Em 2003, o site Smoking Gun colocou na internet o depoimento de 1977 que Samantha, então com 13 anos, fez numa audiência preliminar sobre seu envolvimento com Polanski (na realidade, só encontrei a primeira parte). Semana passada, Marcelo Rubens Paiva traduziu algumas passagens em seu blog. Mas não vi em lugar algum o depoimento de Polanski sobre o caso. O que conheço da versão dele é o que ele (ou seu ghost-writer, não sei; celebridades raramente redigem suas próprias biografias) escreveu na sua autobiografia de 1984, Roman by Polanski. Traduzo algumas partes, resumo outras, porque é extenso: mais de quarenta páginas. Volto no final. O editor da Vogue Hommes andava insistindo comigo pra eu lhe conceder uma entrevista. Eu não gostava da ideia―minha fobia da imprensa ainda não tinha desaparecido―e disse isso a ele. Eu lhe dei uma sugestão. Um número recente da revista havia expost
o várias fotos de David Hamilton de meninas adolescentes. Elas eram no seu estilo romântico, fora de foco. Disse ao editor que gostaria de fazer uma série parecida com outro estilo, disposta a mostrar como as garotas eram hoje em dia―sexy, espertas, e totalmente humanas. O editor gostou da ideia e pediu para que eu começasse imediatamente. [...] Recebi algumas sugestões de meninas. Eu queria um grupo internacional, selecionando quatro ou cinco garotas de diferentes países: Suécia, França, EUA, Alemanha.[Seu amigo, o ator] Henri Sera disse que conhecia exatamente a garota que eu tinha em mente. A irmã mais nova de Tim, sua paquera do momento em L.A., Sandra [Polanski usa um pseudônimo,
mas está falando de Samantha], seria uma adolescente de aparência fabulosa que queria ser modelo e já havia aparecido num comercial. Ele enfatizou como ela era fotogênica. Ele me deu o telefone da casa onde ela e sua mãe, Jane, moravam.Meus primeiros dias em L.A. foram muito ocupados. [Entre outras atividades, ele estava consultando advogados para ver como emigrar de vez para os EUA. Ele fala de Natassja Kinski, pra quem pagou cursos de inglês e interpretação].
Passaram-se vários dias até que liguei para o número que Henri Sera havia me dado. Jane, a mãe de Sandra, atendeu o telefone. Ela já sabia que eu podia querer fotog
rafar sua filha porque Henri tinha falado para Tim de Paris. Jane parecia entusiasmada. Ela sugeriu para que eu fosse até sua casa no dia seguinte. [...] A casa era uma típica casa suburbana de classe média da Califórnia. [...] Jane me convidou para entrar, após elogiar minha loção pós-barba. Na sala havia um homem na frente da TV, sem realmente assisti-la. Na janela estava Sandra.
“Esta é Sandra,” disse Jane. Ela falou para que ela cheirasse minha loção pós-barba. “Não é ótima?”.
A menina disse “O
i”. Cheirou minha bochecha. “É razoável”.Eu olhei para ela por inteiro, tentando não ser muito óbvio. Depois da descrição de Henri Sera, eu estava desapontado. Sandra era mais ou menos da minha altura, magra e graciosa, com uma voz inesperadamente rouca para sua idade―uma menina atraente, mas nada sensacional.
[Jane apresenta Bob, seu namorado, para Polanski. Eles conversam sobre suas últimas fotos pra Vogue. O cineasta fala a eles sobre as fotos que pretende fazer, no estilo de David Hamilton. Conversam sobre agentes e empresários. Jane o convida para jantar, mas Polanski diz que precisa ir e que vai ligar].
