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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A NOITE MAIS ESCURA DO CHILE

O pior aconteceu num dos nossos países vizinhos: a extrema-direita voltou ao poder no Chile. Dias tristes e perigosos para toda a América Latina. Publico aqui o texto da jornalista Isabela Vargas. Isabela é mãe da Gabriela, feminista e integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, que organizou os protestos do #EleNao no Chile.

Pra quem está em Porto Alegre, no dia 20 de dezembro, a partir das 18h30, no Espaço Cultural Maria Maria, Isabela estará lançando seu livro Viajando na Cordilheira - Um Diário de Vida, não de Viagem. É uma coletânea de textos sobre as vivências de uma jornalista brasileira como imigrante no Chile. 


O candidato ultraconservador de extrema direita Jose Antonio Kast é o novo presidente do Chile. Isso significa que a partir de 11 de março de 2026 teremos uma administração muito parecida com a da Argentina e dos Estados Unidos. 

Mas como explicar esse voto dos chilenos depois dos protestos em 2019 que levaram Gabriel Boric à presidência? Aliás, quando Boric foi eleito presidente, derrotou justamente Jose Antonio Kast nas urnas. Só que dessa vez, os chilenos deram um recado claro: quase 60% dos eleitores votaram por um governo ultraconservador.

Vários fatores ajudam a entender o que aconteceu no cenário político chileno. Em primeiro lugar, desde o início da gestão Boric a mídia tradicional bateu todos os dias no governo. Os programas de TV transmitiram a sensação de que o Chile é um dos países mais violentos do mundo e que a segurança pública era um tema urgente.

Em segundo lugar, a escolha da ex-ministra Jeannette Jara, integrante do Partido Comunista, para concorrer à presidência, na minha humilde opinião, também foi um fator chave. Nas prévias, confesso que não votei nela, mas na socialista Carolina Tohá.

A minha escolha foi simplesmente pensando em responder à pergunta: quem tem mais possibilidades com o eleitorado? O Partido Comunista do Chile tem excelente quadros, mas ao mesmo tempo enfrenta uma forte resistência por parte dos eleitores chilenos. Por isso, o Boric ganhou as prévias contra Daniel Jadue, também do PC, na eleição anterior.

Em terceiro lugar, e não menos importante, a estratégia de campanha do Kast nessa eleição foi evitar os temas justamente onde suas opiniões são mais conservadoras. Dessa vez, o enfoque foi totalmente no tema da segurança pública, com um forte discurso xenofóbico, e na economia, prometendo muito sem detalhar suas propostas.

Um aspecto muito importante é que Kast sabia que maioria das eleitoras evitou votar nele em eleições anteriores. Por isso, nessa eleição ele preferiu não falar sobre os direitos das mulheres pensando em conquistar o eleitorado feminino. Apesar disso, no discurso de encerramento de campanha no primeiro turno, em Viña del Mar, uma das frases de Kast foi: “Vamos falar de Deus novamente, da pátria e da família”. 

Igualzinho ao Bolsonaro. Aliás, ele é muito próximo ao ex-presidente brasileiro recentemente condenado. Assim como Bolsonaro, Kast é um admirador de Pinochet e de outros militares condenados por violações de diretos humanos durante a ditadura militar. O mais famoso deles é Miguel Krassnoff, um dos oficiais do exército envolvidos no planejamento e administração de Villa Grimaldi, campo de detenção usado para a tortura de cidadãos chilenos no regime de Pinochet.

É muito estranho pensar que apenas quatro dias depois de celebrar o Dia dos Direitos Humanos, o Chile escolha como presidente justamente um político que ignora que este país ainda procura 1.469 pessoas. Como se fosse pouco, Kast em reiteradas ocasiões afirmou sua intenção de perdoar os responsáveis ​​diretos por essas violações que fazem com que muitas famílias continuem à espera de desparecidos políticos. Hoje, o Chile voltou atrás em inúmeras conquistas e talvez nunca mais saia desse lugar de retrocesso e escuridão. 

terça-feira, 23 de abril de 2024

CARTUM PRA QUEM ACHA QUE O BRASIL PRECISA DE MAIS TESTOSTERONA

De Ricardo Coimbra pro deputado bolsonarista que teve a coragem de falar isso no palco do último carnagado, em Copacabana (que flopou legal). 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A NARRATIVA DA DIREITA PARA AS TENTATIVAS DE GOLPE NO BRASIL E NOS EUA

Como a extrema-direita está longe de ser enterrada, e como ela segue criando e espalhando suas versões mentirosas pro que aconteceu nos EUA em 6 de janeiro de 2021 e no Brasil em 8 de janeiro de 2023, vale muito ler a coluna de Natalia Viana, publicada na newsletter da Agência Pública. 

