quinta-feira, 28 de julho de 2016

"COMO FAÇO PRA SER DE ESQUERDA?"

A G. me enviou esta dúvida:

Muito obrigada, você me esclareceu muitas coisas nessa vida, me tornei uma pessoa melhor lendo o seu blog. Eu não queria lhe incomodar, mas não consegui encontrar nenhuma outra fonte de ajuda para meu problema, que existe desde 2013. Então te envio esse e-mail, e peço que você gaste um pouco de tempo lendo a idiotice que eu escrevi. Porque o meu problema é realmente idiota, já tentei escrever antes, mas não tive coragem de enviar.
É o seguinte, eu tenho 14 anos, e cresci vendo as injustiças do mundo e procurando por uma solução, até que com 10 pra 11 anos eu descobri o socialismo. O feminismo eu já conhecia, mas não me considerava feminista, era apenas um movimento legal, com pessoas admiráveis. A partir daí (claro que não foi de um dia pro outro, levou alguns meses), eu passei a me considerar de esquerda. Não contei pra ninguém diretamente, mas sempre fui muito incentivada a dar minha opinião tanto na escola como em casa, e sempre disse o que pensava a respeito de vários assuntos. 
O problema é que eu aprendia cada vez mais, e vendo que eu tinha falado algo errado no passado, fui começando a me sentir insegura pra falar sobre política. Como se não bastasse, minha mãe dizia "isso não é assunto de criança", meu pai dava risadinhas e achava que alguém tinha mandado eu falar isso para agradá-lo (ele é de esquerda). Minha irmã (ela tem 30 anos) fala sobre essas coisas como se eu fosse abestalhada, e uma mulher do salão de beleza, uma mulher que eu nunca vi na minha vida, começou a rir da minha cara porque eu tinha 12 anos e estava lendo Noites Brancas
Que engraçado, não é? Uma criança, que sabe ler, lendo um livro como Noites Brancas. É um livro completamente normal, não é difícil, não é longo, não é teórico, qual o problema? É por essas e outras que eu odeio adultos. Tratam crianças como bobocas, e adolescentes como pessoas irritantes, que fazem muitas besteiras e só se importam com assuntos "fúteis". Tive que ouvir meu irmão dizer que Luciana Genro é candidata de adolescente (eu não posso votar, mas torci e  fiz campanha pra ela). Em quem ele votou? Eduardo Jorge, claro, esse sim é candidato de adulto.
Não fique chocada, Lola, eu disse que odeio adultos, mas eu sei, não são todos, claro, tem ótimos adultos (como você), mas isso é igual aos homens cis falando "não são todos os homens". O engraçado é que quem diz isso são os mais machistas. 
O meu professor e minha professora de História do ano passado são ótimos adultos, sabem nos tratar como gente. O triste é pensar que eu serei um de vocês, e me policio para não esquecer que eu não nasci grande. Parece que os adultos esquecem como é ser criança ou adolescente. Eu lembro, lembro de tudo desde os meus 3 anos. E não esquecerei, para saber como tratar pessoas jovens. 
Isso tudo sobre adultos foi só pra você ter uma ideia da origem do meu problema. Como estava dizendo, eu fui ficando insegura. Teve um tempo em que eu me sentia indigna de ser feminista, até que dei um basta nesse absurdo, me empoderei, afinal eu sou mulher, e o feminismo é para mulheres, não existe isso de uma mulher ser indigna do feminismo. Me assumi feminista para um grupo de amigas em um jogo de verdade ou consequência numa festa de São João. Depois de aproximadamente um mês, eu contei para a minha mãe, na noite do meu aniversário de 14 anos. Nesse dia eu prometi a mim mesma que eu seria um ser político publicamente até meu próximo aniversário. 
Meu aniversário é este mês, eu não sei o que fazer. Lola, o meu problema é que tenho vergonha de me dizer socialista, e a verdade é que nem sei por quê. Eu sou bissexual e não é segredo, eu não me assumi, porque isso nunca foi uma grande coisa para mim, afinal eu não escolhi, minha mãe sabe, minhas amigas sabem e quem perguntar saberá. Mas ser de esquerda foi uma escolha. E eu tenho medo de ser julgada, medo de não ser levada a sério.
Mas eu peço livros esquerdosos para minha mãe, um dia ela disse que tinha medo que eu virasse guerrilheira, eu morri de rir. Nas últimas eleições eu estava andando na rua e um candidato a deputado federal pelo PSOL estava distribuindo panfletos. Eu e meu pai fomos falar com ele, conversamos por uns oito minutos e ele disse que eu ia me tornar esquerdista e indiretamente me chamou de militante, foi o dia mais feliz da vida. 
Luciana Genro em 1994, aos 23 anos,
no seu primeiro mandato como
deputada
Ele mesmo disse que começou a militar com 15 anos, eu queria saber como essa gente faz, Luciana Genro diz que começou com 14. Depois, como quem não quer nada, perguntei ao meu pai o que ele achou do tal ter dito que eu serei esquerdista. Ao que ele disse que gostou, mas ainda não tem como saber, porque eu ainda tenho muito tempo pra decidir. Eu tenho medo de virar reaça, sei lá, dizem que todo mundo é de esquerda quando é jovem, com o tempo vai esquecendo. Alguns são bichonosos (como eu digo esquerdista na minha linguagem de códigos pra falar de política com as amigas) até  o fim da vida. Espero que eu seja e um dia o mundo saiba. 
Então, Lola, muito obrigada por dedicar o seu tempo lendo isso, eu só quero um conselho, como eu faço para ser publicamente de esquerda?
Bem assim...
Minha resposta: Pessoas queridas, a G. me fez esta pergunta faz um tempão. Eu deixei agendado aqui mas nunca respondi a essa fofa. (Adorei o relato dela, é tão jovem, tão espontâneo, tão entusiasmado). E agora estou de férias. E aí, vocês podem responder pra ela? P.S.: Trolls, morram. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

