:
No dia 30 de novembro do ano passado sofri uma tentativa de assassinato covarde por parte de Luis Henrique Nogueira, 27 anos na época, morador de Diadema, cidade onde moro. 
O sujeito, com o qual estava saindo pela terceira vez nessa minha vida, me atirou da janela do quarto andar de um prédio localizado na Vila Mariana.
O motivo foi o fato dele não ter gostado, achado absurdo, uma afronta, por eu tê-lo enfrentado usando o termo "machistinha escroto". Fiz isso por ter me esgotado após uma noite aguentando atitudes machistas, violentas e de abuso direcionadas não só a mim como também à garota que nos acompanhava no dia.
Entrei em coma, fui levada de helicóptero ao Hospital das Clínicas com sério risco de falecimento. Sofri um hemopneumotorax (infiltração de sangue e ar no pulmão causada por perfuração), fraturas graves no quadril e fêmur, quebra de 10 costelas e outros problemas também da mesma gravidade. O responsável por isso, além de omitir socorro na hora, registrou a ocorrência como queda acidental, colocando no boletim que me joguei da janela em sua ausência.
Felizmente sobrevivi. Com muita dor, esforço e apoio de vocês, seja emocional, prático ou financeiro, pude literalmente me reerguer em um tempo extremamente rápido em relação a meus prognósticos. O ponto central desse texto é que por muito tempo me mantive calada. Fui machucada de modos absurdos pela imprensa que desde o início relativizou meu caso e a culpa do sujeito, tive que lidar com campanhas de apoio ao meu agressor da parte de pessoas da minha cidade, fora todos os problemas e dores físicas dilacerantes que eu jamais saberia colocar em palavras. 
Recentemente fui internada com uma pneumonia que não parecia nada grave; porém, como havia sofrido danos no pulmão nesse incidente, essa pneumonia tomou proporções absurdas e, mais uma vez, quase vim a óbito. Esse acontecimento me fez refletir sobre todas as sequelas que carregarei por toda minha vida graças a esse ato covarde, não só físicas como emocionais, e isso me deu uma força a mais para voltar a falar sobre o caso.
Não acredito em justiça. O sistema judiciário não está aí pra nos servir, muito menos se somos parte de um grupo oprimido. E mesmo que eu acreditasse nisso, a prisão jamais seria suficiente para que ele pague pelo que fez a mim. Se vou mexer com isso agora, não é por mim. Não é por minha dor. Não é por acreditar que com ele na prisão conseguirei paz ou terei algum tipo de vingança. Faço isso como ato político. Faço porque machismo existe e acho meu caso um exemplo claro do que ocorre com milhões de mulheres todo dia. Temos que nos sujeitar a humilhações e maus tratos para ter direito à vida e à paz. Temos que nos calar diante do opressor. Temos que pensar individualmente de modo egoísta se não quisermos sofrer.
Isso não está certo. Isso é absurdo. Enfrentei aquele homem e faria tudo de novo. Podem me chamar de burra por ter defendido a mulher que estava comigo e ter me revoltado. Fiquem à vontade. Não fiz isso por ela, na verdade. Fiz isso por mim, por minha autoestima, para meu amor próprio e até mesmo por minha segurança, por mais irônico que isso possa parecer. Ser conivente com aquela situação poderia ser sim um risco para mim no futuro e pensei sim nesse ponto naquele momento.
Hoje percebo o quanto minha história tem um poder mobilizador. Garotas de todo o Brasil vieram contar sobre seus casos, me contaram sobre como seus agressores estão livres, como foram humilhadas ao tomar a atitude de denunciar, me falaram do medo, da dor e do abandono. Senti a dor de cada uma e isso me fez perceber que não estamos sozinhas e que só o apoio mútuo entre todas pode nos fortalecer e empoderar. Agora que tenho saúde, após dez meses de reflexão, decidi me empenhar de corpo e alma em uma campanha para encontrar esse homem que pra mim representa a dor de toda mulher que anda por aí. E que é perigoso. 
Não sou uma pessoa rica, não tenho contatos na imprensa, não tenho influência alguma. Minha intenção é tornar isso tão grande quanto possa ser. Mostrar a cara desse machista para o maior número de pessoas que essa internet possa alcançar. Esse é um ato político em nome de todas as mulheres que morreram graças ao machismo. 
Suzane em marcha feminista
A todas as mulheres que não puderam provar o que sofreram. A todas as mulheres que foram tidas como culpadas, loucas, vitimistas ao tentar denunciar uma violência. A cada mulher que chorou em desespero com medo do amanhã. A cada mulher que a mídia expôs de modo leviano. A cada mulher que sonha em ser livre em um mundo seguro.
Levarei isso até o fim, nem que gaste toda minha vida e energia. Quanto mais divulgação melhor. Mascu tem que ser exposto. Agressor tem que ser exposto. Assassino tem que ser exposto. Divulguem, espalhem, entrem em contato, denunciem, se posicionem. Não apenas nesse caso, não apenas pra me ajudar a amenizar um pouco tudo o que sofri, não apenas por mim: comprar essa briga comigo é lutar por si mesma.
Obrigada.
Reportagem da Record em dezembro mostrou página no FB de Luis Henrique