quinta-feira, 30 de outubro de 2014

GUEST POST: CEM COMENTÁRIOS EM DEZ HORAS

O vídeo de uma mulher andando nas ruas de Nova York e tendo que ouvir um monte de baboseira -- que algumas pessoas insistem em chamar de elogios -- viralizou no Facebook, e vem rendendo boas discussões. 
A página Cantada de Rua redigiu este texto sobre o assunto e o enviou pra mim. Todo mundo já sabe minha posição sobre assédio na rua: não é bom pro ego, não é gentileza, não é legal. É assédio sexual. Abuso. Demonstração de poder. Terrorismo sexual. Lembrança de quem manda.
Update: Muita gente reparou que a maior parte dos assediadores é não branca. O diretor do vídeo afirmou que havia equilíbrio entre os homens brancos e negros e latinos que falaram alguma coisa para a moça, mas que, em alguns momentos, essas cenas não ficaram boas (havia barulho demais). De toda forma, é uma polêmica válida. O vídeo realmente não é representativo da realidade.
Deixaram de fora os homens brancos no vídeo. Pessoas brancas não podem nem discutir assédio na rua sem demonizar homens não-brancos.
Esta mulher caminha na rua em Nova Iorque. A sua frente uma câmera GoPro escondida revela o tipo de coisa que as mulheres têm que passar ao andar nas ruas TODOS OS DIAS. Ela caminha por algumas horas na rua e é alvo de mais de 100 comentários de homens, sem contar buzinas e assobios. (Está em inglês mas dá pra entender perfeitamente).
No Brasil é exatamente a mesma situação.
Uma mulher não anda sozinha nunca. Ela está sempre sendo observada. Ela sabe que está sendo e que em algum momento será abordada, por mais que se previna de todas as formas possíveis que uma vítima de assédio de rua pode se prevenir.
Ela troca de roupa, ela muda o caminho, ela evita sair à noite e também de dia, ela gasta a mais pegando um táxi em um trajeto que poderia fazer a pé ou de ônibus, ela não passa na frente do bar, ela faz o caminho mais longo, ela passa a usar fone de ouvido para sair na rua, ela só sai se o namorado for junto. Ou ela simplesmente não sai.
Ela faz uma série de arranjos para fazer o que precisa fazer. Sair para trabalhar, para estudar, ir ao mercado ou até mesmo fazer um exercício é uma tarefa que exige uma série de pensamentos prévios.
Pensamentos com que homem NENHUM precisa se preocupar.
O assédio de rua escancara as nossas diferenças de gênero.
Como deve ser sair à rua e "só" se preocupar em ser assaltada ou morta? Não temer assédio ou estupro? Sair e simplesmente viver?
Não é a roupa. Não é o horário. Não é a rua. Não é um sorriso. Não é a mulher que deu abertura ou deu a entender que estava interessada. Não é a mulher. É o homem. É quem assedia.
Enquanto nem todos os homens praticam assédio, todas as mulheres planejam suas idas à rua pensando nisso.
Este é um problema de todas. De todos.
No momento em que um homem volta pra casa a pé e sozinho à noite, pode lembrar que metade da população não considera esta uma opção viável.
No momento em que um homem vê um outro homem constrangendo uma mulher, pode lembrar que esta mulher deve estar se sentindo acuada e que não reage por medo.
Vivemos em um mundo que mulheres têm tantas atribuições quanto homens, mas nós não podemos andar nas ruas da mesma maneira.
Os prejuízos na vida das mulheres são incalculáveis. Quantos cursos você já deixou de fazer porque eram à noite? Quantas vezes deixou de se exercitar porque a rua se tornou um lugar hostil? 
Quantos amigos deixou de ver? A quantas palestras deixou de ir por que não havia um caminho seguro para voltar? Quantas viagens por conta própria deixou de fazer? Quantos momentos deixou de viver?
Podemos levar este assunto ainda mais além e propor ainda mais perguntas: Será que ter que gastar uma preciosa energia diária se preocupando com algo básico como integridade física não está atrapalhando o suficiente a vida das mulheres? Quantas mulheres estão nos lugares que decidem o que é importante? Por que nesses lugares são sempre minoria? 
Quantas estão no topo? Será uma coincidência que a maioria dos líderes são homens? O que as mulheres estão vivendo que as impede de chegar lá?
