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segunda-feira, 4 de maio de 2009

JOINVILLE, TENHA ORGULHO DA SUA DIVERSIDADE

Vai ser bonita a festa, pá.

Fico feliz que a Passeata Gay de Joinville, a ser realizada pela primeira vez (em junho), tenha despertado tanto debate. E que bom que o jornal esteja abrindo espaço pra esse debate. Infelizmente, os comentários da maior parte dos leitores sobre a Parada são de cortar o coração. Tenho dificuldade em entender como as pessoas podem ser tão intolerantes, ainda mais quando um outro estilo de vida não as afeta nem um pouquinho. Eu escolhi alguns recados pra comentar, se me permite:
- “Joinville é uma cidade de gente trabalhadora, não de baderneiros; vão trabalhar”. Aqui o leitor infere que gays não trabalham. Deve ser chato ir contra todas as estatísticas que indicam que a renda per capita dos gays é maior que a dos héteros.
- “Já somos chamados de cidade das meninas pelo festival de dança. Todo respeito aos que são gays, mas eles que busquem os encontros lá fora”. Este acredita piamente que na sua cidade não existem gays. Vai sonhando, filho.
- “Que façam a parada dos heterossexuais também. Sabe por que hétero não faz parada? Porque não precisa se convencer de nada, está cumprindo a sua função da natureza”. Eu nunca vi maioria de 90% fazer passeata pra reivindicar alguma coisa. Na realidade, só vejo a maioria chamar as minorias que protestam de baderneiros.
- “Temo que as coisas 'avancem' demais e que, no futuro próximo, estejamos discutindo a realização da Parada Pedófila em Joinville, da Parada Necrófila ou da Parada Zoófila”. Essa é velha. É o que o pessoal que era contra o casamento interracial dizia. Até o final da década de 60 brancos e negros americanos não podiam ter uma família juntos. Isso parece errado hoje? E comparar gays com pedófilos, não? Aqui vai uma surpresinha desagradável pra você: a enorme maioria dos pedófilos é constituída por homens heterossexuais. Nem por isso devemos ser contra os homens héteros.
- “Eu acho que ser gay é uma doença, e como tal deve ser encarado. Acho também que o gay (ou lésbica) não deve ser discriminado. Mas também acho que não é propriamente motivo de 'orgulho' e o mesmo deve ater-se à discrição”. Os médicos também achavam que ser gay era uma doença, e o tratamento era à base de eletrochoques. Assim como achavam que negros eram inferiores aos brancos. Havia até “provas” cientifícas! Também achavam que o Sol girava em torno da Terra, e não o contrário. Graças aos céus, evoluímos.
- “No centro todos os dias vejo um bando de emos e viadinhos sem vergonha nenhuma de aparecer; pra quê desfile se eles já andam pelas ruas, já não tá bom ser aceito pela sociedade que eles julgam preconceituosa?”. Aprenda, leitor(a): ser aceito é... ser chamado de viadinho sem vergonha.
- Cansei de citar. Um outro leitor diz que, se Joinville tiver parada gay, Deus destruirá a cidade, como fez com Sodoma e Gomorra. E como fez com São Paulo, Nova York, Berlim, Londres, e todas as dezenas de metrópoles que têm paradas gays todos os anos (já faz umas quatro décadas).
- Outro pergunta, desesperado, como um pai de família explicará a seu filho “este bando de imoral”. Permita-me uma sugestão: “Olha só, filho, como as pessoas não são todas iguais. E é maravilhoso viver num mundo em que existem diferenças, porque isso abre a nossa cabeça”. Tá bom? Não? Ok, então é só evitar a rua onde a parada gay passará. Fácil.
- E tá cheio de comentário dizendo que Joinville tem coisa mais importante pra fazer. Claro que tem. E está fazendo. Uma parada gay não vai parar a cidade ou o universo. A vida continua. Não é nem um feriado (e eu gosto de feriado!). Mas isso de “por que as pessoas não se mobilizam pra assuntos mais importantes?” vale pros dois lados, né? Inclusive pra quem tá indignado com uma Parada Gay e vem dizer que não, não é preconceituoso, apenas é contra porque Deus é contra, mas que não move uma palha pra mudar outros assuntos importantes.
Não vou dizer que não haja gente de bem (pra mim gente de bem é gente sem preconceitos) que desaprove as paradas gays. Tem até gay que é contra a parada gay, por achá-la carnavalesca demais. Eu acho que é como o nome diz: Parada do Orgulho Gay. Não é uma marcha fúnebre. Tem que exibir a sua felicidade sim. E tem de tudo numa parada gay, inclusive famílias héteros inteiras que vão prestigiar o evento.
Não dá pra negar que o governo do PT, em escala federal e municipal, seja pró-gay e outras minorias também. Claro que eu, particularmente, vejo isso como algo muito positivo, porque também sou pró-minorias. Junto com a Parada, haverá uma Semana Cultural da Diversidade, com vários eventos e palestras discutindo a homofobia. Nisso entrará um pouco de dinheiro público, na parada não. Considero ótimo que, assim que assume um governo de esquerda pela primeira vez na história da cidade, haverá uma parada gay. Não é a única mudança, mas é uma delas. Só não sei se haverá muitos participantes. Espero que sim. Por isso, convoco os héteros que são contra os preconceitos a darem uma mãozinha. Lutar contra a discriminação é dever de todos, não só das minorias. Estarei lá com meu marido e minha mãe, uma senhora de 74 anos que ainda acredita num mundo mais tolerante.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

