sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

APOIO TODAS AS CAMPANHAS CONTRA O ARMAMENTO

Estou devendo um texto sobre o decreto que o Coisa Ruim assinou esta semana flexibilizando a posse de armas de fogo.
Por enquanto, destaco que o Instituto Sou da Paz lançou campanha contra o armamento. Uma das peças diz que, com o preço de uma pistola, pode-se comprar uma geladeira, um fogão, uma máquina de lavar roupa, uma TV de 32 polegadas e um microondas. Ou seja: quem vai poder comprar arma mesmo? Outra peça lembra que o governo está passando para a população uma responsabilidade que é do governo: "Se você está doente, o governo não te pede para comprar um bisturi e se operar. Então por que se você sofre com o crime tem que se proteger sozinho?"
O Sou da Paz afirma que, por ano, 43 mil pessoas são mortas por armas de fogo no Brasil. Este número só vai crescer com o armamento. Desde já, uma tragédia. 
Na quarta, várias mulheres se mobilizaram e conseguiram colocar e manter no topo dos Trending Topics do Twitter o dia todo a tag #SeEleEstivesseArmado, mostrando que armas, em vez de defender mulheres, tendem a matá-las. Aliás, se ele estivesse armado com um revólver ao invés de uma faca, e se o atentado tivesse realmente ocorrido, não teríamos esse pesadelo ambulante como presidente. 
Aproveito o post curtinho pra recomendar que você tire um tempinho pra assistir o documentário da BBC sobre o que aconteceu com o Brasil, de como os sonhos do país do futuro morreram. É muito triste, mas necessário. São três partes de 22 minutos cada, e, por enquanto, não tem legendas, mas dá pra entender bastante porque todos os depoimentos são em português. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

UMA PIZZA DE LARANJA PRA MUDAR TUDO ISSO AÍ

Fala a verdade, gente: vocês que votaram no Bolsonaro (deve ter alguns de vocês por aqui) acreditando que ele combateria a corrupção (deve ter gente que votou nele que realmente acreditou nisso) não estão revoltados com a última mamata?
Ontem o ministro do STF, Luiz Fux, acatou pedido do filho mais desmaiador da famiglia Bolso, Flavio (eleito senador), e suspendeu a investigação criminal do Ministério Público do RJ que apurava aquelas "movimentações financeiras atípicas" do Queiroz, o motorista mais bem-pago do Brasil e ex-assessor do Flávio. 
Queiroz, como todos sabem, era um dos laranjas da famiglia. 
O que uma investigação minimamente séria mostraria é que ele recebia o salário de outros assessores da famiglia (incluindo a filha Nathalia Queiroz, que foi assessora de Flavio durante anos, embora trabalhasse no mesmo horário como recepcionista numa academia e personal trainer; seu salário na Assembleia Legislativa do Rio era bem melhor do que o da Wal, aquela do açaí: R$ 9.835) e os passava para os chefes. Tinha até cheque pra primeira-dama. 
Tudo esclarecido agora:
Queiroz é do PT!
Queiroz não compareceu para depor no MP. Diz que estava com câncer e passou uma cirurgia. O Brasil todo pode ver sua dancinha no hospital Albert Einstein -- ele sambando na cara do país, festejando sua impunidade. Flavio, bem ao estilo do pai (que não ia a debates mas dava entrevistas pra emissoras puxa-sacos), também faltou para depor, mas explicou ao SBT que não sabia o que os assessores de seu gabinete faziam e que tudo seria esclarecido.
Aí o que ele faz? Pede ao STF suspender as investigações sobre Queiroz! E o STF aceita! É ou não é um escândalo? 
E aí? 17 dias já são suficientes pra constatar que este governo de extrema-direita (com um monte de ministros ficha-suja e incompetentes), 
este governo que só foi eleito através da fraude dos fake news financiados por um caixa dois, é um desastre e não está nem um pouco interessado em "mudar tudo isso aí"? A gente avisou, óbvio.
Agora é fora Bolsonaro!



