sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O QUE O PÚBLICO-LEITOR TEM CONTRA ANTI-HEROÍNAS?

O querido Flávio Moreira me enviou a tradução deste post da Emma Jane Unsworth que foi publicado no The Guardian

Leitores amam um bom anti-herói – então por que evitam anti-heroínas?
Homens monstruosos são mais do que bem vindos em obras sérias de ficção, mas crie uma personagem feminina desagradável e você estará em apuros.
Quando estava escrevendo meu romance Animals, eu sabia que estava criando personagens femininas que vão em sentido contrário ao senso comum. Que bebem. Que pensam. Que vagueiam pelas cidades nas horas pecaminosas. Que têm crises filosóficas. Sabe, do mesmo jeito que personagens masculinos fazem aquilo que é mais genericamente classificado como histórias da “condição humana”?
Tem surgido argumentos eloquentes nos últimos anos sobre a “aceitação” de personagens femininas -– particularmente nas posições de Roxane Gay e de Claire Messud. Em uma entrevista para a Publishers Weekly, a romancista Messud deu uma resposta espetacular a uma pergunta sobre se ela gostaria de ser amiga da narradora de seu último romance, a personagem Nora, já que a entrevistadora tinha a percepção de que Nora era “insuportavelmente sinistra”. 
Messud disse: “Pelo amor de Deus, que tipo de pergunta é essa? Você gostaria de ser amiga de Humbert Humbert?”, antes de arrolar uma lista de anti-heróis clássicos e concluir: “Lemos para descobrir a vida em todas as suas possibilidades. A pergunta relevante não é se ‘esse [personagem] é um amigo potencial para mim?’ mas sim ‘esse personagem tem vida?’”
Em janeiro a autora Roxane Gay, do ensaio "Bad Feminist", escreveu um ensaio para o site Buzzfeed em que descrevia ser aceita e apreciada por outros como “uma mentira bem elaborada, uma performance, um código de conduta”, e salientava as diferenças entre personagens masculinos e femininos que não barganham a afeição do leitor: "Um homem desagradável é misteriosamente interessante; obscuro, ou atormentado, mas definitivamente irresistível, mesmo que se comporte de maneira repugnante [...] Quando mulheres são desagradáveis, isso se torna uma obsessão em discussões críticas.”
Quando o romance Tampa, de Alissa Nutting, promovido como um “Lolita invertido”, foi publicado em 2013, fiquei furiosa com o número de entrevistas com ela que começavam expressando surpresa –- não, na verdade, alívio -– ao verem quão simpática Alissa era na vida real. Tenho certeza de que nenhum desses mesmos entrevistadores se encontrariam com Bret Easton Ellis e expressariam surpresa ao não serem brutalmente assassinados ali mesmo, durante o café. 
Escritoras são muito frequentemente confundidas com suas personagens, como se às mulheres não fossem garantidas as mesmas capacidades imaginativas [dos homens]; afinal como uma mulher poderia criar um monstro sem ser ela mesma uma monstra? Há um reducionismo nisso, uma mesquinhez crítica. Temos um caminho a percorrer antes que personagens femininas possam, sem ser definidas pelo gênero, se expor na busca pelo significado impossível de tudo.
Assim, enquanto isso, o que compõe uma boa “anti-heroína”? A definição normalmente se baseia em duas categorias: mau comportamento e escolhas de vida não-convencionais. Anti-heroínas existem em muitas formas. Aqui estão algumas das minhas favoritas...
