sexta-feira, 29 de julho de 2016

IMAGINA UM SERVIDOR PÚBLICO MISÓGINO E RACISTA

De um chan mascu. Linguagem pesada, misógina, racista. O pior dos mundos:

Matematicofag: Não há saída, Psy. Nós perdemos. Podemos até esbravejar aqui, mas todas as nossas vitórias são pírricas.
A boceta ganhou, meu caro. O poder da boceta é inexorável. Essas vadias que você acha que "superou" no concurso terão vidas mais felizes e realizadas, com amigos, festas, carinho genuíno, interesse, mimos e experiências interessantes. Elas curtirão a vida em baladas violentas regadas a drogas e sexo. Nós nunca teremos isso. Nós perdemos. Nós dois e a grande maioria daqui perdemos.

Marcelo: Quanto a isto, você tem razão, matemáticofag. O mundo se tornou mangina e escravoceta por regra.
A questão é que você como funcionário público, você está no controle do gado. O gado é terceirizado e não tem capacidade técnica para passar no concurso.
Você nunca trabalhou em órgão público? Imagina, o gado todo tendo você como chefe.
Se você quiser foder o gado, basta mostrar que eles estão fazendo o serviço errado. A empresa terceirizada é 'glozada' e multada. O gado leva esporro duas vezes, um de você e outro do judeu que quer lucrar com o contrato público. Matemáticofag, é uma delícia.
Corgis são fofos, misóginos não são
Você chega na merda tipo as 11 horas, fica no café comendo. Enquanto isto, o gado está lá trabalhando feito escravo, correndo para fazer o que você manda. O gado pode te odiar, pode te xingar por trás, mas eles não podem te demitir. E você pode fazer desta vida feliz deles um verdadeiro INFERNO NA TERRA. Vai por mim, matemático, seja servidor público. Não é nem pelo dinheiro, e sim pelo prazer de torturar a escória.
Quando eu trabalhava como terceirizado no STJ, eu vi funcionários públicos torturando e humilhando o gado. Imagine vadias burras, pretos pé rapados, literalmente a escória.
Fantasia mascu que nunca será
realizada
Os caras chegavam na merda e começavam a 'glozar' contratos. Falavam que o serviço estava errado e que o STJ não ia pagar. E na geral, eles estavam certos porque o serviço estava uma bosta mesmo. A empresa contratou putas e o lixo que não tinha fundamento técnico nenhum, então só faziam merda seguido de merda.
O judeu da empresa querendo lucrar o máximo possível escolheu a dedo o lixo. Ninguém com conhecimento para fazer a merda queria trabalhar pelas esmolas que ele estava pagando. Absolutamente ninguém. A não ser gente que tava começando agora.
Eu culpo o movimento feminista
pela minha infelicidade
Imagina você lá, matemáticofag. Imagina estas 'analistas de TI', engenheiras e o caralho. Você só chega pra elas e diz que tá tudo errado, que é pra refazer e que se não fizer até o final do dia vai glozar a porra toda.
Ai quando estas vadias abrirem a boca, você cala elas com argumentos técnicos e diz que elas deveriam saber o que estão fazendo. Você só vai trabalhar 6 horas por dia, enquanto o gado vai ter que trabalhar no mínimo umas 10. E eles vão ganhar umas 4 vezes menos que você.
O lance de ser funcionário público não é a estabilidade, digo, não é só ela. Tem todo o agregado, tem o poder que vem junto. O poder de pisar em cima do gado. É como uma arma e um título do estado. Você pode trazer a sua infelicidade para o gado, pode trazer todo o seu sofrimento para estas vadias.
O prazer, matemáticofag, o prazer é melhor que sexo cara.

