segunda-feira, 18 de março de 2019

POR QUE O MASSACRE DE SUZANO FOI UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Homenagens na escola onde ocorreu o massacre de Suzano

Na Uneb de Caetité, na Bahia
Logo depois do massacre de Suzano, chegaram por email uns trinta pedidos de entrevista da grande mídia. Respondi todos explicando que eu não estava em casa, em Fortaleza, e sim viajando e trabalhando, primeiro em Maceió, e depois em Caetité, sertão baiano. 
Algumas entrevistas eu respondi por email de madrugada, ao voltar das palestras. Outras eu agendei pra ontem, quando voltei. Foi o caso da do Fantástico, que dei pelo Skype (pra quem não viu a boa reportagem do programa, está aqui).
Continuo bastante sem tempo, porque esta semana vou para Brasília. Reproduzo aqui hoje uma das entrevistas que respondi de madrugada. Esta para o jornal O Dia, que foi publicada ontem. As perguntas são de uma jornalista que preferiu não assinar a matéria (o que é totalmente compreensível, visto que os chans adoram perseguir mulheres e que agora há um presidente no poder que comanda ataques orquestrados a jornalistas -- principalmente jornalistas mulheres).
O DIA - Em um texto no seu blog, você diz que o massacre em Suzano era uma tragédia anunciada, por quê?
Cabeçalho do fórum anônimo (que
ainda não estava na Deep Web) no
início de 2014: com imagens de
assassinos, o chan de Marcelo
pedia que seus frequentadores
"fossem heróis"
Lola Aronovich - Porque parece que de fato um dos atiradores frequentava o Dogolachan e avisou que iria cometer um massacre. Há prints. Porém, independentemente disso, eu monitorei o Dogolachan durante quatro anos, e não houve um dia sequer em que os membros não fantasiavam como iriam matar "a escória" (mulheres em geral, feministas em particular, negros, LGBT etc) assim que as armas fossem liberadas. Faz no mínimo quatro anos que eles cultuam "heróis" como o do Massacre de Realengo ou o do massacre na Califórnia, em 2014. Desta forma, eles tentam convencer outros rapazes a matarem para se tornarem "ícones" também.
Quando você entrou em contato com os chans? As ameaças começaram logo de cara?
Eu já havia sido atacada por alguns chans por ser feminista. Mas o chan que mais me perseguiu, o Dogolachan, foi uma criação do Marcelo (Valle Silveira Mello, fundador deste e de outros fóruns de disseminação de ódio) no segundo semestre de 2013, pouco depois que ele saiu da prisão. Só fiquei sabendo do chan no início de 2014, e isso porque Marcelo fez questão de me enviar um link. Ele queria que eu acompanhasse as ameaças diárias de morte, estupro e tortura contra mim.
Você procurou a polícia? Recebeu alguma orientação ou algum tipo de proteção na ocasião?
Marcelo e Emerson em
janeiro de 2016, em
Curitiba
O primeiro boletim de ocorrência eu fiz em janeiro de 2012, por conta das ameaças do site de ódio Silvio Koerich, mantido por Marcelo e Emerson (Eduardo Rodrigues Setim, parceiro de crimes de Marcelo). Depois eu fiz vários outros BOs (11, no total). Um dos primeiros foi contra o Dogolachan, no final de 2014, quando eu estava recebendo ameaças por telefone na minha casa. Eu levei os prints que tirava. Lá eles planejavam tudo. Marcelo dava ordens para um neonazista gaúcho, que hoje está internado num manicômio, me ligar. Nunca recebi qualquer orientação ou qualquer tipo de proteção de qualquer polícia, seja Civil, Federal ou Delegacia da Mulher.
Qual o perfil dos integrantes desses fóruns de propagação de ódio?
Montagem de assassinos com
cabeça do cachorro símbolo do
Dogolachan
A grande maioria dos channers (frequentadores de fóruns anônimos), dos Sanctos (como se autodenominam os homens do Dogolachan), e dos incels (celibatários involuntários, mais conhecidos como "virjões") mora com os pais. São adultos, maiores de idade, mas não estudam nem trabalham. Passam o dia espalhando ódio diante de um computador. Se eu fosse mãe e sustentasse um filho, gostaria de saber o que ele faz no computador o dia inteiro. Sei que não é fácil, há vários casos de Sanctos que batem na própria mãe. Mas tem Lei Maria da Penha para coibir isso.
Quais avanços você sentiu desde que a lei que leva o seu nome entrou em vigor?
