domingo, 25 de maio de 2014

GUEST POST: LEMBRANÇAS GERADAS POR UMA MÚSICA

Camila ouviu a linda canção do Nenhum de Nós com o mesmo nome dela, canção clássica do final da década de 80, e um grande grito contra a violência doméstica. Isso lhe causou um turbilhão de emoções, que ela relata aqui. 

Camila, Camila - Nenhum de nós

Depois da última noite de festa
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
As coisas aconteciam com alguma explicação
Com alguma explicação

Depois da última noite de chuva
Chorando e esperando amanhecer, amanhecer
Às vezes peço a ele que vá embora
Que vá embora
Camila, Camila

Estou ouvindo agora a música, que foi lançada enquanto eu ainda era um bebê. De repente eu me sinto sentenciada pelo meu próprio nome, como se fosse algo que minha mãe soubesse, ou ainda algo que ela sentisse, foi ela que escolheu este nome pra mim. 
Eu lembro da minha mãe dizendo que tentou fugir quando eu nasci. Eu lembro de tê-la visto roxa, toda roxa e marcada a minha infância inteira. Olhos insanos os do meu pai quando o que ele fazia com a minha mãe não fazia sentido. 
Eu imagino ela ouvindo esta música comigo pequena no colo, ninando a Camila e pensando em fugir deste homem que é meu pai. Eu penso nisso tudo e dói, e dói ainda mais por que ela não conseguiu sair. Ela ficou. Ela não conseguiu escapar. Me dói ainda mais porque eu consegui. 
Eu tive um namorado abusivo, me separei dele quando as agressões começaram a sair do campo verbal para o campo físico. Quando ele começou a ficar com os mesmos olhos insanos. Eu me sentia dentro de um pesadelo, eu chorava a noite toda por noites seguidas, eu olhava para o céu pela janela do nosso quarto, e eu pensava que existia vida lá fora mas não existia mais dentro de mim. 
Eu dormia com medo que ele me machucasse, após algumas noites mais eu dormia com medo que ele me matasse. Eu ficava em casa sozinha torcendo pra que ele demorasse a chegar, eu saía e não tinha vontade de voltar. 
Quando eu era pequena eu lembro, eu ia para a escola e chorava quando chegava a hora de voltar pra casa. Aquela casa era um inferno, um inferno. Eu não acreditei quando vi que estava revivendo o mesmo inferno, a mesma sensação de pesadelo que eu tinha quando era criança. Eu estava vivendo tudo de novo.

Eu que tenho medo até de suas mãos
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega

E eu que tenho medo até do seu olhar
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega

Eu ficava acordada na sala, enquanto meu algoz dormia, eu me sentia caindo no fundo de um poço, rodando e girando, um poço sem luz, sem ter como sair, sem nada. Somente um pesadelo que eu não sabia como sair. Mas eu juntei forças e com auxílio dos amigos e especial de uma amiga maravilhosa que me convidou a morar com ela, eu saí. Eu consegui sair. Mas eu não tinha filhos, eu não dependia financeiramente dele, eu era livre, eu tinha amigos. 
Minha mãe não podia nada. Agora o refrão ecoa, e penso na minha pobre mãe, que não conseguiu sair, ela tinha filhos pequenos, era muito nova. Nós passamos tantas dificuldades que eu não tinha idade pra lembrar, meus pais ficavam sem refeição para que nós tivéssemos algo para comer. Eu lembro do olhar do meu pai quando as crises chegavam, eu tinha muito medo que ele a matasse, eu todo dia rezava pedindo que meu pai melhorasse, que ele não matasse a minha mãe.

