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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

ESQUILINHOS ARREPENDIDOS

Três ou quatro coisinhas muito boas aconteceram comigo na minha emocionante volta pra casa pro almoço. Vamos pela ordem: 1) Na entrada do elevador do prédio da faculdade, encontrei o meu querido faxineiro (esse merece um post só pra ele). Com aquela voz maravilhosa, ele, espantado com a minha roupagem de inverno - vestida como se eu estivesse indo pruma expedição no Alasca - perguntou se o tempo abaixo do equador onde eu vivo é muito diferente. Ele não elogiou meu cachecol multi-colorido, mas notei nos seus olhos que tava morrendo de vontade de comentar alguma coisa. 2) Vi um esquilinho lá fora, no jardim da biblioteca pública. Tá tudo coberto de neve, mas lá estava o esquilo, gordinho ainda por cima, o que prova que não está passando fome. O bichinho deu alguns passos, fez um túnel subterrâneo na neve, e saiu do buraco com algo parecido com uma noz. Eu, claro, fiquei lá parada, aplaudindo (e todo mundo me olhando esquisito, com pinta de “O que aquela boneca de neve tá fazendo? Parece que nunca viu um esquilo!”). Mas confesso que achei a atitude esquilística estranha também. Muitas vezes eu já joguei amendoim pra esquilos, e, quando não acerto um bem no meio da testa, eles ficam procurando a guloseima. Quase sempre tá no focinho deles, e eles não vêem. Como que um esquilo mergulha no meio da neve e acha uma noz? Deve ser um super-esquilo (tem que ser, pra sair da bat-árvore no meio do inverno). 3) Um senhor começou a falar comigo do nada. Primeiro me desejou um “Happy Valentine’s Day!” (me controlei pra não revelar que meu próprio marido, aquele traste, não me disse isso hoje), depois confidenciou que seu presente de Valentine’s pra ele mesmo será sair de Michigan, porque a economia americana tá péssima, então ele vai se mudar pra New Mexico, fronteira com o México, e fazer uns contrabandos. Muito simpático. 4) Finalmente cheguei em casa e o maridão pediu desculpas de joelhos. Aí em cima você pode ver o desenho que fez no cartão. É o esquilo com a maior cara de Rei Leão que eu já vi, mas valeu a intenção. Apesar d’o maridão dizer “Alguém pisei na bola”, implorar meu perdão e tal, disse pra ele que aquele cartão não era bem uma declaração de amor, e sim um pedido de desculpas. E pedi pra ele escrever outro, uma verdadeira declaração de amor agora, como se deve, porque amar é nunca ter que pedir perdão.

OS HOMENS, AI, OS HOMENS...

Um substituto à altura, pra dizer o mínimo

Hoje é Valentine’s Day aqui nos EUA. Não é bem como o nosso Dia dos Namorados em 12 de junho, porque é costume dar cartões carinhosos pra amigos e amigas, não apenas pra cara-metade. Mas claro que, aqui sendo o país mais consumista do planeta, Valentine’s é uma ótima data pras lojas venderem flores, bombons, jóias, lingerie e cartões. Pessoalmente, tento ignorar todas as datas comerciais - inclusive porque, da lista acima, a única coisa que vagamente me interessa são os bombons, que eu trocaria de imediato por barras de chocolate. Lembro de um cartoon maravilhoso feito por uma chocólatra. Mostrava um coelhinho fofo de chocolate sendo derretido numa panela, só as orelhas e a carinha aparecendo, tadinho, e a legenda “Chocolate não tem que ser bonitinho”. Em inglês fica melhor: “Chocolate was never meant to be cute”. Mas enfim, como estava carente e este deve ser o único Valentine’s Day que vou passar nos EUA e devia estar com TPM, disse pro maridão, DOIS MESES ATRÁS, que eu, excepcionalmente, iria querer um presente pro dia 14 de fevereiro – um cartão. Não um cartão comercial desses das lojas, pra pessoas com preguiça ou incapacidade de escrever (e Deus me livre e guarde, NÃO um telefonema gravado! Essa praga existe ainda?). Não, eu só pedi pra ele redigir uma declaração de amor, que é o que os homens deveriam fazer semanalmente de qualquer jeito, sem que nós mulheres tivéssemos que pedir / implorar / mandar (leitores, anotem pra não esquecer). Não é que hoje pela manhã não havia neca de cartão? Foi a única coisa que eu pedi praquele estúpido verme rastejante e medonho fazer, e ele não fez! Eu já sabia que Valentine’s não tem o mesmo significado pra ele que tem pra mim, porque no começo da semana tivemos essa conversa:
Eu: “Não sei o que escrever sobre Valentine’s. Queria escrever algo pro blog”.
Ele: “Por que você não escreve sobre o massacre no dia de St. Valentine’s?”
Eu: “Aquele do Al Capone? Foi por isso que criaram o Valentine’s Day?”
Ele (olhando pra mim como se eu fosse uma ostra, e falando bem devagar, pra eu acompanhar): “Não, definitivamente não foi por isso”.
Eu: “Então o que tem a ver eu escrever sobre um massacre de 1929 pra falar do dia dos namorados?”
Ele: “Sei lá. Pra mim foi a primeira vez que ouvi falar do Valentine’s”.
Ou seja, ele associa Valentine’s a um massacre que chacinou sete pessoas! Por que os homens são assim? Por quê? (e não quero entrar na questão de quando aquele ferro-velho nasceu).
Agora, momentos de tensão. Estou no escritório que a faculdade me cedeu (e hoje já houve três alarmes de incêndio desmentidos! Uma voz diz: “Desconsidere o alarme anterior”. E eu pensando: “Que mané alarme anterior?! Tô perdendo alguma coisa!”), mas agora já é quase hora do almoço e vou pra casa. Se aquele traste não tiver feito a declaração de amor mais linda, singela, espontânea e sincera do mundo, é melhor ele nem estar lá. Pro seu próprio bem.