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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

TUDO QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ - FINAL

Cuidado, muito cuidado, todo o cuidado do mundo! Spoilers referentes ao livro do Cormac McCarthy! Esta é a parte final. Veja a primeira, a segunda, a terceira, e minha crônica sobre o filme.

- O quê? Não gostou do final do filme? Pois saiba que esse fim é 100% superior ao do livro. Porque o livro não acaba depois que Moss, Wells, Carla, e principalmente Chigurh saem de cena. Não, o livro prossegue por mais 50 páginas só do xerife repetindo o que a gente já conhece desde o título! É interminável. É um sexto do livro, e não tem razão de existir, na minha modesta opinião. Há um longo papo entre o xerife e seu tio, um homem que vive numa cadeira de rodas, cercado por gatos. No filme essa cena aparece, mas os Coen tiveram a esperteza de cortá-la um monte e colocá-la antes do acidente do Chigurh (se fossem mais ousados, teriam eliminado a cena completamente). Basicamente, nessa conversa no livro, o xerife (personagem do Tommy Lee Jones no filme) revela ao tio seu terrível segredo: ter abandonado seu pelotão durante a Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim ter sido condecorado. Cumequié? Tem uma encarnação do mal chamada Chigurh à solta, e a gente precisa ficar interessada no que aconteceu com um xerifinho quatro décadas atrás?! Ah sim, ambos conversam sobre os EUA não serem um country for old men.

- E o livro continua... O xerife se aposenta. Sente-se culpado pela morte de Carla Jean, mas consola-se que não podia adivinhar que Chigurh iria matá-la. Ele fala com os dois adolescentes que viram Chigurh no acidente de carro (porque eles venderam a arma dele, e a polícia notou que foi a mesma arma usada para matar Carla Jean). Um mexicano é condenado à pena de morte por crimes cometidos por Chigurh no começo da trama. O xerife tenta testemunhar a favor do mexicano, mas não adianta. Chigurh é considerado um fantasma. O xerife assiste à execução do mexicano. O xerife visita o pai de Moss. Ambos conversam sobre... você sabe. Tá no título. O xerife fica mais em casa. Sua mulher é muito carinhosa e paciente, mas lhe dá uma cotovelada: “Lembro que quando Papai se aposentou, Mamãe disse pra ele: eu disse na saúde e na doença, mas não disse nada sobre almoço”. O xerife não tem simancol. Ele sente um sentimento de derrota que é pior que a morte. Fala de outras coisas pra mostrar como este não é um país para os velhos. Narra o sonho com o pai. The end.

Talvez eu esteja sendo rigorosa demais com o livro. Deve ter muita gente que o acha brilhante, uma alegoria perfeita de como os EUA são um país violento. Mas eu realmente achei tudo muito repetitivo. Em sua defesa, posso imaginar que o xerife é um homem traumatizado com tanta violência ao seu redor, e o que faz uma pessoa traumatizada? Ela repete. É uma interpretação coerente. No entanto, pra mim, leitora, o personagem do xerife precisa aparecer menos pra história fluir mais. E qual é a grande falha do filme dos Coen? Quando que o fascínio parece se esvair? Quando o xerife assume a posição central. I rest my case.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

TUDO QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ - PARTE III

Quem avisa amiga é: o texto abaixo só tem spoilers. Se você já viu o filme e leu o livro, bem-vindo(a). Se não, fuja. Tem duas partes sobre o filme e livro mais pra trás (aqui, aqui e a crônica aqui). E falta uma.

- No livro, Moss (personagem do Josh Brolin no filme) tem 36 anos, Chigurh (personagem do Javier Bardem) mais ou menos isso, e a mulher do Moss é hiper novinha – só tem 19 aninhos. Casou-se aos 16. Coisas do Sul dos EUA.

- O livro se perde legal. Olha só: depois de Moss recuperar a maleta na fronteira do México, ele compra uma pick-up e dá carona pra uma menina de 15 anos. Seguem-se looongas (e inúteis) conversas entre os dois. Ela está indo pra Califórnia. Ele lhe dá mil dólares. Param num hotel barato na beira da estrada. Corta pro xerife (personagem do Tommy Lee Jones) chegando à cena do crime. A polícia já está lá e lhe diz o que houve: um mexicano atirou na menina e no Moss, mas Moss ainda teve tempo de atirar de volta e matá-lo. Eles já estão no necrotério. O xerife vai até lá e reconhece o corpo de Moss.

