Como mencion
ei Um Grande Garoto no post anterior, melhor colocar logo o trecho a que me referia. É do romance About a Boy de Nick Hornby, que virou um filme fofo com o Hugh Grant. A tradução pobre é minha, mas, se vocês procurarem na Submarino clicando aí do lado (vamulá, gente! Sabem quanto vendi até agora? Zero vírgula zero!), certamente vão encontrar uma versão em português decente (putz, pior é que só encontrei o livro à venda em inglês). Will às vezes pensava — não com muita frequência, porque especulação histórica não era algo que ele fazia com muita frequência — como pessoas como ele teriam sobrevivido sessenta anos atrás. (“Pessoas como ele” era, ele sabia, algo como um grupo especial; na realidade, não poderia ter havido alguém como ele se
ssenta anos atrás, porque sessenta anos atrás nenhum adulto teria um pai que ganhava dinheiro daquela forma. Então quando ele pensava em pessoas como ele, ele não queria dizer pessoas exatamente como ele, apenas pessoas que não faziam nada o dia todo, e não queriam fazer muito). Sessenta anos atrás, todas as coisas das quais Will dependia para passar o dia simplesmente não existiam: não havia TV no horário diurno, não havia vídeos, não havia revistas lustrosas e portanto não havia testes, e, mesmo que provavelmente houvesse lojas de discos, o tipo de música que ele ouvia ainda não havia sido inventado. (No momento ele estava ouvindo Nirvana e Snoop Doggy Dog, e você não podia ter encontrado algo que soasse como eles em 1933). Sobrariam os livros. Livros! Ele teria que arranjar um trabalho, quase certo, porque ficaria louco de
outra forma. Agora, no entanto, era fácil. Havia quase coisas demais pra fazer. Você não tinha mais que ter vida própria: você podia só olhar por sobre a cerca para a vida de outras pessoas. [...] O Will de vinte anos teria ficado surpreso e talvez desapontado ao saber que ele chegaria à idade dos trinta e seis sem encontrar uma vida para si próprio, mas o Will de trinta e seis anos não estava particularmente infeliz a respeito; havia menos bagunça desse jeito.
Voltei! O romance do Hornby foi publicado em 1998 e, em alguns pontos, está datado (vídeos? E note que ele nem menciona a internet!), mas se passa num período es
ro e filme, na verdade, falam do relacionamento dele com um menino pré-adolescente. Um relacionamento que, convenhamos, seria impensável hoje: um menino passar horas sozinho na casa de um aduto com quem não tem parentesco? Com todo o medo que se tem da pedofilia? (como insinua uma personagem em Towelhead, é suspeito um adulto fazer amizade com uma criança). Mas Will divide seu dia em unidades de tempo, e arranja meios de “gastar” e
ssas unidades. Ver um filme gasta duas horas, ler uma revista, uma hora, preparar e comer uma refeição, uma hora, e por aí vai. Hoje ele estaria nas nuvens com a internet, que permite que se gaste um dia inteiro sem reparar. Eu até me identifico um tiquinho com o Will porque, bem no ano em que se passa a história, eu vivia em SP e tinha um trabalho que durou poucos meses como assessora de imprensa num sindicato (pra você ver como me envolvi no emprego, juro por tudo que é sagrado que não me lembro o quê/quem o sindicato representava! Só que ele era do tipo em cim
a do muro. Os dirigentes nunca eram contra ou a favor de alguma coisa, muito pelo contrário. Não era fácil assessorá-los: eles nunca tinham nada de relevante pra dizer, porque não queriam se comprometer). Eu era novinha e preguiçosa e ficava a tarde toda trancada num escri. E eu devia estar passando por algum tipo de crise, porque ao invés de levar livros pra ler durante aquelas longas horas sem fazer absolutamente nada, eu descobri num armário do escri uma coleção da Fórum. Sabe aquela revistinha erótica da Penthouse (acho) com relatos sexuais dos leitores? Uma que continha as palavras “membro entumecido” em todos os relatos? Essa aí. Devo ter lido a coleção inteira por puro tédio. Hoje a internet proporcionaria esquemas pra matar tempo infinitamente superiores, óbvio. Mas é pra isso que serve um emprego? Não só pra receber salário, mas també
m pra manter as pessoas ocupadas? Inclusive, seria pra isso que serve a internet? Pra nos entreter enquanto gastamos nossas unidades de tempo? Vemos os Big Brothers e demais reality shows para podermos assistir à vida dos outros, ao invés de ter que pensar na nossa, como faz Will? Ficaríamos loucos sem ter o que fazer? (não preciso nem dizer o quanto esta é uma discussão burguesa, visto que a maior parte da população mundial não pode nem sonhar em não ter que trabalhar. Mas discutam, please!).

