quinta-feira, 29 de maio de 2014

GUEST POST: CONSEGUIREI ME RECUPERAR?

A M. me enviou seu relato:

Há muito tempo que eu sinto a necessidade de falar sobre as violências que me fizeram, mas me faltava a coragem. Até que há alguns meses eu comecei a ter problemas na minha relação e, há algumas semanas, conversando com uma amiga psicóloga do Brasil (vivo na Europa), eu descobri que meus problemas derivam do meu passado.
Um resumão do que me aconteceu: fui violentada cronicamente por dois anos (entre os 9 e 11 anos), depois sofri um abuso aos 17. Mas superei (acho) essas violências.
O que está atrapalhando a minha vida foi a violência doméstica que sofri com meu ex-marido.
Foi uma coisa estranha, eu não sei se você já viu algum caso parecido com o meu... o ódio do meu ex-marido era pela nossa filha, e ele tentava sempre espancá-la. Como eu a defendia, ele batia em mim.
Ele me chantageava, ameaçava... mas suas ameaças eram sempre em relação à nossa filha. Ele praticamente usava o meu amor por ela para me bater, me impedir de ir embora. Foi a pior tortura que eu vivi. Preferiria ter sido violentada outras 3000 vezes a viver o que eu vivi com ele.
Vivi 3 anos de medo, terror, e mais um monte de sentimentos ruins que nem consigo descrever. Quando pedi ajuda, ninguém me ajudou, nem a Delegacia da Mulher, porque meu ex-marido era amigo da filha da delegada.
Tive anorexia nesse período. Demorei pra me curar.
Depois eu consegui fugir dele. Conheci uma pessoa maravilhosa, ficamos juntos dois anos. Quando ele me pediu em casamento eu disse sim, mas terminei o relacionamento poucos meses antes do casamento.
Conheci outros homens, mas acabei fugindo deles assim que percebia que começavam a sentir algo por mim.
Depois conheci meu namorido. Fugi dele no começo do relacionamento também, mas depois ele acabou me convencendo a voltar. Moramos juntos há quatro anos, mas minha filha continua com minha mãe no Brasil.
Agora, porém, os documentos da minha filha estão prontos, a casa que estamos construindo ficará pronta... e eu estou enlouquecendo.
Não posso nem imaginar uma vida familiar. Enquanto isso era só um sonho (porque é algo que eu desejo muito) eu sabia lidar. Amo muito meu namorado, ele é um homem maravilhoso, mas agora que a realização do sonho está se tornando real, eu só quero largar tudo e fugir pra bem longe.
Às vezes meu namorado me leva na construção, me leva no quarto da minha filha, então me abraça e diz "enfim estaremos todos juntos" (meu namorado ama muito minha filha e ela o chama de pai). Eu consigo ter flashes de felicidade, mas eles logo são interrompidos por lembranças ruins e medo, muito medo. Então eu saio de perto dele, ou digo alguma coisa desagradável pra fazê-lo se afastar de mim. Estou destruindo minha relação.
Mês que vem começo terapia... mas às vezes eu não sei se existe muita esperança. Eu queria muito saber de você se você já viu algum caso parecido, se já viu alguém se recuperar disso. Na verdade o que desejo mesmo é saber se existe alguma esperança pra mim, porque honestamente eu acho que não existe.
Me sinto como se alguém tivesse quebrado alguma coisa dentro de mim, como se me tivessem feito em mil pedacinhos, e como se esses pedacinhos tivessem se espalhado, e como se eles, neste momento, se encontrassem já podres ou enferrujados... E então eu penso que é muito mais fácil jogar tudo fora do que tentar reconstruir alguma coisa.
Você já viu alguém se recuperar disso?

Minha resposta: M., em primeiro lugar, parabéns por ter conseguido sair do relacionamento abusivo em que você esteve.
Creio que não é muito incomum homens violentos ameaçarem os filhos para chantagear as mulheres.
É óbvio que você viveu um pesadelo horrível durante três anos, e é óbvio que isso deixa marcas. 
Você precisa ser paciente. Com a terapia, com o amor do seu namorado, com a companhia da sua filha, você vai conseguir superar isso. Me parece absolutamente normal que você esteja com medo de repetir aquele cenário pavoroso, desta vez com novos atores. Mas dá pra superar. Todo mundo só precisa compreender o que você está passando e ter paciência.
Comece já a terapia e se dê uma chance. Claro que há esperança pra você! 