HIP HOP, PRECONCEITO E IDENTIDADE

Vi um documentário muito interessante sobre hip hop ano passado. Foi num auditório da universidade, e infelizmente depois não houve espaco pra trocar impressoes. Outra infelicidade é que não anotei o nome deste documentário independente, de distribuição pra lá de limitada, então não posso compartilhar o título com você. Bom, sei quase nada sobre hip hop, mas ando acompanhando as críticas feitas à linguagem usada nesse tipo de música. Boa parte da comunidade negra daqui quer banir termos ofensivos como “nigger” e “bitch” – termos usados abundantemente por rappers, e também pela maioria da juventude negra. Claro que é diferente um negro chamar seu amigo de “nigger” (que é um palavrão hiper ofensivo, que eu nem deveria estar escrevendo) de um branco tratar um negro com esse termo. Assim como uma mulher se dirigir a sua amiga como “ei, sua vadia!” é diferente dos “vadias e vacas” usados por homens que odeiam mulheres. Existe até uma publicação feminista (branca) chamada Bitch. E os gays pegaram um termo ofensivo como “queer” e o transformaram numa expressão de orgulho usada academicamente (queer theory etc). Mas talvez, se uma mulher negra não aprove que um homem branco a chame de “bitch” ou “the n-word”, ela tampouco deveria divulgar esses termos.
O documentário discute conceitos de masculinidade. Parece que 70% dos consumidores de hip hop nos EUA são homens brancos. Posso entender por que homens são atraídos para uma música que fala tanto de violência, confronto e poder. E imagino que rappers negros gostem que homens brancos paguem por sua música, ainda que eles jamais serão considerados parte do mesmo grupo. É tudo uma questão de se enturmar. Como aqui nos EUA a segregação é imensa, claro que jovens negros encontram uma identidade em comum. Os pais desses jovens, suponho, ja não seriam aceitos na mesma comunidade. Nem as mulheres. Se bem que há várias bundas e peitos nos videoclips. Mulheres são tratadas como objetos, mercadorias. Um clip mostra um rapper passando um cartão de crédito entre as nádegas de uma moça. Taí algo que tem muito a ver com o Brasil, né? É de se pensar por que tantas mulheres topam ser cidadãs de terceira classe nessa comunidade. Tem o dinheiro, mas será só isso? No fundo, é também uma construção social. Assim como os meninos são ensinados que homem não chora, que armas são objetos de desejo, e que a pior coisa que você pode ser no universo é ser gay, as meninas são avaliadas apenas pela sua beleza exterior. Desde a infância se espera que uma menina seja bonita. O sucesso que a menina vai conseguir dependerá dessa avaliação. Então imagino que elas aceitem ser objetos sexuais porque podem. É também uma maneira de se enturmar. Elas seguem um roteiro que foi programado pra elas desde o nascimento. Parecido com nossas dançarinas do Tchan, mas essas pelo menos não são chamadas de vadias. Já outras são chamadas de cadelas, e gostam. Tem algo errado nesse mundo.
Aqui apenas 12% da população é negra, mas entre os presidiários, 50% são negros. Armas de fogo são a principal causa de morte entre jovens negros (como no Brasil). E uma mulher negra corre risco muito maior de ser violentada ou espancada que uma mulher branca. Portanto, promover uma cultura (o hip hop) que glorifica as armas de fogo e promove a violência contra mulheres e gays não parece algo inteligente pra sobrevivência da própria comunidade. Pessoalmente sou contra qualquer tipo de censura. E não consigo compreender como um grupo historicamente discriminado como os negros passe a discriminar outras minorias pra fortalecer sua própria identidade. As minorias deveriam se unir contra os preconceitos, nunca fortalecê-los. Não parece lógico?

