terça-feira, 7 de março de 2017

NEM UMA A MENOS: DANDARA PRESENTE

Republico este excelente e necessário artigo publicado na Juntos, escrito por Lucci Laporta, transfeminista que atua no Juntas! DF.

Cercada por homens, alguns ainda meninos. Alvo de pedradas, golpe com tábua de madeira, chineladas, muitos chutes. A travesti Dandara, de 42 anos, foi torturada até a morte em Fortaleza – CE. O crime foi gravado e o vídeo, exposto na internet. Trata-se de mais um caso de feminicídio motivado por transfobia no Brasil, país que mais mata travestis e mulheres trans em todo o mundo.
Esse brutal assassinato é como uma gota num oceano de sangue pouquíssimo conhecido, pois apesar dos esforços de organizações não governamentais, ainda é impossível ter uma ideia aproximada de quantos assassinatos a travestis e mulheres trans ocorrem no Brasil. Nós nos tratamos de uma população que majoritariamente vive em níveis precários de subsistência, na marginalidade imposta por uma sociedade que não nos quer por perto e, por isso, nossas mortes e as violências pelas quais passamos nem sempre são notificadas. 
Quando o são, integram as estatísticas de violência homofóbica (específica para homens gays), não nos mapas de violência contra a mulher, o que configura mais uma violência contra nossas identidades de gênero.
Dandara permanecerá viva em nossa luta!
A primeira atitude das que sentem na pele o peso da transfobia e dos que se solidarizam conosco é exigir a punição dos criminosos. Certo, que eles enfrentem a justiça, aquela que não existe para nós. A mesma que prende muitos, mas protege pouquíssimos. Que não nos iludamos com ela, no entanto.
A mudança na legislação penal, por si só, não tirará o Brasil da lista de países mais transfóbicos do mundo. Não deve ser encarada como único ou principal caminho. A vitória contra a transfobia virá de nossa luta ou não virá. É papel dos movimentos LGBT e feminista coletivizar nossas pautas específicas, adotando um programa que de fato seja capaz de mudar a realidade de milhares de mulheres. Mulheres impedidas de acessar seus direitos sociais, o mercado formal de trabalho, documentos que respeitem suas reais identidades e até mesmo o banheiro. Mulheres impedidas, inclusive, de construir suas famílias e seus afetos.
Do papel do transfeminismo no 8 de Março
O dia das mulheres se aproxima e promete mobilizações importantes de feministas em vários países. Além da luta contra a Reforma da Previdência, pelo “Fora Temer!”, pela descriminalização do aborto e demais pautas gerais do feminismo, devemos buscar a solidariedade de todas as outras mulheres trabalhadoras para que seja uma luta de todas:
1) a regulamentação da prostituição de forma a defender os direitos e a integridade das trabalhadoras do sexo, possibilitando-lhes superar a dependência de cafetinas e cafetões; auto-organizar-se como categoria profissional e; constituir suas próprias formas de organização do trabalho para atuar na profissão, como em cooperativas, por exemplo.
2) a despatologização das identidades trans e travesti, abrindo um necessário debate no âmbito das políticas públicas de Saúde para que o direito à cirurgia de redesignação sexual não dependa do arbitrário “protocolo transexualizador”, imposto pela medicina. Além disso, que a demanda por cirurgias seja de fato absorvida pelo SUS. Por ambulatórios trans para acesso à transição hormonal segura e atendimento psiquiátrico e psicológico. Por mais investimento na saúde pública e contra a privatização!
3) Contra os projetos que visam vetar nas escolas as discussões de gênero e suas correlatas (como de orientação sexual e identidade de gênero). Por uma escola livre, sem machismo e LGBTfobia.
4) Que a lei do feminicídio valha para todas as mulheres: cis e trans/travestis! A luta contra o feminicídio deve ser de todas e para todas!
5) Aprovação da Lei de Identidade de Gênero, para que o respeito a nossas identidades não dependa da decisão de um juiz.
6) Implementação de cotas para pessoas trans e travestis em concursos públicos e universidades!
Que das lágrimas e da indignação surja também a solidariedade, para que forjemos uma luta unitária por todas as mulheres e por nenhuma a menos. Vamos juntas!

32 comentários:

Non Exzyklon disse...

Cotas pra transsexuais? E a bobona da Lola apóia isso?

Pelo amor de Deus.... não têm mais oque inventar?

