terça-feira, 30 de agosto de 2016

GUEST POST: PRECISAMOS DE MELHORES EMPRESAS PARA TRABALHAR

Evelin Fomin é ativista feminista paulistana e segue com a campanha permanente #SomosTodosFeministas, um blog e pequeno coletivo "que nasceu da vontade de expressar os muitos feminismos no Brasil e que se mantém pela crença de que todos deveríamos ser feministas (we should all be feminists, da Chimamanda!). Evelin me escreveu sobre um projeto importante:

Ela era a única mulher braço-direito do diretor. Era uma executiva, uma gestora, uma criadora. Uma faz-tudo, afinal. Mas por ter começado com um contrato de sub-gerente, não podia receber o aumento -- nem a mudança do nome de sua função na carteira de trabalho. “Pelo regulamento da empresa, a gente não pode fazer esse salto oficialmente”, explicava, constrangida, a gerente de RH. 
Tudo começou quando o superior imediato mudou de emprego e, depois de procurar outros candidatos para a substituição, o diretor a chamou e disse à queima-roupa: “Eu vou te dar uma chance pra essa vaga. Mas vou ser sincero com você. Ele ganhava oito mil, mas como você ainda não tem experiência, você vai ganhar seis mil. Vou usar os outros dois mil para outros projetos.” O que era para ser uma promoção celebrada, se tornou uma gana de querer -- e precisar -- se provar muito muito boa. Até chegar a um cargo executivo que nunca pode assumir oficialmente. A empresa era uma gigante da comunicação.
Em um centro cultural não muito longe dali, uma outra gerente já havia comido muita grama para estar naquele cargo, com muitos sapos engolidos e um largo sorriso no rosto. Ela via, ano após ano, suas colegas em ordem cronológica de promoção serem preteridas por rapazes apenas porque a chefe, também do sexo feminino, repetia incessantemente que tais mulheres eram marias-moles. “Eu não quero mulherada chorona na gestão. Vocês já menstruam todas juntas, não dá”, falava ela, voz engrossada, sensibilidade (e inteligência) já há muito desaparecida.
E a diretora-sócia de uma start-up de internet, que em uma reunião na presença de nove homens, prestes a assinar um contrato de venda de ações, teve de ouvir de um deles, um banqueiro, que ela “chamasse a mulherada para animar a festa”? A risada foi geral, mas o constrangimento somente dela.
As histórias não caberiam neste post. São muitas. E só começamos a falar de cargos de gerência para cima. O que dizer de encarregadas, assistentes, auxiliares que mal conseguem terminar seus supletivos, pagar suas faculdades, dar conta de buscar os filhos na vizinha, na creche, e batalhar muito para um ~futuro melhor~ nas empresas para as quais trabalham? 
A missão é dada como quase impossível pelo próprio relatório do Fórum Econômico Mundial 2015, prevendo somente para o ano de 2095 a igualdade de gênero no mercado de trabalho em todo o mundo. Vamos lembrar dos tristes números?
60% = desigualdade de gênero em relação à participação econômica e oportunidades para mulheres
73,7% = quanto ganha uma mulher, em média, do salário pago aos homens  
124 = posição do Brasil, dentre 142 países, no ranking de igualdade de salários por gênero
21 = posição do Brasil, dentre 22 países da América Latina, à frente apenas do Chile
Os problemas e obstáculos são muitos e diversos para cada perfil de mulher profissional. E é de forma construtiva que queremos transformar esse cenário criando o SomosMuchas, um site para avaliar anonimamente as empresas e melhorar o ambiente de trabalho para as mulheres. O projeto está no site de crowdfunding Benfeitoria, que funciona como uma vaquinha de investimento coletivo de projetos. E vamos conseguir transformar o sonho em realidade com você.
Ao criar uma plataforma para que as mulheres avaliem seus empregadores anonimamente, mostramos com transparência quais os critérios de avaliação para que as empresas possam melhorar para atender nossas necessidades e objetivos profissionais. É como já faz a consultoria Melhores Empresas Para Trabalhar, só que, aqui, as consultoras seremos nós, as mulheres trabalhadoras. Como uma espécie de TripAdvisor do ambiente de trabalho, vamos criar um ranking e mapear as políticas de desenvolvimento profissional das mulheres. Não é exatamente um Reclame Aqui: o exemplo é válido em um primeiro momento, mas o projeto é baseado em métricas de avaliação de gestão a partir de muita pesquisa de campo do que as profissionais mulheres sentem que as impedem de avançar em suas carreiras.
Por que avaliar é importante
Todos os profissionais têm críticas construtivas para fazer em seus espaços de trabalho, mas nem todos os espaços de trabalho estão abertos a críticas. E isso sempre foi um grande obstáculo para o crescimento de todos -- empresas e empregados. É por isso que queremos muito melhorar o ambiente de trabalho. Mas queremos fazer isso para as mulheres. Por quê? Porque somos maioria na população brasileira e não somos maioria nos espaços de maior valor nas corporações. Somos poucas gerentes, poucas gestoras, poucas diretoras e quase nada diretoras e presidentes de empresas.
Há muitos estudos que mostram como as companhias se beneficiariam com mais mulheres em postos de liderança. E que quanto mais diversos forem esses espaços, melhor para todo mundo. Mas para que isso aconteça, precisamos superar o abismo que há entre a pesquisa e a realidade. 
Contribua para a mudança
O projeto tem o compromisso de ser coletivo do começo ao fim. E para sair do papel, só com o seu investimento. Temos pouco tempo para arrecadação e o sistema é “tudo ou nada”, se não conseguirmos atingir a meta, todo o dinheiro será estornado para cada doador. Faltam ainda 90% para bater a meta total. Vamos juntas? É só entrar na página e fazer sua doação, leva menos de 5 minutinhos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

