sexta-feira, 25 de julho de 2014

A BELA ADORMECIDA NÃO DORMIA

Outra Fernanda que sabe tudo de francês perguntou se eu queria que ela traduzisse um artigo que uma amiga escreveu sobre Malévola e o feminismo. Eu respondi: só se for pra ontem! É um belo artigo. Muitíssima obrigada!

Mais que um remake técnico, Malévola, nova versão cinematográfica do célebre conto de Perrault, transforma a imagem arquetípica da mulher. O filme transcende as diferentes formas de feminismo para trazer uma nova e moderna resposta à questão da mulher no século XXI.
O significado dos contos de fada
Um conto não é só uma história. Um conto é isento de qualquer semelhança com o real: ele tem diabos, bruxas e sua magia, e situações malucas. E além disso, um conto é recheado de simbolismos: ele tem seu sistema ternário de cores (vermelho, branco, preto), formas (círculo), objetos (pluma, espada), cada qual utilizado com um sentido preciso. 
Um conto não é jamais visto somente por aquilo que conta, mas sobretudo pelo que significa.  Na psicologia, o conto é tratado com um arquétipo, quer dizer, um aspecto do inconsciente coletivo, uma maneira universal de compreender o mundo. Assim, mesmo se cada conto possui várias variações de detalhe –- pois na sua origem ele se transmitia oralmente, e cada contador acrescentava ou modificava certos elementos, segundo sua inspiração -– essas modificações não alteram em nada o sentido inicial e simbólico do conto. 
Para o conto da Bela Adormecida, existem pelo menos três versões diferentes, e algumas podem te surpreender (como explicarei em seguida). Mas todas se destinam ao mesmo significado, ao mesmo arquétipo.
A Bela Adormecida ou o nascimento da feminilidade
Como explica Bruno Bettelheim, na sua obra A Psicanálise dos Contos de Fada, o conto da Bela Adormecida é a alegoria da passagem de menina a mulher, com as dificuldades e sofrimentos que essa etapa apresenta. Apesar de todo amor e atenção que os pais dão à filha, eles não conseguem evitar a maldição da puberdade, que começa no sangue (as menstruações) e se prolonga no refúgio em si mesmo (o sono de cem anos). 
Para tirá-la desse estado, o príncipe deve em primeiro lugar derrubar uma floresta de espinhos, a barreira vegetal que protege sua virgindade, para finalmente beijar sua princesa e fazer dela uma mulher. Na versão mais antiga do conto, não com um beijo, mas com o nascimento do filho que ele desperta a princesa, no momento em que o filho busca os seios da mãe para mamar. 
Ao contrario das versões da Disney, o conto prossegue com as maldades da mãe do príncipe, por ser ciumenta. Para viver em paz com sua princesa o príncipe deve matar a mãe: ela terminará por ser queimada num grande caldeirão. De menina à mulher e mãe, em seguida dona de casa, a Bela Adormecia ensina às meninas o papel que elas devem seguir na sua existência. Esse conto fornece uma imagem arquetípica da mulher, uma resposta à questão: o que é ser mulher?
O filme de 1959, mesmo sem integrar o fim do conto (a morte da mãe), ainda é fiel ao arquétipo do conto. Mas o que acontece em Malévola? As "variações" dadas se parecem com as variações dos contos, sem consequência para seu significado profundo? Na realidade, as modificações dessa nova versão não são superficiais: ao contrário, elas mudam completamente o arquétipo clássico da mulher. 
O começo do problema: a inocência aliada ao crime 
O conto de Malévola começa com um casal, como na Bela Adormecida, mas esse casal é infantil: na beira da adolescência, Malévola, pertencendo ao mundo mágico, e Estevão, um humano, se encontram. Esses dois pequenos seres, que ainda não entraram no mundo dos adultos, simbolizam um destino que ainda não foi construído; eles são os arquétipos a construir. 
Mas um conto começa sempre por um desequilíbrio que forma um problema a se resolver, a finalidade da aventura dos personagens. O fim do conto deve sempre restabelecer o equilíbrio entre o princípio feminino e o masculino: um rei viúvo deve encontrar uma mulher, uma princesa solitária deve ter um bebê… Em Malévola, o desequilíbrio aparece na idade adulta dos dois personagens. Estevão, o apaixonado traidor, corta as asas da boa fada Maléfica para satisfazer seus acessos de ambição. 
Dessa maneira, e de uma forma totalmente radical em relação aos contos ancestrais, o pecado original consiste na opressão masculina sobre o princípio feminino. Para afirmar seu poder (se tornar rei), o jovem rapaz aniquila a jovem moça retirando dela o que a faz ser fada, e o que a faz ser mulher, de uma forma. Pelo ato de "cortar as asas", expressão com grande potencial figurativo, Estevão impede Maléfica de crescer normalmente e de se realizar em toda a sua feminilidade. 
A partir desse fato, o conto vai trabalhar o vocabulário simbólico da opressão masculina. Por exemplo, Malévola, na sua condição de ser mágico, é alérgica ao ferro, alegoria da crueldade e corrupção. Nessa versão do conto, o conteúdo do rito iniciático da Bela Adormecida é modificado: a passagem de menina a mulher não é mais o resultado de uma maldição que a menina deve aceitar passivamente, mas consequência de um gesto humano contra o qual, com certeza, vai ter que lutar.