Um mês depois que a Lei Lola entrou em vigor, Marcelo foi preso pela Operação Bravata. Mas não por causa da lei. As investigações haviam começado muito antes. A Lei Lola ainda está no começo. A Polícia Federal precisa levá-la mais a sério e nos orientar como denunciar e em qual casos. Um dos grandes avanços da Lei Lola é que, pela primeira vez, a palavra misoginia aparece numa lei.
Acredita que é possível combater esses fóruns?
Creio que seja impossível acabar com os chans, ainda mais na deep web, mas combatê-los é possível. Realmente, não há controle sobre o que acontece na Deep Web. Mas o Dogolachan existiu desde a segunda metade de 2013 até setembro de 2018 — ou seja, mais de cinco anos — na superfície. Houve algum tipo de monitoramento da polícia durante esses cinco anos? Algum agente tentou se infiltrar para descobrir a identidade dos criminosos? Por que não?
Eu não entendo como, no Brasil, um movimento legítimo e pacífico como o dos Sem Terra é considerado por muitos como uma organização terrorista, e um movimento de homens extremistas e frustrados na internet, que tem cometido centenas de crimes nos últimos anos, é visto como brincadeira de moleques. Mesmo na deep web, grupos extremistas devem ser monitorados. Eles são perigosos. Também os pais desses rapazes anti-sociáveis e revoltados deveriam saber o que seus filhos estão fazendo na internet.
Qual a importância da educação neste combate? 
É fundamental que uma discussão sobre questões de gênero, diversidade sexual, racismo, seja feita nas escolas. O caminho para uma sociedade com menos ódio tem que envolver a educação. Sabemos que liberar as armas, como este governo já começou a fazer, irá aumentar e muito o número de massacres em escolas e lugares públicos.
Qualquer estudo mostra que a liberação das armas aumenta a violência. Mas de um presidente que durante toda a campanha ensinou crianças a fazer arminha e até defendeu que crianças de 5 anos tivessem acesso às armas não se pode esperar nada de bom.
Como corporações responsáveis por redes sociais poderiam ajudar contra os crimes de ódio? 
As empresas da internet, como Google, Facebook, Twitter, WhatsApp etc também têm grande responsabilidade. Elas têm mecanismos não só para coibir o ódio, como também para incentivar os direitos humanos. É preciso que elas ajam e excluam perfis que espalhem ódio e mentiras. Já passou da hora de misóginos serem combatidos como terroristas.
As buscas pelos termos e por nomes de grupos da deep web aumentaram, vê isso como um ponto positivo ou um alerta?
Creio que um pouco dos dois. É algo positivo porque mostra que a população está se conscientizando de que esse perigo de fóruns de ódio existe. É também um alerta porque uma parte das pessoas que procura pode acabar influenciada pelos grupos.
Em um artigo recente seu (para o site The Intercept), a senhora menciona que Emerson Setim — um dos alvos da operação Bravata — está foragido na Espanha. Como  a senhora lida com um dos seus ameaçadores solto e agindo em um lugar que até as autoridades desconhecem os métodos?
Emerson sendo preso pela
Operação Intolerância em março 2012
Emerson não foi preso em maio do ano passado porque ele já havia fugido para a Espanha antes. Quando a Operação Bravata emitiu um mandado de prisão contra ele, ele já não estava mais no Brasil. Como havia um mandado para prendê-lo e ele não foi encontrado, creio que ele está foragido. Sei que o Jean Wyllys já enviou para a polícia a localização de Emerson em Madrid. Não entendo por que ele ainda não foi preso. Emerson é um lunático perigoso e um dos que me difamam e ameaçam, mas ele esta longe demais para representar um risco pra mim. Há channers mais perigosos.
Por exemplo, um rapaz chamado Breno Alves, de Franca. No dia 26 de fevereiro deste ano, ele me enviou uma ameaça de morte por e-mail dizendo que o Dogolachan vai contratar um pistoleiro para me matar em Fortaleza, e que deste ano eu não passo. Em junho do ano passado Breno gravou um vídeo com seu rosto dizendo que ele seria o próximo a se matar e me levaria junto com ele.
Eu sei o nome completo dele, sei a cidade onde ele mora, tenho imagens dele, ele faz parte do Dogolachan há anos, e faz dois anos agrediu um rapaz negro numa praça em Franca (saiu nos jornais locais; foi aberto inquérito). Eu passei tudo isso pra Polícia Federal e pra Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Por que a polícia ainda nem sequer o chamou para depor?