Quantas vezes você já deixou de sair por medo?
Quantas vezes temeu que o assédio se tornasse uma abordagem perigosa?
Quantas coisas está deixando de fazer, coisas que neste momento a outra metade da população está fazendo?
Isso parece justo?
O que nós podemos fazer para mudar?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A IMAGEM DA BRASILEIRA NO EXTERIOR

Carol me enviou este relato:

Sou uma de suas grandes fãs. Viajei a Europa recentemente e por conta disto procurei informações para evitar o choque cultural e comecei a me deparar com o slut shaming [culpar uma mulher por seu comportamento sexual] por parte dos europeus, e o que é pior, dos brasileiros e das brasileiras!
Existe preconceito em todo lugar do mundo, infelizmente. 
Brasileirxs casadxs com estrangeirxs
Agora, as brasileiras que querem se “diferenciar” daquelas que são prostituídas ilegalmente por serem menores aqui no Brasil, ou daquelas que querem arrumar um marido europeu (ora, ele é adulto, não percebe se a mulher gosta dele ou não, só quer ficar na Europa? Para mim, os dois tem uma relação equânime, pois ela dá sexo em troca de ser cidadã europeia e vice versa. Parece até que os coitadinhos são menores enganados) me revoltam.
Fico revoltada porque elas acham que a brasileira tem que se colocar no seu lugar, se dar o respeito. Ora, a europeia e a americana podem transar com quem quiser, nós não. Em todo lugar do mundo tem mulher que casa por dinheiro, por carência, por status, o casamento nem sempre é gerado por amor, aliás, na sua maioria das vezes não o é.
Para mim, é o mesmo que um racista dizer que o negro tem que se colocar no lugar dele para ser respeitado! O negro faz o que quiser da vida dele! Se é o melhor para ele ou não, não cabe a nós que não temos nada a ver com a vida dos outros decidir! 
É a mesma coisa com o homossexual, a maioria das pessoas só os aceitam se não forem considerados espalhafatosos e efeminados. Ora, o que que tem ser espalhafatoso ou efeminado?
Quando um homem é desagradável e grosso, todo mundo aceita o “jeito” dele. Eu fico p* da vida.
Como se mau caratismo estivesse no meio das pernas e na origem do passaporte.
Só para constar, ontem vi uma moça linda, loira de olhos azuis, bem padrão de beleza, trabalhando como carteira aqui no Brasil. Aposto que enfrenta vários preconceitos por isto, pois essa profissão é um serviço cansativo e a pessoa às vezes tem de ir a lugares pouco recomendáveis.
Aposto que um monte de gente diz que ela deve arrumar um bom marido por ser bonita.
Agora, se ela arruma um marido rico, ou vai para Europa para casar, ela é puta. Se ela trabalha, é incompetente.
Para o machismo, estamos erradas até quando estamos quietas.
Aposto que por trás, os nojentinhos europeus que dizem são amigos deles, xingam eles pra caramba, mesmo dizendo que na frente deles, que “eles” são diferentes do resto.
Eu não confiaria em alguém assim, que fala mal de pessoas que não conhece, é machista, turista sexual, racista e xenófobo. Eu mandaria para aquele lugar.

Minha resposta: Não entendi muito bem, Carol, o que você quer que eu diga. O Brasil tem fama no exterior de ser um país liberal, com carnaval e sexo sem culpa. Quem vive aqui sabe que essa fama não corresponde à realidade. Somos, no fundo, um país bem moralista. 
Faz uns cinco anos, li em algum lugar da internet (o link já não existe mais) o relato, em inglês, de um jovem americano que estava vindo passar um mês no Brasil, a passeio, e também com a intenção de aprender português. Seus amigos americanos morreram de inveja -- acharam que ele iria fazer sexo sem parar. Duas semanas depois de ter pousado no Rio, o gringo continuava sem transar. Ficar tudo bem, ele ficava. Um outro estrangeiro frustrado lhe disse: "Beijar é meio como um aperto de mãos por aqui. Mas mais do que isso -- esqueça". 
O cara finalmente conheceu uma moça, feminista, com quem ficou e fez sexo pelo resto da viagem. Adorou o Brasil, mas voltou pros EUA com a certeza de que a imagem da brasileira lá fora não é verdadeira. Ele teria mais sorte em fazer sexo sem compromisso se fosse para países mais liberais, como a Suécia, por exemplo. 
