quarta-feira, 20 de junho de 2018

MACHISMO BRASILEIRO ENVERGONHA O MUNDO

A esta altura todo mundo já sabe dos torcedores brasileiros que assediaram uma moça (possivelmente russa) na Copa do Mundo. Eles a cercaram e fizeram um coro de ""B*ceta rosa!" e "É bem rosinha!". 
Tem advogado, engenheiro, policial militar... tudo "homem de bem". Tudo "pai de família" (alguns não pagam pensão, mas tudo bem: pelo jeito basta procriar pra ser considerado um modelo de pai). 
A moça russa tem que dar queixa para que talvez eles sejam deportados. Eu pensava que não iria acontecer muita coisa por lá, já que a Rússia deve ser um país mais machista que o Brasil. Mas uma jurista russa já oficializou a denúncia, e os torcedores podem responder por crimes lá mesmo.
Um deles pediu desculpas, disse estar bêbado. Uma justificativa que não costuma ser aceita quando mulheres que beberam demais são estupradas.
Tem gente (principalmente homens) tratando o vídeo como brincadeira infantil, polêmica, tempestade em copo d'água, exagero. Que tal tratar pelo nome mesmo? É machismo que se chama. 
Hoje circulou um outro vídeo de um rapaz na Rússia pedindo pra estrangeiras repetirem, sem saber o que estão dizendo, "Eu quero dar a b*ceta pra vocês". 
O cara, que é funcionário da Latam no aeroporto de Guarulhos, já foi demitido. (Lembro quando, uns três anos atrás, a Latam demitiu um funcionário em Joinville que era notório troll na internet). 
É óbvio que babacas de qualquer nacionalidade tentando filmar mulheres para se exibirem para os amigos não é nenhuma novidade. Uma leitora me enviou este deprimente vídeo do ano passado, por exemplo. Que bom que isso está se tornando inaceitável!
Uma nota de repúdio da Procuradoria Especial da Mulher no Senado foi lida em plenário pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM):
"A Procuradoria da Mulher do Senado lamenta e repudia a atitude do grupo de torcedores brasileiros que ganhou repercussão internacional durante a Copa do Mundo realizada na Federação Russa.
Explorando a oportunidade do clima de festa, eles se acercaram de uma moça estrangeira e entoaram, coletivamente, expressões de conteúdo misógino, pornográfico, com ofensas ao corpo da mulher. Esse grupo de torcedores envergonha nosso país. Eles se aproveitaram do fato de a mulher não compreender nosso idioma para humilhá-la e ridicularizá-la.
Postado na internet, o fato multiplica a gravidade da cena, que mostra em poucos segundos porque as mulheres brasileiras têm razão em lutar contra ao machismo e uma realidade de estupros e feminicídios que os homens insistem em pintar de cor-de-rosa.
A cultura do estupro brutaliza homens do Brasil desde sua formação mais tenra e por vezes os acompanha até a idade em que deveriam mostrar comportamento adulto e maduro.
Que o repúdio das mulheres do Brasil e do mundo tenha um caráter educativo para esses homens e que a solidariedade coletiva feminina tranquilize e alivie o coração de nossa irmã estrangeira."
A OAB também lançou nota de repúdio, em que explica o problema: "O grupo não estava apenas se regozijando às custas de quem não entendia uma única palavra proferida, mas também demonstrando a naturalidade com a qual praticam a imoralidade, pois seus integrantes fizeram vídeos, tiraram fotos e publicaram em suas redes sociais, para que todos compartilhassem com eles esse momento de 'alegria e diversão', registrando o escárnio, o abuso e a agressão contra uma mulher. [...]
A opressão e o constrangimento sexual são parte da vida das mulheres e as atinge em todas as gerações. É responsabilidade de todos nós coibir práticas que exponham as mulheres e as objetifiquem, reduzindo-as aos seus corpos. O abuso foi covarde e humilhante, atingindo todas as mulheres do mundo. É preciso reforçar políticas públicas e institucionais para combater a misoginia, adotando práticas de igualdade e respeito."
Pois é. E depois dizem que as mulheres brasileiras que saem com estrangeiros é que mancham a imagem do Brasil no exterior...
O meu lado Pollyanna Deslumbrette me faz ver o lado bom disso tudo -- justamente a repercussão do caso, a indignação que os vídeos estão causando. 
Ou vocês imaginariam um escândalo desses quatro anos atrás? Imaginariam manchetes de que esse machismo "envergonha o país"? Sinal de que o feminismo está muito forte.  
Ontem dei uma entrevista sobre os ataques que sofro e a Lei Lola. O Jornal da Cultura citou isso ao tratar dos torcedores machistas (aqui, a partir do segundo minuto).