sexta-feira, 15 de março de 2019

QUANDO MENINOS E MENINAS VESTIAM A MESMA ROUPA E NENHUMA MINISTRA ACHAVA ESTRANHO

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Koppe, um leitor antigo aqui do blog, viu este quadrinho da Elise Gravel sobre a história da roupa para meninas e meninos e decidiu traduzi-lo.
Vai que desenhando a sinistra Damares entenda...

quinta-feira, 14 de março de 2019

UM ANO SEM MARIELLE

Faz um ano que a vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) foi covardemente executada. O motorista Anderson também foi assassinado. 
A repercussão foi internacional. E hoje também será. O mundo todo, que se comoveu com a morte da vereadora e ativista tão combativa, sabe muito bem que quase nada foi resolvido. O país da impunidade continua com péssima reputação -- pior ainda agora que 57 milhões de pessoas elegeram um fascista que está envolvido com milícias suspeitas da execução de Marielle. 
Na marcha do dia 8 de março em Fortaleza na semana passada, havia várias cópias de placas da Rua Marielle Franco, e muitos gritos de "Marielle presente" e "Marielle semente". 
Hoje certamente muitos daqueles que difamaram Marielle e espalharam fake news sobre ela logo após sua execução devem repetir a dose. É preciso se perguntar por que têm tanto ódio de uma mulher lésbica, negra, e pobre (ou na formulação da frase já respondi a charada?). 
É fundamental para a democracia brasileira que saibamos: quem mandou matar Marielle?
Esta semana a polícia finalmente prendeu um suspeito de ter atirado na vereadora -- um outro Queiroz, que tinha 117 fuzis na sua casa e era vizinho de Jair Bolsonaro. Além disso, o quarto filho de Bolso, Renan, namorou a filha de Queiroz. São muitas coincidências. Eu não creio mais em coincidências. Espero que a pressão internacional resulte na queda do fascista.