Capitólio nos EUA e 8 de janeiro no Brasil seguem sendo objeto de disputa

Na semana [do primeiro aniversário da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023], olhamos para um copo com um tanto de água e quase todo mundo viu ali um copo meio cheio. A pesquisa da Qaest sobre o 8 de janeiro quantificou: 89% dos brasileiros reprovam atos golpistas de 8 de janeiro e 6% aprovam. 

Encontrei só um colunista que viu ali um copo meio vazio, meu amigo Leonardo Sakamoto, a quem sempre acho prudente ouvir. Ele alertou que 6%, calculando assim meio por cima, cerca de 9,5 milhões de pessoas, é muita gente, uma “multidão que pode ajudar a desestabilizar a democracia através da propagação de mentiras, do bloqueio de estradas, da violência civil organizada”. 

Eu acrescentaria outro dado da pesquisa: há um ano, eram 94% os que diziam reprovar os atos, ou seja, existem aí possivelmente, sem contar a margem de erro, uns 8 milhões de brasileiros que passaram a achar que o golpismo era, sim, desejável e quiçá necessário. 

Prova de que o passado nunca é estanque e de que, quando carregado politicamente como foi nosso Capitólio abrazucado, seu significado e interpretação seguem em disputa. Como, aliás, o Capitólio original, ocorrido em 6 de janeiro de 2021 em Washington, e do qual a invasão da Praça dos Três Poderes foi apenas uma cópia, instigada, insuflada e, ao que tudo indica, orientada pelos mesmos mentores, tais como Steve Bannon, cuja coordenação com Eduardo Bolsonaro nós cansamos de demonstrar aqui na Agência Pública.  

Para marcar o 6 de janeiro em ano eleitoral, Joe Biden fez um duro discurso na sexta-feira anterior, afirmando que os republicanos “abandonaram a verdade e abandonaram a nossa democracia”. Foi seu primeiro grande discurso de campanha. No dia seguinte, marcando a data, o presidente americano postou no Twitter (ou “X”, vá lá) um vídeo que mostra Trump elogiando os golpistas do Capitólio, dizendo que “havia amor e unidade” entre os invasores. Assim, Biden demonstrou que pretende levar o atentado à democracia americana como mote principal da campanha. Os aliados de Trump, aparentemente, querem o mesmo.     

No mesmo dia, a newsletter de Steve Bannon, à qual eu, infelizmente, submetendo-me aos ossos do ofício, assino e leio, trouxe um artigo do ex-chefe de gabinete do Departamento de Defesa durante a administração Trump, Kash Patel, que dava o tom da linha que será adotada pela candidatura do republicano. Segundo ele, “a narrativa dos democratas sobre o 6 de janeiro está desmoronando, o Estado profundo [deep state] está na defensiva e há uma enorme operação para encobrir corrupção em andamento” – tudo porque o maior temor dos democratas, diz Patel, é a volta de Trump. 

Adotando um tom irônico, Patel finaliza o texto com uma pergunta: “Não há chance de o FBI e a mídia estarem conduzindo outra operação de desinformação para manipular as eleições desta vez usando mentiras e sobre a insurreição de 6 de janeiro, não é verdade?” 

O texto de Patel dá a senha: os trumpistas já estão preparando uma nova onda de mentiras sobre eleições manipuladas. Sim, veremos isso em 2024. 

O mesmo Patel apareceu no podcast de Steve Bannon em dezembro do ano passado explicando que a tchurma de Trump tem planos de perseguir todos aqueles que tentaram frear ou punir o atentado golpista – ele usa, de maneira sórdida, o argumento reverso de que são eles, na verdade, os guardiães da democracia.

