quarta-feira, 28 de abril de 2010

AJUDA DOS UNIVERSITÁRIOS

Recebi este email da LPP, uma leitora de Angola. Como não sei responder, peço ajuda de vocês. Eis o email da moça, publicado após sua autorização.

"Leio seu blog todo dia aqui em Angola...e tenho uma dúvida.
Eu so trabalho com homens, vou e volto do trabalho com seis homens numa van, são 38 homens e cinco mulheres.
Me sinto orgulhosa de ter vencido numa carreira totalmente masculina (sou consultora de TI), sem levar desaforo para casa.
O problema é este: surgiu uma oportunidade de promoção para gerente, mas meus diretores alegam que eu não tenho maturidade, e eles não querem perder uma excelente técnica e ganhar uma má gerente.
O problema, eles dizem, é que falo demais... que num último e-mail a eles, para provar que eu tinha razão, eu colei até uma lei.
Eles alegam que eu descontruo tudo, em pró da razão, e isso humilha as pessoas; elas se sentem burras e agredidas.
A questão toda é que eu até concordo que às vezes é melhor ser mais política e deixar a razão em segundo plano, tem momentos para tudo... Mas o que pega é que estes mesmos homens que me julgam são o espelho do Capitão Nascimento – brigam, berram, mandam.
Mas para os homens isso é permitido e para as mulheres isso é proibido. De nós só se espera que a gente sorria e acene como os pinguins no filme Madagascar.
Minha duvida é... como falar isso sem mais uma vez mostrar que tenho razão e eles se sintam humilhados?"

Ajudem, please, porque é uma ótima dúvida, que aflige a tantas de nós.
E aproveito para passar a sugestão de um excelente artigo (do Tim Wise, em inglês) que várias leitoras me enviaram ontem. Tem tudo a ver com o email da LPP, já que é sobre privilégios. Mulher liderando e dizendo o que pensa é grossa, mandona, sargentona (como a direita anda chamando a Dilma)... masculina, enfim. Homem fazendo exatamente a mesma coisa é um líder nato, competente, assertivo... e muitíssimo bem-preparado pra comandar, seja a empresa ou o país.
Sounds familiar?

22 comentários:

Mari Moscou disse...

Puxa, eu concordo que a situação é difícil e complexa. Outro dia fui classificada de "esquisita" num contexto um pouco diferente, mas claramente pelos mesmos motivos... (publiquei esta historinha no www.mulheralternativa.net)

Acho que, a rigor, deveria-se processar estes trogloditas. Mas imagino que a leitora não quer perder o emprego ou ficar numa situação ainda mais desconfortável na empresa...

Talvez uma dica seja colocar o temperamento dela como uma virtude para um cargo de liderança, dando exemplos dos atuais líderes da empresa (que segundo ela realmente agem da mesma forma).

Que aí estamos reforçando uma máxima segundo a qual para que uma mulher exerça cargos de liderança com eficiência ela precisa ser um pouco "masculina", já é outra história. Mas infelizmente me parece a única solução sensata...

garotacocacola disse...

Melhor será ela coletar artigos e pesquisas feitas pelo mundo que mostram a eficiência de pessoas como ela - com personalidade forte e que é amiga da verdade - na posição de líderes.
Eu tive esse mesmo problema em 2008, quando meus superiores - todos homens - me criticavam porque para tudo eu coletava dados que confirmavam que minhas idéias tinham fundamento. Eles sempre alegavam que eu me estendia nas explicações. Mas quando eu era direta (e eu sei muito bem ser direta) eles tiravam minha razão e me ignoravam, como se o que eu falsse fosse irrelevante.
O problema só acabou no dia em que o gerente me provocou numa reunião, e eu chutei o balde. Hoje não trabalho mais lá, mas em 1 ano consegui o cargo de gerente em outra empresa, e aqui ninguém me critica por coisas convenientemente ligadas ao fato de ser mulher.

Kyhetha disse...

AAAI MEU DEUS
TI. Minha (futura) área. xD


Engraçado ver que na minha turma da faculdade, 3 mulheres, 25 homens. E ainda estamos no 1º semestre. Quantas meninas se formarão? :O


Pelo menos espero conseguir vencer nessa 'área masculina'. E espero encontrar mais mulheres tentando entrar pra carreira de TI :D


Agora, no caso dela, o melhor seria mesmo fazer como a Mari Moscou e a garotacocacola disseram: destacar o temperamento dela como uma virtude.


