segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CARTA ABERTA DE UM ESTUDANTE DE LETRAS AO JORNALISTA ALEXANDRE GARCIA

Recebi este email do Giovane Fernandes Oliveira, estudante do curso de Letras - Português/Francês da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Só posso parabenizá-lo.

Alexandre,
Acabo de assistir ao seu comentário, na edição de hoje (sexta, 19/12) do programa Bom Dia Brasil (veja aqui) sobre a reprovação de 27 faculdades de Medicina brasileiras na mais recente avaliação do MEC. Você inicia o seu comentário revelando preocupação acerca desse quadro atual dos cursos de Medicina, no Brasil, e se pergunta o seguinte: “O que está acontecendo? Um curso de Medicina não é um curso de Letras Neolatinas; é algo que vai afetar a vida das pessoas”. 
Confesso que um comentário como esse, feito em tom de voz zombeteiro e acompanhado de um gesto de mão igualmente desdenhoso, muito surpreende vindo de alguém que, em agosto passado, fez uma defesa apaixonada do profissional da educação. Nesse comentário mais antigo, você compara a profissão docente com outras, inclusive a de médico, afirmando que “o médico é médico porque teve professores”. Mais adiante, no mesmo comentário, você diz que “o professor é o construtor do país [pois] faz um país com saber, com conhecimento, com futuro”. 
Os cursos de Letras, senhor jornalista, formam professores de línguas e literaturas, tradutores e revisores de texto, profissionais que muito contribuem para o desenvolvimento de um país, na justa medida em que suas atividades estão diretamente relacionadas à produção, à divulgação e à recepção do conhecimento. 
O que seria de um país sem professores de línguas, materna e estrangeiras? O professor de língua materna é o principal agente de letramento, aquele que insere o aluno na cultura da escrita, ensinando-o a ler, a produzir textos e a resolver problemas no mundo através da leitura e da produção textual, práticas sociais de uso da língua que o constituem como legítimo cidadão em uma sociedade letrada. Já o professor de língua estrangeira é o maior responsável por abrir, ao aluno, as portas de uma nova língua e, por extensão, de uma nova cultura e de uma nova civilização. 
Tanto o professor de língua materna quanto o de língua estrangeira facilitam a conquista de uma vida melhor, pois, sem proficiência linguística, a ascensão social e a realização de sonhos -- como o sonho da universidade e o do intercâmbio -- se tornam muito mais difíceis. Ambos os profissionais merecem todo o respeito por também ensinarem literatura, o mais importante patrimônio histórico-cultural de qualquer língua, cujo acesso constitui direito inalienável do ser humano, uma vez que, como bem defende o grande Antonio Candido, a literatura é fator de humanização, que confirma a pessoa na sua humanidade e a torna mais sensível e menos preconceituosa diante do mundo. 
E o que seria também de um país sem tradutores e revisores? O tradutor é a ponte que liga duas línguas, duas culturas, duas civilizações; sem o profissional da tradução, o acesso ao conhecimento e à literatura produzidos em língua estrangeira seria infinitamente menos fácil. O revisor, por sua vez, é quem garante a inteligibilidade de textos escritos -- desde textos de jornal como notícias e reportagens até trabalhos acadêmicos como dissertações e teses --, sua adequação ao gênero textual, ao suporte de circulação, ao público-alvo, enfim, aos parâmetros gerais de produção de qualquer texto que pretenda atingir seu propósito comunicativo. 
Diante disso tudo, Alexandre, é realmente estarrecedor o desprezo com o qual você se refere ao curso de Letras. Você, jornalista, que mais do que ninguém deveria ter ciência da importância de um curso que forma profissionais da linguagem. Você, gaúcho, que mais do que ninguém deveria ter ciência da importância de um curso que representa 4 das 10 provas do Vestibular UFRGS (língua portuguesa, língua estrangeira, literatura e redação). Você, defensor apaixonado dos professores, que mais do que ninguém deveria ter ciência da importância de um curso que forma professores dessas quatro disciplinas da área de linguagem. 
