quarta-feira, 20 de novembro de 2019

QUANDO A SÍNDROME DO IMPOSTOR TEM GÊNERO E COR

Hoje é Dia da Consciência Negra, uma data fundamental para ser lembrada neste país racista. Infelizmente, para os racistas este é o dia de espalhar memes do Morgan Freeman dizendo que não se deve comemorar um dia específico para a história negra.
Vermes racistas concorrendo pelo
troféu de maior racista
Vemos que o Brasil está cada vez mais racista (um presidente abertamente racista foi eleito) quando, na véspera do Dia da Consciência Negra, dois deputados fascistas do mesmo partido do miliciano competem para ver quem é mais racista. Como racismo é crime, e como esses crimes foram cometidos na Câmara dos Deputados, diante das câmeras, vamos ver o que é feito a respeito. 
Mas vamos falar de coisas boas, dar atenção a quem merece.
Publico aqui um lindo texto de Henrique Marques Samyn, professor da UERJ, coordenador do projeto de extensão LetrasPretas, voltado ao estudo e divulgação da produção literária, cultural e intelectual de autoria negra e feminina, desenvolvido com estudantes negras da UERJ. Ano passado este conceituado professor negro (é bom frisar, porque quantos professores negros você já teve?) publicou uma antologia de textos dos Panteras Negras, e tem dado palestras sobre o assunto por todo o Brasil.

“Achei que não fosse dar conta”, ela me disse, a fim de justificar sua desistência. Ela não foi a primeira a me dizer isso. No ano passado, diante do mesmo desafio -– o concurso para a pós-graduação -–, uma outra aluna me disse a mesma coisa; e eu já ouvira isso de uma terceira aluna, no ano anterior, que também me comunicava a descrença em sua capacidade de enfrentar o processo seletivo e, posteriormente, o curso de pós-graduação. 
Ouvi variações dessa fala em inúmeras outras circunstâncias. “Eu não vou conseguir”; “Eu não sei fazer isso bem”; “É difícil demais para mim”. Todas as pessoas que me diziam essas palavras compartilhavam algumas coisas. Primeiro: todas eram mulheres negras. Segundo: todas eram alunas da Uerj, universidade na qual leciono, que eu conhecia razoavelmente bem -– ao menos, o suficiente para saber o quanto eram inteligentes e competentes. 
A Síndrome do Impostor atinge mais
as mulheres, e as negras mais que as
brancas
Assim como essas alunas tinham a certeza de que não seriam bem-sucedidas diante dos diversos obstáculos com os quais se deparavam -– concursos, processos seletivos, falas em público, participações em eventos -–, eu estava certo de que elas tinham a capacidade necessária para dar conta do que lhes fosse exigido. Isso, evidentemente, não era uma garantia de sucesso: sabemos que, quando a raça entra em questão, adversidades surgem de todos os lugares possíveis. É um fato que, na sociedade racista brasileira, pessoas negras nunca são avaliadas pelos mesmos critérios que as pessoas não-negras; e é um fato que essas mulheres sabiam o quanto isso pesaria na análise de seu desempenho. Contudo, neste texto, quero me concentrar em algo anterior a isso: na antecipação do fracasso, naquilo que fez com que essas mulheres desistissem antes mesmo de tentar.
O que impedia essas mulheres negras de avaliar objetivamente seus talentos e suas competências? O que fazia com que subestimassem a si mesmas, considerando-se inferiores e despreparadas? Não é difícil encontrar a raiz desse problema na intersecção entre racismo e sexismo: no fato de que mulheres negras são sistematicamente invisibilizadas, menosprezadas e inferiorizadas nos meios acadêmicos.
Obviamente, tudo isso é o resultado de um longo processo, que começa muito antes da academia -– quando meninas e adolescentes negras têm sua autoestima prejudicada de inúmeras formas, tanto no que tange à aparência quanto no que diz respeito à inteligência. Por força do machismo, quando nossa sociedade elogia qualquer menina ou adolescente, apela recorrentemente a adjetivos associados à beleza; por força do racismo, meninas e adolescentes negras não são “elogiadas” dessa forma -– ou aprendem a reagir com desconfiança a esses adjetivos. 
E o que acontece quando essa adolescente se torna uma mulher -– mais especificamente, uma estudante universitária? Ainda que ela disponha de modelos de intelectuais negras, que hoje em dia têm alcançado algum reconhecimento (embora ainda estejamos muito longe do ideal), quão próximos esses modelos estão de suas experiências concretas? Em que medida Angela Davis, Sueli Carneiro e Chimamanda Ngozi Adichie, para citar intelectuais negras vivas e conhecidas, não são vistas pelas próprias estudantes negras como figuras distantes e inacessíveis?
Tudo isso piora quando consideramos que, nas universidades, pouco (se algum) espaço é conferido ao estudo acerca dessas intelectuais negras. Eu, professor de Literatura em uma universidade pública, sei de vários casos em que uma autora como Conceição Evaristo foi menosprezada por professoras (brancas) em plena sala de aula. Se mesmo uma escritora internacionalmente renomada e premiada tem questionado o valor de sua produção literária, como uma “mera” estudante negra pode esperar algum reconhecimento?
Felizmente, aquelas estudantes negras que me disseram as frases com as quais iniciei este texto não desistiram de seus projetos acadêmicos; elas os postergaram, mas encontraram o apoio necessário para persistir na construção de suas carreiras -– mesmo que não tenham deixado de se sentirem “impostoras”, numa sociedade que ainda encara como demasiadamente afrontosa a ideia de que mulheres negras possam ser intelectuais. 
É preciso, no entanto, pensar em quantas outras não ficaram pelo caminho; e reconhecer que, no ambiente universitário, o racismo e o sexismo permanecem fortes o suficiente para destruir talentos e arruinar carreiras promissoras.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