DOIS TEXTOS SOBRE ESTA PÁGINA INFELIZ DA NOSSA HISTÓRIA

O GOLPE QUE SEGUE - Flávia Biroli

Está sendo consolidado no Senado um processo que rompe com os requisitos mínimos da democracia (uma presidenta eleita pelo voto é deposta, sem crime de responsabilidade) e que limpa o caminho para a derrocada dos direitos sociais construídos nos marcos da Constituição de 1988.
A Constituição não estabeleceu garantias que superassem o peso relativo do poder econômico, nem da influência direta de elites políticas locais que têm sua condição de reprodução nas desigualdades socioeconômicas, no controle sobre os meios de comunicação, na baixa porosidade das instituições à participação popular e no acesso restrito da maior parte da população à educação.
Estamos vivenciando as rachaduras de um sistema político no qual a fragilidade da democracia ficou claramente exposta. A acomodação entre um regime democrático e a concentração da influência e do controle sobre os recursos públicos nas mãos de poucos cobra seu preço no momento em que os que sempre tiveram maior acesso ao Estado consideram que as regras do jogo não são suficientes para a manutenção das suas vantagens.
A carta constitucional, que encarna o estado das disputas políticas no momento da transição do regime ditatorial de 1964 para o regime democrático nos anos 1980, foi uma espécie de ajuste no terreno em que as disputas dos anos seguintes se dariam. Foi esse o terreno em que conseguimos alguns avanços (no direito à saúde e à educação, nos direitos das mulheres e das trabalhadoras, para lembrar de alguns), foi esse também o terreno em que se revelou sistematicamente o teto de vidro de várias lutas pela afirmação de direitos de grupos e pela democratização efetiva do poder político.
O golpe pode ser lido como um processo de estreitamento no terreno das lutas dos últimos 28 anos. Tanto no plano da institucionalidade democrática em seu sentido eleitoral mais restrito, quando no das garantias para indivíduos e grupos, teremos que lutar, a partir de agora, em um ambiente ainda mais hostil.


Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha, o herói do impeachment.
Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa página interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.
A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.
O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!
Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:
— Só termina quando a gorda cantar.
Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.
Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A ANÁLISE POLÍTICA AFIADA DE CIRO GOMES