Essa postura menosprezadora em relação ao curso de Letras não é, porém, a primeira atitude sua que não apoio, Alexandre. Já no comentário feito -- e compartilhado por muitos nas redes -- em agosto, você havia dito algo com que não concordei, na época, e com que continuo não concordando. “Professor é mais que vereador, que prefeito que não lhe pagam, porque nem é profissão: é missão”, disse você. Pois eu lhe digo: a profissão de professor é sim profissão e, como tal, merece ser vista e valorizada, bem como o curso de Letras, digno de tanto respeito quanto o curso de Medicina ou qualquer outro. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

PELA CONTINUIDADE DA SECRETARIA DE POLÍTICAS PARA MULHERES DO RS

O governador eleito do RS, José Ivo Sartori (PMDB), que assume em janeiro, já anunciou que acabará com a Secretaria de Políticas para Mulheres do RS. Essa extinção seria um grande retrocesso para todas as gaúchas. 
As feministas vem se mobilizando contra isso. Algumas estiveram na Assembleia Legislativa para conversar com deputados estaduais do RS, mas vários lhes disseram que votarão pelo fim da SPM-RS, não importa quanto todas lutarem. Uma petição online foi criada (assine!) e, amanhã, haverá uma manifestação. Nesta carta aberta assinada por diversos grupos, elas se posicionam contra o retrocesso. 

Carta aberta pela continuidade da Secretaria de Políticas para Mulheres do RS
Ao futuro governador José Ivo Sartori
À Assembleia legislativa do Estado do Rio Grande do Sul
À Secretaria de Políticas para as Mulheres

As mulheres do Estado do Rio Grande do Sul, tanto organizadas autonomamente, quanto representadas por grupos, coletivos, organizações e movimentos feministas, vêm a público manifestar o descontentamento com a intenção do futuro governador José Ivo Sartori (PMDB-RS) de extinguir a Secretaria de Políticas para as Mulheres do RS.
A SPM-RS é hoje um órgão de grande relevância para as causas das Mulheres, representando uma conquista na luta por valorização e equidade. Defendemos a permanência das estruturas existentes – Secretaria / Conselho / Transversalidade com outros órgãos – por acreditarmos que o caráter das políticas que vêm sendo por elas desenvolvidas não são meramente assistencialistas. Tais políticas podem ser garantias de direitos e exercício da cidadania, além de instrumentos de protagonismo para as mulheres, e requerem estruturas de Estado específicas com orçamento, autonomia e estrutura adequada para a manutenção de programas e projetos que materializem nossos interesses.
A conduta adotada pelo novo governo ameaça a continuidade e o necessário aprofundamento de tais políticas públicas voltadas às mulheres, revelando claramente o desrespeito e a falta de comprometimento com as nossas lutas e os nossos direitos. Ao externar publicamente o plano de redução das Secretarias, o governo Sartori não traduz os interesses das mulheres gaúchas! 
Encerrar uma Secretaria que tem como foco a inclusão das mulheres nos processos de desenvolvimento social, econômico, político e cultural transferindo suas prerrogativas à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos é um ataque às mulheres do Rio Grande do Sul. Essa forma de governar trará um nítido retrocesso político e social para o estado do RS.
Tanto a justificativa pela necessidade de corte de gastos públicos quanto pela redução de Secretarias para desburocratizar a administração do estado são incoerentes, já que o próximo governo está ressuscitando, por exemplo, a extinta Secretaria de Minas e Energia. Tal incoerência torna-se ainda mais evidente quando lembramos que o momento de fechamento da SPM-RS coincide com a recente aprovação do projeto que concedeu aposentadoria especial para os deputados estaduais do RS. 