IDEIA RADICAL: COBRAR MAIS IMPOSTOS DOS SUPER RICOS

Cortesia de um colaborador frequente aqui do blog, o Koppe!
Ontem o dólar alcançou o valor nominal mais alto da história do Brasil (pelo menos desde o Plano Real): R$ 4,21 (claro que se você tentar comprar dólar vai pagar muito mais do que isso, mais que 4,50) e os internautas ironicamente tacaram um "Fora Dilma" no topo dos trending topics do Twitter. Afinal, bem antes do dólar chegar a 4,05 no governo Dilma, já havia criancinhas indo à manifestações pelo impeachment pedindo que a presidenta devolvesse Disney a elas. 
Mas os bolsominions têm uma explicação pra disparada atual do dólar: é porque o Lula tá solto, babaca! Se estivesse preso, o dólar estaria em 3 reais. Se Gilmar Mendes fosse impeachado, então, o dólar recuaria pra menos de dois -- como previam vários especialistas no mercado financeiro há um ano. 
E Bolso ainda debochou da alta do dólar: sugeriu a jornalistas para falar com o presidente do Banco Central, como se o presidente do Brasil não tivesse nada a ver com a história: "Dólar subiu? Conversa... Quer o telefone do Roberto Campos?" 
Já a mídia justificou a alta do dólar culpando o "cenário internacional". Não é bacana essa passada de pano? Quando o dólar subia nos governos do PT, nunca era por causa do resto do mundo. Era culpa única do PT! É meio como enchente. Quando alaga uma cidade mas o governo é inimigo, a culpa é do governo. Quando alaga uma cidade mas o governo é amiguinho, a culpa é da natureza.
Até agora não vi bolsominion defender taxar o seguro-desemprego em 7,5% do INSS. 
Mas eu que não vi, não quer dizer que não existam. Como alguém disse no Twitter esses dias, se tivéssemos internet na época do confisco da poupança do Collor, pode apostar que bastante gente apoiaria a medida. Mas até pra reaças fica difícil explicar que um desempregado deva ter, sei lá, R$ 75 descontados de cada parcela de mil reais de seu seguro-desemprego, para facilitar a vida dos patrões. 
Taxar grandes fortunas nem pensar, né? Aumentar imposto dos super ricos é tão demodé! Vamos inovar e criar impostos em cima dos mais pobres! 
Não é fake news! Em manifestação
fracassada, bolsominions bateram
continência à estátua da Havan
Alguém avisa o sinistro que, para economizar um trilhão de reais, Guedes poderia começar cortando privilégios do alto escalão dos três poderes. Mas não! Vamos tirar de quem não tem nada!
A outra notícia é que o governo quer rever a isenção da cesta básica. Bolsoguedes vem fazendo exatamente o que prometeu: governar para os ricos, deixar o Brasil cada vez mais miserável, e vender o que sobrar da destruição planejada para os gringos.
Tem que ser muito acéfalo pra defender uma ideologia dessas. 
Primeiro (e último, pelamor?) Natal do desgoverno. Uma data triste