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

É FANTÁSTICO: DAMARES DIZ QUE ANTI-FEMINISTAS SÃO LINDAS

A evolução da ministra

Ontem o Fantástico fez uma matéria de mais de dez minutos (uma eternidade na TV) sobre Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. 
Não se sabe por que a Globo está dando destaque para a sinistra. Certo, a emissora dos Marinho compete por verbas publicitárias do governo com redes muito mais dispostas a puxar o saco dos fascistas, como Record, SBT e Band. E também tenho dúvidas se a reportagem foi totalmente pró-Damares (veja aqui e tire suas conclusões). O título começa dando umas colheres de chá pra ela: "conheça a história da ministra que se envolveu em polêmicas". Primeiro, por que diachos gostaríamos de conhecer uma personagem tão caricata? Segundo, o verbo "envolver" no passado: ao que tudo indica, ela continuará se envolvendo com "polêmicas". Talvez tenha sido contratada justamente para isso, para ser uma das bobas da corte a captar nossa atenção. Terceiro, "polêmicas" é eufemismo pras besteiras (outro eufemismo) e barbaridades que ela fala. 
Por pior que seja a personagem, qualquer foco sobre ela costuma humanizá-la. A reportagem trata das origens da pastora e mostra a pregação de Damares de 2016, aquela famosa em que ela viu Jesus no pé de goiaba, e também seu discurso de posse, em que ela reclamou das piadas sobre sua visão: "riram das meninas que são abusadas sexualmente". Damares foi abusada aos 6 anos em sua casa por um pastor amigo de seu pai (também pastor) que estava lá hospedado. 
Na realidade, como Damares relatou em diversas entrevistas em dezembro, ela foi estuprada por esse pastor dos 6 aos 8 anos, e foi também abusada por um outro pastor. A família dela descobriu em algum momento, e a orientação da igreja foi... orar. Nem conversaram com a filha sobre o abuso. Quando ela tinha 24 anos, viu a foto do primeiro pastor estuprador no jornal. Ele havia sido preso por abusar de outra criança. Damares se contradiz nesses relatos: diz que "uma menina abusada é uma mulher destruída", mas que ela é "uma mulher curada"; diz ser a favor de aulas de educação sexual nas escolas para tentar coibir abusos (o governo de que faz parte é contra), mas afirma que a decisão por essas aulas deve ser da família. 
Óbvio que quando rimos de "Jesus na goiabeira" não estávamos rindo dos abusos sofridos por ela ou outras meninas. Ninguém sequer sabia dessas histórias. Poucas pessoas não evangélicas já tinham ouvido falar dessa assessora de Magno Malta. Rimos por uma ministra de Direitos Humanos num Estado supostamente laico ser "terrivelmente cristã" (em suas próprias palavras), a ponto de narrar seu milagre. E tudo bem ela acreditar nisso. O problema é que ela comanda um ministério, não uma igreja. 
Em outras palavras, rimos da nossa própria tragédia, no melhor estilo "rir pra não chorar". Nosso riso é tipo "Estão vendo quem esses lunáticos elegeram? Olha o nível! Estamos ferradxs".
A reportagem também descobriu um outro vídeo da sinistra. Numa de suas pregações, de 2015, na Assembleia de Deus, Damares falou sobre as feministas: "Sabe por que elas não gostam de homem? Porque são feias, e nós somos lindas!"
Cartum anti-sufragistas de um século
atrás: mulheres que queriam o voto
eram tachadas de feias e odiadoras
de homens. Parece familiar?
Esse discurso da pastora não é exatamente novo: o pessoal que se opunha ao direito das mulheres votarem dizia a mesma coisa sobre as sufragistas. Há 160 anos, essas feministas das antigas eram xingadas com ofensas idênticas às feministas de hoje: mal-amadas, barangas, machonas, peludas, com inveja dos homens ou tentando ser homens. E tudo que as sufragistas exigiam era poder votar -- algo que, atualmente, só gente muito, muito retrógrada é contra (como mascus e vários bolsonaristas).
Aliás, anti-feministas como Damares precisam se decidir. Afinal, adotam contra nós feministas dois discursos contraditórios: somos mocreias que odiamos homens e por isso morreremos sozinhas com nossos (maravilhosos) gatos, ou somos promíscuas que transamos com centenas de caras e fazemos aborto todo mês? Pô, somos feministas por falta de rola ou por excesso de rola? Decidam-se!
Por incrível que pareça, na reportagem Damares reconhece que sua família (uma mulher com filha) é uma família. 
Espera-se que ela conceda essa definição também a duas mulheres ou dois homens que vivem juntos, com ou sem filhos. Mas aqui a matéria do Fantástico pega mais uma das mentirinhas da sinistra: ela diz que sua única filha é uma índia que adotou, mas sua assessoria consertou que a menina de 19 anos não foi formalmente registrada e que vê sua família biológica com frequência. 
Um outro vídeo (este de 2013) também foi trazido à tona. Nele, Damares questiona a teoria da evolução: "A igreja evangélica perdeu espaço na história. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas". Mas a assessoria assegurou que isso não será pauta do ministério. 
Claro que não será, ficará pro Ministério da Educação. Pode apostar que, se o governo Bolso cumprir seu mandato, daqui a alguns anos não só o criacionismo fará parte do currículo, como aberrações como Escola sem Partido banirão Darwin. O mesmo acontecerá em relação ao aborto: fundamentalistas cristãos como Damares farão de tudo para proibir o aborto em todos os casos, inclusive quando a mulher corre risco de morrer se prosseguir com a gravidez e em casos de estupro
Parece uma alusão à "Vem meteoro!",
mas é a cena final do hilário
A Vida de Brian
Ou seja... estamos mesmo ferradxs! Porém, o meu lado Monty Python de cantar na cruz "Always look on the bright side of life" (sempre olhe pro lado bom da vida) me diz que toda essa resistência aos discursos insanos da sinistra indica que grande parte da população não está com eles. E isso que o governo encontra-se na fase da lua de mel. 58 milhões de brasileiros cometeram harakiri no Brasil, mas muitos deles cedo ou tarde irão acordar. Já tem eleitor de Bolso jurando que votou no Amoedo...