O movimento de liberação do corpo
Essa versão do conto, de ser ou se tornar mulher, não se exprime na aceitação imóvel de sua condição, mas no agir, no fazer. Entre sono violado por um terceiro e a luta, há um espaço de reivindicação: o direito da mulher de dispor de seu próprio corpo. Porque é exatamente sobre isso que repousa a ambição de Malévola desde o início: se vingar da mutilação de seu corpo, tentativa criminosa de submissão. 
Para lutar, Malévola deverá se realizar na sua liberdade pela reapropriação de seu corpo. Assim, Malévola é livre para escolher não ter filhos e até dizer que ela "não gosta de crianças". Por essa palavra performativa, Malévola parece se emancipar dos clichês da mulher da Bela adormecida: não, a mulher não é uma simples procriadora potencial. Ainda mais, Malévola dispõe de seu corpo utilizando roupas e acessórios inconvenientes para uma bela princesa: couro, chifres etc. Não submissa, proprietária de seu corpo, Malévola é livre. 
E não reside aí todo o princípio do filme que faz triunfar a liberdade feminina apesar da maldição original? Malévola nasceu Malévola (ou Maléfica): mas, ela ganhará sua liberdade e se libertará de seu destino onomástico se tornando caridosa. E, diferentemente da versão original do conto, não será a terceira fada-madrinha que tentará modificar o feitiço lançado por Malévola a Aurora, mas Malévola: a encarnação do seu livre arbítrio.
Mulher versus Homem
Com plena posse de sua liberdade, Malévola assume a postura de guerreira, que lhe permitirá encarnar seu pleno poder. O poder da feminilidade, sua única potência claramente expressa nessa versão do conto. O homem, nessa história, é selvagem, desordenado ou bobo. Dessa maneira, os homens do rei não conseguem jamais ultrapassar a barreira sagrada que protege o mundo das fadas. Além do que, Malévola  é muito eficaz no combate em que suas armas são as mãos nuas, e ela enfrenta todo um exército.
Somente quando o homem inventa uma tática traiçoeira, seguindo sua natureza, é que ele consegue capturar Malévola. Mas isso porque ele não esperava pela magia das asas da heroína que retornariam para coroar o fim de sua busca. A feminilidade triunfa acima de tudo. 
Desse ponto de vista, o personagem de Filipe é particularmente interessante. Herói no conto da Bela Adormecida, libertador da feminilidade de Aurora por seu beijo, Filipe é, ao lado de Malévola, um pequeno nada sem relevo. Melhor ainda, é ele que fica no sono e inação: sutil inversão dos valores de poder. Ainda mais, ele se revela totalmente incapaz de acordar a princesa.
Um… dos feminismos
Do ponto de vista simbólico e da história, Malévola parece ser uma colcha de retalhos sincrética de diferentes formas do feminismo: o movimento de liberação das mulheres, representado pela reapropriação do corpo, mas também um feminismo radical que consiste em denunciar a opressão masculina e se inscreve numa luta de sexos, tão exigente e violenta como a luta de classes. 
Mas um outro tema, mais feminino que feminista, é abordado pelo conto: a natureza. As referências a uma terra perfeita, povoada por flores e riachos, habitada por animais maravilhosos, isolada do território bestial e cinza dos homens, próxima a um jardim do Éden, podem levar a uma reflexão ecológica, como a do filme Avatar (cuja estética sem dúvida inspirou Malévola). 
Mas no conto Malévola a natureza é sempre ligada à mulher: Malévola é guardiã e protetora, e é no meio desse mundo que Aurora obtém sua liberdade de mulher -- ela decide deixar suas mães (as fadas) porque ela aprendeu a amar o jardim maravilhoso e decide habitar nele. 
E é nesse jardim que Malévola, que não queria crianças, começa a amar sua afilhada. Esse reino preservado simboliza a mulher na sua dimensão daquela que dá a vida. Graça a ele há o retorno da ternura e o triunfo do amor materno: como uma mãe, Malévola luta ferozmente para salvar a vida de Aurora, e como uma mãe ela se sacrifica por essa causa.
Dama natureza
A natureza nesse conto não existe tão somente por ela mesma, mas para dar relevo e profundeza à moral do conto: é certo, a mulher deve lutar contra a opressão masculina, mas sua verdadeira liberdade reside na aceitação que ela fará da sua natureza de mulher. A escolha de Angelina Jolie para encarnar Malévola parece evidente: mulher fatal e mãezona, ela concentra sua imagem em vários temas abordados pelo conto.
Com a diferença da vida real, onde cada forma de feminismo pode se opor a outra (Simone de Beauvoir não seria amiga de Julia Kristeva), as diferentes teses feministas evocadas pelo conto se encontram num todo coerente. O feminismo radical é ultrapassado por uma visão naturalista, e a luta termina num equilíbrio entre homem e mulher (pois Filipe é aceito no jardim). 
Os arquétipos do feminismo evoluíram? Depois da mulher oprimida e do feminismo que recusa toda forma de feminilidade, nossa sociedade teria enfim encontrado um compromisso?