Matemáticofag: E de que adianta, meu caro? Ok, você vai lá e "gloza" a merda das vadias. Elas ficam frustradas e tudo mais.
Mas aí o que acontece? Vocês dois vão para a casa.
Ela chega em casa, abre o Facebook e tem 60 likes novos em suas fotos. No mínimo 5 manginas diferentes irão ligar oferecendo um ombro amigo, carinho e palavras de suporte, tirando, é claro, as 30 mensagens diferentes de apoio no Facebook e Whatsapp. Quatro bombados marginais estarão disponíveis para ela extravasar a frustração com sexo violento e brutal. O chefe dela irá mandar um SMS para ela dizendo que "está tudo bem" e que as coisas serão resolvidas. O namorado beta irá enche-la de presentes, carinho, atenção e irá dizer que "aquela viagem para Paris que você sempre quis" vai sair esse ano.
Nós? Chegaremos em casa, entraremos para nosso quarto escuro, abafado e fedorento, abriremos o computador e viremos postar nesse "chan". Depois, a noite, vamos tocar uma punheta para o vídeo de uma mulher mutilada.
Ninguém gosta de misóginos
E atrás de todo jorge há uma vadia. Como já relatei aqui algumas vezes, eu também fui usado por uma vadia vagabunda, que abusou da minha inocência, me usou como escada emocional e intelectual para subir, se casou com um estrangeiro e hoje vive no bem bom no exterior enquanto eu estou aqui, pensando em uma maneira indolor de me matar. Ao mesmo tempo, os irmãos desgraçados dela me humilharam, riram da minha cara. Eu só queria UMA coisa, e é matar a vadia. A murros. 
Quero sentir meu punho quebrando os ossos dela, quero sentir a carne dela amortecendo meus socos. Eu quero ter o prazer de ver ela gritar. Depois eu envio a cabeça dela por correio para seus irmãos vagabundos. E aí? E aí eu posso me matar. Foda-se.

Ou é possível substituir todo este
texto por um vídeo de 40 segundos
Marcelo: Eu invejo sua bondade e inocência, matemáticofag. Você é um homem bom. Eu era igual você, mas acredito que as torturas psicológicas que me submeteram me fizeram desenvolver distúrbios anti-sociais.

Marcelo passou num concurso público no ano retrasado. Ainda não foi chamado e, com sorte, nunca será.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"COMO FAÇO PRA SER DE ESQUERDA?"

A G. me enviou esta dúvida:

Muito obrigada, você me esclareceu muitas coisas nessa vida, me tornei uma pessoa melhor lendo o seu blog. Eu não queria lhe incomodar, mas não consegui encontrar nenhuma outra fonte de ajuda para meu problema, que existe desde 2013. Então te envio esse e-mail, e peço que você gaste um pouco de tempo lendo a idiotice que eu escrevi. Porque o meu problema é realmente idiota, já tentei escrever antes, mas não tive coragem de enviar.
É o seguinte, eu tenho 14 anos, e cresci vendo as injustiças do mundo e procurando por uma solução, até que com 10 pra 11 anos eu descobri o socialismo. O feminismo eu já conhecia, mas não me considerava feminista, era apenas um movimento legal, com pessoas admiráveis. A partir daí (claro que não foi de um dia pro outro, levou alguns meses), eu passei a me considerar de esquerda. Não contei pra ninguém diretamente, mas sempre fui muito incentivada a dar minha opinião tanto na escola como em casa, e sempre disse o que pensava a respeito de vários assuntos. 
O problema é que eu aprendia cada vez mais, e vendo que eu tinha falado algo errado no passado, fui começando a me sentir insegura pra falar sobre política. Como se não bastasse, minha mãe dizia "isso não é assunto de criança", meu pai dava risadinhas e achava que alguém tinha mandado eu falar isso para agradá-lo (ele é de esquerda). Minha irmã (ela tem 30 anos) fala sobre essas coisas como se eu fosse abestalhada, e uma mulher do salão de beleza, uma mulher que eu nunca vi na minha vida, começou a rir da minha cara porque eu tinha 12 anos e estava lendo Noites Brancas