Liguei alguns dias depois e agendei um horário. [Mãe e filha já haviam esc
olhido as roupas]. Sandra e eu fomos até as colinas, que começavam atrás da casa. Se não fosse pelas roupas e as câmeras, poderíamos facilmente ter andado, ao invés de dirigido. [...] Não levou muito tempo até eu notar que fora de casa e longe de Jane e Bob, Sandra era uma garota diferente―animada e tagarela. Uma típica adolescente da Califórnia, ela pontuava suas frases com a palavra like [algo como o nosso tipo assim]. “Tipo assim, odeio ter minha mãe por perto quando estou fotografando, porque ela diz, tipo, faça isso, faça aquilo”. Ela me contou que tinha um namorado faixa-preta em caratê. [Polanski escreve que, tirando fotos de closes, nota um chupão no pescoço de Sandra. Pergunta se ela conseguiu isso em aulas de caratê com o namorado. Sandra ri, diz que foi o namorado, mas que não foi caratê. Havia pistas de motocross por perto, e alguns garotos esta
vam lá.]Pedi a ela que pusesse uma outra roupa. Ela removeu sua blusa e pegou outra. Ela não estava usando sutiã mas parecia inteiramente à vontade―nem um pouco envergonhada. Ela tinha seios bonitos.
Tirei fotos dela se trocando e de topless. Pedi para que ela desabotoasse seu jeans em alguns centímetros e que pusesse seu dedão na cintura do cinto. Ela posou com profissionalismo. Os motociclistas estavam olhando de longe. Achei que ela deveria colocar sua blusa de volta. “Eles não me incomodam,” ela disse. “Eu não ligo”. Insisti, sentindo que sua indiferença diante dos rapazes era uma pose, uma tentativa de parecer sofisticada.
[Polanski explica pra ela que teriam que fazer várias sessões de fotos. De volta à casa de Jane, Sandra mostra uma elaborada capa de uma Playboy que ela gosta
para Polanski, enquanto Bob, que é editor de uma revista, Marijuana Monthly, pede para que o cineasta marque um encontro entre ele e Jack Nicholson. Polanski vai embora, prometendo ligar para agendar outra sessão. Vai para Nova York começar a pesquisa para The First Deadly Sin. Volta para L.A. no dia 26 de fevereiro de 1977, após passar dez dias em NY. Liga para Jane, e sente-se um pouco desconfortável porque sabe que ela tinha falado com seu agente, que não quis representá-la, e que Jack Nicholson havia ficado com cópias da revista de Bob, mas não quis agendar uma reunião. Portanto, fica feliz quando Sandra atende o telefone. Marcam a
próxima sessão de fotos para 10 de março. Ele chega atrasado, depois das 16 horas, porque estava numa reunião para providenciar o seu green card. No carro com Sandra, Polanski avisa que estão indo para a casa de Jacqueline Bisset. Mostra as fotos da última sessão para ela. Diz que, se ela não gostar de alguma, deve separá-las. Falam sobre o trabalho pra Vogue, sobre o pai dela (divorciado de Jane), sobre carros, sobre a escola. Toda essa conversa se dá no carro, pois o trajeto leva mais de meia hora]Sandra disse que não gostava muito de maconha―isso era para pessoas mais velhas como a sua mãe. Pessoalmente, ela preferia champagne. Durante um Natal, enquanto estava com seu pai, ficara bêbada com champagne. Ela também experimentou Quaaludes.
[Sandra tira uma carteira do seu bolso e mostra para Polanski uma foto do seu namorado. Conta como o conheceu, e diz que “Fomos pra cama logo”].

Perguntei pra ela quando começou a fazer sexo.
“Quando eu tinha oito anos”.
Isso me chocou. Olhei pra ela pra ver se ela estava brincando. Ela estava séria.
“Com quem?”
"Só um menino da vizinhança,” ela disse. “Com essa idade você nem sabe o que está acontecendo”. Ela falou casualmente. Aquilo não parecia significar muito pra ela.
