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segunda-feira, 27 de julho de 2020

O QUE O URUGUAI PERDE COM A LEY DE URGENTE CONSIDERACIÓN?

A direita eleita no Uruguai continua fazendo estragos. A jornalista brasileira Patrícia García Lopes, que vive em Montevidéu e sempre colabora com o blog, conta a última. 

Viver pacificamente em sociedade é e sempre foi um dos grandes desafios da humanidade. É preciso alinhar interesses, estabelecer regras, criar determinações que deverão ser seguidas para o bom funcionamento do grupo. Em grande parte das democracias do mundo, esses conjuntos de princípios se agregam dentro daquilo que chamamos “Constituição”. 
Embora alguns países tenham por costume fazer deste compilado um emaranhado de ordens vagas e passíveis de serem mal-interpretadas ou contornadas, nas chamadas “democracias plenas” ela ainda é respeitada, na maior parte do tempo. Obviamente, isso não significa que pessoas mal-intencionadas não encontrem dentro da Constituição de seus países alguns mecanismos que podem ser aplicados de maneiras, no mínimo, questionáveis. É o que acontece hoje com o Uruguai e seu governo de coalizão. 
Criada em 1967 e com sua última alteração em 2004, a versão mais recente da Constituição da República Oriental do Uruguai já foi utilizada outras vezes durante a história do país para justificar alguns atos contra o próprio povo. Após a retomada democrática, a exigência da população de que os políticos sigam as regras fundamentais de seu território, sem golpes, nem jogadas escusas, se fez mais incisiva e constante. Inclusive a inserção de um instrumento legal chamado “Ley de Urgente Consideración” dentro da Constituição serviu para que, em casos extremos, se pudesse também flexibilizar alguma questão pontual e de maneira justa. 
A tal “LUC”, como é chamada, foi utilizada por todos os governos após a ditadura para que alguns artigos a respeito de questões urgentes, como o nome já implica, pudessem ser incluídos na Constituição, com efeito imediato. Por ser uma lei de urgência, sua utilização não ocorre a todo momento e suas alterações não são, geralmente, dramáticas para o país como um todo. 
Até este ano, desde o início de sua utilização, a maior alteração já proposta por este instrumento contava com 92 artigos sobre o Regime de Passividades e foi elaborada em 1992, no governo de Luis Alberto Lacalle, pai do atual presidente. Por sua característica confusa e danosa, ela não foi aprovada pelo congresso.
No entanto, durante a campanha presidencial de 2019, o então candidato a presidência, Lacalle Pou, fez da LUC a grande estrela de sua campanha. Em um discurso quase chantagista, o candidato do Partido Nacional afirmava que tinha “um projeto muito complexo e necessário para o país”, mas que seu conteúdo só seria revelado após as eleições. Em seus comícios, Pou falava com paixão sobre as mudanças que a tal lei traria e como ela era necessária para combater “tudo isso que está aí”. Com essa proposta de mudança sem direção, Pou e seus correligionários conseguiram mexer com a mente dos uruguaios. Alguém lhes dizia que havia coisas muito, muito erradas, que eles deveriam tomar uma atitude e que a solução estava ali, bastava um voto. 
