domingo, 14 de dezembro de 2014

CONSCIÊNCIA NEGRA PRESENTE

Alguns ótimos comentários tirados do post sobre a Consciência Negra:

Sou parda e aluna do 5º período de Engenharia em uma Universidade Federal e sinto na pele o que é ser a única pessoa parda de uma sala com quase 50 alunos. Única pessoa PARDA, negra eu nunca vi passar nem no bloco de Tecnologia. No início o curso, já ouvi inúmeras vezes piadinhas e perguntas direcionadas a mim sobre como foi passar na frente dos opressores (falavam fazendo aspas com as mãos) e ficado com a vaga deles sem precisar estudar nada. O curioso é que eu não passei por cotas porque terminei o ensino médio em escola particular - também era a única parda da sala. Eles acham que minha cor estaria diretamente relacionada as costas e a vagabundagem. Depois do que eu sofri no começo das aulas, sou completamente a favor. A ignorância é tanta que muitos juram que alunos cotistas não estudam na-da, só ficam de boas esperando seu nome na lista de aprovação. :( (Anônima)

Olá Lola. Se você não conhecia uma negra que cursa Medicina em uma Federal, eis-me aqui! hahaha Sim, sou a única negra da sala e sim, já sofri preconceito declarado por pelo menos 70% da sala. Por que né, como assim uma negra com cara de doméstica estudar na mesma sala que meu tesouro estuda? Absurdo! kkk Hoje eu realmente não fico chateada quando ouço ou leio algo de cunho racista, eu mostro que eles terão que aceitar sim e se reclamar terão muitos e muitos médicos negros no país. Não me importo mais porque apanhei muito, é uma vida inteira de preparação pra chegar a esse ponto que cheguei, de não ligar mais. Já estou calejada sabe? Depois que as pessoas viram que eu não "voltarei para o meu lugar", e que não estava nem aí se x ou y achavam um absurdo uma negra cursar Medicina, elas simplesmente pararam de tentar me intimidar. Algumas hoje são minhas amigas, e abraçaram a pauta negra pra si sem tomar o protagonismo. Jamais aceitarei um branco falando sobre como eu, negra, me sinto ao ser ofendida. Ele não sabe da minha dor, nem mesmo se quisesse sentir, então se não tiver nada aproveitável para falar, que ele não diminua a dor e revolta dos meus irmãos. (Anônima)

Sempre estudei em escolas públicas. Quando eu estava no ensino médio, eu era categoricamente contra a política de cotas. Acreditava que era concorrência desleal. Afinal, eu sou pobre, minha família sempre enfrentou dificuldades financeiras e o mesmo conteúdo era apresentado para mim e para os meus colegas negros.
No entanto, no curso do ensino médio, uma experiência me marcou muito. Uma professora, que estava organizando uma feira de filosofia em um dos colégios mais elitistas da cidade, nos levou para lá como público. A desigualdade era aberrante: enquanto a imensa maioria de nós, da escola pública, era parda e negra, não havia sequer um aluno negro na escola privada. O perfil era homogêneo, assustadoramente branco.
Foi nesse dia que compreendi o discurso da desigualdade. A pobreza econômica é só um dos fatores de desequilíbrio na sociedade. E enquanto a sociedade permanecer racista, exclusivista, arcaica e colonialista, sendo a cor da pele de uma pessoa o motivo para que seja alvo de mais ou menos desigualdades que outra pessoa de cor diferente, as ações afirmativas são, sim, medidas urgentes de justiça. (Anônimo)

Sou negro e era um que repetia o que alguns amigos brancos falavam no fundo, com a intenção de ser aceito por eles; repudiava as cotas, dizia que uma vez deixado de falar sobre racismo, ele desapareceria, entre outras pérolas. Quando acordei para vida e vi o que estava falando, mudei muita coisa. Curso Farmácia em uma PUC. E de todos os comentários racistas que já ouvi na minha vida e olha que foram muitos, o pior pra mim foi de um colega de classe reclamando muito sobre as cotas e xingando os negros de uma forma geral, ao ver que eu reclamei do seu comentário escroto, ele disse "relaxa cara, você não é negro, tu é pardo e tem grana pra bancar seus estudos, menos mal. Tô falando dos vitimistas que ficam atrás de cotas mesmo, eles merecem se foder muito." 
Tem como não sentir vontade de quebrar a cara do sujeito? Até hoje não sei dizer o que é mais absurdo: ele achar que um pardo seria melhor do que um negro e me tirar do "grupo ruim" porque aos olhos dele sou pardo, um homem branco saber e opinar se é vitimismo ou não o que as pessoas negras sentem, ou ele achar que beleza se tu for negro mas tenha grana pra bancar seus estudos. Essa foi demais pra mim, depois disso nunca mais falei com o retardado racista (redundante, eu sei). (Anônimo)

19 comentários:

Claudio disse...

