quinta-feira, 21 de março de 2019

ALGUMAS GRANDES MULHERES DA CIÊNCIA

Como ainda estamos em março, mês do Dia Internacional da Mulher, é sempre bom relembrar ou conhecer grandes mulheres que o patriarcado fez questão de esconder, discriminar, desvalorizar, enterrar. 
Foi meu querido (e antigo) leitor Koppe que encontrou esses desenhos e os traduziu.
Ele sentiu falta de Lise Meitner, que deixou de ganhar o Nobel por puro machismo (e que se recusou a fazer parte do Projeto Manhattan, pois não queria colaborar na criação de nenhuma bomba atômica). 
E onde está Marie Curie, que foi não apenas a primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel, como também a única pessoa na história a ganhar o Nobel em duas áreas distintas? E as maravilhosas cientistas negras?
Eu gosto de publicar grandes feitos de mulheres porque sempre tem uns homens cretinos que insistem que foram eles que criaram tudo. Primeiro que isso simplesmente não é verdade; segundo que desconsiderar o contexto histórico (mulheres só começaram a poder estudar recentemente) é uma baita desonestidade intelectual (termo que eles adoram usar).
É aquela tal coisa de que nós, mulheres, somos "ingratas com o patriarcado". De acordo com essa lógica, os homens criaram tudo pra gente, e é assim que a gente retribui? Querendo os mesmos direitos?! Onde já se viu?
Pros carinhas que juram que foram homens que criaram tudo, eu sempre respondo, na lata: "E você, hominho? Criou o quê?"