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

AS MULHERES NA RESISTÊNCIA LATINO-AMERICANA

Graças ao golpe de Estado iniciado no domingo retrasado, já há mais de vinte bolivianos mortos e dezenas de feridos e presos. 
Uma reaça de marca maior, Jeanine Añez, se autoproclamou presidente, seguindo a moda de Guaidó na Venezuela. Cresce cada vez mais o repúdio internacional ao golpe. E, na Bolívia, as pessoas -- principalmente as de origem indígena, maioria no país -- não se cansam de lutar, apesar da polícia e dos militares atirarem covardemente, como fazem no Chile.
Aliás, no Chile, onde a luta também não cessa, já há mais de 200 pessoas que foram cegadas durante as manifestações por covardes armados e uniformizados. Houve um protesto para chamar a atenção sobre essa tática horrível da polícia (mirar nos olhos para cegar mesmo), e várias pessoas notaram como a maior parte das vítimas é de mulheres. 
Para entender o que está acontecendo e ver como as mulheres lideram essas revoluções, recomendo três vídeos curtos. Este é o discurso de uma jovem manifestante contra o golpe na Bolívia. Ela diz: "Esta bandeira [Whipala, símbolo da pátria, de origem andina] não é de um partido político. É dos nossos indígenas, que não têm lutado apenas durante 20 dias, mas durante anos, décadas, pela liberdade dos povos indígenas!"
No Chile, uma senhora desafia os carabineiros. Um deles tenta prendê-la e recebe em troca um tapa. Outras manifestantes perguntam: "Vocês não foram ensinados a respeitar?" Não, parece que não. Só ensinaram a esses soldadinhos a proteger patrimônio de corruptos e oprimir o povo. 
Ainda no Chile, uma corajosa mulher, em vez de fugir dos tiros, vai pra cima. Xinga muito, chama os militares de estupradores e torturadores, manda os caras irem jogar Playstation com seus filhos em vez de atirar nas pessoas, exige "respeito a sua própria gente", e pergunta "Hasta quando?" (até quando?).
A luta continua. Enquanto tivermos guerreiras assim, não será fácil pros neoliberais e imperialistas. 
Antes de terminar, o vice de Evo Morales, Álvaro Garcia Linera, escreveu um lindo artigo (em espanhol) sobre como o ódio racial é a mola deste golpe. Leia trechos em português aqui
Um momento de esperança: houve uma bonita manifestação ontem na Av. Paulista contra o golpe na Bolívia. Foi imensamente maior (e melhor frequentada) que o fiasco que bolsominions organizaram para pedir o impeachment de Gilmar Mendes. 
E eis um vídeo que pode vir a ser muito útil aqui no Brasil: uma manifestante ensina como fazer máscaras contra gás lacrimogêneo usando garrafas de plástico.