O que eu não entendo (MESMO) é pq eles a criticam, sendo q o que ela faz é correto: ELA USOU UMA LEI PRA PROVAR QUE O QUE FEZ ESTÁ CORRETO! Qualquer pessoa (mulher/homem) faria isso! Agora, pq ela é mulher e toma atitudes para se impor, ela é errada? APOSTO que se fosse homem, eles o contratariam como gerente pq tem 'pulso' e sabe provar seu ponto de vista.

Mas é que ser corrigido por uma mulher é humilhação, não é mesmo?

ninguém merece!

Anildo Advogados Associados disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Laurinha (Mulher modernex) disse...

Minha opinião: se ela tem razão e eles se sentem humilhados por isso, o problema está com eles, não com ela. Ela deve falar com eles argumentando racionalmente da mesma forma que está no email. Se eles forem justos, vão dar razão a ela e vão promovê-la. Provavelmente vão se sentir humilhados mais uma vez por perderem nos argumentos pra uma mulher, mas vão ter que aprender a conviver com isso.

Abraços Lola

Adriana Karnal disse...

difícil...pq ela pode até perder o emprego...

Mulheres Inteligentes Escolhas insensatas disse...

É quase um beco sem saída. Quanto mais ela tentar provar seu ponto de vistas, mais vai ficar taxada como "a chata que quer provar tudo e ser mais inteligente e bla bla bla". O problema de ser estigmatizada é justo esse, tudo que vc faz passa a ser uma prova do seu estigma.
Acho que a única coisa que pode funcionar, mas a médio e longo prazo, é ela diminuir a intensidade. Explico: ela não deve gastar o latim dela com coisas que não sejam tão importantes, pq aí, quando forem de verdade, ela terá mais crédito. Ao invés de ser a certinha-explicativa-normas ambulante sempre, passa a ser só em situações realmente relevantes. terá mais crédito, queimará menos cartuchos à toa.

GiGi disse...

Só tenho uma observação que pode complementar o que já foi dito.

Mulheres delicadinhas, mimosinhas, que sejam exatamente como mandam os padrões, não são respeitadas, não! Nem pelos homens e muito menos por outras mulheres, as quais olham até mesmo com repúdio.

No papel de líder, não digo para adotar uma postura de estupidez e do tipo "aqui quem manda sou eu", mas sim uma postura firme, que demonstre segurança e confiança para os outros.

Temos tantos exemplos históricos de mulheres que foram excelentes líderes! Pena que elas continuam ocultas ainda hoje.

Uma dica: assistam ao filme Ágora.

aiaiai disse...

Caramba,

acho que a melhor ideia é da garotacocacola, embora vá reforçar a ideia de que é é uma pessoa inteligente e que sabe coletar dados para provar seu ponto de vista.
também acho boa ideia - dependendo de como é o chefe dela - falar diretamente sobre o assunto com ele, como ela expos no e-mail (como a laurinha sugeriu). Mas tem que ser um papo só entre os dois, uma conversa profissional, não um debate.
a outra alternativa é a que eu escolhi (há muito tempo): me tornei independente. É claro que ainda tenho clientes, e eles muitas vezes reclamam exatamente que eu sou muito direta, chamam de agressividade. Só que como eles não me pagam para ser gente boa e sim para entregar um bom trabalho (o que, modéstia as favas, eu sempre entrego kkkk)eles ignoram a minha suposta "agressividade". Se resolvem não ignorar, por mim tanto faz, paro de trabalhar para o tal cliente. Mas eu posso fazer isso porque sou independente e tenho uma fila de empresas querendo me contratar.
Esse ano mesmo já mandei dois às favas. Terminei o trabalho mas já avisei que no ano que vem não vão poder contar comigo.
Essa é uma boa alternativa também na área de TI, mas vc tem que construir a sua carreira solo e isso leva tempo, persistencia e muitos momentos de incerteza. Mas, eu garanto, pode dar certíssimo!

Omar Talih disse...

Cara, Lola, diga a LPP, que isto é uma reação machista e que ela encontra muitas respostas em um livro do Dale Carnagie (não sei se a grafia esta correta) "como fazer amigos e conquistar pessoas".

