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segunda-feira, 12 de junho de 2023

GUERREIRAS DE FORTALEZA EXIGEM JUSTIÇA NO MAIOR JULGAMENTO DE VIOLÊNCIA POLICIAL DO ANO

No dia 11 de novembro de 2015 uma das maiores chacinas do país aconteceu na periferia do Ceará: onze pessoas foram mortas de forma aleatória num intervalo de três horas durante a madrugada.

Desde então, as mães e familiares das vítimas lutam por justiça, e precisam de todo o apoio e visibilidade possíveis. O  caso vai ser julgado quase oito anos depois no dia 20 de junho. Será o primeiro julgamento dos 34 policiais acusados da Chacina do Curió.

Leiam e compartilhem. Assassinos não podem ficar impunes!

Quem transformou luto em luta clama por justiça

Começa no dia 20 de junho o julgamento dos 34 policiais militares acusados de matar 11 pessoas na Chacina do Curió, ocorrida em 2015, na Grande Messejana, periferia de Fortaleza. Desde então, mães e familiares da vítimas lutam por justiça, articuladas com movimentos de mulheres de todo o país. Depois de sete anos e meio, elas estarão frente a frente com os executores de seus filhos, maridos, irmãos. Esse será o maior julgamento do ano no país e o que tem o maior número de militares no banco dos réus desde o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 2006, no Pará.

O movimento Mães e Familiares do Curió cobra justiça e reparação em nome das vítimas -- adolescentes, jovens e adultos -- escolhidos aleatoriamente e executadas entre 0h20min e 3h57min do dia 12/11/2015. As vítimas: Álef Sousa Cavalcante, 17 anos; Antônio Alisson Inácio Cardoso, 17 anos; Francisco Enildo Pereira Chagas, 41 anos; Jandson Alexandre de Sousa, 19 anos; Jardel Lima dos Santos, 17 anos; Marcelo da Silva Mendes, 17 anos; Marcelo da Silva Pereira, 17 anos; Patrício João Pinho Leite, 17 anos; Pedro Alcântara Barroso, 18 anos; Renayson Girão da Silva, 17 anos; e Valmir Ferreira da Conceição, 37 anos.

O crime

As investigações apontaram que, na madrugada dos crimes, policiais militares agiram em represália à morte de um outro policial que havia sido morto às vésperas da Chacina -- nenhuma das vítimas da chacina tinha relação com a morte do policial. Os atos de brutalidade policial (execuções, ameaças, intimidações etc) foram praticados de forma indiscriminada, contra pessoas aleatórias, deixando vítimas fatais e sobreviventes. Além disso, os autos da ação penal indicam que houve condutas de omissão de policiais em prestar socorro imediato às vítimas. Destaca-se que, entre os sobreviventes e os familiares das vítimas, há muitas sequelas que perduram até hoje, tanto lesões físicas como adoecimentos mentais e o aprofundamento de vulnerabilidades socioeconômicas. Por isso, as Mães do Curió clamam por memória, verdade e justiça em face de seus familiares.

Livro e audiolivro

Em novembro de 2021, o Mães e Familiares do Curió lançou a versão física do livro Onze, com versão em áudio na voz delas no Spotify, contando a história da vida das 11 vítimas da Chacina do Curió. Com excelente edição, design e acabamento, o livro surgiu com o objetivo honrar a memória das vítimas e não deixar o caso cair nem no esquecimento nem nas narrativas racistas e preconceituosas, por se tratar de pessoas que moravam na periferia da cidade.

Para baixar a versão pdf do livro.

Para ouvir no Spotify.

Para seguir no Instagram. Aqui também.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

O MASCU QUE MATOU A EX NA FRENTE DO FILHO JURAVA QUE HOMENS SOFREM MAIS VIOLÊNCIA QUE MULHERES

No dia 6 de maio, Marcius dos Reis Resener de Oliveira foi preso depois de matar a ex-mulher Aline Resener na frente do filho de 8 anos do casal.

