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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A ACUSAÇÃO DE ABUSO DE WOODY ALLEN

É irônico, mas sabe sobre o quê eu tinha planejado escrever hoje? Sobre o excelente filme dinamarquês A Caça, que concorre a melhor filme estrangeiro, e que trata de uma falsa acusação de abuso infantil. Ainda vou escrever sobre a obra, mas não hoje.
Hoje tenho que escrever sobre a carta aberta (aqui, em inglês) que Dylan Farrow, hoje com 28 anos, escreveu sobre ter sido sexualmente molestada por Woody Allen quando criança. E é muito difícil, porque já recebi e publiquei dezenas de relatos de mulheres que foram estupradas, muitas delas quando crianças. Eu sempre acredito na vítima, e detesto quando alguém diz que é mentira, ou que eu que inventei o relato. Como se pessoas não fossem estupradas todos os dias e eu precisasse criar histórias!
Por outro lado, acredito também na presunção da inocência, no velho “inocente até ser provado culpado”. Sou contra linchamentos. É óbvio que é muito difícil comprovar abuso, e as estatísticas estão aí pra provar (apenas 3% dos denunciados por estupro passam sequer um dia na prisão). Estupro é um crime impune. É um crime em que rotineiramente se duvida da vítima. E a enorme maioria das acusações de estupro são verdadeiras. A estimativa do FBI é que somente 2% das acusações são falsas. Mas nem por isso podemos condenar sem investigação, sem julgamento, alguém acusado de estupro. Seja ele quem for.
Dylan adolescente com Mia
Também tem outra coisa: não sei até que ponto acredito em verdade absoluta. Algo muito comum em casos de abuso sexual infantil é que a pessoa se lembra de flashes. A mente tenta barrar o que é difícil demais de aguentar. Em muitos, muitos casos de abuso infantil, a pessoa adulta não tem certeza se aquilo aconteceu mesmo. E, assim como é possível apagar memórias, também é possível criá-las. 
Dylan, Mia e Tam em 1992
É possível que uma pessoa acredite tanto numa história que, pra ela, aquela é a verdade. Não quer dizer que esteja mentindo. Pra ela, não é uma mentira. Ela acredita. Mas nem por isso necessariamente aconteceu. (Nisso eu tenho um exemplo muito próximo: minha mãe. Nada a ver com abuso, mas ela cria fantasias sobre momentos do passado que eu acho que nunca aconteceram. Não digo que ela é mentirosa, porque ela acredita no que está contando). 
Então, sobre o caso Woody Allen, eu acompanhei muito tudo isso. Estava vivíssima em 1992, quando o escândalo estourou. Na época não havia internet, mas li tudo que podia, inclusive o longo artigo de Maureen Orth na Vanity Fair, totalmente pró-Mia. Sim, porque foi uma guerra violenta entre Woody e Mia. Começou em janeiro de 92, quando Mia encontrou, sem querer, fotos íntimas de sua filha adotiva Soon-Yi no apartamento de Woody, em Manhattan. 
Eu tento me colocar no lugar de Mia. Eu a admiro. Primeiro que ela fez algo que pouca gente, famosa ou não, faz: adotar crianças em situações de risco que ninguém mais queria. Ela adotou crianças miseráveis de vários países: Soon-Yi quando tinha sete anos, na Coreia, filha de prostituta e que havia vivido na rua antes de ir pra um orfanato; Moses, que tinha paralisia cerebral; duas crianças cegas, e por aí vai. Tem gente que encara isso como uma muleta emocional e vê as adoções com cinismo, e não entendo porquê. Acho absolutamente louvável. 
Bom, aí você é Mia, uma estrela de cinema desde pequena, filha de atores, ex-esposa de ninguém menos que Frank Sinatra e do célebre maestro Andre Previn, e está num relacionamento pouco convencional com um dos diretores de cinema mais conhecidos e respeitados no mundo, Woody Allen. O relacionamento é pouco convencional porque eles não habitam o mesmo teto, nem são legalmente casados, mas estão juntos há doze anos e fizeram treze filmes (filmes que devem muito do sucesso não só ao talento de Woody, mas ao de Mia). 
