quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PARA SEMPRE ALICE E BIRDMAN, MEUS PREFERIDOS ATÉ AGORA

Até agora, dos filmes que vi que concorrem a algum Oscar, os que mais gostei foram Para Sempre Alice e Birdman
O primeiro é baseado no livro homônimo de Lisa Genova (veja o trailer) sobre o diagnóstico de Alzheimer para uma mulher jovem, de 50 anos, interpretada brilhantemente por Julianne Moore. Eu li o livro cinco anos atrás e até escrevi sobre ele. É o tipo de história terrível que você pensa: será que eu, que esqueço um monte de coisas, tenho Alzheimer? E se tiver, o que fazer da vida? Vale a pena viver assim? (minha opinião é que não, não vale). 
O livro tem mais detalhes, lógico (como a chocante informação que um asilo para portadores da doença cobra 285 dólares por dia!), mas várias anedotas assustadoras permanecem no filme. Por exemplo, a protagonista urina nas calças porque não consegue se lembrar a tempo onde está o banheiro da sua própria casa. Ou ela assiste à uma peça da filha, que é atriz, e confunde a pessoa com a personagem. Ou ela sai pra se exercitar e, no meio da corrida, esquece onde está e onde mora.
Alice (Julianne Moore) se perde
O filme é sensível, com um bom ritmo que prende o interesse. E achei menos sentimental que o livro (pelo menos eu não chorei até me acabar, o que aconteceu com o livro). Todo mundo está bem, inclusive Kristen Stewart como a caçula, e Alec Baldwin como o marido. 
É um papel difícil o dele, porque a tendência é que a gente fique contra um personagem que não apoie a parceira cem por cento, mas olha, eu o compreendo. Não sei se eu deixaria de viver a minha vida porque a pessoa que eu amo está com uma doença incurável e irreversível. (E é por isso que, se fosse comigo, se eu tivesse Alzheimer precoce, eu me mataria. Mas quem disse que é fácil?).
É inacreditável que uma das atrizes americanas mais talentosas e audazes das últimas duas décadas ainda não tenha um Oscar pra decorar a lareira (eu pensava que ela tivesse pelo menos um de coadjuvante, mas nadinha). Dessa indicação agora (sua quinta) ela não passa! É a favorita para levar o prêmio. Minha torcida é toda dela.
E lá vai: minha torcida pra corrida de melhor ator é pelo Michael Keaton, que tem o papel de sua vida em Birdman (veja trailer). 
É provável que Eddie Redmayne como Stephen Hawking em A Teoria de Tudo seja o favorito pro prêmio, mas Eddie tem metade da idade de Michael, e seu papel, embora Eddie esteja fantástico, é o que a gente chama de isca de Oscar. Parece que você já larga com vantagem se interpretar um personagem com uma doença horrível, mas consegue superar as dificuldades (daí também a vantagem pra Julianne, se bem que a parte de superação da sua personagem acaba numa palestra).
Michael não tem um papel de destaque há mais de duas décadas. Seu retorno é tão formidável quanto o do John Travolta em Pulp Fiction (quer dizer: John era vinte anos mais novo que Michael é hoje, e não tinha ficado tanto tempo longe dos holofotes, mas também resta ver se Birdman terá o mesmo impacto cultural que a obra-prima de Tarantino). 
Seu papel em Birdman parece ter sido escrito pra ele (uma celebridade de Hollywood que não faz sucesso desde que fez um superherói, em 1992, mesma data em que Michael fez seu segundo Batman). Mas o diretor e roteirista Alejando González Iñarritu (o grande diretor de Amores Perros, 21 Gramas e Babel) jura que não escreveu pensando nele, apenas que, ao terminar o roteiro, viu que sua única opção era Michael.
Lesley (Naomi Watts) chora no camarim após tentativa de estupro 
A história em si pode não ser muito diferente do que estamos acostumadxs a ver -- homem branco de meia idade em crise --, e nem o humor maldoso contra Hollywood, nem a homenagem ao teatro são tão incomuns. 
O que chama a atenção, no entanto, é a forma. Birdman é filmado aparentemente sem cortes, como se fosse um longo plano-sequência de uma hora e quarenta minutos (quando acontece o primeiro corte aparente). Claro que cortes, porque sem chance filmar uma só tomada tão longa, com tantos detalhes (ok, Arca Russa já tinha feito isso), mas eles estão disfarçados. Este estilo de câmera na mão, sem edição, impõe um ritmo frenético, e que imita o teatro. Mas eu demorei uns bons dez minutos até notar. 
Birdman é divertido em alguns pontos e muito deprê e mórbido em outros. Eu me lembrei de Cisne Negro. O homem-pássaro que às vezes fala com o protagonista e se materializa pra ele é assustador, e mais assustador ainda é que ele também é interpretado por Michael Keaton (parece outro ator). Há mil e um aspectos pra serem discutidos sobre a história, mas não dá pra falar, se não estraga tudo. (Leia a excelente crítica que o Luis me enviou ontem. Eu respondi a ele, e vou colocar minha resposta nos comentários. Mas tem vários spoilers, tanto a crítica quanto a resposta).