Faz poucos meses tivemos uma linda Copa do Mundo aqui no Brasil (alguém ainda se lembra da Copa? Viu como ela não teve a menor influência nas eleições?), que trouxe pra cá um milhão de turistas estrangeiros, que foram muito bem tratados e querem voltar. Nas cidades que sediaram os jogos, muitos gringos ficaram com brasileiras (e gringas com brasileiros também, e gringos com brasileiros, e gringas com brasileiras), o que despertou ciúmes de vários homens brasileiros, que sentiram-se traídos.
É super comum (e saudável) que as pessoas tenham curiosidade em conhecer gente de outros lugares. E "conhecer" pode incluir fazer sexo, se relacionar, casar. Até parece que apenas as brasileiras (vou usar o que foi mais noticiado pela mídia na Copa) gostam de estrangeiros! Pessoas "de fora" sempre chamam a atenção. Claro que, infelizmente, esse "chamar a atenção" nem sempre é positivo. Um estrangeiro que vem de um país pobre pode acabar sendo vítima de xenofobia e racismo
Bom, somos mais de cem milhões de brasileiras. É um oceano de gente! Uma população muito maior que a de grande parte dos países. Somos mulheres de todas as idades, raças, cores, tamanhos, regiões, credos. É impossível generalizar e falar na "mulher brasileira". Qual mulher? O Brasil tem uma ótima imagem no exterior (uma das melhores do mundo, creio eu), sempre relacionada a coisas boas: praia, carnaval, futebol, samba, pessoas alegres, mulheres bonitas. 
Eu não me canso de repetir: todo lugar que eu vou, quando me perguntam "de onde você vem?" e eu respondo "Brasil", o pessoal abre um enorme sorriso. Não é sorriso de deboche, é de admiração. Eu nunca fui maltratada por ser brasileira. Muito pelo contrário
Brasileiras
Brasileiras e brasileiros espalham-se pelo mundo. Em todo lugar do planeta você acaba esbarrando com alguém do Brasil (e dos EUA, e da Índia etc). E, por incrível que pareça, isso não começou no domingo, com a derrota do Aécio. Há gente nascida no Brasil trabalhando, passeando, casando, em todo canto. Dizer que uma brasileira casada com um europeu é interesseira não faz dela uma interesseira. Mas faz da pessoa que diz esses preconceitos uma otária.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

GUEST POST: ALGUMAS INFLUÊNCIAS DO FEMINISMO NA MINHA VIDA

Relato da Larissa: 

Leio o seu blog há muito tempo, talvez uns 5 anos, e gostaria de compartilhar com você um pouco da minha história (porque indiretamente você faz parte dela).
Eu acho que sempre fui feminista, já nasci assim. Meu pai faleceu quando eu era bem novinha, então fui criada numa casa só com mulheres. Não fui criada para ser uma boa-moça-dona-de-casa, mas também não fui criada pra ser uma grande profissional. Eu meio que não fui criada pra nada (consigo ver pontos negativos e positivos nisso).
Mas foi quando comecei a ler seu blog que passei a entender melhor algumas coisas. Entendi, por exemplo, que cantada de rua não é elogio, é abuso. Essas cantadas sempre me incomodaram, mas todos me diziam que eu devia me sentir lisonjeada e eu me esforçava pra isso acontecer (em vão).
No ano passado eu tomei uma decisão: não ia mais deixar que ninguém abusasse de mim, nem que fosse da forma mais "inocente" possível. Se alguém mexe comigo na rua eu avalio os riscos que corro se eu responder. Se eu achar que tá tudo bem eu xingo, se eu achar perigoso, faço uma cara feia, levanto a cabeça, ponho os ombros pra trás e ando de forma bem segura. Aliás, costumo ter essa postura ao passar por lugares em que acho que vou ser assediada e isso já evita um certo transtorno. Procuro dar a impressão de que eu sou dona de mim e que ninguém tem o direito de me avaliar sem minha permissão. Ou ao menos de verbalizar essa avaliação, porque eu não controlo os pensamentos dos outros.
