sábado, 28 de maio de 2016

SOBRE JOHNNY DEPP E OUTRAS ATROCIDADES

Pessoas queridas, estou viajando, na praia, e esta é a primeira vez em quase 48 horas que acesso a internet. Não tenho tempo para escrever nada, mas queria deixar vocês com algumas notas desconectadas.
Em primeiro lugar, um mentecapto qualquer descobriu de quem foi a culpa do estupro coletivo no Rio. Foi das feministas! Para provar, ele põe no seu texto um trecho fora do contexto de um guest post publicado aqui em 2013. Sabe, guest post? Que não foi sequer escrito por mim, mas por alguma convidada, como fica claro no começo de todo guest post?
Segundo: ressuscitaram um tuíte típico do Danilo Gentili. Este aqui:

O reaça disfarçado de humorista nunca perdeu a chance de ser misógino, racista, homofóbico, tudo de ruim. Certamente esta continua sendo a opinião do "comediante" sobre fazer sexo com alguém que não tem como consentir. Ah, e nome disso é estupro.
Terceiro, referente à imagem que abre o post. Johnny Depp está sendo acusado de espancar a esposa, agora ex, a atriz Amber Heard. 
A Fabiana deixou um comentário ótimo: "Sobre o Johnny Depp: podem observar a quantidade enorme dos comentários no mundo todo dizendo que 'ele é inocente até que se prove o contrário', mas apressando-se rapidamente em dizer que a Amber Heard 'se maquiou' e é interesseira (gold digger). Vejam a negação em ver o ator como marido abusador, e a pressa para classificar a atriz como 'mentirosa e interesseira'. Uma mulher é espancada e não denuncia, a culpa é dela. Se denuncia, é mentirosa, caluniadora, interesseira, vadia, enfim, N adjetivos negativos vindo dos hipócritas".
Eu volto amanhã. Mas que não dá vontade nenhuma de voltar pra este mundo, isso não dá mesmo...

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DEZ FORMAS COMO O PRIVILÉGIO MASCULINO APARECE NA IGREJA

Pastores e membros

Faz pouco tempo publiquei um excelente guest post de uma leitora que é cristã e feminista, e não vê conflito algum nisso. 
Quando fui ilustrar o post, descobri que a teologia feminista não tem nada de novo. Muitas mulheres religiosas são feministas e combatem o machismo dentro de suas igrejas. Encontrei este belo texto da cristã (acho que batista) Gail Wallace e pedi para a maravilhosa Elis traduzi-lo. Sei que o texto está longe da realidade da maior parte dos leitorxs aqui do blog, mas acho que vale a pena mostrar que existem pessoas que discutem gênero dentro das igrejas.

