segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

GUEST POST: ELE NUNCA ME BATEU

Candida Maria Ferreira da Silva é assistente social, teóloga, especialista em Infância e Violência Doméstica pela UFF, e palestrante (email: candida215@hotmail.com). Ela tem uma página no FB sobre o tema.
Diante da estatística de que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas, não há como negar que temas como religião e gênero devem ser analisados em conjunto. No entanto, Candida explica: "Esse artigo nasceu inicialmente com objetivo de atingir mulheres evangélicas e /ou católicas, visto estarmos nos dedicando a estudar e trabalhar com a temática da violência doméstica nesse grupo especifico. Mas o texto pode lembrar sua amiga, sua parente, até você mesma, em relações heterossexuais ou homoafetivas. E, também homens podem passar por relacionamentos abusivos. Estima-se que 14% de homens passam por violência doméstica, da qual a principal é a violência psicológica.

Eis o post de Candida: 

Talvez você tenha ouvido essa frase de uma amiga, de uma parente, da mulher que congrega na sua igreja ou quem sabe você mesma tenha dito esta frase: “Ele nunca me bateu”. Mas, você já perdeu as contas das vezes que ele fez com que você se sentisse inútil e burra.
No início sempre é tudo tão lindo. Resposta às orações. O rapaz, o homem de Deus, dedicado na igreja, frequentador assíduo das atividades eclesiásticas, a família se alegra, a igreja e o pastor também. E você não se contém de felicidade com a sua “benção”. Por isso, quando ele briga com você por causa de suas amigas e amigos, você não se importa; afinal, são demonstrações de ciúmes, coisa que passa. Então ele reclama da sua roupa, do seu cabelo, do batom que você usa. Bobagem, zelo de um homem sério nas coisas de Deus. 
Se você é extrovertida com seu grupo na igreja, ele começa sutilmente a mudar isso em você, afinal você namora com ele, é um namoro sério, agora você ficou noiva. O compromisso é sério. Talvez ele não diga nada, mas a cara emburrada no final da programação e no caminho de casa faz com que você não queira de forma alguma “magoá-lo” e para a felicidade de vocês... você muda.
Então vocês casam. Tudo tão perfeito. Lua de mel, primeiros meses de casados. Se você trabalha fora, ele reclama do seu trabalho, quer a casa arrumada, mas ajuda pouco ou não ajuda em nada. Você engordou, ele faz questão de mostrar isso. Agora você não tem mais tempo para sua família, afinal você está casada, precisa dar conta da casa, dele e de suas “obrigações de esposa”, e é claro das obrigações eclesiásticas, principalmente o acompanhando.
Se você reclama, enfrenta, ele lembra o quanto te ama, que ele assumiu um compromisso com você, casou com você, afinal, você devia ser grata a ele -- de tantas moças na igreja, ele escolheu você! E que você nunca deve esquecer que o cabeça da família é ele. Isso é bíblico. Você lhe deve submissão.
Com o tempo ele se torna mais agressivo. Nunca te bateu. Mas já te espancou com palavras. Tudo em casa que dá errado é por sua culpa. Sumiu algo? Foi você. Algo está fora do lugar? Foi você.
Você levanta da cama e não recebe um bom dia. Recebe reclamações sobre a casa, a comida ou qualquer outra coisa. Quem vai imaginar que aquele homem agradável, de orações belíssimas, grande líder, pregador, cantor, um “varão de Deus”, é um tirano que lhe tortura dia e noite, há anos, psicologicamente, a tal ponto que você passou a acreditar que realmente é aquela mulher sem valor algum que ele tanto diz.
Você não tem coragem de pedir oração. O que vão pensar dele? Vai conversar com o pastor e ele diz: “irmã, tem que orar mais. É o temperamento do seu marido. Ser mais dócil, mais meiga”. Ou: “A irmã tem que rever seu comportamento, se ele reclama é porque tem algum fundamento”.
E você já fez todas as orações. Todos os jejuns. E dizem para você orar mais e suportar a “sua cruz”, “o sofrimento como Jesus”. Ser mansa e abnegada e o Senhor a recompensará.