"Eles acham que minha cor estaria diretamente relacionada as costas e a vagabundagem."

Por isso que os pardos / negros nao devem colocar nos concursos que se considera pardo / negro!

Os únicos que merecem cotas são os indígenas / indios, pois eles são os verdadeiros brasileiros, brancos e negros são invasores!

Cheio de Luz disse...

Importante a inclusão num país que vergonhosamente ignorou a capacidade do negro de exercer sua cidadania de forma plena; as vezes fico a meditar como um semelhante foi capaz de escravizar um igual...subjugá-lo...inferiorizá-lo em todas as dimensões. E eis que o negro quebrou suas correntes, não aceitou a forma desumana que era tratado, se organizou, teve aliados da mesma cor de seu sangue que o ajudou em seu intento, um igual.Assim somos, seres humanos com corpo e mente que funcionam fisiologicamente idênticos, ignorar isso é perder a consciência. A inteligência e capacidade de transformar, quebrar paradigmas, vem de cérebros cuja funcionalidade também é igual, só precisa de estímulo, como não foi dado a mesma oportunidade por anos a fio, as cotas vem para inserir quem era proibido de sentar num banco de uma universidade ou que a própria exclusão social, geradora de pobreza, impediu o negro de estar em maior número entre médicos , engenheiros ou qualquer outra profissão.Agora cabe a sociedade ter consciência de sua mazela e entender que a cor da pele nunca foi e nunca será determinante de nada. Parabéns ao Brasil por ter evoluído! Mérito de cada brasileiro que se permitiu ver por um ângulo diferente e lutar para que os outros pudessem compartilhar da nova visão,principalmente, do negro em relação a si mesmo, e dizer: eu sou, eu posso e eu quero mudar!!!!!

Carol F. disse...

Eu sou o contrário, sou uma branca que cresceu em uma "ilha" branca e já um pouco mais velha fui conhecer favelas, colégios públicos, bairros pobres...e pela primeira vez estive e lugares onde a maioria das pessoas é parda e negra. Esse discurso de que todo mundo tem chances iguais não condiz com a realidade. Se fosse, assim, não haveria essa gritante divisão "por cor" nos locais. É só abrir os olhos.

Anônimo disse...

ótimos relatos! Eu sou branca, no sul do país. Não sei nada sobre o que é sentir racismo. Minha convivência com negros sempre foi pequena, apenas no ensino fundamental, em que eu estudava em uma escola pública. Na minha turma de faculdade, uma turma de direito, 85% dos alunos são brancos. Em todas as turmas do curso, a proporção é a mais ou menos a mesma. E, quase todo dia, escuto esses discursos anti-cotas.

Anônimo disse...

sou negra e DETESTO ver esse monte de branco falando como se eu fosse uma coitada "os pobres negros que precisam da minha validação para cotas, etc".

Vão cagar no mato. Se não é negrx não tem que ficar aí, falando bonito para defender nós, pobres negrxs.

Claro que tem desigualdade, claro que os negros estão em posição de desvantagem, mas daí vocês ficarem gritando que são a favor de cotas , vocês querem o que? palminhas?

E outra, eu sou negra de classe média alta, e sou contra essa porcaria de cota. Sabe porque? Porque graças a essa merda, onde eu vou, acham que estou la por cotas!!!!! logo, que mereço menos! Era bem isso que faltava na minha vida.

E dar cotas para pobre, ok. Até porque é mais dificil reconhecer um pobre. Ninguém vai falar para o médico : puxa, mas vc entrou por cotas. Agora para o negro, vão falar, e julgar. Cotas para pobres sim! Cotas por ser negro não. Alias, falar isso é igual falar que entre um branco pobre e um negro pobre, o negro precisa de mais ajuda por ser negro, logo, incapaz.

Anônimo disse...

Quem é de classe média/média alta/alta, entra na faculdade por "cota": a cota aleatória de ter nascido entre a minoria que pôde receber estímulos à leitura desde cedo, aprender desde pequenininho o português "correto", frequentar as melhores escolas, fazer curso de línguas. E depois, consegue emprego por "cota"
Essa cota de ser da classe (e da cor) certa é mais eficiente do que a cota para quem estudou na escola pública.
Juliana

Anônimo disse...

