sábado, 28 de junho de 2014

GUEST POST: PRECISAMOS FALAR SOBRE ESTUPRO

Shaonny Takaiama, jornalista em São Paulo, e autora deste portfólio virtual, me enviou um ótimo guest post:

Quando eu tinha sete anos, eu passava sempre na frente de uma bicicletaria, a caminho da escola. Eu morava com meus avós naquela época e a bicicletaria, que era administrada por dois irmãos que tinham por volta de vinte anos, ficava a poucos metros da casa do meu avô.
Certa vez, voltando da escola, um dos irmãos estava na porta da bicicletaria e me chamou pra entrar. 
Ele disse que tinha uma tartaruguinha lá dentro daquele espaço minúsculo e me perguntou se eu queria vê-la. Mesmo estando com receio daquele sujeito, eu acabei entrando, vencida pela curiosidade, e ele me fez descer uma escada que levava a uma espécie de porão.
Quando eu vi o lugar para onde ele estava me levando, imediatamente meu coração disparou e algo dentro de mim me disse para fugir dali. Eu saí correndo e nem dei chance de ele me perseguir. Me lembro até hoje do olhar desapontado daquele homem, por trás dos imensos óculos de lentes grossas. Ele havia perdido a sua “presa”. Sei que eu teria sido estuprada por ele se não tivesse dado ouvidos à minha voz interior.
Guardei essa história comigo durante anos e, quando contei a alguns familiares, fui desacreditada por todos. Disseram que eu tinha inventado tudo aquilo. Acredito que esta sensação de isolamento é muito similar à que acomete as vítimas de estupro que, quando tentam falar sobre o que lhes aconteceu, encontram, muitas vezes, o julgamento dos parentes e de toda a sociedade.
O episódio que aconteceu comigo fez com que eu sempre sentisse empatia pelas vítimas de estupro, mesmo que eu -– graças a Deus -- nunca tenha sido uma delas. Até hoje, o maior medo que eu tenho é que isso venha a acontecer comigo. Afinal, nenhuma mulher no mundo está livre disso. Ser mulher é muito perigoso.
Sempre me perguntei como eu enfrentaria essa situação se acontecesse comigo. Como eu reagiria, como eu juntaria meus cacos e me colaria depois -- se tivesse a sorte de sobreviver, é claro. Como eu lidaria com a sensação de devastação que vem em seguida? Nunca tive respostas para essas perguntas até assistir ao documentário Brave Miss World, disponível no Netflix (veja trailer aqui).
O filme conta a história da israelense Linor Abargil que, em 1998, aos 18 anos, foi estuprada sete semanas antes de ser eleita Miss Mundo. 
Ao contrário de muitas vítimas, Linor teve amplo apoio de sua família e não se calou. Escancarou ao mundo a violência que sofreu e lutou pela condenação de seu agressor, o agente de viagens Shlomo Nur.
De lá pra cá, Linor encontrou forças dentro de si mesma para se reconstruir e decidiu sair pelo mundo ajudando mulheres que sofreram a mesma violência que ela.
Linor dá uma aula de empatia, de sensibilidade, e se emociona com os relatos de cada vítima, que contam suas histórias através do site que ela montou. Viaja pelo mundo colhendo depoimentos para ajudar outras mulheres a não se calarem diante da violência, a denunciarem seus agressores e, principalmente, a falarem sobre o assunto. Porque ela descobriu que falar sobre isso ajuda a cicatrizar a ferida. Falar sobre o estupro, por mais traumático que ele seja, é um processo de cura.
Um dos lugares que Linor visitou foi a África do Sul, o país com a maior incidência de estupros do planeta. Lá, ela ouviu os relatos de meninas muito jovens que perderam a virgindade de forma brutal. Por estupradores que não apenas queriam violá-las, mas também transmitir HIV. No país, existe uma crendice popular de que é possível se curar da AIDS fazendo sexo com uma garota virgem.
Linor também visitou várias universidades americanas, pois nos campi do país, os estupros estão se espalhando como um câncer. A única falha do documentário, ao meu ver, é não falar sobre a cultura de estupro. Linor questiona por que tantas universitárias estão sendo estupradas em universidades renomadas como Princeton e não entende a causa desta epidemia.
A resposta é simples, Linor. Estupro não tem a ver com sexo, mas com poder. Estupro é um instrumento do patriarcado para colocar a mulher dentro dos eixos. Estupro é pra calar as mulheres. Por isso é tão importante o seu trabalho. Você é um exemplo de coragem, Linor, porque a coragem é feminina. 

