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quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

CHICAGO

Chicago fica perto de Detroit, a menos de seis horas de ônibus, e é a terceira ou segunda maior cidade americana (há controvérsias sobre o tamanho de Los Angeles). Ao contrário de Detroit, Chicago tem uma reputação esplendorosa, e é realmente uma cidade bonita. Fui lá por cinco dias acompanhar o maridão num torneio de xadrez. E o bom de uma cidade grande é que sempre tem coisas acontecendo. Havia um Festival Internacional de Cinema, e o Anthony Hopkins estava lá. Além dos filmes, vi também “Passion Play”, uma peça de três horas e meia num teatro chique. Fui pedir informações e o guarda me disse que, chegando duas horas antes, dava pra comprar ingresso pela metade do preço. Nao sei se o jeito que ando vestida inspira as pessoas a me darem dicas de economia, mas o fato é que paguei só quinze dólares por uma superprodução. Uma peça tão luxuosa que o último dos seus muitos cenários trazia um navio cobrindo o palco inteiro – por dois minutos.

Leia sobre minha aventura no zoológico de Chicago aqui.

Outras coisas que vi em Chicago:

- Na vitrine de um restaurante chinês, um bolo de casamento gigante à venda por 860 dólares. Lembrei do meu livro de cabeceira sobre como evitar situações sem chocolate. Uma das dicas: não vá a casamentos, porque eles só servem esses bolos brancos.

- A reputação de Chicago de ser chamada de “Windy City” só foi justa no primeiro dia. Aí sim foi uma ventania danada. Bateu Floripa.

- Uma velhinha muito curvada andando pela rua, gritando histericamente. Ela não parecia estar drogada ou alcoolizada, ou sequer pedindo ajuda, só berrando consigo mesma. O que consegui ouvir partiu meu coração: "Pra onde vou? Nao tenho pra onde ir!" E seguiam-se gritos que podiam ser ouvidos do outro quarteirão. Era tão "Rei Lear"...

E NÓS COM ISSO?

Eu, o urso, e o voluntário que não acredita em aquecimento global


No último dia fomos a um dos zoológicos de Chicago, logo um que é dos últimos zôos grátis nos EUA. É muito legal poder entrar e sair de um zôo imenso, como se fosse um parque. Tá certo que os pobres bichinhos não têm o mesmo direito de ir e vir, mas eles parecem ser muito bem tratados. Já que estou divagando, preciso dar minha opinião sobre zoológicos: não tenho opinião formada. Fico morrendo de pena de ver os animais presos (chorei ao trocar olhares com um gorila triste), mas, ao mesmo tempo, sabe-se lá se esses animais estariam vivos ao ar livre, num mundo tão dominado pelos homens. Por exemplo, numa das placas li que um leão vive quinze anos no seu habitat e 25 em cativeiro. Se eu fosse um leão, preferiria ter uma vida mais longa garantida, e cheia de confortos, numa jaula enorme, ou arriscar o dia-a-dia numa selva tão perigosa?

Enfim, lá estávamos nós passeando pelo zôo quando fomos totalmente cativados pelo urso polar. O belo urso branco dispõe de grande espaço, mas ontem ele estava mais interessado em nadar. E os visitantes podem descer pra olhar o urso dentro d'água. E dá-lhe ursinho dando rasantes no vidro, usando o vidro pra ganhar impulso com as patas, encostando o focinho no vidro, e tudo mais (na realidade, ele vinha sempre na direção de um menininho nos braços da mãe, também colado no vidro. Uma hora o urso inclusive abriu o bocão, tentando abocanhá-lo. Acho que estava com fome). Lá pelas tantas surgiu um guia voluntário do zôo pra responder dúvidas sobre ursos polares. É óbvio que aproveitei pra fazer todo tipo de pergunta esdrúxula, mas em compensação descobri que esse urso mora com a irmã (que devia estar dormindo), se alimenta de peixes vivos e uma espécie de ração (e não de focas, como degustaria no seu habitat), e que sua patada equivale a uma martelada de não sei quantos pounds, porque esses americanos insistem em usar esse sistema métrico incompreensível. Então eu quis confirmar se esses maravilhosos bichos estavam ameaçados de extinção por causa do aquecimento global, que derrete as placas de gelo e faz ursinhos morrerem afogados, por não terem lugar pra descansar no meio do oceano (essa informação eu peguei do documentário do Al Gore – não tem jeito, tudo que sei aprendi no cinema). O guia disse que talvez, que essa questão era muito política, que até podia ser real, mas que nem eu nem ele estaríamos vivos nos próximos cem anos (nesse ponto eu quase interrompi com um “Fale por você”, mas ele tinha fugido tanto do tema que ficou difícil argumentar). Ou seja, esse senhor rapidamente esqueceu o urso e se pôs a falar sobre como, pra diminuir o aquecimento global, muita gente perderia o emprego. Eu tentei dizer que, sem o planeta, não haveria empregos de qualquer jeito, mas ele me cortou com algo do tipo: “É, eu sei, é polêmico, mas não dá pra nós americanos controlarmos o que seis bilhões de pessoas fazem com o mundo”. Nesse ponto eu não me contive e disse: “Ajudaria se vocês americanos, os maiores poluidores do planeta, pelo menos fizessem a sua parte”. Pouco depois o guia foi embora e nós continuamos admirando o urso.