GUEST POST: O PESSOAL ACHA QUE MULHER FEMINISTA E LIVRE É PROMÍSCUA

A S. me enviou este email:

Meu contato com o conteúdo feminista propriamente dito é muito recente, estou aprendendo bastante com as tuas publicações e das leitorxs. Já li até tese de mestrado sobre feminismos...
Estou hoje com 36 anos, e desde criança nunca fui muito adepta do comportamento de princesa. Nasci em uma família pobre, meus pais sempre foram muito trabalhadores, pai de origem alemã e mãe de origem polaco-brasileira. Meu pai é um homem de visão ampliada, acho que me ensinou muito sobre observar o mundo. Minha mãe é preconceituosa, autoritária. Mas acho que ela mesma não sabe disso. A ignorância impera em comunidades do interior onde a maior fonte de informação é a televisão.
Tenho um irmão mais novo, e da família materna, com quem tivemos mais contato sempre, todos os primos eram meninos. Então eu cresci em meio aos homens. Mesmo que tivesse amigas meninas, sempre preferi as brincadeiras de meninos: andar de bicicleta loucamente, brincar no barro com carrinhos, construir cabana nas pilhas de lenha, correr de pés descalços descabelada. Ainda que tentassem (tias malditas) impor em mim o comportamento de princesa, eu dava um jeito de frustrá-las em alto e bom tom.
Na adolescência as coisas ficaram pior, porque as cobranças começavam a vir de todos os lados, até de gente que eu mal conhecia: “Podia arrumar melhor esse cabelo, né?”, “Para de usar esses moletons de homem”, “Com um corpo lindo desses, fica se escondendo nessas roupas por quê?”, “Que horror essas unhas, tem homem que cuida melhor”. Na cabeça de uma adolescente isso começa a causar confusão, então entrei “nos trilhos”. Comecei a malhar, fiz dieta, estava sempre com as unhas pintadas, usava salto alto.
Encontrei um namorado, com quem mantive relações por quase dois anos, foi meu primeiro namoro com sexo. Havia namorado um cara antes, mas nunca chegamos a transar. Esse namoro foi um aprendizado enorme, com muito sofrimento, óbvio. Depois tive mais 1, 2, 3 namoros que duraram 9, 7, e 48 meses. E decidi que queria “chutar o pau da barraca”. Com 22 anos arrumei minhas malas e fui morar em outra cidade. Sozinha. Com um currículo de experiência e diploma nas mãos me lancei ao novo, à curiosidade, ao desrespeito pelos limites impostos.
Minha mãe sempre foi muito problemática, hoje a vejo como uma psicopata ignorante, não posso culpá-la por isso. Acabei me afastando por completo da família, pois meu irmão colabora com o machismo. Minha mãe sempre falou mal de mim, desconfio que faça isso pra se “justificar” aos outros por eu ser tão livre. Tanto que ela própria não suporta a ideia de ser minha mãe. Pra mim não tem problema, lamento por eles.
Nessa mudança, trabalhei em diversas áreas. Sou turismóloga, assistente administrativa, corretora de imóveis, acadêmica e pesquisadora. Aluguei uma cabana que mal trancava a porta pra morar no início e lá fiquei por dois anos, pagando um aluguel bem baratinho. Nesse período eu fui guia de turismo, vendedora em loja de shopping, lavava louça em restaurantes pra fazer dinheiro extra e até dei banho em cachorros numa pet shop. Nunca dependi de homem algum, não consigo.
Uma vez eu pensei que
era uma vadia, aí notei
que estava agindo
como homem
Nesses anos iniciais desbravando terras desconhecidas, conheci muitos caras com quem tive encontros casuais: bom papo, gente boa, um carinho, uma amizade e sexo. Sempre conheci os caras com quem tive alguma relação e só as tive porque eu mesma quis. Lembro do nome de todos eles e se pesquisar em redes sociais, encontro-os, todos. Nunca contei, mas desconfio que passem de 50 caras até hoje.