terça-feira, 19 de junho de 2018

MOÇA ATINGIDA POR MASCU NÃO ESTAVA COM AMIGA, MAS COM A NAMORADA

Cara de psicopata

Ontem dei entrevista a um telejornal e a um jornal de Araçatuba, que cobrem a região de Penápolis (SP), cidade de 62 mil habitantes em que, na sexta à noite, André Luiz Gil Garcia, mais conhecido na internet como Kyo, atirou numa moça pelas costas e se suicidou pouco depois.
Após uns vinte minutos de explicações minhas sobre a quadrilha misógina, o jornalista desabafou: "Estou enojado". 
Esta foi a reação de muita gente que leu o último post, em que contei que André/Kyo fazia parte de uma quadrilha misógina que me perseguia (e outras mulheres também) há anos. A maior parte das pessoas nem imagina que existe esse nível de ódio às mulheres. Tem quem ache que a gente se ofende ao ser chamada de gorda, baranga, mal-amada. Ah, se fosse só isso... 
Relato de uma leitora deixado ontem
(clique para ampliar)
Somos diariamente ameaçadas de morte e muitas vezes de estupro. Divulgam nosso endereço residencial, põem recompensas nas nossas cabeças, prometem atentados nos nossos locais de trabalho, inventam mentiras para que sejamos despedidas, estendem as ameaças às pessoas que amamos (no meu caso, ao meu marido, minha mãe, irmãos), fazem montagens pornôs com nossas fotos e as espalham, colocam nosso telefone residencial em sites de prostituição e swing, criam sites de ódio em nosso nome, nos processam quando os denunciamos... A lista é longa. E na enorme maioria das vezes esses caras sequer nos conhecem. Nos atacam por sermos feministas. Inúmeras vezes, só por sermos mulheres. 
No chan do Marcelo: "Devolvam o ódio que o mundo lhes deu"
A quadrilha misógina (e neonazista) de que falo se autodenomina Homens Sanctos. Existe desde a época das comunidades mais hediondas do Orkut (aquelas que, por exemplo, comemoravam sempre que um feminicídio era cometido). São mascus (abreviação de masculinistas, movimento internacional que prega que vivemos num matriarcado, que a verdadeira vítima da sociedade moderna é o homem branco e hétero, e que se diz pelos direitos dos homens, mas é apenas um grupo organizado de ódio às mulheres). 
Boa parte é também incel (celibatários involuntários, vulgos virjões, homens frustrados por não receberem sexo ou afeto das mulheres que tanto odeiam). Politicamente, sempre apoiam a direita, principalmente os candidatos que prometem liberar as armas no país. Dessa forma, eles poderiam realizar suas fantasias de cometer vários atentados contra "a escória" (mulheres em geral, feministas em particular, negros, LGBT, esquerdistas). 
Orgulho de ser "dogoleiro" (mascu do chan de Marcelo. preso desde o dia 10/5)
Nos chans (fóruns anônimos) públicos e abertos em que escolhem alvos e planejam ataques, a palavra mulher é automaticamente substituída por merdalher ou bostalher. Esse ódio atrai rapazes com tendências suicidas, insatisfeitos com suas vidas (quase sempre não trabalham, não estudam, não têm namorada, moram com os pais). E sempre que um deles anuncia que irá se matar, o chan grita, em coro: "Leve a escória junto!" Ou seja, antes de cometer suicídio, mate algumas mulheres, negros, gays etc. Vire um herói. 
Revolução Incel
Foi isso que fez André/Kyo, moderador do chan de Marcelo Valle Silveira Mello, líder mascu preso desde 10 de maio, após cinco anos ininterruptos de atividades criminosas. Seu ex-comparsa, Emerson Eduardo Rodrigues, preso com Marcelo pela Operação Intolerância em 2012, está foragido. Outro de seus ex-comparsas, Gustavo Guerra, está internado num manicômio. Vários estão soltos, e espero que estejam sendo investigados. André/Kyo está morto. Pelo jeito, o crime pode compensar, mas não compensa pra sempre.
Aproveitei as entrevistas para perguntar aos jornalistas como estava a vítima de André/Kyo. Fiquei sabendo seu nome (Luciana; tenho o nome completo mas não é bom divulgar). Ela está viva, é o que importa. Seu quadro é gravíssimo, mas ela está estável. Passou por uma cirurgia para tirar fragmentos de bala da vértebra (foi atingida na nuca por uma garrucha calibre .22). Impossível não ter sequelas. Deve ficar paraplégica. Todas nós lamentamos muitíssimo, Luciana.
Mas tem mais. Hoje recebi este email da T.:

Vi o seu blog e o que escreveu sobre o [André] Gil.
Conhecia o Gil há mais ou menos 10 anos.
Jogávamos xadrez juntos. Em um dos torneios acabei por ficar com ele. Coisa de criança, deveria ter 15 anos. Foram apenas beijos.
Depois disso, aos 16/17, me assumi homossexual!
Aos 18 me mudei para outra cidade.
O Gil nunca aceitou. Por anos ele me mandou mensagens no Orkut, Ask, Facebook, Twitter e email.
Foram 10 anos dele me mandando todo tipo de mensagem. Algumas muito pesadas, como as que ele diz que só sou lésbica por ser mal comida e mais algumas barbaridades.
Bloqueei ele de todas as formas. Porém, ele começou a mandar mensagens para a minha irmã tentando contato comigo. Contei a história para ela, mostrei os e-mails, e ela passou a cortá-lo e por fim bloqueá-lo. Ele queria meu wpp, e-mail, fb!
A última vez aconteceu esse ano.
Foram 10 anos de perseguição.
Todas as vezes que eu ia para a minha cidade tinha medo de encontrá-lo.
Ontem quando soube da notícia, a sensação de todos que sabem dele, dos e-mails etc, é que se eu estivesse lá, poderia ter sido eu, e não a Luciana.
Por sinal, ela não estava com uma amiga, mas sim com a namorada dela.
Enfim, só queria compartilhar isso contigo. Nunca denunciei, não imaginava que ele faria mal a outra pessoa dessa forma.

