quinta-feira, 17 de abril de 2014

GUEST POST: HOMENS "HUMANISTAS" QUE REJEITAM O FEMINISMO NÃO SÃO HUMANISTAS

Meu querido Robson, de Recife, autor do ótimo blog Consciência (agora de layout novo) e do inspirador Veganagente, sempre me envia textos seus que fazem pensar, e que são publicados aqui como guest posts
Desta vez Robson contesta o humanismo de gente que fala aquele velho clichê "Não sou feminista, sou humanista". Você sabe qual é

Muitos homens, ou por desconhecimento sobre o que é realmente o feminismo ou por machismo mal disfarçado, dizem com todo gosto: “Não sou machista nem feminista, sou humanista”, ou “Não apoio o feminismo, mas sim a igualdade”. Alguns fatos mostram, porém, que esse tipo de homem pode ser qualquer coisa, menos humanista e pró-igualitarista (considere-se “igualitarismo” e “igualdade” aqui como referente aos direitos de pessoas de todos os gêneros e identidades de gênero, às garantias de que esses direitos serão verdadeiramente respeitados, e ao tratamento social).
Quando se rejeita apoiar o feminismo -– considerando-se que existe uma enorme polêmica sobre se homens podem ser propriamente feministas ou simplesmente aliados do feminismo -–, está-se rejeitando uma luta contra a opressão, pelos direitos humanos, pela derrubada de um sistema de hierarquização moral de seres humanos. Por isso, recusar apoio à causa feminista é rejeitar a dignidade de aproximadamente metade da população humana do mundo. E isso não pode ser visto como humanismo e pró-igualdade.
Não é nada humanista tentar minimizar ou silenciar a luta das mulheres contra o patriarcado, o qual é um sistema de valores e costumes que justamente impede que os seres humanos de todos os gêneros sejam tratados com a mesma dignidade. Rejeitar uma luta cujo objetivo é abolir uma tradição multimilenar que considera mulheres inferiores aos homens é tudo menos igualitário.
Da mesma forma, nenhuma pessoa realmente humanista vai tentar negar e desconsiderar a luta dos negros contra o racismo estrutural e cultural, seja ele velado ou explícito; nem irá rebaixar mentalmente à irrelevância a luta do movimento LGBT contra as tantas discriminações e rompantes de ódio heterossexistas (homo, lesbo e bifobia e intolerância contra assexuais) e transfóbicas a que seus integrantes são cotidianamente submetidos.
Nem está de acordo com os princípios da ética do humanismo secular equiparar o feminismo, um movimento antiopressão e pró-libertação, com o machismo, uma ideologia de opressão e dominação. Achar que o feminismo é “anti-homem” tal como o machismo é antimulher é tão ilógico e distorcido quanto acreditar que o movimento negro luta para que os negros passem a ser os opressores dos brancos, e ambas as crenças não só revelam que seus acreditadores não são nada humanistas, como também escancaram que eles sequer sabem o que é o humanismo e em que consiste sua ética.
Dizer “Não sou feminista, sou humanista”, mesmo sem a crença de que o feminismo é “anti-homem”, é algo que muitos reacionários costumam fazer na tentativa de negarem portar privilégios em função da combinação de categorias de raça, (identidade de) gênero, classe social, religião, orientação sexual etc a que pertencem. Essas pessoas, em especial homens cis [que sempre se identificaram e foram identificados como homens], tentam ignorar a existência de todo um sistema integrado de hierarquização moral, opressão e discriminação, e acreditam ingenuamente que todos os seres humanos já são hoje tratados com igualdade e sem a interferência de preconceitos e intolerâncias. 
Nessa imaginação, as violências sofridas, por exemplo, por mulheres negras, pobres e lésbicas seriam as mesmas que aquelas a que homens brancos heterossexuais de classe média estão sujeitos.
Em outras palavras, essa frase se assemelha muito ao ditado reacionário “Não precisamos de consciência negra, e sim de consciência humana”. Silencia da mesma maneira o sofrimento e as demandas das tantas minorias existentes por libertação. Portanto, quem é adepto dessa crença de que é possível ser “humanista” sem apoiar o feminismo está, nada mais, do que dando carta branca para a ocultação e perpetuação do patriarcado e de suas tantas opressões, e isso não é nada humanista e pró-igualdade.
Do Think Olga
Quem nega apoio às causas libertárias das minorias políticas, como o feminismo, está sendo não humanista, e sim anti-humanista. Está em oposição diametral aos propósitos do humanismo, que é apoiar as lutas de todos os seres humanos oprimidos pela sua libertação coletiva do multissistema de opressões que os inferioriza perante as categorias dominantes e, como consequência, por uma sociedade em que não haja mais desigualdades em função das características que hoje “justificam” a hierarquização moral das pessoas.
Feminismo ensina meninas a
serem alguém ao invés de serem
de alguém
Portanto, todo homem humanista precisa apoiar o feminismo e as demais causas libertárias das minorias políticas. Caso contrário, ao continuar com frases paradoxais como “Não apoio o feminismo, mas sim o humanismo”, está jogando fora qualquer apoio às verdadeiras causas e objetivos humanistas e, assim, se comportando não como um entusiasta ou militante do humanismo secular, mas sim como um reacionário que acha ruim que estejam tentando transformar seus privilégios em direitos universais.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