quarta-feira, 20 de março de 2019

COMO É TRAUMA DE MASCU

Gente, fui convidada para participar do programa Encontro com Fátima Bernardes ao vivo, na sexta-feira, pra falar um pouco sobre como pensam os misóginos. Acho que seria uma visibilidade importante. Um monte de gente que eu admiro achou também, quando eu falei disso no meu Twitter, ontem à noite.
Eu gostaria de ir. O porém é que hoje voo pra Brasília, e amanhã dou duas palestras na UnB, uma às 10h, no campus Darcy Ribeiro, e outra às 16:30, no campus Planaltina. Vocês estão convidadxs pra ambas! Por favor, apareçam!
Pra estar no Encontro da Fátima, eu teria que ir de Brasília pro Rio ainda na quinta. Até aí, sem problemas. A Globo pagaria minha passagem de Brasília para o Rio, hotel, e a volta. O problema é que o SCDP (Sistema de Concessão de Diárias e Passagens) já pagou a minha passagem de volta de Brasília para Fortaleza, que seria na sexta de manhã. E também já depositou o valor de duas diárias na minha conta. 
Na Universidade Estadual da Bahia,
campus Caetité, sertão baiano,
na última sexta-feira à noite
No final da viagem, preciso prestar contas de tudo isso. Se eu ficar irregular, o sistema de concessão não paga mais as despesas das minhas viagens para palestras e bancas em outras universidades por um ano (e lembrando que, em 95% das minhas palestras, eu não cobro nada, apenas as despesas com viagem e hospedagem).
Como eu pensei em resolver o problema? Eu devolvo a passagem de volta que o SCDP já concedeu (R$ 435) e uma das diárias (creio que cerca de R$ 300). Mas pra isso conto com a ajuda de vocês. Vocês podem doar esses R$ 735 pra mim? Se cada um doar um pouquinho, não vai doer no bolso de ninguém. Por favor, façam o depósito na minha conta no Banco do Brasil (ag. 3653-6, cc 32853-7), ou na minha conta no Banco Santander (ag.  3508, cc 010772760), ou no PayPal aí do lado.
Se vocês doarem mais que os R$ 735, eu repassarei o excedente para a família de Iasmyn Nascimento de Souza da Silva. Iasmyn, de 20 anos, e sua namorada Juliana, de 24, foram assassinadas a facadas por um vizinho em Angra dos Reis (RJ). Ele era foragido da Justiça (agora foi preso) e já havia matado outra mulher em MG. No último sábado, ele assediou Iasmyn, eles discutiram, ele partiu para cima dela com uma faca. Juliana, ao tentar defendê-la, foi golpeada também. Um terrível lesbocídio. A família de Iasmyn precisa do dinheiro para o enterro (a vakinha termina na sexta, mas a família é pobre, e certamente precisará de mais dinheiro). 
Bom, então eu vou pro Programa da Fátima! Já vou dar como certa a colaboração de vocês.
Atenção: agora, no aeroporto de Fortaleza, recebi duas péssimas notícias. Uma, que meu voo foi cancelado. Vou chegar muito mais tarde hoje em Brasília. Duas, que a produção do programa da Fátima cancelou a pauta, sem maiores explicações, por enquanto. Então o tema não seráo mais sobre grupos de ódio e não irei mais ao Encontro. Muito obrigada a todxs que doaram dinheiro (ainda não sei quanto), e não se preocupem, que o valor será doado à família da Iasmyn. Na sexta, quando eu estiver de volta à Fortaleza, faço a transferência e aviso vocês do valor). Ontem, quando uma produtora do programa me contatou, ela também pediu prints que mostrem como esses homens frustrados que habitam o submundo da internet pensam. Enviei vários pra ela.
Sentimento de entitlement
desenhado: numa caixa,
"Eu quero"; em outra,
"Não é justo"
E me lembrei também desses dois relatos que eles publicaram no chan do Marcelo, que vou reproduzir abaixo (eu tinha publicado sem querer, sem ilustrações ou links, em setembro de 2017, daí alguns comentários na caixa, antes de eu remover o post). 
Um dos muitos problemas dos mascus (e de muitos homens que não necessariamente seguem uma ideologia de ódio) é que eles nascem achando que o mundo lhes deve alguma coisa (vaga na universidade, um bom emprego, reconhecimento, as "melhores mulheres"). É o sentimento que em inglês se chama entitlement. Eles pensam que merecem tudo isso apenas por terem nascido homens e brancos, e se frustram quando veem que o mundo não é bem assim e que, apesar dos privilégios indiscutíveis que eles têm por serem homens, há mais gente no mundo batalhando. 