Que engraçado, não é? Uma criança, que sabe ler, lendo um livro como Noites Brancas. É um livro completamente normal, não é difícil, não é longo, não é teórico, qual o problema? É por essas e outras que eu odeio adultos. Tratam crianças como bobocas, e adolescentes como pessoas irritantes, que fazem muitas besteiras e só se importam com assuntos "fúteis". Tive que ouvir meu irmão dizer que Luciana Genro é candidata de adolescente (eu não posso votar, mas torci e  fiz campanha pra ela). Em quem ele votou? Eduardo Jorge, claro, esse sim é candidato de adulto.
Não fique chocada, Lola, eu disse que odeio adultos, mas eu sei, não são todos, claro, tem ótimos adultos (como você), mas isso é igual aos homens cis falando "não são todos os homens". O engraçado é que quem diz isso são os mais machistas. 
O meu professor e minha professora de História do ano passado são ótimos adultos, sabem nos tratar como gente. O triste é pensar que eu serei um de vocês, e me policio para não esquecer que eu não nasci grande. Parece que os adultos esquecem como é ser criança ou adolescente. Eu lembro, lembro de tudo desde os meus 3 anos. E não esquecerei, para saber como tratar pessoas jovens. 
Isso tudo sobre adultos foi só pra você ter uma ideia da origem do meu problema. Como estava dizendo, eu fui ficando insegura. Teve um tempo em que eu me sentia indigna de ser feminista, até que dei um basta nesse absurdo, me empoderei, afinal eu sou mulher, e o feminismo é para mulheres, não existe isso de uma mulher ser indigna do feminismo. Me assumi feminista para um grupo de amigas em um jogo de verdade ou consequência numa festa de São João. Depois de aproximadamente um mês, eu contei para a minha mãe, na noite do meu aniversário de 14 anos. Nesse dia eu prometi a mim mesma que eu seria um ser político publicamente até meu próximo aniversário. 
Meu aniversário é este mês, eu não sei o que fazer. Lola, o meu problema é que tenho vergonha de me dizer socialista, e a verdade é que nem sei por quê. Eu sou bissexual e não é segredo, eu não me assumi, porque isso nunca foi uma grande coisa para mim, afinal eu não escolhi, minha mãe sabe, minhas amigas sabem e quem perguntar saberá. Mas ser de esquerda foi uma escolha. E eu tenho medo de ser julgada, medo de não ser levada a sério.
Mas eu peço livros esquerdosos para minha mãe, um dia ela disse que tinha medo que eu virasse guerrilheira, eu morri de rir. Nas últimas eleições eu estava andando na rua e um candidato a deputado federal pelo PSOL estava distribuindo panfletos. Eu e meu pai fomos falar com ele, conversamos por uns oito minutos e ele disse que eu ia me tornar esquerdista e indiretamente me chamou de militante, foi o dia mais feliz da vida. 
Luciana Genro em 1994, aos 23 anos,
no seu primeiro mandato como
deputada
Ele mesmo disse que começou a militar com 15 anos, eu queria saber como essa gente faz, Luciana Genro diz que começou com 14. Depois, como quem não quer nada, perguntei ao meu pai o que ele achou do tal ter dito que eu serei esquerdista. Ao que ele disse que gostou, mas ainda não tem como saber, porque eu ainda tenho muito tempo pra decidir. Eu tenho medo de virar reaça, sei lá, dizem que todo mundo é de esquerda quando é jovem, com o tempo vai esquecendo. Alguns são bichonosos (como eu digo esquerdista na minha linguagem de códigos pra falar de política com as amigas) até  o fim da vida. Espero que eu seja e um dia o mundo saiba. 
Então, Lola, muito obrigada por dedicar o seu tempo lendo isso, eu só quero um conselho, como eu faço para ser publicamente de esquerda?
Bem assim...
Minha resposta: Pessoas queridas, a G. me fez esta pergunta faz um tempão. Eu deixei agendado aqui mas nunca respondi a essa fofa. (Adorei o relato dela, é tão jovem, tão espontâneo, tão entusiasmado). E agora estou de férias. E aí, vocês podem responder pra ela? P.S.: Trolls, morram. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