“Nós vamos atrás e vamos encontrar os conspiradores – não apenas no governo, mas na mídia… vamos perseguir as pessoas na mídia que mentiram sobre cidadãos americanos, que ajudaram Joe Biden a manipular eleições presidenciais… Vamos atrás de vocês. Seja criminal ou civilmente, vamos descobrir isso. Estamos avisando. E Steve, é por isso que nos odeiam. É por isso que somos ‘tirânicos’. É por isso que somos ‘ditadores’… Porque vamos realmente usar a Constituição para processá-los por crimes dos quais disseram que sempre fomos culpados, mas nunca fomos.”

Poderia até parecer verborragia de algum fanático radical, mas uma reportagem do site Axios afirma que Patel está sendo cotado para uma posição de primeiro ou segundo escalão na política de defesa e segurança, se Trump for eleito. O quê, como sabemos, é uma possibilidade real nestes dias que abrem o ano de 2024.  

Por aqui, parece que por ora a narrativa em torno do 8 de janeiro não será objeto de disputa tão feroz, uma vez que a inelegibilidade de Jair Bolsonaro decretada pelo TSE parece, por ora, ter resolvido a questão. Além do fracasso da CPI do Golpe de tentar culpar o governo. 

No entanto, quem observa as redes sociais do ex-presidente não pode deixar de notar que a estratégia de desacreditar (e talvez reverter) essa inelegibilidade está sempre presente: há meses, quase todos os vídeos e fotos mostram Bolsonaro sendo recebido por pequenas multidões de fãs, demonstrando sua “enorme popularidade” (muitas aspas), em contraste com o que repetem ser a “impopularidade de Lula”. São frequentes comentários perguntando: onde estão os 60 milhões de eleitores de Lula”, por exemplo.   

No dia 6 de janeiro, Bolsonaro repostou no seu Twitter um vídeo do presidente do PCO, Rui Costa, para fomentar a narrativa de perseguição. “Presidente do PCO, Rui Costa Pimenta: ‘o único candidato capaz de derrotar o Lula é o Bolsonaro, por isso a perseguição…’, escreveu o ex-presidente. Dias antes, como mensagem de ano novo publicou também um videozinho caminhando pela Barra, no Rio, e evocando os batidíssimos versos bíblicos de João 8:32: “a verdade nos libertará”, uma alusão nada discreta à investigação judicial do 8 de Janeiro. 

Se é um fato que nenhum milagre vai salvar os golpistas – como demonstrou o discurso de Alexandre de Moraes e a nova ação da PF especificamente contra os mandantes no próprio dia 8 –, é fato também que há muita gente trabalhando para reduzir a aceitação popular ao fato de que houve, sim, uma tentativa de golpe de Estado. Como os mais de 400 membros e voluntários da Associação dos Familiares e Vítimas de 8 de Janeiro (Asfav) – retratada em reportagem da Pública [na primeira semana de janeiro], que decidiram ser indissociável a defesa dos seus entes queridos de atacar o STF pelo que chamam de “violações de direitos humanos” e de “prerrogativas dos advogados”. 

Não há como defender os seus familiares, ainda, sem negar que houve tentativa de golpe. E nessa toada a associação conseguiu portas abertas em gabinetes dos bolsonaristas no Congresso e a realização de algumas audiências públicas na Câmara e no Senado para discutir a situação dos presos. A morte de Cleriston Cunha, de 46 anos, que faleceu na Papuda em novembro, embora tivesse parecer de soltura expedido pela PGR, deu uma nova bandeira a essa turma. 

O que fica claro é que não há ainda uma versão final do que ocorreu em 8 de janeiro – afinal, ainda estamos descobrindo muita coisa – e nem a sociedade brasileira como um todo está convencida de que se tratou de uma tentativa de golpe de Estado. O que é grave. Porque demonstra que as bolhas informacionais seguem funcionando a toda e que, como sociedade, ainda não estamos na mesma página.   

E, claro: este é um ano eleitoral, quando a polarização, as cisões, os ataques virulentos e o pânico moral rendem dividendos em forma de votos.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

8 DE JANEIRO, UM DIA PARA NÃO ESQUECER

Bora escrever sobre o 8 de janeiro antes de chegarmos ao segundo aniversário desse dia trágico que envergonha a história do Brasil, mas que não pode ser esquecido. 