UPDATE: Ontem uma leitora me enviou um vídeo de uma palestra de Damares, provavelmente de 2013. Em 35 minutos a pastora fala toda sorte de barbaridades, como que no governo do PT em SP os professores foram ensinados (e obrigados) a masturbar alunos-bebês, que hotéis-fazendas são na realidade fachada para motéis em que pessoas vão para transar com animais, e que meninas de 10 anos chegavam ao ginecologista com a vagina machucada de tanto procurarem o ponto G depois de lerem uma cartilha distribuída na escola. Diante de tantos delírios da sinistra, não pude deixar de pensar: será que Damares não foi a criadora de fake news como o kit gay e a mamadeira de piroca que tanto ajudaram a eleger Bolso (ele mesmo adepto do sexo com animais)? E que o ministério foi uma recompensa pra ela pela capacidade de inventar tantas mentiras perversas?

domingo, 13 de janeiro de 2019

COMPETÊNCIA EM PRIMEIRO LUGAR

Só tem corrupto e incompetente nesse novo governo.
Direitos Humanos está tomado por uma pastora que viu Jesus na goiabeira, o ministro das Relações Exteriores é um olavette que defende Trump e nacionalismo na mesma frase e que decretou que pra trabalhar no Itamaraty não precisa mais ter carreira diplomática, e todos que agora mandam no MEC têm como guru Olavão. Um deles não tem qualquer experiência com educação mas será responsável pelo Enem.
Eu adoro quando eles justificam a falta de mulheres e negros nos ministérios e secretarias dizendo que o que importa não é o gênero ou a raça da pessoa, mas a competência. É mera coincidência que quase todos sejam homens brancos. Meritocracia, entendem? Esses lunáticos todos não foram chamados por seguirem a ideologia reacionária da extrema direita ou por serem amigos do rei, mas porque são capacitados.
Como bem diz a Silvia, o que antes a gente chamava de mamata virou critério técnico. E ainda pedem pra gente não torcer contra o governo. Como se desse pra torcer a favor de um festival de tragédias amplamente anunciadas!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