- Emma Bovary, do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert
Madame Bovary é um livro que revisito muitas vezes. Tenho tanta afeição pela protagonista e pela complexidade de sua natureza – a malcriada esposa do médico que ataca sua vida provinciana enfadonha e o futuro traçado para ela nessa vida. Flaubert foi corajoso ao perscrutar sua moralidade e sua ambivalência maternal – há alguma coisa em comum entre Emma Bovary e a afiadíssima Eva em Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver.
- Hatsumomo, de Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden
Mesquinha, mal-educada, Hatsumomo é provavelmente a coisa mais próxima de um vilão tradicional nesta lista, mas sua frustração, insegurança e recusa (como se fosse uma diva) a simplesmente entrar na linha, faz com que, no fim, fiquemos ao seu lado, mesmo que isso envolva todo tipo de problemas para a heroína, Sayuri.
- Lise, de The Driver’s Seat, de Muriel Spark
Lise está de saco cheio de seu emprego. Muito cheio. Num último ato de tomar as rédeas de sua vida, vai para a Itália. É o distanciamento de Lise e seu egoísmo consciente – a mesma amoralidade enervante que encontramos em Emma Bovary – que fazem dela uma anti-heroína.
- Jane Eyre, de Charlotte Brontë
Ela foi minha primeira. Eu estava ao seu lado quando foi forçada a ficar de pé naquela cadeira e ser chamada de mentirosa. Eu estava com ela quando se colocou “tão sóbria e silenciosa às portas do inferno”. Intensa, direta, corajosa e um pouco fantasmagórica, Jane Eyre é o sonho de toda adolescente solitária. Através dela, Charlotte Brontë desafiou muitos preconceitos vitorianos sobre gênero e classe, e contou muito bem uma tortuosa história gótica.
- Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
Ela não se comporta mal (Lydia é bem mais divertida), e sua personagem funciona amplamente graças aos contrastes das outras mulheres que a cercam, mas ela é inteligente e franca, destemida e determinada a buscar sua própria felicidade e, dessa forma, ela representa tudo que a reprimida sociedade georgiana teme: uma mulher com ideias.
- Lisbeth Salander, da trilogia Millenium de Stieg Larsson
Amo Lisbeth Salander, embora deteste os livros em que ela aparece. Ela de alguma forma os transcende: uma hacker de computador tatuada, que fuma um cigarro atrás do outro, que sobreviveu a uma infância traumática para viver à margem da sociedade, com raras interações. Como resultado, sua sanidade é assunto de muito debate. Larsson disse que baseou Lisbeth no que ele imaginava como seria Pippi Longstocking na vida adulta. Há um aspecto super-humano nas duas, e pressão de todos os lados para que se conformem.
- Becky Sharp em Vanity Fair de William Makepeace Thackeray
As pessoas que mais desprezamos são frequentemente as que incorporam nossos atributos mais desprezíveis. Thackeray sabia disso – por isso ele fez a estrela de Vanity Fair uma alpinista social implacável e a esfregou na cara das pessoas que provavelmente eram, elas mesmas, alpinistas sociais. Melhor ainda – ele as fez se apaixonarem por ela. Não consigo imaginar por que ela é tão popular...
E então, vamos lá – quem eu deixei de fora? Quais são as suas favoritas?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