[Eles chegam à casa de Jacqueline, onde há mais gente. Tiram fotos perto da piscina. Quando Jacqueline chega das compras, oferece a Sandra um copo de vinho branco. Ela recusa. O sol começa a se por, há muito vento, e Polanksi diz reparar que escolheu o lado errado de Mullholand Drive. Que do outro lado, onde v
ivia Jack Nicholson, ainda haveria luz. Liga para lá, que é um conjunto residencial onde mora também Marlon Brando. Fala com uma das vizinhas, Helena, e pergunta se pode ir para lá. Ele e Sandra chegam na casa, conversam com Helena. Ela informa que Nicholson não está, e que a namorada dele, Anjelica Huston, vai voltar logo. Sandra anda pela casa e pede algo pra beber. Polanski pergunta a Helena se pode abrir um champagne da geladeira, e os três bebem juntos. Helena vai embora, porque precisa trabalhar num roteiro. Sandra, investigando a casa, descobre a jacuzzi de Nicholson. Diz que quer entrar nela. Polanski diz pra ela esperar até que acabem as fotos. Tiram mais fotos. Ele pede pra ela tirar a blusa; ela tira. Ela se troca e põe um vestido na frente dele].Nós não estávamos falando muito então, e podia sentir uma certa tensão
erótica entre nós. Fomos até a cozinha, onde a fotografei sentada na mesa, lambendo um cubo de gelo, comendo um pedaço de açúcar. [Ele liga a jacuzzi. Troca as lentes da câmera].
Antes de fotografar Sandra na jacuzzi, decidi ligar para Jane. A sessão estava demorando mais que eu esperava. Se Jane soasse chateada e quisesse que a garota voltasse imediatamente, eu a teria levado pra casa. Se não, tanto melhor.
O comportamento de Sandra pelo telefone com sua mãe parecia bastante tranquilo. Ela disse para a mãe que estava na casa de Jack Nicholson, que havia feito várias fotos e que ela estava para entrar na jacuzzi. Nesse momento eu disse oi para Jane e perguntei se ela se importaria se Sandra se atras
asse para o jantar. [Jane diz que não. Sandra tira a roupa e entra na jacuzzi enquanto ele prepara a câmera. Sandra diz que a água está quente. Ele põe a mão na água para checar, e concorda. Ela se mexe na jacuzzi, molha a cabeça].
Preferiria que ela não tivesse feito isso. Ela não ficava muito bem de cabelo molhado.
[Depois de mais fotos, ele decide que está escuro demais para continuar. Entra na casa para guardar a câmera, sai e fica observando-a].
“Você não vai entrar [na jacuzzi]?” ela pergunta.
Eu disse que estava quente demais e que preferia nadar na piscina. Peguei uma toalha do banheiro, tirei a roupa e entrei na piscina. Nadei um pouco antes de parar
na entrada da jacuzzi. Sandra estava olhando pra mim estranhamente. Ela disse que não estava bem.“O que você tem?”, perguntei.
Ela disse que sua asma estava se manifestando.
“Eu não sabia que você tinha asma,” eu disse, e perguntei se ela tinha trazido algo—um inalador ou algo assim. Ela disse que havia deixado seu medicamento em casa.
"Você não deveria ficar tanto tempo no vapor”, disse pra ela. “Não se você tem asma. Entre na piscina”.
Ela saiu da jacuzzi e andou em direção à piscina, pôs um pé para dentro e disse que estava fria demais. Ela estav
a ofegante, respirando com dificuldade. Pegou a minha toalha e disse, “Devo repousar um pouco, senão posso desmaiar”. Quando perguntei o que deveria fazer se ela desmaiasse, ela fez alguma brincadeira sobre respiração boca a boca. Saí da piscina e a segui para dentro da casa.Fomos para um quarto no piso térreo. Eu já havia dormido lá várias vezes quando o quarto era de hóspedes, mas agora ele abrigava uma tela de TV enorme. As janelas e cortinas estavam fechadas, então o quarto estava quase que inteiramente escuro.
Nós nos secamos e secamos um ao outro. Ela disse que estava se sentindo melhor. Eu, muito gentilmente, passei a beijá-la e acariciá-la. Depois, a levei para o sofá.

Não havia dúvida sobre a experiência de Sandra e sua falta de inibição. Ela se deitou e eu a penetrei. Ela não estava impassível. No entanto, quando perguntei gentilmente se ela estava gostando, ela respondeu com sua expressão favorita, “Está razoável”.
Enquanto estávamos fazendo amor, ouvi um carro na entrada. Parecia ter passado a casa, então continuamos.