23 comentários:

Raven~ disse...

"Acredita-se que transar com uma menina virgem cura aids".

Watafuk??????

Musicista Feminista disse...

Esperando os mascus virem aqui para dizer que o blog só fala de estupro.

É incrível que apesar dos esforços de tanta gente como ela, isso ainda esteja longe de ser um problema raro ( porque sempre vai existir, sempre vai ter uma retardado com coragem de fazer coisas absurdas).

E a família, que era pra ser a primeira a apoiar, pensa que é tudo coisa para chamar a atenção.

Shaonny Takaiama disse...

Olá Raven

Essa parte do documentário também me chocou muito. Os homens africanos acreditam que a pureza das meninas virgens é capaz de curá-los da AIDS. É absurdo, eu sei, mas, quando o assunto é estupro, inúmeros absurdos existem não só naquele país, mas no mundo todo.

Abraços

Anônimo disse...

Uma parente minha estudou na África do Sul, e ela me contou que nos corredores da Universidade tinham vários cartazes tentando convencer os rapazes de que estupro não era uma coisa muito certa, porque lá os índices são absurdos mesmo.
Também teve o caso de um político (que agora é presidente?), que estuprou uma moça, que tinha AIDS. Ele não tava preocupado com o negócio do estupro, só em provar que não tinha contraído AIDS da vítima, o que segundo ele não aconteceu porque ele se lavou depois do ato. Lá é foda.

Não que não seja foda aqui, né. Pelo menos o povo de lá teve a decencia de fazer campanha direcionada aos homens, enquanto aqui se você abre a boca já vem a multidão do MAS NEM TODOS OS HOMENS SÃO ASSIM

Anônimo disse...

mas nem todos os homens são assim.

Raven~ disse...

Olá Shaonny. Obrigada por responder. :)

Mas pelo amor de chessus! Só piora. Não é a toa que é tão incômodo falar de estupro.

Anônimo disse...

lola, sei que vc gosta do jon stewart. dá uma olhada nessa sketch do programa dele sobre a diferença entre o cuidado que universitáriOs e universitáriAs têm que ter.
http://thedailyshow.cc.com/videos/z2b627/the-fault-in-our-schools

Anônimo disse...

E nem todos os homens são assim mesmo, os homens que realmente respeitam as mulheres e não tem nada a temer jamais se sentiriam incomodados pela campanha. Enquanto aqueles que tem tendencias para violência e estupradores em potencial com certeza são os que mais se incomodariam, pois a carapuça iria servir.

Anônimo disse...

Deviam também relacionar o aumento dos estupros por estudantes, com o amplo acesso á pornografia na internet. São jovens, que como já alertou a Gail Dines tem acesso irrestrito ao porno mais abjeto e violento a partir dos 11 anos e idade e formam sua sexualidade assistindo o aviltamento dos corpos das mulheres.
Pornografia também fomenta a cultura do estupro, pois cenas recorrentes são de mulheres que dizem não e dpois 'aceitam' a violência e acabam(as mulheres pornificadas são pagas para isso)gostando.

Ana Eufrázio disse...

Perfeito, estupro está relacionado a relação de poder. Não diz respeito a relação sexual em si, mas uma forma de subjugar a mulher, de se impor através da força.

Henrique M. disse...

Se perguntarem para um estuprador se o que ele fez foi um estupro, ele vai falar que não, que a mulher queria, que ela deu motivos saindo sozinha ou saindo com roupas curtas.