Há um ano e meio eu namoro um cara simplesmente fantástico, que me respeita e é meu principal incentivador. Nós conversamos sobre tudo, de futilidades ao sentido da vida e machismo/feminismo. E aí é que costumamos ter problemas porque, por mais que ele se esforce em compreender, ele é homem. Ele nunca teve uma história de horror, nunca recebeu cantada na rua, nunca foi beijado à força. Então ele não entende algumas coisas. 
E eu também não entendo o ponto de vista dele. Deve ser realmente horrível ser automaticamente condenado por coisas das quais ele nunca fez. Porque a gente faz isso, mesmo que inconscientemente. A gente considera todos os homens estupradores em potencial. Mesmo que muitos sejam, não são todos, e os que não são se sentem ofendidos. Acredito que se mostramos a eles, homens, o quanto as coisas são mais graves do que eles conseguem enxergar, eles podem nos compreender melhor e talvez lutar ao nosso lado
Ontem eu resolvi abrir boa parte da minha vida ao meu namorado. Contei como desde a menarca (eu tinha 9 anos) eu enfrento abusos e cantadas e perguntei a ele quais os tipos de preocupações que ele tinha na mesma idade. Imagino que a possibilidade se ser estuprado não seja uma delas. Contei tudo por e-mail, porque não tenho condições de falar sobre isso cara a cara. Fiz questão de enfatizar que não é só comigo que acontece e nem que foram casos isolados. Acontece com todo mundo, o tempo todo. Sem critério algum. 
Eu pretendo algum dia conseguir falar sobre tudo isso abertamente, pra qualquer pessoa. Porque nada do que já me aconteceu é culpa minha. A vergonha não deveria ser minha. Não sou eu quem deveria ter problemas em falar sobre o assunto. 
Acredito que ajudaria muito a todas nós se quebrássemos esse silêncio. Se disséssemos: "Sim, eu fui abusada e a culpa não é minha." Não é vergonha nenhuma. 
Não é algo que dependa de nós. E acho que o fato de ser tudo velado só dá força aos abusadores. Se ninguém sabe o que está acontecendo, como alguém pode nos ajudar? Se todo mundo acha que é uma bobeira, um elogio na rua, uma passadinha de mão inocente, como isso pode não acontecer? Quem deixaria de cometer esse "ato inocente" só porque uma feminista reclamona falou que é errado?

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

REELEIÇÃO DA DILMA, A RESTAURAÇÃO DA ESPERANÇA

Foi ontem e ainda estou emocionada! Exausta, mas aliviada e feliz. Ganhamos! E neste "ganhamos" entram todos que não quiseram o retrocesso. Por onde começo?
Até sábado o PSDB e seus eleitores ainda disputavam a paternidade do Bolsa Família, prometendo que não só não acabariam com o programa como o ampliariam. Mas foi só chegar segunda-feira que voltamos à programação normal: a Bolsa Esmola é um atraso, cabresto eleitoral, e quem a recebe é gente preguiçosa do norte sustentada pelas pessoas que realmente produzem e que pagam impostos. 
Por que será que esse discurso esquizofrênico de dupla personalidade não convence a quem recebe o Bolsa Família? (inclusive, muitos dos que o recebem não votam no governo. Vai entender. São Paulo é o segundo estado mais atendido pelo BF, e nem por isso vota no PT).
E, como não poderia deixar de faltar, como a cereja do bolo, veio todo o preconceito contra o Nordeste. Sempre vem, e sempre de pessoas muito ignorantes que pararam no tempo, que resumem a região à miséria e à seca, quando, sei lá, ao se falar de falta de água, o primeiro lugar que vem à mente fica mais embaixo... Essas pessoas estão defasadas há uns doze anos.
Já vimos esse ódio em 2010, e ele esteve mais forte ainda agora. Infelizmente o PSDB, em vez de repudiá-lo e de pedir a seus eleitores que sejam mais sensatos, inventou que essas mensagens vinham de fakes petistas querendo tumultuar (putz, como tem fake no mundo!), e disse que quem estava querendo separar o Brasil era quem protestava contra o preconceito, não quem cometia esse preconceito.
Eu disse e repito: quem estava indeciso sem saber em quem votar só precisava passar alguns poucos minutos em redes sociais de eleitores do Aécio para optar pelo voto em Dilma. O volume de preconceito era enorme, e tinha lado. Não foi à toa que os maiores fracassados da internet, os masculinistas, torceram tanto pelo Aécio.