A lembrança do silêncio
Daquelas tardes, daquelas tardes
Da vergonha do espelho
Naquelas marcas, naquelas marcas

Foi um pesadelo a minha infância, noites entrecortadas pelos gritos dos meus pais, em que eu e meu irmão saímos correndo pela rua na madrugada batendo na casa dos vizinhos pedindo ajuda. Lembro de um vizinho que da janela do seu prédio apontou uma arma para meu pai. 
Lembro da noite em que meu pai estava mais agressivo que o normal e expulsou minha mãe de casa aos berros no meio da madrugada, e voltou a dormir. 
No quarto também dormia a minha mais nova irmã, a caçula, com poucos meses. Eu acordada assistia a cena, os berros, a violência, a expulsão, e o medo todo que cortava o ar, o medo dentro de mim que minha mãe morresse. 
Minha mãe na rua, batendo de leve na janela da cozinha e pedindo aos sussurros que eu pegasse minha irmã e a tirasse do quarto, nós duas com medo do que podia acontecer. Eu tinha sete anos, era uma madrugada de inverno muito frio aqui no sul, eu entrei no quarto em silêncio e peguei no colo minha irmã enrolada em um cobertor, e saímos correndo de pés descalços pela rua. 
Eu lembro como se fosse ontem, o pânico e o horror nos nossos olhos, na noite escura e vazia, no inverno, no frio, na solidão, no silêncio, do chão duro e frio da calçada sob os pés, do vento cortante através da roupa, nós correndo pela rua pedindo ajuda. Eu queria que alguém nos ajudasse, mas eu não sabia como alguém podia nos ajudar. 
Foram anos assim até que meu pai fizesse um tratamento eficiente pra esquizofrenia que controlasse suas crises de agressividade, foram anos que ouvi minha mãe chorando em um dos quartos, por detrás da porta, no escuro das noites. Anos em que meu pai, paranoico, a perseguia. 
Meu deus, foram anos em que ela se sentia dentro de um pesadelo que não tinha fim, com três filhos, com dificuldade para alimentar os três, eu não consigo imaginar o que a minha mãe passou. Quanto mais eu lembro do que eu passei, mais eu só posso supor que o pesadelo que ela viveu não pode ser descrito, pobre da minha mãe, pobre da pequena Camila, do meu irmão, da minha irmã. Isso hoje é passado, mas foi um presente que durou toda a minha infância e que está vivo nos meus pensamentos.

Havia algo de insano
Naqueles olhos, olhos insanos
Os olhos que passavam o dia
A me vigiar, a me vigiar

Eu não pude acreditar que anos depois eu mesma encontrei um homem com o mesmo comportamento do meu pai. Eu não queria viver a mesma história novamente, entrei em depressão, mas consegui sair, e mesmo assim após um ano que nos separamos eu ainda sofro muito. 
E hoje descubro que a música "Camila, Camila", do Nenhum de Nós, fala sobre relacionamento abusivo. Essa transformação no olhar da letra realmente é a mais reveladora, olhos que te miram carinhosamente se transformam em olhos que você não reconhece mais, todo o amor se converte em um ódio do qual você é o alvo, e não faz sentido, nada faz sentido, e você continua a ser sugada para dentro do pesadelo. 
Eu me sentia como num filme, como se eu visse dois personagens atuando, não era eu que vivia aquilo, era um personagem. Todos cantavam essa música pra mim quando criança, eu sempre a achei muito melancólica. E agora tudo veio à tona, tudo que estava guardado, essa catarse de sentimentos e de lembranças, esse choro compulsivo enquanto imagino minha mãe com a Camilinha no colo tentando sair do seu pesadelo, ela ainda mais jovem e despreparada do que eu estava, com seus menos de vinte anos. 
Eu choro ainda mais pensando que ela nunca conseguiu sair, e me dou conta que eu tive a infelicidade de tornar esta música parte da minha biografia por duas vezes. Eu fui a filha da Camila, e me tornei essa Camila. Eu não sei quando a última Camila vai deixar de existir.

E eu que tinha apenas 17 anos
Baixava a minha cabeça pra tudo
Era assim que as coisas aconteciam
Era assim que eu via tudo acontecer

40 comentários:

Anônimo disse...

"Havia algo de insano, naqueles filhos, olhos insanos, os olhos que passavam o dia, a me vingar, a me vigiar"
O que será que torna os homens homens monstros? Eu também vejo no olhar deles uma fúria quase primitiva, em que parte da vida, eles deixam d serem garotinhos, e se tornam bestas feras sdentas de sangue?

Anônimo disse...

Nunca tinha prestado atenção nessa música antes! o.O

Anônimo disse...

"O que será que torna os homens homens monstros? Eu também vejo no olhar deles uma fúria quase primitiva, em que parte da vida, eles deixam d serem garotinhos, e se tornam bestas feras sdentas de sangue?"

