quinta-feira, 5 de maio de 2016

GUEST POST: TECNOLOGIA, APLICATIVOS E SEXISMO

Luanda, uma comentarista frequente aqui no blog, me enviou este post sobre um novo aplicativo:

Este texto é parte de uma pesquisa maior que venho realizando para um observatório de gênero e trata sobre a parcialidade dos aplicativos que terminam por reproduzir e reforçar a experiência genérica masculina. A análise esta focada no aplicativo de relacionamentos happn, testada durante o mês de abril, que permite disponibilizar breves perfis dos usuários registrados no momento em que estes usuários se cruzam.
O funcionamento do happn está basicamente condicionado ao recurso da geolocalização dos aparelhos celulares, que deve estar habilitada, registrando assim, os perfis das pessoas que “cruzaram” com você na rua. Pode ser literalmente aquele esbarrão eternizado na série Sex and the City, que inaugura a odisseia quase dantesca de Carrie Bradshaw e Mr. Big pelo céu e pelo inferno em Manhattan durante as seis temporadas, que têm lá as suas qualidades, e dois filmes já enfaticamente filmes ruins, mas também é possível registrar usuários que estão a até 500 metros de distância. 
O chamativo é que mesmo em casa, ou ainda, mesmo que o aplicativo não esteja aberto no celular, ou ainda que a geolocalização tenha sido desativada após o processo de registro, o rastreamento é feito, identificando nesses casos vizinhos que fazem uso do mesmo serviço, reduzindo assim uma confortável distancia, ou ainda, um confortável anonimato.
O que se registra é um perfil bem econômico, com foto, um mapa que ilustra a região, há quanto tempo, e quantas vezes se deu o encontro, e também pode conter uma descrição breve do usuário, como este se define. Muitas vezes se recorre a trechos de livros e aforismos de autores famosos. Os outros dados são automaticamente retirados do Facebook. Estes dados são basicamente fotos, nomes, profissão, instituição de ensino e idade.
Ainda que opere sob certo grau de imprevisibilidade, e que o atrativo seja justamente controlar à posteriori a imprevisibilidade do encontro fortuito para que se torne uma possibilidade real de interação, foras não estão previstos no roteiro. O contato em forma de chat é habilitado apenas após o “crush”, ou seja, a correspondência do interesse entre as partes, que se dá quando os dois usuários ativam mutuamente um comando identificado com um coração disponível no perfil do objeto do desejo. Caso apenas uma das partes tenha ativado o comando, a outra parte não será notificada, a menos que também o ative.
Algumas questões já começam a emergir a partir dessa mera descrição do funcionamento do aplicativo, das quais a fundamental é, sem dúvida, relativa à privacidade. Mas neste momento, gostaria de explorar alguns outros pontos relacionados tanto a uma cultura ainda sexista e suas implicações no uso desse tipo de plataforma, quanto a uma questão social, relacionada à forma como nos deslocamos pelas cidades.
Com relação a uma cultura sexista vale destacar que no site que apresenta a ferramenta, toda a iconografia centra-se em mulheres, mais especificamente em supostos perfis de mulheres, com foto, idade e profissão. Previsivelmente são mulheres que estão dentro do padrão de beleza estabelecido: são quatro personagens, dentre as quais apenas uma é asiática, as demais brancas, e todas magras. O cenário aludido é curiosamente o skyline nova-iorquino: uma referência à cidade de Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte?
Se por um lado a ferramenta permite ao “caminhar por uma rua, café, no trabalho ou numa festa, descobrir as pessoas que cruzaram seu caminho, pessoas pelas quais você se interessou e gostaria de encontrar novamente”, por outro lado, não está muito claro no site de apresentação a quem esta mensagem está dirigida: as imagens visíveis são de perfis femininos dentro dos padrões aparentemente registrados por um usuário masculino. Há ainda uma imagem que reproduz o chat; a primeira mensagem é da mulher, dando a entender que esta iniciou a interação. A resposta do interlocutor, no entanto, não é identificada com uma foto.