Com o tempo aprendi que sexo nem sempre é bom. Que é preciso muita intimidade e desejo de ambas as partes pra ser bom demais. Que sexo só pelo sexo não tem graça nenhuma e que um orgasmo sozinha pode ser muito melhor do que com um homem qualquer.
Alguns anos depois encontrei outro namorado. O céu na terra. Tudo que sempre sonhei ali naquela pessoa... até conhecê-lo melhor e descobrir que ele era só mais um homem mentiroso, mulherengo e machista. Esse namoro acabou em 2010, quando eu estava com 30 anos. Depois disso mergulhei no trabalho e voltei a estudar. Entrei na faculdade para mais um curso e acho que foi uma das melhores coisas que já fiz na vida. Voltar aos estudos com 30 foi um salto gigantesco.
Nunca quis ter filhos, portanto o fato de ser sozinha e estar solteira não me aflige. Eu realmente tenho passado a maior parte da minha vida lendo. Não gosto de sair em bares e baladas, não uso redes sociais (fiz o Twitter pra acompanhar política), tive uns problemas pessoais e me afastei dos amigxs recentemente e vivo praticamente isolada da sociedade. 
Sua ignorância é mais
escandalosa que a minha
promiscuidade
Então, não é porque a gente é feminista, “liberal”, descolada ou sei lá o quê no imaginário das pessoas adversas, que fica por aí dando pra todos e qualquer um. Ano passado me encontrei (sem sexo) com um amigo com quem já tinha tido uns encontros celebrados com sexo, e na conversa que tivemos pude perceber que ele também achava que eu transava a rodo com quem quisesse. Não podia imaginar a criatura que naquele momento, desde o encontro que havíamos tido há dois anos, no feriado de carnaval de 2013, eu ainda não tinha transado com outro cara...
Ele ficou surpreso com algumas coisas que contei, e contei porque queria entender os motivos de ele pensar assim a respeito do meu comportamento (ou de toda e qualquer feminista). Não consigo querer dar “uma trepada” com qualquer homem que seja se for só pelo sexo. 
Ser feminista não é sinônimo de ser promíscua. Ser feminista está mais para se entender como mulher, como um corpo autônomo, independente. Para se respeitar a si própria.
As pessoas que nos julgam acham que não temos sentimentos, que não nos apaixonamos... 
No início do ano passado encontrei com um cara que conheci na universidade em 2011, tivemos 2 ou 3 encontros de final de semana e ele foi fazer um intercâmbio no Canadá. Não fico desesperada, fico esperançosa para que tenhamos mais encontros. Tem sido muito raro encontrar um homem que encante, que gere desejo de aproximação.
Acho que a maioria das feministas, menos do que sexo a rodo, quer mesmo é encontrar homens inteligentes, gentis, companheiros e carinhosos. Se a sociedade não entende isso e impõe o machismo, deve ser porque tá faltando mulher submissa ou porque tá sobrando homem machista.
É difícil lidar com alguns julgamentos quando as pessoas não falam diretamente com você. Não tenho vontade alguma de procurar um namorado, parece uma perda de tempo enorme, se comparo ao que consigo realizar investindo esse tempo em estudos. O crescimento pessoal é infinitamente maior quando saímos da hipnose social de que “mulher precisa casar e ter filhos”...
Espero que a sociedade entenda essa necessidade de compreensão e empatia. E que é fomentada por julgamentos e difamações avessas à realidade dos fatos. E não só com as feministas.
Por mais diálogos sinceros e menos julgamentos preconceituosos.