GUEST POST: O PESSOAL ACHA QUE MULHER FEMINISTA E LIVRE É PROMÍSCUA

A S. me enviou este email:

Meu contato com o conteúdo feminista propriamente dito é muito recente, estou aprendendo bastante com as tuas publicações e das leitorxs. Já li até tese de mestrado sobre feminismos...
Estou hoje com 36 anos, e desde criança nunca fui muito adepta do comportamento de princesa. Nasci em uma família pobre, meus pais sempre foram muito trabalhadores, pai de origem alemã e mãe de origem polaco-brasileira. Meu pai é um homem de visão ampliada, acho que me ensinou muito sobre observar o mundo. Minha mãe é preconceituosa, autoritária. Mas acho que ela mesma não sabe disso. A ignorância impera em comunidades do interior onde a maior fonte de informação é a televisão.
Tenho um irmão mais novo, e da família materna, com quem tivemos mais contato sempre, todos os primos eram meninos. Então eu cresci em meio aos homens. Mesmo que tivesse amigas meninas, sempre preferi as brincadeiras de meninos: andar de bicicleta loucamente, brincar no barro com carrinhos, construir cabana nas pilhas de lenha, correr de pés descalços descabelada. Ainda que tentassem (tias malditas) impor em mim o comportamento de princesa, eu dava um jeito de frustrá-las em alto e bom tom.
Na adolescência as coisas ficaram pior, porque as cobranças começavam a vir de todos os lados, até de gente que eu mal conhecia: “Podia arrumar melhor esse cabelo, né?”, “Para de usar esses moletons de homem”, “Com um corpo lindo desses, fica se escondendo nessas roupas por quê?”, “Que horror essas unhas, tem homem que cuida melhor”. Na cabeça de uma adolescente isso começa a causar confusão, então entrei “nos trilhos”. Comecei a malhar, fiz dieta, estava sempre com as unhas pintadas, usava salto alto.
Encontrei um namorado, com quem mantive relações por quase dois anos, foi meu primeiro namoro com sexo. Havia namorado um cara antes, mas nunca chegamos a transar. Esse namoro foi um aprendizado enorme, com muito sofrimento, óbvio. Depois tive mais 1, 2, 3 namoros que duraram 9, 7, e 48 meses. E decidi que queria “chutar o pau da barraca”. Com 22 anos arrumei minhas malas e fui morar em outra cidade. Sozinha. Com um currículo de experiência e diploma nas mãos me lancei ao novo, à curiosidade, ao desrespeito pelos limites impostos.
Minha mãe sempre foi muito problemática, hoje a vejo como uma psicopata ignorante, não posso culpá-la por isso. Acabei me afastando por completo da família, pois meu irmão colabora com o machismo. Minha mãe sempre falou mal de mim, desconfio que faça isso pra se “justificar” aos outros por eu ser tão livre. Tanto que ela própria não suporta a ideia de ser minha mãe. Pra mim não tem problema, lamento por eles.
Nessa mudança, trabalhei em diversas áreas. Sou turismóloga, assistente administrativa, corretora de imóveis, acadêmica e pesquisadora. Aluguei uma cabana que mal trancava a porta pra morar no início e lá fiquei por dois anos, pagando um aluguel bem baratinho. Nesse período eu fui guia de turismo, vendedora em loja de shopping, lavava louça em restaurantes pra fazer dinheiro extra e até dei banho em cachorros numa pet shop. Nunca dependi de homem algum, não consigo.
Uma vez eu pensei que
era uma vadia, aí notei
que estava agindo
como homem
Nesses anos iniciais desbravando terras desconhecidas, conheci muitos caras com quem tive encontros casuais: bom papo, gente boa, um carinho, uma amizade e sexo. Sempre conheci os caras com quem tive alguma relação e só as tive porque eu mesma quis. Lembro do nome de todos eles e se pesquisar em redes sociais, encontro-os, todos. Nunca contei, mas desconfio que passem de 50 caras até hoje.
Com o tempo aprendi que sexo nem sempre é bom. Que é preciso muita intimidade e desejo de ambas as partes pra ser bom demais. Que sexo só pelo sexo não tem graça nenhuma e que um orgasmo sozinha pode ser muito melhor do que com um homem qualquer.
Alguns anos depois encontrei outro namorado. O céu na terra. Tudo que sempre sonhei ali naquela pessoa... até conhecê-lo melhor e descobrir que ele era só mais um homem mentiroso, mulherengo e machista. Esse namoro acabou em 2010, quando eu estava com 30 anos. Depois disso mergulhei no trabalho e voltei a estudar. Entrei na faculdade para mais um curso e acho que foi uma das melhores coisas que já fiz na vida. Voltar aos estudos com 30 foi um salto gigantesco.
Nunca quis ter filhos, portanto o fato de ser sozinha e estar solteira não me aflige. Eu realmente tenho passado a maior parte da minha vida lendo. Não gosto de sair em bares e baladas, não uso redes sociais (fiz o Twitter pra acompanhar política), tive uns problemas pessoais e me afastei dos amigxs recentemente e vivo praticamente isolada da sociedade. 
Sua ignorância é mais
escandalosa que a minha
promiscuidade
Então, não é porque a gente é feminista, “liberal”, descolada ou sei lá o quê no imaginário das pessoas adversas, que fica por aí dando pra todos e qualquer um. Ano passado me encontrei (sem sexo) com um amigo com quem já tinha tido uns encontros celebrados com sexo, e na conversa que tivemos pude perceber que ele também achava que eu transava a rodo com quem quisesse. Não podia imaginar a criatura que naquele momento, desde o encontro que havíamos tido há dois anos, no feriado de carnaval de 2013, eu ainda não tinha transado com outro cara...
Ele ficou surpreso com algumas coisas que contei, e contei porque queria entender os motivos de ele pensar assim a respeito do meu comportamento (ou de toda e qualquer feminista). Não consigo querer dar “uma trepada” com qualquer homem que seja se for só pelo sexo. 
Ser feminista não é sinônimo de ser promíscua. Ser feminista está mais para se entender como mulher, como um corpo autônomo, independente. Para se respeitar a si própria.
As pessoas que nos julgam acham que não temos sentimentos, que não nos apaixonamos... 
No início do ano passado encontrei com um cara que conheci na universidade em 2011, tivemos 2 ou 3 encontros de final de semana e ele foi fazer um intercâmbio no Canadá. Não fico desesperada, fico esperançosa para que tenhamos mais encontros. Tem sido muito raro encontrar um homem que encante, que gere desejo de aproximação.
Acho que a maioria das feministas, menos do que sexo a rodo, quer mesmo é encontrar homens inteligentes, gentis, companheiros e carinhosos. Se a sociedade não entende isso e impõe o machismo, deve ser porque tá faltando mulher submissa ou porque tá sobrando homem machista.
É difícil lidar com alguns julgamentos quando as pessoas não falam diretamente com você. Não tenho vontade alguma de procurar um namorado, parece uma perda de tempo enorme, se comparo ao que consigo realizar investindo esse tempo em estudos. O crescimento pessoal é infinitamente maior quando saímos da hipnose social de que “mulher precisa casar e ter filhos”...
Espero que a sociedade entenda essa necessidade de compreensão e empatia. E que é fomentada por julgamentos e difamações avessas à realidade dos fatos. E não só com as feministas.
Por mais diálogos sinceros e menos julgamentos preconceituosos.