Vale lembrar ainda que o aplicativo surgiu impondo uma diferença crucial: os recursos são gratuitos para as mulheres, como charme, mais ou menos como uma chamada de atenção para o seu perfil, e pagos para os homens. Essa ideia faz pensar nas festas e clubes noturnos que “liberam” a entrada ou bebidas para mulheres, para assim facilitar o flerte, como se este não pudesse ser um fator que motivaria mulheres a pagar ou em última instância, um jogo ao qual não seria possível participar de forma consciente e ativa. Parte-se do pressuposto que mulheres podem mostrar disponibilidade, mas jamais manifestar desejo.
Outro ponto que vale destaque é a não disponibilização de mais informações além das acima mencionadas para que se possa ponderar melhor o interesse em algum usuário. Assim, se poderia inferir que o critério principal é a aparência física, critério pelo qual mulheres são comumente julgadas, seja em situação de flerte ou não.
Podemos questionar que este é um site de relacionamento, em que se entra totalmente consciente do modus operandi centrado na exposição quase como um catálogo de corpos atraentes que dançam acompanhados de um bom drink, que curtem a praia, ou passeiam pela Torre Eiffel. Mas esta proposição ignora as diferenças entre as formas de interação de homens e mulheres, condicionadas em grande parte por imperativos genéricos. 
Assim, uma vez que a usuária sinaliza o interesse em algum usuário, mediante os critérios disponíveis, um acordo tácito se estabelece, no qual o interesse muitas vezes não pode ser facilmente recuado. Esta é uma questão candente na experiência feminina: ao emitir determinados sinais se indica estar não só ciente, como acorde aos “temos e condições do contrato”. Dessa forma, pequenas decepções que são plausíveis após um contato mais profundo não são consideradas, levando muitas vezes a situações desagradáveis em que mulheres são pressionadas ou até mesmo coagidas, tendo suas vontades minimizadas, quando não ignoradas.
Como indica um artigo da revista Quartz, a suposta imparcialidade dos aparatos tecnológicos tem sido cada vez mais questionada. Em março deste ano o Jornal da Associação Americana de Medicina publicou um estudo sobre como assistentes tecnológicos tais como Siri, Google Now, e S Voice respondem a problemas de saúde relatados pelos usuários. Os assistentes reconhecem descrições de problemas de saúde, como ataque cardíaco, sugerindo assim o que fazer para encontrar socorro imediato, mas não reconhecem descrições envolvendo abuso sexual ou violência doméstica. Aqui há dois aspectos dignos de nota: um é a voz feminina desses assistentes. A outra é a rejeição social ao entendimento de problemas como violência sexual e doméstica como problemas de saúde.
No mais, o exemplo dos vídeos games é notório: durante um experimento, uma adolescente de 12 anos descobriu que 98% dos jogos disponível num aplicativo do Iphone vem com personagens masculinos já construídos.  Em 90% dos jogos a escolha desses personagens é gratuita, enquanto 85% cobram pela habilidade de selecionar um personagem feminino. O artigo conclui que a internet, assim como grande parte da tecnologia, é feita por e reconhece principalmente a experiência do homem heterossexual cisgênero.
Mas há ainda outro aspecto a respeito do aplicativo happn. Ao rastrear pessoas que cruzam o caminho do usuário em até 500 metros, reafirma uma espécie de endogamia social; afinal os espaços em que as pessoas circulam pela cidade são cada vez mais percorridos a partir de uma prática e uma experiência de classe social, que se dá em bairros onde a possibilidade de se encontrar com pessoas pertencentes à mesma classe social é bastante significativa.
Ao parecer, ainda que funcione como uma importantíssima ferramenta de contra narrativa, a narrativa que escrevemos com a linguagem dos aplicativos ainda é extremamente convencional, o que significa dizer, reprodutora de mecanismos sexistas vigentes na nossa experiência social.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"MÃE NÃO ACEITA MINHA AMIGA ATEIA"