Claro que, como vemos em muitos países, as ofertas de mudança sem rumo não passam de castelos no ar, que se desfazem rapidamente quando os tais “salvadores da pátria” têm que voltar para a realidade. Ao vencer as eleições e ser intimado a apresentar seu projeto, Lacalle Pou apenas argumentou que “ainda não estava pronto mas em breve todos conheceriam seu conteúdo”. Após seis meses, o projeto definitivo foi apresentado, em 9 de abril deste ano.
A LUC de Lacalle Pou é algo assombroso, não somente por suas mudanças, mas pela sua própria construção. Em 501 artigos, a coalizão, diferente de outros governos, não oferecia exatamente uma proposta de mudança em algum campo pontual, mas sim uma junção grotesca de tópicos irrelevantes para justificar o uso de tal instrumento (como as regras de produção do chorizo artesanal e a regulamentação da cessão de transmissão de jogos da seleção nacional) e tópicos delicados e polêmicos (como a liberação do porte de armas nas ruas por policiais aposentados e as prisões noturnas, que já haviam sido rechaçadas pela população no plebiscito “Vivir sin miedo”, no ano passado).
Após acelerarem os debates e pressionarem a votação urgente no congresso e senado (cuja maioria, hoje, é composta por membros dos partidos da coalizão), a LUC do Partido Nacional foi aprovada no dia 8 deste mês, com 472 artigos finais. É um feito histórico porém sombrio, onde em uma canetada apenas muitas mudanças vão acontecer em todas as áreas da sociedade uruguaia. 
Embora sua aprovação tenha sido seguida de muitas sessões extraordinárias e repúdio imediato tanto da oposição quanto de organismos internacionais, como a ONU (que rapidamente manifestou sua preocupação com os artigos que envolviam abordagens físicas, mudanças nas prisões de menores e uso de força policial), a LUC tem efeito imediato e isso já começa a ser sentido pelo povo. 
Além disso, com esta vitória importante, a coalizão abriu caminho para que outras propostas de Lacalle Pou pudessem ser aceitas com mais rapidez e sem tantos questionamentos, aproveitando-se da polêmica da aprovação da lei. Na sequência da LUC, e em uma das jogadas mais baixas e cruéis deste governo até agora, Lacalle Pou aproveitou-se de uma brecha da popularmente conhecida “Lei do Leite”. Criada em 2017 pelo governo da Frente Amplio, essa lei consiste na obrigatoriedade da inclusão de um copo de leite nas refeições infantis em escolas de todo país. 
Como vocês podem perceber, essa lei implica na obrigatoriedade do leite, mas não inclui o restante da alimentação, parte da diretrizes de nutrição implementadas pela Frente e que garantia cardápios balanceados para os alunos de escolas públicas de todas as idades. Lacalle suspendeu essas diretrizes e retirou os alimentos das refeições escolares. Todos os alimentos. As crianças, desde o dia 13 de julho, recebem apenas o copo de leite. De um governo que, literalmente, está tirando comida da boca de crianças pobres enquanto beneficia com isenção de impostos os investidores ricos do estrangeiro, o que se pode esperar? 
Infelizmente, tudo. A LUC foi apenas a ponta deste iceberg de retrocesso e crueldade que estamos vivenciando e que, de uma maneira muito triste, parece colidir a cada dia com nossos sonhos e com nosso ideal de país que, um dia, já foi exemplo neste nosso cantinho chamado América do Sul.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