36 comentários:

Anônimo disse...

M.
Será que você eh a moça do blog que estou pensando? Não voh falar o blog para não te expor, mas eh você? Beijo.Jana.

Anônimo disse...

M,

Parabéns por ter conseguido sair desse relacionamento abusivo. Parabéns mesmo. Não são todas as que conseguem.

Anônimo disse...

O primeiro passo para recuperação, creio eu, é perceber de forma racional que você está transferindo seus receios antigos para essa nova pessoa. Uma amiga, durante muito tempo, pulou de um namoro em outro até que ela percebeu que estava tentando começar uma coisa nova do ponto onde a outra havia terminado. Quando ela realizou isso, conseguiu ser feliz junto de outro cara (com quem está casada há muito tempo). Não deixe de fazer terapia, vai ajudar muito e você tem tudo para ter uma boa vida com essa nova história.

Anônimo disse...

Lola, a líder do feminismo no Brasil acaba de fazer um relato comovente: https://www.youtube.com/watch?v=N0n6CYCXa4E

Ela fala de como é ser mulher no Brasil, como é ser oprimida, discriminada, bem comovente o depoimento dela. É igualzinho o que você escreve aqui, a mesma mentalidade, as mesmas palavras, a mesma LUTA!!!

Ana Carolina disse...

"líder do feminismo no Brasil"???? Isso existe?????

Letícia Penteado disse...

M., você não está sozinha.
Nem na violência pela qual passou, nem na sensação de que a devastação que você sofreu é irreversível.
Sim, você pode ser recuperar. E já deu o primeiro passo nessa direção: falar. Permitir-se sentir e verbalizar o sentimento.
Parece besteira, mas nós temos essa necessidade - de falar sobre o que nos incomoda e de nos sentir acolhides quando falamos. É inacreditável o efeito curativo que isso tem. Daí, inclusive, a importância de uma boa terapia, ou ao menos alguém que te escute.
É muito doloroso remexer no passado e às vezes temos a impressão de que as coisas, ao invés de melhorar, estão piorando. Mas isso é porque enfim estamos nos permitindo sentir algo de que tentamos tanto nos esconder, durante todo o tempo em que aquela dor parecia tão imensa, tão esmagadora, que contemplá-la seria morrer. E daí, por uma questão de autopreservação, a escondemos num canto dentro da gente (e de vez em quando a gente esbarra naquele canto e toma um choque e sai correndo dali).
O fato de você conseguir falar a respeito disso demonstra que você já está mais pronta para lidar com o acontecido. E daí, devagar ou de uma vez, as coisas vão começar a ressurgir. Você vai começar a lembrar de coisas que tinha esquecido. Sonhar. Com muita vividez. Quando você se abre para si mesma, você sempre tem muito a dizer.
Mais do que regrudar pedacinhos de quem você um dia foi, você vai em breve ver surgir a pessoa que você agora é. E os traumas por que você passou farão parte dessa pessoa. Só que agora digeridos, assimilados, transformados, não mais entalados na sua garganta, bloqueando todo o resto de você.
Mas primeiro você precisa passar pelo luto de todos aqueles pedacinhos.
Eu não te prometo a felicidade, porque isso não é garantido nem mesmo à pessoa que nunca passou por qualquer violência. Mas eu te prometo que, se você mergulhar de cabeça em si mesma, não será você quem te impedirá de ser feliz. Eu te prometo serenidade, clareza. Prometo que a sua percepção não estará mais contaminada pelo seu sofrimento.
Pode não ser fácil, pode não ser rápido e com certeza não será indolor. Mas vai valer a pena.

Seu atual parceiro conhece a sua história? Talvez fosse bom compartilhar com ele esse turbilhão pelo qual você está passando. Talvez, ciente disso, ele possa oferecer a você um apoio muito necessário neste momento.

Um abraço apertado. Força aí!

Anônimo disse...

Espero que você se recupere dos pesadelos que viveu e que possa seguir em frente, inclusive para amparar a sua filha. Depois do abuso e do abandono que ela sofreu, é possível que ela venha a repetir dinâmicas parecidas em seus futuros relacionamentos.

Mirella disse...