terça-feira, 26 de julho de 2016

O QUE INCOMODA VCS NÃO É A NUDEZ PÚBLICA

Numa sociedade em que mulheres são objetificadas, o que choca é sermos donas dos nossos corpos

Titia deixou um comentário lacrador no post sobre performance arte.

Mulher que fica pelada sem ser como objeto pra macho punhetar tá errada, é obscena, é louca, protejam as crianças desse horror! (embora no caminho pra performance tenha passado por um outdoor da Playboy com uma mulher pelada e nem aí pras criancinhas).
Pessoas reclamando de nudez pública, por quantos outdoors da Playboy, adesivos de carro pornográficos, revistas eróticas expostas na banca de revista, cartazes com peitos siliconados quase pulando pra fora da blusa vocês passaram sem nem piscar? Eu lembro que quando eu era criança, havia propagandas de boates de striptease com mulher pelada pra todo lado e ninguém corria pra fechar meus olhos e me proteger do horror. 
Uma marca sei lá de quê botou nos outdoors a metade inferior do corpo de uma mulher nua cobrindo a genitália com as mãos. Uma marca de biquíni fez um comercial literalmente com gente pelada. Outra vez botou no outdoor a bunda de uma travesti e, que engraçado, ninguém ligou, ninguém quis proteger as crianças disso. Sem contar os catálogos de lingerie com beldades enfiadas em lingeries transparentes. Aliás, toda essa publicidade softcore porn nunca causou tanto mimimi quanto a performance dessa moça que se depilou em público.
Artista nua performando: escândalo
Ah, e não esqueçamos as clássicas propagadas de cerveja! Loiras bundudas em posições claramente sexuais que as reduzem ao objeto de um punheteiro babão, mas isso também não é problema. Opa, comercial em que os sujeitos ficam invisíveis, passam a mão nas mulheres em público, invadem o vestiário e tiram a roupa delas à força? Problema nenhum! Problema é uma artista performática tirar a roupa e ser depilada na frente da porra do museu de arte contemporânea onde já ocorreram outras performances que envolviam nudez.
Mulheres protestando numa marcha
das vadias: incômodo
O que incomoda vocês não é a nudez pública, mas a nudez que não objetifica. Mulheres objetos nuas, na cabeça de vocês, são inofensivas e não fazem mal às crianças; mas a nudez da mulher como sujeito, essa sim os apavora e traumatiza as crianças. E eu tenho que perguntar a quem achou que a performance não era adequada pras crianças, por que não as levou pra outro lado do museu onde elas simplesmente NÃO IRIAM VER a performance? Quer dizer, se tem uma montanha no meio do caminho, vamos removê-la do lugar com as mãos ao invés de contorná-la? Pra que fazer do jeito simples quando se pode complicar, né?
Quanto ao mimimi de quem teve nojinho da depilação, que novidade! Revistas femininas nos anos 90 já diziam que você deve estar sempre impecável pro seu ómi, mas jamais deve deixa-lo ver como você fica bonita. Nada de traumatizar o bonitinho depilando as pernas, escovando os dentes, fazendo escova no cabelo, botando cremes no rosto às vistas dele. Hominhos devem viver no mundo de fantasia de que sua mulher não é humana sem ser perturbado. 
Não é com esse backlash [retrocesso, ataque] inútil que estamos vivendo hoje que os machochos desse país iriam encarar um banho de realidade como gente grande, né? Fodam-se eles, pois. Tá na hora das criancinhas barbadas do Brasil crescerem e virarem gente.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

