segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

DADA A LARGADA PARA O OSCAR 2020, E O BRASIL ESTÁ DENTRO

Ontem à noite eu já estava muito ansiosa com as indicações ao Oscar, que saíram hoje: será que o ótimo Democracia em Vertigem seria indicado a melhor documentário? Foi!
E essa indicação está causando a maior síncope na mente limitada de bolsominions, MBL, PSDB, e reaças em geral. Volto a isso mais pra baixo, após falar sobre as outras nomeações.
Nada muito surpreendente entre os nove indicados a melhor filme. Coringa foi o que teve mais indicações (onze), seguido pelo filme de guerra 1917 (que ainda não vi), o filme de máfia O Irlandês (que vi, gostei, mas não achei memorável), e Era uma Vez em Hollywood, com dez cada.
Este último filme do Taranta, por já ter levado melhor filme ontem no Critics' Choice Awards e o Globo de Ouro (que tem duas categorias, comédia/musical e drama, e o que ganhou drama foi 1917), talvez tenha um leve favoritismo para receber a estatueta principal no dia 9 de fevereiro (já?! Falta menos de um mês!).
Mas há um porém. Historicamente, levando em conta 91 anos de Academia, quem ganha melhor filme costuma também ganhar melhor direção e montagem (já que a edição é a essência do cinema). 
É raríssimo levar melhor filme sem sequer ter sido indicado à direção e/ou montagem. E isso enfraquece as chances de Era uma Vez, que ficou de fora na categoria de montagem. E acaba com as chances de indicados a melhor filme como História de um Casamento e Adoráveis Mulheres, que foram esquecidos tanto pra melhor direção quanto pra montagem.
Se formos seguir à risca essa estatística (melhor filme precisa ser indicado pra melhor direção e/ou edição pra vencer), 
somente 3 dos 9 indicados teriam chances: O Irlandês, Parasita e Coringa. Creio que Irlandês é carta fora do baralho, pois não vêm abocanhando muitos prêmios e nem é a melhor obra de Martin Scorsese sobre a máfia (Os Bons Companheiros, Os Infiltrados, Cassino, Gangues de NY e se bobear até Caminhos Perigosos são superiores).
O sul-coreano Parasita foi indicado a 6 estatuetas, entre elas filme, direção (Bong Joon-ho, o segundo asiático a ser nomeado a melhor diretor na história do Oscar -- o primeiro foi Ang Lee por Brokeback Mountain), montagem, roteiro original e filme estrangeiro, categoria em que é franco favorito. Aliás, é a primeira vez que a Coreia do Sul entra nessa categoria, e já vai levar o Oscar! 
No entanto, pra receber melhor filme é bem mais difícil. 
Parasita é o 11o filme em língua estrangeira a conseguir a façanha de ser indicado pra melhor produção, e o sexto indicado a melhor filme e filme estrangeiro. Roma, ano passado, fez grande estardalhaço, ganhou filme estrangeiro, mas não ganhou melhor filme. Nunca um filme estrangeiro ganhou melhor filme. Complicado, mesmo prum filme tão criativo e provocante como Parasita.
Sobra Coringa. Apesar de ser um grande filme e da enorme bilheteria, conseguirá uma produção baseada nos quadrinhos ganhar melhor filme? Vamos ver... Pode ser que a premiação de melhor filme seja a mais imprevisível da noite de 9 de fevereiro.
Devo lembrar que, de cara, o grande vencedor do Oscar 2020 já é a Netflix que, com 24 indicações, foi mais nomeada que qualquer estúdio ou distribuidora.
Outras categorias já têm seus favoritos. Quiçá a maior barbada seja melhor ator para Joaquin Phoenix por Coringa (totalmente merecido, a meu ver), embora Adam Driver tenha um tiquinho de chance por História de um Casamento
Pra melhor atriz, não consigo imaginar ninguém ganhando de Renee Zellweger, que interpreta Judy Garland em Judy. A estatueta de melhor atriz coadjuvante já é de Laura Dern (História de um Casamento), e a de ator coadjuvante, tudo indica que irá para as mãos de Brad Pitt (Era uma Vez em Hollywood). 
A categoria de melhor diretor será dureza acertar. Até poderá ser a primeira vez que Taranta ganha melhor diretor. Não descarto Bong Joon-Ho. Todd Philips, por Coringa, pra muitos já foi surpresa ter sido indicado. Scorsese e Sam Mendes (por 1917) já ganharam, mas faz tempo: o primeiro em 2007 por Infiltrados, e o segundo em 1999 por Beleza Americana.
Quando falamos das indicações ao Oscar, sempre nos lembramos dos snubs, de quem foi esnobado. 
Bom, este ano era bastante esperado que Jennifer Lopez fosse indicada a atriz coadjuvante por As Golpistas. Ela nunca recebeu uma nomeação, foi elogiadíssima, aprendeu pole dancing, o filme fez sucesso. Eu vi e não me entusiasmei tanto. Tem uma moral que vai contra o patriarcado (tudo bem se mulheres derem golpes em homens do mercado financeiro, afinal, ladra que rouba ladrão tem cem anos de perdão). Tadinha da J-Lo, esqueceram dela.
Mais sentida ainda foi a ausência de Lupita Nyong'o entre as indicadas a melhor atriz. Ela está bárbara em Us, uma ótima ficção que faz pensar e provoca (assim como Parasita e Bacurau -- esses três, pra mim, são os mais criativos de 2019). 