M.,


que bom que conseguiu sair daquele relacionamento. Ótima notícia vc começar a fazer terapia. E é este o caminho para você começar a entender como seu passado afeta o seu presente e poder mudar as coisas que te incomodam e impedem você de viver sua vida.
Entendo que é difícil ver esperanças, mas peço para que não desanime. Assim que você começar a terapia, vc vai sentir diferença, aos poucos. Há toda a esperança do mundo para você, acredite.
Não posso te dar conselhos, mas posso compartilhar com vc minha experiência com terapia.
É sempre reconfortante compartilhar medos, anseios e pensamentos que não entendemos com alguém que não irá julgar. Aos poucos percebi que aqueles sentimentos aleatório e as minhas reações a eles não eram sem sentido ou razão. E esse conhecimento é esclarecedor, te dá as ferramentas que vc precisa para se conhecer.
Tenha um pouco de calma e paciência com você mesma. Antes de fazer algum comentário desagradável, antes de ficar desesperada, antes de qualquer coisa, respire fundo, dê um tempo para você assimilar que sim, muita coisa boa pode acontecer com você. Converse com seu companheiro. Não precisa contar os detalhes de tudo para ele, porém acho importante que a pessoa com a qual você vai dividir uma casa e uma vida saiba que você tem seus freios e receios e respeite seu tempo.
Basicamente, tenha calma consigo mesma, respeite seu tempo, seus limites, ame a si mesma. Fique tranquila que a sua família será linda e será de verdade. Não associe aqueles anos de abuso e ódio ao conceito de família, pois família é ambiente de amor, de respeito e de consideração. Fique em paz e desejo tudo de melhor.
um beijo.

Anônimo disse...

Anon 12:59, o feminismo não tem líderes.

Anônimo disse...

Moça, como assim não sabe se é possível curar-se?
Vai ficar a vida toda chorando pelos cantos e sentindo pena de si mesma?
Você uma mulher forte, desejada, com uma filha linda que te ama.
Vá pra luta, mulher! Vá fazer terapia e se entender, buscar ajuda lá se achar que precisa.
Mas o mais importante é: você é dona da sua vida. Ninguém conseguiu ou vai conseguir te quebrar. E sabe por que? Porque VOCÊ não vai deixar.
Você vai conseguir superar isso sim. Porque isso está nas suas mãos fazer. Acredite em si mesma. Se eu que nem sequer te conheço acredito que você é capaz, por que você mesma não acredita?
Vamos lá, moça! A vida é sua, e você é capaz de fazê-la como quiser!

Anônimo disse...

Testemunhei um caso de agressão a uma mulher, num hotel de 5 estrelas de uma grande capital brasileira. O agressor é mais ou menos famoso. Eu o reconheci, mas meu marido não. Ele não é tão famoso assim. Mas você, Lola, o conhece.

A vítima é anônima. Eram meus vizinhos de quarto e vi quando ele a agrediu com tapas. Meu marido interveio e disse ao rapaz que iria denunciá-lo. O rapaz, cínico, perguntou para a moça se ela estava sendo agredida e ela disse, em voz baixa, que não. Ela não olhou para nós. O rapaz então fechou a porta do quarto. Foi muito triste. Nunca mais a vi.

Anônimo disse...

Lola, assistindo o vídeo da Sara Winter eu me lembrei imediatamente da definição de histeria.
O histérico é aquele cujo emocional reflete seu imaginário e não a sua realidade.
É exatamente o caso dela e o caso de todas as meninas que viram feministas radicais.
Nenhuma delas sofre perigo real de estupro. Os grupos mais arriscados de estupro são: crianças que são estupradas por pais ou outras pessoas da casa e presidiários que são estuprados na cadeia.
Feministas passam longe do grupo de risco de estupro. Mesmo assim, elas vivem sob o constante medo de estupro.
Vocês, feministas que morrem de medo de estupro, têm mais medo de serem estupradas ou de se suicidarem? Sabia que o segundo é infinitamente mais frequente? Por que então vocês têm mais medo do primeiro? Esse medo nasceu de vocês ou foi algum "guru sabe tudo" que colocou em vocês?
Na hora de me responder, vocês vão pensar no que esse "guru" responderia ou vocês vão realmente investigar suas realidades.

Anônimo disse...

Sara Winter Deusa. Nossa líder contra o patriarcado do mal.

Marcia Baratto disse...