Alguns pontos perturbadores são: os "poderes" do personagem existem ou são fantasias dele? (minha opinião: fantasias). É tudo um sonho? Desde quando? Quais personagens são reais? Todos? (porque a ex-mulher dele não parece ser real pra mim). 
E o que acontece no final? Uma dica para uma das interpretações é: fique de olho nas águas-vivas. Estranho? Mas surgem águas-vivas numa praia num quadro nos créditos iniciais (quase não dá pra ver), num discurso importante do protagonista, e no final.
O elenco inteiro brilha (nunca vi Emma Stone tão bem), mas Birdman é todo do Michael. E do diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki (que já havia mostrado sua habilidade com planos-sequência em Filhos da Esperança). E a cena em que Michael corre de cueca em Times Square já é clássica!
Queria ter tempo pra escrever sobre os outros indicados que vi, mas tá difícil...
P.S.: A entrega do Oscar é no próximo domingo! Participe do meu tradicional bolão do Oscar. Você pode participar do bolão pago, no grátis, ou (o mais recomendável) nos dois. Mas não deixe de participar, please! É só fazer seus chutes até sexta.

21 comentários:

lola aronovich disse...

Pessoas queridas, ontem o Luis me enviou por email um texto que ele escreveu sobre Birdman. Publico aqui parte da minha resposta (quer dizer, ficou muito longo, vou publicar em duas partes).

PARTE 1

Acho que Birdman passa no teste de Bechdel. Não lembro se há alguma cena entre mãe e filha, mas certamente há uma cena entre Laura e Lesley, com direito a beijo e tudo. Então há bem mais de uma mulher com falas no filme, e elas conversam entre si sobre um assunto que não seja um homem. Elas começam falando sobre Mike, mas acho que este não é o teor da conversa delas. Elas também falam da carreira. Eu não lembro exatamente, mas creio que, pelo menos nessa cena, o filme passa no Bechdel.
É interessante que passe porque vários outros filmes indicados ao Oscar 2015 (O Jogo da Imitação, Foxcatcher, Whiplash, American Sniper, Grande Hotel Budapeste etc) não passam.
Também não tenho certeza se Laura está numa situação fragilizada, como vc escreve no texto. Ela mente pra Riggan sobre estar grávida? Ela queria estar grávida e não está, mas isso não parece ser um grande problema, já que a personagem dela aparece muito superficialmente.
O filme problematiza a tentativa de estupro ao mostrar a reação de Lesley. Ela se culpa um pouco (o que é habitual às vítimas), mas a raiva que ela sente por Mike é maior. Ela não o perdoa, ela não acha legal o que aconteceu. Ela vê aquilo como uma tentativa de estupro, e fica arrasada. Mike é um escroto egocêntrico, então óbvio que ele não vai ver nada de errado em tentar "transar" (ele não vê como estupro) com uma ex-parceira. As outras pessoas do filme (o público presente, Riggan, Sam etc) não sabem o que aconteceu, porque foi por baixo do lençol. Só nós sabemos, e Lesley e Mike. Depois, quando ela conta pra Laura (o que pode ser interpretado como female bonding -- as duas personagens são amigas, confiam uma na outra, não são adversárias - ponto positivo pro filme), a reação da colega é ridícula, mas nada incomum, considerando a cultura de estupro em que vivemos.