MASSACRE DE SUZANO, UM CRIME ANUNCIADO

Passei quase todo o dia de ontem na rua, trabalhando, em Maceió. Mas, antes de deixar o quarto em que me hospedei, vi um comentário no meu blog, ainda pela manhã: "Grande dia, mas dois heróis morreram". Só aí vim a saber do massacre de Suzano
Ontem dois rapazes, um de 17 anos, outro de 25, invadiram a escola estadual Raul Brasil, em Suzano, SP, e mataram cinco alunos do ensino médio (meninos entre 15 e 17 anos), a diretora e a inspetora da escola. Antes, um deles havia matado o tio, talvez para pegar o carro dele. Depois de toda a matança, ao ouvirem a polícia chegando, os dois se mataram. 
Um horror, e o que eu mais temia: que, com a liberação das armas (uma promessa de campanha de Bolsonaro), com toda a propaganda a respeito de armas de fogo, esse tipo de massacre passasse a ser mais comum no Brasil. 
Eu me lembro como se fosse hoje quando ocorreu o massacre de Realengo, em abril de 2011. Eu estava na UFC, numa sala em que havia TV, e durante o intervalo eu e alguns funcionários assistimos, transtornados, a notícia de que um ex-aluno havia entrado na escola em que estudara alguns anos atrás e matado crianças. Esse tipo de assassinato em massa, embora rotineiro nos EUA, nunca tinha acontecido no Brasil. 
Mais tarde, vi que as vítimas, todas crianças entre 12 e 14 anos, eram dez meninas e dois meninos. Estranhei a discrepância -- por que tantas meninas mortas? Testemunhas disseram que o assassino atirava nas meninas pra matar, e, nos meninos, pra ferir. Mas a mídia até hoje não trata o massacre como um crime de ódio. 
Já naquela época, tentei alertar que aquilo era um crime de ódio cometido por um misógino. Citei vários massacres parecidos nos EUA. Eu já sabia que mascus existiam. Mascu é uma abreviação que criei para masculinistas, que em países de língua inglesa se intitulam MRAs (ativistas pelos direitos dos homens), mas que na verdade são apenas homens frustrados e revoltados que vivem numa realidade paralela (para eles, a sociedade é dominada pelas mulheres, e as grandes vítimas da atualidade são homens brancos e héteros).  
Ontem, oito anos depois de Realengo, quando ouvi falar de Suzano, não tive dúvida que era um crime de ódio. E imaginava quem havia incentivado os assassinos, imaginava qual fórum na internet eles frequentavam. E não deu outra: era mesmo o Dogolachan. 
Este fórum anônimo foi criado por Marcelo Valle Silveira Mello em 2013, pouco depois de sair da cadeia, onde havia passado um ano e três meses, e sido condenado a quase 7 anos de prisão. Ele estava tão furioso que foi expulso de outros chans e começou o seu próprio. Passou os cinco anos seguintes fazendo ameaças, criando novos sites de ódio, planejando como arruinar a vida de seus inimigos, tentando convencer outros a cometerem massacres, e cometendo dezenas de crimes (entre eles pedofilia, terrorismo, associação criminosa etc).
Em maio do ano passado, após cinco anos ininterruptos de impunidade, Marcelo finalmente foi preso novamente. E, em dezembro, foi julgado e condenado a 41 anos de cadeia. 
Só que ele deixou toda uma quadrilha pra trás, e todos os membros da gangue continuam soltos. Um mês depois da prisão, o moderador do chan, André (conhecido como Kyo), deixou uma mensagem dizendo que iria se matar. Ouviu em troca "Leve a escória junto", ou seja, antes de se matar, mate alguém. E foi o que ele fez. Saiu às ruas da cidade onde morava (Penápolis, SP), atirou na nuca de uma moça que nunca tinha visto antes, e se matou. Virou herói entre o pessoal do Dogolachan.
Um pouco depois, o chan migrou para a Deep Web. Eu parei de acompanhar, já que para entrar lá tem que ter ferramentas como TOR, que eu não tenho. Continuei recebendo ameaças de morte e estupro. 
O agradecimento de um dos assassinos a DPR, administrador do Dogolachan, ontem
Entretanto, durante os quatro anos e pouco que li o chan, posso dizer que não houve um só dia em que os membros não fantasiavam com o dia em que teriam acesso livre a armas de fogo. Todos votaram em Bolsonaro, o candidato que lhes prometia isso. Eles sempre falavam em cometer massacres. Suponho que a tragédia de Suzano não seja surpresa nenhuma pra Polícia Federal. 
Que os mascus do Dogolachan iriam comemorar o que aconteceu em Suzano, não havia dúvida. Mas até que ponto eles estão envolvidos? Os atiradores eram frequentadores do chan?
Ontem recebi este email:
"Eu tenho alguns prints que provam que o crime foi premeditado, planejado e anunciado no chan até cinco dias antes do acontecimento, e nenhuma ação da Delegacia de Crimes Virtuais ou da Polícia Federal foi tomada. No dia 7/3 o crime foi anunciado e o sinal de que eles estava prestes a acontecer seria uma música. No dia 11 a música Pumped Up Kicks (que fala sobre Columbine) foi postada junto com uma imagem de dois personagens, onde um deles usa a camiseta com os dizeres 'Natural Selection', a mesma camiseta que um dos atiradores usava no momento do massacre. O atentado ocorreu no dia 13, e o último print é a conversa que os usuários estavam tendo logo depois. Sei que você se importa em denunciar os crimes cometidos pelos chans e eu acho que eles não podem ficar de fora da discussão sobre essa tragédia."
Comemoração: "Temos nossos primeiros atiradores sanctos formados no Dogola"
A "música"
Várias pessoas me enviaram outros prints do chan. 
A explicação do administrador do Dogola
Novos interessados em cometer massacres
Planos e lembranças de Realengo
Quais devem ser os próximos atentados?
Algumas ameaças vem sendo deixadas nos comentários aqui no blog. 