O pior é que essa mentalidade está se tornando cada vez mais comum entre os homens. A maioria deles acha que estupro é aquele praticado num beco escuro e aprenderam a relativizar todos os outros casos de estupro. Por mais absurdo que pareça, muitos homens acham que se aproveitar de uma mulher bêbada ou desacordada não é estupro. Muitos também acham que a mulher que é estuprada deve gritar o tempo todo por socorro, pois se ela fica em silêncio ela está concordando com o estupro. Esse pensamento é tão antigo que está escrito na Bíblia!

O pior é pensar que parece que estamos regredindo, pois os estupradores agora tem orgulho do que fazem. É preciso combater a cultura do estupro com todos os meios necessários. Acredito que um dos meios para se fazer isso é conscientização geral através das mídias, tanto a internet, como rádio e televisão. O blog da Lola, apesar de ser muito acessado, não tem o mesmo alcance de programas como as novelas da Globo, que sempre se mostraram misóginas e preconceituosas.

Anônimo disse...

O que fazem é só para demonstrar poder. O infeliz que me violentou (não consigo chamar de estupro) o meu silencio não permite), ele fez para provar que me dominava, para me calar, foi uma punição. Sempre fui independente e ele é um mascu idiota que acha que mulher que não dar para ele é sapata e sapata ele ensina a gostar de homem . Fiquei tão chocada. Que até hoje me pego olhando para o vazio, sou arrebatada para o pesadelo. To com um tipo de transtorno em que ninguém me toca, não quero ninguém me tocando e o flash back a toda hora me infernizando. O silencio me corrói só aqui desabafo. É importante falar, gritar se for possivel não pode deixar impune e silenciado. Eu não gritei a mão dele na boca não deichava eu mal respirava. Tentei mordelo não consegui, tentei bater, chutar sei là, tentei de tudo e não evitei. Culpa também me corrói. Eu não deveria estar lá, mas deveria sim é a rua que moro foi o visinho do lado. Nojo, nojo até vomitei. Não engravidei sou estéril, mas ainda assim tive a suspeita e fiz o exame. O desejo de ser mãe naquela hora havia desaparecido. Pensei em coisas que jamais havia pensado antes: suicídio, aborto, feminicídio ele poderi ter me matado afinal ele me ameaçou de morte, homicídio quero matar, polícia jamais vergonha de falar como foi, medo de não acredítarem, medo de não dar em nada e ele me mata mesmo mas antes me violentaria novamente. Minha vida acabou. O que ele falou de mim, o cheiro dele, as palavras tudo parece me sujar toda hora e choro no chuveiro.

michellehoracio disse...

Não posso mensurar o que é a violência de um estupro pra uma pessoa mas acho que ela não é só uma vítima.
Em um mundo lógico ela está em uma posição acima de um louco que a violenta e por isso deve ir atrás dele, atrás de justiça, de investigar e combater esse meio.
Então é isso Lola, a cultura do estupro estará presente pelo resto da vida marcada daquela pessoa que viverá vitimizada e nunca se desvencilhará da posição de inferioridade em relação ao seu estuprador?

Anônimo disse...

Em vários sites de contos eróticos,ou talvez em todos, a vitima (incluindo gays, entre outras) são estupradas e acabam "gostando da coisa", acho isso muito perigoso, uma péssima influencia. Mesmo que vários contos sejam fakes no minimo saem de mentes sádicas, covardes e doentias. A maioria desses sites de contos eróticos de alguma forma estimulam o estupro e abusos sexuais.

Love Gotic disse...

A novela da globo não deu a mínima para o estupro da melhor amiga da Helena. Nem parece que são amigas mal se falam . Na vida real é um desastre. As novelas mexicanas dizem que é um drama exagerado mas interpretam bem o horror desse ato. As novelas da globo só mostra a vida no Leblom e a classe média alta.

ANONIMA disse...

Custo a acreditar que uma mulher vá expor sua história e dizer que gostou. Os doentes leem e atacam as mulheres. Só incentiva tem tarado aí a maioria deles diz que a maioria das maioria das mulher tem fantasia com estupro. QUE MAIORIA? Eles mesmo escrevem essas coisas sórdidas e talvez alguma doente também. Há também aquelas sem juízo sem noção que nunca chegaram nem perto do que é um estupro e escrevem coisa bizarra.

normalidaderealidade disse...

