- Mãe, por que estamos tão rosas? O iluminador faltou?
Hoje chega ao Brasil Mamma Mia!, que fez tanto sucesso nos EUA (nada como Batman, lógico, mas entre os filmes “pra mulheres”, só perde pra Sex and the City) que algumas salas seguem reservadas para um sing along (sessão em que as espectadoras são encorajadas a cantar no cinema). Eu tinha tudo pra amar Mamma: sou mais ou menos da faixa etária do público-alvo (talvez alguns anos mais nova), adoro a Meryl Streep, sou apaixonada por musicais, e passei minha pré-adolescência ouvindo ABBA. Então por que não gostei tanto? 
Sinceramente? Porque tá mal-feito. Um crítico americano disse que Mamma pode entrar pra história como o musical com a pior coreografia em cem anos de Hollywood, como se o pessoal tivesse começado a filmar já no primeiro dia de ensaio. E é verdade. Desperdiça-se bastante ao fazer um musical só co
m canto, sem dança. Existe apenas um belo número, “Dancing Queen”. Meryl e suas duas amigas saem cantando por uma Grécia encantadora, e, no caminho, todas as mulheres largam seus afarezes e as seguem, cantando também. Essa cena é tão liberadora que chega a ser tocante. Duas lagriminhas rolaram pela minha face, e notei que a madame sentada ao meu lado chorou também. Mas é pouco. Um número marcante num musical cheio de canções viciantes?! E
ainda por cima baseado num show da Broadway que já vendeu mais de 30 milhões de ingressos?
Meryl está ótima, como sempre, e canta muitíssimo bem. É ela a alma do filme. Mas a fotografia trata pessimamente mal mãe e filha. Meryl aparece sempre com os olhos vermelhos e o rosto muito rosa. E a filha, f
eita por Amanda Seyfried (da série de TV Big Love; a garota mais burrinha de Meninas Malvadas), tem olhos enormes saltando das órbitas, o que deveria vir com manual de instruções do tipo “proibido closes”. O efeito é assustador. Às vezes ela lembra um batráquio; noutras, faz muitas caretas (inclusive, todas as jovens do filme têm olhos claros e a mesma expressão: olhos arregalados e boca aberta), e seu canto é nulo. Acho que ela é até docinha, mas a impressão é a de uma atriz fraca.
Nada se comparada à impressão deixada pelo Pierce Brosnan (007). Quando o Pierce cantou os primeiros acordes de “S.O.S.”, o pessoal no cinema engasgou, e em seguida caiu na gargalhada. É ruim assim. Indescritivelmente ruim. Você vai ter que pagar ingresso pra ver. Eu só pensei: “Iiic! O que é isso saindo da boca dele? Uma voz?!”. Nessas hora
s Mamma vira filme de terror. O grande suspense é imaginar quando que ele vai cantar de novo. E ele canta mais uma vez, tão terrivelmente mal como da primeira. Olha, não tenho nada contra o Pierce. Enquanto ele tá só decorativo no filme, não há problema. Mas não deixem o carinha se aventurar no canto, por favor! O Colin Firth se sai um pouquinho melhor, e o Stellan não tem que cantar mais que duas linhas. Acho que ele só tá no filme por ser sueco, como o grupo pop.
Mas os três são lindos, e é legal ver homens de verdade de vez em quando. Tudo bem que a gente sabe que todos os astros e estrelas fazem plástica, usam Botox, estão ultra-maquiados e tal, mas há limites. Uma perna magrinha (que é o que acontece com quase todas as pernas masculinas depois de uma certa idade) é difícil de disfarçar. O Colin tem papada, e quer saber? A gente não liga. Ele é sexy de qualquer jeito. Claro que, se ele fosse mulher, não teria mais trabalho em Hollywoo
d há no mínimo cinco anos... Ou você acha que toda atriz consegue ter uma carreira como a da Meryl? A única restrição que faço a ela é que todas as canções da ABBA começam com um solo, e logo um coro se junta. Aqui no filme o coro também se junta, mas na maior parte não o vemos. O que vemos é a Meryl cantar como se fosse umas cinco.
Outro problema é que a filha tem 20 anos. Ou seja, tudo isso aconteceu duas décadas atrás. Eu posso acreditar numa boa que esse pessoal (Meryl, Pierce, Stellan & cia.) tenha 50 anos, mas pedir pra que eu creia que eles têm 40 é um pouco demais. Na vida real, a Meryl tem quase 60. Ela passa por 50, sem dúvida, mas 40?! Ninguém diz especificamente que eles têm 40, só que tá implícito. Os rapazes se vestiria
m de hippies e metaleiros aos 30? Mais difícil de acreditar. E a Meryl conta que, quando engravidou, sua mãe a pôs pra fora de casa. Eu só pude pensar: você não deveria estar morando com a mãe aos 30, querida.
Como Mamma Mia! é dirigido por uma mulher, Phyllida Lloyd (conhecida por seu trabalho na ópera), escrito por uma mulher, produzido pelo casal Rita Wilson e Tom Hanks, estrelado por m
ulheres (o que não é nada comum), e feito pra seduzir mulheres mais velhas, eu tenho que elogiá-lo um pouco. Por exemplo, adorei as duas melhores amigas da Meryl. Uma é a Julie Walters (de A Educação de Rita e Billy Elliot. Tá, tá: ela faz a Molly na franquia Harry Potter), que canta “Take a Chance on Me”. A outra é Christine Baranski (de Grinch e Chicago, quer dizer, não sei quem é, mas o r
osto parece familiar), que conquista a platéia cantando “Does Your Mother Know”, em que breca as intenções de um rapaz que pode ser seu filho.
Eu já disse na minha cri-crítica do trailer que pedir pra Meryl optar por um dos três lindõ
es é pior que a decisão que tem que tomar em A Escolha de Sofia. Mas na realidade não há muito o que escolher. O sortudo já tá selecionado desde o comecinho. No entanto, Mamma tem recadinhos feministas, como falar que casar-se jovem não tá com nada, que o mais importante é ter um sonho. E, principalmente, que a vida não acaba aos 40. Hollywood nos ensina exatamente o contrário em todo santo filme. A Meg Ryan que o diga.
Stellan, Pierce e Colin: Mery Streep revive sua escolha de Sofia. Vou realizar uma enquete pra você também ter que optar por um dos três.