sábado, 3 de janeiro de 2015

GUEST POST: MEU DESPERTAR PARA A EMPATIA

O G. me enviou este texto:

Queria te contar um algo que aconteceu comigo num domingo recente. 
Sabe, eu sempre li seus relatos e guest posts, e desde muito tempo eles foram me moldando, abrindo meus olhos para o preconceito machista enraizado na sociedade. Muitas vezes tento ficar atento às opiniões dadas das pessoas ao redor, publicidade, comentários e piadinhas. Mas até então eram só palavras, nada de ações perceptíveis. 
Apesar de ler sempre o seu blog, não sei se sou frio demais, mas minha empatia não chegava à alma, simplesmente eu lia, me emocionava às vezes, me impressionava às vezes, mas tudo isso não estava perto de mim. Pareciam as notícias de um jornal. Somos frios e apáticos porque estamos acostumados a ler isso todo dia. Tá, até aqui parece que eu sou um babaca, mas calma, eu tive a minha experiência e é ela que quero te contar. 
Sabe, sou um rapaz cis, branco, homossexual, tenho namorado, amigos, tudo lindo e ótimo. Isso me garante (às vezes) um pouco de paz quando preciso sair sozinho para ir ao centro da cidade, ou voltar -- sou estudante universitário numa cidade grande. Mas como gay, meu principal temor é a homofobia das ruas. Morrer apanhando. Isso me faz ser muito ansioso quanto a minha segurança. Minha casa parece um presídio, com grades e grandes muros, mas mesmo assim já foi assaltada. Eu sou um completo medroso em questão de segurança.
Bom, mas a situação que aconteceu no domingo foi completamente diferente pra mim. Não foi homofobia. Eu tinha acabado de almoçar com meu namorado num restaurante, e estávamos voltando cada um para sua casa. Como moramos em bairros diferentes, cada qual pega um ônibus diferente, num ponto diferente. E por ser domingo, os ônibus são mais demorados. Bom, fui eu então ao ponto mais próximo esperar o ônibus, como já tantas vezes havia feito: ficar sozinho no ponto de ônibus, escutando música com os fones de ouvidos, aguardando o horário. 
Normalmente eu sempre faço algo para me distrair, já dancei no ponto de ônibus sozinho, já cantei embromation, e nesse dia eu fiquei observando os carros que paravam no semáforo da esquina, onde o ponto de ônibus é localizado. Sempre um casal, uma velhinha, uns caras, motos, ônibus. Sou tentado a observar pessoas também por que gosto de escrever, então fico imaginando o que cada pessoa pode estar fazendo ou pra onde está indo. 
Mas normalmente não encaro diretamente as pessoas que estão dentro dos carros. Observo sem ser observado. E quando elas se viram para me olhar, desvio o olhar. Só que numa dessas, um cara, dentro de um carro preto, óculos raiban, parou no semáforo, logo na minha frente, e ficou me encarando. Até aí, ok, nada de mais, porque eu também o observava. O semáforo abriu e ele dobrou a esquina. Mas algo me chamou a atenção e logo imaginei que esse tiozinho daria a volta no quarteirão e voltaria para me encarar. Me levantei e olhei a rua ao lado para ver se ele não tinha estacionado por ali, mas não -- graças a deus. 
E aí ele realmente voltou. Veio devagar para pegar o semáforo fechado. O vidro do carro estava fechado. Eu, claro, sabia que era ele pelo vidro da frente. Olhei o vidro, virei o rosto, fiquei escutando minha música. Não ia encarar porque eu já sabia o que ia acontecer. Pensado e feito. Ele abaixou o vidro do carro preto e disparou: "Quer dar um passeio?" Eu, de olhar desviado, virei, tirei os fones de ouvidos e gaguejei: "Não." Voltei com os fones de ouvidos, desviei o olhar e fitei o horizonte, paralisado, com um medo que eu nunca tinha sentido antes. 
Tentei permanecer imóvel, tentando não ouvir o que ele dizia, focando na música que tocava, e tentando não me descontrolar, não virar o rosto. Mas e se ele apontasse alguma arma? E se ele descesse do carro? E se acontecesse algo? Meus olhos já estavam marejando com esses meus pensamentos quando o sinal abriu e ele novamente dobrou a esquina. Então saí do transe, pronto para, caso ele estacionasse o carro, sair correndo na outra direção, para qualquer lugar longe dali. Mas ele não estacionou, seguiu e foi. E eu fiquei ali, com meus mais novo medo, perguntando "O que foi isso? O que aconteceu? O que eu fiz?". 
Como um estalo me vieram as várias vozes dos guests posts lidos no seu blog com aquele mesmo temor. As cantadas na rua, aquele julgamento alheio, a história da menina que tomou o ônibus e o motorista não deixou ela sair. Senti na pele o que todas vocês, mulheres, sentem. Esse medo de não poder ficar em paz, em segurança, esse medo de que não existe segurança. Isso me foi tão impressionante, um caso tão banal perto dos já lidos pelo blog, que eu achei que compartilhar isso poderia até mesmo despertar a ira da mulherada: "Como você ousa comparar essa sua historinha com as outras bem mais sérias que aconteceram com a gente?" 
Mas bem, isso que me aconteceu me provocou realmente essa empatia que me faltava, esse sentimento de que pode acontecer com qualquer um, qualquer uma, e que isso é um grande mal a ser combatido. Não sei o que eu poderia fazer para ajudar o feminismo, mas sei que, se mesmo antes eu já me considerava um feminista, hoje, depois de ter passado por isso, me considero feminista mais que nunca. Só não sei como posso fazer minha parte nisso, pois refletindo depois sobre o acontecido, não sei como seria se eu tivesse nascido mulher. Acho que, com certeza, seria bem mais corajosa.