Recado do deputado
estadual com a segunda
maior votação em SP
Se para boa parte dos eleitores o importante era tirar o PT, e para isso votaria-se em qualquer um (Hitler ou Satanás, como foi dito), à medida que o segundo turno foi avançando, o negócio foi ficando mais pessoal. Aquilo que Aécio repetia em todo debate -- de que ele não representava mais uma pessoa ou partido mas um sentimento  -- não era de todo falso. O "qualquer candidato anti-PT serve" foi personalizado pela figura de Aécio Neves, que conseguiu provar-se mais antipático que Serra (uma missão quase impossível). Entre os eleitores preconceituosos, Aécio ganhou pontos por ser arrogante e machista.
É certo que, para a maior parte da população, que não é preconceituosa, Aécio perdeu pontos justamente por seu machismo. As pessoas, principalmente as mulheres, viram o quanto aquele candidato cínico, que levantava dedo pra Luciana e chamava Dilma de leviana, era agressivo com as mulheres. Não sou só eu que penso assim. Veja o que diz Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio até o final de 2013, e responsável pela campanha do governador eleito no RJ, Pezão.
O adjetivo leviana, usado inúmeras vezes por Aécio para insultar Dilma, tem um significado mais forte em algumas regiões, como se pode ver por esta música famosa de Reginaldo Rossi. Por isso que eu insisti nisso de confronto entre mulheres levianas contra homens honrados -- porque foi Aécio que usou e abusou dessas palavras. Pra se definir, ele sempre se dizia honrado (palavra-chave entre mascus, que há dois anos tinham um fórum chamado justamente Homens Honrados). Pra definir a adversária, uma mulher, ele usava leviana. Em 2014, as levianas ganharam dos honrados.
Sim, considero esta uma vitória pessoal de todas nós feministas, de todas nós mulheres que queremos mudanças. Compare com o temerário segundo turno de 2010, quando o debate ficou todo centrado na condenação do aborto (porque nem se pode chamar aquilo de debate). Dilma venceu, mas não sem antes ter que escrever uma carta medonha ao "povo de Deus".
Desta vez foi diferente. O povo se deu conta do machismo de um candidato a presidente! Isso não é pouca coisa. Uma pesquisa Datafolha do dia 9 de outubro apontou que Aécio caiu 5% entre o eleitorado feminino (indo para 41%) exatamente depois de começar a usar leviana para atacar Dilma. Logicamente que a campanha de Dilma procurou explorar essa percepção. A taxa de rejeição de Aécio pulou de 17% (no primeiro turno) para 41%. Pode-se dizer, portanto, que Aécio perdeu, entre vários fatores, por ser machista.
E eu fico bem orgulhosa da minha participação nesse processo. Como qualquer pessoa que acompanha o meu blog deve ter notado, eu estava quietinha no meu canto, sem me envolver muito na campanha. No primeiro turno, escrevi muito mais sobre a importância de se votar em mulheres de esquerda para o legislativo do que sobre a disputa para a presidência. Aí, logo depois do primeiro turno, começou a circular um vídeo com maior pinta de profissional.
A música do vídeo dizia "Devia ter atacado mais [o Aécio]", enquanto apareciam imagens de blogueiros e políticos de esquerda. De repente eu vi a minha imagem lá (o vídeo me foi enviado anonimamente nos comentários do blog). Eu fui a única mulher não política que eles incluíram! Depois dessa provocação tão cretina, decidi mergulhar com tudo na reeleição da Dilma. 
Comemoração em Alagoas ontem
E não me arrependo. Bom, é provável que, mesmo sem o vídeo, eu também tivesse entrado, porque era impossível ficar impassível diante de tanto preconceito. Mas eu teria demorado mais.
Porque foi sim uma campanha marcada pelo ódio. E esse ódio não acabou ontem. Pelo contrário, segue com com força total.
Muita gente investiu numa campanha de nós contra eles, de demonização não apenas a um partido político, mas a todos os seus eleitorxs, que continuam sendo chamados de corruptos, imorais, burros, vagabundos, favelados.
A resposta a um dos ataques preconceituosos foi -- está sendo -- linda, com a tag Sou do Nordeste Mesmo e Com Orgulho (tudo junto) nos trending topics to Twitter. Muita gente postou fotos de seus municípios e estados maravilhosos.