Anônimo disse...

a) Lola adoro seus textos e admiro sua luta.

b) Eu estou triste com este caso e fico mais arrasada quando vejo conservadores tentando convencer que homofobia nao existe que e vitimismo. Ou entao usam o caso porque tem menores nesta tragedia.

c) Lola gostaria de sugerir um texto sobre o programa amor e sexo pois vem debatendo homofobia e feminismo.

d) Lola o Psol entrou no STF para pedir a liberacao do aborto sera que vai dar certo?

Ingrid Bezerra disse...

Como pode o Brasil ser classificado como o país em que mais se mata transexuais e esses governantes não tem VERGONHA disso!??? Isso é uma vergonha, um NOJO, um ABSURDO? Como esses políticos tem a cara de ir até outros países e não ter vergonha da realidade daqui. Para vocês terem uma idéia, eu fui procurar pelo caso da Dandara no youTube, e sabe o que apareceu? Nada mais nada menos que DIVERSOS vídeos sangrentos de travestis sendo espancadas! Isso é alarmante, é nojento. Dá vontade de esfregar esses vídeos na cara desses governantes e religiosos preconceituosos.
Tem que haver urgentemente campanhas extremas de igualdade de gênero pra ontem! Chega de tanto sangue, chega de tanta naturalização da violência. CHEGAAAAA. Pessoas boas de verdade não aguentam mais isso.

Ingrid Bezerra disse...

Non Exzyklon, sim COTAS PARA TRANS SIM! Essas pessoas estão abaixo, precisam com urgência serem levantadas pelo bem de todos.

Eu sou Cis e apoio.

Anônimo disse...

Tem adolescentes com passagens pela Polícia envolvidos na morte, no discurso de vcs eles não pessoas que não sabem o que fazem e por isso não pode haver redução da maioridade penal?

Ingrid Bezerra disse...

No caso dos menores de idade, creio que eles devem cumprir a pena já prevista para menores de idade que praticam esse tipo de crime. Não tem porquê reduzir a maioridade penal (visto que isto implicaria outros tipos de problemas - que reacas não conseguem/não querem compreender). Nesse caso da Dandara, o que o Brasil precisa com urgência é de um combate urgente ao ódio, preconceito, transfobia... Pessoas trans precisam do amparo do governo com políticas públicas que proteja esse grupo social. E lógico, conscientização social a respeito de gênero.

titia disse...

Choque, horror, tristeza, não há palavras pra descrever o sentimento. O que dizer numa hora dessas? Como explicar o vazio e o desespero de saber que criaturas baixas e vis que se consideram humanas estão prontas a e tem prazer em torturar uma pessoa até a morte só porque ela não se encaixa nos padrões estúpidos e covardes de mundo deles? Como expressar isso em palavras? E o pior é saber que cada um desses monstros se acha um cidadão de bem, se acha uma pessoa honesta. Se olha no espelho e acha que não fez nada de errado, nada de mal. Como? Como um ser supostamente inteligente consegue se enganar a esse ponto?

COTAS PARA TRANS SIM!² Eu, mulher cis, branca e hétero e consciente dos meus privilégios nesse mundo, apoio.

14:35 podemos inventar, sim. Podemos inventar uma maneira de mandar você pros quintos dos infernos, quer?

16:13 volta pro lixo que te vomitou. Acha que ninguém aqui sabe que você tá cagando pra vida das trans e travestis? Que você até comemorou uma "aberração" a menos no mundo? Acha que ninguém aqui sabe que sua única motivação pra querer baixar a maioridade penal é prender e matar os filhos dos pobres, pra "limpar" esse país da "escória"? Quer aproveitar e ir pros quintos dos infernos junto com o outro merda ali em cima? Porque despachar dois mascus pelo preço de um não tá custando!

Anônimo disse...

lembrando q a dandara não era mulher

mas concordo q ela foi vítima de misoginia, pois tinha aparência feminina

a transfobia, homofobia, machismo e misoginia precisam acabar, precisa ser criminalizada e debatida nos meios educacionais

16:13 não, esses menores precisam ser severamente punidos pela justiça

Anônimo disse...

Eu até chorei com esses casos que aconteceram e estão na mídia o do garoto que foi morto pelos seguranças e a Dandara fico muito triste mesmo,esses que matam adolescentes que ficam na rua pedindo são contra o aborto mais não são capazes de ajudar um ser humano totalmente formado e com consciência,quanto a Dandara essa violência e discriminação é algo tão enraizado que até eu leitora assídua da Lola e outros blogs feministas as vezes me pego ainda tendo preconceito enfrento uma luta diária para me modificar mas acredito estar melhorando a cada dia.Espero que esses assassinos tenham uma pena severa(sonho talvez...) beijos Lola

Anônimo disse...