Você já se tornou depressiva, já explodiu em doenças psicossomáticas. Tem ansiedade e pânico. A família que vê de longe acha que está tudo bem. Casamento perfeito. E todo mundo acha tudo tão perfeito, que você começa a achar que está maluca, que realmente você é o problema e continua a cair no seu poço de culpa e depressão.
Não, você não está louca! Você é vítima da mais covarde e silenciosa violência doméstica existente: a psicológica. Não deixa marcas no corpo. Deixa marcas na alma. Você deixou de ser você para ser uma marionete manipulada.
Então, você acorda. Quer sair daquilo. Ele ameaça seus filhos, vai sumir com eles e você nunca mais os verá. Ele não sabe viver sem você. Ele não tem para onde ir. Você é tudo na vida dele. Ele vai se matar. 
Ou: você é incapaz de viver sem ele. E você fica por causa dos filhos. E você fica por causa dele, coitado! E você fica por medo de ficar sozinha.
E no entanto, ele nunca te bateu.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

DOMINGO QUE VEM JÁ É O OSCAR

Domingo que vem já é o Oscar 2017! E aí, já viu os filmes? Fez suas apostas pro meu bolão? Votou na enquete do lado superior direito do blog? (Aproveite, porque fazia mais de dois anos que eu não colocava enquete. Da última vez que tentei, não consegui).
Ontem terminei de ver o último dos nove indicados a melhor filme, A Chegada. Gostei e tal, mas será que fui a única a achar a primeira meia hora terrivelmente chata? Não sei se é porque ficção científica não é exatamente meu gênero preferido (das incoerências lolísticas: nunca fui capaz de passar do início de Alien, O Oitavo Passageiro, mas amo 2001, Uma Odisseia no Espaço), mas o ritmo é muito arrastado.
Adorei Estrelas Além do Tempo, que você vê e faz a pergunta: "Mas como é que a gente nunca ouviu falar nessa história (real) antes?" (aí você se lembra quem conta as histórias). O filme é convencional, mas mostra com uma equipe de mulheres negras matemáticas foram fundamentais para a corrida espacial, principalmente no início dos anos 1960. E mostra, acima de tudo, como o racismo é um atraso de vida para toda a sociedade, para toda a civilização. O pessoal lá, na maior potência do planeta, com toda a tecnologia de ponta que o dinheiro pode comprar, ao mesmo tempo sem derrubar um apartheid (aquela mentira do "separados, mas iguais) que durou mais de cem anos (e que, na real, ainda não foi derrubado). 
Gostei menos de Moonlight: Sob a Luz do Luar. Sei que é um filme importante e, sob vários sentidos, inédito, porque fala da interligação entre masculinidade, negritude e homossexualidade (e também sobre bullying e tráfico de drogas). Só que não me tocou. Ainda assim, todo mundo deve ver esse filme. Se La La Land não ganhar, é bem possível que Moonlight leve o Oscar.
Chorei litros vendo Lion: Uma Jornada para Casa, um belo filme, que também traz um tópico importantíssimo: crianças desaparecidas na Índia. Parece que 180 crianças somem na Índia todos os dias -- o filme fala de 80 mil por ano, e lançou uma campanha, a #LionHeart. Em vários momentos eu me peguei pensando em Pixote, a Lei do Mais Fraco
Fiquei decepcionada com Manchester à Beira Mar. O filme é super elogiado, e não compreendi o hype. Uma leitora querida me perguntou no Twitter se não achei o filme misógino, já que (segundo ela) todas as personagens femininas são terríveis. Eu não achei isso de jeito nenhum. O personagem mais terrível, pra mim, é o protagonista mesmo, que não consegui perdoar.
Agora, fiquei muito surpresa com o quanto gostei de Até o Último Homem, uma tradução adequada pra um título nada a ver, Hacksaw Ridge. É um filme profundamente religioso sobre um homem que se recusa a pegar em armas e vai pro Japão lutar na Segunda Guerra Mundial (que fará a festa dos cristãos que adoram Mel Gibson por A Paixão de Cristo), mas me emocionou.  