"MEU FILHO BRINCA COM BONECAS E CARRINHOS"

Denise me mandou este lindo email cheio de reflexões:

Primeiro queria te dizer que AMO seu blog, leio sempre que posso e comento sempre também. Já tem um tempo que penso em te escrever um email dividindo minha experiência pessoal com a maternidade feminista e nunca conseguia organizar minhas ideias. Lendo seu post sobre Jennifer Aniston me inspirei a falar sobre isso.
Eu nunca quis ser mãe, até conhecer meu atual marido. Nunca me declarei feminista quando jovem, apesar de sempre ter acreditado na igualdade entre os sexos, mas nunca fui ativista. Me lembro que meu marido, quando ainda namorávamos, me disse que se um dia ele tivesse uma filha/ filho não ia deixar a criança assistir filmes das princesas da Disney porque eram muito machistas
Eu na época achei que ele estava exagerando e problematizando tudo (tolinha!). Até o dia em que resolvi ter filhos, e não consegui por quatro anos, tendo que recorrer a inúmeros tratamentos. Nesse meio tempo me descobri feminista, comecei a ler cada vez mais sobre feminismo e criação de filhos. Tenho um marido que é feminista e que tem valores iguais aos meus no que toca a criação de filhos, então debatemos muito diversos assuntos.
Quando engravidei sofri o primeiro baque: eu que queria tanto ter um filho, que sonhava com a barriga de grávida, odiei a gravidez. Passei muito mal a gravidez toda, meu bebê mexia noite e dia sem parar e eu me sentia mal dizendo que odiava tudo aquilo, porque afinal estaria soando como ingrata, e o desgaste emocional me levou a um quadro de depressão e síndrome do pânico com 7 meses de gravidez. Cheguei a falar pro meu obstetra, em prantos, que queria que ele tirasse o bebê naquele momento! Graças a muito suporte que recebi do meu marido, do obstetra, de uma psiquiatra e um psicólogo a que fui encaminhada (moramos longe da família, então não tenho muita ajuda deles no dia a dia), levei a gravidez até o fim.
Eu sempre lia e ouvia que o instinto materno é inerente à mulher, que quando o bebê nasce o pai pode até precisar de um tempo de adaptação, mas a mulher sabe o que fazer. Só que comigo foi o inverso. Meu marido sempre teve um enorme instinto maternal, desde que nosso filho nasceu ele sabia como segurá-lo, como colocá-lo pra dormir, como acalmá-lo. Já eu vivia em pânico! Tinha medo de pegar meu filho, achava que ele não ia me amar, ele só chorava nos meus braços. 
Com o fim da licença paternidade de duas semanas do meu marido eu entrei em um pânico ainda maior por ter que ficar sozinha com o bebê. Mas encarei, aos trancos e barrancos. Os primeiros meses de vida do meu filho foram muito, mas muito difíceis. A todo momento eu era desacreditada pelos médicos/ enfermeiras nos meus (poucos) instintos, ouvia palpite sobre tudo e me senti sozinha como nunca antes. Aos poucos fui lendo muito, construindo a mãe que eu queria ser e me fortalecendo.
Aí começou minha outra luta: criar meu filho como feminista e sem outros preconceitos. Diariamente faço uma desconstrução de tudo que me ensinaram pra tentar criar meu filho sem amarras sociais, sem distinção de gênero. Tento comprar roupas mais neutras, mas é batata que sempre que meu filho está vestindo alguma peça de roupa rosa (ou que lembre qualquer coisa rosa) se dirigem a ele como menina. Eu nunca me importei, continuo a conversa naturalmente com a pessoa. Aliás, o que me incomoda na verdade é a pessoa pedir mil desculpas quando percebe que se confundiu, como se fosse uma ofensa chamar um menino de menina. 