Obrigada pela informação, T. Isso é algo que ninguém disse ainda: Luciana e a moça que foram assediadas por Kyo não eram apenas amigas -- eram namoradas. Mais um agravante pro crime do mascu: lesbofobia.
Ainda não sabemos o que aconteceu (será que não há imagens de câmeras na rua de como foi a tentativa de feminicídio, já que o crime aconteceu numa das maiores avenidas de Penápolis?). 
Premeditado
Será que Kyo viu que as duas eram namoradas, e por isso decidiu matá-las? Ou pensou que eram só amigas? O fato é que o crime foi premeditado. Kyo saiu com sua arma com vontade de usá-la, pronto para "levar a escória junto", poucas horas depois de comunicar aos membros da quadrilha o que iria fazer -- e de sonhar com isso havia anos.
Ele obviamente não está sozinho. Ontem seu "acto sancto" foi parar num fórum incel em língua inglesa. Os mascus de lá comentaram aberrações repulsivas e eugenistas como: "Não digo que concordo com ele mas entendo", "Ele tem o meu respeito por ser contra a mistura de raças", "Deve ser horrível ser um incel branco no Brasil", "Só matou uma? É um inútil".
Também teve o depoimento que me enviaram da G., uma ex-namorada virtual de André/Kyo: "Eu namorei o André virtualmente por alguns meses, depois de acabar entrando em um grupo de facebook que ele era dono, e entre posts de ódio super curtidos, tinham uns posts dele, que ninguém respondia, posts que demonstravam a tamanha frustração que ele tinha com esse mundo e com as mulheres em específico. [...] Ele não poupava as palavras e atos de ódio, ele se vangloriava de ter sido o mentor de Wellington Menezes, o cara que atirou dentro de uma escola em Realengo, ele também era administrador do dogolachan, um chan de ódio a minorias e em especial, mulheres, antes de se matar, o Kyo postou no seu chan o que faria e junto a carta de despedida deixou a frase que Wellington também usou antes de abrir fogo contra estudantes, 'os impuros não me tocarão'". 
Recado de André/Kyo no chan com a mensagem permanente "Se for se matar, leve a escória junto"
Alguns dos vídeos de ódio de Kyo
Embora a moça seja visivelmente desequilibrada -- ela escreveu que "entre tantos assassinos em massa que eu gosto, investigo, exalto, ele era o próximo" -- dá pra ter uma ideia do que André/Kyo era.
E não era coisa boa. Assim como nenhum mascu. 