De repente, porém, Sandra ficou paralisada. A luz no telefone estava acesa, o que significava que havia mais alguém na casa, fazendo uma ligação de outro quarto. Isso fez com que nós dois parássemos, mas não suprimiu meu desejo pela garota. Após meus sussurros de que estava tudo bem, Sandra gradualmente relaxou novamente. Quando tudo acabou, abri a porta um pouco e olhei para o corredor. “Anjelica?”, eu chamei.
Ouvi Anjelica me chamar de volta―“Roman?”―e continuar falando. Pelo som de sua voz, ela estava na sala.

Sandra se vestiu rapidamente e foi para a sala para pegar o resto das roupas que havia trazido. Obviamente envergonhada pela presença de Anjelica, ela se apressou, passou pela cozinha, e foi para o carro. Eu a segui, apresentando-a da melhor forma que pude, fazendo gestos para Anjelica e prometendo voltar. Sandra entrou no carro e sentou-se lá; ela não queria voltar a entrar. Eu achei que deveria. Quando Anjelica terminou seu telefonema, expliquei que havíamos tirado fotos e nadado. Não mencionei havermos feito amor no quarto de TV, mesmo que isso deva ter ficado bastante óbvio. Não lhe falei que havíamos aberto uma garrafa de champagne de Jack―ela estava com uma taça na mão.
[Ele liga para o hotel para checar mensagens. Ele e Anjelica conversam rapidamente; ele lhe conta sobre a asma de Sandra, e se despede].
Sandra falou muito durante a sua volta para casa. Ela me contou sobre suas aulas
de violão e sua professora de teatro. Ela estava estudando Sonho de uma Noite de Verão na escola. Tentei não fazer careta quando ela começou a declamar Shakespeare com um forte sotaque californiano, sem nenhum senso de ritmo. Fiz com que ela repetisse as falas e lhe ensinei um pouco de ritmo. Surgiu o assunto dos filmes. Ninguém na sua família havia visto Rocky, então sugeri que fossemos todos juntos assistir ao filme na semana seguinte. Meus motivos não eram particularmente altruístas; era uma forma de poder vê-la novamente. Levamos meia hora para voltar. Quando chegamos, Sandra entrou na sua casa antes de mim. Jane estava no corredor. Eu disse a ela que não sabia que Sandra sofria de asma. Ela disse que não era sério. Ficamos com Bob na sala e fumamos meio baseado que eu havia encontrado no cinzeiro na casa de Jack.
Embora os dois falassem pouco, pude sentir uma mudança de atitude em relação a mim. Claramente não estavam
tão amigáveis quanto antes. Eu não havia notado anteriormente, quando fui pegar Sandra aquela tarde. Qualquer que fosse o motivo da frieza, não podiam ser as fotos de Sandra. Eles pareceram gostar delas.Não fui convidado para ficar para o jantar. Depois de dar um beijo de despedida em Jane e Sandra e um aperto de mão em Bob, dirigi para o hotel.
Mais tarde naquela noite tive uma chamada estranha de Henri Sera. Ele aparentemente havia falado com Jane pelo telefone, e ela estava furiosa. Ela achou que as fotos estavam horríveis. Eu não podia entender; ela não havia dito nada disso algumas horas atrás. Pedi a Henri para que viesse ao hotel e visse as fotos ele mesmo.
Ele estava um pouco nervoso quando apareceu. Perguntei qual era o problema, mas ele não respondeu diretamente, e só olhou para as fotos. Ele achou que estavam lindas. Se Jane e Bob não gostassem, eu disse pra ele, eu jogaria tudo fora.

Ainda naquela noite tive um encontro com Bob [Robert] De Niro, que me deu uma cópia do romance Magic, de William Goldman. Ele queria saber se eu tinha interesse em fazer um filme do livro, com ele no papel principal.
Passei o dia seguinte na minha suíte no hotel, trabalhando em The First Deadly Sin. Um amigo de Henri chamado Jojo apareceu com um presente de alguns Quaaludes.