Tento dar ao meu filho uma gama de opções de atividades pra fazer (futebol, ginástica, artes, dança -- tudo muito barato aqui onde moro ou muitas vezes gratuito) e o deixo escolher o que prefere, mas é um saco esbarrar em aulas de dança pra crianças de 1-2 anos exclusivamente para meninas e lotadas de rosa/ roxo, fadinhas e afins. Custa ter aula neutra? Outro dia conversei com uma professora de ballet e ela disse que adoraria ter um menino na turma, mas os pais não a procuravam nunca. Vou levar meu filho lá pra uma aula teste em breve.
Brinquedo é outra frustração. Todo mundo espera que meu filho brinque de carrinho, que tenha um monte deles em casa. Claro que não impeço ele de brincar com carrinho, e ele até tem um ou outro, da mesma forma que tem duas bonecas. Quando falo que comprei duas bonecas pra ele escuto da família que estou “querendo transformar ele em gay” ou que “quero impor meus extremismos pra ele” (?!). 
É aquela coisa, muita gente atualmente até já aceita que seu filho brinque com boneca, mas daí a comprar uma boneca mesmo antes da criança ter idade pra pedir é considerado um absurdo. Mas por que é um absurdo? Quando a menina é recém nascida já é bombardeada com bonecas, princesas etc, mas é um sacrilégio dar uma boneca para um menino? 
Eu quando compro brinquedos penso nos interesses do meu filho de acordo com a faixa de idade. Por exemplo, quando ele fez um ano e começou a se interessar por imitar os adultos, foi a idade que dei as bonecas e um kit de limpeza (com mini vassoura e aspirador). E ele ama! Empurra o carrinho da boneca pela casa toda, beija e dá mamadeira pras bonecas, “limpa” a casa. Em breve meu marido vai terminar de construir uma escada com proteção lateral para ele poder alcançar a bancada da cozinha e nos ajudar na cozinha. 
Outro dia a creche onde ele vai me mandou um relato com foto do meu filho pegando uma boneca negra que tem lá, espontaneamente, sentou com ela e ficou um tempo abraçando, ninando e beijando a boneca na testa. A foto é a coisa mais linda de se ver! Da mesma forma, quando meu filho mostrou que é super ativo e ama um desafio físico, montei um “circuito” de atividades em casa, aluguei um mini escorregador, tábua de equilíbrio, e ele passa o dia escalando/ pulando/ explorando. 
E os carrinhos? Ele adora jogá-los de cima do escorregador. Mas não é isso que o define, sabe? Assim como as bonecas não o definem, são só mais um brinquedo, uma forma dele expressar as emoções e compreender o mundo. Ele ainda não tem nem dois anos e não chegou na fase de desenhos/ filmes (apesar de amar Frozen), mas o dia que chegar vai ter a total liberdade de escolher o que quiser. Me incomoda quando ouço que a menina brinca de boneca pra treinar pra ser mãe. Um saco ficar rotulando tudo que a criança faz, impondo amarras a como ela pode brincar, com base em padrões sociais pré-estabelecidos.
Fico muito triste quando vejo pais limitando o potencial de uma criança com esses estereótipos de gênero. Pior é que tem muita, mas muita gente que acredita que meninos são isso e meninas são aquilo. Outro dia eu vi um documentário norueguês chamado The Gender Equality Paradox que tratava disso. Apesar de discordar da conclusão do documentário, achei ele interessantíssimo por mostrar o quanto desde que nascem as crianças são bombardeadas com estereótipos de gênero. 