lola aronovich disse...

PARTE 2

Sobre a crítica de teatro, Thabita, interessante o que vc diz, sobre ela ser a única personagem feminina em posição de poder. É verdade. Mas pense só, podia ser um crítico homem que não mudaria nada, não mudaria o discurso ou a dinâmica entre eles, não acha? Riggan ainda assim mandaria o crítico enfiar as anotações no ânus. Eu lembrei do crítico culinário em Ratatouille.
Sinceramente, vejo esse personagem do crítico de teatro sem gênero. Talvez no roteiro estivesse escrito como um crítico homem, e, na pré-produção, pra incluir mais mulheres, colocaram uma atriz. Podia ser um negro ou negra (num filme sem nenhum negro/a, só a moça na bilhteteria), que não mudaria nada no personagem. O que pode ser instigante é que uma mulher esteja sozinha num bar à noite. É diferente de um homem sozinho. Ela seria assediada. A personagem é estranha: uma crítica que passa as noites num bar? Ela está sempre lá quando Riggan entra? Pra mim, ela e a ex-mulher de Riggan não parecem personagens muito reais, e sim parte da imaginação dele. A presença delas pode ser interpretada como "será que tudo é um sonho de Riggan? Será que ele morrreu ao tentar suicídio na praia, anos atrás, e tudo isso é só um pedaço de sua imaginação antes de morrer de fato?"
A cena final -- Sam olhando pra cima e sorrindo -- está aberta a montes de interpretações. Vc resumiu a duas frases. Acho que precisa expandir um pouco essa análise de "Sam admira a figura masculina" pra convencer quem te lê. Eu já acho que Sam passa a ver o relacionamento com seu pai com outros olhos a partir da conversa que ela tem com Mike. Mike pergunta pra ela o que seu pai lhe fez, e ela, ao se expressar (ele foi um pai ausente e tentou fazer com que eu me sentisse especial), ela vê que Riggan não foi tão ruim. Ela passa a ser mais tolerante com Riggan a partir dessa cena.
Riggan, de fato, não é um cara ruim. Ele é egocêntrico, mas mais autodestrutivo e lunático que qualquer outra coisa (tirando o ator que ele machuca no começo). Ele trata relativamente bem a sua namorada, e também Lesley, a ex-mulher, e até mesmo Sam. Lógico que ele tem um conflito monstro com a crítica de teatro, mas tente imaginar se fosse um crítico homem. Seria diferente?
Birdman é inteirinho centrado num protagonista masculino, e o segundo personagem mais importante é Mike (que some na segunda metade do filme, assim que o alter ego de Riggan, o homem-pássaro, vai crescendo e ganhando corpo, literalmente -- aliás, isso me fez pensar em Cisne Negro). Mas isso, pra mim, não faz o filme necessariamente ser machista.

Matheus Monteiro disse...

Lola, você assistiu "Garota Exemplar"?Queria saber o que você achava do filme. "Birdman" é ótimo mesmo, um dos mais fortes concorrentes

Raven Deschain disse...

Emma Stone! *-*

Eu baixei Birdman. Verei hoje.

Nicky disse...