RACISTAS, TENHAM CONSCIÊNCIA

Hoje é uma data muito importante, o Dia da Consciência Negra, um dia de luta. A data escolhida marca a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. 
Poupem-me do revisionismo histórico reaça de que Zumbi não pode ser visto como herói porque o quilombo dos Palmares também tinha escravos. Vivemos num país sem heróis negros, em que até pouco tempo a grande heroína da abolição era uma princesa branca. Um país em que bandeirantes, homens que matavam e escravizavam índios, têm monumentos em sua homenagem. Um país que tem dificuldade em reconhecer até que um de seus maiores escritores, Machado de Assis, era negro. Um país que, apesar de todas as evidências, ainda nega ser racista.
Todo 20 de novembro a gente tem que repetir que sim, precisamos de um dia da consciência negra (que é o que falamos em 8 de março: sim, precisamos de um dia da mulher), que não, não é todo dia que é dia do negro, do pardo, do branco, e que não, não deveríamos comemorar a "consciência humana". E que, olha, não falar de racismo não faz com que o racismo milagrosamente desapareça. Ou, pior: que racismo mesmo é destacar um dia pra consciência negra.
Anúncio da OAB Sergipe, ontem
Sério mesmo, se você acredita em alguma dessas besteiras, reflita. Está na hora de rever seus conceitos. De ver onde você guarda o seu racismo.