Aí depois, quando crescem, as pessoas dizem que meninos são mais ativos, gostam de brincar de carrinho, enquanto meninas são calmas, dóceis e gostam de bonecas. Claro que as meninas são dóceis (leia-se submissas): elas desde pequenas escutam que tem que sentar de perna fechada, ser obediente, estar sempre arrumada e por aí vai. 
Discordo da conclusão desse documentário porque ele dá a entender que as pesquisas que demonstraram uma distinção de interesses inerentes ao gênero devem prevalecer, quando ainda que exista uma predisposição genética para isso ou aquilo, o meio social onde vivemos tem um papel muito mais decisivo [Nota da Lola: Reaças amam esse documentário! Recomendo ler o livro de Cordelia Fine, Delusions of Gender, que recebeu o título em português de Homens Não São de Marte, Mulheres Não São de Vênus, e que desmonta todas essas pesquisas "científicas" que juram que somos praticamente espécies diferentes]. 
Então enquanto o mundo não for verdadeiramente igualitário (o que pelo andar da carruagem parece uma utopia) não tem como se falar em predisposição genética. E mais importante: ainda que efetivamente exista uma predisposição genética ligada ao sexo, e daí? O ser humano é um conjunto de fatores genéticos e sociais, fora que eventual predisposição genética tem uma curva imensa. Explico: digamos, hipoteticamente, que se chegue à conclusão que, de forma geral, meninos são mais ativos fisicamente que meninas. Porém, sempre vão existir meninos que são mais ou menos ativos entre o sexo masculino, assim como vão existir meninas com a mesma curva.
Portanto, se ambos forem criados de forma aberta, essa predisposição genética no fim será irrelevante porque ambos vão ser livres para verdadeiramente desenvolverem seus potenciais e fazerem suas escolhas. Isso num mundo utópico, claro, porque nesse que vivemos o que mais vejo são falsas liberdades, quando no fundo a distinção de gênero reina desde a mais tenra idade.
Vou dar exemplos do meu convívio social: ouço muitas mães que dizem que deixam os filhos livres para escolherem com o que querem brincar afirmarem que seu filho "naturalmente" escolhe carrinhos. Aí pergunto a elas: ok, mas você já comprou uma boneca pra ele? Se não, então como sabe que ele prefere carrinho? Ou mães que dizem: “Ah, mas minha filha é naturalmente mais emotiva do que meu filho”, e num outro momento escuto o pai/ mãe da criança falando pro menino parar de chorar que nem uma mulherzinha. Cadê a criação igualitária aí?
Agora que pensamos em ter o segundo filho, todo mundo me pergunta se não quero ter uma menina. Sempre respondo que tanto faz! Seja menina ou menino, vai usar as mesmas roupas do meu filho (que tem um arco-íris de cores no armário), vai brincar com os mesmos brinquedos, vai ser criado/a da mesmíssima forma. Mas me angustia, Lola, pensar que quanto mais meu filho cresce mais ele vai ser exposto a outras influências e preconceitos. 
Por isso acho tão importante esse trabalho que você faz de discussão sobre o feminismo e desconstrução de estereótipos. Seu blog foi muito importante no meu crescimento como feminista e até hoje seus posts inspiram longos debates com meu marido de como podemos seguir desconstruindo a cada dia e nos despindo dos preconceitos que foram tão profundamente gravados em nós. Espero que você tenha forças pra seguir com o blog por muitos anos mais!