quinta-feira, 24 de julho de 2014

GUEST POST: SUA VIDA SEXUAL DEPENDE DO SEU SEXO

Da F., de 23 anos:

Esta é uma história chocante sobre como meus pais assinaram embaixo da minha suspeita do seu machismo cultural. Sempre tive vontade de te escrever, já perdi as contas de quanto tempo faz que leio seu blog, mas tenho certeza que há mais de 4 anos. E já li absolutamente todos os textos que estão postados. O fato é que nunca tive motivos concretos pra te escrever, ou nunca tive uma história que fosse fácil de ser contada. Bom, agora essa história aconteceu, e eu não consigo superar o "drama" todo.
Estive até o começo do ano passado num relacionamento que me fazia muito mal, e que fazia muito mal para esse meu antigo namorado. Mas não entenda mal, somos duas pessoas muito legais, só não éramos assim tão legais juntos. Após uns meses eu já estava muito bem obrigada, restabelecida dos machucadinhos que acontecem no fim de toda relação. E, com uma ida a um bar, algumas cervejas e muita boa conversa, comecei a me relacionar com um amigo.
Uma noite, meus pais foram a outra cidade. Disseram que dormiriam por lá. Acabei convidando o menino pra vir a minha casa. Somos amigos há uns dois anos, e não vi nenhum perigo nisso. Entre a desculpa de um filme, um vinho e umas caricias, não demorou muito e estávamos no meu quarto. Tudo normal, na minha concepção.
Só que, por volta das duas ou três da manhã meus pais voltaram. Eu produzia alguns sons característicos neste momento, e não pude dizer que não estava acompanhada. Ninguém se sente confortável nessa situação, então meu -- até então -- amigo, resolveu levantar e fugir lá de casa.
Acabou não acontecendo nada mais do que umas carícias, pela chegada inconveniente.
No outro dia meus pais quiseram saber quem era aquela pessoa que estava na casa deles. Entendo o lado deles pela desconfiança em uma pessoa que eles não conheciam.
Eu, muito ingênua, querendo deixá-los tranquilos, disse que conheço bem o garoto, que somos amigos, e que nada de mais havia acontecido, se não as já mencionadas carícias. Nesse momento a coisa mais improvável aconteceu. Meus pais ficaram horrorizados por eu ter "transado" com um amigo. "Amigo é amigo, namorado é outra coisa."
Argumentei dizendo que ele não era meu namorado, e que na verdade eu não tinha nenhuma pretensão de que ele fosse vir a ser meu namorado, estávamos apenas curtindo um momento juntos. 
O drama foi maior do que eu jamais pensei que seria. Disseram que eu era viciada em sexo. Que tinha acabado de terminar um namoro, que nada deve ser tão rápido assim, que eu estava "pisando nos princípios da família".
Logo me veio à cabeça -- e por consequência à boca -- que princípios?! Quando eu nasci nessa família assinei algum documento que me proibia de me relacionar sexualmente com uma pessoa dois meses depois de terminar um namoro? Alguma família faz seus filhos assinarem "princípios"? Que diabos é isso?
Eu já sabia que meus pais são machistas. Sempre foram, mas poliam as palavras machistas para que fossem "agradáveis aos ouvidos" e para que "não ofendessem" -- muito.
Aconteceram outros episódios menores que me mostraram que meus pais -- hippies, que viveram na era Rock'n Roll, que acampavam, que burlavam regras, bebiam até cair e que (eu tenho sérias desconfianças) já fumaram maconha e por que não usariam outras drogas?, etc -- são machistas. Mas esse episódio foi incrivelmente chocante. 