"Volte pra senzala!", gritam médicas
na recepção de médicos cubanos
ao Brasil
Não vivemos num país, nem num mundo, em que as pessoas têm as mesmas oportunidades. Será que ainda tem gente que crê que todos nascemos iguais e largamos do mesmo ponto de partida? Não é possível: se você é filho de médicos, por exemplo, você está automaticamente fadado a inúmeros privilégios. Se você é filho de pedreiro e empregada doméstica, você não terá privilégio algum. E não preciso nem fazer o recorte de raça, porque, no Brasil, médico é branco. Pedreiros e empregadas domésticas, a imensa maioria, são negros. Você deve achar que é pura coincidência isso.
Jornalista do RN sobre a cara das médicas cubanas
E não, você não fez nada pra "merecer" nascer com tantos privilégios. 
A sociedade inteira está estruturada para dar a brancos privilégios que negros não têm, dar a homens privilégios que mulheres não têm, dar a héteros privilégios que homossexuais não têm. Tudo que você teve que fazer pra "merecer" essas vantagens foi nascer numa sociedade preconceituosa. Parabéns, campeão!
A cara da elite revoltada
com as cotas raciais
É simples assim: se você acredita nessa mentira chamada meritocracia (de que as pessoas bem-sucedidas mereceram ser bem-sucedidas), você tem que acreditar que as pessoas pobres merecem a miséria. Todas elas, e olha que elas são ampla maioria no mundo. Não dá pra achar que você mereceu um bom emprego, mas que aquela pessoa que nem tem o que comer não merece passar fome. E, pelamor, pare de se guiar pelas exceções: não é porque saiu no jornal que um catador de lixo conseguiu passar no vestibular que isso desmente toda uma flagrante injustiça social. Essa notícia só faz você pensar que, se a pessoa trabalhar duro, ela terá uma vida boa. Mas não é verdade: a maior parte das pessoas trabalha duro e nem por isso é recompensada com uma vida boa. 
Eu estive no Congresso em abril e percebi como a desigualdade salta aos olhos. Não só que havia pouquíssimas mulheres deputadas (menos de 10%), como havia pouquíssimos negros e negras. Aliás, havia sim: os seguranças e faxineiros eram negros. Assim como não é verdade dizer que na USP não tem negros. Tem, é só olhar. Não são os professores (apenas 0,2% dos professores da USP são negros), nem a maior parte dos alunos, mas olhe pros funcionários da limpeza, aqueles terceirizados, praticamente sem direitos trabalhistas, que ganham uma merreca. Grande parte é negra.
Eu fiz mestrado e doutorado na UFSC sem ter um só colega negro ou professor negro durante seis anos. Tudo bem que foi em Santa Catarina, estado com o menor número de negros do Brasil ("apenas" 13%, a mesma porcentagem de negros nos EUA). Lá dei aula de estágio-docência pra turmas de 40 alunos de Letras (não em cursos elitistas como medicina e engenharia, mas em licenciaturas), e não havia alunos negros. Como explicar isso? Como se sentir confortável com essa segregação?
Alunos protestam na Ufes
Não tem como justificar esses números: em 1997, só 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos, cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. Hoje, com mais de dez anos de cotas raciais implantadas no Brasil, há 11% de pardos fazendo curso superior, e 8,8% de negros. Ainda é um número irrisório se pensamos que a maior parte da população brasileira (ou seja, mais de 50%) é parda ou negra. 
Hoje a realidade é diferente daquela que vivi na UFSC. Sou professora na Federal do Ceará, e no estado em que escolhi viver 64% da população é parda ou negra. Nas turmas de Letras, há alunxs de todas as cores. Ainda assim, quando dou aula para cursos ricos, a grande maioria dos alunos é branca. 
A situação está mudando, sem dúvida. As cotas raciais e sociais são uma grande conquista que enfurece a elite. Não é à toa que o partido mais direitista do Brasil, o DEM, entrou com recurso no Superior Tribunal Federal em 2012 para que as cotas raciais fossem retiradas da UnB. A alegação? Racismo. É muita cara de pau. E não é à toa que o Estado que mais resiste às cotas em suas universidades é SP, governado pelo PSDB há vinte anos. 
As cotas evidentemente são um paliativo. Elas só possibilitam o acesso de (alguns) negros à universidade. E eu fico pasma em ver como reaças não fazem a menor ideia de como cotas funcionam. Não é que um negro passa em frente a uma faculdade e as portas se abrem pra ele. Ele tem que tirar nota boa no Enem. Só que algumas vagas são reservadas pra negros que estudaram em escolas públicas. Aliás, vagas são reservadas para alunos de escolas públicas, ponto. 
Universidades ainda são lugares preconceituosos, assim como toda a sociedade. Eu fico pensando como deve se sentir um negro que consegue a façanha de estudar numa instituição que não foi feita pra ele, só pra elite, ouvir um professor dizer que negros não têm "socialização primária na família"? Como se sente uma aluna negra (vamos supor que exista) de Medicina da USP ao ouvir a música cantada nas festas e comemorações, que fala da "preta imunda / crioula da b*ceta fedorenta / que eu não como nem lavada / em água benta"?
O Dia da Consciência Negra é um dia de luta, como são os outros 364 para as pessoas negras que vivem num país racista. Só posso torcer que, para os racistas, o 20 de novembro seja o seu despertar. O dia em que você começou a encarar a realidade e a fazer um esforço consciente para deixar de ser racista. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