Agora vou tentar ver os filmes que concorrem a filme estrangeiro (infelizmente Aquarius não está entre eles). 
Lola e Silvio congelando em frente ao
Kremlin há 13 anos
Mas assim, ter visto praticamente todas produções indicadas não me dá segurança alguma pra chutar quem vai ganhar em cada categoria. Eu sempre me lembro que meu recorde de acertos (17 em 20) foi em 2004, o ano em que não vi nada (porque estava em Moscou jogando um torneio de xadrez) e apostei todas as fichas em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que levou tudo. Até hoje não sei se ver os filmes ajuda ou atrapalha pra fazer as apostas no bolão.
Bom, gente, por favor, participe do bolão, ou dos bolões (tem um pago, custa R$ 20, e um grátis). É só até sexta, antes da meia noite. E é fácil. Pra participar do bolão grátis, você gasta cinco minutinhos e nada mais -- basta clicar aqui. Pro bolão pago, é aqui (leia as instruções no último parágrafo deste post). 
Todo mundo que já entrou nos bolões nesses anos todos garante: é muito mais legal acompanhar a cerimônia se você participa do bolão. Sério mesmo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ALT-RIGHT EXPULSA FEMINISTA DO TWITTER

Pedi ao meu querido Flávio, que é tradutor profissional e escritor, traduzir este artigo publicado na Vox, da autoria de Aja Romano.
Ele trata de como as redes sociais ainda dão mais atenção (e proteção) a trolls e a gente que espalha ódio do que às ativistas que são vítimas desse ódio. Coisa que eu vi de perto mês passado, quando o Google quase tirou do ar o meu blog após denúncias geradas por script de misóginos que me ameaçam de morte há seis anos.

O alt-right [alternative right, ou direita alternativa, que de alternativa não tem muito -- é o velho conservadorismo de sempre, ainda mais radical] expulsou a escritora feminista Lindy West do Twitter. Isso tem implicações políticas no mundo real.
West diz que não está disposta a apoiar um site que não vai impedir o movimento racista de usá-lo como uma ferramenta de propaganda.
Lindy West com uma
camiseta que eu tb
quero: "Senhor, dê-me
a autoconfiança de um
homem branco medíocre"
A proeminente feminista e escritora Lindy West desativou sua conta no Twitter na primeira semana de janeiro, e foi contundente sobre o porquê: em ensaio publicado no jornal The Guardian, ela alegou que a plataforma de mídia social se recusou a reprimir o assédio realizado pelo movimento supremacista branco e misógino alt-right, contribuindo assim para uma crise política global.
West tem sido alvo de trolls sexistas no Twitter há anos, e confrontou-os antes. Mas enfatizou em seu ensaio no Guardian que ela não deixou o Twitter porque todos os ataques machistas que ela suportou finalmente a esgotaram.
"Eu odeio desapontar alguém, mas o ponto de ruptura para mim não foram os trolls (se eu aprendi alguma coisa com o lado escuro do Twitter, é a não sentir nada quando um sapo me chama de puta)," escreveu ela, referindo-se ao uso que a alt-right faz do sapo Pepe como mascote racista não-oficial (para o desgosto do seu criador).
Mais precisamente, seu ponto de ruptura — o que a fez sentir que já não poderia participar da "cultura profundamente distorcida" da plataforma — é que o Twitter foi incapaz de reconhecer e lidar com o uso da rede social feito pela alt-right para espalhar sua ideologia racista, levando a repercussões graves e reais:
"Saí do Twitter", diz West. "É
impossível de usar para qualquer
um que não seja troll, robô ou
ditador"
"O movimento de supremacia branca, anti-feminista, isolacionista, transfóbico que é o 'alt-right' tem testado sua máquina de propaganda e intimidação sobre comunidades marginalizadas no Twitter há anos — quanto discurso de ódio será ignorado pelos espectadores? Quando o Twitter vai intervir e começar a proteger seus usuários? — e esse movimento descobriu, para seu enviesado deleite, que o limite não existia. Ninguém se importava. O abuso no Twitter foi um projeto de normalização em grande escala, que disseminou calúnia e desinformação, enlameando conquistas culturais de longa data como, por exemplo, as noções de que 'racismo é ruim' e 'agressão sexual é ruim' e 'mentir é ruim' e 'autoritarismo é ruim' e, finalmente, lubrificou as engrenagens para a ascendência de Donald Trump à presidência dos EUA. Os executivos do Twitter não fizeram nada."