Aí você encontra fotos íntimas do seu parceiro (que tem 57 anos) com a sua filha de 19 ou 21 (não há registros confiáveis de quando Soon-Yi nasceu). Como assim? É lógico que isso é horrível e inaceitável. E ver a atitude pública de Woody, como se não tivesse havido nada de errado, é chocante. Na época, ele disse à revista Time: “Não vi qualquer dilema moral”.
Um dos erros de Woody foi justamente esse -- sua falta de senso moral. Ele nunca se arrependeu, e parece que nunca se deu conta, de que envolver-se com Soon-Yi, filha de sua companheira, era mais que uma traição. E que pros seus outros filhos, pros irmãos de Soon-Yi, isso tinha potencial para destruir uma família, o que de fato aconteceu. Se nem pro público Woody pediu desculpas, é claro que não pediu pra Mia, nem pras crianças. Essa arrogância, que ele mantém até hoje, com certeza piorou tudo. 
Woody provavelmente começou o relacionamento com Soon-Yi dois anos antes de Mia encontrar as fotos. Em 1990, um fotógrafo flagrou os dois de mãos dadas enquanto assistiam um jogo. A foto (ao lado) só foi publicada depois, no meio do escândalo (o paparazzo comprou um apartamento com ela), mas rumores surgiram numa coluna de fofocas. Woody conseguiu convencer Mia que não tinha nada com Soon-Yi. Até ela encontrar as polaroides comprometedoras em janeiro de 92. 
Eu li a biografia de Marion Meade, publicada em 2000, The Unruly Life of Woody Allen. Se o livro não é exatamente pró-Mia, ele é bem anti-Woody. E apresenta uma pesquisa que parece ser consistente. Meade conta que Mia, compreensivelmente nervosa, ligou para Woody e gritou: “Fique longe de nós!” E foi para casa. “Vinte minutos depois de Mia encontrar as fotos, todo mundo na família já estava sabendo”, diz Meade. Woody também foi lá pouco depois, quando as crianças estavam jantando. Ele não falou nada, não se desculpou, só ficou perto da parede. Um a um, os filhos de Mia se levantaram da mesa e levaram o prato pra comer no quarto. 
Por incrível que pareça, o relacionamento de Woody e Mia não acabou naquele dia. Durou meses ainda,  meses de muitas brigas e discussões. Woody conta que Mia ligava pra ele várias vezes por dia, a qualquer hora da noite, e o ameaçava. Ela entregou a ele um cartão de Valentine's Day, em fevereiro, com a foto da família e agulhas espetando cada coração, enquanto uma faca (com o cabo coberto por uma foto de Soon-Yi) cortava o seu (imagem ao lado). 
Apenas 2 ou 3 meses antes, em dezembro de 91, Woody tornou-se o pai adotivo de Dylan, então com 6 anos, e Moses, 13. Para que isso fosse possível, Mia teve que escrever uma carta recomendando Woody como pai. Porém, algumas coisas a incomodavam: Woody brincava de por a cabeça no colo de Dylan e a encorajava a colocar o polegar dele em sua boca. 
Ronan e Mia em foto recente
Mia achava que a proximidade de Woody com Dylan era anormal, e Woody achava que a proximidade de Mia com Satchel era anormal (Satchel, hoje Ronan, é o único filho biológico de Woody e Mia. Em novembro do ano passado, a Vanity Fair requentou as acusações contra Woody, e Maureen Orth perguntou a Mia se Ronan era filho de Frank Sinatra, ao que Mia respondeu “Possivelmente”). 
Devido às reclamações de Woody e Mia, em 1990 tanto Dylan quanto Ronan foram avaliados por psicólogos, e passaram a fazer terapia. Woody também teve sessões com a Dr. Susan Coates (dois anos depois, Dr. Coates disse no tribunal que entendia a preocupação de Mia em relação a Woody e Dylan. Segundo a psicóloga, “Eu não via como algo sexual. Mas eu via como algo inapropriadamente intenso que excluía todo mundo”). 
O dia 11 de julho de 1992 marcou o aniversário de 7 anos de Dylan, e Mia convidou muita gente, incluindo Woody, para a festa na sua casa de campo em Connecticut. Mia havia pedido a Woody para “não monopolizar Dylan”. Mas chegou um ponto na festa em que ele levou Dylan para brincar no lago. Mia ficou furiosa. 
Ele dormiu no quarto de hóspedes, como de costume. Ao acordar, encontrou em sua porta um bilhete de Mia dizendo: “Molestador de crianças em festa de aniversário! Moldou e então abusou de uma irmã. Agora se empenhando na irmã mais nova. Família enojada”. 