Enquanto tal aposentadoria resultará em aproximadamente R$ 3,5 milhões de gastos anuais aos cofres públicos gaúchos -– gastos que jamais serão revertidos em benefícios à população -– nossas lutas são transformadas em uma mínima parte de outra Secretaria, descaracterizando o foco da SPMRS e diluindo o avanço político que sua existência representa nos marcos das lutas históricas das mulheres.
As conquistas obtidas através da SPM-RS não podem ser contabilizadas como meros “gastos”. A Secretaria fortalece nossos direitos atuando fortemente no enfrentamento à violência contra as mulheres, proporciona projetos de combate à opressão imposta pela cultura do patriarcado, além de investir em programas de qualificação da mão de obra feminina e promover várias ações de luta por equidade. Iniciativas como a Rede Lilás tiveram excelentes resultados – como a redução em 32% do índice de feminicídio. Nesses números estão representadas, em sua grande maioria, mulheres pobres e negras que quando atingidas pela violência doméstica encontram a primeira oportunidade de um recomeço através dos programas e projetos articulados pela Rede Lilás.
Nosso posicionamento é claro ao afirmar que não aceitaremos retrocessos. Ao contrário, estamos cientes de que há muito para evoluir e aprimorar. Exigimos a SPM-RS atuando integralmente, apta não apenas para dar continuidade ao trabalho que vem sendo construído, mas para fazê-lo avançar. Pelas muitas conquistas e pelos imensos desafios é que reivindicamos a manutenção da Secretaria de Políticas para as Mulheres como órgão central de articulação e execução de políticas públicas de Estado para e com todas as mulheres do Rio Grande do Sul.
Não aceitaremos que nossas lutas sejam diminuídas. Nos uniremos, todas as irmãs deste estado, para lutar pela continuidade da Secretaria de Políticas para as Mulheres!

Assinam essa carta: 
Coletivo Yoni – Guaíba, Coletivo Juntas!, Grupo Sororidade RS, Coletivo Ana Montenegro/RS, Coletivo de Mulheres da UFRGS, Federação da Alimentação do RS, Federação das Mulheres Gaúchas, Coletivo Feminista Atena – Bagé/RS, Coletivo Feminista LIVRAelas – Livramento/RS, Coletivo Identidades - ESPM-Sul, União das Associações de Moradores de Porto Alegre, União de Negros(as) pela Igualdade, Marcha das Vadias – Porto Alegre/RS, Movimento de Mulheres Olga Benário, Grupo Putinhas Aborteiras, Coletivo Margaridas – Jaguarão/RS, 
Levante Popular da Juventude, Marcha das Vadias - Passo Fundo/RS, Marcha Mundial das Mulheres – RS, Coletivo Maria, vem com as outras! – Passo Fundo/RS, União da Juventude Socialista - UJS RS, União Brasileira de Mulheres - UBM / Porto Alegre, União Brasileira de Mulheres - UBM / RS, Ação da Mulher Trabalhista - AMT POA e RS, Associação de Mulheres Multiplicar, FECOSUL - RS, FETRAFI – RS, Secretaria de Mulheres do PCdoB, Secretaria de Mulheres do PT, Setor de Mulheres do MTD, Sindicato dos (as) Bancários (as) de Porto Alegre, SINDIFARS - Sindicato dos Farmacêuticos do Rio Grande do Sul, CUT RS, Associação de Promotoras Legais Populares, Movimentos de Mulheres Socialistas do PSB, Comissão de Mulheres da FETAG RS, Coletivo Elo Delas – Caxias do Sul/RS, ENESSO Feminista, 
Frente Parlamentar dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, Secretaria de Direitos Humanos - PT/RS, Liga Brasileira de Lésbicas, Coletivo Caleidoscópio, Núcleo Jana Barroso - Marcha Mundial das Mulheres – CE, Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo/RS, Fórum de Mulheres de Santa Maria (FMSM), Núcleo de Estudos sobre Mulheres, Gênero e Políticas Públicas (NEMGEP/UFSM), Católicas pelo Direito de Decidir, Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS - SINDJORS, Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Santa Cruz do Sul/RS

sábado, 20 de dezembro de 2014

NINGUÉM MERECE UM BOLSONARO

Voltei! Mas nem dá vontade de voltar. Quarta-feira de manhã ainda estava nadando no mar. Aí chego e tenho que passar horas deletando comentários ofensivos de trolls aqui no blog. E, em questão de horas, recebo algumas ameaças de morte por telefone dos mascus sanctos (escute uma aqui).