A declaração de West evidencia o fato desconfortável de que o Twitter teve anos para fazer alterações e reformular suas políticas de assédio e normas de conduta, mas em vez disso optou por uma abordagem hesitante, evasiva e frequentemente contraditória. E por não conseguir parar a ascensão do alt-right em seu meio, afirma West, o site tem ajudado a permitir a propagação da ideologia racista e anti-semita em todo os EUA.
O alt-right é mais que supremacia
branca requentada. É isso mas
muito, muito mais bizarro
O comportamento recente do Twitter tem sido visto por muitos como a aceitação do movimento alt-right e sua ideologia racista.
O Twitter não é o único site a contribuir para o avanço do alt-right. Sites como o Reddit, 4chan, e numerosos enclaves extremistas fizeram sua parte. Mas o Twitter, devido à sua infra-estrutura voltada para o público, sua cultura de ser amigável a celebridades e a facilidade com que seus usuários interagem com a mídia e uns com os outros, é o site mais "popular" que os membros do alt-right frequentam. É também o mais notoriamente propenso ao assédio.
Esse assédio parece ser esmagadoramente racista e machista e, frequentemente, origina-se de usuários do Twitter que fazem parte do alt-right. Um exemplo especialmente proeminente foi o abuso que a atriz do Saturday Night Live e de Ghostbusters, Leslie Jones, sofreu em 2016.
Assim, a avaliação que West faz do Twitter como sendo uma arena perigosa para a radicalização do alt-right se aplica a outros sites. Mas a visibilidade do Twitter fez dele um condutor para ideias da alt-right entrarem no mainstream. E mesmo que nem todos os trolls racistas e anti-semitas do Twitter façam parte do alt-right ou apoiem as crenças da supremacia branca em particular, West argumenta que a trollagem racista e anti-semita e o assédio no Twitter impulsionaram a ascensão do alt-right, quer fossem ou não os trolls explicitamente parte do movimento.
A abordagem em curso do Twitter para lidar tanto com o assédio quanto com o alt-right tem sido caracterizada por conflito e confusão. Em 2016, por exemplo, enquanto seu bem-documentado problema de assédio continuou a agravar-se, o site foi lerdo para agir e às vezes esquivou-se ou contradisse suas próprias regras e políticas.
Em julho, o Twitter finalmente baniu o articulista do Breitbart e garoto-propaganda do alt-right, Milo Yiannopoulos, depois de várias suspensões temporárias... mas só depois que ele liderou a onda de assédio contra Jones, mencionada acima.
Após a eleição em novembro, o Twitter lançou novas ferramentas anti-assédio e protocolos internos para ajudar os usuários a denunciar abusos, além de banir usuários do alt-right, como o líder supremacista branco Richard Spencer, que incentiva o neo-nazismo... só para restabelecer a conta de Spencer e conceder um luminoso selo de "verificado" na conta anteriormente não-verificada do Breitbart no Twitter algumas semanas mais tarde.
E enquanto isso, regras e políticas do Twitter foram frequentemente desrespeitadas pelo candidato presidencial e agora presidente eleito, Donald Trump, cujo comportamento no site muitas vezes se encaixa num padrão de assédio que o Twitter havia proibido antes.
Jack Dorsey está perdendo
controle do Twitter
Muitas pessoas interpretaram esses movimentos como uma mensagem clara do Twitter de que estava pronto para normalizar a supremacia branca. Após Trump usar a plataforma como arma, usando-a para atiçar seus partidários contra qualquer um que fosse contra ele [aqui no Brasil um candidato de direita vem fazendo exatamente o mesmo], o restabelecimento da conta de Spencer provocou uma preocupação generalizada de que o Twitter ia dar ao alt-right um microfone ainda maior do que ganhou com a eleição. Mas os extremistas de direita ficaram encantados. "Jack finalmente beijou o anel," declarou exultante um apoiador do Breitbart.