A verdade é que, de forma geral, o pessoal do Sul e Sudeste não sabe nada sobre o Nordeste. Nos 16 anos que vivi em São Paulo, o preconceito contra os nordestinos era gigantesco, maior que o preconceito contra qualquer outro grupo. 
Nos meus 15 anos catarinenses, o preconceito anti-nordestino não era tão evidente (em Joinville o preconceito maior era contra gente do Paraná!), tirando um ou outro doido de movimentos neonazistas e separatistas. Mas a ignorância continuava imensa: um dono de restaurante, cara com ensino superior, achou que Ceará era vizinho de Minas. Eu mesma nem desconfiava da diversidade enorme do Nordeste. Não sabia, por exemplo, que o Ceará tem cidades serranas com festivais de jazz de causar inveja a Campos do Jordão!
O Brasil precisa urgentemente descobrir o Brasil. 
É mentira que o Nordeste elegeu Dilma. Quer dizer, elegeu, mas obviamente não sozinho.
O mapa em vermelho e azul passa a impressão errada, como se ninguém do Sul e Sudeste tivesse votado 13. Pra começar, Dilma venceu no Rio (que, da última vez que chequei, ficava no Sudeste), por 55% a 45%, e, principalmente, em Minas (52,4% a 47,6%). Por que eu digo "principalmente em Minas"? 
Porque MG vem sendo governada pelo PSDB há doze anos. Porque Aécio ora dizia "não olhe pelo retrovisor", para implorar que o PT não fizesse comparações entre o governo de FHC e o de Lula/Dilma, ora elencava realizações do seu governo em Minas. Enquanto isso, muitos mineiros diziam não reconhecer aquele estado fantástico pintado pela propaganda de Aécio.
Aécio foi derrotado em Minas no primeiro e no segundo turno. Isso quer dizer alguma coisa. Significa, sabe? Antes do primeiro turno, a mídia cobrou bastante de Marina por que, nas pesquisas, ela tinha pouca votação no Acre, estado que representava (e olha que ela nunca governou o estado). É realmente uma explicação difícil.
Primeiro turno 2014
Marina acabou ganhando no Acre, e foi capaz de transferir seus votos pro Aécio por lá no segundo turno. Já Aécio continuou perdendo em Minas.
Vamos comparar com Pernambuco. Muitos pernambucanos achavam (acham ainda) que Eduardo Campos havia sido um ótimo governador. Se Eduardo não tivesse morrido no acidente de avião, certamente teria tido sua maior votação em Pernambuco (e mesmo assim não teria mais que 15% em âmbito nacional; ele sabia que estava concorrendo com olho em 2018). 
Marina ganhou em Pernambuco no primeiro turno, porque os pernambucanos viram nela a vice e sucessora de Eduardo (aliás, sinceramente, uma dica pra Marina é ela se candidatar à prefeitura de Recife em 2016). Já no segundo turno, nem o apoio de Marina ou da família de Eduardo a Aécio foram suficientes para impedir que Pernambuco inteiro "dilmasse". Aécio teve apenas 30% dos votos.
Eu queria dizer que o belo estado onde vivo há quase cinco anos, o Ceará, foi o que deu mais votos proporcionalmente a Dilma (quase 77%), mas Maranhão (quase 79%) e  Piauí (78,30%) deram mais. Nada comparado à cidade em que Aécio teve sua maior porcentagem de votos, com 92% -- Miami (não deixe de ler o hilário artigo da Folha sobre eleitores frustrados do Aécio querendo "fugir" pro exterior. Eleitores que têm uma vida muito sofrida no... Leblon).
Eleitoras do Leblon desaprovam o
resultado da eleição
A cidade no Brasil com mais votos para Aécio foi Alto Boa Vista, no Mato Grosso (que ingratamente ficaria fora do Sul maravilha nos mapas separatistas). Para Dilma, foi Belágua, no Maranhão.
Já os estados em que Aécio teve sua maior votação, proporcionalmente falando, foram Santa Catarina (64,6%), São Paulo (64,3%) e Acre (63,7%). A galera do Sul é o Meu País bem que poderia incluir o Acre, né?
Porque só sair não é suficiente. Tem que fugir desta ditadura bolivariana!