Porém, o dia fatídico, o dia em que Dylan descreve em sua carta, foi 4 de agosto. Esta é a versão de Mia do que aconteceu neste dia, na sua casa de campo, segundo o que foi publicado em 1992 na Vanity Fair (minha tradução):
“Woody foi a Connecticut visitar seus filhos, e Mia e Casey [uma amiga] foram fazer compras, levando duas das crianças adotivas mais recentes -– uma menina vietnamita cega chamada Tam, 11, e Isaiah, um bebê negro de 7 meses nascido de uma mãe viciada em crack. Enquanto eles estavam fora, houve um breve período, talvez 15 minutos, em que Woody e Dylan desapareceram de vista. A babá que estava dentro da casa procurou por toda parte por eles, mas não conseguiu encontrá-los. A babá fora da casa também procurou e concluiu que os dois deviam estar dentro em algum lugar. 
Quando Mia voltou pouco depois, Dylan e Woody estavam em casa, e Dylan estava sem calcinha. (Allen disse depois que não havia estado sozinho com Dylan. Ele se negou a entregar amostras de cabelo e impressões digitais à polícia de Connecticut a menos que fosse assegurado que nada que dissesse poderia ser usado contra ele). Woody, que odiava o campo e trazia seu próprio tapete de banheiro para evitar germes, passou a noite no quarto de hóspedes perto da lavanderia próxima à garagem e foi embora na manhã seguinte. 
Naquele dia, 5 de agosto, Casey chamou Mia para relatar algo que a babá lhe havia dito. No dia anterior, a babá de Casey estava na casa procurando uma das crianças e ficou surpresa ao entrar na sala de TV e ver Dylan, no sofá, usando um vestido, e Woody ajoelhado no chão a segurando, com o rosto dele no colo de Dylan”. 
Assim que Mia perguntou a Dylan sobre isso, a menina contou que ela e o pai foram ao sótão e que, se ela ficasse quieta, ele a colocaria num filme e a levaria a Paris. Quando, segundo Mia, ele tocou “na parte íntima” de Dylan, Dylan disse a ele: “Isso dói. Eu sou só uma criança pequena”. 
No mesmo dia, Mia levou Dylan ao pediatra, que perguntou onde era a parte íntima que seu pai havia tocado, e ela apontou para o ombro. No dia seguinte elas voltaram ao pediatra, e Dylan contou o que havia contado a Mia. O pediatra examinou Dylan e disse que ela estava “intacta”, mas que ele precisaria, por lei, reportar o caso à polícia. Mia ficou desesperada. Ela não queria que aquilo vazasse.
Não sei se vocês conseguem imaginar o circo midiático que teve início. Todo dia tinha notícia fresquinha sobre Woody e Mia. Era como se toda a imprensa fosse um tablóide sensacionalista. Diziam que Mia tinha tentado suicídio. Que Woody a queria de volta. Que Mia quebrou uma cadeira em Soon-Yi. Que Woody não gostava de Ronan e o havia chamado de “bastardinho”. Que Mia gostava demais de Ronan, e por isso não dava atenção a Dylan. 
Que Soon-Yi era retardada (vejo até feministas, vinte anos depois, repetindo isso, tirando a agência de uma moça de 19 ou 21 anos. Recomendo que vejam o documentário Woody Allen em Concerto, de 1998, onde Soon-Yi aparenta ser espirituosa e inteligente. Quem a vê como “a vítima com problemas cognitivos de quem uma figura paterna tirou proveito” não deve entender como Woody e Soon-Yi estão casados há 16 anos). Que o casamento entre Mia e Woody já tinha acabado quando Mia encontrou as fotos. Era todo dia uma nova revelação pra acabar com a reputação dos dois (e claro que não podia faltar o repertório de piadas racistas contra Soon-Yi).
Como a carreira de Woody não foi encerrada naquele momento, é um milagre -- de cada dez cartas que chegavam às redações, nove eram contra ele. Por mais que Mia tenha ficado com fama de ex-esposa histérica e ressentida (fama esta reforçada pela declaração do advogado de Woody dada ontem, “É trágico que após vinte anos uma história inventada por uma amante vingativa volte à tona depois de ter sido completamente rejeitada por autoridades independentes. A culpada pela agonia de Dylan não é Dylan nem Woody Allen”), Woody ficou com a amoralidade de trocar a parceira pela filha dela, 37 mais jovem que ele, e com a suspeita de ter abusado sexualmente de Dylan, sua filha de 7 anos. Essa suspeita estará no seu obituário quando ele morrer.