Por que falar deste feminicídio em particular? Afinal, o Rio de Janeiro teve em 2022 o maior número de feminicídios dos últimos seis anos. O estado está batendo recorde de feminicídios este ano: é uma mulher morta a cada três dias. Este foi apenas um dos quatro casos de feminicídios ocorridos no RJ em quatro dias. Nos outros três casos, os assassinos eram os maridos. As vítimas tinham idades diversas: Anna tinha 22 anos, Dayana, 40, Zenaide, 68. Em comum, o fato de serem mulheres mortas pelos companheiros. Um detalhe: Zenaide era pastora, e conheceu o marido enquanto evangelizava na prisão. Aparentemente, não sabia por que ele estava preso: havia assassinado a esposa em 2005.  

O que mais chamou minha atenção no feminicídio de Aline é que Marcius é um mascu. Ele se passava por advogado criminalista e especialista na defesa de acusados pela Lei Maria da Penha. Só que ele não tem registro na OAB e, sem isso, não pode exercer a profissão. Ele também se dizia pastor, psicanalista e policial. Mas na audiência de custódia, ele registrou que é funcionário público na Secretaria de Educação no Rio e trabalha numa escola em Realengo. Estava de licença remunerada desde junho do ano passado. 

Ele ganhava a vida como coach. Em reuniões online com outros mascus, cobrava R$ 350 para passar instruções a homens acusados de violência doméstica. É um comércio lucrativo. O Intercept Brasil publicou recentemente quatro excelentes reportagens mostrando como psicólogos, assistentes sociais, promotores e juízes estão usando a Lei de Alienação Parental para ganhar dinheiro livrando acusados de abuso sexual infantil ou de violência doméstica, muitas vezes tirando os filhos das mulheres e entregando-os a quem elas denunciaram. Obviamente, a alienação parental era uma das bandeiras de Marcius. 

Em fevereiro, por exemplo, Marcius deu uma entrevista à TV Cidade de Teresópolis em que mentiu que Aline (que ele matou dois meses depois) o agredia e também agredia o filho para atingi-lo. Assim como seu currículo, era tudo mentira. O tema da live já partia de uma fake news espalhada por todos os mascus -- "homens sofrem mais violência doméstica do que as mulheres". 

Na entrevista, Marcius repetia que "as humanas mudaram". E dizia que, segundo o IBGE, 92% das denúncias contra homens são falsas, uma estatística tirada direto do Instituto Mascu As Vozes Me Disseram. Os dois entrevistadores homens não fazem nada para estabelecer a verdade. Muito pelo contrário: prometem um programa maior sobre essas falácias. Junto a Marcius está a Dra. Ana, psicóloga (ambos se chamam e são chamados de doutores), que afirma que 8 em cada 10 casos da Lei Maria da Penha são falsos, e que entre 30 a 90% dos casos são falsos (qualquer estatística que vai de 30 a 90 não pode ser séria). Gostaria de saber o que a TV Cidade e a psicóloga tem a dizer agora.

Em 6 de maio, Aline foi pegar o filho de 8 anos na escola. Marcius apareceu encapuzado e atirou. Aline tentou proteger o menino e foi baleada nas costas. Em seguida, atirou na cabeça dela. Marcius tentou fugir levando o filho, que ele já havia sequestrado durante um ano e meio e o escondido em Brasília, longe da mãe. Aline o denunciou, e a Polícia Civil pediu a prisão de Marcius duas vezes, mas a Justiça negou. 

Uma semana antes de ser assassinada, Aline teve negada pela Justiça uma medida protetiva que proibisse o ex de se aproximar dela. Também uma semana antes, ela registrou duas ameaças na delegacia. Uma era da atual companheira de Marcius, Rafaella. O próprio filho alertou a mãe. O pai -- um cidadão de bem defensor da família -- lhe disse várias vezes que iria dar um tiro na cabeça de Aline. Uma semana antes do Dia das Mães, cumpriu a promessa.