Mas olha, em números gerais, Dilma teve 20.175.484 votos no Nordeste. Achou muito? Achou que foi o Nordeste que a elegeu? Pois bem, detesto ter que ser a portadora de más novas, mas Dilma teve 20.931.961 votos no Sudeste. Teve mais votos no Sudeste que no Nordeste!
Foi uma diferença pequena, 51,6% pra Dilma, contra 48,4% pra Aécio? Sem dúvida que foi. Minúscula, apenas 3.5 milhões de votos a mais pra Dilma. Em outra disputa apertadíssima, em 89, Collor teve 53% e Lula 47%. E em todas as outras no meio, sempre disputadas entre PT e PSDB, a distância foi maior.
Mas, e daí? 3.5 mi de votos a mais são suficientes pra ganhar. E quem perdeu deve simplesmente aceitar. Se nós que votamos na Dilma tivéssemos perdido, espero que não estivéssemos falando de golpe militar, fraude nas pesquisas e nas urnas, impeachment. 
Estaríamos terrivelmente frustrados com os rumos que o país tomaria, estaríamos com medo de que todas as conquistas da última década -- porque é inegável que o Brasil mudou para melhor -- fossem perdidas.
O Nordeste, então, teria razões de sobra pra preocupações, já que o PSDB nunca fez nada pela região. E engana-se muito quem pensa que o Nordeste é PT pelo Bolsa Família (que não tinha sido criado pelo PSDB?). Eu conheci o Nordeste em 1990, e vim morar aqui vinte anos depois, em 2010. É outra região. Irreconhecível. Tipo: em 2000, havia 413 mil universitários no Nordeste. Em 2012, eram 1.434.825. Um milhão a mais de gente estudando. Sete universidades foram abertas na região, todas fora das capitais. O impacto disso é imensurável. Houve também grandes obras, oferta de empregos, melhora de salários. A maior parte das pessoas que vive aqui enxerga a diferença. Por isso vota no PT.
E a vida das pessoas das outras quatro lindas regiões deste Brasil esplendoroso também melhorou. Esta foi, e continuará sendo, uma das maiores dificuldades da oposição: convencer a população de que "nada desse governo presta", ao mesmo tempo em que jurava manter as políticas sociais. Convencer o povo de que seria favorável pra todos voltar atrás, o que eles apelidaram de "mudar". 
Não vamos cair nessa falácia de "país dividido". Se Aécio tivesse vencido, a mídia insistiria tanto nisso? Duvido. 52% a 48% não é tão mais dividido que 56% a 44% (resultado do segundo turno em 2010) ou mesmo que 61% a 39% (resultados das eleições em 2002 e 2006). Se incluir aí abstenções, votos nulos e brancos, então, essa "divisão" fica menor ainda. 
Tudo isso faz parte do jogo democrático. Os EUA se dividem entre republicanos e democratas desde sempre e nem por isso o país se tornou ingovernável. E quando um partido perde, o outro não fica pedindo impeachment, intervenção militar, ou gritando "Fraude!" (nem quando tem bons motivos pra isso). 
Aceitar o resultado não quer dizer não protestar, não criticar. Assim como ter votado na Dilma não quer dizer de jeito nenhum dar-lhe um cheque em branco. 
Protestar é um direito, uma necessidade, uma ferramenta de politização que a direita ainda tem que descobrir. Mas sem papo de golpe. Quando reaças falam de fórum de São Paulo, de ditadura bolivarista, de ditadura gayzista/feminazi (aquela que não começa nunca), a gente sabe que está ouvindo alguns poucos malucos instigados por Olavo de Carvalho, guru da extrema direita. É coisa da internet. Mas quando tanta gente que não sabe perder pede o fim da nossa democracia, a coisa é bem mais preocupante. 
As eleições foram lindas. Estou muito, muito feliz. Feliz também porque muita gente saiu do muro e tomou uma posição, inclusive várias pessoas do PSOL, e este apoio, mesmo que temporário, é uma maneira de colocar o governo do PT mais à esquerda (de onde nunca deveria ter saído). Estou feliz porque as eleições deram uma restaurada na nossa esperança -- bem, pelo menos na minha esperança. Eu estava super desiludida com o governo do PT. Agora quero começar a acreditar novamente. 
Comemoração na Av. Paulista, ontem