COMO O FEMINISMO SE TORNOU SERVENTE DO CAPITALISMO, E COMO RETOMÁ-LO

Já faz um tempinho, me deparei com este artigo de Nancy Fraser no The Guardian, que começa dizendo: "um movimento que começou como uma crítica à exploração capitalista acabou contribuindo com ideias-chaves para sua fase neoliberal mais recente". 
Apesar do texto ser meio complicado, acho que ele traz críticas pertinentes, e pedi pro meu querido Flavio Moreira traduzi-lo. Muito obrigada mais uma vez, Flavio!

Como feminista, sempre considerei que ao lutar pela emancipação das mulheres eu estaria construindo um mundo melhor -– mais igualitário, justo e livre. Recentemente, porém, comecei a me preocupar com o fato de que os ideais pioneiros das feministas estivessem servindo a propósitos bem diferentes. Preocupa-me, especificamente, que nossa crítica ao sexismo esteja agora fornecendo a justificativa para novas formas de desigualdade e exploração.
Em uma cruel guinada do destino, temo que o movimento pela libertação das mulheres tenha se imiscuído em uma perigosa ligação com os esforços neoliberais para a construção de uma sociedade de livre mercado. Isso explicaria como aconteceu de as ideias feministas, que outrora faziam parte de uma visão de mundo radical, estejam cada vez mais sendo expressas em termos individualistas. 
Onde antes o feminismo criticava uma sociedade que promovia o carreirismo, hoje ele aconselha mulheres a "fazer acontecer" [referência ao livro da bilionária Sheryl Sandberg]. Um movimento que antes priorizava a solidariedade social agora celebra as mulheres empreendedoras. Uma perspectiva que antes valorizava o “cuidado” e a interdependência agora encoraja o avanço individual e a meritocracia.
O que está por trás dessa virada é uma gigantesca mudança na natureza do capitalismo. O capitalismo administrado pelo estado do pós-guerra deu passagem a uma nova forma de capitalismo -– “desorganizado”, globalizante, neoliberal. A segunda onda do feminismo surgiu como uma crítica do primeiro, mas tornou-se subserviente ao segundo.
Com o benefício de uma visão retrospectiva, podemos agora ver que o movimento para a libertação das mulheres apontou simultaneamente para duas possibilidades de futuro. Num primeiro cenário, prefigurava um mundo em que a emancipação de gênero caminhava lado a lado com a democracia participativa e a solidariedade social; num segundo cenário, prometia uma nova forma de liberalismo, capaz de dar às mulheres, tanto quanto aos homens, os benefícios da autonomia individual, aumento das escolhas, e avanço pela meritocracia. 
A segunda onda do feminismo, nesse sentido, foi ambivalente. Compatível com qualquer das duas diferentes visões de sociedade, estava suscetível a duas elaborações históricas distintas.
Da forma como vejo, a ambiguidade do feminismo se resolveu nos últimos anos em favor do segundo cenário, liberal-individualista –- mas não porque fôssemos vítimas passivas das seduções neoliberais. Ao contrário, nós mesmas contribuímos com três ideias importantes para esse desenvolvimento.
Uma das contribuições foi nossa crítica à “renda familiar”: o ideal da família composta por um homem-provedor de uma mulher dona-de-casa estava no centro do capitalismo de estado. A crítica feminista a esse ideal agora serve para legitimar um “capitalismo flexível”. Afinal, essa forma de capitalismo sustenta-se fortemente no trabalho remunerado da mulher, especialmente o trabalho de baixa remuneração nas áreas de prestação de serviços e de manufatura, desempenhado não só por jovens mulheres solteiras, mas também por mulheres casadas e mulheres com filhos; não somente por mulheres de uma só raça, mas por mulheres de, virtualmente, todas as nacionalidades e etnias. 
À medida que as mulheres entram em massa nos mercados de trabalho em todo o mundo, o ideal de renda familiar do capitalismo de estado está sendo substituído por uma norma mais nova, mais moderna -– aparentemente sancionada pelo feminismo -– da família de renda dupla.