Não discuti mais o assunto. Escrevi seu blog, Lola, num papel e apresentei a minha mãe. Pedi que ela lesse, que se informasse, que não estávamos mais no século XVI, e mesmo nesse século esta maneira de "pudor" ou sei lá o nome que posso dar a isso, estava errada. Mas não teve jeito, esse acontecimento foi um choque.
Algumas semanas depois, meu irmãozinho (de 20 anos) saiu para uma festa, dizendo que não voltaria para dormir. Minha mãe fez uma piada sobre as "gatinhas" que ele pegaria na festa e disse com certa seriedade: "Encapa esse pinto, se cuida com as pessoas".
Lola! Por que a reação comigo é diferente, me diz? Acho incrível a pessoa tomar duas atitudes tão contraditórias, e não se dar conta! Não conseguir enxergar o quão baixo isso é, e ainda mais quando se tem um casal de filhos e existe a comparação? Então o menino pode traçar as "gatinhas" desde que "encape o pinto", mas a menina não? Ela deve esperar calmamente por uma relação estável, uma relação socialmente aceitável?
Acontece que hoje eu namoro esse menino (homem, de 30 anos, barbado e bem formado, na verdade) que tinha levado pra casa e nunca consegui dizer a eles que se trata da mesma pessoa. E isso está engasgado na minha garganta!
Enfim Lola, ainda não descobri que "princípios" são esses, e este acontecimento ficará marcado para sempre em mim. Quero mostrar esse e-mail pros meus pais, ainda quero que eles entendam o quão errados estão, diferenciando seus filhos tão descaradamente. 

Meu comentário: F. querida, infelizmente, ter sido "rebelde" na juventude não quer dizer que a pessoa não vai virar conservadora com o tempo. E também, é possível ser transgressor em algumas coisas (usar drogas, por exemplo), e ainda assim ser o maior machista. E tem o pessoal que é liberal no discurso, mas quando se trata da filha deles... sai de baixo!
Seus pais acreditam em determinados estereótipos de gênero e no famigerado padrão duplo de sexualidade. Até hoje essa é uma coisa que não entendo: por que é bacana que um jovem rapaz transe, experimente por aí, desde que com responsabilidade, e pra uma moça é motivo de escândalo? Os dois não estão fazendo exatamente a mesma coisa -- sexo? Quem "tenta" explicar (ha ha) apela pro exemplo do "uma chave que abre qualquer fechadura é boa, mas uma fechadura que é aberta por qualquer chave é imprestável". Aí você responde com "um apontador que aponta vários lápis é bom, mas um lápis apontado muitas vezes gasta", torcendo pra que o idiota da fechadora se dê conta de como fala bobagem, mas não. 
Outra coisa que não entendo é por que os pais não deixam que suas filhas e filhos levem namoradxs pra casa. É muito mais seguro que namorar dentro de carro, ainda mais numa cidade grande, e obviamente mais barato que ir a motel (o que é muito complicado se o casal é menor de idade). Se a pessoa é de classe média e tem seu próprio quarto, com porta e tal, o que importa o que ela faz lá dentro? 
Eu tive o privilégio de ter pais que aceitavam numa boa que tanto eu como meu irmão e minha irmã trouxéssemos namoradxs e paqueras pra casa, sem distinção. Não era que meu irmão podia, por ser homem, e eu e minha irmã não. Inclusive, meu primeiro namorado firme, sério, dormiu no meu quarto, na casa dos meus pais (e eu na dos pais dele) inúmeras vezes. É o maridão. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO APRONTA MAIS UMA

Enquanto isso, no Uruguai...