[Quando ele vai sair para ir ao cinema com alguns amigos, um deles pergunta se ele tem um Quaalude. Polanski sobe para pegar um e, quando desce ao lobby, há um policial com um mandato de prisão contra ele. Aparecem mais policiais, todos bem-educados, segundo Polanski. Apreendem os Quaaludes que ele tem. Mencionam
a palavra estupro e os nomes de Sandra e Jane].Eu não tinha que dar uma declaração naquele momento, mas perguntaram se eu tinha alguma ideia de por que a queixa estaria sendo feita. Com honestidade, eu disse não. Estava incrédulo; não podia relacionar o que havia acontecido no dia anterior com estupro de qualquer maneira.
[Polanski acompanha os policiais à casa de Jack Nicholson, pois eles também têm um mandado de busca para aquela residência. Encontram um pouco de maconha e cocaína com Anjelica Huston e, por isso, mais tarde, para se livrar da acusação de porte ilegal de drogas, ela teria que testemunhar a favor da promotoria. A fiança para Polanski é de US$ 2,500. Ele paga e volta para o hot
el].Ouvindo os flashes de câmeras pipocando ao meu redor, sabia que meu mundo estava em ruínas. [Ele contrata um advogado criminal]. Enquanto revisávamos o meu caso, a dimensão da catástrofe me espantou. Eu não conseguia compreender; nada na minha vida havia me preparado para a ideia que eu seria um criminoso. [...] Dalton [seu advogado, que tem papel de destaque no documentário de Marina Zenovich] recomendou que eu continuasse trabalhando o mais normalmente possível, e que não falasse sobre o caso com ninguém.
[...] A audiência preliminar me indiciou por seis acusações: dar uma substância controlada para uma menor; cometer atos lascivos; fazer sexo ilegal; perversão; sodomia; e estupro por uso de drogas. Cada acusação
parecia pior que a outra quando Danton as leu para mim. Se as janelas do seu escritório no 32o andar não estivessem trancadas, eu teria me jogado lá mesmo. Através da audiência, fiquei sabendo o que aconteceu naquela noite. Sandra havia ligado para seu namorado e contado a ele que tínhamos feito amor. Tim [irmã mais velha de Sandra] ouviu isso por acaso e contou para Jane. Jane ligou para seu contador, que recomendou que ela ligasse para a polícia. Embora dez testemunhas tenham sido listadas, Bob não estava entre elas. Para efeito do júri, ele não existia.
Outra revelação surpreendente foi que o ataque de asma de Sandra tinha sido fingido; ela nunca havia sofrido de asma na vida. Para que eu não descobrisse is
so na noite em que voltamos para sua casa, ela entrou na frente e disse para a mãe: “Se ele perguntar, eu tenho asma”. Por que ela fez isso me deixa perplexo até hoje. Eu esperava que o quadro completo emergeria se houvesse um julgamento. Eu sabia que não tinha embebedado Sandra e que a garrafa de champagne ainda estava na metade quando saímos. O comportamento animado de Sandra durante a viagem de volta no carro era sinal que ela não estava dopada. Sua experiência sexual―se ela havia me dito a verdade―era bem diferente do que ela havia admitido na audiência.
[...] De todas as muitas premonições de desastre, uma que nunca havia cruzado a minha cabeça é que eu seria mandado para a cadeia, minha vida e minha carreira arruinadas, por fazer amor.
[O editor
da Vogue Hommes que o contratara para fazer as fotos se nega a testemunhar sobre o trabalho e sequer a falar com Polanski. Um empregado diz ao cineasta que, como não havia registro por escrito do ensaio de fotos, o editor não falaria. Polanski escreve:] Eu me senti traído. [Polanski conta que, à medida que as semanas passam, cria-se um consenso que não vai haver julgamento, e sim um acordo em que ele se declararia culpado pela acusação mais leve, porque o depoimento de Sandra não se sustentaria no tribunal].
Eu [assim como o promotor e o advogado de Sandra] não queria que a garota depusesse diante de uma audiência pública. Não era apenas que uma declaração de culpa da minha parte impediria um julgamento e me garantiria um acordo melhor; eu percebi que eu já tinha causado a Sandra um dano considerável. Eu não queria que ela fosse exposta para toda a mídia, o que a marcaria para sempre. Não havia necessidade para que nenhum de nós passasse por essa expe
riência.Se as acusações mais sérias fossem deixadas de lado, Dalton me disse, as previsões eram que eu não iria para a prisão se me declarasse culpado. [...] Ainda que eu tivesse que ser preso por um período curto, as chances eram que eu não seria deportado. Isso era fundamental, porque eu já havia decidido que queria viver e trabalhar nos EUA.