A L. me enviou este email:

"Acabei de passar por uma situação chata e senti que deveria compartilhar com você. Estava conversando com a minha mãe e acabei contando que uma amiga que conheço desde a segunda série (agora estou no ensino médio) é ateia. Contei isso com naturalidade, afinal, ser ateu é normal. Mas pra minha mãe aparentemente não é, e ela começou uma discussão. Disse tantas coisas horríveis, Lola! Não acreditei que era minha mãe falando aquelas coisas. Disse que não queria mais ver minha amiga aqui em casa, que ela era do demônio, era pior que merda e que devia ter sido abortada. Terrível!
Minha amiga ateia nunca me fez chorar, mas minha mãe me fez chorar muito. Ela disse também que eu estava indo no mesmo caminho, que estava perdendo o primordial. Poxa vida, sou católica e amo minha religião, mas tenho senso crítico. E meu senso crítico se desenvolveu bastante quando conheci o feminismo. Minha mãe não pareceu a minha mãe, entende? Ultimamente ela estava abrindo a cabeça, aceitando gays e transexuais. E aí do nada ela solta tantas violências pela boca.
E é por esse tipo de violência que tantas pessoas sofrem e morrem todos os dias. Sabe, eu me identifico com certos elementos da assexualidade, mas agora morro de medo de contar pra minha mãe sobre isso. Se ela descobrir que não quero fazer sexo e ter filhos, vai dizer que sou do demônio também, já que ter filhos é aparentemente uma obrigação!
Ai Lola, tô muito triste. Mas me sinto acolhida por você e por todas as pessoas maravilhosas que lutam pelo nosso direito de expressão. Você é totalmente incrível, leio seu blog todos os dias. Obrigada pela atenção!"

Minha resposta: L., querida, vivemos num país religioso e, como podemos ver pelo nosso Congresso, nada laico. E parece que essa religiosidade gera muita intolerância. Uma pesquisa de 2007 revelou que apenas 13% dos entrevistados votaria num ateu para presidente. Outra, de 2008, apontou que os ateus estão em primeiro lugar na aversão dos entrevistados. 17% disseram sentir ódio ou repulsa de ateus; 25%, antipatia. Dá um total de 42% de brasileiros que, digamos, "não gosta" de ateus (pra efeito de comparação, 41% disse sentir aversão a usuários de drogas). Sua mãe é uma dessas pessoas.
E o Censo 2010 mostra que 8% dos brasileiros não têm uma religião. Não quer dizer que toda essa gente seja ateia, mas é um indicativo. Claro que é uma minoria, só que não é tão pouca gente assim. E, se fosse, isso não justificaria tamanho preconceito como o demonstrado pela sua mãe.
Animais não têm deuses; eles são mais
espertos que isso
Eu já contei a minha história algumas vezes. Meu pai era ateu; minha mãe, como se dizia antigamente, "católica relaxada" (recentemente ela me surpreendeu ao se assumir ateia). Eu e meus irmãos não fomos batizados nem nada. Mas fomos colocados numa escola católica. Por um breve período, eu sofri influência das freiras e pensei em ser uma também. 
Porém, como sempre fui feminista, essas ideias retrógradas de "deus é pai" (não mãe?), "a mulher veio da costela do homem" (literalmente?), "Eva foi culpada pela expulsão do paraíso e sofrer ao parir será sua punição" (oi? o parto é uma punição?), "só homens podem ser papa" etc se chocavam com o que eu acreditava. Larguei a religião para sempre e nunca senti a menor falta. 
Não sou uma ateia militante. Se alguém me pergunta, óbvio que não vou negar: sou ateia. Não escondo nem saio fazendo propaganda. Mas, pra ser franca, posso contar nos dedos de uma mão as vezes que sofri preconceito por ser ateia. Uma vez foi numa discussão com um vizinho bêbado, em Joinville. Ele encostou o punho fechado no meu rosto e gritou "Sua ateu!" E na escola onde fui coordenadora durante um tempo havia pressão de alguns professores fundamentalistas para que eu fosse tirada da coordenação. Segundo eles, deus não iria abençoar uma escola que tivesse uma ateia no comando.
Lembro de uma amiga com quem eu almocei um dia. Não me recordo sobre o que estávamos conversando, só que ela chegou pra mim e disse: "Quero te contar uma coisa, mas não quero que você pare de gostar de mim", ou algo assim. Eu já estava esperando o pior, e ela disse, envergonhada: "Eu sou ateia". Eu só respondi: "Eu também!" Não sei o que mais me espantou: que ela não soubesse que eu era ateia ou que eu poderia brigar com alguém por sua (falta de) religião. 
Mas enfim, querida, estou fugindo do assunto. Eu sei que é decepcionante descobrir que uma pessoa que a gente ama (sua mãe, no caso) é tão preconceituosa e irracional. Tenha paciência. Assim como sua mãe ficou mais tolerante com gays e trans, talvez (eu sou uma otimista incorrigível!) ela aprenda que ateus são pessoas tão imperfeitas como qualquer outra. 
Talvez, ao conviver um pouco com a sua amiga, sua mãe perceba que ela não é nenhum monstro. E que existem pessoas de deus que não são de deus.
Por enquanto, se eu fosse você, não conversaria com a sua mãe sobre a sua tendência para a assexualidade. Só pra não criar mais atritos desnecessários...

