domingo, 13 de junho de 2004

CRÍTICA: DIÁRIOS DA MOTOCICLETA / Ideal revolucionário pode

Vi “Diários de Motocicleta” em Floripa porque é o jeito. Talvez depois de ganhar a Palma de Ouro em Cannes ele estréie em Joinville. Quero dizer, não acho que vai ganhar, logo, adeus Joinville. “Diários” não parece ser o tipo que triunfa em festivais. Tomara que eu esteja errada, mas ele é meio light, não inflama. Antes de falar mais uma palavra, devo resumir a trama pra quem confunde o filme com “Selvagem da Motocicleta”. Bom, é sobre uma viagem de moto que um Che Guevara novinho e seu amigo bonachão fizeram da Argentina até a Venezuela em 1952. Imagino que todo mundo que vai ver esta aventura saiba bem quem foi Che e o que ele representa, não? Ele é um ícone, um cara que morreu lutando por justiça social, e a camiseta com o rosto dele não me deixa mentir. Mas, aos 23 anos, ele ainda era um quase médico descobrindo suas raízes. Só que não dá pra esquecer o que Che se tornou enquanto a gente o vê jovem. Por isso fica esquisito, e divertido, ouvir a mãe dele pedir: “Ponha o cachecol, meu filho”. Nessa hora, no começo do filme, uma amiga me disse, ironicamente: “Putz, como que um rapaz que vem de uma família estruturada vira comunista?!”.

“Diários” é encantador, apesar de não se aprofundar em nada. Tanto que ouso dizer que a verdadeira alma do filme é o amigo Granado, interpretado por um excelente Rodrigo de la Serna (Gael García Bernal, que faz Che, está igualmente ótimo, mas claro que o Che real era mais lindo). É Granado que, velhinho, escreveu suas memórias. Hoje ele é um simpático ancião que vive em Cuba, segue leal a Fidel, e acredita que a luta continua, o ingênuo. Ou seja, é no mínimo ousado o Walter Salles (“Central do Brasil”) fazer um filme que fala em revolução, nem que seja de passagem, numa época como a nossa. Ué, o comunismo não tá morto e enterrado? O anti-comunismo, inclusive, não se transformou na maior religião do planeta? O idealismo não foi substituído pelo cinismo? A verdade é que eu a-do-ro ver uma obra como “Diários” e ler as resenhas que pipocam na grande mídia pra ver como os críticos profissionais saem dessa sinuca de bico. Olha só, eles não podem de maneira alguma louvar a revolução – imagino que se benzam três vezes ao ouvir o palavrão “comunismo”. Mas de certo modo o ideal revolucionário ainda soa charmoso, desde que não passe de ideal, né? Logo, eles falam dos ideais do Che como se ele pretendesse promover mudanças lá longe, em Marte talvez, e isso sim pode. É até bonito. Os mesmos críticos gastam linhas se perguntando se “Diários” seria um filme brasileiro da gema, já que é falado em espanhol e financiado por países ricaços. Ahn, isso importa? É relevante mesmo discutir se o Walter, herdeiro do Unibanco, tem direito de fazer um ou mais filmes sobre, argh, pobres? Pelo que sei, praticamente todo mundo que faz cinema é burguês. A crítica é burguesa, eu inclusa, o público idem. Como vai demorar um bocado pra mudar isso, não daria pra liberar o Walter da função de bode expiatório?

Devo acrescentar que chorei feito um trapinho no final, pra variar. Mas teve uma cena que me incomodou um pouco, quando o Che, nadando, cruza um rio à noite. É muito “Rocky” pro meu gosto. Sabe aquela ladainha de manual de auto-ajuda que clama que querer é poder? Se fosse, a gente não estaria nesse buraco, eu acho. Além do mais, a cena cai na armadilha de glorificar Che, ou seja, de vangloriar um único indivíduo como se fosse a salvação da lavoura, algo que a gente sabe tratar-se de um clichê burguês.

Mas não se preocupem que “Diários” não vai fazer ninguém pegar em armas. Se bem que no único discurso do Chezinho no filme ele dá a mensagem: que tal nós latino-americanos pararmos de nos separar? Somos todos ferrados, todos subdesenvolvidos, todos muito parecidos. Os brasileiros também. Afinal, a gente fala uma língua diferente, mas não incompreensivelmente diferente. Então a quem interessa detestar argentinos ou martelar que Bolívia e Colômbia são sinônimos de cocaína? Uma das falas que mais gosto do Che no filme é quando ele olha pras ruínas incas, e em seguida pra Lima, Peru, e diz: “Destruíram uma civilização pra construir isso?!”. Ele podia estar falando de São Paulo, Brasil. Ou de qualquer outra cidade daqui da América Latina.