Mas estou chegando à conclusão que essa ingenuidade americana é uma praga, uma hipnose coletiva. No mesmo dia, voltando pra Detroit, sentamos ao lado de um grupinho de três estudantes. No ônibus havia mesas, e os jovens usaram uma delas pra comer montes de hamburgers, um banquete de junk food. Eles saíram antes da gente, mas uma mocinha do grupo voltou pra checar se não tinham esquecido alguma coisa. Eu vi um papel embaixo das poltronas deles e apontei, ao que a estudante respondeu: “Obrigada, mas acho que não é nosso”. E saiu, deixando o lixo pra trás. Parece familiar?

sexta-feira, 29 de novembro de 2002

CRÍTICA: CHICAGO / O show deve continuar

Tem quem vá ver “O Pianista” esperando um filme de ação. Com esse nome? Se fosse de ação, se chamaria “O Baterista”. Tem quem vá ver “Chicago” sabendo que é um musical, mas rezando com todas as forças pra que não seja um musical porque, afinal, musical é um gênero enterrado que só os gays gostam, né? Realmente, quem pensa assim não deveria nem chegar perto de “Chicago”, que é um musical em toda a extensão do termo. E eu amo musicais de paixão, mas confesso que esperava mais de “Chicago”. É que todo mundo o compara a “Cabaret”, e eu queria “Cabaret”.

Pode ser que, mais pra frente, “Chicago” seja alçado à condição de clássico dos musicais, tal qual “Cabaret”. Ainda é cedo pra dizer. Mas o problema é que a história de “Chicago” é puro escapismo sem conseqüência, enquanto “Cabaret”, no meio daqueles números de dança estonteantes, narrava a ascensão do nazismo na Alemanha. Outro super clássico, “Cantando na Chuva”, tratava da transição do cinema mudo para o falado. E “Chicago” fala de quê? De pessoas que fazem de tudo pra conseguir a fama, do carnaval da mídia. Ahn, não é exatamente um tema novo ou memorável. Então sobra o quê? As músicas. As coreografias. As interpretações.

Mas antes de falar delas, vamos nos situar melhor. Parece que a trama de “Chicago” – de uma moça casada que sonha em ser vedete, mata o amante e vai parar na cadeia, onde conhece uma corista que assassinou o marido e a irmã – aconteceu de verdade, lá pelos anos 20. Até virou uma comédia com Ginger Rogers nos 40. Em 1975, os criadores de “Cabaret” transformaram o enredo em musical, que o mito Bob Fosse levou pra Broadway. Fosse morreu, “Chicago” sofreu uma nova temporada de sucesso no teatro, desta vez comandada por Rob Marshall, que pressionou para levar o musical para as telas. Nada mal, né? É o primeiro esforço do diretor e ele já conseguiu que seu filme fosse indicado a treze Oscars. “Chicago” é favorito e vai sair vencedor. A Academia viu nele vários toques à la Fosse, o diretor de “Cabaret” e “All That Jazz – O Show Deve Continuar”, e uma oportunidade de ouro para ressuscitar um velho filão, o musical. As estatuetas que “Chicago” levará são como tapinha nas costas. Será Hollywood se congratulando por um gênero que inventou. E, cá entre nós, ver gente cantando e dançando é melhor que ver gente se degolando ou explodindo carros.

Por que, então, “Chicago” não é 100% satisfatório? Bem, talvez eu mude de idéia ao ver o filme de novo, mas as músicas não são grande coisa. Não há uma canção que fique na cabeça. Os números são excelentes, quase todos, principalmente John C. Reilly lamentando ser um homem-celofane, mas não existe o que os americanos chamam de “show-stopper”, de algo que seja tão vibrante e maravilhoso que pare o show. Pensando bem, existe, só que não é um número musical. É a Catherine Zeta-Jones. Como essa moça é bonita! Não tem outra atriz tão linda como ela. Ela é o Thiago Lacerda das estrelas. E é talentosa também. De repente, se ela aparecesse ainda mais, “Chicago” seria mais cativante. Mas o papel principal não é dela, é da Renée Zellweger. Nada contra a loirinha de “O Diário de Bridget Jones”, mas ela é muito sem sal lado a lado com a Catherine. Quando eu via a Renée e o Richard Gere (interpretando um advogado ganancioso. Opa! Desculpe a redundância) dançando, ficava torcendo pra que eles não errassem o passo ou desafinassem. Sabe a mesma sensação que a gente sente ao ver o filho numa peça da escola? Renée e Richard não erram. Ambos são campeões em olhos fechadinhos e ambos estão charmosos, e este é o triunfo de “Chicago”, eu acho – fazer com que dois astros que nunca dançaram antes se comportem como bailarinos profissionais. Eles não tiveram dublês. Isso está escrito em letras garrafais nos créditos. Claro que com personal trainer, coreógrafo, vocalista e tal, até eu passo por uma estrela da Broadway. Mas não é esse o encanto dos musicais? Imaginar que a gente seja a vedete da festa? “Chicago” tem esse encanto.