Também me enviaram um print de um email com ameaças a Marie, jornalista da Vice que vem sendo ameaçada pela quadrilha faz tempo. Não sei se o email foi enviado antes ou depois da matéria que ela publicou ontem. 

Agradeço às pessoas preocupadas com a minha segurança, a minha vida. Mas não há muito o que fazer. Eu não vou sair do país. 
A coordenadora pedagógica Marilena,
uma das vítimas. Amada pelos alunos,
ela pedia "mais posse de livros"
Sinto muitíssimo pelas vítimas desta nova tragédia, e me solidarizo com os familiares. Eu não sei o que mais fazer para que a Polícia Federal tome alguma atitude e prenda os demais membros do Dogolachan. E que no mínimo monitore os demais fóruns, porque cada massacre serve como inspiração para novos atentados.
Todas e todos nós que somos pela paz avisamos que liberar as armas era uma péssima ideia. Vamos trocar a cultura da morte, o fetiche por armas, por educação contra o ódio?

quarta-feira, 13 de março de 2019

PRECISAMOS PARAR O ATAQUE À "IDEOLOGIA DE GÊNERO"

A filósofa Judith Butler publicou um artigo importante sobre os ataques a gênero para a revista New Statesman, que a professora de Filosofia Carla Rodrigues (UFRJ) traduziu para o Observatório de Sexualidade e Política. Reproduzo o artigo aqui.