Quando eles descobrem que existe toda uma sociedade apoiando a animalidade deles, especialmente o male entitlement. Homem se acha no direito natural de obter sexo sempre que quiser e quando não o faz, até mata. Vide qualquer caso de femicídio que se lê por aí, tal como o do atirador de Santa Bárbara, que declarou em inúmeros vídeos no YouTube seu ódio misógino e acabou matando seis mulheres e depois se matando (atitude típica de mascuzão e femicida em geral).

Anônimo disse...

Lola, mais um homem maluco matando mulheres... agora no Japão

http://www.japantoday.com/category/crime/view/akb48-singer-2-staff-members-slashed-at-handshake-event-in-iwate

Para quem quiser entender o que é o fenômeno AKB48 (e um pouco sobre o que são as Idols no Japão), aqui explica bem:

http://www.genkidama.com.br/anikenkai/2013/01/31/coluna-do-fred-akb48-ate-que-ponto-e-demais/

E ainda sobre as Idols, é importante dizer que existem também as Junior Idols. Meninas novas até mesmo com 3, 4 anos de idade que são usadas para todo tipo de promoção sexualmente limítrofe e legalizada por lá. Apesar que não é exatamente um segredo o quanto o Japão é pedófilo. Tanto que ter esse material pedófilo, mesmo explícito não é crime lá. Só distribuir que é.

Anônimo disse...

A doença causada pelo cromossomo y, sr manifesta com forca na puberdade.
Infelizmente seculos de uma sociedade patriarcal misógina, naturalizou isto.

Anônimo disse...

Lola. Vc viu esse video desse menino que matou várias pessoas nos EUA? O discurso dele parece o de um mascu que realmente colocou em prática oq fala... medo http://www.youtube.com/watch?v=MQUW3Km01BM&bpctr=1401051225
Emg

Alinne disse...

Eu quero muito poder ajudar mais a causa feminista, o que posso fazer? Preciso de um direcionamento.

Anônimo disse...

Lolinha, caso você escreva sobre o Elliot Rodger, o PUAHate saiu do ar, tanto o site quanto das redes sociais. Mas sabe como é, caiu no Google não sai mais. Coloca assim na busca:

"ElliotRodger" site:puahate.com

E em cada resultado, clica na setinha e pega a versão em cache da página.

Tem cada pérola.............

Sara disse...

Que triste q as suas lembranças da infância tenham tantas tristezas Camila, espero q pelo menos sua realidade agora seja mais feliz.

Anônimo disse...

Vamos deixar bem claro que o caso da Camila podia ter sido evitado com interferência médica.

Meu pai também é doente, e é por isso que ele quase matou minha mãe duas vezes. Não sei se a medicação teria impedido as crises dele, porque ele era super machista, então as justificativas dele eram até que bem "racionais" - num sentido que caiam nos clichês machistas, a diferença é que minha mãe apanhava quando olhava pro lado na rua, porque ela "estava dando" pra pessoa pra qual ela olhou. Ela cumprimentar uma pessoa já fazia ele conjecturar uma história de traição mirabolante. Mesmo quando era um desconhecido, quando era aleatório, e por aí vai. Uma vez ele fez um escândalo porque minha mãe disse "oi, tudo bem?" pra um amigo dele - ele berrava "COM MEU AMIGO TAMBÉM?" e foi expulso do restaurante. Era psicose mesmo, delírio persecutório somado com machismo. Insanidade mental com um problema de criação patriarcal. Deu nisso.
Como eu disse, não sei se a farmacologia daria jeito nele, já que tudo era causado por dois fatores. E eu nem sei se ele aceitaria a farmacologia, uma vez que ele acredita no mito do macho invencível.

Homem com doença mental pode ser incrivelmente perigoso. Eu era bem agressiva e já tentei me matar três vezes, mas eu nunca agredi ninguém nem me impus em cima de ninguém. Já um cara com o "entitlement" pode virar uma máquina de horrores. Machismo e psicose é igual a história de horror na certa.

MonaLisa disse...