Birdman é um filme que já nasceu datado, a temática tenta transcender as tendencias atuais mas só entrega diálogos pretensiosos e superficiais.
O ritmo cai ao longo do filme e ele fica chato, cansativo e aquela trilha de bateria começa a irritar.
Realmente tem ecos de Cisne Negro, clássicos de adaptações da Broadway (como Gata em Teto de Zinco Quente ou Uma Rua Chamada Pecado), ou os metaroteiros do Charlie Kaufman, mas o Iñaritu não tem a mão do Aronofsky, do Spike Jonze, nem do Elia Kazan na condução desse nível de esquizofrenia cinematográfica.
Uma ótima intenção, mas tá longe de ser um grande filme. Boyhood é tão mais completo sem deixar transparecer a própria pretensão que seria uma pena não ganhar o Oscar.

Anônimo disse...

Essa situação de ser diagnosticada com uma doença fatal com pouca idade e o dilema sobre valer a pena seguir adiante sempre traz a discussão sobre ter filhos ou não.

Quem não tem filhos não tem quem cuide quando a idade chega, quando a doença ataca.

Seria melhor o suícidio planejado nesse caso?

Uma filha pode cuidar dos seus bens, do seu dinheiro, dos seus documentos, das exigências do governo. Um filho pega fila, agenda consulta, te leva na médica. Quem tem filhos tem a cobertura da lei que obriga os filhos cuidarem dos pais idosos sob pena de serem condenados por abandono de maior incapaz.

E quem não tem filha e começa esquecer de tudo. E quem não tem filho e já não tem força nas pernas? O que é melhor na sua opinião Lola, esperar a morte apodrecendo em um canto esquecida pelo mundo ou meter um tiro na cabeça enquanto tem forças para fazer isso?

Essa discussão é muito ampla na Europa, onde os europeus já não tem mais filhos ao ponto de ser necessário facilitar e incentivar a imigração de indianos, árabes, africanos para manter a taxa de natalidade. O suícidio assistido é permitido em quase todos os países. Holanda o idoso pode ligar para o serviço público de saúde e pedir o acompanhamento jurídico para a destinação dos seus bens e se matar em paz.

lola aronovich disse...

Nunca pensei nisso, anon das 18:15, isso de ter filhos para que alguém cuide da gente na velhice. Até porque devemos ter obrigações financeiras com os pais idosos, assim como os pais têm com as crianças, mas "cuidar" não é necessariamente cuidar pessoalmente. Pode-se pagar alguém para isso, ou pode-se colocar o pai idoso em algum lugar decente que lhe dará assistência. Se eu precisar de assistência daqui a alguns anos (algumas décadas, espero!), eu moraria em algum asilo aberto (desses que a pessoa pode sair e voltar quando quiser). Vi alguns em Joinville faz anos, porque foi tema do meu TCC, e alguns eram muito bons. Eles tentavam dar o máximo de independência possível aos velhinhos (aliás, velhinhas, já que a maior parte é mulher, disparado, mas havia também alguns casais).
Isso de "cuidar" dos pais idosos, de parar de estudar ou trabalhar pra fisicamente cuidar deles, é algo muito genderizado. A responsabilidade quase sempre cabe à filha. Conheço muitos casos assim. A filha deixa de viver pra cuidar dos pais e, quando os pais morrem, ela entra em depressão, fica sem saber o que fazer.
Enquanto a mente estiver sã, enquanto der pra fazer as coisas com um mínimo de independência, eu gostaria de continuar vivendo, mesmo que bem velhinha e debilitada. Não teria problema precisar de cadeira de rodas. Já ser cega complicaria bastante... Mas uma doença incurável como Alzheimer, que vc esquece quem vc é, não vejo o ponto de continuar vivendo. Eu faria como a personagem da Julianne Moore no filme: me programaria para me matar, quando a situação saísse de controle. Talvez um pouco antes.
Sou a favor do suicídio assistido e da eutanásia. É absurdo que uma pessoa consciente não possa se matar se assim quiser.