24 comentários:

Anônimo disse...

O autor do post percebeu a violência que mulheres sofrem diariamente e daí o choque.
Viu o quanto é ruim esse tipo de coisa.

Aline XD disse...

Olha, muito bom que vc tenha descoberto a empatia em você, acho que isso falta muito em qualquer movimento de qualquer tipo de minoria/grupo oprimido.

Talvez seu relato não cause impactos nas leitoras, mas é porque todas nós passamos por isso desde muito novas, desde antes de parecermos mulheres.

MAs realmente fico feliz de vc ter se tornado mais humano, e seria muito lindo decobrir a receita para que mais pessoas pudessem ter empatia.

By the way, achei sincero e bonitinho o guest post.

Anônimo disse...

Bonitinho o relato mesmo, mas só mostra o quão problemático é esse individualismo da vida e acho q vc não tinha ainda realmente questionado teus privilégios, por mais q lesse a respeito de machismo e etc. Se fosse diferente, vc como gay, poderia pensar nessa opressão q sofre e projetar pra quando ouve o relato de outras opressões e sentir uma empatia real por elas. Sei lá, pra mim isso sempre foi tão claro, sou branca e quando, por exemplo, leio os relatos de situações racistas onde a pessoa foi humilhada me sinto horrível e sempre penso no quanto >eu< posso estar fazendo pra perpetuar essa opressão e no q posso mudar. A gente não tem q ter medo ou arrogância pra não repensar nossas atitudes, por mais q seja ruim se pensar como o "opressor" com certeza é muito pior ser o oprimido.

Raven Deschain disse...

Olha a praça Zacarias ali. Haha

Caramba, nunca vou entender a esquisitice de pessoas que saem por aí convidando desconhecidos. Credo, cara. Se manca.

Legal o post.

Anônimo disse...

"Caramba, nunca vou entender a esquisitice de pessoas que saem por aí convidando desconhecidos. Credo, cara. Se manca"
_
Algumas vs, eu já convidei estranhas para dar uma volta comigo, puxei conversa, geralmente em locais movimentados, shoppings, bares, e apesar de alguns nãos, que não me afetaram em nada, algumas iam para o motel comigo, para meu apartamento ou no carro mesmo, em ruas isoladas.reparei que apesar do medo, muitas tem a fantasia de transar com um desconhecido.
Ou seja, porque eu vou me privar de um prazer, por conta de um movimento que não me diz respeito?

Anônimo disse...

Um gay, paquera outro gay na rua, este gay fica com medo. Quer apostar que a Lola vai arrumar um jeito de culpar os homens heteros, brancos e sai lá mais o que?

Anônimo disse...

Amigo, se você ouvia não e ia embora, não obrigava ninguém a fazer o que não queria nem insistia quando a pessoa se sentia visivelmente desconfortável, então não é o caso de você desistir de nada. Mas saiba que seu tipo de abordagem pode sim causar sofrimento, mesmo que você ache que isso seja uma manifestação livre de sua sexualidade. Assim, caso você nunca tenha feito mal a ninguém, beleza. Mas fique atento. Nada que fazemos nessa vida está livre de consequências, especialmente coisas ligadas a realização de nossos desejos. Sendo assim, esse movimento te diz respeito quando, por ventura, voce quiser impor um pouco mais do seu desejo sobre os outros. Feminismo ajuda mulheres a criar suas próprias medidas de segurança e amor próprio afim de evitar ações e escolhas (de si mesmas e de terceiros) sobre sua integridade. Assim, se você aprecia uma relação de equanimidade, mesmo para fins exclusivamente sexuais e eróticos, você devia entender que feminismo te diz muito respeito. A não ser que seu modos operandi erótico tenha a ver com submeter mulheres a situações constrangedoras e amedrontadoras. Mulheres feministas não vem problema nenhum em foder com estranhos e isso não tem a ver com medo, tem a ver com querer fazer aquilo que se tem vontade, com pleno domínio de seu corpo mente.