domingo, 17 de junho de 2018

MASCU ATIRA CONTRA DESCONHECIDA NA RUA E SE MATA

Mais uma prova de como mascus podem ser perigosos e de que machismo mata
Sexta à noite em Penápolis (cidade próxima a Araçatuba, em SP) um rapaz de 29 anos chamado André Luiz Gil Garcia atirou contra uma moça de 27 anos que ele nunca tinha visto antes. Ela e uma amiga estavam sentadas em um banco próximo ao camelódromo, numa das principais avenidas da cidade, quando André passou a assediá-las. Assustadas, elas se levantaram e foram embora depressa. Ele continuou perseguindo, pedindo para uma delas sair com ele. Diante da negativa, o covarde atirou nela pelas costas, na nuca, com uma garrucha calibre 32. A amiga conseguiu fugir. A vítima foi levada ao hospital em estado grave, já passou por cirurgia, e com sorte irá sobreviver, quase certo com sequelas.
Depois de atirar, André saiu correndo a pé pelas ruas e foi encontrado por uma viatura da Polícia Militar. E então se matou, atirando contra o próprio peito. 
Por que estou escrevendo sobre isso? Como sei que esse cara que cometeu tal crime é um mascu?
Clique para ampliar o recado de André no Dogolachan na sexta
Porque na sexta mesmo André escreveu no chan de Marcelo Valle Silveira Mello (preso pela Operação Bravata desde o dia 10 de maio), o Dogolachan, que iria se matar, que sua vida não valia a pena. 
Como é de costume em todos os chans, sempre que aparece alguém dizendo que vai se matar, os outros respondem, quase em coro: "Leve a escória junto". Em outras palavras: antes de se suicidar, vire um herói. Mate mulheres, homossexuais, e negros. Só depois se mate.
Foi isso que fez um dos heróis dos mascus, Wellington, no massacre de Realengo, no Rio, em março de 2011. Ele entrou na escola em que havia estudado anos antes e matou dez meninas e dois meninos. Era um mascu, frequentava fóruns mascus, e foi influenciado por eles a cometer o "acto sancto". 
André conhecia muito bem a história, já que ele se autointitulava Kyo (às vezes Fuego Sancto, às vezes Kyo El Fuego Sancto) e era um mascu já naquela época. Kyo me ameaçava de morte desde então. 
Ameaçava várias outras mulheres também, como a filha da cantora Simony e a neta de 3 anos de Monique Evans, mas nunca foi preso (também fez uma página racista para "apoiar" a torcedora racista do Grêmio, e foi autor de uma página horrível chamada "Eu não mereço mulher preta", iniciada por seu ex-comparsa Gustavo Guerra, que está internado em manicômio). Kyo conseguia escapar ileso, pois era mais cuidadoso que os outros membros da quadrilha -- não revelava o nome real ou seu rosto.
Alguns dos vídeos que Kyo/André fez
Quando Emerson e Marcelo foram presos pela Operação Intolerância, em março de 2012, Kyo continuou o site de ódio deles por um tempo. Ele tinha a senha. 
Kyo permaneceu incógnito até 2015, quando fez algo muito comum entre aqueles acostumados a não conquistar qualquer afeto feminino: se apaixonou por J., uma moça depressiva, neonazista como ele, que lhe deu o mínimo de atenção. Ele conseguiu enganá-la, passando o nome de um tal de Bryan de São Bernardo do Campo como se fosse dele (J. me enviou todos os dados num email do início de 2016, que repassei à PF). Mas ao menos Kyo revelou o rosto. Fez vários vídeos misóginos com a sua cara, a sua voz. Não era mais um anônimo. 
Tiro na nuca
Os mascus riram dele ao saber que ele quebrou o anonimato por causa de J. Foi chamado de "mangina" (misto de man e vagina, que alguns mascus brasileiros traduzem como escravoceta). Foi humilhado inúmeras vezes no chan do Marcelo -- que Kyo moderou durante vários anos, entre 2013 e 2016 (ele brigou brevemente com Marcelo, abriu seu próprio chan, e ano passado voltou a moderar o Dogolachan). 
Boletim de ocorrência que Gustavo fez em 2017 contra Marcelo e André
Kyo, que morava com os pais e não estudava nem trabalhava (algo recorrente entre mascus), salvo alguns bicos como ajudante de pedreiro, usava seu vasto tempo ocioso para planejar publicamente a morte de J. e falar de suicídio. Assim que Marcelo foi preso, um mês atrás, Kyo sumiu. Reapareceu ontem para avisar que iria se matar. Disse que eu tinha sorte que ele não conseguiria vir até Fortaleza para atirar em mim. 
Vários se ofereceram para pagar a passagem. Mas acho que, no fundo, ninguém achava que ele iria cumprir o plano de se suicidar. Os mascus nem sabiam que ele tinha uma arma.
Ameaças no chan também ao juiz que está mantendo Marcelo (Psy) na prisão
Kyo provavelmente temia ser preso também. Eu estava surpresa que, entre os oito mandados de busca e apreensão da Operação Bravata em 10 de maio, nenhum foi para Kyo. Ele, além de moderador do Dogolachan, era um dos covardes ideais para confirmar todos os podres do líder Marcelo. 
Se Kyo/André tivesse sido preso, é bem possível que a moça em quem ele atirou não passaria por isso. E talvez ele estivesse vivo. 
Espero que a PF agilize os processos e prenda os outros membros da quadrilha. É fundamental que Marcelo continue preso (por muitos anos), mas os outros mascus também podem ser perigosos, como estamos vendo no caso do Kyo. 
Goec dizendo que sente-se culpado pela morte de Kyo e que irá se matar também, não sem antes cometer atentado
Que fique a lição para os reaças que tanto pedem a liberação de armas. É o que mascus mais querem na vida, porque assim poderiam cometer mais atentados.
Aliás, é duro entender como espaços tão tóxicos como os chans, que servem para planejar e incitar massacres e anunciar suicídios, além de espalhar todo tipo de pedofilia, racismo, misoginia e LGBTfobia, permaneçam abertos. 
Torço para que os mascus se deem conta que a vida de ódio que eles escolheram seguir só leva a mais tristeza, à prisão e às vezes à morte. Quase sempre, eles são as principais vítimas do ódio deles. Fica o desejo sincero para que parem de cultuar símbolos do fracasso e saiam dessa enquanto há tempo. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