Realize seus sonhos, diz mãe ao filho.
Realizes nossos sonhos, diz pai à
filha
“Você é um homem branco americano com formação superior. O mundo está à sua disposição -- nunca se esqueça disso!”
Andei pensando muito no privilégio masculino ultimamente. Bem, não só ultimamente. Eu ouvi esse diálogo em um Starbucks em Washington, D.C. há mais de um ano e ele ainda me persegue. O dicionário Oxford define privilégio como “um direito, vantagem ou imunidade especial concedido ou disponibilizado apenas para uma pessoa ou grupo”. Falando de forma simples, privilégio tem a ver com como os grupos na sociedade acomodam e tratam você.
"Qual o problema?" pergunta o homem.
"É a mesma distância!"
Acredito que muitos cristãos estão se conscientizando mais quanto aos privilégios raciais e de classe, mas não vejo o mesmo nível de conscientização com relação ao privilégio masculino.
Nos últimos meses, tive muitas conversas com amigos que não concordam que eles são “privilegiados” em suas comunidades de fé e que as mulheres, como resultado, estão em desvantagem. Eu vinha orando e refletindo profundamente sobre como superar esse impasse quando me deparei com a Lista de identificação do privilégio masculino. Há muitas dessas listas por aí, mas essa tinha muitos exemplos que eu acredito que se aplicam também ao contexto das igrejas. Eu reescrevi alguns através do meu ponto de vista como uma mulher na igreja evangélica conservadora.
1. O privilégio masculino é refletido no momento em que um homem se pergunta por que as pessoas ainda discutem gênero.
E é refletido ainda mais se ele se sentir ofendido ou impaciente quando outra pessoa chamar atenção para o privilégio e questioná-lo. “Devemos olhar além do gênero” é uma frase dita frequentemente por pessoas para quem o gênero não é uma questão ou uma negociação diária.
Privilégio masculino não existe
2. Privilégio masculino significa nunca ter sua inteligência ou suas qualificações questionadas por causa do seu gênero.
Provavelmente, as pessoas não irão presumir que você não sabe lidar com dinheiro, que você é enganado com mais facilidade ou que sua capacidade de tomar decisões importantes depende do período do mês,
3. Se quiser se candidatar a uma posição na equipe pastoral, você pode ter certeza de que seu gênero não será um problema.
Na realidade, a menos que se trate de um ministério voltado para crianças ou mulheres, as circunstâncias estão a seu favor. Quanto mais prestigiado o cargo (pense em algo como "pastor presidente"), mais as chances estão a seu favor. A decisão de contratá-lo não será influenciada por pressuposições sobre você ter ou não filhos pequenos em casa ou sobre você poder querer começar uma família em breve.
4. Se você fizer o mesmo trabalho que uma mulher, provavelmente as pessoas vão achar que você fez um trabalho melhor mesmo que os resultados tenham sido iguais.
E se fizer um sermão de domingo, você pode ter certeza de que todas as pessoas do seu gênero não passarão por um julgamento (e você não precisará se preocupar quanto a onde colocar o equipamento de microfone ou qual mensagem suas roupas passam).
Todo mundo aqui? Ok, vamos votar!
5. Os grupos de dirigentes da sua igreja e sua denominação serão compostos em sua maioria por pessoas do seu gênero.
As chances são de 10:1 de que o pastor presidente, pastor auxiliar e evangelista também sejam homens. Sempre que participar de um culto, você verá pessoas de seu próprio gênero representadas amplamente à frente.
6. Como homem, é mais provável que as pessoas lhe confiem responsabilidades, ainda que você seja novo na igreja.
Provavelmente, pedirão sua opinião sobre questões importantes da igreja. As pessoas vão ouvir o que você tem a dizer e sua opinião será levada a sério. (Se você for casado, é mais provável que peçam que sua esposa participe dos ministérios para crianças ou traga lanches.)
7. Quando participar de reuniões na igreja, você pode ser emotivo ou assertivo sem ser visto de forma negativa.
É mais provável que os homens do grupo façam contato visual com você e, em média, você não será interrompido por mulheres que participam da reunião tanto quanto as mulheres são interrompidas pelos homens. Provavelmente, você não se preocupará se precisar ir até seu carro no estacionamento da igreja sozinho tarde da noite.
8. Personagens bíblicos masculinos serão retratados como personagens principais e exemplos positivos 90% das vezes no currículo educacional.
Personagens masculinos terão destaque na maioria das aulas dos currículos das crianças, dos currículos dos grupos de jovens, no sermão de domingo, nos pequenos grupos de estudo... vocês entenderam.
C. S. Lewis: de todos os homens
maus, homens maus religiosos
são os piores
9. Você pode ter certeza de que a linguagem usada em todos os aspectos da adoração coletiva o incluirão de forma clara.
Isso vale para qualquer parte das escrituras que for lida (independentemente da tradução usada), das citações mencionadas e das canções de adoração escolhidas. Não será esperado que você traduza ou interprete quando os pronomes de gênero se aplicam ou não a você.
A representação errada de Deus
como masculino têm ferido
mulheres em todas as áreas de
suas vidas
10. Deus será representado como homem e descrito em termos masculinos 90% das vezes.
Eu sei que há situações na vida em que os homens também ficam em desvantagem, e sei que o fato de o privilégio masculino existir não significa que a vida dos homens é livre de problemas. Mas a realidade é que, quando um grupo é privilegiado em detrimento do outro, o outro grupo sofre e nós não estamos vivendo completamente a mensagem do evangelho. 
Embora seja um incentivo ver cada vez mais homens defendendo a inclusão total das mulheres na igreja, ainda temos um longo caminho pela frente. Eu acredito que, na maior parte, os homens têm boas intenções com relação a suas irmãs em Cristo.
Mas, irmãos, até que vocês reconheçam seus privilégios masculinos e o impacto que ele tem sobre nós, é difícil ter um diálogo produtivo sobre o que podemos fazer para que o Reino aqui na terra seja mais parecido com o Reino dos Céus.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