Outra coisa que me chama a atenção é quando leio relatos de momentos traumáticos de mascus. São muito diferentes dos traumas que tantas mulheres têm. Acompanhem este caso que, apesar de anônimo, atribuo a um membro da quadrilha chamado Goec, um terrorista perigoso que continua solto e diz viver na Alemanha ou na Suíça (atenção, que o relato contém linguagem ofensiva e preconceitos explícitos):
Eu vejo vocês reclamarem da vida como se o planeta inteiro fosse como o Brasil. Não, pessoal. O mundo civilizado (Europa) não é como o Brasil.
Eu me lembrei hoje de algo que me deixou muito triste na infância e me fez abandonar um sonho por um tempo. Quando eu tinha 6 anos minha mãe me colocou na natação. Apesar da pouca idade eu era foda e gostava muito desse esporte.
Um dia, não me lembro com qual idade mas lembro que eu já tinha aprendido os quatro tipos de nado, virada e muitas outras coisas.
Ate que um professor chamado William (nunca vou esquecer este nome), musculoso, de óculos escuro, metido a playboy, passou a dar aula. Esse cara tinha uns 30 anos de idade, formado em educação física e que simplesmente dava em cima de TODAS as mulheres. Até nas de 6 anos de idade. E em relação aos homens ele fazia o contrário.
Passava atividades pra gente e depois ia conversar com as mães dos alunos pra tentar comer.
Um dia esse filho da puta passou uma atividade pra todos terminarem e eu fui o primeiro acabar. Acabei antes de uma vadiazinha que devia ter uns 15 anos de idade e era mais avançada que eu.
Sabem o que ele me falou na frente de todo mundo?
Por que você mente tanto? Nunca na sua vida você vai terminar antes da (nome da puta que não lembro). Isso acabou comigo. É a única coisa ruim que eu me lembro da infância.
A menina virou pra ele e disse que ela havia feito pausa e por isso eu terminei primeiro. Aí o cara olhou pra mim e disse: Ah, então está bem.
Depois disso eu perdi o amor pela natação e acabei largando meses depois. Eu amava aquilo. Fazia 3 vezes por semana.
Eu era uma criança inocente. Vocês acham certo fazer isso com uma criança? Vocês já fizeram isso com uma criança?
Email de Goec enviado a mim
anteontem (clique para ampliar)
Voltei a fazer quando fui pra Alemanha.
E o que eu tenho pra falar?
Eu NUNCA vi um professor ser antiético da forma como esse William fez e muito menos um professor cantar alunas ou ter QUALQUER atitude que possa ser considerada não profissional. Não tem gente cantando ninguém, não tem gente humilhando as pessoas para aparecer etc.
Ai quando chega um BOSTILEIRO [forma que mascus chamam brasileiros] pra fazer video, critica justamente as partes que são a base da sociedade civilizada, como ética, respeito, separação total da vida privada e da profissional etc.
Boteco na Alemanha
O lugar de trabalho no Brasil é mais informal que um boteco na Alemanha. Eu fico impressionado em como o Brasil é uma merda. Todas as lembranças que eu tenho dessa merda me fazem pensar em botecos. País sem cultura, sem história, sem regras não tem futuro.
Por isso eu não tenho pena de fuder com a vida de brasileiros. Não tenho pena de ligar pra mãe de um cara e dizer que o filho está em estado grave no hospital depois de sofrer um acidente. Não tenho pena de estuprar uma mulher brasileira. 
Não tenho pena de nada. Quero apenas vingança.
E um dia eu vou achar esse professor William. Estou na cola dele, hue [jeito que alguns mascus manifestam rir].
E quando eu souber o nome dele, o endereço dele, o nome da mãe dele, vai ser bem diferente de quando eu era uma inocente criança de 8 anos de idade.
Ontem estava relendo alguns prints e me deparei com este, escrito por Marcelo dois meses antes de ser preso. Ele tinha muita certeza da impunidade. Me deu uma satisfação enorme lembrar que ele foi condenado a 41 anos de prisão. Clique para ampliar
Este é relato do ex-líder da quadrilha, Marcelo, que foi preso em maio do ano passado e condenado a 41 anos de prisão, em dezembro. Ele escreveu isso no chan no início de 2017, quando havia comprado uma apartamento novo em Curitiba -- com dinheiro da mãe -- e Temer ainda era presidente.