Segunda-feira marcou um ano da tentativa de golpe dos bolsonaristas, quando centenas de terroristas invadiram e destruíram instituições em Brasília. Vou começar citando as palavras de um especialista, o ministro da Justiça e da Segurança Pública em exercício, Ricardo Cappelli. Ele teve um papel marcante no dia e nas semanas seguintes, pois foi nomeado por Lula interventor da segurança pública do Distrito Federal:

"O dia 8 de Janeiro não começou no dia 8 de Janeiro. Foram quatro anos do ex-presidente atacando as instituições, incitando a população contra as instituições, e essa situação se agravou após o resultado do segundo turno, quando foram montados aqueles acampamentos em frente aos quartéis-generais do Exército. Não há precedente na história do Brasil de acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis-generais do Exército.

A gente não está falando de uma barraquinha, mas de cozinha industrial, de fileiras de banheiros químicos, verdadeiras cidades montadas em frente aos quartéis do Exército. Para quem ainda tem dúvidas sobre isso, eu sugiro que tente montar uma barraquinha em frente ao quartel-general do Exército agora para ver quantos minutos fica naquela área de segurança nacional.

Então, jamais aqueles acampamentos teriam sido montados sem que houvesse a conivência ou a permissão do comandante em chefe das Forças Armadas de então, que era o senhor Jair Bolsonaro.

O 8 de Janeiro é fruto de um processo de ataque às instituições, mas ele se agrava. A escalada começa no dia seguinte às eleições, com a montagem dos acampamentos. E todos os eventos que aconteceram em Brasília passam pelo acampamento. Ou eles são planejados no acampamento, ou começam no acampamento ou acabam no acampamento."

Pois é, falar dos bolsonaristas que acamparam em frente a quartéis por todo o país durante dois meses é essencial, já que mostra que houve muito planejamento e financiamento para tentar dar o golpe. 

Em sua coluna na Folha de SP na sexta, Celso Rocha de Barros resumiu o que aconteceu: 
"Em 8 de janeiro de 2023, os soldados rasos do bolsonarismo defecaram no STF, esfaquearam uma tela de Portinari, rasgaram exemplares da Constituição e vandalizaram as sedes dos três Poderes.
Fizeram tudo com a complacência da polícia do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, cujo secretário de segurança pública era o ex-ministro da justiça de Bolsonaro, Anderson Torres.
O 8 de janeiro foi o clímax de dois meses de agitação golpista após a derrota de Bolsonaro. Bloqueios de estradas, acampamentos em frente a quartéis, conflitos de rua às vésperas da diplomação de Lula, uma tentativa de atentado terrorista na véspera de Natal, tudo isso tinha o mesmo objetivo do vandalismo na Praça dos Três Poderes: criar um clima de caos que servisse de pretexto para um golpe militar.
Quando os militares não apareceram, os soldados rasos foram presos.
Mas ainda falta prender muita gente.
Os vândalos do 8 de janeiro não eram cidadãos comuns em uma explosão de radicalismo: eram soldados rasos de um movimento político organizado com extensa e bem financiada rede de desinformação, bancada parlamentar própria e quartel-general no Palácio do Planalto."

Em seu excelente texto, Barros ainda cita um "intensivão do golpe", dirigido pelo senador Eduardo Girão (uma das maiores vergonhas do Ceará), realizado no Congresso em 30 de novembro de 2022. Os convidados pediam a "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar), e um deles, o deputado José Medeiros (PL-MT), contou orgulhosamente que já havia entrado com pedido de GLO (Garantia da Lei e da Ordem, que convoca as Forças Armadas para reestabelecer a ordem). Colocar os tanques nas ruas seria o pontapé pra um golpe de Estado. Pra isso, valia qualquer coisa, como planejar um ato terrorista que poderia matar dezenas de pessoas no aeroporto de Brasília. George Washington de Souza, um dos que por muito pouco não explodiram um caminhão cheio de combustível no aeroporto semanas depois, estava presente no "intensivão". 

No dia 8 de janeiro, a primeira-dama Janja foi a primeira a dizer "GLO não!" Ela imediatamente viu que Lula não poderia dar chances pros milicos. Lula e Janja estavam em Araraquara, SP (para se solidarizar com a população pelos estragos da chuva na região), com o prefeito Edinho (PT) quando o ministro da Defesa José Múcio ligou e contou o que estava ocorrendo em Brasília. Ele sugeriu que Lula baixasse um decreto de GLO. Ao ouvir isso (a ligação estava em viva-voz), Janja, inteligente que só ela, disse: "GLO não! GLO é golpe! É golpe!" De fato, era tudo que os golpistas queriam -- que o Exército entrasse na história, obviamente não para estabelecer qualquer ordem, mas para instalar um Estado de exceção, tirar Lula, fechar o Congresso e o STF, enforcar Alexandre de Moraes, e por aí vai. Não estou dizendo que, se não fosse Janja, Lula iria baixar o GLO. Só creio que temos que registrar os instintos políticos dessa mulher incrível.