terça-feira, 3 de maio de 2016

A MORTE DE ANA CAROLINA DO PARTO E O DESCASO COM A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

A luta silenciosa e permanente de uma família em busca de justiça, em frente ao Fórum de Ananindeua

A jovem Ana Carolina, 18 anos
Edna Abreu Barreto me enviou notícias sobre um caso terrível ocorrido em Belém em 2012. Ana Carolina, uma mulher negra e pobre da periferia, e sua filha, foram vítimas da violência obstétrica. Ambas morreram, num caso que ainda é bastante desconhecido no Brasil. Agora em abril, o Conselho Regional de Medicina julgou a médica e entendeu que ela teve responsabilidade nas mortes. Mas a pena é apenas censura pública no Diário Oficial!
O processo judicial continua lentamente, e a família teme que essa demora beneficie a médica. Leiam o relato de Edna, professora da UFPA, coordenadora do projeto de extensão para combater a violência obstétrica, e integrante da Parto do Princípio:

A violência obstétrica no Brasil, muito recentemente conhecida e divulgada, tem sido amplamente combatida por movimentos sociais, visto que é uma violência institucional que viola direitos humanos, como mostrou a matéria denominada “na hora de fazer não gritou”. Muito já se conhece, graças à mobilização de mulheres e movimentos de humanização da assistência ao parto e nascimento, sobre os maus tratos aos quais as mulheres são submetidas em toda a gravidez e principalmente no momento de dar à luz.
Todavia, muito pouco se sabe e se fala sobre as mortes maternas produzidas a partir dessa inaceitável violência. O caso de uma mulher que morreu no parto, uma mulher jovem, pobre e moradora de uma periferia de uma cidade da Amazônia, evidencia o nível de naturalidade com a qual a violência obstétrica vem sendo praticada no Brasil, provocando mortes. Esse caso, entre tantos outros semelhantes, precisa ser denunciado e os responsáveis punidos de forma exemplar para que não tenhamos a sensação de impunidade como marca da violência obstétrica.
Zona metropolitana de Belém
Na noite de 24 de dezembro de 2012, uma jovem de 18 anos chamada Ana Carolina, moradora do município de Ananindeua (PA), morreu no parto, junto com sua filha, após um tratamento desastroso e violento que a ela foi dispensado na Clínica Modelo, localizada na Cidade Nova III, região metropolitana de Belém.
A jovem havia feito todo o pré-natal na Unidade de Referência Materno-Infantil e seguia com a gravidez tranquila, obedecendo às orientações recebidas durante as consultas de rotina. 
Na noite em que se iniciaram as contrações, a jovem peregrinou em busca de atendimento, e foi encaminhada para a clínica mais próxima de sua casa. No atendimento feito na clínica, Ana Carolina foi proibida de ter acompanhante, direito garantido por lei federal desde 2005, pois, segundo a médica, ela era maior de idade e só poderia ter alguém a seu lado se pagasse R$ 600,00 para ficar em apartamento, de acordo com relatos dos familiares.
O parto foi cercado de imperícia, imprudência e negligência por parte da profissional que conduzia o processo, que adotou práticas violentas e perigosas, muitas delas já proscritas. Assim, Ana Carolina recebeu ocitocina em momento inadequado para aceleração do trabalho de parto, foi submetida a amniotomia (rutura manual da bolsa das águas), foi vítima de manobra de kristeller (pressão fúndica), o que, entre outras consequências possíveis, pode ter resultado em “hematoma de parede abdominal, útero atônito, feto morto, rotura parcial de fundo uterino, rotura em colo uterino e em fundo de saco vaginal, hematoma de retroperitônio próximo à parede posterior e colo de útero”, como descrito em seu prontuário. 
Ana Carolina sofreu ainda uma episiotomia, que gerou “sangramento vaginal intenso e hipotensão”, e por isso foi transportada -- em um carro particular -- para um hospital de referência, já com a filha morta no ventre.  Neste último hospital, recebeu uma série de cuidados, sendo submetida a uma cesariana para retirada do feto morto, quando foi detectada “atonia uterina e hemorragia”, o que levou à realização de “histerectomia total”.
O atendimento dispensado a Ana Carolina na Clínica Modelo seguiu a rotina violenta da maioria dos partos atendidos nas instituições de saúde brasileiras, como mostrou a pesquisa “Nascer no Brasil” e como comprovam os dados sobre violência obstétrica. Um levantamento nacional da Fundação Perseu Abramo identificou que uma em cada quatro mulheres brasileiras é vítima dessa violência. 