Vocês viram isso? Um adolescente deixou vazar um vídeo intimo com a namorada, a família invadiu a escola e cobriu ele de porrada!!!

http://tvuol.uol.com.br/video/jovem-e-espancado-pela-familia-da-namorada-apos-video-intimo-vazar-04020C983070D0815326

Bem feito!

Jessica A. disse...

Embora o relato seja muito triste e comovente (fui cair na besteira de ler em voz alta, piorou a situação) é admiravel a qualidade da escrita e a construção do texto. Também achei muito legal da autora ter feito o paralelo pertinente entre uma mulher sem filhos e independente que conseguiu se livrar de seu algoz, e sua mãe com três filhos e financeiramente dependente. Afinal de contas ainda se ouve demais o velho adagio "se fica é porque gosta de apanhar". Muita força para superar tudo isso Camila !

Anônimo disse...

A agressividade masculina sempre foi algo bem aceito pela sociedade.Felizmente meu pai não era, mas meu avô era muito agressivo.Minha avó me contou horrores que passou.Moravam numa cidade pequena do interior e para ninguém comentar, levou-a para uma área afastada da cidade e a espancou com 8 meses de gestação.
Me lembro que eu era pequena e certa vez ouvi uma conversa entre senhoras amigas da minha vó.Uma perguntou: seu marido é bom pra você? E naquele dia acabei descobrindo que um marido bom era o que não batia na esposa.

Anônimo disse...

É preciso realmente educar as crianças dessa geração pra não naturalizarem a violência doméstica, não pensarem nela como algo justificável e nem aceitarem em silêncio. Camila, te desejo tudo de bom pro futuro, que seus relacionamentos sejam de paz e alegria, sem agressão nem abuso.

Ana Eufrázio disse...

Meu pai bateu na minha mãe pela última vez quando eu tinha 15 anos e reagi a agressão dele contra ela. O ameacei com uma faca, ele foi embora e nunca mais voltou. Apesar dela nunca ter me perdoado por tê-lo mandado embora não me arrependo do que fiz. (eu estava passando o final de semana com ela e foi a primeira vez que o vi a agredindo- morava com meus avós)

Anônimo disse...

http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2014/05/suspeito-de-filmar-surra-em-namorada-e-preso-no-ac.html

O cara espanca a namorada, um sujeito grava tudo e não faz nada, o agressor manda colocar o vídeo na internet... mais entitlement que isso eu acho impossível.

Pollianna Santos disse...

Camila, você não está sozinha. Muita força na tua luta! Ainda bem que escapaste destes dois perigos! Ainda luto para fugir do meu pesadelo e constantemente penso no que será da minha mãe, sozinha, nesta situação. Só sei que não aguento mais e do jeito que a minha cabeça anda, não adiantará muito ficar aqui.

Força para nós duas e para todas as mulheres que passam por tantas violências! Força, mulheres!

Sara disse...

Tive uma amiga já falecida, q contava q sua mãe era espancada regularmente pelo facínora do seu pai, que antes das sessões de espancamento reunia os oito filhos em volta da mãe para assistir o espetáculo.
Eu creio q no passado esse tipo de absurdos era até comum.
Mas como muitos dizem ainda, o feminismo não é necessário não é??

Anônimo disse...

Que post triste...Felizmente, embora os meus pais tivessem um casamento conturbado, o meu pai era da paz, assim como o meu avô e eu tive a sorte de namorar e casar com um homem pacífico também,que nunca me agrediu verbalmente, muito menos fisicamente.Mas infelizmente na família dele as coisas foram diferentes.A minha sogra se separou do meu sogro levando golpes de facas dele, ele só não a matou porque os vizinhos a socorreram.Quase duas décadas depois, ele acabou sendo assassinado por uma das mulheres que maltratou.No começo do ano assisti a uma cena terrível.O meu cunhado e a esposa, ambos jovens e com filhos pequenos sempre brigaram muito e várias vezes agrediram um ao outro.Se mudaram para o RS e fomos visitá-los.Quando chegamos lá, eu, o meu esposo e o sobrinho dele, nos deparamos com uma das cenas mais chocantes de nossas vidas: as crinças choravam enquanto o meu cunhado espancava a esposa, completamente nua.Nenhum vizinho tentou ajudar, ninguém nem ao menos chamou a polícia.