E tudo tem que ficar registrado, pois Bolso e seus asseclas tentam criar sua própria narrativa. São extremamente contraditórios, lógico, mas o bom de ser de direita é que as teorias da conspiração não precisam fazer qualquer sentido. Eles falam que foi uma "armadilha da esquerda", que nunca que aqueles cidadãos de bem quebrariam alguma coisa, que era tudo petista infiltrado, que a invasão toda foi criada e executada pelo governo Lula para derrubar o governo Lula. É absurdo que tenhamos uma guerra de narrativas para algo que está tão óbvio e documentado. Os próprios golpistas bolsonarentos se filmaram destruindo tudo e colocaram as imagens em suas redes sociais. Bolso passou os quatro anos de seu desgoverno pregando o golpe. Ele já está inelegível por causa disso.

Uma pesquisa Quaest de agora revelou que 9 em cada 10 brasileiros reprovam a invasão dos prédios dos Três Poderes. 85% dos eleitores de Bolso são contra. Mas são contra porque mentem descaradamente, contra qualquer evidência e todas as provas, de que a tentativa de golpe não foi um ato convocado e comandado por Bolsonaro, mas por Lula. 

Na segunda, Paulo Pimenta, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, fez uma série de perguntas no Twitter: “Não existe dúvida de que essa organização criminosa que forjou a tentativa de golpe em 08 de janeiro tinha uma cadeia de comando vertical e hierárquica. Quem foi responsável por atacar a democracia, o TSE e o STF? Quem criou uma narrativa para desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral? Quem se recusou a reconhecer o resultado da eleição e a dar posse ao vencedor? Quem impulsionou e possibilitou o financiamento de acampamentos golpistas e a chegada de criminosos em Brasília? Quem fugiu do Brasil e se refugiou nos EUA para assistir ao golpe bem confortavelmente? Responda essas perguntas e descubra quem é o cérebro dessa gangue que atacou a democracia e a Constituição Federal".

Também é fundamental chamar as coisas pelo nome. O 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado explícita. O doutor em Ciência Política Caio Barbosa ensina por que o dia infame foi sim (óbvio!) uma tentativa de golpe. É absurdo que isso precise ser explicado, mas os bolsonaristas dizem que não foi, porque tava cheio de velhinhos. E Ciro chamou de "vandalismo e depredação" (pra não usar a palavra golpe) e Aldo Rebelo, hoje venerado pela extrema-direita (esteve no último congresso do MBL, por exemplo), disse que chamar aquilo de golpe é "fantasia para legitimar a polarização". Segundo Caio, o golpe era o objetivo, como provam as chamadas nas redes ("tomada de poder"). Muitos dos manifestantes foram treinados (por quem? Quem custeou?) e estavam armados, mas o que eles queriam era forçar uma intervenção militar. Queriam o GLO, os tanques nas ruas, não para tirá-los dos prédios dos Três Poderes, mas para tirar Lula do poder e reinstalar Bolsonaro.  

A vereadora Luna Zarattini (PT-SP) explica bem alguns acontecimentos de 8 de janeiro, como o bate-boca entre Flavio Dino e um general que não aceitava que os golpistas fossem presos  

O secretário nacional de Políticas Digitais, João Brant, analisa que as plataformas de redes sociais e de aplicativos, as chamadas big techs, contribuíram para a tentativa de golpe e não fizeram nada para combater a difusão de mentiras contra a democracia desde então. Brant tem razão: "Não se explica a adesão ao 8 de janeiro sem três ondas de desinformação, entre 2021 e 2022, que sustentaram e disseminaram a ideia de uma eleição 'fraudada' aproveitando 'falhas de segurança' das urnas eletrônicas e de 'manipulação' do TSE".