PRECISAMOS FALAR SOBRE ABORTO. E SOBRE DISCURSOS MIDÍATICOS ACERCA DELE

A revista TPM está lançando uma campanha pela descriminalização do aborto, e hoje é dia de participar com a tag #PrecisamosFalarSobreAborto. 
Eu, praticamente uma desconhecida, e 79 personalidades fomos entrevistadas pela revista. Para ajudar a impulsionar a campanha, publico hoje o excelente guest post do grupo de ação Gemis (Gênero, Mídia e Sexualidade).

Por ano, cerca de um milhão de mulheres realizam abortos no Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde. Uma em cada sete brasileiras entre 18 e 29 já abortou, segundo o IBGE.  Abortos inseguros e mal-sucedidos são a quinta causa de morte materna, conforme o DataSUS de 2013. Então por que os discursos da mídia continuam tratando o aborto como questão de polícia, e não de saúde pública? 
O aborto é crime no Brasil (exceto em casos de estupro, risco de vida para a mãe ou fetos anencéfalos), e podem ser penalizadas tanto as mulheres que optarem por fazê-lo quanto qualquer pessoa que as ajude.  
Já foi repetidamente comprovado e analisado que as mulheres não deixam de fazer abortos devido à proibição. Pelo contrário, surgem clínicas clandestinas que fazem com que o procedimento -- que na verdade é bastante simples -- seja realizado de forma insegura e que frequentemente gera mortes, como duas recentemente no Rio de Janeiro.
Mulheres que iriam abortar em clínica
de Porto Alegre: tratadas como
criminosas por grande parte da mídia
Mesmo assim, o jornalismo continua trabalhando na lógica punitivista e de encarceramento que opera nas polícias, ao invés de se propor a ser um instrumento de reflexão e análise da situação no país. Em uma rápida pesquisa no Google ao se procurar apenas por notícias, a maior parte delas são de desmantelamento de "quadrilhas" de aborto, relatos policiais casuais sobre o fechamento de clínicas clandestinas. 
Uma dessas matérias foi a feita pela Rádio Gaúcha no dia 29 de outubro, que além de relatar a ação policial, foi um agente direto dela: os repórteres investigaram por cinco meses a clínica e a delataram à polícia. Primeiramente, é preciso lembrar que o jornalismo, com isso, "produziu" a notícia, visto que ela foi feita não com o viés de entender o funcionamento da clínica ou criar formas de compreensão dos motivos que levam mulheres a fazer o aborto, mas apenas serviu para entregar à polícia e depois publicar matérias relatando o fechamento. No texto publicado no site, a palavra "quadrilha" foi usada seis vezes, a palavra "crime" duas vezes, "organização criminosa" uma vez. 
Aborto como caso de polícia, não
de saúde pública
Em fotos divulgadas, mulheres que aguardavam atendimento apareciam deitadas no chão olhando para baixo. Pode-se entender que elas estavam sentadas no sofá que também aparece e, com a ação policial, pediu-se que deitassem no chão. Para não aparecer nas fotos, esconderam os rostos. Essa foto foi muito representativa da forma como as mulheres são criminalizadas, obrigadas a esconder seus rostos, temendo ser identificadas por terem escolhido abortar. De acordo com uma matéria do G1, uma mulher que realizava o procedimento foi presa. 
Veja em 1997, quando era uma
revista menos conservadora
A partir daí, diversos veículos fizeram matérias sobre o acontecido, todas sem problematização dos fatos. A clínica realizava cinco abortos por dia por cerca de R$ 5 mil. Nenhuma matéria questiona o fato de cinco mulheres por dia se esforçarem para gastar tal quantia, nenhuma matéria problematiza o nível de desespero em que elas precisam se encontrar. Tudo é feito em conjunto com a polícia, seguindo a lógica de que o aborto é crime e fechar a clínica é o correto a se fazer. 
Vera Zimmerman na capa
da TPM em 2005
Infelizmente, isso não é a exceção. Enquanto mulheres estão morrendo de abortos clandestinos, esforçando-se para pagar preços absurdos, sentindo-se criminosas por ter que fazer esquemas elaborados para chegar às clínicas, o jornalismo brasileiro segue sem questionar e problematizar. Além de lutar pela legalização, as jornalistas interessadas nas batalhas das mulheres devem, cada vez mais, buscar incluir a discussão em suas redações, em suas universidades, para que a mídia se torne realmente um canal de informação, de debate público e reflexão, e não apenas um panfleto de relatórios policiais. 
Ainda há, por sorte, algumas tentativas de resistência em núcleos específicos: nos veículos independentes e na mídia alternativa, há matérias que buscam traçar um panorama e problematizar as questões do aborto, como a realizada pelo jornal Tabaré em 2013. A revista TPM, que publica matérias com uma perspectiva feminista e busca lançar um novo olhar às questões femininas, lançou a campanha #PrecisamosFalarSobreAborto. Precisamos mesmo. E precisamos, urgentemente, falar sobre jornalismo e sua relação com a criminalização do aborto. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

GUEST POST: "QUERO VOLTAR PARA MIM"

Recebi este email doloroso da N. Um dos mais terríveis que já recebi. Foi escrito sem parágrafos e com pouca pontuação, num fôlego. Eu acrescentei esses detalhes (parágrafos, vírgulas) na edição: 