No entanto, em 1992, o caso foi investigado durante seis meses pela prestigiosa Clínica de Abuso Sexual Infantil do hospital Yale-New Haven, que já havia investigado cerca de 1,500 casos similares. Foi o promotor do caso que escolheu a clínica. Os psicólogos falaram com Dylan e as outras crianças inúmeras vezes, e entrevistaram Woody para traçar um perfil psicológico e decidir se ele era um pedófilo. 
As duas perguntas principais que um trio de três psicólogos, duas delas mulheres, tinham que responder eram: Dylan foi sexualmente abusada? Ela estava falando a verdade? De acordo com Meade, “Na opinião dos especialistas, as respostas para as duas perguntas eram não. Não havia evidência física de abuso sexual e, portanto, nenhuma chance de Woody haver sexualmente molestado sua filha. O relato de Dylan parecia ser as fantasias de uma criança emocionalmente vulnerável vivendo com uma família perturbada, uma resposta ao stress que ela não podia suportar.” 
Mesmo diante dessa conclusão, o promotor resolveu seguir com as investigações. Ele preferiu não fazer uma acusação formal para evitar um julgamento traumático para a criança. Foi uma declaração no mínimo estranha (algo como "acredito que você seja culpado, mas não quero processá-lo, e não te darei a chance de ser inocentado"), e o promotor foi brevemente suspenso.
Woody nunca foi condenado por nada, mas perdeu o processo em que pedia a custódia de Dylan, Moses, e Ronan. O juiz, que chamou Woody de “insensível e não confiável”, determinou que o cineasta não poderia visitar Dylan, e que Moses deveria decidir por ele mesmo se queria vê-lo (Moses não quis. Hoje, ele é um fotógrafo de 36 anos que não mantém contato com Mia, e que voltou a falar com seu pai e com Soon-Yi. Ele contou ao documentarista Robert Weide que o que se passou naquela casa em 1992 foi uma “lavagem cerebral”). Ronan iria ver seu pai em três visitas semanais supervisionadas, mas elas não continuaram por muito tempo.
Pra mim, o que pega mesmo é o timing. Se o abuso sexual tivesse ocorrido antes, em 91, por exemplo, eu não hesitaria em acreditar que aconteceu. Mas agosto de 92 foi no meio do escândalo. 
Como disse Woody ao programa de TV 60 Minutes, em 92: “Vamos ser racionais. Tenho 57 anos. Não é ilógico que, no meio de uma briga amarga e mordaz por custódia, eu vou dirigir até Connecticut, onde ninguém gosta de mim e onde estarei numa casa cheia de inimigos, e de repente, durante a visita, eu escolha esse momento da minha vida para me tornar um molestador?”
Woody e Dylan nunca mais se viram ou se falaram depois daquele dia.
O relato de Dylan Farrow é triste e chocante, e eu, como feminista que luto todos os dias para combater a cultura de estupro, fico feliz que suas palavras tenham atraído tanta atenção. Espero que este caso marque o começo de uma nova era em que o senso comum não duvide da palavra da vítima. Mas vamos fazer isso sem linchamento do acusado. Todo caso precisa ser investigado e julgado antes que haja uma condenação.


Estátua de WA na Espanha
UPDATE: Uma semana depois, Woody também publicou sua versão no NYT. Não gostei nada do que ele escreveu. Mais uma vez, ele se mostra insensível em relação a ter traído Mia com a filha dela, Soon-Yi. Eu repito o que disse nos comentários: mesmo sem a acusação do abuso de Dylan, apenas o envolvimento de Woody com a irmã de seus filhos já teria sido suficiente pra que eles ficassem com raiva dele pro resto da vida. 
E, mesmo 22 anos depois, o máximo que ele concede é que sentiu-se "culpado que por ter [s]e apaixonado por Soon-Yi [e colocado] Dylan numa posição de ser usada como peão de vingança".
Só que antes ele diz, no trecho menos convincente de seu artigo: "estava nas deliciosas etapas iniciais de um novo relacionamento feliz com a mulher que eu viria a me casar".