Teve uma vez que uma menina de um coletivo que eu frequentava contou que os amigos dela queriam fazer uma festa especificamente pra fazer as meninas - sobretudo as calouras - ficarem podre de bêbadas pra tirar uma casquinha.

A menina ficou muito brava, mas os caras acharam estranho, já que ela era lésbica e por isso eles pensavam que ela iria compactuar com isso e abusar das meninas também. Eles não entendiam, já que "gostar de mulher" ("gostar") pra eles já presumia caçar com esses truques sujos. Era natural pra eles.


Também teve um causo de um rapaz de uma universidade americana na qual, durante uma viagem, os garotos colocaram um filme pornô. As meninas ficaram desconfortáveis, e o rapaz teve que convencer os outros a tirarem o filme dizendo "ah, eu gosto de pornografia tanto quanto os outros homens, mas acho que não tá sendo legal pra elas" - ou seja, ele tinha que especificar que ele estava "do lado deles" ao invés de só dizer que estava errado. A fraternidade entre os homens não pode nunca ser quebrada, mesmo caso você saiba que aquilo é abuso de poder. Não rola dizer "não pode isso", o cara tem que contornar, fazer-se convencer com toda uma retórica de "oi, gente, também sou homem, concordo com a prática de vocês, mas talvez, quem sabe, isso não seja tão legal assim, né, não sei", ou eles são punidos.

-Notyourmari

Anônimo disse...

ANONIMA, um estudo americano de 2009 indicou que 32% das mulheres pesquisadas já haviam tido fantasias de "estupro" (utilizando a palavra "estupro") e 52% tinham fantasia de ser subjugada (overpowered) por um homem.

Fora que mulheres são grandes consumidoras de contos eróticos, homens tendem a buscar o estimulo visual. Ainda assim, associar pornografia ao estupro nem faz sentido, até porque "a epidemia de estupros" nas universidades americanas não passam de uma relativização do termo "estupro". Nas pesquisas utilizadas para chegar nesse diagnóstico foi considerado "estupro" "tentativa de beijo forçado". Não é nem que deva ou não ser considerado estupro, mas até então não era, logo o aumento nas estatísticas não significa um aumento na prática. As denúncias indicam que a prática de estupro está em declínio nos EUA desde a década de 90 e as universidades não são exceção. E por conta da internet, a pornografia teve um boom desde a mesma década de 90.

Anônimo disse...

Que estudo foi esse, anônimo das 15:57? Nem é que eu duvide que ele exita, só quero saber como ele foi feito.

Renata disse...

Não achei nenhum estudo como o referido pelo anônimo das 15:57.
Se alguém achar esse estudo, poste o link por favor.
Grata.

Anônimo disse...

Sabe tenho a impressão que as feministas veem as vitimas de estupro não como vitimas do comportamento doentio de alguns indivíduos mas sim como provas da sua teoria que os homens são todos maus.

Anônimo disse...

Desculpem, o estudo mesmo eu não consegui o download, mas ele é referenciado em alguns artigos sobre o tema.
Tirei dessa matéria aqui: http://www.psychologytoday.com/blog/all-about-sex/201001/womens-rape-fantasies-how-common-what-do-they-mean

A referência é:
Bivona, J. and J. Critelli. "The Nature of Women's Rape Fantasies: An Analysis of Prevalence, Frequency, and Contents," Journal of Sex Research (2009) 46:33)

Anônimo disse...

Anon 15:57, já vi esse argumento e esse link para esse estudo em outros lugares. Não tive acesso ao estudo, portanto não o li. Mas o que posso dizer de quem usa este argumento é de que está tentando convencer as pessoas que essa porcentagem de mulheres aí gostaria de ser estupradas. E isso é abjeto.

Numa fantasia sexual, você tem o controle do que está acontecendo pois a fantasia é sua, você a comanda. A fantasia em ser subjugada ou subjugado é legítima mas é muito diferente de ser vítima de uma violência real, de um estupro REAL.

Dessa forma, trazer esse dado, estudo ou livro pra uma conversa sobre cultura do estupro é descabido. Porque fantasia sexual não tem nada a ver com o assunto.