Claro que irá! As marcas não somem por completo, mas é totalmente possível que você seja feliz no futuro, mesmo com a história triste. Não desista, fazer terapia pode ser libertador.

Se posso dar um conselho, converse com seu companheiro sobre isso. Diga sobre o medo e que você estará em tratamento, precisei de muita ajuda do meu companheiro há alguns anos e demorei muito para dizer o que acontecia. Quando disse, ele ficou do meu lado e se tornou mais fácil para ele e para mim lidar com minhas crises de depressão.

Sara disse...

M. sua reação é mais do q natural, gato escaldado tem medo até de agua fria.
Não penso muito diferente de vc, nesse assunto, vc pelo menos tem vontade de tentar, mas pelo q fala é vencida por um sentimento de medo.
Já eu nem consigo me ver entrando em outra relação novamente.
Espero q se for realmente sua vontade, q vc consiga superar esses sentimentos, e que dessa vez essa nova experiência te traga muito mais alegrias e prazer de viver.

Sara disse...

http://revistatpm.uol.com.br/so-no-site/notas/censurada.html

Lola é fora do assunto do post, mas é inacreditável q na Australia estão querendo censurar A porquinha Peppa, acusada de ser feminista(?), pode até sair do ar em canal público da Austrália... qdo a gente pensa q já viu de tudo, não sei se rio ou choro...

Anônimo disse...

Esse povo que tá falando que a Sara Winter é "líder do feminismo nacional" provavelmente tá querendo trollar até alguém acreditar nisso de verdade.

Anônimo disse...

Anon 17:12, saia da sua bolha, querido.

Não são feministas que temem estupro, são mulheres. Feministas apenas são as que falam do assunto. Quem me ensinou a ter medo de estupro e de homens não foram feministas. Foi minha mãe, meu pai, minha vó, minha professora quando mandavam eu ter cuidado e não confiar.

Entendeu?

Anônimo disse...

Eu sei que o feminismo não tem líderes mas alguém sabe dizer nomes de feministas renomadas brasileiras? Sim eu sou iniciante no negócio, agradeço as dicas.

Denise disse...

Sara, acho que essa reportagem que vc mencionou sobre a Peppa pig é meio sem fundamento… Moro na Austrália e ninguém está querendo censurar o desenho. O que acontece é que recentemente teve um violento corte no orçamento do país em vários setores, inclusive no financiamento público das redes de TV, e muitos programas estão sendo ameaçados de serem cortados, ou melhor, não serem renovados quando acabar o contrato por falta de orçamento.

Eu li a matéria em inglês em que um colunista (de um jornal) acusa o desenho de ser feminista, mas na verdade o que gerou o debate maior foi a acusação do desenho refletir as idéias do partido trabalhista. Eu acho que isso tudo é mais uma jogada política, desde o lançamento do orçamento uma crise política se instaurou no país e essa troca de acusações entre o partido liberal e o trabalhista (os 2 maiores da Austrália) ficou mais forte.

Resumindo, não acredito que se fale em censura, ainda mais aqui onde a TV tem uma liberdade imensa, tanto que nos telejornais os jornalistas atacam o primeiro ministro e o novo orçamento sem piedade, estão chamando ele de babaca em rede nacional, pra vc ter uma idéia. Tem mil videos no youtube mostrando isso, como esse: http://www.youtube.com/watch?v=MCVP2gvC32U

Fora que acho a Austrália bem mais feminista que o Brasil, vira e mexe tem uma comoção nos jornais por conta de alguma campanha publicitária considerada sexista. E aqui não tem essa de homem mexer com mulher na rua, já vi um cara ser até preso por ter falado uma cantada suja pra uma mulher a noite no meio da rua.

Sara disse...

Q bom Denise q pelo menos ai na Australia as coisas estejam melhor do q aqui pras feministas.
Mas recebi essa noticia pela revista TPM editada aqui no Brasil, no link tem até um trecho do desenho da Peppa Pig, em q a mãe dela esta trabalhando no computador e o pai cozinhando, e falaram q isso foi considerado muito feminista, o q é um absurdo.
Pois desenhos infantis com esse tipo de conteúdo são muito importantes pra desconstruir os esteriótipos de gênero, creio eu.

Anônimo disse...