Marcius foi preso em flagrante no dia 6, enquanto tentava fugir e levar o filho pro mesmo lugar em Brasília do último sequestro. Contava com a ajuda de Rafaella, que também foi presa. Ela diz que está grávida, e ele alega ter problemas psiquiátricos. O juiz decretou prisão preventiva para ambos por julgá-los perigosos, um risco para as testemunhas. A família de Aline está com medo que ele saia da cadeia e mate mais gente.

Marli, mãe de Aline, declarou, comovida: "Minha filha lutava para pegar de volta o filho dela. Ela largou o Marcius há mais de dois anos e ele perseguia ela, minha filha não podia ter ninguém, ele bateu nela, colocou ela em cárcere privado e, mesmo com exames comprovando que ele tinha estuprado ela, ele não foi preso, só agora prenderam. Até quando?"

A advogada de Aline, Michele Monsores, lamentou: "A Aline buscou proteção em delegacias da mulher, foi à Justiça. É uma pena que ela tenha precisado morrer para que o Marcius fosse preso. Talvez, se isso não tivesse acontecido, ele nunca teria sido preso. Tentamos diversas vezes em vão".

O menino de 8 anos, traumatizado, não conseguia parar de repetir: "Meu pai matou minha mãe com dois tiros na cabeça".

quinta-feira, 20 de abril de 2023

NÃO PODEMOS VIRAR REFÉNS DO MEDO

Hoje o Brasil (e talvez outros países) amanheceu com medo. Afinal, 20 de abril é aniversário de Hitler e de Columbine, um massacre de 1999 nos EUA que ainda inspira vários psicopatas. 

Mas todos os anos têm um dia 20 de abril, e nem por isso escolas e universidades fecham suas portas ou pais deixam de enviar seus filhos às creches. É que talvez nunca no Brasil tivemos um 20 de abril como o de hoje. Agora tudo parece mais calmo, ainda bem, mas as últimas semanas foram trágicas (por isso também a minha ausência por aqui: muitas reuniões, muitas entrevistas e palestras -- além das minhas aulas, que eu não cancelei). 

O atentado numa escola em São Paulo, em que um aluno de 13 anos matou uma professora e feriu outras quatro pessoas, seguido por um massacre numa creche em Blumenau, em que um homem de 25 anos matou quatro crianças, deixou todo mundo apavorado e com um enorme sentimento de revolta e terror. Na mesma época e alguns dias depois, houve várias tentativas de atentados em escolas. E talvez o pior sejam as ameaças. Foram centenas. 

As pesquisadoras Letícia Oliveira, Paola Costa e Tatiana Azevedo fizeram um levantamento e constataram que o número de ameaças a escolas e universidades explodiu no dia 9 de abril, justamente para criar pânico. As pesquisadoras são 3 das 12 mulheres (eu inclusa) que elaboraram o relatório "O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental", entregue ao governo de transição em dezembro de 2022 (ele pode ser lido aqui). O levantamento recente sugere que as ameaças podem fazer parte de uma rede estruturada com objetivo de gerar medo e pânico. Essa é uma hipótese levantada por bastante gente: que a extrema-direita esteja por trás desse clima de terrorismo (outro dado interessante desse estudo é que as comunidades de "true crime", que foram tomadas por perfis que fazem apologia a massacres, são grandes difusoras de ameaças).

Pessoalmente, eu nunca vi nada igual a esse clima de terrorismo. Lembro quando, numa sexta-feira 13 em abril de 2012, um mês depois da Operação Intolerância que prendeu dois mascus por um site de ódio, os rumores de um massacre na UnB eram tão fortes que a universidade cancelou aulas em alguns departamentos. Os mascus comemoraram, lógico. É o tipo de poder que eles gostam.