Cota p pobres mas só se for de escola pública,muito justo...só q n.
Estudei em colégio particular até o ensino médio mas isso n significa q tenho condição de pagar faculdade q custa mil vezes mais.
Sou contra qualquer cota pq isso n resolve porra nenhuma.

André disse...

11:04,

As cotas podem ter vários defeitos, mas não são as cotas as responsáveis pelo racismo das pessoas imbecis. Elas já eram racistas antes das cotas.
E você não acha um pouquinho incoerente ser contra branco defender cotas para negros porque branco nunca saberá o que é ser negro, e defender cotas para pobres sendo que você não é pobre?

Anônimo disse...

Andre, eu sou a anonima das 11:04.

Eu defendo cota para pobre porque acho justo, e porque ninguém poderia saber na faculdade que eles estavam la graças as cotas. Agora cota para negros, marca a gente. Povo olha e ja sai falando. Mas ninguém pode olhar na sua cara e falar "esse é pobre". Não com a certeza com que falam: esse é preto.

Gostaria por exemplo de cotas para pessoas do grupo sanguineo B, porque é o meu, mas ninguem poderia me acusar de estar la SOH por isso. Agora essa cotas servem para gelera abrir o preconceito contra negros.

Sou mulher. Fico imaginando se abrissem cotas para engenhzirAs nas faculdades. Iria ficar putissima. Seria outra maneira de nos descriminar. So isso.
Mesmo sendo negra, não sei porque entre um branco pobre e um negro pobre, o negro deveria ter vantagem....

camis

Anônimo disse...

Camis,
Está estampadíssimo na cara da pessoa que ela é pobre: nas roupas, no sapato no tratamento dado ao cabelo, no lance que ela compra/não compra no intervalo, nos convites que ela aceita/não aceita pra lugares caros... É fácil ver, todo mundo sabe.

Carol disse...

Acho meio absurdo esse negócio de "não admito que um branco fale sobre racismo ou tome minhas dores". E como haveria diálogo se o lado privilegiado não entender um pouco do lado oprimido? E deposi de entender, como não tomar um puco dessas dores, como não apoiar? Que um branco não entende o que é ser discriminado por cor, todo mundo sabe. Mas ele pode entender o que é o preconceito. Esse tipo de atitude excludente não me parece ajudar em nada qualquer tipo de luta (acontece muito no feminismo também, com relação aos homens).

Carol disse...

"Está estampadíssimo na cara da pessoa que ela é pobre: nas roupas, no sapato no tratamento dado ao cabelo, no lance que ela compra/não compra no intervalo, nos convites que ela aceita/não aceita pra lugares caros..."

Você nunca viu gente que se endivida pra comprar tênis da moda ou roupa de marca? Nunca viu gente que tem dinheiro pra comprar coisas ou ir a lugares e não paga as próprias contas pra isso? Gente que deixa de fazer um almoço pra ir no cabelereiro?

É justamente esse pensamento de que "sua pobreza está na cara" da nossa sociedade tão baseada em aparências, que faz tanta gente cometer idiotices como essas.

André disse...

camis,

Ser fácil ou difícil identificar um pobre não muda o fato de que os não pobres não deveriam defender os interesses dos pobres, se os brancos não puderem defender os interesses dos negros. Eu entendo que talvez existam negros que nunca tenham sofrido preconceito e estejam preocupados que as cotas possam torná-los alvo. Deve ser muito ruim, mas o comportamento do opressor nunca é culpa do oprimido.
Além disso, pelo que eu leio dos movimentos negros, existem muito mais negros que já sofreram preconceito e que defendem as cotas. Eu não quero falar por eles, mas nos pontos que eu concordar com eles eu vou dar meu apoio.

Denise Marinho disse...

Carol, o brasileiro não se vê como sociedade. Cansei disso.

Denise Marinho disse...

Não sei nada da sua vida, por isso não vou afirmar nada. Só sugiro que você pense, pesquise a vida de algumas pessoas, converse com pessoas com mais e menos $ e reflita se pobreza tem mesmo a ver com dinheiro. E se ser pobre torna a pessoa de "qualidade inferior".

Não me leve a mal! Aqui estamos num espaço de reflexão e eu agradeço a que você me causou.

Carol F. disse...