Eu me espelho em caras como o Michel Temer.
Veja a mulher do cara, branca, gostosa, enquanto ele é velho, rico e sábio.
Este Michel Temer tem vários livros de Direito Constitucional.
O cara é definitivamente ALPHA.
Ele não é ALPHA porque é bombado ou maromba, ele é ALPHA por sua capacidade intelectual e financeira.
Acabei de sair de um Uber. A vadialher era uma 8/10 [nota que mascus dão pra aparência das mulheres] e toda falante. Ai eu falei que estava voltando do apartamento que eu acabei de comprar, e falei que tinha passado em concurso. Aí a vagabunda já começou a melar a boceta.
Mas fiquei puto porque a vadia disse que também passou neste concurso só que para ANALISTA. É da área de DIREITO.
Já estou puto até agora porque não aceito ser superado por uma esgotalher, mesmo que seja em outra área.
Vadias sempre tem que ficar ABAIXO de mim.
Me lembro que quando era criança jogando com a minha mãe eu batia nela quando ela ganhava, porque dizia que vadialheres sempre tem que perder, eu sou homem e sou melhor. Nunca aceitei perder pra nenhuma vagabundalher.
Estou puto até agora. Imaginei esta vadia chupando rolas gozando com o salário de 10k. Salário que era para EU estar ganhando.