AS BALAS ACERTAM O ALVO

Com um governo racista no poder que quer dar liberdade pra polícia matar, adivinha quem vai morrer mais?
Não vou me esquecer de uma mesa-redonda que tive a honra de integrar. Uma representante do movimento negro lembrou que as balas perdidas no Brasil sempre têm alvo certo. Como diz um poema, "A bala só acerta o negro, a bala só acerta o pobre". 
Até quando?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

EMAILS QUE ME DEIXAM CONTENTE

Recebi muitos emails com parabenizações por conta da condenação do Marcelo, entre eles o do Dax:

Tuíte quando estava em
Buenos Aires
Oi Professora, tudo bem?
Me chamo Dax, tenho 31 anos, sou branco, hétero, nascido e criado em Curitiba.
Aqui no Sul, infelizmente, é muito comum ouvir histórias e movimentos misóginos. Talvez o mais famoso seja o movimento separatista “o Sul é meu país”. Chega a ser ridículo.
Mesmo assim, eu nunca havia me deparado com um depoimento tão forte, real e corajoso como seu relato. Não conhecia a história. Cheguei a derramar algumas lágrimas, uma mistura de tristeza e indignação. Fiquei chocado com a história do suicídio e “leve a escória junto”. Como assim?
Aproveito o abraço da Tereza em
Fortaleza para abraçar tds vcs!
Queria emanar boas energias e dizer que você é uma inspiração. Não a conhecia mas vou acompanhar seus textos e ideias daqui pra frente.
Saiba que aqui no sul, a região mais racista e misógina do Brasil, tem um cara branco que, a partir de hoje, em nome das Eloás, Lucianas e Nayaras, você pode ter como porta-voz e multiplicador das ideias contra esse tipo de crime e ódio.
O que eu posso fazer pra ajudar?
Com a maior reverência, desejo-lhe força e paz! 
E destaco este da Mônica:

Lola, 
Me chamo Mônica, sou atriz, educadora, mãe, ativista feminista. Acabo de ler uma.matéria sobre vc e a condenação do agressor Marcelo, no The Intercept.
Essa.matéria chegou até mim através de um grupo de WhatsApp intitulado "Contra o machismo nas artes" que inclui mulheres na maioria artistas, entre outras trabalhadoras, que se reúnem para ouvir e acolher relatos de violências sofridas, expor nomes de abusadores e realizar boicote a projetos destes (não convidá-los para outros projetos, por exemplo), e compartilhar de referências e espaços diversas ferramentas de estudo. Nosso desejo é realizar ações como performance, assembleias, e outras rodas de mulheres onde possam ser escutadas e defendidas. 
Estou voltando agora de um ensaio-reunião com a Coletiva Elas, em SP. Nosso tema de projeto é a dominação masculina, e as formas já conhecidas e outras recém-inventadas pelo sistema patriarcal para (tentarem) continuar a nos subjugar. 
No nosso ensaio, lendo um texto de Andréa Dworkin, falamos sobre Eloá, a ideologia presente no mito Aquiles (glorificado pelo terror realizado), o assassino de Realengo, a questão do armamento e cultura da violência no documentário Tiros em Columbine, episódios de abuso e inversão de narrativas nas eleições, em João de Deus, etc. 
Estou nesse momento escrevendo na estação Luz. (Já passou tempo entre a leitura da matéria e eu abrir o celular para te responder). 
Outro abraço apertado: este, em
Quixadá
Sinto uma necessidade gigante de te saudar. De te abraçar (mesmo que virtualmente) De dizer: MUITO OBRIGADA, PARCEIRA! Que bom que vc existe. Que bom que vc não perdeu a sanidade! Que bom que seu marido é íntegro! Que maravilhoso que NEM.TODAS as narrativas de agressão terminam com a coroação do macho agressor..
Eu estou sem palavras, emocionada, lúcida, e com mais energia do que nunca para continuarmos os necessários enfrentamentos. 
Eu só escrevi imediatamente para vc saiba que aqui, em São Paulo, vc tem uma mana que te admira, te apóia. Incondicionalmente. Em todos os segundos. 
Gratidão, gratidão, gratidão. Por ser quem és, e por permitir que mais pessoas se fortaleçam ouvindo-te. 
Eu nem evangélica sou, mas lembro aqui uma frase atribuída a Jesus na bíblia. "Quem quiser salvar a própria vida- perde-la-á". 
Vc não teve dedos com sua própria pele. Vc não se protegeu acima de tudo, e pensou no seu bem estar individual apenas, na sua sobrevivência. (Seria legítimo ter se escondido), mas vc foi além. Vc não se limitou a uma ilusão neoliberal de "pensar só em si". 
Vc foi adiante, por Nós Todas. 
Como não amar incondicionalmente alguém que nunca vi por este gesto inteiramente ético? 
Um futuro melhor existe porque vc existe. 
Sim, sei q "nem todas" as denúncias prendem o agressor, e nem todos os resultados judiciais são favoráveis à mulher agredida, violentada, morta. (Nem mesmo as mortas, que pagaram com o preço da vida!, Nem mesmo elas e seu corpo mutilado são uma "garantia para" a acusação do agressor. O.J.Simpson, e etceteras). 
Vc foi por todas, e este gesto, eu com 40 anos agora, JAMAIS vou esquecer. 
Muito obrigada por vc existir.
Vida longa a ti e aos teus! 
Seja Muitíssimo e sempre protegida e fortalecida tua família! 
Axé! 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