Ana Carolina disse...

A pergunta é: essa música é tão óbvia que como alguém pode tomá-la por uma coisa fofinha? Não é nem Every breath you take que até pode enganar, essa é óbvia sobre violência doméstica, a naturalização disso e o silenciamento de quem presencia...

Anônimo disse...

Camila, sua história me deixou comovida. Mas fico feliz por você ter conseguido escapar do relacionamento abusivo em que estava. Você rompeu um ciclo, prevaleceu!

Sobre os homens violentos, eu sempre penso que além da sociedade machista em que vivemos há o fator familiar. Sempre lembro do meu avô materno. Eu não o conheci, mas até hoje a memória dele é muito presente. Ele era um homem fantástico, gentil, que participou de perto da criação dos filhos e sempre foi super carinhoso. O exemplo dele ficou para os homens da minha família, eles são todos amáveis, carinhosos e nem um pouco machistas, pelo contrário, mesmo que não declarem eu os acho todos feministas! Acho que todo mundo que têm filhos deveria se perguntar: que exemplo estou dando? Que homem estou deixando para o mundo? A gentileza, tolerância e bondade se propagam por gerações...

Marcelo Mello disse...

Dia da retribuição, LOLA.

Anônimo disse...

Em um vídeo no Youtube, publicado um pouco antes do massacre, um jovem que a polícia acredita ser Rodger, reclamou amarguradamente da solidão e rejeição de mulheres e disse que planejava matar aquelas que o desdenharam.

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2014/05/25/atirador-da-california-diz-em-manifesto-que-policia-quase-estragou-seu-plano.htm

Anônimo disse...

Homem pode até possuir força física superior entretanto não possui nem metade do desenvolvimento psicológico de uma mulher, que permite a mesma ferir um homem sem força bruta, apenas com manipulação.

lola aronovich disse...

Não aceito comentários desse doente mascu sancto chamado Marcelo por aqui, mas quis deixar um pra dar uma amostra das ameaças que ele vem deixando pra mim nos últimos dias. Ou não é ameaça?
Eu não tenho medo de vc ou de qualquer outro mascu, seu covardão.

Anônimo disse...

http://g1.globo.com/goias/noticia/2014/05/garoto-suspeito-de-9-estupros-e-solto-por-falta-de-local-para-cumprir-pena.html

Relicário disse...

lindo post.. é por essas e outras que a música brasileira na década de 80 e 90 exprimem quase tudo o que quero dizer...

Anônimo disse...

Tenso. Passei por algo parecido na infância, embora as agressões físicas não fossem constantes (e quando eram eu me interferia, levava porrada mas tb dava, tristíssimo). O que mais me machucava era que depois minha mãe ainda defendia meu pai.
Dos 6 aos 18 anos jurava pra mim que nunca iria casar, pq nunca ia querer ter um cara como meu pai do meu lado. Felizmente, cresci e encontrei um homem que me ama e me respeita e rompi o ciclo de violência da minha família.

Anônimo disse...

Lola, alguns colegas de faculdade estão loucos atrás destes 'puazeiros', isso é perigoso também? Já ouvi várias coisas do tipo "eu não pego ninguém, elas só querem quem tem carro, bla bla bla". Esse tipo de coisa me assusta muito, um destes colegas quer ser comediante, mas ele só usa aquele mesmo discurso racista, misógino, e vários outros tipos de preconceito. Não sinto que ele queira alguma opinião ou ajuda, mas percebo que os discursos dele estão cada vez piores.

Anônimo disse...

Eu acho é pouco.
Como diria o velho ditado: "As pessoas raramente nos enganam, na maioria das vezes somos nós que nos enganamos a respeito delas".
A guria acha lindo quando o namoraduxo dá piti de ciúme a agarra pelo braço e sai arrastando.
Acha o máximo quando o namorado pitiboy quebra a cara de outro sujeito por causa dela.
Só esquece que depois de algum tempo, ela é que se tornará o alvo da violência.
Não tenho dó de mulher que sofre violência doméstica.
Mulher apanha porque gosta.
Porque quando não gosta, ela não releva, ela dá um basta.
Exemplo de mulher foi minha irmã, que um dia levou um empurrão do marido, mas foi uma vez só.
Depois que ele saiu de casa para trabalhar, ela juntou tudo o que tinha e foi embora, nunca mais voltou, por mais que ele rastejasse atrás dela implorando perdão.
Ela sempre dizia que quem bate uma vez, bate de novo e nunca mais voltou.