- No filme tentaram agilizar um pouco mais o negócio. Primeiro que a carona não entra, o que é uma boa escolha. Moss rapidamente flerta com uma mulher na piscina do hotel. O xerife chega a tempo de ver uma caminhonete com os traficantes mexicanos deixando o local em alta velocidade. A mulher da piscina está morta. Idem pro Moss, estirado na porta do quarto. Os Coen passam essa imagem do Moss morto bem rapidamente, o que deixa muitos espectadores confusos. Só que há um outro problema: pelo que eu entendi, o Moss chega ao hotel e flerta com a moça na piscina no caminho do quarto. Dá tempo pra ele esconder a maleta?

- No livro fica claro: Chigurh observa tudo de longe. De madrugada vai até o hotel onde houve as mortes, entra no quarto, e rapidamente pega a maleta. O xerife tem uma intuição e vai até o hotel. Chigurh espera no carro, com a pistola no colo, pronto pra matar o xerife, se ele chegar perto. O xerife sente que Chigurh está por lá, mas prefere entrar no seu carro e se afastar do hotel e chamar a polícia, evitando o confronto.

- No filme essa é a sequência mais confusa e polêmica, e a culpa é da edição (ou seja, dos Coen). O que eu acho que acontece é: o xerife chega no hotel de madrugada, e Chigurh está no quarto. Ele, Chigurh, esconde-se atrás da porta. O xerife entra no quarto, vai até o banheiro revistar, volta, senta-se na cama, pensativo. Não dá pra saber ao certo se Chigurh pegou a maleta, mesmo que haja a pista dos parafusos no chão. Os mexicanos podem ter fugido com o dinheiro. Mas tudo isso tá mal-feito. Primeiro, por que uma máquina mortífera como o Chigurh se esconderia de um xerife velhinho? Segundo, ô lugarzinho pra se esconder! Atrás de uma porta?! O Javier Bardem é grandão. Ficaria bastante visível atrás da porta. Terceiro, quando que ele sai? Só pode ser enquanto o xerife vai ao banheiro. De todo jeito é esquisito. O que ocorre no livro (Chigurh esperando no carro) é mais viável.

- Na manhã seguinte, no livro, Chigurh vai até um escritório devolver a maleta com o dinheiro! Ele explica que, dos 2.4 milhões originais, está faltando 100 mil dólares – parte disso foi roubada, a outra parte é pra cobrir despesas do Chigurh. O homem do escri escuta perplexo e desconfiado. Chigurh explica que deseja mostrar ser totalmente honesto e confiável, perfeito para ser contratado em situações de conflito. Nada disso está no filme. A gente só pode adivinhar quem fica com a grana.

- No livro, Carla Jean, mulher do Moss, volta do enterro de sua mãe (na realidade, sua avó), e encontra Chigurh em sua casa, esperando por ela. Como no filme, ela diz que não tem o dinheiro, e Chigurh explica que Moss teve a oportunidade de salvá-la e não quis, e que ele, Chigurh, é um homem de princípios, e por isso precisa matá-la. A conversa entre eles é muito mais longa no livro. Nos dois casos, Chigurh dá a Carla a chance de apostar sua vida na base do cara ou coroa. Se tiver sorte, ela se salva. No filme ela se recusa, e o que vemos é Chigurh saindo da casa e limpando os sapatos. É altamente provável que ele a tenha matado. No livro, Carla acaba apostando, escolhe o lado errado da moeda, se desespera, chora, pede para ser poupada – e Chigurh atira nela.

- A cena que vem imediatamente a seguir no livro é o acidente de carro em que Chigurh se fere. (Depois descobrimos que três garotos mexicanos num carro estavam fumando maconha e não respeitaram a placa de “Pare”. Dois deles morrem no ato). Nessa parte o filme é idêntico ao livro. Chigurh sai do carro, com um osso exposto no braço; compra a camiseta de um dos dois adolescentes na calçada, pede pra que eles não o descrevam a ninguém, e vai embora. É a última vez que vemos Chigurh. A diferença é que no livro os meninos vêem uma arma do Chigurh dentro do carro e a pegam.

- Após essa cena, no filme, vem o final que deixa tanta gente revoltada: o xerife narrando o sonho que teve a sua esposa. No sonho ele vê seu pai e insinua, mais uma vez, que este não é um país para velhos. The end.