Não importa que a realidade que subjaz a esse novo ideal seja níveis de renda comprimidos, diminuição da estabilidade de emprego, redução dos padrões de vida, um aumento drástico no número de horas extras, intensificação da dupla jornada –- agora, frequentemente turnos triplos ou quádruplos -– e aumento da pobreza, cada vez mais concentrada em famílias em que a mulher é a chefe-de-família. 
O neoliberalismo tenta dourar a pílula ao elaborar uma narrativa de empoderamento feminino. Ao invocar a crítica feminista da renda familiar para justificar a exploração, ele atrela o sonho de emancipação feminina ao motor da acumulação de capital.
O feminismo também deu uma segunda contribuição ao ethos neoliberal. Na era do capitalismo de estado, criticávamos, com todo o direito, uma visão política constrita que focava tão intensamente a desigualdade de classe que não conseguia enxergar injustiças “não-econômicas” tais como violência doméstica, agressão sexual, e opressão reprodutiva. Ao rejeitar o “economismo” e politizar o “pessoal”, as feministas ampliaram a agenda política para contestar as hierarquias de status cujas premissas se baseavam em construções culturais de diferença de gênero. 
O resultado deveria ter sido uma expansão da luta por uma justiça que incluísse tanto a cultura quanto a economia. Mas o resultado real foi o foco unilateral na “identidade de gênero” à custa das questões cotidianas. Pior ainda, a virada do feminismo em direção às políticas identitárias harmonizou-se impecavelmente com um crescente neoliberalismo que queria nada mais do que reprimir qualquer memória de igualdade social. De fato, nós tornamos absoluta a crítica do sexismo cultural no momento exato em que as circunstâncias requeriam atenção redobrada para a crítica da economia política.
Por fim, o feminismo contribuiu com uma terceira ideia para o neoliberalismo: a crítica ao paternalismo do estado de bem estar social. Inegavelmente progressista na era do capitalismo de estado, essa crítica tem, desde então, convergido para a guerra do neoliberalismo contra o “estado-babá” e, mais recentemente, em sua cínica adoção das ONGs. Um exemplo notável é o “microcrédito”, o programa de pequenos empréstimos para mulheres pobres no sul do planeta. 
Lançado como alternativa empoderadora, de baixo para cima, em oposição aos burocráticos projetos estatais, impostos de cima para baixo, o microcrédito é apregoado como sendo o antídoto feminista para a submissão e pobreza das mulheres. 
O que não se percebe, entretanto, é uma coincidência perturbadora: o microcrédito floresceu no exato momento em que os estados abandonaram os esforços macroestruturais de combate à pobreza, esforços que os empréstimos de pequena escala não têm condições de substituir. Nesse caso também, então, uma ideia feminista foi recuperada pelo neoliberalismo. Uma perspectiva destinada, originalmente, à democratização do poder estatal de forma a empoderar cidadãos agora é usada para legitimar a mercantilização e a retração do estado.
Em todos esses casos, a ambiguidade do feminismo se resolveu em favor do individualismo (neo)liberal. Entretanto o outro cenário, mais solidário, ainda pode estar vivo. A crise atual oferece a oportunidade de recuperar essa linha mais uma vez, reconectando o sonho da libertação da mulher à visão de sociedade solidária. Para isso, xs feministas precisam interromper essa perigosa ligação com o neoliberalismo e resgatar nossas três “contribuições” para nossas próprias finalidades.
Primeiro, podemos romper a ligação espúria entre nossa crítica da renda familiar e o capitalismo flexível, e militar por uma forma de vida que descentralize o trabalho assalariado e que valorize as atividades sub-remuneradas, incluindo -– mas sem se limitar ao –- "trabalho cuidador". Segundo, podemos interromper a passagem de nossa crítica ao “economismo” para as políticas identitárias, e integrar a luta para transformar a ordem presa às premissas dos valores culturais machistas com a luta por justiça econômica. 
Por fim, precisamos cortar a falsa ligação entre nossa crítica da burocracia e o fundamentalismo de livre mercado, e reclamar para nós o manto da democracia participativa como forma de fortalecer os poderes públicos para conter o capital, pelo bem da justiça.