NOSSAS HERMANAS ARGENTINAS CONQUISTAM VITÓRIA HISTÓRICA

Ontem foi sem dúvida uma data histórica para as mulheres da Argentina e de toda a América Latina.
Depois de muitas negociações, a Câmara de Deputados deu sinal verde ao projeto com o lema “educação sexual para decidir, métodos anticoncepcionais para não abortar e aborto legal para não morrer".
O placar foi apertado (129 votos a favor e 125 contra), mas não deixa de ser uma enorme vitória. A lei ainda precisa ser aprovada no Senado e depois sancionada por um presidente conservador. No entanto, o primeiro desafio foi vencido. As feministas acreditam que passará, e a Argentina será o quarto país da América Latina a legalizar o aborto (os outros são Cuba, Uruguai, Guiana Francesa e Cidade do México -- o resto do México não. Vale lembrar que justamente os dois continentes mais miseráveis do mundo, América Latina e África, são aqueles que mais criminalizam o aborto). 
A criminalização do aborto na Argentina vem de uma lei de quase um século atrás, de 1921, que promete prisão de 1 a 4 anos para a mulher que abortasse. No Brasil nosso Código Penal de 1940 (78 anos atrás) criminaliza o aborto, diz que uma mulher pode ser presa por até 3 anos, ou investigada por até 8 anos após realizar o aborto.
Desde 1983, ano que marca o fim da ditadura na Argentina, o projeto de lei pela descriminalização do aborto foi apresentado sete vezes no Congresso, mas nunca chegou a ser votado. Embora a Argentina tenha sido o primeiro país latino-americano a aprovar o casamento homossexual (em 2010), e a ter uma identidade de gênero 
(em 2012; a lei João Nery, de autoria de Jean Wyllys, tramita no nosso Congresso, o que permitiria aos brasileiros trans o nome e gênero que querem no documento de identidade), Cristina Kirchner era contra a legalização do aborto e, nos treze anos que o kirchnerismo esteve no poder, nunca propôs discutir o aborto (um deputado filho de Cristina votou pelo sim).
O presidente atual, Mauricio Macri, que com sua política neoliberal faz os índices de miséria e desemprego dispararem (ao ponto do país ter que voltar ao famigerado FMI), também é contra a legalização do aborto, mas afirmou que, se o legislativo aprovar o fim da criminalização, ele vai sancionar. 
Se o projeto for aprovado, médicos terão direito a se recusar a realizar aborto por questões de consciência, mas hospitais, não. Em outras palavras: se um médico de um hospital (público ou particular) não quiser praticar o procedimento, tudo bem, mas o hospital precisa ter médicos que o façam (o que não é exatamente um problema, já que a maior parte dos médicos é a favor da legalização). 
Na votação na Câmara, a esquerda foi unânime em favor da legalização (o único deputado socialista que anunciou que votaria pelo não teve que sair do partido), mas a direita se dividiu. 
Talvez o mais importante é que tudo isso trouxe um tema tabu, o aborto, à ordem do dia. Houve um amplo debate. 
Entre abril e maio, mais de 700 oradores a favor e contra o aborto legal falaram no Congresso. O ministro da Saúde, Adolfo Rubinstein, estimou que entre 350 mil e 450 mil mulheres abortam todos os anos na Argentina, e apontou que em todos os países em que o aborto é legalizado, os números caem. A escritora Claudia Piñeiro disse que os "pró-vida" não deveriam ficar com o monopólio da palavra "vida". 
Pra se ter noção do tamanho da conquista de ontem, dois meses atrás, quando o projeto recebeu o apoio de 72 deputados (e por causa disso entrou na agenda), sua aprovação era vista como impossível. Como me disse a jornalista Sofía Benavides (que me telefonou da Argentina para perguntar como a aprovação lá pode afetar os rumos daqui), o Congresso deles é tão conservador como o nosso, mas foram as mulheres na rua que fizeram toda a diferença.