Ontem fui na Adufc (sindicato dos docentes da UFC) e vi um cartaz mostrando que duas horas depois haveria uma palestra de Ciro Gomes na Faculdade de Direito. 
Homem fiscalizando
feminista (clique
para ampliar)
Chamei o maridão pra ir, coloquei no Twitter, e lá fomos nós. O auditório esteve longe de lotar, mas foi uma excelente análise da atual conjuntura política. Quando voltei pra casa, vi que algumas pessoas tinham mandado tuítes criticando Ciro por apoiar Pedro Paulo, o espancador da esposa e candidato a prefeito no Rio pelo PMDB. E, pior: me criticando por ter ido ver uma palestra de um cara que apoia espancador! Como se ir a uma palestra de alguém configurasse apoio, ou como se tudo que uma feminista faz fosse feminista... Confiscaram minha carteirinha feminista porque assisti a uma palestra que não tinha nada a ver com feminismo -- essa é nova!
Eu nunca gostei do Ciro. Em 2002, quando ele era um candidato muito bem colocado à presidência (foi o terceiro mais votado), escrevi um texto comparando-o a Collor. Com os anos, passei a desgostar menos dele (admito que o "debate" em que ele massacrou Constantino contribuiu). Mas eu teria sérias dificuldades em votar no Ciro, até porque o governo de seu irmão Cid mandou a polícia bater em professores no Ceará. Além disso, o partido onde Ciro se encontra atualmente, o PDT, deixou de ser sério depois que Brizola morreu.
Mas não gostar ou não votar no Ciro não quer dizer que eu não vou ouvir o que ele tem a dizer sobre algo que ele conhece muito bem: a política. Ele tem 36 anos de vida pública, foi candidato a presidente duas vezes, provavelmente será em 2018, já foi deputado, prefeito, governador, ministro. E é conhecido por falar o que pensa, sem grandes rodeios. Aí ele palestra na minha universidade (que foi também onde ele se formou). É claro que eu quero saber o que ele tem a dizer da crise política do Brasil!
Sua fala ontem teve quase duas horas e meia, e você pode vê-la na íntegra aqui (começa após o 11o minuto). Eu passei a madrugada toda transcrevendo os momentos mais interessantes pra você. E concordo com boa parte do que ele diz. 

Ciro Gomes sobre a desvalorização cambial e FHC: Nas eleições de 1998 FHC manipulou a grande mídia, não teve um único debate, o Lula passava longe de saber do que se tratava o assunto. FHC tomou posse em 99, desvalorizou o câmbio, apresentou-se uma alta de preços, meteu taxa de juros violenta em cima, veio a recessão, veio o desemprego, veio a desmoralização precoce do governo Fernando Henrique, e o Lula, e o PT, apresentaram pedido de impeachment. E quem recebeu o pedido de impeachment -- eu me odeio -- foi o Michel Temer, então presidente da Câmara. [risos do público] 
Não, me odeio porque o Lula colocou esse cara na vice-presidência do Brasil. Veja se pode a história brasileira como é. E eu disse 'Lula, não faça isso, impeachment pra governo ruim não é remédio, isso é golpe. Amanhã um de nós tá no poder e eles vão fazer conosco exatamente a mesma coisa. Não tem erro, não sei quê e tal.' [Imitando Lula:] 'Ah besteira, tu fica aí com tuas tucanagens'. Tudo bem. Eu já nem era mais tucano naquela data. Já tinha rompido, há bastante tempo. Tava no PPS -- que também virou [balaio ou pá lá? Não sei o que ele falou. Se foi pá lá, pode ser redução de palavrão], né? Com todo respeito, se houver algum presente, que são nossos aliados aqui [no Ceará], preciso me aquietar.

Sobre o que vem junto com o golpe: Essa emenda à Constituição, que revoga a Constituição de 88, que já está no Congresso, é uma concretude, nosso povo não quis se levantar contra o golpe porque tem mil razões pra estar decepcionado com o governo Dilma -- eu também sou muito decepcionado. Mas pra nós que temos três refeições no bucho é muito fácil sair pra rua defender a democracia em abstrato. O nosso povo não, não quis sair. Mas agora vem concretudes. 
A mais grave não é essa ainda, mas essa já começa. Uma emenda à Constituição pretende, dentro da "lógica" de botar a vida do brasileiro no piloto automático e inutilizar a política, e os conflitos, os fatos, os entendimentos, e as coisas que botam o país pra frente, eles querem tabelar o gasto primário, ou seja, o gasto com universidade, o gasto com saúde, o gasto com previdência, que são essenciais, fora de qualquer controle ou regulação ou tabelamento, os juros -- a despesa mais imoral e mais volumosa, que está drenando o país, que é juro pra dívida.
Pior: sem eleição, sem plebiscito, sem referendo, sem entendimento, sem explicação, sem informação, fazê-lo por 20 anos. Segundo: desonerar os custos do trabalho, deixa o juro como está, e avança para desonerar o trabalho. Tão querendo criar em Brasília o acordo prevalecer sobre o legislado, em matéria de legislação de proteção ao trabalho. 
No momento em que o desemprego saltou, que parte importante do sindicalismo brasileiro se vendeu, nós vamos entregar às raposas o direito de fazer um acordo com o franguinho, botando no acordo o fim do 13o salário, o fim das férias, o fim da licença maternidade.