terça-feira, 6 de novembro de 2007

DURO APRENDIZADO

Em Detroit, arrastei o maridão pra uma conferência chamada “Black America” principalmente porque um dos palestrantes era o John Singleton, o cineasta americano negro mais importante depois do Spike Lee, e único diretor negro a ter sido indicado a um Oscar, autor de “Boys'n the Hood – Os Donos da Rua” e “Duro Aprendizado”. Antes do início das palestras, o maridão, muito ingênuo, me perguntou se “América Negra” referia-se a todos os negros de todas as Américas. Eu só pude rir e responder: “Você tá brincando, né? Americanos nem sabem que existem outras Américas!”. Dito e feito. Na conferência, no máximo, muito de vez em quando, alguém mencionou a África. Mas ficamos impressionados. Primeiro veio um jovem narrar algo que lhe aconteceu há poucas semanas: ele foi baleado na perna por um outro rapaz negro. O mestre de cerimônias quis saber por que um irmão atiraria num outro irmão (ninguém questionou por que o “brother” atiraria em qualquer ser humano, ou o que o irmão estava fazendo com uma arma, em primeiro lugar). O conferencista seguinte, um muçulmano negro de turbante, explicou que só existe um deus, Alá, e atacou o governo por banir orações das escolas, as mulheres, que são em geral umas vadias que não sabem educar os gloriosos filhos da nação negra, as pessoas que não querem que batamos nos nossos filhos, pra que eles aprendam o que é certo e errado, os homossexuais, que são imorais e vão arder no inferno, e por aí vai. E a platéia, toda negra, várias mulheres, aplaudia e gritava “Amém!”. Na hora das perguntas, indaguei: “Qual a diferença entre os muçulmanos negros e os fundamentalistas cristãos brancos?”. O sujeito de turbante revoltou-se com a minha pergunta, disse “Nenhuma!”, e passou a me atacar por eu não compreender que as mulheres são inferiores aos homens, porque Alá quis assim. Em seguida veio um jovem presidente de alguma fraternidade negra, que, antes de começar, manifestou apoio a 100% do que o do Alcorão disse. E acrescentou que a culpa da sociedade negra estar tão mal das pernas é das feministas, que pregam que a mulher não precisa do homem pra criar os filhos. Mais adiante defendeu que os negros de Detroit deveriam boicotar lojas que não fossem de negros, e xingou os imigrantes árabes por, apesar de não poderem beber, possuírem lojas de bebidas que vendem esse veneno pros irmãos. E por aí foi. O John Singleton em si teve um discurso um pouco menos segregacionista e machista, mas bastante recheado de violência – que não é só marca registrada do homem americano negro, mas do homem americano, ponto.

Estamos perplexos até agora. Não existe a menor chance de integração ou de colaboração entre esses negros da conferência e outras minorias (mulheres, gays, hispânicos, etc). Assim como os brancos, esses negros que vimos precisam muito de um “outro” pra demonizar, e o mais à mão nem é o branco, mas a mulher negra. Se um desses caras chegar ao poder, estará prontinho pra expulsar os imigrantes ilegais e construir um muro pra barrar os mexicanos. É de chorar.