terça-feira, 15 de abril de 2014

GUEST POST: UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO

Samantha me enviou este lindo relato:

Li o post sobre o rapaz que tem esquizofrenia. Achei interessante ler os pensamentos de uma pessoa jovem que sofre com a doença. Como minha mãe tem a mesma doença, posso contar minha experiência com uma pessoa que sofre com isso, e como o machismo e a violência foram os maiores desencadeadores.
Minha mãe nasceu em uma família disfuncional. Um pai alcoólatra, que gastava seu dinheiro em bebida e mulheres e espancava a esposa ao chegar em casa, uma mãe hipocritamente religiosa, irmãs mais velhas e posteriormente um irmão mais novo. Minha mãe não foi desejada, nem amada. Ela foi fruto de um estupro conjugal e nasceu apenas porque sua mãe, católica, se recusou a fazer um aborto por causa de sua alma.
Minha mãe cresceu em um ambiente hostil e cheio de violência doméstica entre marido e esposa, pais e filhos e entre irmãos. Ela foi constantemente agredida pela sua progenitora, pelas coisas mais banais. Passou fome. Começou a fazer faxina aos 11 anos para poder ganhar uns trocados e poder complementar a renda familiar.
Aos seis anos, minha mãe foi estuprada por um conhecido da família. Ela nunca revelou isso para ninguém, exceto para mim, quando fiquei mais velha. Ela guardou essas informações para si, pois temia apanhar se revelasse a verdade para a família.
Aos 16 anos, minha mãe casou pela primeira vez, com o único intuito de sair de casa. Este casamento durou nove anos. A separação ocorreu após uma briga entre ela e o marido, que culminou com uma agressão por parte dele. Naquele momento, minha mãe sabia que não poderia continuar com o esposo. Ela havia jurado, desde jovem, que não repetiria o círculo de violência no qual estava inserida, e isso envolvia tanto o seu casamento quanto a educação que daria aos seus filhos. O primeiro aspecto ela conseguiu cumprir com louvor. O segundo, ela falhou algumas vezes. Mas já falo sobre isso.
Aos 25 anos, minha mãe se relacionou com o seu segundo marido, no caso o meu pai. Este relacionamento durou 14 anos, e gerou uma filha (eu). Já neste momento, os sintomas da doença da minha mãe começaram a se manifestar. Criada em um mundo hostil e cheio de violência, aos 28 anos minha mãe começou a ter os surtos da esquizofrenia que ela carregava desde a infância. Aos 28 anos, grávida de 8 meses, minha mãe tentou sua primeira tentativa de suicídio, aspirando gás, por conta de uma briga entre ela e meu pai. Não se sabe como ela não morreu, e eu nasci sem sequelas.
Não fui planejada, mas fui desejada. Quando nasci, minha mãe havia jurado pra si mesma que não me criaria ou me trataria da mesma forma como foi tratada. Na maior parte do tempo, ela conseguiu me tratar com carinho. Por sua opção, ela largou seu trabalho para me criar, e foi uma mãe excelente. Me ensinou a ser independente, foi amorosa, me exigia ao máximo. E fomos felizes, até a segunda crise.
Nos meus seis anos, veio a segunda crise culminada com outra tentativa de suicídio. Não sei bem o que ocorreu, até hoje ela não fala sobre isso. O resultado foi uma internação de 15 dias em um hospital e um tratamento feito às pressas. Após um período de medicamentos, interrompidos por pressão de meu pai, minha mãe estava normal novamente. E decidiu que iríamos nos mudar para outra cidade, a fim de recomeçarmos a nossa vida.
Mais três anos se passaram, novamente a mesma mãe amorosa, que nunca me batia, que nunca me magoava. Mas nos meus 11 anos, veio a terceira crise, acompanhada de uma tentativa de suicídio quase fatal. Após saber que meu pai pediria o divórcio, minha mãe tentou se matar com um tiro na cabeça. Não morreu, não teve sequelas, a bala entrou por um lado e saiu pelo outro. Ironicamente, foi após este evento que eu deixei de me importar com deus e me tornei agnóstica.