O mais interessante está na parte das perguntas do público, a partir da primeira hora do vídeo.

Sobre a Venezuela: O Brasil está mandatado pra fomentar um golpe de Estado na Venezuela e encerrar o regime do Maduro. Então o Serra, por exemplo, tá numa pressa, já hostilizou a Venezuela. Só pra vocês terem uma ideia, a Venezuela, dois anos atrás, deu 5 bilhões de dólares de superavit em favor do Brasil, ou seja, a Venezuela dá um dos maiores superavits ao Brasil de todo o mundo, e esses canalhas assumem com a tarefa claramente mandatada pelo centro do imperialismo para desestabilizar e derrubar o regime venezuelano. Tentaram comprar -- é um negócio de cinema isso -- o chanceler do Uruguai que escandalizou, pra fazer esse esforço de isolamento da Venezuela.

Um rapaz perguntou se, na vacância da presidência em 2017, seja pelo impedimento do Temer ou por decisão do TSE, o Aécio poderia vir a ser presidente. Ciro respondeu: Sim, eu tô achando que é isso que inclusive vai acontecer. Eu acho que o TSE vai cassar a chapa porque o Michel Temer não vai cumprir essas três grandes tarefas. Nenhum grupo de interesse aqui é a favor do Michel Temer, ele era um trambolho que tava no caminho do golpe, e aí acertou-se com os interesses golpistas mas tá enganando, ou não está conseguindo ou não vai conseguir entregar, e aí você já tem remarcado pro fim do ano, porque se o TSE fizesse agora, o povo seria chamado a uma eleição direta. Completando o segundo ano, a partir de dezembro, a eleição é indireta pelo Congresso, e o Congresso pode escolher qualquer um, membro ou não do Congresso. Mas não será o Aécio, em nenhuma circunstância. Esse é outro pato que ficou no caminho.

Sobre universidades: Não terão coragem ou energia política de propor a privatização das universidades, não há a menor chance de propor isso, mas vão introduzir crescente oneração, começando pelas pós-graduações, que já está proposto, e também a oneração de serviços. Mas à medida em que você constrange as universidades, elas entram em greve, comprometem o ano letivo, o que eles estarão fazendo? O que o Fernando Henrique fez: privatizar a demanda. Deixa a universidade federal se acabando, e reforça, facilita, os grandes conglomerados de educação privada.

Ciro ao ser perguntado o que realmente
acha da escola austríaca
Sobre os ideais da escola austríaca de economia: Quando Keynes teve um debate com Hayek, o mundo tinha perplexidades, hoje em dia a nossa inteligência pode observar as coisas. O laissez faire, a ideia liberal, nunca jamais foi aplicada em tempo algum. Jamais produziu êxito civilizatório em lugar algum.

Sobre Constantino: O tal Constantino, que eu não sabia quem era, ficou me odiando pro resto da vida porque eu me impacientei com ele, não tive as manhas: 'meu irmãozinho, tenha calma, não é bem assim e tal'. [Minha observação: sempre que há debate, os reaças dizem que o lado deles foi vencedor, mesmo em casos óbvios em que a adversária destrói a reaça. Mas no debate entre Ciro e Constantino, nunca vi um só reaça dizer que Constantino ganhou. Nem que foi empate. É unânime que Constantino foi humilhado para sempre].

Sobre os "crimes" de Lula e o que é corrupção: Eu sou professor de direito, crime não tem. Ele não é proprietário do triplex, ele não é proprietário do sítio, e eu tenho dito, pra completar, aí já é um juízo político, que o presidente do Brasil, se for corrupto, o sintoma não é um triplex cafona numa praia cafona de SP. Não é mesmo. Uma informação privilegiada que o Fernando Henrique distribuiu na véspera da virada do câmbio em 99 passou aos bancos privados nacionais e estrangeiros localizados no Brasil 16 bilhões de dólares. Uma noite, uma informação privilegiada. Esse é o tamanho de quem é corrupto no Brasil, não é triplex cafona numa praia cafona.

Sobre como o impeachment é golpe: Nós estamos vivendo um golpe de Estado. Não deve remanescer nenhuma dúvida em nenhum de nós, por mais que a gente possa não gostar do governo Dilma -- e acreditem, eu considero o governo Dilma praticamente indefensável por vários argumentos, há anos tenho sido eleitor dela, militante, aliado, e até o momento tô lutando, mas nós estamos sofrendo um golpe de Estado porque não há crime de responsabilidade. Pedalada fiscal, que é uma gíria que a imprensa criou, significa uma manipulação do orçamento para coisas que a vida inteira foram feitas. Algumas delas não há como não fazer.