Anônima, eu entendo você não querer ser vista como alguém que precisa de ajuda ou incapaz, sendo que você não é.
Mas justamente por não ser negra que eu ouço o que muita gente branca pensa. Não vão falar na sua cara. Negros são preteridos sim em empregos, tanto de classe média alta como pobre. As piores coisas que ouvi foram no âmbito social mesmo, mas acho pior a parte de atrapalhar a pessoa a seguir uma carreira, conseguir o emprego que quer. As cotas não são perfeitas, e foram feitas para ser algo transitório, não eterno, mas ajudariam a tornar negros algo comum em alguns ambientes profissionais nos quais ainda são raros, e talvez variar a cor das pessoas que tomam decisões em relação aos funcionários. Eu não vejo como coitadismo e nunca defenderia as cotas se os movimentos negros fossem contra, por exemplo. Realmente, quem é negro tem propriedade para falar do que sente e do que precisa, não eu, mas esses movimentos apoiam. E enquanto a maioria dos brancos que eu conheço, especialmente os de classe média alta, são contra, eu sou a favor. Por que vejo no meu dia a dia que existe uma barreira que não sei quanto tempo demoraria para sumir naturalmente.

Carol disse...

Denise Marinho, sou a Carol que comentou às 07:25 e 07:38 e acredito que os seus comentários foram dirigidos a mim.

Pra esclarecer: a parte que está em itálico no comentário das 07:38 é de outra pessoa, pro qual eu escrevi justamente discordando dessa visão de mundo que separa as pessoas em "cara de rico" e "cara de pobre". Tenho a mesma opinião que você.

Anônimo disse...

Sou negra e professora de História, estudei em faculdade particular e sou a favor das cotas porquê :
a)É uma maldade vc convencer a um adolescente negro, que estudou em escola pública que ele pode disputar uma vaga na faculdade com o aluno que estudou no São Bento com toda estrutura é a velha nova meritocracia
b) Aí vem os argumentos de melhorar o ensino público, que cotas não resolvem, como professora afirmo se hoje um projeto pedagógico bom, fosse implementado, somente teríamos resultado em 2 anos, a educação é um trabalho árduo e contínuo, claro vamos melhorar a educação, mas até lá, vamos deixar os jovens pobres sem oportunidade ?
c)Eu digo por mim, estudei em escola pública era boa aluna, mas a instituição não tinha estrutura e aconteciam greves o tempo todo,
muitas vezes pensei em desistir, quando conseguir entrar para a faculdade particular, enfrentei racismo de cabeça erguida
d) Acredito que a situação dos negros melhorou, mas claro não chegamos ao ideal, não podemos é desistir

Anônimo disse...

Gostaria que as cotas fossem o que deveriam ser! "Privilegiar" no "resultado" (mais rápido) enquanto se investe concreta e massivamente na igualização na base, na formação, nas oportunidades...
O absurdo a que se chegou é o preto (sim, cor!) ser prejudicado pela pecha de incapaz, o branco se sentir com menos oportunidades.... e a resposta de tudo ser o fim das cotas! Hã?!
Amo negras, de famílias pobres, que usufruíram, ou não de cotas. Tanto faz! Não dou a mínima! Tenho orgulho imenso de tê-las como amigas! Irmãs de vida, humanas, lindas e sensíveis! E sinceramente? São mais capazes que eu (branca)! Simples assim! Por cotas ou não, são mais capazes que eu! Doutoras em suas áreas, se esforçaram com tudo o que tinham!
Ou porque entraram por cotas o sucesso delas não é mérito próprio?! Ah vá!
Hoje no ensino, cota é entrada. Ponto.
A minha dificuldade com relação a cotas é a vida após ela... Nunca vi um esforço político verdadeiro ou minimamente eficaz de diminuir a desigualdade após a aprovação....
Se o preto teve menos acesso a educação, cadê uma aulinha de reforço para acompanhar a graduação? Se teve menos oportunidades de emprego, como possibilitar a seleção objetiva de candidatos? Se não tem família para sustentá-lo enquanto estuda.... Enfim. O problema não é cota!
Não faz diferença se ela é para preto, branco ou vermelho!
Acabar com as cotas não fará o preto deixar de ser preto ou impedir que seja alvo de comentários cruéis! Cota não impedirá a preterição numa entrevista ou promoção!
Ser contra ou a favor das cotas não me soa relevante.
O tiroteio de ofensas ou de argumentos vazios soa assustador!
Preferia ter acompanhado uma discussão tão menos "lugar comum"...