Eu sempre achei que falar sobre aborto em caso de estupro fosse um bom argumento a favor da legalização do aborto de modo geral. Afinal, o aborto em caso de estupro é permitido na maior parte dos países do mundo (inclusive no Brasil, desde 1940), e mesmo muitas das pessoas que são contra o aborto em outros casos apoiam que uma mulher que engravide após ter sido estuprada possa abortar.
Sem falar que todo o discurso de "a vida é sagrada" desmorona um pouquinho quando a gravidez ocorre através de um estupro. É só ver como os conservadores americanos se embaralham para responder como podem ser intransigentemente contra o aborto e negar a uma mulher que tenha sido estuprada a escolha de abortar. Então eles inventam hipóteses mirabolantes que demonstram o quanto não conhecem nada do corpo feminino e dizem que mulher estuprada não engravida, já que o corpo mata o espermatozoide indesejado (ahn, só nos EUA, mais de 32 mil gravidezes decorrentes de estupro ocorrem a cada ano). 
Homens religiosos de extrema direita
protestam contra aborto de
fetos anencéfalos em 2012
Mas ultimamente os reaças daqui do Brasil decidiram que são contra o aborto em todos os casos, mesmo naqueles permitidos por lei (gravidez por estupro, risco de vida pra gestante, e fetos anencéfalos). Pois é, é isso mesmo: ainda que uma mulher esteja passando por uma gravidez de alto risco, que pode custar-lhe a própria vida, a vida do embrião ou feto (que também acabará se a vida de sua mãe acabar) é mais importante. Vamos deixar nas mãos de Deus, que ele sabe o que faz. Ciência? Leis? Pra quê, né? 
Vamos aos fatos: a mulher deve ter o direito ao aborto se for estuprada e engravidar. Isso é lei há 74 anos. Na prática, a mulher que opta por fazer um aborto em caso de estupro não consegue ser atendida. Há pouquíssimos hospitais no país que se habilitam a isso, e ninguém sabe quais são. Em agosto do ano passado, a presidenta Dilma sancionou um projeto aprovado no Senado regulamentando que mulheres vítimas de violência sexual pudessem ser atendidas na rede pública. Ora, isso é apenas permitir que a lei de aborto em caso de estupro pudesse ser cumprida. Mas os evangélicos encararam a sanção como a legalização do aborto no país.
Mas só a regulamentação não quer dizer grande coisa. Portanto, em maio último, a portaria 415 -- que disponibilizava verba para que o aborto nos três casos previstos por lei pudessem ser realizados -- foi aprovada. A gritaria dos religiosos foi tamanha, e o medo do governo, tão grande, que, poucos dias depois, o Ministério da Saúde voltou atrás. Porém, só descumprir as leis não é suficiente para os conservadores. O Estatuto do Nascituro continua rondando a Câmara. A última agora é proibir a pílula do dia seguinte. Mais ainda: proibir qualquer informação sobre o direito ao aborto às vítimas de estupro. 
Reproduzo aqui a nota da CFEMEA, para que vocês possam se dar conta da ameça de mais este retrocesso: 