Sobre como o mundo vê o impeachment: O mundo inteiro afirma que está acontecendo um golpe no Brasil. Eu acabei de fazer palestras no MIT, em Harvard, em Washington, num think tank, é absolutamente unânime na Europa, nos Estados Unidos, na China, o reconhecimento de que há um golpe de Estado no Brasil. Se alguém duvida, vejam a reação dos chefes de Estado. Nas últimas cinco Olimpíadas, houve uma média de 110 a 120 chefes de Estado presentes nas cidades-sede. Aqui no Brasil, nem um pediu audiência com o Michel Temer. Nem unzinho sequer. O Barack Obama até agora não deu uma ligação pra ele. O Macri, que é um reaça argentino, não veio.

Sobre a imprensa brasileira: O que se chama imprensa nacional no Brasil é um ajuntamento nepotista de cinco famílias. Cinco famílias: são os Civita [Abril], os Frias [Folha], os Mesquita [Estadão], os Marinho [Globo], e os Saad [Bandeirantes].

Sobre Marina: Não adianta botar a Marina lá, porque a corrupção é endêmica. [Quando os dois eram ministros no governo Lula]: Eu gosto dela, ela gosta de mim. [...] O Lula chama: 'Ciro, a Marina tá querendo conversar de novo'. E vamos conversar. Aí chega lá, senta, e tem uma garotada sentada ali, e eu já digo: isso é arrumação nova. Você precisa saber a razão, tem que puxar a Marina pra isso. Ela é do bem. Aí a Marina diz assim: 'presidente, esse projeto [da transposição do Rio São Francisco] é muito complexo'. Mas Marina, faz 3 anos! 'Não, olha, eu sei que você teve paciência, eu sei que você fez tudo direitinho, mas esse pessoal aqui chegou e tá me dizendo que não tem estudos relativos a ictiofauna'. 
Eu nunca tinha ouvido falar nessa expressão. Aí eu: 'O quê, Marina?' 'Ictiofauna'. 'Que diabo é isso, Marina?' 'É dos peixes, a fauna dos peixes'. 'Sim, qual é o problema da ictiofauna, Marina?' Ela diz: 'Não, não tem nenhum estudo no projeto que entenda a contaminação do encontro dos peixes da bacia com o encontro dos peixes da bacia...' -- eu não acredito nisso -- 'na bacia receptora'. Aí eu perdi a calma e disse: 'Mas Marina, o Nordeste morrendo de sede, Fortaleza na iminência do colapso do abastecimento de água, Campina Grande já está em colapso, e você chama outra reunião, três anos depois, pra discutir suruba de peixe?'

Sobre o maior erro de Dilma: Eu sou professor de Direito Constitucional, e vou bancar o risco de falar isso aqui: a Dilma fez talvez uma das maiores bobagens que um político poderia fazer -- nomear Lula ministro. Porque pareceu, e não tem quem diga que não é, que ela queria subtrair o Lula de um juiz severo, pra homiziá-lo na impunidade do Supremo. Ou seja, a primeira consequência é constranger o Supremo de uma forma absolutamente indicativa de que o Supremo iria fazer alguma retaliação ou não, o fato é que era o primeiro erro. Mas o mais grave, que precipitou o impeachment, foi a desconstituição do resto da autoridade da Dilma. O quê que ela bota o Lula pra fazer que ela não poderia fazer?