QUEM DEFENDE A LIBERDADE?

 
Este quadrinho da Laura Athayde faz a pergunta certa: quem é que está fazendo doutrinação ideológica mesmo?
Aproveito pra incluir outro cartum da Laura (clique para ampliar). Seus "quadrinhos tristes e piadas ruins" estão no Instagram. Recomendo muito. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

CIRO É HOMEM DEMAIS

Gostei deste breve texto do escritor e fotógrafo Mario Rui Feliciani que Juca Kfouri publicou no seu blog em outubro. 

Na época de Carandiru, livro muito importante, fotografei Dráuzio Varela pra uma entrevista da revista da São Francisco. 
Deixei o clique um pouco pra perguntar por que ele só citava as visitas das mulheres. 
– Só as mulheres vão. Homem raramente vai ver o pai, o amigo ou o irmão preso. Sou oncologista, é também assim com o paciente terminal. A maioria dos homens até passam pra visitar, rapidinho na hora do almoço, vestidos como vocês de paletó e gravata, entre uma reunião e outra, mas quem fica ali do lado é a mãe, esposa ou filha. 
Os homens querem longe de si os “derrotados”, pensei. Os presos e os doentes. Mais um defeito na conta da testosterona. 
Agora o país está doente, o candidato tem razão. 
Está infectado com o preconceito e o ódio, vírus fortalecido na cultura enlouquecida de Bolsonaro, outro hiper-homem, e espalhado pelo vetor mais eficiente que já se viu, o Whatsapp. 
O país está doente e Ciro faz uma ligação lá de Paris “como vai, Brasil… força aí meu país… hoje não posso passar, tenho trabalhado tanto”. 
Acertei ao votar em Haddad. Ciro é homem demais. Não serve pra presidente da república.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

AINDA SORRINDO DE ORELHA A ORELHA

Uma jornalista do Metrópoles, de Brasília, pediu uma entrevista sobre a condenação a 41 anos de prisão do mascu Marcelo. Eu respondi por email, mas não sei se publicaram. Então publico aqui. 