Uma das manifestações contra Bolso
Também precisei gastar um tempão para tentar acompanhar tudo que perdi em onze dias longe. Perdi a revolta diante do discurso de Jair Bolsonaro no dia 9. Após o discurso da deputada e ex-ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário (PT-RS) para comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos, Bolso gritou, durante sessão plenária: "Fica aí, Maria do Rosário, fica! Há poucos dias você me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir!".
Bolso deve estar doido, pra confundir "poucos dias" com "muitos anos". Em 2003, ele e Maria do Rosário, então relatora da CPI da Exploração Sexual Infantil, estavam sendo entrevistados separadamente, um ao lado do outro. Bolso comentava a redução da maioridade penal, em pauta após os crimes bárbaros cometidos por Champinha, um psicopata de (na época) 16 anos com distúrbios mentais graves, preso numa unidade de saúde de SP desde que saiu da internação na Fundação Casa. Bolso disse a Maria do
Rosário: "Já que você é contra a redução da maioridade penal, e defende políticas sociais para esses vagabundos, então coloque o Champinha para dirigir o carro da sua filha". A deputada respondeu, calmamente: "O senhor é que promove essas violências".
Bolso disse para as câmeras: "Grava aí, eu sou estuprador agora".
Maria do Rosário: "É, o senhor é".
Bolsonaro: "Jamais iria estuprar você, porque você não merece".
Maria do Rosário: "Eu espero que não, se não te dou uma bofetada".
Bolsonaro, apontando um dedo para ela, e pressionando outro contra o peito dela: "Dá, que eu te dou outra. Dá que eu te dou outra. [Empurra a deputada]. Dá que eu te dou outra".
Maria do Rosário: "Olha aqui, segurança! Mas o que é isso?"
Ato de repúdio a Bolsonaro esta
semana (Maria do Rosário no centro)
Bolsonaro: "Você me chamou de estuprador, você não tem moral. Vagabunda!"
Maria do Rosário, em choque: "O que é isso aqui?! Desequilibrado! Mas o que é isso?"
Bolsonaro: "Ainda bem que ele gravou tudo aqui. Chora agora, chora agora!" (veja a cena aqui).
Na ocasião, houve representação contra o deputado, mas nada aconteceu. Daí ele aproveitou para, onze anos depois, desenterrar essa briga em que ele foi um grande covarde e repetir parte das ofensas. Só que muita coisa mudou de 2003 pra cá. Está ficando cada vez mais difícil pra reaças ameaçarem mulheres.
Por telefone aos jornais na semana passada, o deputado confirmou o que disse, sem arrependimento, mesmo depois de saber que haverá representações contra ele: "Ela [Maria do Rosário] não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia. Não faz meu gênero. Jamais a estupraria". Quer dizer, ele não é estuprador mas fica decidindo que mulher vai ou não estuprar baseado na estética? 
De lambuja, Bolso defendeu na entrevista discriminar mulheres no mercado de trabalho:
Mais tarde, o deputado enviou uma carta à imprensa (ao lado), afirmando que jamais pedirá desculpas a Maria do Rosário, que a questão é ideológica, não de gênero (como se gênero -- e tudo mais -- não fosse ideológico), e colocando os "movimentos" que defendem as mulheres assim mesmo, entre aspas.
O Conselho de Ética abriu processo contra ele por quebra de decoro parlamentar, o que inclui "tratar com desrespeito os colegas", o que ele evidentemente fez. Porém, como seu mandato acaba agora, pode não haver prosseguimento. O favorito à presidência da Câmara, Eduardo Cunha (esta flor de pessoa), já avisou que Bolso não será cassado. 