sábado, 16 de novembro de 2019

O PORTA-VOZ OFICIAL DA REPÚBLICA DOS RESSENTIDOS

Ontem, dia da Proclamação da República, o sinistro da Educação Abraham Weintraub, também conhecido como Weintrouble e Weintroll, elogiou a monarquia no seu Twitter. 
Até aí, nenhuma surpresa para um reaça olavete que acredita em todo tipo de teoria da conspiração. Uma internauta lhe mandou um tuíte e o sinistro, como é de seu costume, respondeu com vasta grosseria:
Não foi a única a receber uma resposta mal-educada. Para o internauta abaixo, o sinistro sugeriu que seu pai o tinha abandonado. Freud talvez explique: Weintroll e seu irmão, louco de pedra como ele, entraram em 2012 com um processo contra o pai deles, tentando interditá-lo
Este outro tuíte (não sei o que o internauta havia escrito, já que eu bloqueio o sinistro) parece uma ameaça. A Dani lembrou que Vila Alpina é onde fica um famoso crematório em São Paulo, e que é mais inconcebível ainda um judeu mandar alguém se cremar.
Pode parecer espantoso um ministro (da Educação, ainda por cima!) se comportar dessa forma, mas vale lembrar que ele foi escolhido para substituir Velez exatamente por isso. Este é o tuíte mentiroso de Bolso em abril:
Mentiroso porque Weintroll não é doutor. Ele conseguiu a proeza de passar em concurso da Universidade Federal de São Paulo sem doutorado. Foi o único dos quatro candidatos a aparecer e foi aprovado com a nota mínima (7). No verbete na Wikipedia que seu ministério tentou modificar, há uma menção a um suposto nepotismo no concurso, já que seu irmão e esposa também foram aprovados para lecionar na Unifesp.
Tuítes como este são
comuns
O fato é que o ser humano desprezível que é Weintroll representa melhor do que ninguém a mágoa que sente por ter sido desprezado pelos seus pares a vida toda. Imagina você ser um Jair, um Ricardo Salles (sinistro do meio ambiente), um Ernesto Araújo (sinistro das relações exteriores), um Weintroll (que conseguiu formar-se na USP com notas pífias), e ter sido alvo de piadas durante boa parte de sua existência. Quando -- se -- o cara chega ao poder, faz o quê? Tenta se vingar do mundo que tanto o humilhou. 
Esta é a República dos Ressentidos, e Weintroll é seu porta-voz. Seus tuítes ofensivos só provam isso. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

NÃO HÁ MAIS TEMPO PARA O JORNALISMO

Faz pouco mais de um ano, vi e guardei este excelente texto de Maria Carolina Santos, que ela publicou em seu FB em 10 de outubro de 2018. Reproduzo-o aqui hoje, porque ele diz muito sobre jornalismo, redes sociais, fake news, e como buscamos informação. Será que pras próximas eleições ainda dá tempo? 