The end” só pro filme. O livro e minha análise continuam.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

PARTICIPAR DO BOLÃO PROLONGA A VIDA

"Você vai fazer o quê se eu não participar do bolão do Oscar? Juro que vou apostar, friendo! Passa logo essa moeda que você vem carregando há duas décadas pra eu chutar tudo na base do cara e coroa!"

Veja aqui como participar.

TUDO QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ - PARTE II

O texto abaixo só tem spoilers. Sou a maior desmancha-prazer do universo, eu sei. Só leia se você já viu o filme e leu o livro (a parte I desta análise tá aqui, e a crônica aqui).

- No livro do Cormac McCarthy, Moss (personagem do Josh Brolin), na fronteira entre EUA e México, compra o casaco dos rapazes (o legal é que Moss está tão ferido que a princípio acha que são quatro rapazes, depois vê que são três), mas não compra a garrafa de bebida que usa pra passar pela fronteira, já que não há um guarda vigiando. Ele joga a maleta para escondê-la, mas não desmaia e acorda com um grupo de mariachis cantando pra ele – mais um belo toque bizarro dos Coen. Antes d'ele perder a consciência, no livro, pede (e paga) pra um velho mexicano varrendo a rua para que o leve a um hospital.

- No livro, Chigurh (personagem inesquecível do Javier Bardem) encontra Wells (o personagem do Woody Harrelson) no hotel, e fala bastante com ele. Diz que ter sido ferido “mudou sua perspectiva”. Wells (que aprendemos pelo livro que foi um tenente no Vietnã) é hostil, fala pra que ele faça logo o que tem que fazer. Finalmente, Chigurh atira nele no rosto, e desce para revistar seu carro. E aqui há um sério anacronismo. Enquanto ele está lá fora, em frente ao hotel, o telefone do Wells toca, Chigurh o tira de seu bolso e atende e... Uh? Como assim? Telefone celular em 1980? No filme, além de Wells ser menos hostil, Chigurh atira no corpo dele quando o telefone toca, no quarto.

- No livro, antes de Moss ligar pra Wells, ele liga do hospital pra sua esposa, pede-lhe pra sair da casa da mãe, onde está, e diz que vai tentar consertar as coisas. Portanto, ele liga pro Wells na tentativa de devolver o dinheiro. Isso nunca ocorre no filme.

- Em ambos os casos, Chigurh avisa Moss, por telefone, que está indo matar sua mulher (a de Moss; Chigurh não parece ser casado ou ter qualquer relacionamento afetivo), e que ele tem uma chance de salvá-la: é só entregar a mala com a grana. Mas que ele, Moss, não tem salvação. Revoltado, Moss diz que vai matá-lo.

- Pra cada passagem que há no livro falando da ação entre Chigurh e Moss, tem algumas páginas em itálico e em primeira pessoa mostrando o que o xerife sente. Algumas dessas partes são interessantes, como quando o xerife conta que, na década de 30, fizeram uma pesquisa nas escolas perguntando qual o maior problema nas salas de aula, e o pessoal respondeu “alunos que mascam chiclete, copiam lição de casa, trapaceiam nos testes”. Cinquenta anos depois – lembre-se, estamos na década de 80 -, fizeram a mesma pesquisa, e a resposta foi “assassinatos, estupros, roubos”. O tema todo é que os EUA é um país violento e que não foi feito para os velhos. Sabe, como tá no título. Só que o Cormac McCarthy se repete ad nauseum. Os irmãos Coen cortam bastante a intromissão do xerife, mas não o suficiente. E esse erro é fatal, a meu ver.

- No filme fica claro como os traficantes mexicanos descobrem pra onde estão indo a sogra e a esposa do Moss. Um dos mexicanos se aproxima da velhinha pra ajudá-la e a linguaruda conta tudo. No livro vemos que a velha é ainda mais insuportável, vive reclamando por sua filha ter se casado com Moss, e avisa pra todos que tem câncer.

- No livro, Chigurh realmente vai à casa da sogra de Moss com intenção de matar a esposa. Mas elas não estão mais lá. Chigurh então toma banho, come e passa uma noite na casa, muito à vontade.

- Pra mim não tá bem feito como o Moss joga a maleta no meio do matagal na fronteira. No livro ele leva um tempão pra pegá-la, e vai de táxi. No filme é a pé mesmo. Como no filme não há muita noção de tempo (por exemplo, no livro Chigurh e Moss passam cinco dias convalescendo de seus ferimentos), parece que tudo é mais rápido.