INDIGNAÇÃO SELETIVA É O QUE HOMENS SENTEM EM RELAÇÃO A ESTUPRO

Ontem fiquei toda a manhã na faculdade e só quando voltei, perto do meio dia, vi que tinha recebido várias mensagens desesperadas pedindo para denunciar um vídeo. 
Nem sabia do que se tratava e o vídeo já havia sumido (óbvio que nada some na internet; ele continua circulando livremente). Mas logo vi que a palavra "estupro" estava nos Trending Topics do Twitter, e pouco a pouco fui me informando. Uma menina de 17 anos no Rio foi drogada e estuprada, segundo um dos estupradores que filmou, baixou e divulgou o vídeo, por "mais de 30". No vídeo, um deles filma a sua cara (e a da menina, claro), e mostra a garota nua, de costas, sangrando. Rindo, ele faz piada com o estado físico dela.
 
Eu vi o vídeo horas depois, num chan misógino em que, óbvio ululante, homens culpam a vítima. E preferia não ter visto. Sabe quando você se pega chorando e balançando a cabeça para tentar esquecer? Pena que a vítima não possa fazer isso. É terrível imaginar como ela deve estar se sentindo.

Como sempre acontece com vídeos e posts que viralizam, pessoas bem intencionadas, que queriam (e querem) denunciar o caso, ajudaram a divulgar o vídeo. 
Gente, é o que eu vivo dizendo: nunca divulguem, apenas denunciem. Podem denunciar à Polícia Federal, ao Ministério Público, à Safernet (infelizmente, um importante canal de denúncias, o Humaniza Redes, foi desativado pelo presidente golpista já no primeiro dia de seu governo). Podem se indignar nas redes sociais, mas sem linkar pro que vocês querem denunciar. Senão, estamos sendo cúmplices. 
Depois de mais de 800 denúncias recebidas, o Ministério Público pediu para que agora só sejam enviadas informações sobre o caso (como identificação dos envolvidos, endereços, novas provas do que aconteceu). Pode também ligar para o Disque-Denúncia: (21) 2253-1177, ou enviar email para o delegado da Polícia Civil responsável pelo caso: alessandrothiers@pcivil.rj.gov.br
Mas como fazer com que o vídeo, que está circulando na net, desapareça? Isso é bem difícil. Recomendo denunciar a cada canal (lembrando: sem divulgar o link). Se você viu algum perfil no Twitter divulgando o vídeo, denuncie ao Tw. Se viu no FB, denuncie ao FB. Se viu no YouTube, denuncie ao YT. Por aí vai. 
A menina de 17 anos, que estava desaparecida há dias, foi encontrada num bairro do Rio, Praça Seca, por um agente comunitário que havia visto o vídeo. Ela está agora na casa da família e fez os exames de corpo de delito. Já prestou depoimento à polícia, que já identificou dois dos envolvidos (faltam só 28 agora?).
Quase sem procurar, até porque não tive tempo, me deparei com inúmeros exemplos de misoginia, como o que coloquei para abrir o post, um tuíte de um cara com quase 50 mil seguidores no Twitter. Ele se revolta não com estupros, mas com feministas ("gordas", segundo ele) que combatem estupro.