Não vai dar nada. Vão ficar 6 meses internados e tão na rua de novo. Prontos pra outra.

Anônimo disse...

Gente.. dúvida genuína sobre essa história de cota para trans. Há cotas para deficientes, para afrodescendentes e outras minorias demandam cotas. Fico pensando, isso realmente ajuda? Sei que no mundo ideal sim, mas me parece meio um cala-boca, do tipo: aqui está a sua cota, você não tem mais do que reclamar. Eu penso nisso pq acho q foi meio assim que aconteceu com os vestibulares, implementaram cotas e os políticos continuaram deixando a educação pública largada, o que faz com que a melhoria de vida venha para poucos em vez de promover a igualdade. Por outro lado não consigo pensar em outro sistema que ajude. Sei lá, era uma dúvida, virou um brainstorm...

Rafael Cherem disse...

Uma vida se perdeu, seria Justo que quem tirou perdesse sua vida também ou o outro bem relevante que é a liberdade, de forma definitiva, infelizmente isso não vai acontecer, os menores especialmente, ficarão pouco tempo recolhidos, depois saem, podem seguir a vida normalmente, ou seja, NENHUMA JUSTIÇA SERÁ FEITA.

Ressalto mais uma coisa, Dandara armada, seria morta?

Anônimo disse...

"Ressalto mais uma coisa, Dandara armada, seria morta?"
Pode ser que estivesse viva, mas não livre.
Infelizmente transexuais são vistos como aberrações sociais e também associados com crime, violência, drogas.
Logo, se uma trans atirasse contra esses moleques, boa sorte para ela provar que foi em legítima defesa.
Quando se fala em armamento a gente tem que pensar que o sistema judicial é mais severo para uns (negro, pobre, mulher, trans) que para outros.

Anônimo disse...

Rafael Cherem: Seria. Talvez com o porte de arma liberado, até nós não estaríamos vivos nesse momento.

Dan

Princesa Pervertida (^^) disse...

Adorei essa titia.

donadio disse...

"Dandara armada, seria morta?"

Provavelmente com a sua própria arma.

Rafael Cherem disse...

A esquerda brasileira tem ojeriza a armas, até entendo os motivos, mas o oprimido precisa se defender do opressor,porque só as classes dominantes têm o direito de defesa assegurado e brigam por ele? Um MST ou um MTST armado seriam outra força, outra história.Nos casos de violência institucionalizado(mulheres, gays, negros) é preciso pensarmos sobre isso.

Anônimo disse...

10:30 rafael --cherado-- como sempre

Anônimo disse...

"Nos casos de violência institucionalizado(mulheres, gays, negros) é preciso pensarmos sobre isso."

E é exatamente por isso que eu tenho medo. A Justiça é mais justa para alguns que para outros, Cherem. Você acredita mesmo, do fundo do seu coração, que se a Dandara estivesse armada e tivesse a sorte de ter dado uns pipocos nos seus assassinos, você acha que ela sairia como uma heroína que apenas se defendeu? Ela passaria, no mínimo, pelo constrangimento de ser acusada de homicídio.
Eu tenho dó de uma mulher que resolve se defender de um estuprador usando arma. Já imaginou como ela teria de provar se ela foi estuprada, toda a investigação sobre a sua vida e isso se ela conseguir provar que foi estuprada (como se prova uma tentativa de estupro?)?

Rafael Cherem disse...

Anônimo das 11:49

Verdade, o sistema é feito para aprisionar gente como ela, mas estaria viva ao menos, e agora?A questão é que o agressor sempre sabe que a vítima não vai reagir, que ele não corre perigo algum em atacar, essa lógica tem de ser quebrada.

Anônimo disse...

12:56 não é arma de fogo q vai mudar isso

Anônimo disse...

12:56 do jeito q vc fala, a humanidade inteira vai ser obrigada a sair com armas pra todos os lugares tamanha a paranoia

Anônimo disse...

Cota pra trans? Mas é só trans mulher ou pode ser trans homem também? Porque assim passo a me identificar como homem (porque é auto-identificação que conta né? O estado do sentir), corto o cabelo, coloco uma calça social, faço cosplay de macho e tá tudo resolvido! Meu buraco frontal masculino agradece! Aposto que com isso passarei a ganhar mais e eliminarei o risco de estupro na minha vida, né não? Só vitórias.