Brenda C. disse...

O anon das 23:47 disse:

"Sobre os homens violentos, eu sempre penso que além da sociedade machista em que vivemos há o fator familiar. Sempre lembro do meu avô materno. Eu não o conheci, mas até hoje a memória dele é muito presente. Ele era um homem fantástico, gentil, que participou de perto da criação dos filhos e sempre foi super carinhoso. O exemplo dele ficou para os homens da minha família, eles são todos amáveis, carinhosos e nem um pouco machistas, pelo contrário, mesmo que não declarem eu os acho todos feministas! Acho que todo mundo que têm filhos deveria se perguntar: que exemplo estou dando? Que homem estou deixando para o mundo? A gentileza, tolerância e bondade se propagam por gerações..."

Concordo totalmente com ele! A família é o ponto de partida da formação da personalidade de qualquer indivíduo. Viver no meio de pessoas sensatas, que se esforçam para fazer o seu melhor, que são amorosas e justas, é uma benção na vida de qualquer indivíduo.

Agora se vc vive em um ambiente cercado de pessoas violentas, que te humilham, manipulam, mutilam, destroem, que te desgastam, creio que restam 3 opções: vc pode reproduzir o que vivenciou; vc pode ficar desesperançoso com as relações sociais e se isolar; ou vc pode quebrar esse círculo se tornando independente e cercando-se de pessoas bacanas para conviver. Mas é claro que sempre fica o trauma daquele tempo.

Muitos problemas psicológicos se iniciam com a família, principalmente nos períodos em que somos mais vulneráveis: infância e adolescência.

Anônimo disse...

"Não aceito comentários desse doente mascu sancto chamado Marcelo"

Mas, Lola, se ele é doente, precisa de tratamento e não de prisão.
Contradição detected.

Sara disse...

ANON 14.40HS não venha validar seu machismo, culpando a mulher q sofre violência, nem todas tiveram a sorte q sua irmã teve, muitas q tomam a coragem de fazer o q ela fez, acabam mortas, e sua falta de empatia, já da pra ver o tipo de pessoa insensível q vc é.

Anônimo disse...

Para o anonimo das 14:40: Voce acha pouco ? Se liga, existem pessoas alem de vc e da tua irma, nem todo mundo e igual e vc deve ser uma pessoa extremamente egoista e ignorante para julgar dessa forma alguem que passou por tanta coisa. Agressor e culpado e ponto final.

Camila disse...

Oi gente, sou a Camila do post.

Quero agradecer de coração as palavras gentis de todos.
Este texto foi escrito ano passado, então foi surpresa pra mim abrir o blog e dar de cara com meu texto (achei que não seria publicado por ser muito pessoal).

Foi com grande surpresa que constatei como eu estava numa pior, de verdade. Embora eu estivesse muito triste na época, eu não tinha noção de que estava no fundo do poço dessa forma. Relendo este texto, percebo como estava mal. Quero dizer a todas que estou muito melhor. Fiz muita auto analise nesse período, e fico muito feliz de constatar que consegui superar isso, ainda que não completamente, mas uma boa parte.

Estes problemas me ajudaram a crescer e enxergar a forma como o patriarcado está entremeado na sociedade. É um problema sério e crônico, no qual feministas são acusadas de loucas por enxergarem a realidade. Mas tenham certeza, meninas, a realidade é esta mesmo. E nós somos corajosas o suficiente para enxergar isso com toda sua dimensão.