Uma passeata contra o discurso de
ódio da alt-right
Para West, tudo isso veio à tona no final de dezembro, quando o CEO do Twitter, Jack Dorsey, perguntou a usuários que mudanças eles queriam ver no Twitter em 2017, e em seguida, contornou com primor uma resposta esmagadoramente popular: "Um plano abrangente para livrar-se dos nazistas." Lindy West escreveu:
"'Temos trabalhado em nossas políticas e controles,' respondeu Dorsey. 'Qual é a próxima coisa mais problemática?' Ah, qual é a nossa segunda maior prioridade depois dos nazistas? Eu diria que a n º 2 é também os nazistas. E a nº 3. Na verdade, pode apenas prosseguir e enfiar 'nazistas' nos Top 100. Me procure quando seu site não for um enervante ninho de ratos nazistas. Nazistas são ruins, sabe?"
Em suma, a recusa do Twitter em bloquear o discurso de ódio e o extremismo da direita levou West a pensar no site como equivalente a uma empresa local com afiliações danosas — algo que ela já não estava disposta a apoiar. "Se o meu ginecologista regularmente realiza comícios neonazistas na sala de exames, eu vou procurar outra pessoa para examinar meu colo do útero," escreveu.
Supremacista branco diz que ban no
Twitter não vai parar a divulgação
dos seus pontos de vista
O Twitter não vai banir grupos de ódio individuais com base somente na ideologia.
Não é como se o Twitter não estivesse tentando lidar com o problema. Num e-mail para o Vox no início de janeiro, um porta-voz do Twitter mostrou que o site recentemente baniu a conta verificada do supremacista branco Matthew Heimbach por violar as regras contra o discurso violento, assédio e outras formas de abuso. O Twitter também suspendeu outros supremacistas brancos conhecidos, como o extremista neonazista Alex Linder, pelas mesmas razões.
Ainda assim, West e outros (justificadamente) mantêm que o Twitter não está tentando o suficiente. 
"Obrigado por não se misturar" (falando
de raças e miscigenação), diz slogan
do Partido Nazista Americano
Muitos outros supremacistas brancos mais proeminentes permanecem ativos no site — incluindo o ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke. Além de ser um famoso racista, Duke tuíta implacavelmente declarações anti-semitas sobre o povo judeu e Israel, juntamente com a propaganda da supremacia branca, incluindo uma ligeiramente velada retórica nazista, condenando o "marxismo cultural."
E há a conta oficial do Partido Nazista Americano no Twitter.
Essas contas têm uma presença no Twitter que viola clara e profundamente o espírito da política de conduta de ódio do site, que "proíbe comportamentos específicos que transformam pessoas em alvo com base em raça, etnia, origem nacional, orientação sexual, gênero, identidade de gênero, afiliação religiosa, idade, deficiência ou doença." E ainda assim são autorizados a permanecer.
Parece que a lógica do Twitter para deixar essas contas intactas está enraizada em duas palavras: "conduta específica". As contas dos alt-right e outras contas racistas como as de Spencer e Duke regularmente vomitam ódio sobre grupos inteiros de pessoas menos favorecidas e marginalizadas. Mas enquanto eles não se envolverem em atos específicos de ódio, ou alvejem pessoas individualmente no Twitter, parece que será permitido que eles fiquem.
Por um lado, esta é uma salvaguarda que protege o Twitter de ter que arbitrar muitas disputas sem sentido sobre o que constitui o "discurso do ódio"; Afinal, muitas pessoas sentem que a oposição à cultura branca masculina é discurso de ódio, uma forma de racismo. Eles estão errados, mas o Twitter provavelmente não pode dedicar recursos para examinar a diferença de cara.
Pergunta: comentários virulentos
sem moderação de trolls online
ajudaram a formar um eleitorado
cheio de ódio?