Bolsonaro vai ganhar. Não há tempo suficiente.
E a culpa é (também) do jornalismo.
Nos últimos quinze, vinte anos o mundo mudou tão rápido que fomos engolidos. Em um momento, alguns de nós comemoramos ter acesso aos melhores jornais do mundo: The New York Times, The Washington Post, The Guardian, El País
Estavam todos ali, a um clique: a mesmíssima distância que estavam outros tradicionais como a Folha de São Paulo, o Estadão, o Globo. A gente podia ler tudo. De graça. Na internet.
Mas éramos tão poucos, e tão privilegiados, por ali.
O acesso foi aumentando e as barreiras cresceram. Surgiram os paywalls, assim mesmo, sem tradução. Você queria ler a Folha de São Paulo, clicava no link e dava com a porta na cara. Você ia ler o Times e levava uma sobrada. Você não tinha mais direito de entrar ali. Não de graça. Não sem preencher um formulário. Você desistia.
Aí você acabava entrando no Globo.com, a homepage mais lida do Brasil. Mas, ali, em meio àquelas tediosas chamadas noticiosas, tinha todo o apelo do Ego. Você ia lá, sabia da vida de todo mundo. Passava o olho pelas manchetes. Um ou outro jornal local ainda era aberto e lido: mas as matérias dos sites eram tão curtinhas, feitas ali no calor do momento, sem muito contexto. Se eram atualizadas depois, você já nem lia. Já sabia o que precisava, né.
E assim foi por anos. Saiu a homepage. Veio o Facebook.
Logo, logo, os editores perceberam: é muita coisa pra se competir. Tem o post da vizinha, da mãe, tem os gatinhos, os cachorros. O jornalismo se tornou um outdoor. E, para deixar a grama mais verde, se ia ao limite da verdade -- por vezes, além. Sensacionalismo que chamam, né?
Aí surgiu o clickbait. Tinha lá aquela chamada vistosa. Você clicava. Ia para o texto…e, bem, não era bem isso.
Mas olha só: o clickbait revelava o que você queria saber. Seus interesses, seus gostos. Isso era útil para alguém.
Milhares de sites começaram a surgir só com clickbait. Mas a verdade -- mesmo a super elástica -- não é tão atraente assim. Há dias e semanas em que não há nada muito apelativo. Em que não há uma foto com ilusão de ótica de um vestido, nem um famoso fotografado traindo a namorada.
Se a realidade não atrai, inventamos ou resgatamos algo. “Jiboia come criança -- aviso: foto chocante!”. Você resiste? Basta dois parágrafos com quatro linhas cada, uma foto de 1998 manipulada em três minutos de Photoshop. No tempo real do Analytics, 800 pessoas online. Os anúncios se desdobram na tela. Um ou outro clica. Essa matéria rendeu!
Os clickbaits passaram a ficar mais violentos: jiboia que come criancinhas parece algo fora da realidade. Mulheres assassinadas. Foto de 2000, textinho de 2015. Bota no ar: “Mulher marca encontro pelo Tinder e acaba degolada”. Aqui, tem mais sentimento: medo, raiva, pena. “Também, quem manda ir pra essas coisas…”. Ódio. Bingo.
Houve um tempo em que os dois existiram e disputaram espaços no Facebook, numa briga acirrada, que aproximava os dois. De um lado, veículos tradicionais, com posts cada vez mais sensacionalistas, cada vez mais desenhados para despertar ódio, raiva e, vez ou outra, “fofura”. Do outro, veículos bissextos, feitos para ganhar cliques e anúncios do GoogleAds, sem se importar com os fatos.
A diferença é que quando você clicava no post do jornalzão, você era barrado. 
No do outro, que você nunca tinha nem visto, você entrava. Aos poucos, você deixou de ir no jornalzão: só lia a chamada e deixava seu comentário furioso. O que você lia mesmo, quando lia, era naquele site duvidoso.
Enquanto estávamos distraídos entre o sensacionalismo e as fake news no Facebook, algo acontecia longe dos olhos públicos. O WhatsApp ganhava corpo.
Para as empresas de mídia, o WhatsApp sempre se apresentou como uma esfinge. Um potencial enorme, 120 milhões de usuários, mas como usá-lo pra notícias? Ter redatores dedicados a textos curtíssimos? Enviar o link? Na grande maioria dos veículos, era só um número para enviar alertas e sugestões de pautas. Nunca foi visto como um Facebook.
Nos grupos cabiam 200 e poucas pessoas. E, também, como faturar? Quando nos perguntávamos para onde o público do Facebook estava indo -- principalmente depois daquela grande mudança de algoritmo -- não passava pela cabeça o WhatsApp. É snapchat. É instagram. É stories.