Julianatsume disse...

Eu não vi esse obra prima toda que as críticas viram em Birdman. É aquele tipo de filme que entra naquela categoria: Gostei da ideia, não do resultado. Até pq quando eu passo o tempo todo torcendo pro filme acabar logo é pq a coisa não rolou mesmo.
O Bitch Flicks tbm sentiu uma vibe Cisne Negro (http://www.btchflcks.com/2015/02/birdman-is-black-swan-for-boys-2169am.html), mas o engraçado é que eu me lembrei de outro Aronofsky: O Lutador. Essa questão da glória perdida, o protagonista já velho, mas ainda na carreira e sonhando com um grande momento, até a difícil relação com a filha.Aquele tipo de filme que cai como um luva no ator principal.
Apesar de ter várias mulheres em cena, não dá para dizer que suas personagens são memoráveis, o filme todo é de Keaton e Norton. Mesmo Emma Stone, que é a personagem feminina com maior destaque, não está num papel difícil, nem inesquecível. Ela está OK, nada do tipo: "gente, que atuação brilhante ".
O filme tem seus momentos de delírio, só que eu realmente não consegui entrar no clima.

Preciso parar de enrolação e assistir Para Sempre Alice!

Ta-chan disse...

Eu detestei Birdman com todas as minhas forças!Fui cheia de expectativa assistir e fiquei chocada com o quanto o Iñárritu conseguiu ser pretensioso dessa vez.Os diálogos são superficiais de mais, os coadjuvantes no geral são mau aproveitados e a tentativa de simular uma filmagem sem corte foi ridícula.Mas o Michael Keaton foi perfeito o Oscar tem que ser pra ele!

Edson disse...

Estou chocado em saber que a Julianne Moore não tem pelo menos um oscar ainda. :0

Roberta disse...

Lola, desculpa desviar totalmente do assunto do post, mas precisava recorrer a alguém pra compartilhar minha indignação! Trata-se do caso ocorrido essa semana envolvendo uma moça de Uberaba que foi morta a tiros, juntamente com seus bebês gêmeos de 2 meses, a mando do amante casado que não queria reconhecer a paternidade das crianças. Nem preciso dizer o quanto fiquei consternada com essa monstruosidade, porém a reação de certas pessoas aos eventos merece menção por ser absurdamente incoerente. Quer dizer, você até esperaria que, diante de um episódio de tal perversidade, ninguém fosse capaz de imputar qualquer parcela de culpa à vítima, né?

Não foi o que aconteceu - os comentários de sites de notícias estão transbordando julgamentos contra a mãe assassinada, acusando-a por ter feito seus filhos pagarem as consequências de seu adultério.

Eu não queria ter lido isso. Assim fica difícil demais acreditar na humanidade.

Raven Deschain disse...

Um filho tb pode cagar e andar e esperar vc morrer sem levantar um dedo.

Não quero te ofender, anon. É só que eu já vi acontecer e é realmente triste.

pp disse...

Lolinha, adoro suas críticas. Comprei o livro Para Sempre Alice, e depois vou assistir ao filme.

Não aguento esse tabu em torno do suicídio. Numa situação dessa, em que não tem solução (não é apenas uma má fase longa, é para sempre mesmo, e apenas vai ficando pior), preferiria me matar a viver sem dignidade e ainda sugando a vida da minha família por anos, quem sabe décadas a fio. Se eu me encontrasse nessa situação teria de fazer tudo sozinha, no máximo meu namorado me ajudaria. Minha família ficaria escandalizada falando que eu não poderia fazer isso, que eles cuidariam de mim. É a culpa católica da sociedade brasileira.

Kittsu disse...

