sábado, 8 de junho de 2013

GUEST POST: ANA DIFERENTE

M. me enviou este conto de sua autoria que fala sobre ela. Ela preferiu não se identificar.

Ela nunca entendera realmente o que estava fazendo ali. Ela era diferente de todas as outras meninas. Ninguém conseguia entender por que ela era assim. Mas ela era. Ana nunca soube. E queria entender como era tão julgada, e a todas as horas questionada sobre sua orientação sexual. Ana também não conseguia entender por que as pessoas tinham nojo dela. Por que olhavam diferente, se ela tinha dois braços como todo mundo, se tinha dois olhos como todo mundo, e se ela era tão igual como todo mundo.
Na adolescência, Ana apaixonou-se naturalmente por uma outra menina. Ana nunca entendeu por que nunca pode contar algo que para ela era tão natural. Por que algumas pessoas tinham tanta raiva dela. E por que, se as outras pessoas saíam com seus namorados e namoradas normalmente por aí, por que com ela tinha que ser diferente.
Ana era uma menina comum, como qualquer outra. Mas ela era diferente. Mesmo que igual. Ana era diferente porque pensava demais. Era também diferente, porque mesmo sendo diferente, não se sentia diferente de ninguém. Ana continuava sendo ela mesma. Continuou a gostar das mesmas músicas. Tinha sonhos como todo mundo também. Só que mesmo suas diferenças não a faziam pior nem melhor que outra pessoa.
Por muitas vezes em sua vida, ela foi recriminada, julgada, apontada. Mas isso não a tornou uma pessoa pior. Muito pelo contrário. Ana entendeu que nem todo mundo pensava diferente. Que nem todo mundo estava disposto a sair da sua zona de conforto e pensar diferente. E que mesmo sendo tão maltratada, ela tolerava resignadamente algumas injustiças. Por esse motivo, Ana calou-se, e começou a observar como a vida funcionava. E isso a fazia cada vez mais diferente.
Se eles podem colocar os nomes de seus namorados numa rede social, e ninguém tece nenhum comentário maldoso, por que com Ana teria de ser diferente? Se eles podem ser quem são, sem ninguém ficar perguntando a todo momento por que eles são héteros, e se eles têm certeza de que são héteros, por que que com Ana teria de ser diferente? E mesmo assim, Ana ainda achava seu modo de vida tão normal como o de qualquer outra pessoa. 
Ana decidiu então viajar. Tirar férias. O destino seria o mar. Apenas o mar e os ventos como seus companheiros. Ana nunca entendeu por que teve de pagar o desprezo da sua amada, ao ter contado a verdade para a mãe dela. E por que a mãe dela tinha tanta raiva de Ana. E por que a mãe de sua ex-amada quebrou o presente que Ana enviou à sua ex-amada no dia do aniversário, além de ter rasgado a carta. 
Ana nunca entendera por que todo mundo tinha tanta raiva dela, sendo que ela não tinha ofendido à sua ex-amada e nem à mãe dela. E Ana nunca mais voltou da sua viagem ao barco. Nunca mais foi a mesma. Ana ficou traumatizada, porque nunca mais conseguira amar nenhuma outra pessoa. Porque a pessoa que um dia a amou passou a dizer que Ana era louca, completamente louca. E como o destino costuma ironizar a vida, Ana enlouquecera no mar. 
Afogou-se para nunca mais existir.

14 comentários:

Wellington Fernando disse...

Eu me questiono quantas e quantas Anas por aí não vivem esse mesmo drama, essa mesma dor, esse mesmo desfecho?
Acho muito curioso que uma simples cena de beijo entre duas pessoas do mesmo sexo cause tanto escândalo, enquanto que cenas de violência e assassinato são mostradas à exaustão na tevê sem qualquer reação de repúdio. A moral dessa história é que um gesto de afeto entre duas pessoas que se amam é mais condenável que o assassinato. Bem estranha essa moral.
A nossa sociedade está doente e cega. Mas, apesar de todas as evidências contrárias, eu acredito que um dia nós passamos viver em um mundo onde todos possam ser amados e respeitados pelo que são. E mais do que isso: onde todos sejam livres para amar quem quer que seja, livre de preconceitos. Nós temos em nossas mãos o poder de salvar vidas como as de Ana. Mas é preciso coragem, audácia e persistência neste ideal. Eu não pretendo desistir tão cedo deste sonho.

Regina Fernandes disse...

Lembrei-me da música Mar e Lua do Chico Buarque, lindamente interpretada por ele, depois pela Simone. Bonita a música, bonito o texto...

Mar e Lua

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Douglas disse...

Lola ,preciso de uma ajuda.Procurei na internet,mas sem sucesso.Vc tem link para denúncia de perfil racista?Vi no site Terra comentário nojento contra a tenista Serena Willians.Absurdo que não façam nada.
http://esportes.terra.com.br/tenis/grand-slam/serena-vence-jogo-duro-com-sharapova-e-conquista-bi-em-roland-garros,837c23b0d442f310VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html

Bela Campoi disse...

Pura poesia, mas triste...
Escrever pode mesmo amenizar as dores!

Dree Alves disse...

Quantas Anas existem perdidas nesse mar sem fim de preconceitos.
Tão triste uma pessoa ser tratada diferente por amar. Logo, por amar, como se o mundo não precisasse se mais gente capaz de amar, de cultivar o amor.

Nathaly Moraes disse...