Pergunta: Como as ações de Marcelo Valle mudaram a sua vida?
Resposta da Lola: Eu não deixei de fazer nada do que fazia antes, não mudei nada da minha rotina. O principal foi que esses ataques e ameaças gastaram muito do meu tempo. Precisei acompanhar a vida miserável de vários rapazes frustrados sem nada a agregar para a sociedade. Foram muitos ataques, pelo menos desde 2011. Sem querer, virei especialista em mascus (abreviação que dei para "masculinistas", que não são nada além de misóginos, racistas, homofóbicos, em grande parte neonazistas). 
Um dos muitos quadrinhos
de ódio publicados no chan
Quando, no início de 2014, Marcelo me enviou o link para o chan (fórum anônimo) criado por ele, eu fiquei na dúvida se queria mesmo ver aquele conteúdo com tanto ódio. Ele me mandou o link para que eu pudesse ler as ameaças e planos mirabolantes que ele e sua quadrilha fariam diariamente contra mim, minha família, e outras pessoas. Eu pensei: quero ter todo dia essa exposição ao ódio, mesmo sabendo que a maior parte das ameaças não vai se concretizar? Ou é melhor deixar pra lá, não pensar nisso, e correr o risco de ser pega de surpresa? Optei pela primeira alternativa. Infelizmente, ignorar o ódio não fará com que ele desapareça.
Como se sentiu após a condenação dele?
Muito feliz, sorrindo de orelha a orelha. Na realidade, fiquei muito feliz mesmo no dia 10 de maio deste ano, quando Marcelo foi preso pela Operação Bravata, após cinco anos ininterruptos de impunidade. Minha vida melhorou bastante após a sua prisão, já que uma pessoa que tem como missão me destruir finalmente foi excluída. O que veio depois, os habeas corpus negados, as justificativas nas negativas (reconhecendo a perseguição que sofri e minha importância na investigação e prisão de Marcelo), e agora a condenação, foram bônus. 
Prisão de Marcelo em 2012
Quando Marcelo foi preso, a PF disse que os crimes dele, somados, já chegavam a 39 anos. Agora ele foi condenado a 41 anos. Lógico que ele vai recorrer. Vamos ver quantos anos ele ficará preso, que é o que importa. Espero que sejam muitos, e muito mais que o tempo que ele ficou preso na sua segunda condenação, em 2012 (ele foi condenado a 6,7 anos, e só ficou na cadeia 1,2 meses; na sua primeira condenação, por racismo, em 2009, ele alegou insanidade mental e não chegou a ser preso). Ele não está apto para conviver em sociedade. Quando sair da prisão, voltará a fazer o mesmo que faz há tantos anos -- ameaçar, atacar, difamar, caluniar, tentar incriminar pessoas que ele não gosta, e tentar convencer homens frustrados como ele a matar essas pessoas.
A condenação de Valle coloca um ponto final nos "mascus"?
"Campanha" mascu
contra a condenação
de seu líder
Não, infelizmente não. A quadrilha que ele comanda ainda está solta. Em 15 de junho, um mês depois de sua prisão, um rapaz chamado André, codinome Kyo, que era comparsa de Marcelo no mínimo desde 2011, e que inclusive foi moderador do seu chan durante anos, disse no fórum que não aguentava mais sua vida e que iria se matar. Ouviu em troca o típico "leve a escória junto", ou seja, antes de se matar, mate "gente que não presta" (que para mascus são mulheres em geral, feministas em particular, gays, lésbicas, negros, esquerdistas). E foi o que André fez: na mesma noite, saiu às ruas da pequena cidade onde vivia, Penápolis, no interior de SP, assediou duas mulheres que nunca tinha visto antes, e atirou na nuca de uma delas, covardemente, pelas costas. Em seguida, ele se suicidou. Ela ficou vinte dias internada na UTI e morreu. 
Para mascus, Marcelo é apenas um
troll preso por "crime de opinião"
Algumas semanas depois, o chan migrou para a Deep Web, ou seja, não está mais acessível. Mas a quadrilha continua fazendo planos e enviando emails com ameaças de morte e de atentados terroristas a várias mulheres. Muitos outros mascus ainda precisam ser presos. Fora isso, a ideologia misógina que mascus defendem deve ser constantemente combatida. Já se sabe que a misoginia é a porta de entrada para ódios ainda mais pesados na internet. É como se recrutam homens para virar terroristas, por exemplo -- através do convite inicial de que "aqui você estará livre para odiar mulheres".
Como a sociedade pode se proteger de tipos como Marcelo?
Marcelo, preso, e
Emerson, foragido na
Espanha: voltaram a