Ana Carolina foi atendida seguindo o ritual macabro da maioria das maternidades brasileiras, tais como: descumprimento da lei de acompanhante, aplicação inadequada de ocitocina para acelerar o trabalho de parto, rompimento artificial da bolsa d’água, manobra de kristeller, episiotomia, posição litotômica, além da imposição de rotinas humilhantes, com xingamentos e expressões do tipo “deixa de moleza senão vai matar sua filha” (segundo revelou o companheiro de Ana Carolina, que foi chamado para convencê-la de que deveria “colaborar”). No atestado de óbito emitido pelo hospital está descrita a causa da morte como: “choque hemorrágico, histerectomia por laceração uterina, cesariana por óbito fetal intrauterino”.
Protesto em frente da CRM de Belém
A família registrou ocorrência na polícia e a morte da jovem e de seu bebê foram amplamente divulgadas pela imprensa local. A polícia concluiu o caso como homicídio culposo e recomendou a abertura de processo na Justiça.
O processo criminal, que já tramita há três anos, corre em segredo de justiça no fórum de Ananindeua, em passos lentos. O processo civil também foi aberto, sendo que este tramita no município de Belém, sem sinais de que será concluído de forma rápida.
O parto como caso de polícia: investi-
gações concluem que houve homicídio
culposo na morte de Ana Carolina
A família de Ana Carolina acompanha o caso e denuncia na imprensa o desprezo pela morte da jovem e da sua bebê, ao mesmo tempo em que se manifesta na frente do fórum de Ananindeua (PA).
Além disso, a família denunciou a médica ao Conselho Regional de Medicina do Pará, onde o processo ético profissional correu em sigilo processual e foi julgado em 12 abril, após três anos de espera. A médica que atendeu Ana Carolina foi considerada responsável pelo desfecho que levou a dois óbitos. 
A pena aplicada pelo CRM, foi: a censura pública da médica no Diário Oficial. Dessa forma, a médica que atendeu Ana Carolina de forma imprudente vai continuar atuando como se nada tivesse acontecido.
O resultado do processo ético profissional do CRM causou indignação na família e em movimentos sociais, dado o corporativismo do Conselho e sua contradição evidente ao reconhecer a imprudência, imperícia e negligência da médica e aplicar uma pena pouco condizente com a responsabilidade pela morte de dois seres humanos. 
Tanto a família de Ana Carolina como a Frente Estadual de Combate à Violência Obstétrica do Pará, composta por entidades de defesa dos direitos da mulher, entre as quais a Ordem dos Advogados do Brasil e a Parto do Princípio -- Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa, divulgaram nota condenando o resultado da análise do caso pelo CRM, além de apontarem a morosidade na conclusão do caso pela justiça.
A morte de Ana Carolina e sua filha explicitam a barbaridade no atendimento hospitalar e a negligência na apuração final do caso, sem aplicação das devidas punições, o que confirma o estado de banalização das morte maternas no Brasil. Não por acaso, o país não cumpriu o objetivo de desenvolvimento do milênio das Nações Unidas no que se refere à redução das mortes maternas, como divulgado ano passado. 
Essa realidade não será alterada enquanto as más praticas de atenção ao parto e nascimento não forem revistas de maneira importante, visto que ainda hoje 92% das mortes maternas poderiam ser evitadas de maneira simples, com a adoção de diretrizes e protocolos condizentes com a Medicina Baseada em Evidências.
Certamente a jovem Ana Carolina e sua filha estão entre as muitas vítimas fatais dos desrespeitos, abusos e maus tratos efetivados na assistência ao parto, mortes essas que foram provocadas por más praticas e que poderiam ter sido evitadas. A não punição efetiva das pessoas responsáveis por essas mortes ou mesmo a demora na conclusão do caso pela justiça só produzem mais negligência e descaso, visto que os perpetradores da violência continuam atendendo mulheres. 
Nesse sentido é possível perguntar: até quando essa violência de gênero será tolerada pela sociedade? Até quando a violência obstétrica continuará matando mulheres saudáveis no parto sem que os responsáveis sejam punidos efetivamente? Até quando os interesses das corporações estarão acima da vida das mulheres?