Anônimo disse...

Acertou na mosca, anônimo da 13:52!
A culpa é nossa, homens brancos heterossexuais! Afinal de contas, nós nunca sentimos medo de ficar tarde na rua ou nervosos ao ser abordados por estranhos, pois sabemos que nossa cor e opção sexual nos livram de perigos!

SQN. BLH.

D Stoffel disse...

Eu vejo problema em foder com estranho sim, não sei o que o cara vai fazer pra onde vai me levar, se realmente ele é o que diz, acho corajosa a mulher que saí por aí com um cara que mal conhece dps de tantas histórias de horror. Pra mim falta de amor próprio e ou desespero.

Anônimo disse...

é sempre bom conhecer gente nova + transar no mesmo dia com o cara que vc mal sabe quem é...

Anônimo disse...

Eu conhecia meu ex e ainda sim me dei mal imagina sair com um cara que nunca vi na vida e nem conversei direito.

Anônimo disse...

É sempre ótimo ter mais alguém com empatia. O mundo está precisando de pessoas empáticas. Quanto mais melhor. Autor do guest post, que muitxs outrxs sigam seu exemplo, também abram os olhos e tornem-se mais empáticos. Pessoas assim estão fazendo falta.

Carinha das 14:46 e seu colega mascu, isso não é sobre vocês, ok? Tem mulheres e homens sofrendo coisas sérias por culpa do machismo lá fora pras pessoas ficarem se preocupando com os seus sentimentos-aliás, sentimentos não, com seus egozinhos feridos mesmo. Não tem tempo pra se preocupar se os pobres mascuzinhos estão se sentindo ofendidos pela verdade-que a esmagadora maioria dos opressores e os mais interessados em manter o esquema são os homens brancos héteros. Ainda tem muita coisa que precisa mudar nesse mundo.

Anônimo disse...

Vc e o tal anonimo tem serios problemas para interpretar textos.

Raven Deschain disse...

"isoladas.reparei que apesar do medo, muitas tem a fantasia de transar com um desconhecido."

Oras, não se faça de burro. =) Muitas não são todas. Essa tentativa e erro é que é a desgraça. Se algumas topam ir com vc e vc não força nem constrange as que se negam, vc tem todo o meu apoio, champs.

Raven Deschain disse...

E bom, pelo visto é necessário enfatizar: eu tb não saio fodendo com desconhecidos pq nunca sabemos qual vai ser o psycho killer da vez. Morando em Curitiba pode ser até aquele tal de Guerra, eu hein? Se não fossem essas corajosas aí vc tb estava na seca, pq dependendo de mim (e de outras comentaristas, pelo visto) vc não saberia nem as horas.

Anônimo disse...

To vendo, o omi ali morrendo de medo de levar mulher que ele nunca viu antes na vida pra dentro de casa.
É igualzinho mesmo.

Anônimo disse...

"Pra mim falta de amor próprio e ou desespero."

Uai, não pode ser apenas vontade de dar? Qual o problema? Eu não faria porque sou medrosa...

Anônimo disse...

Duas histórias que aconteceram comigo: Na virada do ano de 2013 para 2014 estava andando próximo à Av. Paulista e uma "estranha" chamou a mim e meu grupo para subir ao apartamento dela para comemorarmos a passagem do ano, como resultado acabei conhecendo uma mulher fantástica, inteligente, feminista e de esquerda. Em janeiro de 2014 estava tomado café da manhã no bandejão de uma universidade (estava fazendo um curso de verão, isto é, não era aluna da universidade) vi um "estranho" que me chamou a atenção, disse "oi", o convidei para tomar café comigo, ele me convidou para o apartamento dele e eu fui. Faremos um ano de namoro dia 22 desse mês e nunca tive um relacionamento tão equânime quanto este em que eu estou agora (sem neuras ou cobranças com ex-"peguetes" que ainda são meus amigos, vou pra balada- que ele não gosta- e retorno de madrugada para o apto. dele, nunca falou das minhas roupas...).
Sinceramente gosto de conhecer desconhecidos.

Anônimo disse...

Anônimo das 18:18,

Pôr a culpa dos problemas do mundo numa raça tem nome de racismo, se envolver negros. Mas de "verdade absoluta" se envolver brancos?