Incrível também que o vencedor do Globo de Ouro de melhor ator de comédia ou musical, Taron Egerton (por Rocketman), a vencedora do Globo de melhor atriz na mesma categoria, Awkwafina (por The Farewell), tenham ficado fora do Oscar. 
Muita gente culpa Scarlet Johansson de ter tirado essa gente da disputa, mas é besteira (não é ela que escolhe). Scarlet foi indicada em duas categorias (melhor atriz por História de Casamento e melhor coadjuvante por Jojo Rabbit). Ela nunca havia sido nomeada antes, apesar de ser (boa) atriz desde criança. 
Se é pra culpar alguém, eu culpo a Saoirse Ronan. Pô, a moça tem 25 anos e esta é a sua quarta indicação (a Jennifer Lawrence conquistou essa façanha antes)! Eu gosto da Saoirse, apesar de não conseguir pronunciar o nome dela, e ainda não vi Adoráveis Mulheres, mas havia outras atrizes pra ficar no seu lugar este ano.
A verdade é que aquela tag de alguns anos atrás, a #OscarSoWhite, protestando contra a branquitude dos atores e atrizes indicados, merece voltar. Dos vinte indicados em 2020, só uma atriz, Cynthia Erivo (por Harriet, que conta a história de uma ícone da luta contra a escravidão nos EUA, a ex-escrava Harriet Tubman), não é branca.
Outras ausências entre os indicados que muita gente percebeu: Beyoncé não foi lembrada para melhor canção por O Rei Leão, nem Ruth Carter (que ganhou ano passado o Oscar de figurino por Pantera Negra, a primeira vez que uma mulher negra ganha nessa categoria) por Doletime is My Name (que ganhou o Critics' Choice ontem). Frozen 2, grande sucesso co-dirigido por uma mulher, foi esquecido da lista de melhor animação.
Mas talvez a maior reclamação seja pela não indicação de mulheres pra melhor direção pelo segundo ano consecutivo. 
Esperava-se que talvez Greta Gerwig fosse indicada por Adoráveis Mulheres (ela concorre a melhor roteiro adaptado, e na categoria de Roteiro Original há outra mulher, Krysty Wilson-Cairns, que co-escreveu 1917). Ou Marielle Heller por Um Lindo Dia na Vizinhança, ou Lulu Wang por The Farewell, ou Celine Sciamma por Retrato de uma Jovem em Chamas, ou Lorene Scafaria por As Golpistas, ou Mati Diop por Atlantics, ou Kasi Lemmons por Harriet
Como disse a atriz Isa Rae, que apresentou as indicações, "Parabéns a esses homens". Natalie Portman disse algo parecido dois anos atrás, quando apresentou a lista dos indicados à direção no Golden Globes: "E agora, aqui estão os indicados, todos homens". 
Mas pelo menos a Academia bateu um recorde de indicações a mulheres: foram 62, se contarmos todas as categorias. Uma dessas mulheres é a islandesa Hildur Guonadóttir, favorita a ganhar a estatueta de trilha sonora (por Coringa). Ela já ganhou o Globo de Ouro e o Critics' Choice. Será apenas a terceira vez que uma mulher ganha sozinha trilha. 
Agora vamos à categoria que mais nos interessa, a de melhor documentário. Se na categoria de melhor direção só há homens, na de documentário, 4 dos 5 filmes indicados foram dirigidos ou co-dirigidos por mulheres. A brasileira Petra Costa é uma delas. Inclusive, ela vai concorrer com o primeiro filme produzido pela companhia de Barack e Michelle Obama, American Factory.
Petra Costa vai precisar de muito apoio porque, se ela já foi atacada pacas quando Democracia em Vertigem foi lançado, agora que foi indicado os reaças estão com muito ódio. Estão surtando mesmo (vejam a mensagem do PSDB oficial!). E ela ser mulher faz com que eles sintam ainda mais ódio.
Ainda que Democracia não ganhe (os documentários ambientados no Oriente Médio parecem ser mais urgentes neste momento), a indicação ao Oscar é fundamental, e já é uma enorme vitória. Afinal, é a primeira vez que um filme brasileiro concorre nessa categoria. A nomeação fará com que mais gente veja o filme, que é super atual e ajuda a entender o pesadelo que o Brasil vive. Além do mais, equivale a um soco na cara de Bolso e Moro, amplamente criticados no documentário. 
Como sempre, é uma guerra de narrativas. Olhem como o Estadão noticiou a indicação do filme no Twitter: "Documentário retrata a polarização política do Brasil e o impeachment da ex-presidente Dilma". Não, Estadão! O documentário retrata o golpe de 2016! E chega desse papinho de "polarização". O que vivemos quase quatro anos atrás e continuamos vivendo hoje é o ódio da direita. Ou tem muito carinha de esquerda cometendo atentado terrorista contra produtora de humor? Se Petra ganhar, o que é difícil, ela será a primeira latino-americana a vencer nessa categoria. Minha torcida já é gigante. 
Já já eu e principalmente o Júlio César iremos organizar o tradicional bolão do Oscar. 
Espero que vocês todos entrem!Aliás, estive pensando: como o Oscar de melhor documentário será tão esperado, podemos abrir uma exceção e incluir esta categoria no bolão (deixamos de fora porque geralmente temos poucas oportunidades de ver os filmes indicados). O que vocês acham de, excepcionalmente este ano, apostarmos em 21 categorias, em vez das 20 habituais?