Lembro também da decepção que eles tiveram ao notar que o massacre de Suzano, em março de 2019, não gerou uma onda de ataques a escolas, como eles esperavam. Ainda assim, aquele ano foi terrível. Houve ameaças de atentados durante todo 2019. Felizmente, nada de concreto aconteceu. 

É inegável que os ataques a escolas no Brasil cresceu nos últimos anos, não por coincidência durante o mandato de um presidente fascista que nunca condenou esses ataques e que tem entre sua base mais fiel os perpetradores desses ataques. Foram 23 ataques nos últimos 21 anos. Mas mais da metade aconteceu nos últimos 15 meses, em 2022 e 2023. 

Só este ano a Câmara dos Deputados registrou dez projetos de lei referentes à segurança em creches e escolas. A maioria é para a instalação de detectores de metal e câmeras de segurança, mas o PL 1482/23, da autoria da deputada Professora Goreth (PDT-AP), propõe a criação do Programa Nacional de Promoção da Cultura da Paz nas Escolas. Nos últimos dias, tem surgido novos projetos, como é natural.

Para o Instituto Sou da Paz, "Tornar as escolas parecidas com prisões não resolve. O principal investimento deve ser identificar conflitos e lidar com eles, fortalecendo a estrutura escolar e a capacidade de professores e equipe técnica, além de trazer apoio à saúde mental dos trabalhadores e estudantes".

Logo em seguida a essa nova onda de ataques iniciada no final de março e início de abril, o governo Lula tomou providências. Além dos R$ 150 milhões liberados para os municípios usarem em programas de ronda escolar, pesquisa, diagnóstico e capacitação em segurança; monitoramento de ameaças em ambientes cibernéticos, e prevenção à violência, e mais R$ 100 milhões para guardas municipais, o governo lançou uma portaria que busca responsabilizar as plataformas na internet, e um canal de denúncias, o Escola Segura. Também ampliou de 10 para 50 o total de policiais federais dedicados ao rastreamento digital (o que parece pouco).

Flavio Dino apresentou na terça, dia 18, os números do enfrentamento à violência contra escolas. Em dez dias, 225 presos ou apreendidos, 694 intimações de adolescentes para depoimento, 155 operações de busca e apreensão, 1.595 boletins de ocorrência. São 1.224 casos em investigação, 756 remoções ou suspensão de perfis em redes sociais. Ministério da Justiça já recebeu 7.473 denúncias de ameaça a escolas.

Os números comprovam que não são casos isolados. Segundo o ministro: “Há uma rede criminosa estruturada para recrutar nossa juventude para o mal”.

A sensação que temos é que esta semana está mais tranquila, e não é só sensação, os números comprovam. No dia seguinte à tragédia em Blumenau, a média era de 400 denúncias. A quantidade saltou para 1.700. Nos últimos dias, caiu para 170, um décimo da média anterior.  

Nessa mesma reunião da terça que reuniu os três poderes para combater a violência nas escolas, foi apresentada uma cartilha de Recomendações para Proteção e Segurança no Ambiente Escolar. Lula disse que resumiria a reunião em uma frase do ministro do STF Alexandre de Moraes: "as pessoas não podem fazer nas redes sociais aquilo que é proibido na sociedade".

Até agora, hoje está sendo um dia tranquilo, mas muitas escolas não tiveram aula. Recebi vários relatos de pais que não tiveram coragem de mandar os filhos pra escola. Entendo o medo, mas não podemos virar reféns dele. Não podemos deixar que um grupinho de neonazistas misóginos decidam quando devemos estudar e trabalhar. Precisamos de uma cultura de paz para enfrentar o ódio. E esse é um esforço contínuo, que não se esgotará em abril. É um trabalho de anos. Vamos vencer.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O QUE MAIS SE SABE SOBRE O ATENTADO NA ESCOLA

Hoje faz uma semana que um adolescente de 13 anos matou a facadas a professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, feriu outras três professoras e um aluno na escola estadual Thomázia Montoro, em SP, e foi apreendido. Foi pelo menos o décimo ataque em escolas brasileiras nos últimos nove meses.