Vem aí a parte 3. Aproveita que agora o filme já chegou a vários lugares e assista!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

TUDO QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE “ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ” - PARTE I

Coloco aqui este post porque prometi, mas o pessoal do Brasil que esperava ansioso a estréia de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, e ela ainda não chegou, tem toda minha solidariedade. Volte pra este texto depois da estréia, que ele estará aqui. Igualmente, se você não leu mas ainda quer ler o romance do Cormac McCarthy, por favor, mantenha distância deste post. Nem olhe por cima! Nada de bisbilhotar! Xô, fora, chispa! Aqui eu entrego toda a trama, do começo ao fim (se bem que este troço tá tão grande que vou dividi-lo em quatro partes, então talvez o fim não esteja tão próximo). Não diga que não avisei. Ok? Este texto tá repleto de spoilers, e não deve substituir o prazer de ver o filme e ler o livro. Lembre-se do que a curiosidade faz com os gatos (só que tem um antídoto pra esse provérbio: “curiosity killed the cat, but satisfaction brought it back”). Não, sério, cai fora!

- Até a página 60 do livro, tudo parece igualzinho ao filme. Só que tem passagens descritivas que ficam beeeem melhor na telona. A cena em que Llewelyn Moss (personagem interpretado pelo Josh Brolin) volta ao local do crime pra dar água pro mexicano e é visto e perseguido, que é tão pulsante no filme, no livro não tem muita graça. E o cachorro cruzando o rio, e o Chigurh (personagem do Javier Bardem) pedindo a lanterna emprestada e iluminando o rosto dos dois homens antes de matá-los, são acréscimos espetaculares dos irmãos Coen.

- Mais um toque eficiente dos Coen: o xerife (personagem do Tommy Lee Jones) e seu assistente vão à casa do Moss, e notam que alguém esteve lá antes deles. O xerife diz que talvez tenham perdido por pouco o encontro com essa pessoa, que eles sabem ser ruim. No filme, eles descobrem um copo “suado”, o que confirma que a pessoa, o Chigurh, realmente acabou de estar ali.

- No livro o que ocorre no primeiro hotel é muito menos emocionante. Chigurh ainda chega e mata três mexicanos num outro quarto (não fecha a cortina do chuveiro para matar o último, apenas se afasta para que o azulejo da parede do banheiro não bata nele quando se espatifar com um tiro). Mas isso não acontece na mesma hora em que Moss está no outro quarto, ouvindo tudo.

- Ainda sobre essa cena no filme, alguns analistas crêem que seja um erro dos irmãos Coen fazer o Chigurh fechar a cortina do chuveiro antes de atirar no mexicano, que implora “No me mate!”. O Chigurh evidentemente não tem piedade por ninguém, logo, por que evitaria encarar os olhos da vítima? Mas acho que ele fecha a cortina só pro sangue não espirrar nele. Qual a sua interpretação?

- Ahá! O clímax no filme não é o do livro. O confronto entre Moss e Chigurh no segundo hotel acontece de modo bem diferente no filme. E muito mais eficaz. Moss descobre o rastreador entre as notas, ouve um barulho, sai do quarto, olha pra baixo, volta pro quarto, ouve por baixo da porta, senta-se na cama com a arma apontada pra porta. Quando ele vê uma sombra do lado de fora, atira. No livro, ele descobre o rastreador, desce pra pedir pro recepcionista avisá-lo se alguém aparecer (por que não se livra do rastreador?), volta pro quarto, dorme, e acorda às 4 da manhã. Deixa o chuveiro aberto e se esconde embaixo da cama. Ouve o barulho de alguém abrindo a porta com uma chave. O homem entra e dirige-se ao banheiro. Moss fala pra ele não se virar ou atira (de baixo da cama? Não deve dar um bom ângulo). O tiroteio que se segue na rua, no livro, inclui outras pessoas, ligadas aos traficantes (esse é um erro do filme, eu acho, porque fica um pouco no ar quando os traficantes aparecem depois. Seria melhor se a gente soubesse que eles estão sempre atrás do Moss). No livro, o Chigurh não desce pra atirar no Moss na rua. Ele sobe no topo do hotel e atira de lá. E ainda mata uma velhinha de lambuja.