M., eu vim de um relacionamento abusivo de 8 anos, com uma mulher. Ela era uma pessoa completamente desequilibrada e ciumenta, me agrediu muito, me queimou com cigarro, me ofendia constantemente e me impedia de trabalhar. Cheguei a passar até fome porque ela, para me punir, escondeu o dinheiro das casas que alugávamos. Ela vivia ameaçando me matar e se matar, me chamava de puta na frente dos vizinhos, puxava faca, eu não tinha paz.
Por que eu aceitei isso por tanto tempo? Não sei, baixa auto estima, e eu sentia que tinha que fazer dar certo, uma vez que eu tinha brigado com toda a minha família e amigos para aceitarem meu relacionamento lésbico, dependência financeira... pode ser uma mistura disso tudo.

Certo dia, ela, que me acusava de trair, se apaixonou por outra e me pôs para fora. Fui morar com um amigo e depois conheci meu amor, um homem maravilhoso que me compreende, me ajudou a ir trabalhar, me respeita demais, enfim... mas não foi fácil. Eu acordava gritando, terminava, depois queria voltar, era um inferno. Quando fiquei sabendo que a desgraçada da ex matou minha cachorra fiquei mais de um mês em pânico, emagreci 8 kg. Quando marcamos o casamento surtei também, no fundo eu morria de medo de me relacionar de novo...

Hoje estou bem, recuperada, tive um filho, só que volta e meia a vontade de ir embora daqui retorna, mas hoje eu já sei lidar com ela e isso nem me incomoda, dura meia horinha só. Quero envelhecer com meu marido.
Uma dica: foi fundamental deixar meu marido ciente de tudo desde o começo, ele sempre soube que minhas crises não tinham nada a ver com desamor, e sim com trauma.
Te desejo boa sorte, confie na sua recuperação e ela virá. Bjs

Melinda Cavendish disse...

Jana, nao sei se è de mim que voce està falando. Abandonei um pouco o blog depois da terapia.

Anônimo disse...

M. Acho que eh você mesma. Voce tinha 2 blogs não eh?
Que tudo se resolva e você fique bem junto da filha e marido. Beijos.
Jana.

Anônimo disse...

Anon das 20:28:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminismo_no_Brasil

Atualmente é difícil escolher, no meio de tantas blogueiras, ativistas, militantes e pesquisadoras, "feministas renomadas".

Vamos considerar que existem vários feminismos, várias vertentes e vários rumos de ação. É difícil escolher uma ou duas pra determinar todo um modo de pensar e todo um movimento.

No caso, vamos pensar que toda mulher que faz algo por suas companheiras é uma "feminista renomada" :) Desde as acadêmicas que publicam no Cadernos Pagu e outras revistas de gênero, até as mulheres que trabalham nas favelas pra acabar com a violência doméstica.

Não existe porta-voz, e tendemos a desconsiderar aquelas que são endeusadas pela mídia, principalmente porque esse tipo de coisa inibe a crítica. Todo movimento social precisa de crítica de si próprio pra continuar funcionando. Sem falar que movimentos participativos, que procuram a voz de várias pessoas, tendem a rejeitar líderes a favor de um comando vertical e sempre em movimento.

Acho que as meninas dos comentários podem recomendar blogueiras, ativistas, artistas e estudiosas como "relevantes", mas "renome" e "liderança" são coisas que não devemos incentivar.

Anônimo disse...

"violentada cronicamente" é assim que me sinto. Pois fui estuprada várias vezes por um ser repugnante que a minha família confiava. Onde já se viu deixar homem como babá? E quando todos saiam lá ia ele e eu para o quarto, meu quarto . Nojo de tudo aquilo. Eu já entrando na puberdade e aquele infeliz me constrangendo. Até que ele consumou o ato. Eu mudei, meu comportamento mudou. Me transformei na pura revolta. Até aos 14 anos lá estava ele o maior fiel dos meus pais e meu pior inimigo. E o que diziam? NÃO TRATE ELE ASSIM SUA MAL EDUCADA. Eu só queria que me perguntassem PORQUÊ? Mas acho que tinham medo da respost. E ficou o trauma do flash back. Aquele maldito . Me sinto só. E hoje aos 31 anos moro sozinha tenho horror se um homem se quer pegar em minha mão. Já destruí todos os relacionamentos que tive. Transar com um homem acho que não foram nem 10x. E ainda acham que ou mal amada e amargurada. Terapia nunca fiz. O que direi na terapia? QUE DEIXEI UM MANÍACO ME ESTUPRAR VÁRIAS VEZES? QUE FUI CONIVENTE PORQUE DIZEM QUE QUEM CALA CONSENTE? Sei que não sou culpada, mas sinto a síndrome da culpa. Ele dizia: estou fazendo para te castigar você me desobedeceu, você não gosta de mim, você derramou leite no sofá, você , você e você. Autora do poste não seja covarde como eu fui lute pela sua felicidade e sua filha também merece o melhor de ti. O teu passado se foi vai doer talvez para sempre, mas lute também para sempre.