Em depoimento à polícia, o adolescente disse que não gostava do pai, que o pai batia nele com cinta e que também era agressivo com a mãe, e que pensou em matá-lo quando tinha onze anos. Mas alegou que não foi isso que o levou a cometer o atentado, e sim o bullying que dizia sofrer por sua aparência. Segundo ele, era chamado de "rato de esgoto" por alguns colegas. Ele já planejava o ataque havia dois anos, inspirado em Columbine.

No dia 7 de fevereiro, ele enviou a seguinte mensagem pelo WhatsApp a um colega: "Vc vai morrer. Vc tá fudido. Vou matar vc e sua mãe fdp". A mãe do menino ameaçado (de 12 anos) viu a mensagem uma semana depois e escreveu: “Vou na escola hj mostrar o tipo de conversa que vc tem com as pessoas. Aqui ninguém tem medo de vc não”. Três minutos depois, o adolescente pediu desculpas, disse que era só brincadeira, e implorou para que ela não contasse: "vc não conhece meus pais". A mãe fez a coisa certa: foi à escola e denunciou a ameaça.

Até o início de março, o adolescente estudava em outro colégio, na escola Estadual José Roberto Pacheco. Um mês antes do atentado, os pais do garoto foram chamados para conversar sobre o comportamento suspeito do filho. Além da ameaça de morte a um outro aluno, ele já pedido a uma aluna um isqueiro e gasolina, mostrado a colegas imagens suas portando armas de fogo, e elogiado outros massacres. Toda essa comunicação com os pais foi registrada em ata. Ou seja, eles sabiam que o filho tinha "interesse em realizar uma chacina". O pai agiu com indiferença, disse que estava tudo normal e que a arma era dele. 

A vice-diretora da escola mostrou à Polícia Civil não só a ata da reunião com os pais, mas também o boletim de ocorrência que registrou. Ela repassou o que sabia ao Ministério Público, que não fez o que deveria a tempo. A promotoria só apresentou o pedido de internação compulsória um mês depois do boletim de ocorrência. 

Ao que me parece, a escola agiu muito corretamente: pediu que os pais levassem o adolescente para um exame no Capsi (Centro de Atenção Psicossocial Infantil) para ver se ele teria condições psiquiátricas de seguir no colégio. Os pais apresentaram somente um laudo preliminar, e a escola recusou que o garoto continuasse a frequentar as aulas. No dia 1o de março, os pais então transferiram o filho para a escola Thomázia Montoro. No dia 27 de março, ele cometeu o atentado lá. 

A polícia já ouviu quarenta pessoas, entre elas um aluno que conversou com o adolescente no banheiro antes das facadas (o menor negou qualquer participação), e outro que pode ter instigado o assassino nas redes sociais. Ainda há bastante para se desvendar, mas eu fico imaginando a reação de todo mundo que havia alertado sobre o comportamento perigoso do adolescente. Não há dúvida que ele deu sinais claros do que iria fazer.

Mais duas notinhas relacionadas: Há seis meses houve um ataque à uma escola em Barreiras, BA. Uma aluna cadeirante de 19 anos foi morta a tiros e facadas por um adolescente de 14 anos, frequentador de fóruns de ódio, que tinha pegado a arma do pai, que é policial. Uma coisa que eu ainda não sabia: o adolescente ficou tetraplégico.