ser grandes amigos em
janeiro de 2016
(brigaram no final
daquele ano)
A sociedade precisa saber que ameaças fazem parte da rotina de ativistas, e se revoltar contra isso. Não é aceitável que mulheres, feministas ou não, sejam frequentemente ameaçadas de estupro. Não é possível que a sociedade considere aceitável feministas e suas famílias serem ameaçadas de morte e estupro por defenderem direitos das mulheres. Na internet, muita gente ainda acha que, quando protestamos contra ataques, estamos nos "vitimizando". Muita gente acha que ligamos ao sermos chamadas de barangas, mal-amadas, gordas etc. Se fosse só isso... Há uma diferença enorme entre insultos e ameaças. É fundamental que as corporações que dominam a internet (como Google, Facebook, Twitter etc) façam das redes sociais um espaço seguro para mulheres e demais grupos historicamente oprimidos. Para tanto, precisam agir com rapidez para banir páginas de ódio e também sites que criam e divulgam fake news. Além do mais, no que diz respeito aos usuários, vale sempre a regra de jamais divulgar sites de ódio, apenas denunciá-los, sem ajudar a espalhar seu conteúdo. E também: não basta combater o ódio. Temos também que espalhar páginas de luta e resistência. E creio que, no dia a dia, o humor pode ser uma ferramenta eficaz para ridicularizar a ideologia de ódio dos mascus.
Você acha que a polícia demorou a entrar no caso? Por quê?
Creio que sim. É difícil dizer, pois a polícia não costuma se comunicar com a sociedade, não fala sobre o andamento das investigações, na maior parte das vezes sequer fala se está havendo investigações. Senti muito o silêncio da polícia em 2011, quando as denúncias contra o site de ódio de Marcelo chegaram a 70 mil na Safernet, e entre maio de 2013 e maio de 2018, período em que Marcelo voltou a fazer o que fazia antes de ser preso. Eu passei vários anos mandando prints e emails para a Polícia Federal, para finalmente receber um email da divisão de direitos humanos dizendo que iriam investigar, e um outro email, poucos meses depois, de um superintendente dizendo que houve um erro e que a PF não iria investigar, já que, segundo ele, a PF só investiga casos em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil. 
O que sei é que foi difícil saber onde denunciar. De janeiro de 2012 a abril de 2017, registrei onze boletins de ocorrência. A maior parte foi aberta na delegacia civil. Alguns foram na delegacia da mulher. Finalmente, após cinco anos, o inquérito foi aberto da Delegacia da Mulher. E, depois, foi mandado para a Polícia Federal, pois a DEAM não tem estrutura para lidar com crimes cibernéticos. Com a Lei Lola, sancionada em abril deste ano, a PF tem a obrigação de investigar misoginia na internet. Já é um grande avanço. Mas ainda precisamos nos reunir com a PF para saber como denunciar, em que casos, através de que canal.
Teme que no governo Bolsonaro páginas como essa se repliquem?
Sim. Um fator decisivo nas eleições de outubro foi o uso de disparo de fake news no Whatsapp. As corporações não souberam evitar essa prática criminosa. Bolsonaro foi eleito, em grande parte, graças a essa ferramenta. Pelo jeito, o STF não fará nada. Continuaremos tendo milhões de robôs determinando o que estará nos Trending Topics do Twitter, por exemplo. Se não houver qualquer punição, por que eles irão parar? É óbvio que eles usarão esta prática que deu tão certo em outras eleições também, e é óbvio que o problema não começou agora nas eleições. Trata-se de um plano muito bem sucedido da extrema-direita no mundo todo. Nós, ativistas de direitos humanos, combatemos o ódio. E essas páginas todas nos combatem. 
Num governo de extrema-direita como o de Bolsonaro, páginas que atacam ativistas serão muito úteis. Afinal, Bolsonaro disse no seu pronunciamento depois de vencer o primeiro turno que acabaria com o ativismo no Brasil. Ainda não sabemos o que ele quis dizer, mas, a julgar pelo ódio do seu exército, podemos ter uma ideia. Marcelo era um desses bolsominions, um entre muitos. Não estou dizendo que os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro são lunáticos como Marcelo que querem literalmente matar mulheres, gays e negros. Mas estou dizendo que todos os mascus apoiam Bolsonaro, e faz tempo, desde 2011. Por que será? O que no seu discurso atraiu homens que vivem do ódio?