Não seria bacana se esses homens se indignassem tanto com a violência contra as mulheres quanto se indignam com generalizações sobre homens?
Não, eles estão ocupados demais combatendo feminismo. Não têm tempo para combater problemas menores como estupro, violência doméstica, assédio sexual, pornografia infantil etc. Todo o seu tempo de vida útil é gasto atacando feministas e demais ativistas sociais. Porque nós somos a grande praga do mundo. Não os crimes que combatemos.
Vi também que nós feministas falamos tanto sobre estupro porque queremos ser estupradas (mas não merecemos!), que feministas não ligam pra estupro, que as feministas só começaram a falar de estupro no século 21 (de onde esses caras tiram essas coisas?!), e que -- la crème de la crème -- feministas não fazem nada contra estupro, quem faz é o Bolsonaro. 
Pois é, depois de sete mandatos como deputado federal sem fazer absolutamente nada, Bolso decidiu lançar um projeto que estipula castração química para estupradores. Castração é considerada uma violação a direitos humanos e não resolve nada. Na falta de um pênis que funcione, estupradores continuarão estuprando usando objetos (o que já é uma prática muito comum atualmente, mesmo entre homens não castrados).

Combater a misoginia, que é o que causa estupros, os reaças não querem. São contra discutir gênero nas escolas, pois consideram isso doutrinação (Alexandre Frota foi ontem recebido pelo ministro da educação para levar propostas da Escola Sem Partido, que proíbe que educadorxs deem sua opinião em sala de aula). 
Temos que ouvir que um misógino de marca maior como Bolsonaro faz muito pelas mulheres! 
Bolso, que defende torturador estuprador de mulheres; Bolso, que concorda com empresários pagarem menos às mulheres para compensar gastos com licença maternidade; Bolso, que culpa as mulheres que trabalham fora pelo aumento de homossexuais; Bolso, que edita vídeos para difamar professora universitária; Bolso, que se indigna quando o Enem cita Simone de Beauvoir; Bolso, que grita para uma deputada que ela "não merece" ser estuprada; 
Bolso, que tem uma legião de misóginos neonazistas que fazem de atacar mulheres sua missão na vida -- é, esse é o sujeito que faz mais pelas mulheres do que todas as feministas juntas na história do feminismo!
É curioso: anteontem, reaças diziam que um homem -- o heroico cunhado de Ana Hickmann -- representava toda a masculinidade. Agora temos trinta homens que estupraram uma menina, e nenhum deles foi capaz de parar aquilo, de se revoltar, de gritar que isso não estava certo. Eles não representam a masculinidade? Não são homens?
Tipo este comentário (clique para
ampliar) deixado hoje no blog:
representativo da masculinidade?
E os milhares de homens que divulgaram o vídeo para zombar da vítima e para se masturbar com ele? Nada a ver com masculinidade? E as centenas de comentários justificando o estupro corretivo, alegando que a garota era mãe solteira e usuária de drogas? Nenhuma conexão com a masculinidade? (lembrando que em toda e qualquer notícia sobre estupro aparecem inúmeros caras para justificar o estupro. Isso porque cultura de estupro é invenção de feminista).