Antes de ter esse namorado abusivo, nunca tinha ouvido falar de violência doméstica, mesmo com tudo que passei na infância. Isso é o mais irônico, violência doméstica é uma pandemia na qual as futuras vítimas não fazem ideia ao que estão sujeitas. E quando chegam a vez delas, não sabem o que está acontecendo. Antes de me separar do sujeito, eu tive um insight certa noite, de pesquisar sobre relacionamentos problemáticos, e assim acabei descobrindo uma farta literatura que trata do assunto. Com a força dessa amiga que me chamou pra morar com ela e com muita coragem, coloquei em prática o que assimilei das leituras. Desde então me perturba muito o fato de que violência doméstica é extremamente comum e ao mesmo tempo ignorado no nosso país. A maior parte das mulheres não tem ideia de que estão num relacionamento abusivo.

E um dos problemas é que as pessoas, como esse Anônimo ignorante, tem preguiça de pensar com a própria cabeça e fica repetindo frase feita (parabéns anônimo, você vai muita longe na vida, continue assim seu looser de m*).

Meu ex era uma boa pessoa, fazia caridade, doava sangue, era estudioso, trabalhador, nunca brigou com ninguém na rua, era do tipo magrinho. As pessoas não tem ideia de que um tipo desses pode causar um relacionamento abusivos. Não tem ideia por que o vilão do relacionamento abusivo está infelizmente preso a estereótipos, como de homens pouco instruídos ou valentões. E graças a ideias completamente erradas de romantismo e amor, em que homens possessivos e stalkers são vistos pela sociedade/parceiras como homens "românticos", o número de vítimas está longe de começar a diminuir, infelizmente.

Porém esta experiência me trouxe uma nova percepção: hoje eu tenho consciência do quanto as mulheres são muito mais aptas a viver nesse mundo, exatamente por sermos mulheres nessa cultura. A gente tem que superar tanta coisa, tanta coisa que os homens nunca irão passar, que acabamos desenvolvendo muito mais várias qualidades. Somos muito mais capazes de enfrentar problemas e de superá-los. Depois de tudo que passei, pude constatar isso. Eu gostaria que todas soubessem da imensa força que tem, simplesmente por que o mundo nos maltrata o tempo todo, e nós superamos isso todos os dias. E nós apesar da tristeza e da dor, estamos mais que sobrevivendo, estamos avançando na sociedade e conquistando espaço. Vejam em cada mulher esta força, está lá.

Um graaaande abraço ^^

Camila disse...

Respondendo individualmente às queridas que comentaram <3

Anônima das 16:28 - Nem eu, foi como uma bomba.

Anônima das 16:45 - Acredito que seja este mesmo o problema, o que explica por que mulheres com transtorno mentais não possuem a mesma conduta agressiva.

Anônima das 17:43 - Comece um blog, uma página no facebook, um grupo de amigas (e me chame ^^). Comece a conversar com as pessoas ao seu redor sobre isso, educando-as no sentido literal da palavra já que a maioria das pessoas não percebe que pratica preconceito de gênero. Da mesma forma que racismo hoje é crime, machismo vai ser também, converse sobre isso.

Sara - Obrigada, estou muito melhor sim! Tristeza traz muito auto conhecimento, ou eu assim escolhi. Desistir do feminismo jamais, hehe! Estamos juntas nessa!

Anônima das 17:43 - O caso foi curado em partes com interferência médica, pois crises de agressividade são iminentes e imprevisíveis nos casos de esquizofrenia, mesmo com cuidados médicos. Ainda impera um medo constante em minha mãe, diante da instabilidade das medicações do meu pai (felizmente eu não moro mais lá).

Jéssica A. - Ler em voz alta é indicado por psicólogos para dar força as palavras, inclusive promessas que fazemos a nós mesmos rsrs muito obrigada pelos elogios! Vejo minha trajetória muito parecida com a da minha mãe, porém ela teve bem menos acesso a informação e recursos, infelizmente.

Anônima das 20:58 - Exatamente, é nosso papel educar as próximas gerações para não naturalizar violência. Obrigada, flor!

Ana Eufrázio - Virei sua fã, sério. Que mulher! Você é um exemplo incrível para as mulheres ao seu redor. Por um mundo com mais mulheres corajosas como você.

Pollianna Santos - Lembre-se que não terá como ajudar tua mãe antes de ajudar a ti mesma. Sem saúde mental, não conseguimos cuidar nem de nós, que dirá de outros. Aprendi a duras penas isso. Não é egoísmo, é a simples realidade. Força pra ti, tenha certeza que tem toda a capacidade para mudar tua situação, e quem sabe também a da tua mãe.