A mãe do jovem de 18 anos que em agosto do ano passado tentou realizar um massacre em Vitória, ES (felizmente ele foi impedido e hoje está preso) deu uma entrevista dizendo: "Não sei como comunidades na internet capturam e seduzem esses jovens, mas parece que pescam mesmo essas possíveis vítimas para poderem fazer de soldado deles". Essa mãe não desconfiou de sinais bastante evidentes de que o filho pode estar radicalizado, como pedir livro para "entender a mente de Hitler", querer vestir capa preta e coturno, se interessar por armas de fogo, não demonstrar mais afeto, idolatrar atiradores de massacres, e frequentar comunidades de ódio na internet. De novo, algo que repito há anos: pais, vocês precisam saber o que seus filhos fazem na internet e conversar com eles.

segunda-feira, 27 de março de 2023

MENINO DE TREZE ANOS MATA PROFESSORA E FERE QUATRO EM ESCOLA DE SP

Mais um atentado numa escola brasileira hoje. E o autor tem apenas treze anos. Um menino.

Foi às 7:40 da manhã, na Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, SP, que um aluno da oitava série esfaqueou a professora pelas costas, sem chance de defesa. Câmeras de segurança captaram esse momento hediondo. 

Elisabete Tenreiro tinha 71 anos, era professora de Ciências, e trabalhava na escola fazia pouco tempo. Ela não resistiu às facadas e morreu no hospital.

O adolescente ainda feriu outras quatro pessoas. Foi contido por três professoras, três heroínas que conseguiram imobilizá-lo, como mostra o vídeo (algumas notícias dizem que o garoto estava atacando uma outra aluna, negra, e que foi contido por duas educadoras, entre elas a professora Cíntia, de Educação Física). 

Ainda há muita desinformação. Hoje cedo circulava a notícia de que o agressor sofria bullying. Mas um menino contou que, semana passada, o autor do atentado chamou um colega de "macaco", e ele e o colega brigaram a socos. Foi a professora Elisabete quem apartou a briga. Justamente a primeira vítima de hoje. 

Hoje um veículo divulgou a carta que o jovem deixou a seus familiares. Parecia uma carta de despedida em que pedia desculpas. Dizia que estava planejando o atentado há dois anos e que ele fazia isso por uma "causa maior". É um forte indício de que o adolescente é um incel que participava de fóruns neonazistas e misóginos. Outro indício é que ele usava uma máscara do tipo Columbine, que foi popularizada no Brasil com o massacre de Suzano. Mais um indício: no seu celular havia informações sobre ataques a outras escolas no país.

Semana passada, as Polícias Federal e Civil, com ajuda da Interpol, impediram um massacre numa escola no Rio. O adolescente de 17 anos planejava comemorar os 24 anos de Columbine (em abril). Faz duas semanas que o massacre de Suzano completou quatro anos. Datas assim são celebradas por esses grupos e sempre são perigosas, pois inspiram novos ataques (assim como o o aniversário de Hitler, por exemplo). 
 
Desta vez não há como culpar Bolsonaro ou o governador de São Paulo. Massacres em escolas ocorrem em vários lugares do mundo, principalmente nos EUA (este ano já houve dezenas de tiroteios em escolas americanas). É certo que o adolescente de 13 anos do atentado de hoje preferiria ter um fuzil, e com ele mataria muito mais gente. Aqui no Brasil, não existe incel que não votou no Bolso por causa da promessa de distribuição fácil e farta de armas de fogo. Mesmo assim, os massacres precedem a ascensão da extrema direita.

Ficamos revoltadas e atordoadas sempre que um massacre desses acontece. Imagino o pânico dos estudantes, das professoras, de mães e pais que querem que seus filhos estejam seguros nas escolas. Não há saída simples para o fim dos massacres. Pra mim, tudo passa pela educação. Em dezembro, eu e outras doze especialistas redigimos um relatório sobre esses atentados e como tentar impedi-los. Foi para a área de educação do governo de transição de Lula. É possível lê-lo aqui

Muito mais do que discutir a redução da maioridade penal -- como a direita parece querer pautar agora --, seria mais eficaz se toda a sociedade realmente começasse a falar sobre a proliferação de grupos na internet que usam o discurso de ódio como chamariz. E de maneiras para que esses grupos parem de ser tão bem sucedidos em recrutar meninos. Cada vez mais jovens.