Regina Fernandes, também lembrei-me de uma música, mas d'O Teatro Mágico, Ana e o Mar:

Veio de manhã molhar os pés na primeira onda
Abriu os braços devagar e se entregou ao vento
O sol veio avisar que de noite ele seria a lua,
Pra poder iluminar Ana, o céu e o mar

Sol e vento, dia de casamento
Vento e sol, luz apagada no farol
Sol e chuva, casamento de viúva
Chuva e sol, casamento de espanhol

Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada se estende pro resto do mundo
Abençoando ondas cada vez mais altas
Barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
Desse novo amor... Ana e o mar

http://www.youtube.com/watch?v=HDwHQk70-P8

Dani disse...

Lola, é a primeira vez que comento aqui e gostaria de te parabenizar pelo blog, é ótimo!! O meu comentário não tem relação com o post. Gostaria de te pedir para dar uma olhada nessa página do facebook, pois o seu blog tem bastante visibilidade, e acho importante que páginas com ideologias como a desta sejam denunciadas por um grande número de pessoas (não só ao facebook mas, se possível, à polícia federal). Eles não se dizem racistas, porém o símbolo deles é análogo a uma suástica (parece uma suástica meio torcida), e eles tem umas publicações que me deixaram realmente preocupada. Como uma, que eu denunciei, em que chamam desonra uma mulher branca se relacionar com um homem de origem africana. E outra, que me deixou muito incomodada, em que fazem uma "piada" dizendo que deviam espalhar seus espermatozoides em bancos onde só mulheres brancas sentassem, para preservar a "raça branca" (acho que está relacionado com um vídeo publicado neste post). Também vi um post com um vídeo mostrando uma mulher de pele escura, que pelo título do vídeo eu entendi que provavelmente estava falando de um assunto relacionado a sexo (não tenho certeza, não assisti), e vinha acompanhado dessa frase, por parte da página : "Tá vendo? Por isso que é tão importante a diversidade cultural" o que, pelo conteúdo da página, só pode ter caráter irônico. Logo, pelo que eu pude entender, não é uma página apenas racista (não que fosse pouco) mas também misógina. Segue o link:

https://www.facebook.com/RacaBrancaForcaeHonra

patricia. disse...

Muito lindo o seu texto,moça!
E olha, de vez em quanto, por um tempo, o mar não é um lugar tão ruim de se viver. Às vezes, serve para gente espairecer as idéias, entender melhor o mundo, produzir textos bonitos como esse...

É revoltante pensar o quando as coisas poderiam e deveriam ser diferentes. Imagino o quanto é difícil para você e para todas as outras Anas, mas essa não é uma luta só de vocês, vocês não estão sozinhas!

Eu gosto de pensar que um dia, mesmo que ainda esteja muito,muito longe, o mundo vai ser um lugar justo:)

Natália T. disse...

"Ana também não conseguia entender por que as pessoas tinham nojo dela. Por que olhavam diferente, se ela tinha dois braços como todo mundo, se tinha dois olhos como todo mundo, e se ela era tão igual como todo mundo."

Poxa, esse trecho me soou TÃO preconceituoso. Então se vc não tiver um braço, ou uma perna, enfim, for deficiente, é ok as pessoas sentirem nojo de vc?

Unknown disse...

Por ironia do destino, Ana é o nome de uma das meninas presas ontem na Marcha das Vadias ontem em Guarulhos. Já foram soltas, mas teve que ter intervenção da OAB e uma deputada

Anônimo disse...

Lola, gostaria de fazer um pedido, será que tem como colocar um sistema de buscas no seu blog, para facilitar a localização de textos sobre determinado assunto?
Ou teria como separar por temas, por exemplo, corpo, estupro, aborto, homossexualidade, etc?

Estou procurando seus muitos posts que falam sobre como a pessoa gorda sofre preconceito, e sobre como o corpo da mulher é sempre tido como assunto público, vc tem mtoas por aqui sobre esses assuntos, porém sem um sistema d ebuscas é dificil de localizar (eu estou procurando especificamente sobre preconceito contra pessoas gordas e sobre como todo mundo acha que pode opinar sobre como a mulher deve ser e usar seu corpo, já li vários mas agora que preciso não consigo encontrar)

Obrigada pela atenção

Triste esse post da Ana, sorte à moça, que ela busque forças dentro de si e com amigos.

Bjs

lola aronovich disse...

Anon, o blog tem sistema de busca. Veja aí no canto superior esquerdo. Tem uma lupinha, tá vendo? Aí é só escrever, que ele te leva aos posts com aquela palavra-chave. Não é muito fácil (às vezes é melhor procurar no Google, algo como ESCREVA LOLA e o que vc procura; inclusive, o Google encontra até comentários no blog, o que o sistema de busca interno não faz). Preciso sim colocar os posts em categorias, pra ficar mais fácil de encontrá-los, mais ou menos como é no caso dos filmes. Mas falta tempo... Outra coisa que vc pode fazer é clicar nos tags. Por exemplo, o último post que publiquei com a tag ACEITAÇÃO DO CORPO foi este guest post da M, na terça. Se vc for no final do post, logo antes dos comentários começarem, vc verá o LABEL Aceitaçaõ do corpo. Clicando nele, aparecerão vários outros posts com esta tag. Outro tag que pode te interessar é o MITO DA BELEZA (no final deste post, por exemplo). Não tenho uma tag específica pra gordofobia. Isso entra nas outras tags de aceitação do corpo e mito da beleza.
Boa sorte!

° Emy ° disse...

E as Emys se entristecem pelas Anas...

:(

Daniele disse...

recentemente minha prima mais nova ser assumiu lésbica, o que na verdade, nos já esperávamos. O que me deixou orgulhosa mesmo foi o cometário da nossa avó. Ela disse:
- Isso não faz a menor diferença, vou continuar amando minha neta igual! Igual não, vou amar muito mais, porque vai ter um mundo la fora que vai odiá-la simplesmente por ser como é!