Anônima das 22:59 - Que cena triste! Como vocês reagiram? Espero que a esposa tenha conseguido se salvar dessa situação. Triste demais.

Ana Carolina - Ninguém nunca mencionou o seu significado para mim, e as pessoas cantam (sim, até hoje, imagine minha cara) como se fosse algo bonitinho desde que sou bebê... creepy.

Anônima das 23:47 - Realmente rompi esse ciclo. Tanto meu pai como minha mãe foram praticamente espancados pelos pais. Essa história de violência acabou aqui, não será transmitida ao menos por mim. Fico feliz pela lembrança que tem do teu avô, tornou você esta pessoa consciente =)

Relicário - Obrigada =)
Anônima das 11:04 - Também pensava em nunca me casar, mas hoje vejo que nem todos os relacionamentos são tristes. Que bom que conseguimos enxergar além.

Anônima das 16:16 - Tenho feito várias leituras de psicologia que vão de encontro ao teu comentário. A personalidade é moldada em muito pela família. Se você viveu em uma família violenta, vai ser difícil romper o ciclo. Faço um esforço danado, mas estou conseguindo.

Anônima das 22:36 e Sara: Infelizmente para este tipo de pessoa ignorante, um homem agressivo deve simplesmente ser deixado de lado, como se depois de abandonado ele fosse... sumir. Como se este homem não fosse ter relacionamento com inúmeras mulheres na vida, enfileirando vítimas. Mesmo que uma mulher tenha a informação adequada, fibra e coragem pra se livrar do homem, uma próxima desavisada vai cair na armadilha, e vai precisar da mesma coragem. Deveria existir um cadastro nacional de homem abusivo, pra que todas pudessem conferir o passado violento do parceiro. De outro modo, não há como saber.

Abraços a todas <3

Anônimo disse...

Gente NUNCA imaginei que esta música fala disso...Amava essa música quando era pequena, mas só ssabia cantar o refrão...Escolhi o nome da minha irmã por causa desta música e minha mãe diz que era uma febre de nome Camila na época...tudo por causa da música, que foi um sucesso.

Anônimo disse...

Eu vive essa violência na infância, minha mãe casou e depois do casamento meu pai se transformou e começou a beber e muitas vezes bateu nela, lendo este post foi como ver um filme.. e não acredito que alguém apanhe pq gosta como escreveu o cara aí... minha mãe tinha 4 filhos e uma mãe na cama, minha mãe sempre apanhou calada e usou óculos escuros para esconder olhos roxos, até que um dia ela deu um basta e meu pai se viu sozinho e prometeu que se ela o perdoasse ele nunca mais iria bater em nós ou nela e nunca mais colocar uma gota de álcool na boca, faz 18 anos que meu pai não bebe e é outro homem, um pai presente, doce, arruma a casa, faz café da manhã para os filhos... hj temos idades entre 35 e 24 anos...eu não sei pq ela perdoou ou aguentou, talvez ela tivesse vergonha de tornar publico o inferno que vivia, orgulho talvez, pq ela nunca foi dependente financeiramente dele, é uma mulher formada e pós graduada, chefe de setor publico,eu realmente não sei, mas eu gosto de ver o homem que se modificou pela família, eu não aceitaria essa violência comigo pq quero esse inferno longe de mim

@CoelhoAninha disse...

Camila,
Tô chorando com sua história.
Espero que seu pai esteja devidamente medicado e sua mãe esteja vivendo uma vida tranquila...
Quanto a você, parabéns pela coragem! <3

Eu acho que, na maioria das vezes, as mulheres não percebem que estão em relacionamentos abusivos. Muitas acham "normal" esse comportamento. Além disso, nunca é fácil romper com isso, principalmente porque você acredita que ama o cara (e que ele te ama de volta).

Enfim, obrigada pelo relato corajoso! Força! :D

Anônimo disse...

amo a música.

Camila, Camila, na verdade não se chamava Camila...

Eles mudaram o nome da menina justamente para não identificar uma colega de escola vítima de violência doméstica.

Camila (do post)a sua história também é a minha, só q o meu pai não era esquizofrenico, era só mau mesmo.