Ao mesmo tempo que não se deve ser insensível, também não se deve ser estúpido. Algumas coisas são produto de nossas más escolhas, e não de uma conspiração malvada.

Tome-se o exemplo dos homossexuais: se são as maiores vítimas de DST's (algo mais provável quanto mais irresponsável for seu comportamento sexual), então há um problema. Mas depois os heterossexuais passaram ser tão vítimas da AIDS quanto os homossexuais, pois também têm comportamento irresponsável e não são melhores que os gays (mentes as pobres dos heterossexuais que pensam que a escolha sexual é algo tão relevante assim), são a mesma m.... Aí o problema acabou, né?

Será que você não se vê numa posição ruim e desfavorecida porque, no fundo, desconfia que sua escolha de vida o tenha levado a isso?

Tenho observado que atualmente se procura apenas curtir, sem medo das consequências, e quando elas acontecem, ai se vitimizam e querem que o provável não aconteça, simplesmente.. por quê? A realidade não se adapta a nossas vontades, e embora nada seja garantido, em geral se colhe o que se planta.

Eu digo, novamente, ser abordado dessa maneira é assutador para QQ um! Não fica mais assustador com uma ou outra pessoa, com uma ou outra conta bancária, com uma ou outra idade. Só um tolo acha que a cor ou condição sexual tornam alguém invulnerável as vicissitudes da vida.

No fundo, isso é papo de quem deseja o mal aos outros só porque acontece com ele. É claro que eu sei que tenho menos problema que alguns. Mas eu tenho MAIS problemas que outros. O mesmo com você. Eu não deixo de entender e ter empatia, já conheci a miséria humana, por outros meios, mas conheci.

BLH.

Anônimo disse...

Caro BLH, que eu não faço a menor ideia se é um mascu ou não,

Anônimo disse...

É triste que, em vez da sociedade melhorar, mais gente passe mesmo que nós, mulheres, passamos sempre. Belo e sincero relato.

Anônimo disse...

Incrível ver como tem feminista ridícula que, em vez de aceitar a empatia que o feminismo luta tanto pra despertar nos outros, fica hostilizando o rapaz.

Parabéns, só que não.

Anônimo disse...

Caro BHL, que eu não sei se é mascu ou não, eu não disse que a culpa é de uma raça. Eu disse a verdade, que a MAIORIA (não todos) dos opressores são homens brancos héteros. Os maiores interessados em manter o esquema social machista e racista que temos hoje são os homens brancos héteros - os privilegiados por ele. Os que a sociedade valoriza, toma como padrão pra tudo, considera "superior". Quem mais protestou quando a Maria da Penha entrou em vigor, e até hoje mais protesta contra essa lei? Homens héteros. Quem mais protestou contra a lei que tornou o racismo crime? Homens brancos. Quem chora quando homofobia é tratada como crime pq não pode mais humilhar ou agredir gays? Quem se beneficia dessa sociedade machista e racista e não quer perder seus privilégios nela - portanto, faz de tudo pra que a situação não mude? Homens brancos héteros. É só ir num site do governo e ver quais são os deputados que propõem leis arcaicas, preconceituosas, misóginas e homofóbicas, retrocessos sociais, obscurantismos, principalmente sobre mulheres, negros e gays-coincidentemente(ou não) são os brancos héteros. Os privilegiados.

Ah, quanto ao seu papo de auto ajuda, pode cortar. Eu cuido muito bem da minha vida e estou feliz com ela, muito mais feliz do que a mascuzada algum dia vai ser, então eu aconselho que use esse papo pra você mesmo. Pelo que você falou aí, tá precisando mesmo de uma ajudinha. Aliás, podia ter cortado todo o resto do papo. Eu sou mulher e sei muito bem o quanto esse tipo de abordagem é assustador. O que eu não tenho é paciência pra pajear mascu que vem aqui mimizar como se dizer que homens brancos héteros são a MAIORIA (não todos) dos opressores fosse um crime hediondo, enquanto defendem estupro e pedofilia. Aliás, mascus são os únicos que vem aqui dizer que eu culpo todos os homens brancos héteros pelo machismo quando eu deixei bem claro que não falei de todos, falei que a MAIORIA (não todos, pra ver se você enfim entende) é opressora. Não gosta? Tira as calças pela cabeça que eu não sou babá de mascu. Passar bem.

Anônimo disse...

Boa tarde sou anônimo do texto anterior o, fã de Hitchcock. Sobre esse assunto eu penso que depende da abordagem, da maneira como a pessoa aborda a outra, pode ser uma ofensa ou não.