Semana que vem a saga continua...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

SÓ RINDO MESMO, ou: ONDE AS PESSOAS SEM SENSO DE HUMOR NÃO TÊM VEZ

Originalmente, antes de ver um replay de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, escrevi as seguintes linhas: Até a metade, o filme é bem linear e explica tudo direitinho. Parece que depois os irmãos Coen se cansam e partem pra um “Seja o que Deus quiser. Vamos deixar o público usar sua imaginação”. Pois é, de lá pra frente não espere mais respostas. E nem faça muitas perguntas. Porque senão você, como 9 em cada 10 espectadores, assim que a tela escurecer, vai: a) vaiar; b) olhar pro vizinho da poltrona, perplexo; c) perguntar em alto e bom tom: “What the f***?”; d) dizer, como eu, que amou o filme, mas que daria a alma em troca de algumas explicações mais concretas; e) ignorar tudo e perguntar pro maridão: “Vamos ver 'Meu Monstro de Estimação' agora?”.

Mas agora que li o livro, só posso dizer que os irmãos Coen pecaram por excesso de fidelidade literária.

Ah, a Nora Ephron (roteirista do clássico “Harry e Sally, Feitos um para o Outro”, diretora de, humpf, “Sintonia de Amor”, e auto-retratada pela Meryl Streep em “A Difícil Arte de Amar”, em que expõe seu casamento falido com o jornalista superstar Carl Bernstein, aquele do Watergate) tem um artiguinho hilário no New Yorker. Um casal tenta ler o livro do Cormac McCarthy de trás pra frente pra descobrir o que aconteceu no filme. O auge é quando o marido (muito parecido com o meu na sabedoria) diz que pensava que era a mãe na piscina. Leia aqui. Falando nisso, já leu o livro, viu o filme, comeu o autor, como diziam os Cassetas nos bons tempos do “Planeta Diário”? Ignore a última parte, mas faça as outras duas, se você mora numa das cidades felizardas onde estreou “Fracos”. Senão, já já vou contar tudo sobre filme e livro, e você não vai querer ficar boiando, ou me acusando de entregar toda a trama...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

ONDE AS LOLINHAS NÃO TÊM VEZ?

Acho até sacanagem colocar essa foto do Josh Brolin, Kelly Macdonald e Javier Bardem divulgando “Onde os Fracos Não Têm Vez” quando o filme ainda não estreou em boa parte do Brasil (pelo jeito não é só em Santa Catarina). Mas você, minha querida leitora, uma das cinco, responda sinceramente: não é pra m-o-r-r-e-r de ciúme da Kelly? Chuif, chuif.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

CRÍTICA: ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ / Um grande filme... até a metade

Antes de mais nada, preciso explicar minha série de reações a “No Country for maridão Old Men”, que no Brasil ganhou o título equivocado de “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Quando vi o filme pela primeira vez, gostei, embora não tenha compreendido o que acontece. Na segunda vez deu pra entender mais e gostar mais. Agora acabei de ler o livro do Cormac McCarthy e acho que entendi tudinho. Minha conclusão é que o filme é muito superior ao livro, e que faltou audácia aos irmãos Coen (“Fargo”) pra fazer uma adaptação cinematográfica até as últimas consequências.

Se você já viu o filme, mesmo que só uma vez, deve ter passado pelo que passei num cinema nos EUA. A maior parte dos espectadores chia, alguns vaiam, os mais educados só se entreolham e perguntam: “O quê? Acabou?! Não é possível!”. Ainda não testemunhei ninguém jogar copo de refrigerante na tela, mas deve existir. A revolta é grande. E, no entanto, os críticos americanos babam, consideram “Fracos” o maioral de 2007, e discursam que uma obra não precisa dar todas as respostas e tal. Concordo em parte. Meu problema não é tanto com a falta de respostas, mas com o fato do clímax (no segundo hotel) ocorrer antes da metade. De lá pra frente é ladeira abaixo, e isso é frustrante. Parece que acaba o gás.

Sem sombra de dúvida, até o meio “Fracos” é um grande filme. Começa com um sujeito matando um policial, e em seguida um outro encontra no deserto texano uma transação de drogas que não deu certo. É impressionante o que os irmãos Coen (“Fargo”) fazem com tão pouca trama (tá, tem toda uma crítica aos EUA sobre esse não ser um país para velhos, como diz o título original. A Susan Sarandon de “Telma e Louise” bem que fazia em se recusar a pisar no Texas, esse lugar onde todos parecem ter revólver e chapéu de cowboy). Embora seja só um cara perseguindo outro, a tensão é de matar. Totalmente perfeito. Porém, a partir do momento em que o Josh Brolin desaba após comprar o casaco de um turista e vai parar num hospital mexicano, bom, não é que o filme desabe também, mas que cai muito, isso cai. E não se levanta mais. Além de anticlimático, fica cheio de monólogos demasiadamente longos que param a trama (e torço pra que você veja o filme com legendas, pra decifrar o sotaque texano do Tommy Lee Jones). O livro é igual. A gente já entendeu o tema desde o título, e o xerife segue falando a mesma coisa. É redundante. Os personagens mais fascinantes são despachados, e o livro continua mais 50 páginas só com o xerife dizendo que tá velho demais pra isso. Pô, eu também! Acho que os Coen tomaram a decisão errada ao tentarem ser fiéis, porque deixaram de realizar um clássico. Toda a segunda metade é literária demais e cinematográfica de menos - o contrário da primeira hora.

