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domingo, 17 de novembro de 2013

CHAMAR PESSOAS DE MENTIROSAS TEM PERNA CURTA

Às vezes eu fico perplexa ao notar como tem gente que não consegue interpretar um texto, ou que nega evidências mesmo quando elas estão lá na sua cara. Por exemplo, você apresenta uma estatística dizendo que, entre 2003 e 2007, em Santa Maria, 97% dos causadores de acidentes com alta gravidade eram homens. 
Não tem muito o que discutir, certo? Claro, deve-se discutir o que provoca esse quadro (por que homens cometem muito mais acidentes fatais de trânsito do que mulheres) e como transformá-lo. Mas aí um rapaz não muito inteligente me diz que esse número pode ser facilmente explicado: crianças também não cometem acidentes fatais, porque criança não dirige. O mesmo com mulheres. Taran... Fatality! (e, pra provar que estamos na Arábia Saudita, o rapaz ainda apresenta um argumento irrefutável: "Vai ver na rua quem está no volante! Só homens!").
Mas esse pelo menos tentou argumentar. Melhor que os outros duzentos que me mandaram links de notícias em que alguma mulher cometeu um acidente de trânsito (provavelmente não fatal). Porque um caso individual certamente comprova que a estatística dos 97% está errada! E isso é feito sempre que uma pessoa se depara com uma estatística com a qual não concorda. 99,6% das 7,762 participantes de uma pesquisa (não científica) disseram já ter sido assediadas na rua? Impossível, diz um homem machista: ninguém assedia mulheres feias e gordas! (aham, por supuesto: e só mulheres jovens e belas são estupradas). 
Bem, outro dia percebi que um mascu fez um Twitter só pra interagir com o meu twitter, o que é um pouco estranho, porque eu o bloqueei já na primeira mensagem que recebi dele. Mas, numa pausa, fui lá fuçar depois de uns dias só pra me divertir com o que o Ovo (como são chamados os usuários do Twitter que nem sequer colocam uma imagem no perfil) havia escrito para e sobre mim. E aí, entre dezenas de insultos e acusações, encontro este tuíte:
E eu tive que clicar no "Ver conversação" pra entender que tuíte meu havia revoltado tanto o rapaz. Devia ter sido algum em que eu dava uma opinião muito forte e polêmica, pra que o cara decretasse que tudo eu disse na vida é mentira. Então... foi este tuíte aqui:
"Lily Allen volta à ativa c/vídeo q ataca machismo na indúst musical: It's hard out here for a bitch. via @littlejoia"
Qual pode ter sido a terrível mentira que eu disse?
1) Lily Allen não voltou à ativa. Ela nunca foi embora? Ou ela se aposentou de vez? Sei lá, eu nem sei quem é Lily Allen.
2) Não é um vídeo. É um clip? Uma música?
3) O vídeo não ataca o machismo. 
4) Ok, o vídeo ataca o machismo, mas não na indústria musical, só numa outra indústria qualquer. 
5) O vídeo não se chama "It's hard out here (for a bitch)". 
6) Não foi a littlejoia que me encaminhou o vídeo. 
Digamos que alguma dessas afirmativas citadas acima estivesse errada. Erros não são necessariamente mentiras, são? Pra mim, mentira tem que ser proposital. Como eu não minto, sou bem cuidadosa antes de acusar outra pessoa de mentirosa. Porque eu acho que, se a pessoa acredita no que está dizendo, ela de repente não está mentindo. Eu creio que os mascus, por exemplo, realmente acreditam no universo alternativo que criaram. Eu acredito que eles acreditam que vivemos num matriarcado, numa sociedade b*cetista, num mundo vaginante, chamem como quiser. Só porque eles são lunáticos ensandecidos não quer dizer que sejam sempre mentirosos. 
E tem aquilo de você repetir uma mentira até que ela se torne verdade. Reaças de modo geral adoram fazer isso. Eu acredito que boa parte dos reaças que querem reescrever a História e insistem que o nazismo foi de esquerda, não de direita, realmente acreditam nessa mentira. É bem provável que quem começou essa lenda (que hoje é quase uma unanimidade entre o pessoal da direita) sabia que estava mentindo. Mas quem a repete deve ter se convencido. O que obviamente não quer dizer que estejam certos. 
É um pouco diferente de um sujeito como o Danilo Gentili, por exemplo, dizer que sou, além de "gorda nojenta" (uma opinião dele que diz muito sobre o que ele acha de pessoas gordas, ou de mulheres que discordam dele de modo geral), "blogueira paga pelo PT". Isso é mentira na cara dura mesmo. Eu não acredito que o Gentil realmente acredite que quem o critica só pode estar sendo pago pra isso. Porque, né, haja dinheiro. 
Eu pessoalmente não conheço nenhum blogueiro que receba dinheiro do PT pra criticar pessoas de direita. Também não conheço nenhum blogueiro que receba dinheiro do PSDB pra criticar pessoas de esquerda. Há rumores, claro, mas seria leviano dizer, sem provas, que um blogueiro é pago por um partido pra atacar outro. Agora, conheço vários nomes que são pagos pelo Instituto Millenium (um think tank da direita brasileira composto por homens brancos) pra dar palestras atacando a esquerda. (Conheço blogs -- não é o caso do meu -- que recebem propaganda de institutos ligados ao governo federal. Mas, até aí, a Veja, a Globo, a Folha, também recebem, e incomparavelmente mais).
No caso do tuíte meu que deixou o mascutroll indignado, imagino (mas não dá pra ter certeza) que o que fez com que ele me chamasse de mentirosa (pela 1,784a vez) foi o teor do vídeo, "It's hard out here for a bitch" (é difícil ser uma vadia, ou algo assim). Suponho que o rapaz pense que é fácil ser vadia. Mas meu tuíte era meramente informativo. Não julguei o vídeo (depois vi que muita gente achou o clip racista, no que concordo totalmente), não entrei na discussão se é fácil ou não ser vadia. Isso quem está dizendo é o vídeo, não eu. E o tuíte é "verdadeiro", ué. 
Estou usando o troll como exemplo, mas já vi muita gente mais inteligente (inclusive feministas) fazer a mesma coisa -- uma pessoa não gosta da outra, por N motivos, e por causa disso acusa a outra de mau caráter e mentirosa. Esta, pra mim, não é uma tática muito honesta, nem produtiva. Porque se você diz que uma pessoa mentiu, ok, tem gente que vai aceitar a sua palavra sem hesitar e concordar que aquela pessoa mentiu. Mas também haverá gente que checará a história e se perguntará: "Mas onde está a mentira?" 
Ser ignorante, pra mim, é diferente de ser mentiroso. Um idiota qualquer que usa termos como feminazis e gayzistas ou gaystapo, numa tentativa ridícula de associar o nazismo com pessoas (feministas e gays) que foram vítimas do nazismo, de dizer que movimentos revolucionários que lutam por direitos de grupos historicamente discriminados são tão ruins como um regime que matou milhões de pessoas, não é necessariamente mentiroso. 
É incrivelmente ignorante (ou eu que sou muito ingênua?). Quem usa esses termos, e tantos outros, está automaticamente se auto-carimbando com um grande "otário" na testa. 
E evidentemente que discordar de alguém não faz da outra pessoa uma mentirosa. Só acho que a gente tem que pensar duas vezes antes de dizer que alguém está mentindo.