Bruna Kloppel disse...

É, infelizmente vivemos em um mundo machista. Às vezes, temos que escolher entre nossas convicçoes e agradar os outros (e ao agradar os outros, incluem-se promoçoes)... Não vejo saída não!

samya disse...

Ela esta num contexto social completamente diferente do qual, creio, estamos acostumadas. Ela esta num pais africano onde as posições sociais homem/mulher estão definidas dentro de tradições e hierarquias muita diferentes das brasileiras. Tem certeza que vocês poderiam dar alguma resposta à pergunta dela? Eu não poderia. Abraços a todos

Laura disse...

Não tenho nada a acrescentar pra LPP.Concordo com a aiaiai.

Agora, sempre me abismo como tem gente boba no mundo, né?

Elizabeth disse...

Bem, infelizmente, eu não sou muito "iniciada" no feminismo,mas vou dar meu pitaco.
Acredito muito na "sabedoria feminina" para lidar com os desafios: mulher lê nas entrelinhas, mulher tem a percepção mais apurada. Eu aconselharia a LPP a deixar que a Diretoria se convencesse de que ela é a melhor preparada sem, no entanto, "bater de frente". Isso exige inteligência e muito tato. Mas quem disse que não temos essas qualidades em abundância?

Thiago Beleza disse...

Poucos homens comentaram não?

jà passeipor várias situações parecidas.. talvez não a mesma problemática, mas a mesma intransigência de chefes (a última era uma mulher e decidiu por me demiir por Justa Causa por um post no twitter)...

Mas reconheço o que a leitora descreve, principalmente na área de TI, onde predominam os homens.....

O sexo (ou a sexualidade) nunca foram fatores determinantes pra mim em um ambiente de trabalho (e de uns anos pra ca passou a não ser em qualquer ambiente), por isso é uma questão complexa. Penso que será difícil enfiar na cabeça dos energúmenos que o problema é sexista....assim como ninguém se admite racista ou homofóbico, nenhum homem (ou mulher) se reconhece machista...

Sendo assim, sugeriria manter a pose e a tenacidade....

Mesmo que isso custe seu emprego, garantir a dignidade e sair de cabeça erguida, esfregando na cara dos infelizes que foi demitida por ser jais competente do que eles gostariam que ela fosse..

PS: faz tempo que não comento aqui...saudades dos debates acalorados do blog.. parei de acompanhar desde a sua maratona pra inocentar o polansky...srsr..

abraços

Renata Minami: disse...

Olha, eu já ouvi muito (agora ouço muito menos) essa crítica de alguns chefes meus (homens e mulheres).
Acho que você deu azar (e a maioria das pessoas dão esse mesmo azar) de trabalhar com pessoas cujo perfil é o do capitão Nascimento. Isso é uma questão de perfil, além do machismo.
Concordo que quando uma mulher se exalta ou se impõe mais, ela é sempre a louca (a Lola já até falou sobre isso em um de seus posts), mas acho que há formas e formas de lidar com cada situação.
Não penso que causar o sentimento de humilhação em qq pessoa possa ter um lado positivo. É claro que seres humanos são complexos e sua melhor atitude pode magoar alguém por mais que você não queira isso, mas o diálogo resolve nesses casos.
Acho que você deveria demonstrar sua maturidade falando tudo o que você deseja de uma forma que gere mais resultados - e isso não quer dizer se calar, abolir a lógica que os fere.
As pessoas são diferentes. Não adianta você ter um padrão comportamental em uma empresa. Cada pessoa pede um comportamento diferente. Você deveria analisar melhor seus colegas e agir de uma maneira mais política (pq só assim alcançamos alguns objetivos) e mais sábia.
Não reaja, aja. Reação, segundo o filósofo Jacques Derrida, é a ação possível aos animais "irracionais".

Riffael disse...

Como a samya disse, estamos num contexto social diferente, as questões de gênero são bem mais escancaradas por lá.

Ainda sobre como a mulher deve se comportar, ou pelo menos como querem que ela se comporte.