URUGUAI ESTÁ CONSEGUINDO VENCER O CORONAVÍRUS

Talvez você, como eu, ficou sabendo do caso da socialite que infectou 80 pessoas no Uruguai aqui, no excelente guest post da jornalista brasileira Patrícia Garcia.
Agora ela escreve sobre as medidas sociais que nosso país vizinho tomou diante da pandemia. 

Um país se constrói com seu povo, e essa frase é mais do que apenas um pensamento bonito. Ao observar a construção de uma nação, podemos também avaliar e entender como se construiu aquela sociedade e sob quais bases ela opera. Como sempre ressalto em meus textos, a solidariedade uruguaia é uma expressão natural e compreensível de um povo que é pequeno em números, mas gigantesco no cuidado com o próximo.
Obviamente, em um momento tão delicado como o que estamos vivendo hoje em todo o mundo, algumas atitudes e comportamentos podem justificar nosso bom desempenho em meio a esta crise global. No momento em que escrevo este texto, o Uruguai teve 20 mortes por coronavírus e ainda não colapsou economicamente. Por quê? 
A raiz desta resposta está conectada fortemente a consciência do povo uruguaio de cuidarem uns dos outros. Como já havia mencionado na primeira parte desta pequena série de textos sobre a pandemia, o país adotou o chamado “isolamento voluntário”, dando aos cidadãos livre arbítrio para tocarem ou suspenderem suas atividades. Como a pandemia chegou aqui nos primeiros dias do novo governo, nosso plano de contingência ainda é aquele preparado pelos governos anteriores e já vinha sido aplicado antes mesmo do primeiro caso aqui. Entre as medidas iniciais estavam o fechamento de portos, aeroportos e fronteiras que apresentassem qualquer suspeita do vírus e o acionamento da população para se conscientizar da existência de uma ameaça. Como de fato ocorreu no final de fevereiro, com um barco chinês que atracou no Porto de Montevidéu e que tinha entre seus tripulantes dois rapazes com suspeitas de terem o vírus. 
A abertura de ambos os governos em discutir as medidas seguintes e a maturidade de não usar este momento como guerra ideológica, negando fatos científicos, como vemos no Brasil, ajudou muito a população a rapidamente integrar-se ao que estava acontecendo e poder se organizar para enfrentar os novos tempos. Como já é de costume, diante de uma situação de crise, começaram a surgir, vindas do próprio povo, as iniciativas das “ollas solidárias” (“panelas solidárias”) para poderem levar comida aos que estariam em maior situação de risco, contando com a colaboração dos bairros em se organizarem instintivamente para isso. 
Acompanhando o pensamento do povo, os sindicatos e partidos políticos, em sua maioria, também abriram seus comitês para que pudessem ser levados mantimentos e objetos de higiene para os mais necessitados, até que as coisas possam se normalizar. Já são mais de 60 dias deste movimento incessante e de trabalho em conjunto entre pessoas de lugares distintos. 
Dentro destas “canastas basicas” (cestas básicas), não estão apenas objetos de higiene ou alimentos, mas também algum livro, algum brinquedo, alguma roupa, e até mesmo ração para animais de estimação. Não é simplesmente uma iniciativa de caridade, mas sim uma ajuda que envolve mais que o alimento literal, mas também o alimento da alma, do alívio de dar de comer ao bichinho ou de ver o filho se distrair um pouco deste momento tão pesado para todos.
Em um movimento que acompanha essa cobrança da sociedade para que todos façam sua parte, o governo anunciou em abril que os funcionários públicos com salário maior que 80 mil pesos (cerca de R$ 10.400,00) iriam contribuir com parte de seus rendimentos para o Fundo Coronavirus (em escala progressiva de 5% - 15% - 20%, de acordo com o valor ganho). A exceção, independente do valor, seria para os políticos e suas equipes, que obrigatoriamente contribuem com 20%, em qualquer caso. Esse fundo está sendo utilizado, entre outras coisas, para comprar insumos hospitalares, para pagar alguns seguros de paro (auxílios emergenciais dos trabalhadores que estão em isolamento) e para criar uma rede de conexão entre os fornecedores do campo e as iniciativas comunitárias das cidades.
Junto a isso, aproveitando-se do Plan Ceibal, brilhantemente implementado pelo governo do Frente Amplio (e, ironicamente, tão criticado pelo atual durante a campanha), em que todas as crianças do país puderam ter suas aulas online. O Plan Ceibal foi um ambicioso projeto que envolveu muitas frentes, inclusive a educacional e que conseguiu oferecer a todas as crianças e adolescentes das escolas públicas alguns computadores básicos, as chamadas “ceibalitas”. 
Graças a esses dispositivos, a suspensão das aulas não tornou-se um grande problema por aqui no que tange a continuação dos estudos dos jovens. Inclusive, a própria coalizão, hoje, assume o grande valor do Plan Ceibal e de como isso realmente modificou o cenário dentro e fora da epidemia. 
Finalmente, uma atitude surpreendente mas ainda envolta em polêmica foi o aluguel de hotéis desativados pela pandemia para que pessoas em situações de rua pudessem se instalar em algum lugar e manter a higiene básica que, sabemos, lhes é muito difícil em seus duros dias sofrendo descaso, em qualquer lugar do mundo. 
A atitude está longe de ser uma demonstração de bondade da coalizão, pois já era uma ideia existente e, na verdade, visa mais a contenção do vírus do que exatamente ajudar estas pessoas por empatia e humanidade. Além disso, algumas associações indevidas e muitos donos de hotéis que pertencem ao círculo social de Lacalle Pou pareceram se beneficiar com a ação. 
No entanto, se está ajudando um outro ser humano, qualquer atitude me parece válida. Agora é o momento de pensar no outro, cuidar do outro, e todas as nossas energias deveriam estar voltadas a isso. Mas não deixaremos de olhar para esses “detalhes” em um futuro próximo e checar se houve irregularidades. Afinal, nunca é demais estar atento, em qualquer momento e cobrando quem deveria ser devidamente cobrado. 
E já está na hora de mais gente aprender esse macete.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A SOCIALITE QUE INFECTOU 80 PESSOAS NO URUGUAI

Fiquem com o ótimo texto de Patrícia Garcia, jornalista brasileira que vive em Montevidéu. Eu não sabia do caso da socialite responsável por espalhar a pandemia no Uruguai!