Nos últimos anos, protestos na Europa, na América Latina e em diversos outros lugares têm contestado uma “ideologia de gênero”. As eleições na França, Colômbia, Costa Rica e Brasil giraram em torno do discurso de candidatos que falavam dos papéis de gênero. Nos EUA, tanto católicos quanto evangélicos se opuseram a acolher posições políticas, de algum modo, vinculadas à “teoria de gênero” ou “ideologia de gênero”: os direitos das pessoas trans nas Forças Armadas, o direito ao aborto, o direito das lésbicas, dos gays, das pessoas trans, o casamento homossexual, o feminismo e outros movimentos a favor da igualdade de gênero e da liberdade sexual.
Indiscutivelmente, esse retrocesso contra a “ideologia de gênero” tomou forma em 2004, quando o Pontifício Conselho da Família escreveu uma carta aos bispos da igreja católica assinalando o potencial do “gênero” como destruidor dos valores femininos importantes para a Igreja; como deflagrador de conflito entre os sexos; e como um conceito usado para contestar a natureza e a distinção hierárquica entre homem e mulher sobre a qual os valores da família e a vida social são fundados.
Em 2016, o papa Francisco elevou o tom dessa retórica: “Estamos experimentando um momento de aniquilação do homem como a imagem de Deus”. O papa incluiu nesse esfacelamento “[a ideologia de] gênero” proclamando: “Hoje, crianças -– crianças! -– são ensinadas na escola que cada uma pode escolher seu sexo!” Finalmente, Francisco deixou claro o que estava em causa do ponto de vista teológico: “Deus criou o homem e a mulher, Deus criou o mundo de uma certa forma... e nós estamos fazendo o exato oposto”.
O argumento do papa é que a liberdade de gênero –- a liberdade de ser, ou de se tornar, um gênero, a ideia de que uma vida generificada pode ser a expressão de uma liberdade individual ou social -– falsifica a realidade, já que, do seu ponto de vista, não somos nem livres para escolher o sexo com o qual nascemos nem para afirmar orientações sexuais que sejam divergentes daquelas ordenadas por Deus. De fato, o direito das pessoas de determinar seu gênero ou sua orientação sexual é visto pelos críticos religiosos antigênero como uma tentativa de usurpar de Deus seu poder de criação e de desafiar os limites da agência humana impostos pela divindade. Para o papa, igualdade de gênero e liberdade sexual não são apenas excessivas, mas destrutivas e até mesmo “diabólicas”.
Brasil passou vergonha: reaças fizeram
um boneco de Butler quando ela
veio a SP em 2017 e o queimaram
aos gritos de "Queimem a bruxa!"
A igualdade de gênero é entendida como uma “ideologia diabólica” por esses críticos precisamente porque eles veem a diversidade de gênero como uma “construção social” historicamente contingente, que tem sido imposta à diferença sexual determinada pela ordem divina. E, embora seja verdade que teóricos de gênero rejeitem a ideia de que gênero seja determinado pelo sexo designado no nascimento, o discurso de que a construção social do gênero é uma destruição deliberada da realidade estabelecida por Deus é uma interpretação que distorce o  campo dos estudos de gênero e a noção de construção social, com consequências nefastas.
Mas se consideramos a teoria de gênero com cuidado, esta não é nem destrutiva nem doutrinadora. De fato, é nada mais do que uma forma de liberdade política para viver em um mundo mais vivível e igualitário.
Em O Segundo Sexo (1949), a filósofa existencialista Simone de Beauvoir escreveu sua mais famosa frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Esta reivindicação criou espaço para a ideia de que o sexo não é a mesma coisa que o gênero. Numa formulação simples para essa noção: sexo seria dado pela biologia, enquanto gênero seria a interpretação cultural do sexo. Pode-se nascer como mulher no sentido biológico, mas a partir daí navega-se numa série de normas sociais e inventa-se como viver como uma mulher -– ou como outro gênero –- numa determinada situação cultural.
Para Beauvoir, o mais crucial é que o “sexo” é desde o começo resultado de uma situação histórica. O “sexo” não está sendo negado, mas está em disputa: nada sobre o que é ser mulher está determinado desde o nascimento, nem o tipo de vida que uma mulher vai levar ou o que ser mulher significa. De fato, muitas pessoas trans são designadas com um sexo no nascimento e vão reivindicar outro ao longo de suas vidas. E se nós pensarmos com base na lógica existencialista da construção social de Beauvoir, alguém pode nascer mulher, mas tornar-se homem.