terça-feira, 19 de março de 2019

BOLSONARO ENVERGONHA O BRASIL

Não sou só eu que tô dizendo, é uma hashtag em primeiro lugar nos Trending Topics do Twitter.
Haja animação!
Um leitor querido até escreveu um poema pra mim:
Hoje Bolso e Trump se encontraram durante vinte minutos. 
A direita brasileira está tendo orgasmo múltiplos. Afinal, está vendo seus maiores mitos mitos (ambos desgastados, acusados de corrupção e vários outros crimes) juntos. 
Como disse um brasileiro nos EUA, "o bolsonarismo é uma combinação terrível do viralatismo com o entreguismo. E agora ele está aqui nos EUA para formalizar a entrega do Brasil para o Trump".
É verdade. Nunca o Brasil foi tão servil aos EUA. Particularmente adorei a explicação de um bolsominion sobre o encontro de Trump e Bolso, seus dois mitos: "Não é submissão do Brasil, é uma admissão de que temos muito o que aprender com os americanos, principalmente sobre patriotismo". How true! Realmente, patriotismo inclui não se ajoelhar pra outro país. 
Bolso, que já havia chamado o Brasil de lixo, agora decidiu declarar à Fox News que "a grande maioria dos imigrantes não têm boas intenções nem quer fazer o bem aos americanos". Um de seus filhos, Dudu, afirmou recentemente que brasileiro ilegal é "vergonha para a gente". 
É no mínimo chato isso, já que a maior parte dos brasileiros nos EUA votaram em Bolso. Ele não gosta muito de vocês, caras. Ou vocês não se identificaram com a parte da "grande maioria"? Vocês são a minoria?
Mesmo a emissora mais reaça dos EUA perguntou sobre as ligações perigosas entre Bolso e os milicianos que mataram Marielle. Deve ter doído em Bolso, acostumado a uma mídia mais chapa branca ainda (Record, SBT, Band...).
Ontem foi a CNN Chile que fez uma matéria com o título "Todas as pistas que levam a Bolsonaro: Justiça brasileira ainda não esclareceu quem mandou matar Marielle Franco". Só isso já é uma vergonha imensa. Ou teve alguma outra vez na nossa história que o presidente esteve ligado com policiais que matam por encomenda?
Esta é só uma parte de como Bolso envergonha o país. Outra é liberar que americanos possam vir ao Brasil sem visto, sem a contrapartida de que brasileiros possam ir aos EUA sem visto. Ou seja, um acordo que só beneficia os EUA. 
Outra vergonha (que ainda precisa ser aprovada pelo Congresso) é o acordo assinado para que os EUA possam lançar satélites e foguetes da base de Alcântara, no Maranhão.
Quer mais vergonha alheia? Bolso declarar à TV deles seu apoio ao muro que Trump quer construir entre EUA e México. São dois países soberanos -- o que isso tem a ver com o Brasil? Foi apenas mais uma oportunidade de Bolso expor sua já conhecida xenofobia.
Somos oficialmente capacho dos EUA
Foram tantas pérolas numa só visitinha aos EUA que é difícil escolher a melhor. Talvez seja Jair negando sua fama de preconceituoso: "Se eu fosse tudo isso [homofóbico, racista e misógino], eu não teria sido eleito presidente". Todo mundo sabe que Bolso é tudo isso e mais um pouco (tipo miliciano). Algumas pessoas votaram nele justamente por isso. Mas quiçá a maioria tenha votada enganada por uma enorme quantidade de fake news made in USA, através do Steve Bannon
Todo o comportamento de Bolso e sua comitiva em Washington prova que o slogan "Brasil acima de tudo" é mera propaganda enganosa. Bolso é um capacho de Trump.
Esta charge pra mim já diz tudo: queriam receber o verdadeiro presidente do Brasil, José de Abreu.

segunda-feira, 18 de março de 2019

POR QUE O MASSACRE DE SUZANO FOI UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Homenagens na escola onde ocorreu o massacre de Suzano