Mistura Mal-Feita

Não são apenas os negros que vivem segregados. Há uma comunidade num subúrbio chamado Dearborn que carrega a fama de ser a maior colônia árabe for a do Oriente Médio. Será que é a maior que a libanesa em SP? Não sei, mas é vista como a mais populosa dos EUA. Então diariamente vejo mulheres com o rosto coberto por véus, e só posso pensar: deve ser barra ser árabe nos EUA. Depois do 11 de Setembro, a internet foi tomada por milhares de pedidos de boicote a restaurantes árabes. Mais de um em Dearborn quase fechou, porque os emails alegavam que os funcionários muçulmanos aplaudiram a queda das Torres Gêmeas. Tudo lenda urbana. Os árabes daqui não se consideram apenas árabes: eles se auto-intitulam árabes-americanos, e querem ter os benefícios que todos os americanos (bem, os brancos) têm. Todos com quem falei são muito simpáticos e não só amam o Brasil, como têm algum parente morando lá. Mas, no nosso país tropical, não me lembro de tantas mulheres usando véu. Aqui parece que são todas, e é esquisito ver moças maquiadas, falando inglês fluentíssimo cheio de gírias, e cobrindo o rosto. É besteira proibir véus como fizeram na França; por outro lado, o véu soa como uma barreira à integração, uma lembrança constante que a pessoa não é daqui. Pensando bem, aí é que está: ninguém parece querer se integrar nesta sociedade. Essa imagem que vendem de “melting pot”, de um caldeirão onde centenas de religiões, raças e culturas se misturam, não existe. Quer dizer, existe – no Brasil.

domingo, 2 de setembro de 2007

ADOTE UM HOMOSSEXUAL

Vi uma palestra de um professor de filosofia e ativista gay. Chamava-se “O que a homossexualidade tem de moralmente errado?”, e óbvio que a resposta é: nada. Não sei se eu precisava de uma palestra pra descobrir isso, mas a verdade é que às vezes tenho dificuldade em me colocar no lugar dos outros. No caso, no lugar das pessoas que odeiam homossexuais. Não entendo seus argumentos. O homossexualismo é errado porque a Bíblia diz que é? Pelo que eu saiba, o livro sagrado defende a escravidão em varias passagens. Ah, então o homossexualismo é errado porque não é natural. O palestrante notou que quase nada na nossa vida é natural, das roupas que usamos às cadeiras em que sentamos. Ah, então o homossexualismo so pode ser errado porque os animais não fazem isso. Bom, todo cachorro macho que conheço já atacou sexualmente qualquer coisa que se move (e que não se move também). E, por mais que eu ame cães, não sei se devemos copiar o comportamento deles (lembre-se do que eles tentam fazer nas pernas das visitas). Ah, mas gays e lésbicas se exibem demais, esfregam na nossa cara seu estilo homossexual. E nós, heteros, fazemos o quê? Falamos toda hora das nossas paixões, andamos de mãos dadas, mostramos ao mundo como ter amor na vida é importante. Por que os gays teriam que esconder essa parte fundamental de suas vidas? Pra mim, moralmente errado é negar a um grupo o direito de ter e fazer o que os outros podem ter e fazer. O que mais gostei da palestra foi que o professor nos pediu para pensar no que um relacionamento amoroso inclui. São tantas coisas além do sexo! Sexo é um dos componentes, sem dúvida, mas existem inúmeros outros, como bem devem saber os casais heteros que não vão pra cama com tanta frequencia depois do nascimento dos filhos. No entanto, quando pensamos num relacionamento homossexual, só pensamos em sexo. Claro que o ideal pra acabar com esses preconceitos seria que todo mundo tivesse um amigo homossexual, pra que, com a convivência, notasse que eles são tão “normais” quanto nós. Já ouvi gente dizer que preferia ter um filho ladrão a um filho gay, ou que Deus colocou os homossexuais no mundo pros homens de verdade poderem bater neles. Não consigo compreender essa gente. Deve ser cansativo andar pela Terra com um bastão, pronto pra golpear quem não aceitar a sua verdade. Pensando bem, estou fazendo o mesmo. Mas é por uma boa causa.