"ter filhos" não é sinônimo para "manter laços". Se ainda cultivássemos o hábito de manter comunidades, os velhinhos seriam bem cuidados por todos, sem precisar se procupar com abandono. Mas não existem comunidades, muitas vezes nem a própria família é uma comunidade e cada um vai pro seu canto, abandonando indistintamente os seus.
Acho o pensamento de "ter filhos para cuidar de mim na velhice" bastante egoísta, mas razoável e completamente compreensível. Mas essa espectativa acaba sendo tão somente um tiro n'água, pois não é uma equação no qual "criança = cuidador pra minha velhice", e sim "criança = pessoa dotada de vontade própria e livre arbítrio". E aí esta pessoa pode, ou não, vir a cuidar de você depois: depende de toda a história de vida de ambos, não da SUA necessidade.

Da minha parte, estou fazendo o necessário para garantir que passarei o fim da minha vida feliz e com dignidade, independente de ter uma pessoa específica pra cuidar de mim. Só não em um asilo, onde morre gente toda hora e essa sensação de "a proxima sou eu" deve ser uma merda.

Anônimo disse...

Birdman e puro iuzomismo tosco

Raquel Condulo disse...

Lolinha, vi Birdman no feriado, cheia de expectativas... Não curti, achei pretensioso. Definitivamente, é um filme para agradar críticos.

Anônimo disse...

Na minha humilde opinião, acho a Julianne Moore uma das melhores atrizes da atualidade. Fora que ela é linda de morrer (não que isso importe alguma coisa, pois para ser boa no que faz a beleza é totalmente irrelevante), mas ela tem alguma coisa nela que me faz vontade de ver os filmes que ela faz.
Torço para ela ganhar o Oscar, mesmo sem ter visto o filme. Ainda mais por se tratar de uma doença tão triste como Alzheimer. Minha falecida avó teve essa doença, e é muito, muito triste... mas demos todo o carinho que nos foi possível até sua partida.
Só sou contra a opinião de achar que a vida da pessoa acabou por causa do Alcheimer, e mais contra ainda se matar por isso. Pois por mais que a minha avó tenho sofrido com isso, ela era muito importante em nossas vidas e jamais a morte foi um pensamento que passou pela cabeça de alguém.

Pepper.

Lucas Dantas disse...

então... eu gosto de birdman e acho até justo se keaton ganhar de redmayne, porque o filme como um todo é MASSA! mas acho que não vai pelos mesmos motivos que listou.

além do mais, parece que a onda atual da academia - que passou dez anos premiando atrizes glamurosas que "se enfeiaram" pela arte - é premiar homens com grandes dificuldades e que, consequentemente, se modificarão tbm (colin firth gago, mathew mcgonahey aidético e jared letto travesti - apesar de que esses dois pra mim ainda são inaceitáveis)... mas tudo bem tô sendo bem cínico.

agora eu vi todos da disputa das atrizes (que sempre é minha disputa favorita) e, sinceramente, julianne moore é a que menos merece.

tudo bem que sua estatueta está atrasada, mas "para sempre alice" não apenas é um filme de roteiro fracote em comparação aos outros, como a atuação dela é totalmente "paint-by-numbers".

já assistiu "longe dela" de 2006, de sarah polley e com a legendária julie christie no papel de uma mulher que, ao descobrir ter alzheimer decide voluntariamente se internar numa clínica? o roteiro deste trata de maneira muito mais sensível e profunda as relações que se embaralham com o advento de uma doença tão devastadora da identidade não só de seu portador, como de todos à sua volta.

não li o livro, mas pelo filme "para sempre alice", nenhum tipo de luz é jogada na questão além do que se lê facilmente em revistas semanais de profundidade débil ou em novelas da globo.

daí que comparado aos roteiros e esforços com os quais este filme compete, é uma tristeza que julianne moore ganhe seu merecido oscar neste ano em que qlq outra realmente merecia mais que ela.

rosamund pike é a MELHOR do ano em "garota exemplar" e perto dela só marion cotillard em "dois dias e uma noite". ambos são filmes totalmente diferentes um do outro mas de roteiros primorosos e excitantes.

e por fim, até reese witherspoon está mais adorável em "wild" e a quase insossa felicity jones também ganha pontos por estar em um filme mil vezes mais belo que "para sempre alice".