Pouco antes desta terceira tentativa, algo ocorreu. Pela primeira vez na minha vida, minha mãe havia me espancado. Lola, sabe quando você escreveu que as surras que os pais dão nos filhos mostram seu descontrole emocional? Pois bem, sou um exemplo vivo disso. Minha mãe, na única vez que me encostou, estava descontrolada. Ela me surrou com uma coleira, bateu em minhas mãos, rasgou minhas coisas e me machucou seriamente, em razão de uma nota baixa na escola. 
Quando ela se deu por si, viu o quanto eu estava machucada, engolindo o choro. Nunca a vi tão quebrada e desesperada na sua vida. Ela sentou do meu lado e chorou, me pedindo perdão. Pouco depois disso, cerca de três meses depois, foi que houve sua tentativa de suicídio.
Dessa vez, por intervenção familiar, minha mãe foi submetida a um tratamento que durou anos. E eu, neste tempo, morei com uma tia (meu pai? Meu pai estava montando seu negócio e não tinha tempo para um estorvo). Quando minha mãe se recuperou, ela obteve novamente a guarda e vivemos juntas até eu sair de casa. Nos anos em que ela se tratou, ela foi extremamente feliz.
Só que, por alguma razão que eu desconheço, ela optou por parar o tratamento, sob o argumento de que estava bem. E dois anos após a interrupção do tratamento, seus delírios voltaram. Antigamente, minha mãe apenas se machucava, transformando pequenas coisas em monstros. Agora ela começou a ter paranoia, inventando histórias em sua mente, acreditando que era vítima de perseguição.
Entrei em contato com o seu ex (e agora atual) psiquiatra. Conversamos, marquei a consulta. Conversei com minha mãe e a convenci a ir na consulta, alegando que eu tinha medo que ela voltasse a se matar.
Minha mãe não aceitou no início. Não queria tomar medicamentos, não queria que eu fosse nas consultas, alegava estar bem. Mas com paciência, as coisas foram se ajeitando. Ainda acompanho ela nas consultas de tempos em tempos, mas apenas para controle. Ela é feliz, amorosa, alegre e recuperou os laços com os parentes. A mãe que sempre conheci.
Onde entra o feminismo nisso tudo? Bem, quando as coisas começaram e eu assumi o tratamento e as despesas decorrentes dele, entrei em pânico. Como eu, com 25 anos, poderia conciliar trabalho, faculdade e minhas despesas com a responsabilidade de cuidar da minha mãe que mora em outra cidade? Meu pai, quando lhe pedi ajuda, falou categoricamente que a mãe era minha e que ele tinha outra esposa. Toda a barra emocional dos primeiros meses, em que minha mãe me ligava falando que preferia morrer a tomar os remédios, eu passei sozinha.
Foi minha chefe e minha avó paterna quem me ajudaram nesta empreitada. Minha chefe, quando soube da situação, deu todas as liberdades possíveis para eu conciliar minha agenda e ir para as consultas em outra cidade. Minha avó forneceu meio de transporte para eu não precisar ir de ônibus, facilitando muito meu deslocamento e permitindo que eu trabalhasse mais durante o dia.
Foram mulheres, não ligadas a minha mãe, mas a mim, que me ajudaram nessa. E foram as irmãs da minha mãe, vítimas da sua doença, quem a acolheram assim que souberam que tudo que ela fez foi por causa da esquizofrenia. O irmão da minha mãe e seu sobrinho ainda não falam com ela. Eu os entendo.
É difícil ajudar e se envolver com alguém com este tipo de doença. Mas vale a pena, no final, ver a pessoa bem, feliz e vivendo sua vida. Uma vida amplamente funcional. Espero contar com mais solidariedade e sororidade. E que todas tenhamos histórias de superação para contar.