Pro Conselho, Bolso exibiu o vídeo de 2003 como prova (!) de que, em 2014, reagiu no calor do momento. "Reação no calor do momento" a uma acusação feita indiretamente (pois Maria do Rosário dizia que ele era responsável por violência de forma geral, e nunca usou a palavra estuprador) onze anos atrás! 
Olha, é tanta insanidade dita por esse cara que nem dá pra cobrir tudo. Já houve manifestações de movimentos sociais pedindo a cassação do mandato do parlamentar. E outras virão (mais sérias do que esta de ontem do Bastardxs, ex-Femen Br). Uma hoje mesmo.
Na segunda, dia 15, cinco deputados estaduais do PSOL do RJ levantaram cartazes com a frase "A violência contra a mulher não pode ter voz no Parlamento". 
Na saída, duas jornalistas foram entrevistar Bolsonaro, e ele disse a uma delas: "Você merece ser estuprada? Estou perguntando! Responda!". O deputado fascistóide tem experiência em xingar repórteres. Em abril, ao ser perguntado sobre os 50 anos do golpe militar, chamou uma repórter da RedeTV de "idiota" e "analfabeta".
Algumas outras repercussões que acompanhei: no Programa do Jô, um jovem gritou "Viva o Bolsonaro!", e a reação do apresentador foi ótima (não costumo gostar do Jô): "Quem é que gritou esse absurdo?"
Já para o guru da direita brasileira Olavo de Carvalho, a declaração de Bolsonaro sobre Maria do Rosário foi injusta. Afinal, ela "não é tão feia assim". Ainda não foi criado um tópico que não possa ser piorado por um comentário do astrólogo. 
A jornalista Rachel Sheherazade usou seu espaço para mais uma vez ser uma reaça irresponsável. Chamou feministas de feminazis, narrou o episódio como se a fala de Bolso fosse uma reação a ter sido chamado de estuprador agora, e ainda deu uma nota de um site de notícias falsas (em que Maria do Rosário defenderia pena de morte para homofóbicos) como verdadeira. Nossa direita é muito sensata mesmo.
Surpreendentemente, um dos muitos blogueiros reaças da Veja, Reinaldo Azevedo, se posicionou contra a fala de Bolso. Em represália, foi chamado de traidor por reaças que costumam adorá-lo. Alguns até começaram uma petição pedindo para a Veja cancelar sua coluna. Li até um comentário do tipo "Constantino é melhor", denotando um claro desespero, pois não tem como Rodrigo Constrangido ser melhor que ninguém no mundo em qualquer coisa.
Os reaças compararam a revolta da esquerda com a fala do deputado com a de Paulo Ghiraldelli. Sim, entendo o que você está pensando: WTF? O que tem a ver? Ghiraldelli é deputado também e a gente nem sabia?
Talvez você nem saiba quem é a figura. Um ano atrás, o professor de filosofia da UFRRJ escreveu na sua página do FB: "Meus votos para 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada". 
Não se sabe exatamente por que reaças pensam que Ghiraldelli é de esquerda. Ele é tão detestado por esquerdistas que, um mês antes do filósofo ter escrito essa declaração hedionda, uma palestra sua foi interrompida por protestos de estudantes que se manifestaram contra seus comentários machistas, racistas e homofóbicos em sala de aula. Eu, feminista, de esquerda, sem admiração nenhuma por ele ou por Sheherazade, escrevi um tweet assim que fui avisada por um leitor. Reaças mentem até hoje que eu e outras feministas não falamos nada.