Nos últimos meses, o mundo tem adotado uma palavrinha que nos era muito distante e pouco familiar: pandemia. E, a não ser que você seja o Átila Iamarino (beijos, muso) ou algum outro especialista em infectologia, posso afirmar que você foi pego de surpresa por essa nova inclusão em seu vocabulário. O que talvez não seja surpreendente é que, como em qualquer outro momento de instabilidade, cada país desenvolva ou aplique seus próprios mecanismos para conter os danos causados por uma crise sanitária de proporções globais (salvo o Brasil, mas isso, como sabem, é outro tópico).
Obviamente, a aplicação de tais medidas, sejam elas governamentais ou de iniciativa social, está também diretamente associada à consciência de cada povo com relação a seu exclusivo papel no mundo e a construção de sua sociedade. Como pudemos observar vastamente desde o início dessa crise, países mais populosos pareceram levar mais tempo para tomar medidas de contenção. Talvez, a noção de que “há muitos de nós” leve ao descaso e ao egoísmo, a exemplo dos EUA e do Brasil que está, com toda razão, sendo crucificado aqui fora. 
Uma das coisas que sempre ressaltei em meus textos, artigos e “fios” sobre o Uruguai é justamente essa construção social e solidária tão distinta, tão única e talhada através de muita luta, sofrimento e coragem. Uma sociedade que teve que amadurecer à força, que carrega em si uma certa melancolia de saber que o mundo não é um parque de diversões e que fez da resistência um modelo de vida, naturalmente, teria uma atitude diferenciada diante de uma crise. Especialmente se tratando de uma situação de caráter sanitário, em um país onde somos 3,5 milhões de habitantes, número praticamente imutável há mais de 30 anos.
Ressalto tudo isso de antemão pois é necessário este contexto para entender o que está sendo feito aqui com relação ao COVID-19. Com apenas 13 dias de posse, o novo governo, de espectro direitista formado por uma coalizão com distintas intensidades de conservadorismo, recebeu a notificação do primeiro caso do novo coronavirus em território uruguaio. Diferente da maioria dos governos de direita mundo afora, imediatamente o presidente Luis Lacalle Pou veio a público informar as medidas que seriam tomadas para a contenção da propagação do vírus. 
Em momento algum tivemos qualquer pessoa do governo duvidando da seriedade da situação ou tentando amenizar a pandemia. Na realidade, já estávamos em Plano de Contingência desde o final de fevereiro, quando um barco chinês atracou no Porto de Montevidéu com um de seus tripulantes apresentando sintomas de contágio. Também, como alguns de vocês devem lembrar, recebemos em nossos celulares alguns exemplares do Plano de Contingência, na ocasião, para ficarmos informados sobre os cuidados que deveríamos ter e entendermos o que era o tal vírus.
O que ninguém contava antes do anúncio presidencial de 13 de março era com o “fator Carmela”. Caso não saibam, aqui não temos o famoso Paciente Zero. Temos sim a socialite Carmela Hontou, responsável por trazer o vírus para o Uruguai e contaminar, em um dia só, cerca de 80 pessoas. Em um exemplo baixíssimo de falta de consciência, esta senhora se viu obrigada a encerrar sua viagem a Milão porque a cidade, bem, entrou em lockdown. Tendo voltado um pouco mais cedo de seu “pulinho a Europa”, dona Carmela viu pessoas desmaiarem na rua, mas achou que seria uma excelente ideia descer no aeroporto de Montevidéu, pegar um micro-ônibus com amigos para ir a Salto e voltar dois dias depois para um casamento de 500 pessoas. 
Desnecessário dizer que os dois focos iniciais de contágio aqui foram Salto e Montevidéu, e que todos haviam tido contato com a madame Hontou. Em uma cadência curiosa de eventos, uma boa parte dos moradores de Carrasco, bairro mais rico do país, se viu contagiada pelo vírus, inspirando a criação da expressão “pandemia de los chetos” (“pandemia dos riquinhos”, em tradução livre) e a áudios revoltadíssimos de todos os frequentadores do Country Club montevideano, pedindo a cabeça da outrora amiga da high society charrúa.
Diante desse cenário pouco usual, onde os dedos podem ser corretamente apontados em uma direção específica, muita gente se apressou a dizer que a rapidez do governo poderia ser devido ao fato de que o vírus se apresentou inicialmente na camada mais rica da sociedade. No entanto, tal afirmação seria injusta, pois a postura do governo não é, nem de longe, reflexo de seu direcionamento político, mas sim de uma sociedade que, antes de tudo, busca a todo custo preservar os poucos milhões de cidadãos que existem por aqui. 
Seguir o planejamento de contenção elaborado e aplicado pela oposição, com base em estudos e projeções, não é um sinal de “fraqueza”, como povos menos maduros poderiam achar, mas apenas uma atitude de bom senso. Divergências de espectros políticos, sociais e econômicos sempre irão existir, mas o Uruguai continua dando exemplos surpreendentes de união social no momento em que isso faz uma grande diferença. 
Apesar de erros e acertos, estamos conseguindo conter a pandemia com bastante esforço. Não sem mantermos o olho aberto para as atitudes da coalizão no meio disso. Com isolamento social (que aqui virou “quarentena voluntária”) ou não, a cobrança em cima dos governantes e a exigência da manutenção democrática do Estado de Direito continuam sendo pautas diárias. O uruguaio sabe que bom senso é diferente de “santidade imaculada”. Tanto é que, no primeiro mês de governo, já tivemos um panelaço contra a tal “quimera governista”. 
Quanto a Carmela, ela foi encaminhada a fazer a quarentena em sua casa quando saiu do hospital, mas começou a receber visitas de amigos e fazer festas. Foi devidamente denunciada pelos vizinhos. Agora, a senhora socialite será processada pelo Estado e indiciada por colocar a vida de outras pessoas em risco. Por não respeitar as duas semanas confinada, possivelmente passará um ano em prisão regular ou domiciliar. Muito diferente do que acontece com um certo governante latino.
Bateu inveja, né Brasil?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