Sobre quem seria seu vice e sua candidatura: Não é hora de pensar em vice, nem sequer sei se serei candidato mesmo. Eu aceitei a ideia e a convocação do partido porque isso me dá audiência para enfrentar o golpe, pra defender a democracia, tô rodando o país, eu pedi demissão do meu emprego -- eu me odeio [risos do público] -- enfim. E tô aí na batalha. A candidatura, entretanto, tem que ter uma certa naturalidade -- quem tá falando é quem já foi candidato duas vezes. [...] 
Pra resistir a essa onda de violência contra a nação brasileira, contra os trabalhadores, contra a classe média que tá vindo aí, nós temos cem deputados em quinhentos. Forçando a mão e botando a Marina e a Rede no campo progressista, nós temos cinco partidos com cem deputados contra 400 deles. Esses 5 partidos têm 4 candidatos à presidência da República. Isto é uma farsa, uma irresponsabilidade com o país, e eu não pretendo participar dela. Desses 5 partidos -- Rede, a Marina, o PSOL tem candidato, naturalmente, o PDT quer que eu seja candidato, e o... [alguém na plateia o lembra] PT, o Lula, etc. Só o PCdoB não tem candidato. Eu vou forçar a mão pra que a gente construa um projeto.
Momento ato-falho em que Ciro
esquece que o PT existe
[Sobre ter Lula de vice]: O Lula é muito maior do que eu. Não é razoável, nem humilde, que eu vá pretender que o Lula seja meu vice, como também não serei dele, porque eu acho que o Lula nesse momento tem um papel a cumprir: dar passagem a uma coisa nova e ajudar o país a se reconciliar. Se ficar ele candidato, ele estressa todo o processo, pode até ganhar, mas o país vai ficar num clima de confrontação pra não se superar nunca mais. 

Minha pergunta foi lida no final, no minuto 2:11:30, por aí. Eu pedi pro Ciro fazer um exercício de futurologia e falar sobre os próximos anos. Ele respondeu (a partir de 2:14:00): Eu acho que o Michel Temer vai trair esses grandes interesses que fizeram o golpe e que é muito possível que o Gilmar Mendes coloque em pauta depois de dezembro a anulação da chapa por razões eleitorais. Então o 'Fora Temer' precisa ser mantido aceso, forte e firme. Feitas as eleições indiretas, haverá um grande confronto porque quem é orgânico a esses interesses estrangeiros e aos interesses plutocratas é o PSDB hoje. 
Então haverá provavelmente um grande confronto dentro do Congresso entre um PSDB "déspota esclarecido", alinhado com os interesses reais da plutocracia internacional e local, versus esse Brasil tropical, Macunaíma, desses velho deputados -- não acho que o PSDB saia vitorioso disso, essa anarquia fisiológica, clientelista, tende a ser vitoriosa, o que nos aponta para um cenário muito ruim pro Brasil nos próximos 24 meses e isso aponta para um cenário de eleição parecida com o de 89. [...] 
Vamos supor que o Lula não seja candidato. Haverá cinco candidatos com capacidade de competir: a Marina, o PSDB vai implodir, porque o Aécio tá sendo passado pra trás pelos dois paulistas, o Alckmin e o Serra estão em franca briga, o Serra, por exemplo, tá apoiando a Marta Suplicy do PMDB em SP, contra o Alckmin que tem um candidato inacreditável, o João Dória. Depois diz que o Nordeste não sabe votar. Primeiro lugar na pesquisa é o Russomanno, segundo lugar é a Marta, terceiro lugar é o João Dória, e nós é que não sabemos votar aqui no Nordeste, é como diz a Suzana Vieira, tadinha. Então você tem os três tucanos que vão implodir o PSDB, a Marina, eu, pelo PDT, e o Bolsonaro. 

Sobre Bolsonaro: Neste momento, eu acho que o Bolsonaro está prestando um bom serviço ao país. Ele é um horror, o discurso dele é ainda pior, porém este pensar existe. O mais grave, o mais problemático deste pensar que existe é a clandestinidade, é votar escondido por detrás do PSDB, é se esconder entre os evangélicos, os neo-pentecostais. Na medida em que ele encarna, explicita e qualifica a discussão que bandido bom é bandido morto, que mulher tem que ganhar menos porque engravida, que se eu tivesse um filho gay eu matava ele de porrada etc etc, ele vai qualificando o gueto desse pensamento reacionário e isso descomprime o voto que tava por pragmatismo e anti-petismo votando lá no PSDB. Isso então neste momento ajuda. Eu acho que o Brasil engole esta fruta e cospe o caroço sem problema. 

Sobre Lula e o PT: O Lula não será preso, na minha opinião, porque não há nada, daquilo tudo que se conhece presentemente, nada que juridicamente o inculpe. Eu considero que o Lula fez erros intoleráveis, concessões absolutamente intoleráveis pra quem é do nosso lado, sabe, começou a brincar de deus, e fazer e acontecer, e gostar de festa, mas nada disso é crime sob o ponto de vista do direito. 
Eu tô falando como bacharel de direito, analisei o assunto todo, a pedido dele, inclusive. Então não acho que ele será preso nem que o PT será excluído do processo eleitoral. O PT vai purgar, vai purgar merecidamente em parte por seus equívocos, mas acho que continuará a ser um partido importante pra democracia brasileira.