Brenda C. disse...

Vou já me desculpando pelo longo comentário! :)

Todo o relacionamento abusivo nos desgasta ao extremo e nos faz chegar ao ponto de pensar que nós é que temos um problema. Minha família me submeteu a um relacionamento abusivo psicológico desde que eu tenho uns 10 anos (acho que foi nessa fase que comecei a perceber meu lugar no mundo). Só fui começar a me dar conta disso aos 25 anos, porque até então eu achava que as ofensas, as manipulações, as perseguições, as chatangens, a indiferença, eram coisas normais na vida de uma família. Pudera, eu cresci em um ambiente assim e não tive outra referência.

Hoje, aos 30 anos, é que estou começando o processo de cura de todo esse engodo, que eu digo, é um processo muito doloroso. Se não fosse meu namorado e alguns amigos verdadeiros, não sei como estaria. Tenho algumas dicas pra dar a você baseada no que eu vivi:

1) Em primeiro lugar vc apresenta todas as condições para mudar sua forma de ver o mundo. Vc reconhece que está traumatizada com o que sofreu, e esse é o passo mais importante. Vc também mostrou que é uma pessoa muito corajosa ao abandonar aquele maluco. Então o que te falta é mais paciência e amor consigo mesma. Vc precisa ser a primeira pessoa a se importar consigo, pois vc está na sua pele;

2)Infelizmente eu não tive dinheiro para fazer terapia, então comecei a usar a internet. Conhecimento é poder. O blog da Lola me ajuda muito com minha auto estima, também entro em blogs de pessoas que sofreram abusos de suas famílias, compartilho experiências. Isso me ajuda muito a não me sentir sozinha e também me traz muitos bons conselhos de como agir com meus familiares, a não deixar abusarem de mim, a ter paciência comigo mesma. É também uma forma de terapia;

3) Essa aqui é meio polêmica: a religião também me ajuda muito. Eu sou católica, e apesar das religiões em geral apresentarem inúmeras falhas (e que instituição não as tem, não é verdade?)em todos os grupos do qual participo fui muito bem acolhida, recebi carinho e bons conselhos. É outra dica maravilhosa. A presença ativa de Deus em minha vida tem sido fundamental nesse processo;

4) Já falaram disso aqui e eu repito: conte tudo para seu atual companheiro. Não lhe esconda nada. Quando o meu não só ouviu, mas VIU o que eu passava em minha família, quintuplicou a compreensão dele comigo;

5) Acho importante lhe dizer uma coisa, apesar de você não ter mencionado no post: não se culpe por nada. De verdade. A gente tem essa tendência, até porque a chantagem é um recurso que o abusador tem para fragilizar o abusado. Minha mãe fez muito isso comigo para me desestabilizar. E eu passei anos da minha vida pisando em ovos, evitando ao máximo desagradar a minha mãe e nada adiantava. Ela nunca estava satisfeita, porque o problema era com ela e não comigo.

6) E finalmente, por fim, uma coisa que você terá que seguir sempre: FUJA de relacionamentos abusivos. Qualquer deles. Fuja o máximo que puder. Se não puder deixar de ver diariamente pessoas abusivas, tenha o mínimo de contato possível. Isso é pela sua saúde física e sanidade mental. E não adianta discutir ou debater com elas. Dificilmente elas vão aprender. Só acredite em pessoas que realmente mostrem a vc que estão arrependidas. Estou tão calejada e conhecedora nisso que já costumo perceber certos tipos de pessoas de longe.

E como uma pessoa disse antes: família é lugar de amor, de compreensão. Nunca aceite menos do que isso. E nunca seja menos do que isso. Durante anos eu reproduzi o comportamente agressivo da minha família. Hoje estou tentando melhorar todo o dia.