Na segunda houve manifestações em várias cidades do país rechaçando a tentativa de golpe. Não houve celebrações dos golpistas. Lembram que os vereadores de Porto Alegre instituíram em julho do ano passado o 8 de janeiro como o Dia do Patriota, para comemorar o golpe? O STF depois revogou a lei, e o vereador bolsonarista autor dessa aberração foi cassado (não por isso, mas por abuso de poder econômico). 

Num ato político intitulado Democracia Inabalada em Brasília na segunda, Lula discursou: "Todos aqueles que financiaram, planejaram e executaram a tentativa de golpe devem ser exemplarmente punidos. Não há perdão para quem atenta contra a democracia, contra seu país e contra o seu próprio povo. O perdão soaria como impunidade. E a impunidade, como salvo conduto para novos atos terroristas". 

Até agora, a Suprema Corte condenou 30 pessoas por participação direta na tentativa do golpe. 150 acusados aguardam julgamento, e há 1.345 processos em aberto contra os participantes do ato. Porém, 
provando como a Justiça é lenta, nenhum dos peixes grandes foi punido. Eu ainda tenho fé que serão. Cada dia que Bolsonaro permanece solto é uma risada de escárnio na cara da democracia brasileira.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

RACHADINHA DE JANONES NÃO É MENOS PIOR QUE A DOS OUTROS

Anteontem o Metrópoles revelou um áudio em que o deputado federal André Janones (Avante-MG) pedia rachadinha a seus assessores. O áudio é de fevereiro de 2019 e foi gravado em seu gabinete na Câmara. Janones estava então assumindo seu primeiro mandato.

Pra quem não sabe quem é Janones, o advogado se lançou candidato a presidente nas últimas eleições pelo partido nanico (e não de esquerda) Avante. Foi muito inteligente em desistir da candidatura e apoiar Lula, ganhando assim projeção nacional. Foi importantíssimo na campanha, entendendo as redes sociais como poucos e muitas vezes usando artimanhas bem parecidas com as da direita, como fake news e ataques pesados contra adversários. Seu método recebeu a alcunha de janonismo cultural (recentemente ele publicou um livro com esse título). Foi cotado para ser Secretário da Comunicação (felizmente, o PT escolheu um dos seus -- o deputado federal Paulo Pimenta). Segue sendo um nome importante na resistência ao bolsonarismo.

Mas sua casa começou a ruir com a divulgação de outros áudios. Um o mostrava histérico com a incompetência dos seus assessores, principalmente com seu primo, que iria ser candidato a prefeito de Ituiutaba (MG), e que, segundo Janones, só queria o cargo para poder ganhar milhões com propina e gastar tudo com prostitutas. Um político confiável deveria manter pessoas assim longe da política. Nunca nomeá-lo assessor, certo? 

Mas o áudio de 2019 é infinitamente pior. Nele, Janones diz a seus assessores: "Tem algumas pessoas aqui, que vou conversar em particular depois, que vão receber um pouco de salário a mais e elas vão me ajudar a pagar as contas que ficou da minha campanha de prefeito, porque eu perdi R$ 675 mil na campanha. Elas vão ganhar a mais para isso. ‘Ah, isso é devolver salário, e você está chamando de outro nome.’ Não é, porque o devolver salário você manda na minha conta, e eu faço o que eu quiser. Eu perdi uma casa de R$ 380 mil, um carro, uma poupança de R$ 200 mil e uma previdência de R$ 70 (mil). Eu acho justo que essas pessoas também participem comigo da reconstrução disso. Então, não considero isso uma corrupção. Isso são simplesmente pessoas que eu confio e que participaram comigo em 2016, que eu acho que elas entendem que realmente meu patrimônio foi todo dilapidado. Não acho justo, por exemplo, o Mário vai ganhar R$ 10 mil, e eu vou ganhar R$ 25, né, de… Só que o Mário os 10 mil é dele, é líquido. Eu, dos 25, 15 eu vou usar para pagar as dívidas que ficou de 2016. Não é justo, entendeu?”

Não tenho qualquer dúvida que nós da esquerda consideraríamos esse áudio lamentável (e criminoso) se ele viesse de algum deputado de direita. Não dá pra passar pano só porque Janones é aliado. 

Sabemos que Bolsonaro e seus filhos usaram o esquema das rachadinhas durante décadas para enriquecerem. Mas lógico que não são os únicos. É sim uma prática bastante comum entre parlamentares e seus assessores. E deve ser combatida e eliminada, porque é corrupção com dinheiro público. 