"Há algum tempo o deputado Eduardo Cunha se articula para tentar votar já no Plenário da Câmara, o PL 6033/2013, cuja intenção é revogar integralmente a Lei nº 12.845, de 1º de agosto de 2013, que dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual. Sim, a bancada conservadora e fundamentalista quer acabar com o procedimento que cuida e orienta as mulheres e meninas que são estupradas. Eles não querem que essas vítimas tenham acesso à pílula do dia seguinte, que pode evitar a gravidez fruto de estupro, e também não aceitam o procedimento e o acesso à informação de que essas mulheres e meninas têm direito ao aborto legal. Há também o PL 6061/2013, que propõe alterações no texto da Lei nº 12.845. 
Os projetos encontram-se na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara, e representam o principal alvo de ataque da bancada conservadora neste ano. A questão central é a ação corretiva do governo com outro PL 6022/13, que qualifica 'violência sexual como todas as formas de estupro sem prejuízo de outras condutas previstas em legislação específica' e ainda a 'medicação com eficiência precoce para prevenir gravidez resultante de estupro', o que na compreensão dos deputados da bancada fundamentalista seria a legalização do aborto no Brasil. É importante salientar dois pontos importantes da estratégia da bancada fundamentalista para a aprovação deste tipo de projeto:
1) A argumentação utilizada por eles é a de que a pílula do dia seguinte seria 'abortiva', o que NÃO CORRESPONDE ÀS EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DISPONÍVEIS, e mesmo que fosse 'abortiva', lembramos que a interrupção voluntária da gravidez resultante de estupro é permitida por lei desde 1940. Portanto, utiliza-se da já prevista desonestidade intelectual da politicagem que manipula o conhecimento em favor dos retrocessos. É importante que a grande mídia se dedique a esclarecer as falsas informações que têm sido ostensivamente propagadas por sites, blogs e fan pages religiosos, que se aproveitam da ignorância e fé de nossa população para a disseminação de informações falsas.
2) A principal mudança proposta pelo PL 6061/2013 restabelece o que chamamos de rota crítica da revitimização das mulheres, a via crúcis das mulheres vítimas desse tipo de violência que se traduz no constrangimento físico e psicológico de prestar queixa em delegacias, fazer exames de corpo de delito e inúmeras vezes serem maltratadas nas delegacias e Institutos Médicos Legais por falta de preparo e dos funcionários. Assim, fica muito mais difícil para qualquer mulher atingir a plenitude de seus direitos. 
VAMOS LUTAR PARA QUE O FUNDAMENTALISMO NÃO ROUBE NOSSOS DIREITOS!"

Faz poucos dias, foi lançado um abaixo-assinado exigindo que o presidente da Câmara impeça que a Lei nº 12.845 seja votada. Porque, se for, com a Câmara conservadora que temos, será aprovado. Por favor, assinem a petição "Não estuprem uma mulher duas vezes". E peçam para que amigxs, conhecidxs e parentes assinem também. 
O principal nome por trás desta lei é o do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Da bancada evangélica, líder do PMDB na Câmara, Cunha não é capaz de separar igreja e estado, e quer que seus dogmas religiosos sejam a lei da sociedade. Mas ele sempre vai um passo além: não basta ser contra a união estável homoafetiva, popularmente conhecida como casamento gay -- Cunha tem que apresentar um projeto para criminalizar a heterofobia (é, porque héteros são muito discriminados, e dezenas de brasileiros são mortos todos os anos por serem hétero). Não basta ser contra a legalização do aborto -- ele tem que impedir que o aborto seja proibido em todos os casos, mesmo naquele em que é permitido desde 1940. 
Em março, a revista IstoÉ dedicou a ele uma matéria. O nome era "O sabotador da República", uma espécie de chantagista profissional. Desde janeiro, Cunha diz a interlocutores sobre a presidenta: "Se ela não sabe o que é respeito, vai aprender da pior maneira". O jornal Zero Hora o aponta como o deputado mais poderoso do Brasil. A candidatura à presidência do pastor Everaldo Pereira (PSC, partido de Marco Feliciano e de outros 16 deputados, pasmem!) é obra dele. O apoio de Pereira no segundo turno será usado como moeda de troca para o candidato que pagar mais.
Infelizmente, homens como esses têm enorme poder. Se depender deles, o Brasil vira uma teocracia.
Ontem participei de um hangout muito interessante, organizado pela ONU Mulheres, com o tema Pequim + 20: Mulheres no poder e na tomada de decisões (vídeo inteiro aqui). A cientista política Lúcia Avelar lembrou algo que me deu alguma esperança: que "nossos" representantes no Congresso são muitíssimo mais conservadores que a média do povo brasileiro. 
E é verdade. Temos apenas 8,6% de mulheres na Câmara. A bancada evangélica é o dobro (e calcula-se que vai crescer nas eleições deste ano). E isso sem contar os deputados retrógrados de outras religiões. Essa gente obviamente não nos representa. Mas tem poder pra mandar no corpo de todas as brasileiras.
Não vamos nos render.