FINS, COMEÇOS E INCERTEZAS

Depois de muita indefinição e recontagem de votos, a direita voltou ao poder no Uruguai, após quinze anos muito bem sucedidos da esquerda. 
Amo o Uruguai e torço para que não aconteça com o nosso país irmão o mesmo que aconteceu na Argentina de Macri e o que está acontecendo com o Brasil de Bolso. Por todo lugar que a direita governa deixa um farto rastro de destruição, de terra arrasada, de fim de direitos sociais e aumento da miséria e da concentração de renda.
Infelizmente, não tem como ser diferente com o Uruguai. Fica o desejo de que esses cinco anos passem rápido. E que o povo não se dê por vencido.
A jornalista brasileira Patrícia García mora em Montevidéu e participou ativamente de todo o processo eleitoral. Vejamos o que ela tem a dizer. 

Memórias eleitorais são naturais em nossa vida. Todo mundo tem alguma história sobre o assunto ou, ao menos, um momento curioso do qual se lembra. É o nosso processo de absorção de nossa própria condição cidadã, de ver a cada 4 ou 5 anos um país se unir em direção às urnas, pronto para mudar seu destino. Mas um pleito que deixe os corações de toda uma nação em animação suspensa durante quase uma semana certamente é algo que não será esquecido tão cedo. 
Pela primeira vez em sua história, o Uruguai enfrentou uma eleição tão disputada que, na noite de domingo (24/11) cada cidadão foi para sua cama com um grito preso na garganta, fosse ele de alegria ou de tristeza. Como uma final de Copa do Mundo, cada comitê, cada casa, cada sítio e rincón onde estivesse um uruguaio tinha uma televisão ligada e olhos atentos á apuração. 
Segundo as pesquisas prévias, cerca de 7 pontos separavam a Frente Ampla do líder, o Partido Nacional e sua coalizão de direita. A cada minuto que passava, cada comentário de especialistas, cada transmissão dos diferentes estados e cidades, cada ligeira mudança em porcentagens, deixava as pessoas à beira de seus assentos. 
Rezas, bandeiras, olhos marejados, abraços, o compartilhamento de um momento tão crítico mas ao mesmo tempo tão bonito. A esperança no olhar de cada frenteamplista que via a barra de porcentagem subir a favor de Daniel Martínez. 
A crença de que, por algum milagre curioso ou alguma dessas inconstâncias da vida, toda a tensão e a preocupação vividas nas últimas semanas iria se esvair em uma vitória inesperada. A direita, em lives mostradas a cada pouco de sua concentração, era apenas uma massa confusa em um silêncio sepulcral, sem poder acreditar que a eleição, que já davam por ganha, lhes estava escapando pelos dedos.
E então, o contador parou. Na tela, estática, risonha, debochada, uma coisa impensável para todos: 48.2% para Daniel Martínez; 48.2% para Lacalle Pou. As barras que não se mexiam, a apuração que caminhava voto a voto, a tensão no ar, toda cédula desdobrada e exibida sendo alvo de um escrutínio atroz de cada espectador. Mudanças ligeiras na porcentagem invadiram a madrugada até que, diante de tal cenário e então com uma diferença de 1% entre os candidatos, a Corte Eleitoral decidiu que havia um empate técnico. 
Uma longa semana de recontagem e novas apurações se estenderia e tiraria o sono de um povo que já se encontrava muito confuso com tudo o que estava acontecendo. Embora com uma porcentagem mínima de vantagem, Lacalle Pou, em seu discurso daquela noite, lamentava que a esquerda não tivesse admitido a derrota. Acontece que ainda não havia derrota. A Corte foi taxativa: empate e recontagem. O Uruguai não conheceria seu próximo presidente naquela noite.