Primeiro que este "novo relacionamento" muito provavelmente já havia começado dois anos antes, e depois que -- como assim, feliz?! WTF?! A família destruída, choro e desespero todos os dias, ameaças, escândalos, e Woody estava feliz? Duvido muito que houvesse a menor chance de alguém envolvido no escândalo (ele, Soon-Yi, Mia, qualquer uma das crianças) estar feliz durante aqueles meses infernais de 1992 e 93. 
Ele, óbvio, tenta jogar toda a culpa em Mia. Está bem claro que Mia não lidou bem (aquele cartão de Valentine's diz muito) e ainda não lida bem com a traição de Woody. O que é compreensível: o cara estava transando com a filha dela, uma jovem que ele conhecia desde criança. E ele não teve nem coragem de contar isso pra Mia. Ela teve que descobrir através de fotos íntimas! E ele teve (tem ainda) a pachorra de considerar aquilo a coisa mais normal do mundo (o pior é que ele declarou, numa entrevista pra Vanity Fair de 2005, que foi sorte Mia descobrir as fotos, que aquilo foi "pra melhor"!). 
Mas eu não compro a versão dele de que Mia mandou Dylan fazer a acusação, nem em 92, nem agora. Não creio que foi algo planejado. Creio que a fantasia do abuso (sim, desculpe, sigo acreditando que não houve abuso, e isso não quer dizer que eu pense que todos os abusos sejam fantasiados) surgiu no meio daquele ambiente de raiva e confusão. Woody é injusto porque, assim como o diagnóstico da clínica de New Haven atesta que não houve abuso, o mesmo diagnóstico inocenta Mia de ter fabricado a acusação (a conclusão da clínica não conclui se a afirmação de Dylan é por causa do stress, ou se ela foi influenciada ou instruída pela mãe). 
A única novidade que vi no que Woody escreveu agora foi que o cenário que (segundo ele) Mia criou pro abuso foi um sótão, sendo que Woody é claustrofóbico, e que a inspiração dela veio da canção de Dory Previn (cantora e ex-esposa do segundo marido de Mia) "With my daddy in the attic" ("com meu pai no sótão"), que está no mesmo disco da música-mensagem "Beware of Young Girls" ("Cuidado com mulheres jovens"), que Dory escreveu após Mia "roubar" seu marido, André Previn (juntos, Mia e André adotaram Soon-Yi). As duas canções que linquei são bem tenebrosas. 
Outra coisa que me espantou no artigo foi Woody cobrar integridade de Mia. Ele a traiu com a filha dela! É muito patético, muita cara de pau. Ele termina o texto dizendo que será a última vez que se pronunciará sobre isso.
A maior vítima dessa história toda, no entanto, é Dylan. Espero que ela fique bem (aqui ela rebate o artigo de Woody).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CRÍTICA: BLUE JASMINE / Um Bonde Chamado Desejo sem desejo

Sai do banheiro, Blanche(tt)!

Deu dez minutos de Blue Jasmine, filme mais recente do Woody Allen que eu fui ver sem saber absolutamente nada, e eu perguntei pro maridão: "Por que ele decidiu refilmar Um Bonde Chamado Desejo?"
É sério, tá tudo lá: a insanidade da protagonista, sua total falta de recursos, ela viver num mundo de fantasia, a perda de um passado próspero, ter que morar com a irmã de outra classe social, os conflitos com os familiares da irmã, ela mentir prum pretendente... Faltou só o estupro e um final mais corajoso e conclusivo, porque todo o resto está presente em Jasmine
E pior: sem crédito à brilhante peça de Tennessee Williams. Woody não podia ter jogado nem um "baseado na peça" junto aos créditos? Não, porque aí não seria mais roteiro original, e sim adaptado. E Woody praticamente só escreve roteiros "originais" (assim, até eu). Pô, não dá nem pra dizer que Jasmine seja uma homenagem à Bonde! Tudo Sobre Minha Mãe, do Almodóvar, é (à Bonde e à A Malvada, ambos citadíssimos no filme). Jasmine tá mais como cópia descarada, ponto a ponto. 
