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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TRABALHO PARA GASTAR O TEMPO

Como mencionei Um Grande Garoto no post anterior, melhor colocar logo o trecho a que me referia. É do romance About a Boy de Nick Hornby, que virou um filme fofo com o Hugh Grant. A tradução pobre é minha, mas, se vocês procurarem na Submarino clicando aí do lado (vamulá, gente! Sabem quanto vendi até agora? Zero vírgula zero!), certamente vão encontrar uma versão em português decente (putz, pior é que só encontrei o livro à venda em inglês).

Will às vezes pensava — não com muita frequência, porque especulação histórica não era algo que ele fazia com muita frequência — como pessoas como ele teriam sobrevivido sessenta anos atrás. (“Pessoas como ele” era, ele sabia, algo como um grupo especial; na realidade, não poderia ter havido alguém como ele sessenta anos atrás, porque sessenta anos atrás nenhum adulto teria um pai que ganhava dinheiro daquela forma. Então quando ele pensava em pessoas como ele, ele não queria dizer pessoas exatamente como ele, apenas pessoas que não faziam nada o dia todo, e não queriam fazer muito). Sessenta anos atrás, todas as coisas das quais Will dependia para passar o dia simplesmente não existiam: não havia TV no horário diurno, não havia vídeos, não havia revistas lustrosas e portanto não havia testes, e, mesmo que provavelmente houvesse lojas de discos, o tipo de música que ele ouvia ainda não havia sido inventado. (No momento ele estava ouvindo Nirvana e Snoop Doggy Dog, e você não podia ter encontrado algo que soasse como eles em 1933). Sobrariam os livros. Livros! Ele teria que arranjar um trabalho, quase certo, porque ficaria louco de outra forma.
Agora, no entanto
, era fácil. Havia quase coisas demais pra fazer. Você não tinha mais que ter vida própria: você podia só olhar por sobre a cerca para a vida de outras pessoas. [...] O Will de vinte anos teria ficado surpreso e talvez desapontado ao saber que ele chegaria à idade dos trinta e seis sem encontrar uma vida para si próprio, mas o Will de trinta e seis anos não estava particularmente infeliz a respeito; havia menos bagunça desse jeito.

Voltei! O romance do Hornby foi publicado em 1998 e, em alguns pontos, está datado (vídeos? E note que ele nem menciona a internet!), mas se passa num período específico: em 1993, próximo do suicídio de Kurt Cobain. Isso não tem muita importância na trama. Mas gosto muito do trecho, e sempre o usei nas aulas de inglês, porque o vocabulário é simples e o tema rende um bom debate. Como vocês podem ver, Will é um cara de 36 anos (não sei se tão lindo quanto o Hugh Grant) que vive sozinho, não trabalha (vive de renda; seu pai compôs uma música que fez sucesso), e é vazio e fútil. Ele não é de maneira alguma um herói. Livro e filme, na verdade, falam do relacionamento dele com um menino pré-adolescente. Um relacionamento que, convenhamos, seria impensável hoje: um menino passar horas sozinho na casa de um aduto com quem não tem parentesco? Com todo o medo que se tem da pedofilia? (como insinua uma personagem em Towelhead, é suspeito um adulto fazer amizade com uma criança).
Mas Will divide seu dia em unidades de tempo, e arranja meios de “gastar” essas unidades. Ver um filme gasta duas horas, ler uma revista, uma hora, preparar e comer uma refeição, uma hora, e por aí vai. Hoje ele estaria nas nuvens com a internet, que permite que se gaste um dia inteiro sem reparar. Eu até me identifico um tiquinho com o Will porque, bem no ano em que se passa a história, eu vivia em SP e tinha um trabalho que durou poucos meses como assessora de imprensa num sindicato (pra você ver como me envolvi no emprego, juro por tudo que é sagrado que não me lembro o quê/quem o sindicato representava! Só que ele era do tipo em cima do muro. Os dirigentes nunca eram contra ou a favor de alguma coisa, muito pelo contrário. Não era fácil assessorá-los: eles nunca tinham nada de relevante pra dizer, porque não queriam se comprometer). Eu era novinha e preguiçosa e ficava a tarde toda trancada num escri. E eu devia estar passando por algum tipo de crise, porque ao invés de levar livros pra ler durante aquelas longas horas sem fazer absolutamente nada, eu descobri num armário do escri uma coleção da Fórum. Sabe aquela revistinha erótica da Penthouse (acho) com relatos sexuais dos leitores? Uma que continha as palavras “membro entumecido” em todos os relatos? Essa aí. Devo ter lido a coleção inteira por puro tédio.
Hoje a internet proporcionaria esquemas pra matar tempo infinitamente superiores, óbvio. Mas é pra isso que serve um emprego? Não só pra receber salário, mas também pra manter as pessoas ocupadas? Inclusive, seria pra isso que serve a internet? Pra nos entreter enquanto gastamos nossas unidades de tempo? Vemos os Big Brothers e demais reality shows para podermos assistir à vida dos outros, ao invés de ter que pensar na nossa, como faz Will? Ficaríamos loucos sem ter o que fazer? (não preciso nem dizer o quanto esta é uma discussão burguesa, visto que a maior parte da população mundial não pode nem sonhar em não ter que trabalhar. Mas discutam, please!).

quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: UM GRANDE GAROTO / Ordem de grandeza

Tomara que "Um Grande Garoto" fique mais de uma semana em cartaz e que tenha fôlego pra cair na propaganda boca a boca. Imagino que as poucas pessoas que vejam esta comédia gostem e a indiquem para seus amigos. Noutros tempos, este filme com sotaque britânico seria forte candidato a cult. Mas vivemos na época do vapt-vupt, quando uma produção deve se pagar num único final de semana. Pena. "GG" é uma enorme diversão, dessas que a gente ri alto quase sem parar.
Mas é também uma história pra cima, que faz com que saiamos alegrinhos do cinema. É baseada no livro de Nick Hornby que não li, que antes já havia escrito o ponto de partida para o supervalorizado e bastante medíocre "Alta Fidelidade", e dirigida pelos realizadores de, cof cof, "American Pie". Portanto, quem em sã consciência poderia apostar nas credenciais de "GG"? É lógico que, sendo a crítica séria que sou, não estou elogiando o filme apenas porque o Hugh Lindo! Lindo! Lindo! Grant é seu ator principal. Nem me ligo a esses detalhes fúteis. Ó Céus, estou apaixonada pelo Hugh. É seu melhor papel desde "Quatro Casamentos e Um Funeral". E digo mais: ele merece ser indicado ao Oscar. Do jeito que a película vem sendo aclamada, é bem provável que isso ocorra. Pode anotar no seu caderninho que "GG" será o azarão das nomeações da Academia.
Não dá pra dizer que o Hugh carrega o filme nas costas, já que todo o elenco está impecável. Mas ele é a alma de "GG", e é impossível conceber a trama com um outro ator. Ele faz um sujeito de 38 anos que, por viver dos dividendos de uma só música natalina composta pelo seu pai, nunca precisou trabalhar e nunca teve uma namorada por mais de dois meses. Ou seja, um cara que não faz nada, num país que paga direitos autorais. Um crápula total, tão cafajeste que inventa um filhinho para seduzir mães solteiras, que ele pode usar e mandar passear sem sentir remorso. Tão desprezível que vira voluntário da Anistia Internacional para azarar moças pelo telefone e, ao rever um ex-colega, pergunta: "E aí, como vai a situação em Burma?". O outro narrador de "GG" é um menino que mora com a mãe suicida, cantarola melodias sem notar, e, conseqüentemente, apanha dos colegas na escola. Meio sem querer, Hugh e o guri se tornarão amigos. Mas não será uma amizade sem rusgas. Às vezes, Hugh é cruel com ele. E ele acusa Hugh de ser um panaca que assiste TV e compra coisas. Adivinha quem é a parte madura da relação?
Fiquei com a impressão que o maridão se identificou com o personagem do Hugh. De fato, se minha alma gêmea não fosse pobre e não tivesse uma mulher que lhe ordenasse o tempo inteiro "Vai trabalhar, vagabundo!", seria idêntico. E não é incrível que a gente se deixe encantar pelo mau caráter do Hugh? Eu espumaria de raiva por uma perua que passa o dia todo no cabeleireiro ou vendo programas cretinos na TV. Mas, por algum motivo, no Hugh esse tipo cai bem.
Há umas similaridades entre "GG" e "O Sexto Sentido". Primeiro, o ótimo ator mirim Nicholas Hoult menciona o Haley Joel Osment. A mãe dele é interpretada pela mesmíssima Toni Collette. E os diretores ainda inseriram uma cena de trinco pra nos lembrar do clima de estranheza que une os dois filmes. A qualquer momento, ao menos no comecinho, eu achava que o Nicholas iria ver dead people. Mas tudo bem, talvez a semelhança maior se dê com "Billy Elliot". Não sei direito por que. Provavelmente por "GG" ser britânico e contar com um moleque como seu protagonista, mas sobretudo por ambos serem os típicos "feel good movies". Mesmo que "GG" cometa o pecado de rotular cantar "Killing Me Softly" em público como suicídio social. Chuif. E eu que adorava essa canção dos anos 70 antes de ver o filme. Magoei.
Então, recapitulando, "GG" é tão cheio de graça e tenro que eu perdôo o final previsível. E, Hugh, se você ainda estiver à procura de mães solteiras para namorar, conte comigo. Só me dê nove meses pra resolver a questão. Bem, talvez nove meses e alguns dias, sabe como é, pra dispensar o maridão.