segunda-feira, 2 de maio de 2016

VAMOS DESPRINCESAR NOSSAS MENINAS

Vi esta notícia esses dias e achei o máximo: tem um curso de "desprincesamento" rolando numa cidade do Chile, Iquiaque. As atividades incluem debates, cantorias e aulas de defesa pessoal. 
O coordenador do curso explica o que deseja para as alunas de 9 a 15 anos: "Buscamos dar a elas ferramentas para que cresçam como meninas livres de preconceitos, empoderadas e com a convicção de que são capazes de mudar o mundo, e que não precisam de um homem do lado para isso". 
Talvez não seja tão diferente de iniciativas como a Girls Rock Camp que, através da música, tenta fazer com que as meninas conheçam o poder que tem dentro delas. 
Essas atividades são diametralmente opostas a aberrações como a "escola de princesas" em Uberlândia, para que meninas de 8 a 12 anos aprendam noções de como as princesas das famílias reais se comportam, com ênfase na aparência (maquiagem, vestidos, cabelos, tiaras), "meiguice", e etiqueta na mesa de jantar. 
Ou seja: um prato cheio para ensinar meninas a aspirarem ser "belas, recatadas e do lar" quando crescerem.  
Ah, mas alguém pode dizer, deixa as meninas! Se elas querem se cobrir de rosa, usar tiara e salto alto e fantasiar que viverão num castelo medieval, que mal tem? Bom, tem uns probleminhas sim. E o importante é analisar como um pensamento tão retrógrado domina a mente de tantas garotinhas.
Já faz uns anos, li um livro delicioso, Cinderella Ate My Daughter (algo como "Cinderela Devorou Minha Filha"), da jornalista americana Peggy Orenstein. Ela narra sua perplexidade ao constatar que, quando sua filha Daisy fez 3 anos, a menina estava tão encantada com a história de Branca de Neve que, numa festa infantil, deitou-se no chão com os olhos fechados esperando que algum menino a beijasse para que ela pudesse despertar do seu sono induzido por uma maçã envenenada. 
Isso teria sido mais romântico se eu
estivesse acordada e vc pensasse que
eu estava viva
Peggy não gostou do que viu, pois não considera Branca de Neve um bom modelo -- sua única virtude, além de estar dentro do padrão de beleza, é ser maníaca por limpeza. Peggy nunca tinha contado essa fábula para sua filha, mas é claro que Daisy a conhecia. Ela conhecia também todas as outras histórias de princesa. E Peggy estava preocupada.
Esqueça princesa, me chame
de presidenta
Nas palavras dela (minha tradução capenga): "O que quero para a minha filha parece simples: que ela cresça saudável, feliz e confiante, com uma noção clara do seu potencial e a oportunidade de realizá-lo. No entanto, ela vive num mundo que diz pra ela, independente d'ela ter três ou trinta e três anos, que a maneira mais certeira de chegar lá é aparentar ser a Cinderela". 
Em seu livro, Peggy explica direitinho que o conceito de "Princesa da Disney" na realidade só começou no ano 2000. Foi nessa época que um ex-executivo da Nike percebeu que as meninas dos EUA usavam aos montes fantasias de princesas Disney, mas elas eram costuradas em casa. Não havia fantasias prontas. Como o capitalismo não estava lucrando em cima desse filão?
Foi uma aposta arriscada: até então, a Disney nunca havia vendido seus produtos sem estarem atrelados ao lançamento de algum filme, e executivos mais antigos consideravam heresia juntar personagens de histórias diferentes. É por isso, diz Peggy, que quando as princesas da Disney aparecem num mesmo item (por exemplo, numa lancheira, capa de caderno ou lençol), elas não fazem contato visual. Cada uma olha prum lado, não pras outras. 