Bjs e Deus te abençoe!

Brenda C. disse...

Anon das 11:17

A sua situação é mesmo muito difícil e eu não tenho idéia da dor que você sente, mas posso imaginar um pouco.

De todos os sentimentos que você pode ter eu acho que a culpa é o único que você não tem que alimentar, porque afinal de contas VOCÊ NÃO TEM CULPA. Vc é a pessoa que infelizmente sofreu ao lado de um abusador.

Repita isso todos os dias: "a culpa não é minha, o problema é com eles e não comigo". Vc precisa se convencer disso.

No seu comantário vc diz que sente muita raiva, muita revolta. E com razão. Vc sofreu violência física crônica, e as pessoas que deveriam te dar proteção e suporte não estavam lá quando vc precisou. A gente se sente sozinha e desamparada.

Não sei se leu meu comentário anterior mas sofri abuso psicológico da minha família durante mais ou menos 15 anos. Quando me dei conta comecei a me afastar. Ainda moro com minha família, mas em um quartinho anexo da minha casa. Convivo com eles o necessário e quando sinto que alguma coisa chata vai acontecer, respiro fundo e vou pro meu quartinho.

Acho que e o que vai ajudar no teu processo de cura é ter muita paciência e amor consigo mesma. Se vc não contou com sua família para cuidar de vc, agora vc pode fazer isso por vc mesma. Existe algum grupo de apoio na sua cidade? Algum grupo no qual possa compartilhar suas experiências, amigos verdadeiros? Não se isole. Vc vai se sair dessa.

Acho que vc deve fazer um esforço todos os dias para tentar transcerder o seu sofrimento. Observar que a vida e o mundo é muito mais do que essas coisas terríveis que aconteceram com vc. Que vc tem potencial e oportunidades para viver uma vida nova. Vc pode.

Nós sabemos que existem muitas pessoas abusadoras no mundo, sem empatia ou solidadriedade. Mas o mundo também conta com boas pessoas, justas, que estão dispostas a se ajudar. Veja o caso deste blog.

Anônimo disse...

Anônima das 11:17 você não tem culpa de absolutamente nada. Sei que já deve ter ouvido isso antes, mas todos aqui vamos dizer porque é a verdade: você não tem culpa de nada. Nunca teve. Ninguém "se deixa" estuprar. É o bandido que sabe onde atingir a vítima e vai direto nesses pontos pra desarmá-la. O mecanismo é sempre o mesmo; os abusos começam cedo, quando a vítima é uma criança sem conhecimento concreto do mundo e de como as relações entre crianças e adultos devem ser,e se a vítima se sente mal com o abuso o criminoso já coloca na cabeça da criança que a culpa é dela, sabendo que há toda uma família pra defendê-lo, que a sociedade é estruturada de uma maneira que a criança não vai ser ouvida nem acreditada. O seu caso é exatamente assim, o assédio começou cedo, com ele te manipulando e colocando na sua cabeça que a culpa era sua quando você ainda nem sabia do que ele estava falando. Não se culpe mesmo, porque você não é culpada. De jeito nenhum, nunca. Desejo tudo de bom pra você e que sua vida esteja sempre melhorando.

Anônimo disse...

M. Vc deu os primeiros passos rumo a sua recuperação.
Acredito que terapia vai lhe ajudar muito. Eu fiz terapia por um bom tempo, e ti digo com toda franqueza que um bom profissional facilita muito a reelaboração dos traumas. A gente não consegui sozinha.
Sabe quando a gente tem um machucado bem feio, aberto e que sangra. O que tem que ser feito é limpa-lo cuidadosamente, um processo lento e doloroso mas que traz resultados para não haver inflamações no futuro.
Depois de um tempo, cicatriza!

Grande abraço!
Taís

Feminista capitalista disse...

KKKKK o anônimo mansplainning das 17:12 quer cagar regras sobre quando devemos ou não temer um estupro, sendo que provavelmente ele nunca passou por nada parecido, nem teve homens o assediando, é um babaca mesmo e ainda por cima quer depreciar o que Sara Winter disse chamando-a de hsitérica, minha nossa, que original!!!

Alguém manda esse cara de volta pra 1955.