Pra eles, estuprador não é homem. É verme, monstro, doente, demônio, animal... Qualquer coisa menos o óbvio: é homem, p*rra! Dizer que estupradores são homens é bem diferente de dizer que homens são estupradores. 
Mas se você sequer reconhece que estupradores são homens, como vai lutar contra estupro? Se você não identifica as causas de estupro -- se você não sabe que estupros têm infinitamente mais a ver com poder e humilhação do que com sexo, que estupro é um meio de homens se unirem, que é uma prova da masculinidade, que parte do princípio que a vítima não é uma pessoa, mas uma coisa -- você não tem como combater essa verdadeira chaga social.
Mas a verdade é que você não quer combater nada, né? Só feminista mesmo.
O estuprador não é um alienígena que desembarca no nosso planeta e se põe a estuprar. Ele é cria nossa, prata da casa. Ele não foi necessariamente ensinado que estuprar é legal (pelo menos a maior parte não). Mas ele foi ensinado um monte de lições que no fundo dão no mesmo: foi ensinado que homem pode tudo, que homem tem que ser pegador, que mulher é inferior, que mulher gosta de ser estuprada, que mulher sozinha é de todos, que homens precisam insistir e forçar um pouco para fazer sexo, que quando uma mulher diz "não", na verdade ela está dizendo "sim", que essa tava pedindo. O estuprador ouviu (e fez) centenas de piadas de estupro dizendo que estupro é uma ótima oportunidade de sexo pra mulher, que c* de bêbado e, principalmente, de bêbada, não tem dono. É uma vida toda de lições. É isso que chamamos de cultura de estupro.
Você, homem, não quer ser confundido com um estuprador? 
Não entende como uma mulher na rua pode ter medo de você? Ou é realmente contra estupro e quer que eles deixem de existir? Então é hora de parar de combater quem combate estupro. É hora de você assumir sua responsabilidade. É hora de você aceitar que estuprador é homem, sim. Que há todo um modelo de masculinidade que causa, justifica e defende estupro. 
E lembre-se sempre: nós mulheres não queremos ser salvas por homens. Só queremos que vocês parem de nos atacar.
É hora de você fazer a sua parte. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O MACHISMO NÃO SALVOU ANA HICKMANN, O MACHISMO QUASE A MATOU

Ontem o projeto de escritor Rodrigo Constantino falou mais das suas tradicionais besteiras, desta vez sobre como a masculinidade salvou Ana Hickmann. 
Rodrigo, o stalker
Vale ressaltar que essa ideia ridícula de que o cunhado másculo de Ana a salvou não é exceção, mas regra entre reaças. Eles são incapazes de ver que Ana foi salva por um homem de outro homem. O cunhado herói que reagiu ao ataque representa a masculinidade? E por que o stalker com desejo de matar não representa? Se vamos usar o caso para falar de masculinidade, vamos falar de todos os homens envolvidos (incluindo o cabeleireiro de Ana que, segundo o cunhado, salvou a vida de Giovana ao levá-la de táxi pro hospital).
E tem algo muito interessante que está sendo completamente ignorado pela mídia: Giovana, a cunhada de Ana, esposa do herói, assessora da apresentadora, que levou dois tiros (mas felizmente passa bem), também foi uma heroína. 
Giovana e Gustavo: cunhados heróis
de Ana Hickmann
Veja a partir de 8:10 até o décimo minuto a entrevista da apresentadora. Ana diz que o stalker atirou nela duas vezes: "Pelo jeito que o tiro passou do meu lado e pegou na minha cunhada, ela deve ter feito um movimento com o corpo pra me proteger. Eu não consigo imaginar de outro jeito".
Mas todos só falam de Giovana como vítima, não como heroína! Porque o ato de auto-sacrifício de Giovanna não cabe na narrativa da "masculinidade heróica" que adoram contar. 
A advogada e feminista Kamilla Barizon deu uma excelente resposta a Constantino. Conheçam as ótimas páginas da Kamilla! 

O machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou.
O ex-blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino (aquele do vídeo do Dá-Bilhão?! também conhecido por usar t-shirt do Che Guevara com orelhinhas de Mickey Mouse e ainda pelo episódio em que escreve uma carta aberta ao povo americano pedindo votos para Ted Cruz), resolveu comentar o caso Ana Hickmann.
Com toda sua sagacidade, o economista traz: ANA HICKMANN ESTÁ VIVA GRAÇAS ÀS CORAGEM E VIRILIDADE DE UM HOMEM QUE REAGIU como título de seu mais novo texto.
Pois muito que bem, o moçoilo começa o texto falando que raríssimos são os que têm coragem de falar abertamente em masculinidade (não é o caso de Constantino que vira e mexe está por aí perguntando onde estão os machos?), porque, segundo o economista, teriam receio de serem tachados de machistas.
Rodrigo não tem esse receio e passa a defender a macheza, a virilidade, e por que não, a brutalidade, natural desse ser tão iluminado: o homem.
Em um dos melhores momentos do texto ele diz que: Ana Hickmann está aí, literalmente, para provar a importância da masculinidade e da fortaleza que leva até o auto-sacrifício. 
Uma das declarações de Rodrigo
para Ana
Vamos resumir aqui o caso da Ana Hickmann para o leitor(a): a apresentadora tinha um “fã” fanático, obcecado. Rodrigo (não o Constantino, o fã obcecado) a desejava, em suas redes sociais encontramos declarações insanas para a apresentadora, recheadas de mensagens com conteúdos pornográficos. Ele “a amava”, segundo suas mensagens. Bem sabemos que esse louco sentimento de posse que Rodrigo apresentava não é amor porra nenhuma (ao contrário do que diz o irmão do atirador, quem ama não invade o quarto da pessoa amada, armado e gritando desaforos).
Outra declaração de Rodrigo
Em busca da mulher que deveria ser sua, Rodrigo vai atrás da apresentadora em um hotel, entra armado e rende todos os presentes (Ana, a assessora e o cunhado). Armado, o criminoso passa a ofender a apresentadora que não correspondia ao seu "amor". No meio de tudo isso o cunhado, em defesa de Ana, da assessora e em sua defesa (pois acompanhando o caso é evidente que o desfecho seria a morte dos três seguida do suicídio do criminoso), de forma sim, muito corajosa, trava uma luta com “o fã”, consegue tomar a arma e atira nele.
Em resumo: um homem armado tenta assassinar uma mulher que não corresponderia ao seu amor.
Adivinhem vocês, carxs colegas, o objeto da crítica feita por Rodrigo Constantino em seu texto?
A indústria das armas? Não. 
[Nota da Lola pra quem defende armamento: bebês de um a três anos mataram mais pessoas este ano nos EUA do que terroristas. Pela atenção, obrigada].
O sentimento doentio de posse que os homens ainda têm perante as mulheres que lhes são objeto de desejo?
Ana e Giovana
NÃÃÃÃÃO! Rodrigo critica os pacifistas (!) e, claro, óbvio, evidentemente AS FEMINISTAS!
Rodrigo não perde a oportunidade de defender o armamento enquanto, sutilmente, aproveita qualquer deixa para falar das feministas.
Pra fechar o texto com chave de ouro, ele manda: 
contra essas pessoas armadas que querem matar inocentes, nada como um homem igualmente armado ou capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Foi isso que salvou Ana Hickmann. É isso que as feministas tanto atacam e condenam.
Do alto de seu conhecimento sobre a vivencia feminista Rodrigo me traz um insight: claro, sim, é isso que as feministas atacam e condenam -- o cunhado bem intencionado da Ana Hickmann.
As feministas não atacam e condenam a covardia de homens como Rodrigo (o atirador, não o Constantino, se bem que… enfim), as feministas não atacam e condenam a forma como esses homens doentes facilmente têm acesso à posse de armas, as feministas não atacam e condenam a forma como os homens apoiados na cultura patriarcal imaginam possuir as mulheres, as feministas não atacam e condenam homens que diariamente agridem e matam. O que as feministas tanto atacam e condenam são os homens como o cunhado de Ana Hickmann que esboçou uma digna reação de defesa.
Não vamos nem entrar no mérito e sair colando aqui links para mostrar que em diversas situações existia uma mulher igualmente capaz de enfrentar o perigo para defender os demais. Vamos apenas, diferentemente de Rodrigo Constantino, enxergar o óbvio: o machismo não salvou Ana Hickmann, o machismo quase a matou, como mata milhares de mulheres todos os anos.