Na Uneb de Caetité, na Bahia
Logo depois do massacre de Suzano, chegaram por email uns trinta pedidos de entrevista da grande mídia. Respondi todos explicando que eu não estava em casa, em Fortaleza, e sim viajando e trabalhando, primeiro em Maceió, e depois em Caetité, sertão baiano. 
Algumas entrevistas eu respondi por email de madrugada, ao voltar das palestras. Outras eu agendei pra ontem, quando voltei. Foi o caso da do Fantástico, que dei pelo Skype (pra quem não viu a boa reportagem do programa, está aqui).
Continuo bastante sem tempo, porque esta semana vou para Brasília. Reproduzo aqui hoje uma das entrevistas que respondi de madrugada. Esta para o jornal O Dia, que foi publicada ontem. As perguntas são de uma jornalista que preferiu não assinar a matéria (o que é totalmente compreensível, visto que os chans adoram perseguir mulheres e que agora há um presidente no poder que comanda ataques orquestrados a jornalistas -- principalmente jornalistas mulheres).
O DIA - Em um texto no seu blog, você diz que o massacre em Suzano era uma tragédia anunciada, por quê?
Cabeçalho do fórum anônimo (que
ainda não estava na Deep Web) no
início de 2014: com imagens de
assassinos, o chan de Marcelo
pedia que seus frequentadores
"fossem heróis"
Lola Aronovich - Porque parece que de fato um dos atiradores frequentava o Dogolachan e avisou que iria cometer um massacre. Há prints. Porém, independentemente disso, eu monitorei o Dogolachan durante quatro anos, e não houve um dia sequer em que os membros não fantasiavam como iriam matar "a escória" (mulheres em geral, feministas em particular, negros, LGBT etc) assim que as armas fossem liberadas. Faz no mínimo quatro anos que eles cultuam "heróis" como o do Massacre de Realengo ou o do massacre na Califórnia, em 2014. Desta forma, eles tentam convencer outros rapazes a matarem para se tornarem "ícones" também.
Quando você entrou em contato com os chans? As ameaças começaram logo de cara?
Eu já havia sido atacada por alguns chans por ser feminista. Mas o chan que mais me perseguiu, o Dogolachan, foi uma criação do Marcelo (Valle Silveira Mello, fundador deste e de outros fóruns de disseminação de ódio) no segundo semestre de 2013, pouco depois que ele saiu da prisão. Só fiquei sabendo do chan no início de 2014, e isso porque Marcelo fez questão de me enviar um link. Ele queria que eu acompanhasse as ameaças diárias de morte, estupro e tortura contra mim.
Você procurou a polícia? Recebeu alguma orientação ou algum tipo de proteção na ocasião?
Marcelo e Emerson em
janeiro de 2016, em
Curitiba
O primeiro boletim de ocorrência eu fiz em janeiro de 2012, por conta das ameaças do site de ódio Silvio Koerich, mantido por Marcelo e Emerson (Eduardo Rodrigues Setim, parceiro de crimes de Marcelo). Depois eu fiz vários outros BOs (11, no total). Um dos primeiros foi contra o Dogolachan, no final de 2014, quando eu estava recebendo ameaças por telefone na minha casa. Eu levei os prints que tirava. Lá eles planejavam tudo. Marcelo dava ordens para um neonazista gaúcho, que hoje está internado num manicômio, me ligar. Nunca recebi qualquer orientação ou qualquer tipo de proteção de qualquer polícia, seja Civil, Federal ou Delegacia da Mulher.
Qual o perfil dos integrantes desses fóruns de propagação de ódio?
Montagem de assassinos com
cabeça do cachorro símbolo do
Dogolachan
A grande maioria dos channers (frequentadores de fóruns anônimos), dos Sanctos (como se autodenominam os homens do Dogolachan), e dos incels (celibatários involuntários, mais conhecidos como "virjões") mora com os pais. São adultos, maiores de idade, mas não estudam nem trabalham. Passam o dia espalhando ódio diante de um computador. Se eu fosse mãe e sustentasse um filho, gostaria de saber o que ele faz no computador o dia inteiro. Sei que não é fácil, há vários casos de Sanctos que batem na própria mãe. Mas tem Lei Maria da Penha para coibir isso.
Quais avanços você sentiu desde que a lei que leva o seu nome entrou em vigor?
Um mês depois que a Lei Lola entrou em vigor, Marcelo foi preso pela Operação Bravata. Mas não por causa da lei. As investigações haviam começado muito antes. A Lei Lola ainda está no começo. A Polícia Federal precisa levá-la mais a sério e nos orientar como denunciar e em qual casos. Um dos grandes avanços da Lei Lola é que, pela primeira vez, a palavra misoginia aparece numa lei.
Acredita que é possível combater esses fóruns?
Creio que seja impossível acabar com os chans, ainda mais na deep web, mas combatê-los é possível. Realmente, não há controle sobre o que acontece na Deep Web. Mas o Dogolachan existiu desde a segunda metade de 2013 até setembro de 2018 — ou seja, mais de cinco anos — na superfície. Houve algum tipo de monitoramento da polícia durante esses cinco anos? Algum agente tentou se infiltrar para descobrir a identidade dos criminosos? Por que não?
Eu não entendo como, no Brasil, um movimento legítimo e pacífico como o dos Sem Terra é considerado por muitos como uma organização terrorista, e um movimento de homens extremistas e frustrados na internet, que tem cometido centenas de crimes nos últimos anos, é visto como brincadeira de moleques. Mesmo na deep web, grupos extremistas devem ser monitorados. Eles são perigosos. Também os pais desses rapazes anti-sociáveis e revoltados deveriam saber o que seus filhos estão fazendo na internet.
Qual a importância da educação neste combate? 
É fundamental que uma discussão sobre questões de gênero, diversidade sexual, racismo, seja feita nas escolas. O caminho para uma sociedade com menos ódio tem que envolver a educação. Sabemos que liberar as armas, como este governo já começou a fazer, irá aumentar e muito o número de massacres em escolas e lugares públicos.
Qualquer estudo mostra que a liberação das armas aumenta a violência. Mas de um presidente que durante toda a campanha ensinou crianças a fazer arminha e até defendeu que crianças de 5 anos tivessem acesso às armas não se pode esperar nada de bom.
Como corporações responsáveis por redes sociais poderiam ajudar contra os crimes de ódio? 
As empresas da internet, como Google, Facebook, Twitter, WhatsApp etc também têm grande responsabilidade. Elas têm mecanismos não só para coibir o ódio, como também para incentivar os direitos humanos. É preciso que elas ajam e excluam perfis que espalhem ódio e mentiras. Já passou da hora de misóginos serem combatidos como terroristas.
As buscas pelos termos e por nomes de grupos da deep web aumentaram, vê isso como um ponto positivo ou um alerta?
Creio que um pouco dos dois. É algo positivo porque mostra que a população está se conscientizando de que esse perigo de fóruns de ódio existe. É também um alerta porque uma parte das pessoas que procura pode acabar influenciada pelos grupos.
Em um artigo recente seu (para o site The Intercept), a senhora menciona que Emerson Setim — um dos alvos da operação Bravata — está foragido na Espanha. Como  a senhora lida com um dos seus ameaçadores solto e agindo em um lugar que até as autoridades desconhecem os métodos?
Emerson sendo preso pela
Operação Intolerância em março 2012
Emerson não foi preso em maio do ano passado porque ele já havia fugido para a Espanha antes. Quando a Operação Bravata emitiu um mandado de prisão contra ele, ele já não estava mais no Brasil. Como havia um mandado para prendê-lo e ele não foi encontrado, creio que ele está foragido. Sei que o Jean Wyllys já enviou para a polícia a localização de Emerson em Madrid. Não entendo por que ele ainda não foi preso. Emerson é um lunático perigoso e um dos que me difamam e ameaçam, mas ele esta longe demais para representar um risco pra mim. Há channers mais perigosos.
Por exemplo, um rapaz chamado Breno Alves, de Franca. No dia 26 de fevereiro deste ano, ele me enviou uma ameaça de morte por e-mail dizendo que o Dogolachan vai contratar um pistoleiro para me matar em Fortaleza, e que deste ano eu não passo. Em junho do ano passado Breno gravou um vídeo com seu rosto dizendo que ele seria o próximo a se matar e me levaria junto com ele.
Eu sei o nome completo dele, sei a cidade onde ele mora, tenho imagens dele, ele faz parte do Dogolachan há anos, e faz dois anos agrediu um rapaz negro numa praça em Franca (saiu nos jornais locais; foi aberto inquérito). Eu passei tudo isso pra Polícia Federal e pra Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Por que a polícia ainda nem sequer o chamou para depor?