Hoje assisti ao filme "As melhores coisas do mundo", um filme brasileiro que fala com maestria sobre a adolescência. Há uma parte em que fotos sensuais de uma personagem(uma menina) vai parar na internet e toda a escola acaba sabendo. As fotos foram postadas por um menino, para o qual ela as tinha tirado. Ela é a típica adolescente sexualmente ativa, os meninos a desejam e tudo bem. Porém, ao acontecer esse incidente das fotos, um deles simplesmente diz que é um absurdo, "afinal, uma menina que faz isso faz qualquer coisa". Então é assim, eles desejam que ela haja de uma forma (seja sexualmente ativa), mas quando ela o faz é tachada de piranha, prostituta e muito mais. Ninguém(generalizando) quer saber quem foi o infeliz que divulgou as fotos, só focam as forças em atacar a "piranha".

Teria aproveitado mais do filme se não tivesse tantas pessoas dispostas a fazer piadas sobre a sexualidade de dois personagens.

Liz disse...

Meu, é isso! Concordo com o Thiago Beleza.

Eu estava lendo os comentários e fiquei meio em dúvida com todos. Porque parece o velho discurso, do tipo: nós somos as conciliadoras e temos a capacidade de contornar situações de conflito (em apertada síntese: temos talento pra engolir sapo sem reclamar).

Mas, é óbvio, dignidade não tem preço mesmo. Ficar botando panos quentes quando se está claramente em julgamento a capacidade profissional de uma pessoa sem nenhuma razão objetiva, isso, desculpem, é muito humilhante!

Emprego se encontra e, se nào quiserem dar a promoção, mesmo sendo merecida.não vai ter "jeito feminino" que resolva.

E humilhação, pela minha experiência, é assim: ou vc aceita quieta e leva para o resto da vida, ou vc expõe a situação e se coloca numa posição que pode ser frágil, mas da qual se sai muito mais forte, qualquer que seja a solução final.

Pronto, falei!

Lola, seu blog é tudo de bom!
Bjs

olhodopombo disse...

Isso não é nenhuma novidade, vem
desde a Pre-Historia.
Homens caçando e mulheres coletando vegetais e cuidando da prole....

Adalberto disse...

“....De dia me lava a roupa

De noite me beija a boca

E assim nós vamos vivendo de amor....”

Giovanni Gouveia disse...

Tem um bug aí.
Apesar de se tratar de relações de gênero, de uma superestrutura que é presença garantida em praticamente todas as sociedades, não dá pra dizer, com precisão, "faça isso ou aquilo" por ser uma cultura diferente, legislação diferente, relações humanas diferentes...
O certo é que, no Brasil, em Angola, Antártica, isteites, China ou qualquer parte do mundo, a luta contra a opressão (de gênero, etnia, classe, sexista...) não pode ser uma luta isolada, tem que somar pra poder quebrar.

Como diz Beto Guedes:
"Um mais um é sempre mais que dois"...

Maíra disse...

Olá, pessoal! Bom, nunca passei por uma situação de machismo escancarado no trabalho, mas sempre fui taxada de "agressiva", pela forma como falava as coisas e por sempre me posicionar contra o que acho errado. De uns tempos pra cá, estudando muito argumentação, percebi que havia alguma coisa errada na MANEIRA como me apresentava e como expunha a minha opinião. Percebi que, num debate, eu não queria apenas convencer: queria vencer o meu adversário em todo o tempo (até em conversas de bar às vezes). Vi, então, que o rótulo de arrogante não era tão gratuito assim. E aprendi, simplesmente, a falar as coisas de forma firme, porém mais tranquila (não deixo de falar, e, se não há argumento, mas maus-tratos, "subo nas tamancas" também, mas é o último recurso...). Mas a lição principal foi aprender a ficar calada em certas horas. Não é um silêncio passivo, mas um silêncio resistente, que espera a hora certa para ser quebrado. O que a leitora deveria fazer, na minha opinião? Conversar pessoalmente com o chefe (as palavras costumam ficar mais "pesadas" no email, quando debatemos), demonstrar para ele que ela pode usar suas habilidades de argumentar e lidar com as situações a favor DA EMPRESA (o lance é mostrar que a empresa pode ganhar com a promoção dela, para suavizar as questões pessoais/de gênero envolvidas)e tentar também não se expor demais em momentos de discussão. Participar, mas sem querer vencer a qualquer custo. Se, ainda assim, a "implicância" (pra não dizer machismo velado) contuinuar, é hora de mudar de emprego. Se o emprego for importante pra ela, é necessário tornar algumas posturas mais maleáveis, sem deixar de ser firme.