[...] A audiência do dia 9 de agosto [de 1977] foi crucial. Para a decepção da mídia, não haveria julgamento. A promotoria retirou cinco das seis queixas, deixando apenas a de “sexo ilegal”―não necessariamente um crime grave. Eu me declarei culpado. A sentença que o juiz me daria foi marcada para setembro. [O que segue é o que já descrevi aqui, e que está no documentário. Ele é avaliado por psiquiatras, que atestam que ele não é um sexual offender. Para uma ou
tra avaliação, ele passa 42 dias na prisão de Chino. Mais tarde, diante do comportamento errático do juiz, Polanski decide fugir:] Eu não ligava para o que aconteceria agora [após a fuga]. Eu simplesmente sabia que faria qualquer coisa a voltar a viver como vivi no último meio ano. Eu aguentei a vergonha e o abuso da mídia, perdi dois trabalhos de direção, e passei tempo na prisão. Sou eu de novo. Como vocês podem ver, a versão de Polanski difere muito da de Samantha. E é, a meu
ver, repulsiva em vários momentos, como quando ele diz que não a acha tão bonita quanto esperava (que é quase sempre uma tática comum de estupradores: negar que a vítima o atraísse), e quando ele fala da experiência sexual da menina. Algumas partes da narrativa, como a conversa na piscina, mais parecem roteiro de filme pornô. Ele nem menciona dar-lhe um Quaalude. Segundo o depoimento de Samantha, ele divide um comprimido com ela. E também não há menção da conversa sobre contracepção que Samantha narra (de Polanski perguntar se ela toma pílula e, ante a resposta negativa, fazer sexo anal). Porém, várias coisas batem nas duas versões, como terem tomado champagne, a “interrupção” de Anjelica Huston durante o sexo, e a asma de Samantha. É incrível que um homem de 44 anos veja uma menina de 13 com asma (ainda que ela estivesse fingindo) e ainda assim ache que
tudo bem transar com ela. Após ler o depoimento de Samantha (que só li pela primeira vez na semana passada), não resta dúvida, para mim, que foi estupro. Eu acredito na vítima. Mas também acredito na perplexidade de Polanski ao ouvir a palavra estupro. Não o estou isentando de culpa. Ainda que um estuprador não saiba que esteja cometendo estupro, é um crime terrível de qualquer jeito, que deve ser punido. Mas é bastante comum que estupradores (principalmente em date rapes) creiam que as moças digam não por charminho, como parte do jogo, aquilo do não que quer dizer sim. Isso não faz o estupro deles menor (continua sendo um crime hediondo), mas mostra que há muita coisa errada na dinâmica sexual de uma sociedade que faz que homens encarem um não como um sim, vá em frente.
Porém, o que está em questão hoje não é se, 32 anos atrás, houve ou não estupro. Foi feito um acordo, e a condenação de Polanski não foi por estupro, e sim por sexo ilegal com menor de idade. Ele receberá uma sentença por esse crime (que não é considerado tão sério) e, principalmente, por ser fugitivo da justiça. É isso que tantos linchadores do Polanski não querem entender: que não importa o que nós achamos, se foi ou não estupro (sim
, foi), se o acordo foi ou não justo (não, não foi). Simplesmente não se pode pegar um caso de 32 anos e julgar o réu como se o crime tivesse ocorrido anteontem. Quero dizer, o julgamento moral está sendo feito (e, por causa do contexto pós-anos 90 de não se tolerar mais sexo com menor de idade, está sendo feito com muito mais rigor), mas esse julgamento moral não vai interferir no julgamento da justiça americana.(Boa parte das fotos deste post eu tirei do excelente documentário de Marina Zenovich, Roman Polanski: Wanted and Desired).