Cate Blanchett faz Blanche DuBois, quer dizer, Jasmine, uma socialite de Manhattan que, depois de uma vida inteira de luxo, se vê sem nada, e precisa se mudar pra San Francisco, pra dividir o apê com a irmã, interpretada por Sally Hawkins (só na cabeça de classe alta do Woody que o apê dela pode ser visto como coisa de pobre. Sally vive melhor até que os pobres nas novelas da Globo!). 
Nos muitos flashbacks, vemos que Jasmine perdeu Belle Reve, quer dizer, sua vida mansa em Nova York, porque seu marido adúltero Alec Baldwin fraudou o sistema financeiro. Vemos também que Sally e seu então esposo tiveram a chance de subir na vida ao ganhar 200 mil dólares na loteria, mas adivinha quem tomou conta do dinheiro? Pois é, o Alec.
Cate (no meio) em Bonde
Olha que interessante: Alec fez um Stanley Kowalski surpreendente no teatro (um papel difícil, já que a sombra do Marlon Brando está sempre à espreita), que virou uma ótima versão pra TV (com a sempre maravilhosa Jessica Lange), há uns vinte anos. Em 2009, Cate Blanchett foi Blanche (e deve ter sido inesquecível) num teatro em NY. Eu ofereceria o maridão em sacrifício pela possibilidade de ver esse Bonde com a Cate em vez de Jasmine.
Houve um momento lá pela metade de Jasmine que eu pensei: ok, agora vai. Agora o Woody finalmente vai tentar algum tipo de discussão sobre classes sociais, como fez tão bem em Ponto Final e em O Sonho de Cassandra. Mas não, é tudo difuso, sem profundidade. Aí eu desisti e fiquei esperando o Bobby Cannavale gritar "Steeeeeelllllaaaaa!" na cena do supermercado. 
O filme tem defeitos demais, começando pelo roteiro, com alguns flashbacks que ora não acrescentam grande coisa, ora estão inseridos nos momentos errados (por exemplo: a cena de Alec com seu filho criança, falando sobre caridade). Há um amontoado de coincidências na trama (não sei quem vê não sei quem numa festa, outro não sei quem vê Alec traindo, outro personagem encontra Jasmine -- Nova York e San Francisco não são cidades tão minúsculas pra todo mundo esbarrar em todo mundo o tempo todo) e diálogos preguiçosos. Isso quando diálogos! Woody está acostumado a deixar musiquinha cobrindo uma conversa. Até pode funcionar em filmes mais leves, não em um em que acompanhamos o desmoronamento da protagonista. 
Sem falar dos filhos da irmã, que aparecem e desaparecem sem nenhuma explicação. É toda uma gama de personagens que não são desenvolvidos e de cenas que não servem pra nada, além de confundir o Globo de Ouro sobre a indicação de Cate pra atriz em comédia ou drama. Aquelas cenas todas com o dentista são pra quê, exatamente?
É tudo muito superficial. E aqui talvez eu fale uma besteira, mas tenho a impressão que não é só devido ao roteiro fraco que vários personagens (e, consequentemente, atuações) não se destacam (estou pensando no Alec e no Peter Sarsgaard, que meio que faz o Mitch de Bonde). É a própria filmagem mesmo. Pense em quantos close-ups Alec ou Peter recebem. Certo, é uma escolha do diretor, e talvez o objetivo seja mesmo distanciar esses personagens do público, mas chega uma hora em que filmar tudo de longe ou em plano americano não permite um maior envolvimento. 
Não por coincidência, a melhor cena de Cate é na lanchonete com os sobrinhos (aqueles desaparecidos, o grande mistério), quando a câmera foca o rosto dela, com toda sua dor, toda sua fragilidade, todo seu rancor. Aliás, esta é a melhor cena do filme, ponto. 
Espere sentada, ou você se cansa.
Cate já tem um Oscar (por Aviador).
Talvez eu não tivesse ficado tão decepcionada com Jasmine se tanta gente não estivesse falando bem. Woody é prolífico, ele lança um filme por ano, e, convenhamos, boa parte deles é descartável (alguém gostou de Para Roma, com Amor? Já Meia Noite em Paris é lindo). Eu gostaria de saber o que Jasmine tem que não foi realizado estupidamente melhor por Bonde, quase setenta anos atrás. E já aviso que ficarei muito chateada se a Cate ganhar um Oscar que, se houver justiça, deve ir pra Amy Adams (Trapaça). 
Isso é um selfie?