
Mas é ótimo quando a gente vê um doc que reforça a nossa posição. E põe “reforça” nisso. Eu já tinha ouvido por cima das práticas abusivas de inúmeras corporações, e conheço alguns americanos que se recusam a entrar num Wal-Mart. Agora entendo totalmente o porquê. Ontem assisti ao DVD “Wal-Mart: The High Cost of Low Price” (algo como “O Alto Custo do Preço Baixo”), e é de morrer de raiva. Que a Wal-Mart, a maior empresa americana, explora trabalhadores do Terceiro Mundo, isso é lugar-comum (muitas outras fazem isso, como a Nike. Aliás, recomendo outro doc, “The Big One”, do sempre excelente Michael Moore, em que ele tenta convencer o presidente da Nike a abrir uma fábrica na cidade falida de Flint, Michigan, pertinho aqui de Detroit. Depois de grande insistência, consegue apenas que o presidente doe 10 mil dólares pra uma escola de Flint. Outro doc altamente instrutivo é “A Corporação”, que compara o comportamento de uma corporação – que só visa lucro – com o de um serial killer). A Wal-Mart recebe subsídios da China, Índia e Honduras, entre outros países pobres, para instalar lá suas fábricas. Os empregados trabalham em sistema de escravidão, 14 horas por dia pra receber 3 dólares diários, com capatazes que os intimidam pra produzir ainda mais e mais rápido. Como quem trabalha 14 horas diárias não tem tempo pra mais nada, a Wal-Mart consegue que o governo chinês lhe dê prédios, que a empresa aluga pros funcionários, e que são instantaneamente transformados em favelas verticais. Se o funcionário decide não ficar no prédio, ele tem que pagar aluguel de qualquer jeito. Vem descontado da folha de pagamento, sabe?
É por essas e outras que eu me horrorizo quando vejo estados brasileiros promovendo guerrinhas de incentivo fiscal pra alguma fábrica automobilística se instalar numa determinada cidade...
O doc do Robert Greenwald dá uma boa noção da contribuição que isso traz pro lugar. A Wal-Mart recebe do governo americano mais de um bilhão de dólares em subsídios todo ano. E cada cidade literalmente paga para que a Wal-Mart se instale lá. O município oferece o terreno e isenção fiscal por muitos anos. Esse dinheiro que não entra pra cidade em forma de impostos sai de algum fundo educacional. No caso da Wal-Mart, os efeitos são ainda piores porque, por causa da concorrência desleal (como competir com produtos made in China?), a economia da cidade desaba em poucos meses. Várias empresas locais vão à falência – algumas são lojas com mais de 40 anos, passadas de pai pra filho. Um dos gerentes da Wal-Mart diz que, ao chegar numa cidade, ele passa em frente à concorrência, apostando que tal loja vai fechar em seis meses, essa outra não dura nem quatro... E é o que acontece. O local se transforma numa cidade-fantasma.
Num dos casos, a Wal-Mart recebeu incentivos fiscais de uma cidade durante alguns anos. Quando chegou a hora da empresa finalmente começar a pagar impostos, o que ela fez? Mudou-se pra cidade vizinha! Simplesmente abandonou o prédio e se transferiu pra fronteira. Há um bocado de quilômetros quadrados de lojas da Wal-Mart abandonadas às traças nos EUA. Se elas virassem escolas, poderiam abrigar meio milhão de estudantes.
O doc dá bastante destaque às condições dos funcionários da Wal-Mart nos EUA. Aqui eles não são escravos e ganham mais (7 dólares a hora) que seus colegas chineses, mas há quilos de denúncias de machismo e racismo nas relações trabalhistas. Os empregados são desaconselhados a formar sindicatos. Como o gerente de cada loja precisa reduzir os gastos pra aumentar o lucro todo santo mês, ele (nunca é mulher) contrata pouca gente, faz os empregados trabalharem mais, e mexe no sistema do computador pra reduzir as horas extras que cada funcionário é obrigado a cumprir. É sério!
Os benefícios que a Wal-Mart põe à disposição de seus funcionários são irrisórios. Tem um plano de saúde que, além de não cobrir as doenças, ainda é caro demais (os empregados é que têm que pagar, claro). Logo, a empresa incentiva seus funcionários a pedirem assistência médica e qualquer outro benefício ao governo. Ué, mas o sistema capitalista não prega menos interferência do governo? Não, cada caso é um caso. No caso da Wal-Mart, os cofres públicos gastam US$ 1,5 bi por ano só com os empregados da empresa.
Tem mais: há um monte de roubos, estupros e sequestros (alguns resultam em mortes) nos estacionamentos das lojas da Wal-Mart. Isso porque a empresa só coloca seguranças (em geral quatro, pra uma loja imensa) dentro dos hipermercados. Do lado de fora, é cada um por si e salva-se quem puder. A Wal-Mart até tem câmeras de segurança nos estacionamentos, mas ninguém na cabine olhando essas câmeras.
Após o calvário de denúncias, o doc termina de um jeito otimista, com a vitória de cidadãos em várias cidades americanas que conseguiram barrar na justiça a construção de um Wal-Mart local.
Acho que posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes na vida comprei num Wal-Mart. Nem sei se em SC tem algum. Mas sei que o Big foi comprado pelo Wal-Mart um tempinho atrás. Vou começar a boicotar lá também.