As princesas Disney que mais vendem são Cinderela, Bela Adormecida, Ariel e Belle. Branca de Neve e Jasmine ficam um pouco atrás; Mulan, Pocahontas e Tiana (a primeira princesa Disney negra), muuuuuito atrás (mas uma menina negra fantasiar ser princesa é bem diferente de uma menina branca. Pra quem sempre foi encarregada de executar serviços pesados, caso das negras, imaginar uma vida de luxo e descanso tem outro significado. E tem toda a questão das princesas africanas).
Não sei a popularidade das princesas mais recentes e prafrentex, como Merida e Anna e Elsa, mas posso imaginar que são muito rentáveis (e vale lembrar toda a celeuma causada quando surgiram as bonecas Merida, com cabelos infinitamente menos "rebeldes" que no filme).  
Até 2010, existiam cerca de 26 mil produtos licenciados com as personagens das princesas mais tradicionais (só nos EUA, e só estamos falando de princesas Disney!). Um ano depois do licenciamento, ou seja, em 2001, as vendas já haviam catapultado para 300 milhões de dólares. Em 2009, elas já haviam alcançado a marca dos US$ 4 bilhões. É a maior franquia do planeta para meninas de dois a seis anos. 
O executivo responsável por gerar essa montanha de dinheiro tentou tranquilizar Peggy sobre a influência nefasta, digamos, que se identificar com princesas que esperam ser salvas por um príncipe encantado pode ter sobre meninas tão novas. "Elas superam essa fase", assegurou ele. "Vejo meninas expandindo sua imaginação ao se visualizarem como princesas, e depois elas passam essa fase e acabam se tornando advogadas, médicas, mães, ou princesas, dependendo do caso". 
Peggy conta que pesquisou bastante para escrever o livro, e de fato não encontrou nenhum estudo provando que brincar de princesa arruína a autoestima das meninas ou as demove de outras aspirações. Porém, existem inúmeros estudos de que quanto mais mídia mainstream as meninas consomem, mais importância elas colocam em ser bonitas e sexy. 
E existem mais estudos mostrando que meninas adolescentes e inclusive alunas universitárias que têm ideias convencionais sobre feminilidade são menos ambiciosas e mais sujeitas a ficarem deprimidas. Essas jovens dizem gostar menos de sexo e insistem menos para que seus parceiros usem camisinha. 
Se eu tivesse uma filha, ficaria bem desapontada se ela quisesse brincar de princesa ou respondesse à pergunta "O que você quer ser quando crescer?" com as palavras "top model" ou "miss universo". Mas sei que a influência que uma mãe exerce sobre suas crianças é limitada. É bem provável que a mídia tenha muito mais força em moldar sua menina do que os pais. 
E a influência da mídia em geral é maciça, nós sabemos. Peggy fala sobre como todo mundo imediatamente chamava sua filha de "princesa", da dentista à garçonete hipster. Elas não faziam por mal, claro. Era um elogio. Mas que tipo de mensagem passamos ao querer que nossas meninas sejam princesas? Não chamamos os meninos de "príncipes". 
Não tenho o menor apreço pela monarquia, que rima com hierarquia. Reis e rainhas eu só saúdo no meu tabuleiro de xadrez. E príncipes e princesas são menos que monarcas, são reis e rainha wannabePrincesas são decorativas, cumprem protocolos de delicadeza, não têm poder real. Não vou pedir desculpas por lutar para que meninas sejam muito mais do que isso.