Uma forte variação “institucional” desta construção emergiu nos anos 1990, focalizando no fato de que o sexo é ele mesmo designado. Isso significa que médicos, família e autoridades legais desempenham um papel crucial na decisão de que sexo uma criança vai ter. Sexo, nesse caso, não é apenas um dado biológico, embora seja parcialmente determinado pelo quadro biológico. Mas qual enquadramento é relevante para essa determinação?
Tomemos o caso das crianças “intersexuadas”, que nascem com uma mistura de  características sexuais. Alguns profissionais recorrem a hormônios para definir o sexo dessas crianças, enquanto outros consideram os cromossomos como fator decisivo. Essa determinação tem consequências: pessoas intersexuais têm expressado cada vez mais críticas ao fato de que autoridades médicas, com frequência, distorcem essas categorizações e as submetem a formas cruéis de “correção”.
Quando considerados em conjunto, o existencialismo e as interpretações institucionais da “construção social” mostram que gênero e sexo são determinados por processos complexos e interativos: históricos, sociais e biológicos. E, na minha visão, as formas institucionais de poder e conhecimento nas quais nascemos precedem, formam e organizam qualquer escolha existencial que venhamos a fazer.
Temos um sexo designado, tratado de várias formas que projetam expectativas de como viver um gênero ou outro, e somos formadas/os em instituições que reproduzem as normas de gênero em nossas vidas. Logo, somos sempre “construídos” no sentido de que não escolhemos. E, mesmo assim, buscamos construir uma vida num mundo social em que as convenções estão mudando e em que lutamos para encontrar a nós mesmos nessa teia de convenções já existentes, mas também mutáveis. Isso sugere que sexo e gênero são “construídos” de um modo tal que nem são totalmente determinados nem totalmente escolhidos, mas, ao contrário, capturados numa permanente tensão entre determinismo e liberdade.
Então, o campo de estudos de gênero é realmente destruidor, diabólico e doutrinador? Teóricos de gênero que reivindicam a igualdade de gênero e a liberdade sexual não estão comprometidos com um ponto de vista hipervoluntarista de “construção social” que tenha como modelo o poder divino. Nem buscam, por meio da educação com enfoque de gênero, impor aos outros suas visões de mundo. Se a ideia de gênero promove algo, é a abertura em direção a uma forma de liberdade política que poderia levar as pessoas a viver sem discriminação ou medo daquilo que é “dado” ou daquilo que é “escolhido” como seu gênero.
Negar essas liberdades políticas, como o papa e muitos evangélicos querem fazer, leva a consequências terríveis: aquelas que desejam abortar serão privadas do exercício dessa liberdade; gays e lésbicas que quiserem casar terão negada a opção de realização desse desejo; e aqueles que desejam assumir um gênero diferente da designação sexual do nascimento serão proibidos de fazê-lo.
Ainda pior, escolas que buscam ensinar sobre a diversidade de gênero serão constrangidas e o conhecimento sobre o atual espectro de possibilidades de vidas generificadas será negado a pessoas jovens. Esta pedagogia em diversidade de gênero é entendida pelos seus críticos como um exercício dogmático que prescreve como os estudantes deveriam pensar ou viver. De fato, esses críticos interpretam de modo equivocado a educação sexual que introduz a masturbação ou a homossexualidade como dimensões da vida sexual, que é um manual para, literalmente, ensinar alunas e alunos a se masturbarem ou se tornarem homossexuais. Entretanto, trata-se exatamente do oposto. O ensino da igualdade de gênero e da diversidade sexual põe em questão o dogma repressivo que manteve à sombra e sem reconhecimento tantas vidas engendradas e sexuais, privadas de uma perspectiva de futuro.
Por fim, a luta pela igualdade de gênero e pela liberdade sexual busca aliviar o sofrimento e reconhecer os diversos modos culturais e corporais nos quais vivemos. Ensinar gênero não é doutrinação: não diz a uma pessoa como viver; abre a possibilidade de que jovens encontrem seu próprio modo de vida num mundo que, com frequência, os confronta com normas sociais estreitas e cruéis. Afirmar a diversidade de gênero não é destruir: é afirmar a complexidade humana e criar espaço para as pessoas encontrarem seu próprio caminho nessa complexidade.
O mundo da diversidade de gênero e da complexidade sexual não vai desaparecer. Vai ampliar as demandas de reconhecimento para todas as pessoas que buscam viver o gênero e a sexualidade sem estigma ou sob a ameaça da violência. Quem vive fora da norma merece estar neste mundo sem medo; merece amar e existir, merece buscar a criação de um mundo menos desigual e livre de violência.