Também vi comparações com Che Guevara (que, obviamente, de acordo com os reaças, era um estuprador assassino e sanguinário), com Lula (em 2009 um militante narrou uma piada de Lula durante a campanha presidencial de 1994 sobre ter tentado estuprar um outro prisioneiro, quando esteve preso em 1980 -- eu sei, é confuso, melhor resumir para "Lula é um estuprador e a esquerda silencia", vai que cola), com Gaievski (ex-assessor da Casa Civil e ex-prefeito de Realeza, PR, condenado em setembro a 18 anos de prisão por estupro de vulnerável, mas há outros processos contra ele, e as sentenças podem chegar a 250 anos; tem reaça que até hoje reclama de eu não ter escrito sobre um cara que eu nunca ouvira falar antes das acusações, como se meu blog fosse um programa sensacionalista de TV que repercute todos os casos de estupro).
Reaças parecem não entender como o comportamento de Bolsonaro é inadequado no Congresso. Deve ser porque estão acostumados a sua agressividade. Em 1999, Bolso, em discurso na Câmara, disse que o Congresso deveria ser fechado e lamentou a ação dos militares durante a ditadura: "Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso". Apesar de representações contra ele, não perdeu o mandato.
Ato contra Bolsonaro esta semana
Em 2011, numa entrevista com Bolso levada em tom brincalhão pelo CQC, Preta Gil perguntou ao deputado o que ele faria se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra. Ele respondeu com a arrogância típica dos "Você sabe com quem está falando?": "Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu". Diante da repercussão, Bolso se justificou: achou que Preta Gil se referia a gays, não negras. Mais de vinte deputados protocolaram representações contra o deputado racista. Novamente, nada. 
Vídeo de Bolsonaro difamando
professora universitária
Além disso, já tem mais de dois anos que Bolsonaro vem divulgando um vídeo editado por sua equipe para difamar uma professora universitária, a psicóloga Tatiana Lionço. Ele pegou uma fala dela num congresso sobre sexualidade infantil e combate à homofobia, deturpou o que ela e outros militantes disseram, e publicou um vídeo chamado "Deus Salve as Crianças". Como um deputado pode espalhar mentiras com tamanha impunidade?
Como os mascus veem Bolsonaro
Deputado federal mais votado do Rio, Bolsonaro é representante da extrema direita, do tipo que defende a ditadura militar e equipara direitos humanos à "vagabundagem". Ou seja, um podre total. Já anunciou que será candidato a presidente em 2018, uma iniciativa que apoio. Acho lindo quando a direita se divide, e um falastrão folclórico e caricato como Bolso jamais seria eleito para um cargo executivo. 
É terrível sim que ele tenha tantos votos de gente que pensa como ele (para tentar entender o fenômeno bolsonarete, recomendo este artigo da Ana). Entre os mascus, por exemplo, ele é tão idolatrado que é chamado de Bolsomito. Compreensível um misógino que chama uma deputada de vagabunda ser aplaudido por misóginos. Incompreensível é que a misoginia tenha lugar na Câmara. 
Exemplo do pensamento de um
bolsonarete qualquer
Não dá pra aceitar que um brucutu com imunidade parlamentar sinta-se no direito de decidir quem merece ou não ser estuprada -- critério baseado em questões estéticas, daquelas que Rafinha usa como material de piada ("estuprador de mulher feia não merece cadeia, merece um abraço"). Na melhor das hipóteses, que bom "saber que o Parlamento brasileiro não abriga um estuprador, apenas um apologista do estupro". 
Insultos como "Você não merece ser estuprada" e "Nenhum homem é louco de te estuprar" eu ouço toda semana, sem exagero. Tem que ser um misógino muito sem noção para não ver um "Você não merece ser estuprada" como ameaça de estupro. Alguns mascus sanctos num chan deles em outubro discutiram estratégias para me estuprar. Claro que, para eles, isso não foi uma ameaça de estupro.
Mas espera-se que o Congresso tenha inteligência e sensibilidade maior que os trolls da internet. Espera-se que nossos representantes sirvam de exemplo no combate à violência contra as mulheres. Quem usa o espaço privilegiado que tem para perpetuar esta violência simplesmente não merece estar lá.