terça-feira, 26 de julho de 2016

O QUE INCOMODA VCS NÃO É A NUDEZ PÚBLICA

Numa sociedade em que mulheres são objetificadas, o que choca é sermos donas dos nossos corpos

Titia deixou um comentário lacrador no post sobre performance arte.

Mulher que fica pelada sem ser como objeto pra macho punhetar tá errada, é obscena, é louca, protejam as crianças desse horror! (embora no caminho pra performance tenha passado por um outdoor da Playboy com uma mulher pelada e nem aí pras criancinhas).
Pessoas reclamando de nudez pública, por quantos outdoors da Playboy, adesivos de carro pornográficos, revistas eróticas expostas na banca de revista, cartazes com peitos siliconados quase pulando pra fora da blusa vocês passaram sem nem piscar? Eu lembro que quando eu era criança, havia propagandas de boates de striptease com mulher pelada pra todo lado e ninguém corria pra fechar meus olhos e me proteger do horror. 
Uma marca sei lá de quê botou nos outdoors a metade inferior do corpo de uma mulher nua cobrindo a genitália com as mãos. Uma marca de biquíni fez um comercial literalmente com gente pelada. Outra vez botou no outdoor a bunda de uma travesti e, que engraçado, ninguém ligou, ninguém quis proteger as crianças disso. Sem contar os catálogos de lingerie com beldades enfiadas em lingeries transparentes. Aliás, toda essa publicidade softcore porn nunca causou tanto mimimi quanto a performance dessa moça que se depilou em público.
Artista nua performando: escândalo
Ah, e não esqueçamos as clássicas propagadas de cerveja! Loiras bundudas em posições claramente sexuais que as reduzem ao objeto de um punheteiro babão, mas isso também não é problema. Opa, comercial em que os sujeitos ficam invisíveis, passam a mão nas mulheres em público, invadem o vestiário e tiram a roupa delas à força? Problema nenhum! Problema é uma artista performática tirar a roupa e ser depilada na frente da porra do museu de arte contemporânea onde já ocorreram outras performances que envolviam nudez.
Mulheres protestando numa marcha
das vadias: incômodo
O que incomoda vocês não é a nudez pública, mas a nudez que não objetifica. Mulheres objetos nuas, na cabeça de vocês, são inofensivas e não fazem mal às crianças; mas a nudez da mulher como sujeito, essa sim os apavora e traumatiza as crianças. E eu tenho que perguntar a quem achou que a performance não era adequada pras crianças, por que não as levou pra outro lado do museu onde elas simplesmente NÃO IRIAM VER a performance? Quer dizer, se tem uma montanha no meio do caminho, vamos removê-la do lugar com as mãos ao invés de contorná-la? Pra que fazer do jeito simples quando se pode complicar, né?
Quanto ao mimimi de quem teve nojinho da depilação, que novidade! Revistas femininas nos anos 90 já diziam que você deve estar sempre impecável pro seu ómi, mas jamais deve deixa-lo ver como você fica bonita. Nada de traumatizar o bonitinho depilando as pernas, escovando os dentes, fazendo escova no cabelo, botando cremes no rosto às vistas dele. Hominhos devem viver no mundo de fantasia de que sua mulher não é humana sem ser perturbado. 
Não é com esse backlash [retrocesso, ataque] inútil que estamos vivendo hoje que os machochos desse país iriam encarar um banho de realidade como gente grande, né? Fodam-se eles, pois. Tá na hora das criancinhas barbadas do Brasil crescerem e virarem gente.