Na Argentina as mulheres são 30% da Câmara, um número muito superior aos nossos pífios 10%, mas nem todas as mulheres votam a favor das mulheres. O consenso é que se não fosse a força das feministas e a mulherada na rua, o projeto não teria sido aprovado. 
O apoio das estudantes foi fundamental. Nas imagens, podemos ver muitas garotas jovens (assim como no Chile). Uma multidão ocupou praças por 23 horas, no meio de frio intenso, para acompanhar a votação na Câmara. Mulheres (e homens também) passaram a noite em frente ao Congresso, entoando gritos de guerra como "Aborto legal, en el hospital!", "Saquen sus doctrinas de nuestras vaginas / saquen sus rosarios de nuestros ovarios!” (tirem suas doutrinas de nossas vaginas, tirem seus rosários de nossos ovários) 
e “Y ya lo ve, y ya lo ve, es para el Papa que lo mira por TV" (é para o Papa que está vendo pela TV). 
Mas não foi só ontem. Antes disso, inspiradas por movimentos como o Ni Una a Menos (Nem uma a Menos), milhares de argentinas fizeram passeatas e marchas. Elas sabem que nosso corpo é um campo de batalha, o primeiro território a ser controlado. 
E aqui no Brasil? Bom, a gente certamente espera que a grande conquista das argentinas nos inspire, que tenhamos debates de verdade (não baseados em mentiras e meras crenças religiosas) sobre o aborto. Porém, com o congresso mais conservador de todos os tempos, é preciso lutar para que as eleições de outubro tragam um legislativo melhor, com mais mulheres, mais negrxs, mais representantes LGBT, mais esquerda. Do jeito que está, a bancada BBB (Bala, Boi e Bíblia) domina. 
Amei este cartaz de uma marcha em 5
de junho: "Nos querem como musas
porque nos temem como artistas"
E só pra dar uma ideia do atraso: em novembro do ano passado, 18 deputados (todos homens de direita), em comissão especial, aprovaram uma PEC que proíbe aborto em todas as situações. Há vários outros projetos no sentido de proibir o aborto em todos os casos (o que inclui gravidez em decorrência de estupro, risco de vida para a mulher, e fetos anencéfalos). Traduzindo: se depender desse Congresso, há mais chances de imitarmos Nicarágua e El Salvador (onde o aborto é criminalizado em todos os casos e mulheres são presas se tiverem aborto espontâneo) do que em legalizarmos, o que pode salvar milhares de mulheres de morrerem todos os anos em abortos clandestinos. 
Há iniciativas tímidas, sem a mesma força da turma do atraso. Jean Wyllys é autor de um projeto de lei em defesa da legalização do aborto, escrito em conjunto com mulheres do Psol. A vereadora Marielle Franco, executada há três meses, era autora do PL "Pra fazer valer", que pedia a garantia ao aborto legal e seguro nos casos em que o aborto é permitido. 
O Psol atua também na esfera jurídica. Junto à ANIS (Instituto de Bioética), protocolou uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) argumentando que a criminalização do aborto no Código Penal vai contra a Constituição Federal, pois desrespeita direitos fundamentais das mulheres. Em agosto haverá audiências públicas no Supremo para discutir isso. É mais fácil o judiciário avançar na descriminalização do que o legislativo. Mas o judiciário tem nos decepcionado imensamente nos últimos anos.
De todo modo, a lição que fica da Argentina é uma só: é preciso lutar. Tomar as ruas. Gritar. Exigir nossos direitos. Acabar com essa passividade que vem nos derrotando. 
Vejam os vídeos comoventes de quando o resultado foi anunciado na Argentina. Tentem não se emocionar. E imaginem a gente comemorando isso aqui.