Daí em diante, quase todos os confrontos que anseamos ver vão acontecer fora da tela. O xerife do Tommy pode ser a consciência da história, mas não deveria ser o personagem principal. Certamente não é ele o ímã do filme, é o Javier Bardem fazendo o psicopata Chigurh. Ou, sei lá, talvez o ímã seja o jogo entre o psicopata e o Josh. Mas nada disso inclui o Tommy. E quando a segunda metade se concentra mais nele, o filme sofre. Ah, aproveito pra te dar uma colher de chá e você ficar com uma dúvida a menos: a ação se passa em 1980. A gente sabe disso porque o Chigurh fala sobre uma moeda de 1958 que tá com ele há 22 anos, e por causa de um túmulo. E atenção, outro serviço lolístico de utilidade pública: aquele equipamento estranho que o Chigurh usa pra matar boa parte de suas vítimas é uma arma pra abater bois. Que bom que eu pude ajudar!

Chigurh. Guarde esse nome cuja pronúncia, ironicamente, lembra “Sugar” (doce, açúcar). O que o Javier faz com esse personagem é “the stuff legends are made of”, sei lá como traduzir isso, o estofo que compõe as lendas? Desde os enquadramentos iniciais já nos sentimos cativados. Esse já entra na galeria dos vilões mais assustadores da história do cinema, sabe, tipo Hannibal Lecter. Sério. O Javier é maravilhoso, como qualquer um que viu “Antes do Anoitecer”, e principalmente “Mar Adentro”, já havia se dado conta. Mas aqui ele faz algo sinistro, com aquele cabelão, um sorriso tímido que vai se abrindo até ocupar o rosto todo, o olhar de peixe morto – não dá pra descrever. Você precisa ver pra crer. Ele é o elemento absolutamente marcante de “Fracos”, e merece o Oscar de coadjuvante que seguramente vai ganhar (a única barbada do ano). Por mim podia concorrer na categoria principal. Seu vilão é tão sobrenaturalmente mau que parece uma versão em carne e osso daquele monstro caricatural de moto de “Arizona Nunca Mais” (também dos Coen), o que atirava em coelhinhos. Por sinal, com tantos cachorros mortos, pássaros ameaçados, e arma pra matar boi, temi pela vida do gatinho que aparece tomando leite no hotel. Aposto como os Coen fizeram isso de propósito.

Um ponto que me faz amar o filme é aquela parte de “E se fosse com você?”. Se eu encontrasse um massacre no meio do deserto e uma mala com dois milhões de dólares (em 1980; deve valer pelo menos cinco vezes mais hoje), ficaria com ela? Mas que diabos eu taria fazendo no Texas? Outro dos meus temas preferidos também tá presente: dá pra fugir sem deixar rastros? Num mundo tão grande, onde se esconder, como sumir? (eu adoro essa parte até em “Dormindo com o Inimigo”).

Mais perto do fim, há uma cena do Javier no quarto de hotel, e a montagem (dos irmãos Coen, que sempre editam seus filmes mas assinam com um pseudônimo) é tão problemática que só pode ser intencional, pra gente não entender bulhufas. Fica um monte de pergunta sem resposta: o Javier tá escondido atrás da porta? Ele tá num outro quarto? Embaixo da cama? Tudo não passa da imaginação do outro personagem em cena? Horrível de confuso. O maridão se desesperou: “Puxa, ninguém entrevistou o Javier pra perguntar onde ele tava?”. Mas isso dá pra relevar. O chato é o cheiro de desperdício que fica no ar.


ATENÇÃO: Se você já leu o livro e viu o filme, leia meus quatro longos posts cheios de spoilers comparando livro e filme e dando todas as respostas. Primeira, segunda, terceira e quarta partes aqui.