Oi Lola, sempre leio seu blog e comento, mas tem algo que não está me deixando tranquila. Eu passei por muita coisa difícil na vida, mas nunca tão difícil quanto a que vou enfrentar daqui a uns dias. Fui violentada por um animal. Aquilo não era um homem, era um bicho. Entrou em minha casa e me arrastou até a casa dele, que era do lado. Me vi totalmente vulnerável. 
Eu tinha 12 anos e era tão menina que nem fiz ideia do que ele queria. A principio pensei que ia me castigar por algo. Me levou até o quarto dele, e o medo me fez tremer  as pernas. Eu havia tido bronquite e estava bem magra, o que me tornou mais frágil, até falta de ar eu tive naquele lugar. E ele tirou a minha roupa devagar e falando: "Amorzinho te amo tá princesinha?"  
Eu não conseguia deixar de encarar aqueles olhos. Ele se deitou sobre mim e senti um peso enorme, um corpo, um homem, que feio, eu pensei. Ele me estuprou sem dó. Fiquei horrorizada, enojada, amedrontada. Tentei gritar. O grito foi sufocado, tentei morder, chutar e nada. A dor lembro até hoje. Ele finalmente saiu de perto, de cima de mim, ou melhor, do que restou. 
Chorei, mas ele me ameaçava a chorar calada. Eu não sabia o que era chorar calada e chorei de um jeito que mordia as mãos, para  não gritar, nem o encarava mais, o medo era maior. Eu só via o chão. Vi sangue e o medo triplicou. Pensei que eu ia morrer. Ele tentou me " limpar", não deixei. Limpar o quê? Eu tava suja pra sempre. 
Eu queria sair, sumir. Me limpei do jeito que deu. Me vesti e ele me liberou, entrei em casa direto para o banho. Não consegui me tocar e me mordia com força. Queria uma dor que me tirasse aquela que estava ali a me envergonhar. Por quê? Eu me perguntava. Eu tinha uns flashbacks que eu repetia em gritos mentalmente, que não me tocasse, que me deixasse. Gritos sufocados, sabe?
Até que saí do banho e me deitei. Minha mãe pensou que a bronquíte tava voltando e me deu um remédio. Desenvolvi o hábito de roer unha, me escondia do monstro e de nada adiantava. E assim foram vários estupros. Eu me cortava para aliviar o silêncio. Tudo eu mordia. Minhas bonecas, lápis, caneta, tudo era mordido. 
Cresci e saí de casa. Meu psicológico tava um lixo.  Agora estou doente. Desenvolvi uma sindrome rara e dolorosa e não posso mais morar sozinha. Aos 24 anos terei que voltar. Voltar pra onde? Voltar pra quem? Ele se mudou de lá, mas tudo parece tão recente. Minha mãe brigava por eu ficar o menor tempo possível em casa. Agora estarei lá o tempo todo. 
Preciso, mas não quero voltar. Tentei seguir, juro que tentei, mas aquilo me machucou muito. Houve momentos de extrema tortura em que ele me causava dor e eu mordia as mãos pra sufocar o grito. Ele olhava eu me machucar e se satisfazia com aquilo. Tudo eu falava baixinho por medo de mim mesma, medo de eu mesma me punir. A culpa me levava à autoagressão. 
De todos os hábitos só ainda não pareí o de roer as unhas. 
Quero voltar para mim, voltar para meu eu perdido, meu eu quebrado, juntar os cacos. Quero voltar para minha casa e me adaptar a essa outra dor de ter uma doença geriátrica aos 24 anos. Aprendi a me amar a duras penas. Já não me odeio, me acho linda, mas não quero namorado, ninguém me toca.  
Quero crescer, Lola, e superar. Estou voltando pra onde? Meu quarto, meu lar , minhas lembranças? Não, eu não quero isso. Ao mesmo tempo quero voltar para retirar eu dele, retirar a dor de mim e viver outra dor, mas sem me machucar. 
Dessa vez não vou me morder, vou me dar carinho. Fazer as unhas sem medo de usar estas mesmas unhas para me cortar. Quero me resgatar e quem sabe um dia dar a mão a um noivo. 
Me morder nunca mais. Aprendi aqui no blog que sou vítima, mas vítima só até o dia em que eu me calar. Quebrando o silêncio passo a ser dona do meu corpo. Quebrei o silêncio escrevendo aqui e estou orgulhosa de mim por isso.