11 comentários:

Luise Mior disse...

Sou capaz de participar do bolão esse ano só pelas indicações. Coloque sim Lola documentário no Bolão, Democracia em vertigem merece. Até ;)

SeekingWisdom disse...

Ei Lola, e os Dois Papas? Perdi ou não tinha nada a comentar dele?

Anônimo disse...

Lola, vc assistiu Midsommar? Gostaria muito de ouvir o que você tem a dizer.

Náy disse...

Eu jurava que Meu nome é Dolemite fosse ter alguma indicação. Também esperava mais indicações para Dois Papas, inclusive de melhor diretor.

Felipe Roberto Martins disse...

Muito triste não ter Bacurau na lista!!! 😢😢😢😢😢 torcendo pelo doc da Petra!

Alan Alriga disse...

21 Blackjack, sim Lolinha queremos 21 categorias.

Era uma Vez em Hollywood tá aí um filme que não faço a mínima de assistir, e por mim espero sinceramente que não ganhe NADA!!!

Alan Alriga disse...

Midsommar é um ótimo filme principalmente pela forma como aborda a seita, sem falar da trilha sonora que está perfeita.

Anônimo disse...

a) Oi Lola amei a indicaçao de Democracia em vertigem ver os minions chorando nao tem preço.

b) Lola vc viu a situaçao envolvendo a princesa Meghan eu vejo muito racismo e machismo na situacao

Valéria Fernandes disse...

Argo é uma exceção. Não foi indicado para diretor e levou melhor filme. Ganhou montagem, também. 12 Anos de Escravidão foi indicado nesses três prêmios chave, mas só ganhou melhor filme. Eu, particularmente, estou torcendo contra o Tarantino. MUITO MESMO.

De resto, não se deve culpar ninguém por indicações. Uma atriz não é culpada por ser indicada em duas categorias. Uma atriz de 25 anos não deveria ser tão privilegiada, mas ela não é culpada. Já Lawrence poderia ter rejeitado papéis que deveriam ir para mulheres mais velhas e não rejeitou. Isso, sim, é responsabilidade dela.

De resto, devo ver Adoráveis Mulheres amanhã. Acho a Greta Gerwig superestimada, espero que ela me surpreenda.

Fiquei muito feliz pela indicação de Democracia em Vertigem, como uma amiga disse, Dilma foi indicada duas vezes, porque ela aparece, também, em Dois Papas. Tomara que a Petra leve Dilma para a plateia. Seria muito bom isso.

Eu escrevi meus comentários sobre o Oscar no meu blog, se alguém quiser ler (http://bit.ly/2QWlYWx)

Anônimo disse...

Acho que o Di Caprio devia ganhar por Era Uma Vez... a atuação dele muito superior ao do Joaquim (que eu, em geral gosto muito). Aliás, gostei de Era Uma Vez... muito mais que de Coringa que é um filme superestimado e um arremedo de Táxi Driver.
Mas Oscar é aquela coisa. Ignoraram US, ignoraram Midsommar, o Oscar de melhor atriz vai pra alguma moça bonita e em10 anos vai todo mundo ainda lembrar mais dos filmes que perderam do que dos que ganharam (exceção talvez para parasita).

Dna disse...

Na vdd, as "categorias-chave" para vencer Melhor Filme são: melhor direção, melhor roteiro (original ou adaptado) e melhor edição

Todos os vencedores de Melhor filme ganharam pelo menos uma dessas 3 categorias, exceto raros casos, como por ex: o último Melhor filme a não ter vencido nenhuma dessas outras 3 (ou 4) categorias foi Gladiador em 2001