Ao que tudo indica, Janones não usou as rachadinhas para enriquecer, e sim para pagar dívidas da campanha de 2016, quando concorreu a prefeito de Ituitutaba (ficou em segundo lugar, com 13 mil votos). E, diferente da familícia Bolso, seus assessores não eram funcionários fantasmas. Mas é rachadinha de qualquer jeito, uai.

A fala de Janones também me chamou a atenção porque ele insiste no "patrimônio dilapidado" que ele precisa reconstruir. Fica a dúvida: se ele tivesse sido eleito prefeito, como faria para reaver o dinheiro investido na campanha? Cobrando rachadinha dos assessores ou propina nas obras da cidade? 

Janones usou suas redes sociais para expor sua revolta por ter sido exposto. Disse que o áudio é clandestino e criminoso (ou seja, que não foi gravado com autorização), que está fora de contexto, que desafia colocarem o áudio na íntegra (aqui os quase 50 minutos de áudio na íntegra), que está sendo atacado pela extrema-direita, que já o tinha acusado em 2021, sem nenhum resultado. 

De fato, Janones foi denunciado ao MPF de Minas pela primeira vez em 2021 pelo ex-assessor Fabricio Ferreira de Oliveira, que afirmou que o esquema das rachadinhas era operado pela então secretária parlamentar Leandra Guedes, hoje prefeita de Ituitutaba. Oliveira anexou à denúncia a gravação de outro assessor de Janones, Alisson Alves Camargo, que dizia receber cerca de R$ 10 mil por mês e repassava a metade para "eles" (Janones e Leandra). Tudo era feito com dinheiro vivo. Mas nessa denúncia de dois anos atrás havia apenas os áudios dos assessores falando das rachadinhas. Agora há o áudio do próprio Janones. 

À noite, em entrevista ao ICL, Janones se contradisse várias vezes. Disse que não se lembrava de ter falado isso, e que não tem como se lembrar de cada coisa que falou nos últimos anos, mas depois deu detalhes do contexto do áudio (foi mesmo pros seus assessores, que ele chama de amigos). No áudio, e no início da entrevista, falou em dívidas da campanha dele, que depois viraram dívidas da campanha deles (dos assessores). Disse que a campanha para prefeito foi linda (e daí?). Disse que ele realmente falou tudo aquilo pros "amigos" (ele não assume que já eram seus assessores e que ele já era o chefe), mas que ele acabou não cobrando nenhum dinheiro, pois pagou as dívidas sozinho (só as dele? e as dos outros?), ou seja, que não houve materialidade (só intenção). Disse também que foi a mão de Deus que o colocou na Câmara, então só Ele pode tirá-lo de lá. Onde já vimos esse discurso messiânico antes?

Ontem, quando o Metrópoles publicou a íntegra do áudio (que foi gravado por um outro ex-assessor, o jornalista Cefas Luiz), Janones lançou uma nova versão: que sim, ele "sugeriu aos amigos" coletar parte do salário deles para pagar dívidas da campanha, mas que sua "sugestão foi vetada pela minha advogada e, por isso, não foi colocada em prática. Fim da história". Não é isso o que os ex-assessores dizem. Eles dizem que as rachadinhas começaram logo depois da reunião de 2019 (a que está gravada em áudio).

Infelizmente, a secretária do PT Gleisi Hoffman (e outras pessoas do governo) já se manifestaram em favor de Janones, como se as denúncias fossem invenções de bolsonaristas, como se não houvesse um áudio extremamente comprometedor (e que é verdadeiro, não uma montagem nem um deep fake). 

Janones, lógico, se aproveita disso e se vitimiza com louvor. Alega que não se deve julgar e condenar sem ampla defesa (isso aparentemente não vale pros inimigos políticos), que o que estão fazendo com ele foi o mesmo que fizeram com Lula, e que "se não aprendermos a guerrear eles voltarão, com tudo! E aí, já era democracia!"

Eu não votei no Janones porque não voto em Minas. Mas nunca votaria porque só voto em mulheres para cargos parlamentares e porque nunca votaria num candidato do Avante (ainda por cima terrivelmente evangélico, pelo que parece). Reconheço sua importância na campanha de 2022, mas isso não deveria dar um passe livre pra ele agir da mesma forma que os velhos corruptos da direita que a gente tanto combate.