O processo de recontagem não apenas contabiliza os votos já contados como também os chamados votos observados. Essa modalidade distinta praticada aqui é usada para abarcar votos de pessoas em condições específicas. Delegados eleitorais, gente que foi ao colégio eleitoral errado, pessoas com acessibilidade reduzida mas que ainda votam em locais sem acessibilidade, todos estes são os tais votos observados. Por ser um país pequeno, esses votos podem ser absolutamente decisivos em uma disputa. 
Na noite de domingo, Lacalle contava com pouco mais de 24 mil votos a frente de Daniel, mas ainda haviam 33 mil votos observados a serem avaliados e contabilizados. Mesmo que com uma chance muito pequena, ainda havia uma esperança de que a esquerda pudesse se sustentar pelo quarto mandato e dar continuidade ao trabalho desenvolvido.
Após quatro dias de angústia, em que toda Montevidéu fora engolida em suspiros de apreensão, ansiedade ou desânimo, a Corte Eleitoral declarou na quinta-feira que não havia mais chances de a Frente Ampla vencer as eleições. A diferença entre os votos já estava impossível de ser superada e Lacalle vencia com 34 mil votos de vantagem. Uma derrota para a esquerda, mas não exatamente uma vitória para eles. O presidente eleito está nas mãos de seus acordos com a coalizão e precisou ceder em pontos cruciais para que pudesse obter o apoio dos outros quatro partidos. 
Essa colcha de retalhos, que pretende ser a guia do país para os próximos 5 anos, composta de pedaços tão divergentes, é frágil como a democracia em nossa América Latina. Como um prenúncio de tempos complicados, a comemoração da vitória de Lacalle, na última sexta-feira, foi cancelada devido ao mau tempo. Aquele que citava o pai e dizia que “as nuvens passam mas o azul fica”, fechou-se em sua mansão em Carrasco com medo de algumas gotas de chuva. Pergunto-me o que fará quando quando for atacado pelo próprio monstro que criou. Uma quimera de dez pernas, purulenta e contagiosa, que facilmente se voltaria contra seu idealizador.
No sábado, o Lacallito, como muitas vezes é chamado em constante referência a ainda presente figura de seu pai, saiu para encontrar o povo em sua tão sonhada comemoração. Talvez por serem muitas as emoções deste momento para toda uma sociedade que respira política, ou talvez por pura distração, poucos observaram as nuvens carregadas do “céu azulado” da coalizão direitista. 
Enquanto Lacalle discursava um rol de palavras vazias e sem nexo, um homem ao seu lado observava tudo aquilo com o máximo de satisfação que seu rosto enrijecido podia demonstrar. O mesmo rosto que havia protagonizado uma intimidação a civis e militares alguns dias antes, em uma mensagem clara de “perseguição aos traidores”, ou seja, quem não votasse na coalizão. O comandante que era um herói para o ex-militar Carlos Techera, preso nesta última terça e autor de um vídeo em que ameaçava os principais dirigentes da Frente. 
O dono de um partido que, com menos de um ano de existência, conseguiu 3 ministérios num acordo secreto com a cúpula do Nacional. O porta-voz de uma onda de ódio e negacionismo. Em suas mãos esqueléticas, as invisíveis correntes que envolvem a excêntrica quimera, que ele alimenta com inclinações fascistas. 
Se ele decidirá ou não soltar este monstro dentro da sociedade uruguaia, só o tempo dirá. A nós, resta resistir.
Pela volta!