Por outro lado, o Twitter está deixando as suas portas abertas para um monte de pessoas moralmente repreensíveis. E parece-me claro que deveria haver uma maneira de indicar uma conta no Twitter como um bastião do veneno cheio de ódio, mesmo que esteja tecnicamente obedecendo às normas do Twitter. Um marcador desses talvez servisse para equilibrar a crítica pós-eleitoral de que o Twitter normalizou o neonazismo, de maneira proveitosa, ao identificar a sua presença.
É claro que com o presidente Trump usando ativamente o site como ele faz, essa possibilidade parece cada vez mais improvável. 
"Trump usa sua conta no Twitter para jogar multidões de ódio contra cidadãos particulares, tentar calar jornalistas que escrevem desfavoravelmente sobre ele, mentir para o povo americano e arrasar complexas relações diplomáticas com outras potências mundiais," escreveu West. "Eu saí do Twitter porque parece inconcebível ser parte disso — gerar receita pra isso, participar na sua cultura profundamente distorcida e emprestar meu nome a sua legitimidade."
Em última análise, a recusa do Twitter em banir a retórica racista pode ser sua ruína.
Ironicamente, o lançamento em novembro, pelo Twitter, de ferramentas anti-assédio e banimento simultâneo de muitas contas do alt-right inspirou muitos usuários alt-right do Twitter a trocar o local pelo ambiente da supremacia branca, da "liberdade de expressão" -- a rede social Gab.
O logotipo do Gab possui uma semelhança facilmente identificável com Pepe o Sapo, uma imagem associada explicitamente à supremacia branca. E os usuários verificados do Gab incluem conhecidos supremacistas brancos. 
Mas um porta-voz do Gab declarou enfaticamente ao Vox.com que a plataforma "não é um site alt-right ou anti-semita" e que "não representa qualquer ideologia política ou movimento em particular." O mesmo porta-voz também insistiu que o logotipo do Gab não é Pepe o sapo, mas "extraído de fontes antediluvianas e bíblicas" e afirmou que o Gab "rejeita a noção que nós representamos a 'supremacia branca' em qualquer forma ou meio" [Nota da Lola: Pense nos piores trolls do Twitter brasileiro, nos reaças zueros -- todos abriram contas no Gab. Mas infelizmente não ficaram por lá e continuam ativos no Twitter, porque o Gab, ao menos no Brasil, não parece ter vingado. Afinal, qual a graça em atacar ativistas, mulheres, negros etc se os alvos não estão no Gab e, assim, não vão ler o que os trolls dizem sobre eles?]
Seja como for, os supremacistas brancos estão descaradamente migrando para o Gab — Heimbach até promoveu o site no Washington Post depois ter sido banido do Twitter em 3 de janeiro. Na essência, embora o Twitter tenha tentado seguir a letra em vez do espírito da sua política de assédio, mesmo seus esforços superficiais o tornaram impopular com os próprios usuários que estão expulsando vozes progressistas como West da plataforma.
Este êxodo em massa dos trolls odiosos pode soar como uma vitória para aqueles que ainda estão usando o Twitter — mas muitas pessoas já desistiram de esperar que o site mude, e textos progressistas como o "Por que deixei o Twitter" de West estão se tornando cada vez mais frequentes.
2017: o ano em que o Twitter
aprende a prosperar ou morre
A fuga de usuários em 2017 seria um mau sinal para o já conturbado site que sofreu um êxodo interno no ano passado em meio a lutas em curso para definir sua estratégia de negócios. É possível que o Twitter, ao perder usuários de ambos os lados da guerra cultural, vai ser deixado com pouco para mostrar devido a seu aparente interesse em cortejar o que alguns têm chamado de "Presidência de Twitter" de Trump — pouco, exceto pela distinção duvidosa e não rentável de contribuir com aterrorizantes tendências políticas.
Lindy West tira foto com algumas
de suas muitas fãs
O ensaio de West foi alimentado pela compreensão sinistra de que a recusa do Twitter em lidar com o assédio e o discurso de ódio em nível ideológico teve repercussões sérias, universais. Deixar o Twitter, ela sugere, é uma maneira de lidar com a nova fase horrível da política mundial que os trolls do Twitter ajudaram a introduzir.