Rafael Cherem disse...

Vivemos em um país onde um cara esquarteja uma mulher e dá aos cachorros,outro que mata uma mulher de 22 anos com tesoura, e ambos estão livres. É uma terra paranóica.

Non Exzyklon disse...

"14:35 podemos inventar, sim. Podemos inventar uma maneira de mandar você pros quintos dos infernos, quer?"

Veja a mentalidade de quem não consegue largar as dicotomias nas quais vive imersa

Quem discorda dela é "mascu", e qualquer ofensa, como a que dirigiu à mim, é justificável. Claro! Discordou de mim, oras! Posso ofender! É essa a mentalidade.

A tal pessoa nunca pensou que travestis com ótias condições financeiras irão tirar vagas de pessoas pobres.

Anônimo disse...

Brasil é país que mais mata homem no mundo também

donadio disse...

"A questão é que o agressor sempre sabe que a vítima não vai reagir"

Por outro lado, se o agressor achar que a probabilidade de a vítima reagir atirando é grande, então a probabilidade de o agressor já chegar atirando vai crescer exponencialmente.

Não adianta, Rafael: se uma sociedade é violenta, armar os cidadãos vai apenas fazer dela uma sociedade violenta e armada, não uma sociedade menos violenta.

donadio disse...

Por falar em mentalidade, Non Exzyklon, como é a mentalidade de alguém que nega o Holocausto no seu próprio screen name?

(non exzyclon = não existe Zyklon, isto é, judeus e outros não foram fisicamente eliminados pelos nazistas através do uso do gás Zyklon.)

Anônimo disse...

21:31 mortos pelos próprios homens

vcs mesmos se matam

Non Exzyklon disse...

Donadio, melhor do que a mentalidade de pessoas que não falam nada com nada, e partem pra ataques pessoais toda hora.

Quanto ao gás zyklon, não sei se foi usado para matar ou não. Sei que não sou negador do holocausto. Então não tente me imputar coisas da sua cabeça.

Anônimo disse...

Qualquer cota que o critério não seja econômico é merda.

Anônimo disse...

Só uma indagação: Brasil é o país que mais mata transsexuais?

Já viram como funcionam as coisas em países islâmicos (que vocês, de esquerda, dizem ser pacíficos e tudo mais de bom), sob lei Sharia (que inclusive oprime mulheres, mas para quais vocês feministas cagam e andam)? E, se não existem números de trans assassinados lá, bem, deve-se ao fato de que eles sequer podem existir nesses lugares.

A verdade é que vocês têm noção do que ocorre nesses países, só que, bicho, não dá lucro, não é mesmo? As pessoas que são oprimidas lá não importam, não servem às lutas da esquerda nesse país, onde o negócio é investir num vitimismo movido por uma falsa preocupação com a violência que pessoas mais vulneráveis sofrem.

Casos como esse da Dandara dão lucro pra vocês. É necessário que ocorra esse tipo de barbárie para que se possa manipular a própria realidade e vender livrinhos que distorcem mais ainda as coisas como elas são. A autora do post simplesmente pode jogar um estudinho ou outro, obviamente de uma fonte de esquerda (o que por si só é comprometedor, visto que a ideia da esquerda é problematizar e, é claro, aumentar tudo) pra "provar" que "Brasil é o país que mais mata lgbts". Não, não é - existem países com códigos realmente desumanos que tão pouco são citados, muito menos repreendidos pelos ditos justiceiros sociais. E não são só países islâmicos, a própria história e eventos da atualidade não me deixam mentir sobre países comunistas e regrados por determinadas seitas retrógradas.

Agora, aposto que tudo que vocês têm a dizer, assim como Jean Wyllys em relação ao comunismo opressor da Coreia do Norte, é: não temos nada a ver com isso. "É a cultura deles, eles que se virem com ela" provavelmente também será dito.

Então, sério, calem a boca sobre a Dandara, esse tipo de post é algo que chega a insultá-la de tão saturado de hipocrisia. Vocês são tão ou mais seletivos que os malditos acéfalos de direita. Não existe empatia nenhuma pela moça morta. Só existem interesses, senão não seriam mentirosos (ou, numa melhor hipótese, alienados) à realidade do próprio mundo em que vivem. Existem centenas, senão milhares de outras Dandaras mortas ou silenciadas em lugares e por crendices que vocês até defendem.