Anônimo disse...


Lola sou sua fã, adorei o texto.

a) Vou ver o filme, tenho interesse no tema, mas afirmo para vc, nós mulheres sempre achamos que temos obrigação de cuidar dos nossos maridos doentes, mas os homens não encaram assim, eu percebo nos hospitais, homens acompanhados e mulheres sozinhas

b) Tenho 36 anos e filhos nunca foram prioridade, queria estudar, tanto que me formei e fiz pós- graduação, mas estou apaixonada e penso em formar uma família, mas não acredito em filhos como arrimo,

Anônimo disse...

Não sei se gostei muito desse enredo. Porque Alzheimer precoce? Porque não mostrar a história mais provável de um idoso com a doença? Sério, pensa no número de filmes com protagonistas da terceira idade que você conhece, e compare com outras minorias (protagonistas mulheres, negros, etc.), a diferença é gritante.

Belle disse...

Não sou uma expert em cinema, mas ainda sim lá vai...

Então, assisti birdman aos 45 do segundo tempo. Achei um bom filme, mas fiquei com a sensação de que não será um ícone.

Todo mundo está discutindo se o Riggan morre e em que momento isso acontece. Acho esse tipo de dúvida e discussão em si já um sinal de inteligência do roteiro e direção, mas não foi o que me chamou mais atenção, mas sim a mensagem que, mesmo superficial e patética pra alguns (a mim não pareceu), pra mim foi: não importa quão importante ou patética é sua obra ou legado para o mundo. Ela sempre será pequena demais no universo, recolha-se a sua insignificância. Pode ser angustiante, mas também conforta, e no caso de artistas, que se entregam de corpo e alma a um projeto que nem sempre será aclamado, é uma reflexão totalmente necessária e diária. Vemos ali como todos os personagens sofrem por algum tipo de necessidade de reconhecimento (mesmo que apenas de si próprio como no caso do Norton) ou de se sentir especiais, e todos são atores... Da peça ou do filme ou de ambos (óbvio).

Tudo isso compõe o que achei mais interessante ainda, a abordagem dessa reflexão (que como disse a Lola não é tão incomum no cinema): o filme critica e ri de si mesmo. Afinal, a produção se pretende uma obra de arte "genuína" ou um blockbuster? Qual o verdadeiro papel da crítica nesse sentido, já que podem haver muitas interpretações subjetivas? Realmente importa, já que no fim o que a arte (e as pessoas por trás), sendo desinteressada ou puramente comercial, no fim, busca a mesma coisa: reconhecimento (isso poderia soar ingênuo já que sabemos de toda indústria perversa que move não só produções artísticas mas as relações sociais e humanas em geral)?

Também sobre a abordagem, me intrigou muito a discussão sobre a necessidade de se entregar à atuação completamente (ereção, tiro, estupro, bebida... Tudo real ou fictício?), já que o Keaton interpreta alguém como ele mesmo, assim é impossível saber a fronteira entre a interpretação e sofrimento real do ator... Dai fiquei pensando: quando podemos saber isso? A carga de emoção e desgaste emocional e psíquica de um@ ator quando erra ou acerta aos olhos do público. Sempre deve custar algo e fiquei admirando mais ainda essa profissão.

Por fim, sobre machismo, não achei essa obra mais machista do que a grande maioria. Roteiristas e equipes homens brancos = universalização do sofrimento humano a partir deste modelo "ideal". Sei lá fiquei tentando pensar numa mulher ex-super heroína de cinema decadente com uma filha "problemática", e me pareceu que ela nem ia pensar tanto em si, ia colocar a felicidade da garota em primeiro lugar porque somos criadas pra isso... Sei lá, difícil saber pois somos tão pouco retratadas no cinema para além de estereótipos...