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Sobre a Sara Winter, me lembro que quando o femen acabou vários véiculos da mídia oportunista a rotularam de 'ex-feminista' (nunca ouvi falar disso) mas na verdade ela é apenas ex-femen,visto que o grupo acabou sendo dissolvido aqui no Brasil.

Outro detalhe foi quando ela arranjou um namorado e todos disseram que ela ia 'abandonar' o feminismo,pois o problema dela que era ''falta de pica'' tava resolvido... ¬¬

Esses machistas realmente acreditam que o mundo gira em torno dos dez cm de pênis deles, imundos nojentos.

Melinda Cavendish disse...

Sim, Jana, tenho dois blogs, um pessoal e outro onde sò falo dos abusos.
Obrigada pelo carinho, obrigada pela força de todos.

Letícia Penteado disse...

À M. e ao Anon das 11h17:
SIM! É sobre isso que você vai falar na terapia. E sobre quaisquer outros sentimentos "inconfessáveis" que você possa ter. Porque é o inconfessável que nos impede de superar os nossos traumas, que mantém o poder deles de nos desfazer toda vez que eles nos vêm à mente.
Não precisa ser terapia. Mas seria legal você conversar, ser acolhida. Ouvir que é normal se sentir culpada e por essa culpa, ou temor, se ver incapaz de reagir ou denunciar. Ouvir que é comum, por exemplo, que a vítima de pedofilia se sinta culpada por ter "gostado" do abuso. Sim. Porque muitas vezes ele vem da parte de alguém que a vítima ama (pai, avô) e parte dela reconhece aquilo como atenção, amor. É um mecanismo de defesa, transformar o horror pelo que ela está passando em alguma coisa com que ela possa minimamente lidar. É comum, também, que haja uma resposta física ao estímulo. Acontece, também, de a menina que continua em convivência com o abusador inventar para si mesma que está apaixonada por ele. De novo, é uma forma de lidar com o trauma. E depois a pessoa fica tomada pela culpa, pela vergonha, pelo ódio de si mesma.
E, às vezes, quando reproduz essa situação em relacionamentos futuros, acabando sempre com homens agressores, sente que a culpa é dela, porque foi ela que escolheu aquela pessoa e ficou com ela. Ela que "gosta de apanhar". Mas não é bem assim.
O que é determinante para que a violência ocorra é o perpetrador dessa violência. A condição psicológica da vítima, os motivos que a trouxeram até ali, a mantiveram ali ou impediram que ela reagisse ou denunciasse só são relevantes para ela própria.
Escrevi um texto a esse respeito: http://leticiapenteado.wordpress.com/2014/04/12/tiro-no-pe-nao-mata/
Estou à disposição (embora com pouca agilidade neste momento, com duas crianças pequenas)se quiserem conversar. Mas por favor não desistam. Só o fato de terem vindo até aqui falar a respeito do que lhes aconteceu já é um sinal positivo.
Um abraço!

Anônimo disse...

Sou a Anon das 11:17 me calei não porque eu tive um sentimente de paixão, mas porque eu tive medo. Ele falava que eu ia ser dele para sempre se descobrissem que ele me tocava. Que ingenuidade estúpida. Eu acreditei que iam me forçar a morar com ele. Me sinto tapada, tonta. Hoje em dhpa nenhuma menina de 11 anos acredita nisso. E repito não se calem seja violencia, fisica, sexual, verbal. O silencio é a chama que alimenta o agressor. Arrependida de ter me calado cá estou eu.

Letícia Penteado disse...

Anon das 11:17, mesmo pessoas adultas se calam. Mesmo pessoas adultas temem, se culpam, se envergonham. Mesmo quando racionalmente sabem que isso não faz sentido.
Eu peço desculpas, não quis dizer que fosse o seu caso, quis dizer que nem mesmo na vergonha e na culpa e na vergonha da culpa e na raiva do silêncio você está sozinha.
Agora percebo que fui invasiva. Por favor, me desculpe.

Mirella disse...

Anon das 11:17, não sei se vc vai ler, mas de qualquer forma:
se puder, procure terapia. você precisa trabalhar todos esses seus sentimentos para que eles não te atrapalhem mais na vida de hoje. você pode se empoderar e se fortalecer para poder lidar com seu passado da forma que melhor for. mas sempre se lembre: não foi você que se calou, não foi você que deixou. a sua escolha foi tirada de você, mas você sempre foi dona de si. tudo de melhor para você.