A gente achava que o WhatsApp era só pra comunicação entre pessoas que se conhecem. Que ninguém dava importância praquelas correntes. 
Ignorávamos os “Bom dia!” e fazíamos piada de quem ficava morrendo de medo do aplicativo ser bloqueado. Devíamos ter prestado mais atenção quando víamos que as matérias mais lidas eram justamente as que falavam sobre aqueles bloqueios -- na Folha de São Paulo, uma dessas matérias rendeu 42 milhões de visualizações.
Deixado de lado pelo jornalismo, o WhatsApp foi construindo sua própria linguagem.
Não foi um estilo que surgiu do nada. Foi com os melhores exemplos das fake news construídas lá atrás no Facebook. Emoção pura, em estado bruto. Sem delongas, sem espaço para mais de uma interpretação. É isso e pronto, nada mais. Não há meias palavras, não há “suspeito de assassinato”. É assassino.
“Alerta geral! Se alguém te parar nos estacionamentos abaixo (liste todos os supermercados conhecidos) oferecendo perfume e papel para cheirar (em negrito) não cheire.
É um novo golpe ou nova forma de roubar.
O papel está com droga,
que te fará desmaiar
aí eles roubam,
sequestram,
estupram ou
fazem o pior com você.
São papéis iguais
das perfumarias,
não aceitem.
Encaminhe essa mensagem para
seus amigos e familiares
salve uma vida
Mensagem recebida do
Departamento de Polícia”
Nossa, quantas vezes você já não viu aquelas moças com esses papeizinhos na mão oferecendo perfume! E podia ser um golpe! Você não gostaria de alertar quem você ama? E, mais, ser o primeiro a fazer isso?
Então, sim, você encaminha. É um serviço que você está prestando. Sua tia recebe, lembra que fez compras ontem, que passou no estacionamento do Açaí Atacadista. “Nossa, poderia ter sido eu”, talvez ela escreva. Ela te agradece. Um vínculo de confiança é formado.
Repita isso durante quatro, três, dois anos. Você abre o WhatsApp pela manhã, você está em 15, 20 grupos. Você sabe de todos os golpes em primeira mão, você vê os vídeos que todo mundo está vendo, compartilha os alertas. Você está prestando um serviço, está sendo empoderado.
Durante cinco, quatro, três, dois anos aparece para você aquele cara que fala o que pensa. Que fala mal da mídia tradicional -- aquela, que você não lê há anos, porque toda vez é barrado. Mas que você comenta de vez em quando no Facebook, porque fica com raiva do que ela posta -- e quem fica com raiva da mensagem, acaba ficando com raiva do mensageiro também.
[Aqui, temos um parênteses: O descumprimento do Marco Civil da Internet. De 2014, a lei estabelece a neutralidade da rede, ou seja, não pode haver diferenciação do tráfego entre sites e serviços. Mas as operadoras de telefonia oferecem WhatsApp ilimitado de graça: é só não sair dali que você não gasta sua internet. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica autorizou. Para muitos dos 120 milhões de usuários do serviço no Brasil, o WhatsApp É a internet].
Aquele cara diz coisas que você às vezes curtia no Facebook, mas não compartilhava. Ele às vezes diz coisas que você até comentou naquele grupo fechado no Facebook, que você mal entra hoje em dia. Aquele cara fala coisas que você concorda, mas para falar assim…poxa, corajoso. [insira o Cambridge Analytica aqui, ou qualquer serviço de raspagem de dados].
Aquele cara fala exatamente o que você queria falar, mas não dá para falar em público. Sem contestações, sem críticas, sem o contraditório.
Mas é ele quem tá falando, né. Não sou eu. Vou jogar lá no grupo. Em um grupo fechado, pessoas conhecidas, dá até para concordar um pouquinho com ele.
Não é que ele seja homofóbico, mas…ele só não quer um vizinho gay. Imagina, né, você no elevador e dois homens se beijando. Ele não odeia gays, ele só não quer esse exibicionismo. Eles querem aparecer, né?
A mulher saí na rua quase nua, com a saia lá em cima, sutiã aparecendo. Não quer que o homem olhe? Ela tá querendo é isso mesmo! Aí quando querem passar a mão, acha ruim. Toda safada, se insinuando, e agora vem dizer que é estupro. Ah, vá!
É menor de idade? Até parece que com 15 anos não sabe o que é errado. Tem que apanhar mesmo. Pau que nasce torto nunca se endireita. Tem que matar bandido. Para que o estado ficar sustentando?
Você não argumenta. O texto já vem pronto. Com o fato e a opinião. Os dois andam juntos.
Você não argumenta. Depois de um tempo, você já não sabe como: não lê livros de ficção desde o segundo grau, não lê jornal, assiste à televisão com o celular na mão -- e não acredita mais na Globo. Você não lê mais notícias pela internet há uns sete, seis, cinco, quatro anos…
Na sua “feira” de informação tem aquelas vozes dos áudios que você já conhece. Tem aqueles vídeos que você já reconhece a identidade visual da edição. Tem aquelas correntes com gírias que você já incorporou ao seu vocabulário. Tem aquelas fotos engraçadas.
E tem aquela família que você já conhece. Tem o pai e tem os filhos. Eles mandam vídeos como os que você faz, estilo selfie, mandam textos que você concorda, mandam fotos de coisas que parecem bem urgentes. Eles odeiam o PT. Acabou com o Brasil.
Você já foi assaltado? Já sentiu a impotência que é levarem tudo que você tem? Ninguém faz nada por você. Ele diz no WhatsApp que é tudo porque o ladrão tinha uma arma. E você nem pode ter uma. Se tiver, é preso. Culpa do PT.
Mas o cara que você conhece há anos, ele e a família dele, que fala com você quase todo dia, ele diz que você pode ter uma arma. Que isso vai acabar. Que vai tirar o PT.
E isto por seis, cinco, quatro, três, dois anos. TODO SANTO DIA.
Você acha que é com um ou dois meses de “combate a fake news” ou com seu fact-checking cheio de metodologias que vai conseguir quebrar essa relação de confiança construída ao longo de anos, numa linguagem que ele entende e reconhece?
Você acha que é seu textão na sua bolha no Facebook?
Seus stories bonitinhos com gifs que não abrem em baixas conexões?
O jornalismo descobriu o WhatsApp tarde demais. Já havia uma linguagem estabelecida, já havia uma relação de confiança. Existia todo um discurso aceito: a mídia (a esquerda) mente, a mídia (a esquerda) manipula. Quando vemos um texto típico de WhatsApp, imediatamente identificamos como falso: sua apresentação é incompatível com o bom jornalismo. Será que o contrário também acontece com quem é acostumado à linguagem zapzapiana?
A impressão que o segundo turno dá é de que a esquerda descobriu o WhatsApp somente quando esta campanha eleitoral começou. Dá pena ver os textos que compartilham: para dizer que o kit gay é mentira, escrevem textos quilométricos, com “Ler mais” no final. Enviam links: você acha que eu vou gastar minha internet saindo do WhatsApp para ler você falando mal do meu amigo? Usam ironia! Desprezam a força de exclamações em fila indiana!!!!!
Fazem imagem com textos enormes, em português perfeito, com palavras como “revogação” e “PEC”. Que danado é isso?!
Sabe como o outro lado faz para falar do kit gay? Uma foto de uma mamadeira com uma bico de pênis. Tosco assim, direto assim.
Em um mundo em que somos bombardeados por informações o tempo todo, a mensagem que o WhatsApp traz é de que não há espaço nem tempo para se apostar em sutilezas. Para se desenvolver interpretações.
O fato tem que ser entregue com a interpretação e a opinião. Não dá pra ficar raivoso o tempo todo. Há modulações de sentimentos: quem te passa a piada passa também o gari que ganhou na loteria (esperança), a oração da semana (paz), o policial morto no tiroteio (indignação) e o kit gay nas escolas (raiva). E a propaganda do político que vai fazer o que você recebe de ruim acabar (alívio).
Mesmo que nada disso exista, de fato. O que vale é a sensação. E por isso tantos se negam a acreditar que algo que receberam é mentira. Porque o jornalismo hoje não tem nem a coragem de dizer “mentira” ao invés de “fake news”.
Para essas eleições, não há mais tempo para o jornalismo.
A relação de confiança hoje estabelecida por quase metade do eleitorado não é com o jornalismo sério, apurado, investigado, bem redigido. Se fosse, o resultado nas eleições seria outro: uma boa parcela dos eleitores seria chamada à razão.
Há como reverter isso, claro: o bom jornalismo é de uma potência incrível. Mas há uma enorme parcela da população que não tem acesso ao lado de lá do muro dos paywalls, das TVs a cabo e dos documentários da Netflix. E que nem ouviu falar da existência deste vibrante novo jornalismo independente. O bom jornalismo não precisa somente ir para onde as pessoas estão: precisa que as pessoas queiram ir até ele, sem barreiras.
Uma nova relação precisa ser criada e estabelecida. Isso leva tempo.
Não há mais tempo.
(espero estar redondamente enganada, galera!)