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sexta-feira, 11 de abril de 2025

ESTUPRO COMPARADO A FURTO POR FOME

Certo dia um desses caras insanos que comentam no meu blog deixou este comentário num post sobre estupro, sabe como é, tentando justificar... estupro. Olha a comparação:
"O homem tem tanto tesão que se ficar sem mulher por muito tempo ele acaba perdendo o controle e abusando de alguma. Felizmente, são a minoria. A maioria dos homens consegue se auto controlar. Mas vejam que são homens pobres, sofridos, que provavelmente as mulheres não queria saber deles e até os humilhavam. O tempo vai passando e o homem sem mulher vai enlouquecendo até entrar em desespero total e agarrar alguma mulher. Alguns podem ter até algum problema mental. Não estou defendendo esses caras, mas temos que ver a causa disso. Muitas vezes uma pessoa rouba porque está desesperada, passando fome. O mesmo pode ter acontecido com esses caras. Fome nós sentimos em algumas partes do dia, já a necessidade de fazer sexo é toda hora. Imagine então ficar privado disso por muito tempo"

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

VITÓRIA DE TRUMP, ATRASO PARA O MUNDO

O pior aconteceu. Trump foi eleito, o que fortalecerá a extrema-direita em todo o planeta e dará gás aos golpistas brasileiros. A principal agenda deles passa a ser reverter a inelegibilidade de Bolsonaro para que ele possa concorrer em 2026. 

Se dependesse das mulheres dos EUA, a vencedora teria sido Kamala Harris. Porém, como os homens votam, e votam muito mal, deu-se essa tragédia. 

Trump irá cortar impostos para os mais ricos, aumentando a desigualdade, promover deportações em massa de imigrantes, acabar com todas as investigações contra ele, nomear juízes ultraconservadores para a Suprema Corte, perseguir inimigos, aumentar impostos para produtos chineses em 60% (aposto como o pessoal daqui que atacou o Lula pela "taxa das blusinhas" irá aplaudir o trumposo), destruir o meio ambiente ao negar as mudanças climáticas, e continuar mentindo adoidado. Com a maioria republicana na Câmara dos Deputados e no Senado, ele poderá fazer o que quiser, sem qualquer fiscalização. 

E tem brasileiro apoiando isso... 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

A EXTREMA-DIREITA ALAGA O RIO GRANDE DO SUL COM MENTIRAS

300 cidades no Rio Grande do Sul em estado de calamidade, 107 mortos (no mínimo), centenas de desaparecidos, bairros inteiros alagados, milhares de desabrigados. É o pior desastre da história do estado. Mas não é um desastre natural. É um desastre previsto. 

Os cientistas vêm avisando há anos das consequências do aquecimento global e das mudanças climáticas. Políticos de direita são negacionistas e acham que os avisos são mimimi de ONGs ambientais. Quando acontece uma tragédia dessas -- e elas vêm ocorrendo com uma frequência cada vez maior --, ora dizem que "não é hora de apontar culpados" (como, por exemplo, o prefeito bolsonarista de Porto Alegre, ou o governador Eduardo Leite, do PSDB, também apoiador do pior presidente de todos os tempos), ora culpam o (atual) governo federal.

Uma tragédia sem precedentes dessas deveria unir o país. Vemos milhões de pessoas doando, ajudando, resgatando animais e gente, mas também vemos quem se aproveita (como abusadores que agem em abrigos de mulheres e crianças, ou prefeitos que decretam estado de calamidade onde isso não ocorre). O pior do ser humano, mais uma vez, é manifestado pela extrema-direita, tão acostumada a transformar medo em ódio, a semear pânico através de fake news.  

Tal como na pandemia, a enxurrada de mentiras sobre o desastre no Rio Grande do Sul vem da turma bolsonarista, com consequências caóticas. As fakes servem para lacrar e lucrar, mas também como um aquecimento para o que esse espectro político nefasto pretende fazer nas eleições municipais. Precisam ser parados! É necessário que haja uma legislação que puna as mentiras (que são sempre intencionais: é um método). 

Bolsonaristas tentam vender a mentira deslavada que as empresas privadas estão salvando (não destruindo) o Brasil. Tratam o véio da Havan como herói, embora muitas de suas lojas sejam construídas em terrenos que desrespeitam normas ambientais. Outro exemplo é a Grendene, que doou 2 milhões de reais para a campanha de Bolso nas últimas eleições. Esta semana, a empresa gaúcha enviou a seus funcionários a sugestão de que doassem suas cestas básicas para os desabrigados. 

Como explica Daniela Lima, há três grandes eixos de fake news sendo criados e espalhados pela extrema-direita: 1) inação do Estado (civil salva civil; tem como alvo os militares, numa espécie de vingança por não terem aderido ao golpe de 8 de janeiro); o governo, em especial o federal, não serve pra nada, 2) não só o Estado não faz nada, como atrapalha (impede caminhões de seguirem viagem, não deixa lanchas e jet skis circularem etc), 3) pânico econômico (vai faltar alimentos no Brasil, principalmente arroz).

E quem está mentindo e pode ser processado civil e criminalmente por isso? Ué, os mesmos de sempre.

Ou seja, não é só que a extrema-direita não está ajudando. Está atrapalhando mesmo. Chama-se sabotagem, e faz parte do seu projeto de destruição. Aqui temos um vídeo curto mas fundamental pra refrescar a memória. Bolso e seu sinistro do meio ambiente passaram a boiada e deu no que deu! Não podemos deixar que parlamentares da direita sigam arruinando o país e o mundo. Deputados e senadores continuam aprovando e propondo projetos que só fazem mal ao meio ambiente, como flexibilizar o uso de agrotóxicos, ampliar o desmatamento, diminuir a fiscalização. 

O clima já mudou. O nosso Congresso continua igualzinho (aliás, cada vez pior). 

Esta tragédia no Rio Grande do Sul é mais uma prova de que bolsonarismo mata mesmo.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

8 DE JANEIRO, UM DIA PARA NÃO ESQUECER

Bora escrever sobre o 8 de janeiro antes de chegarmos ao segundo aniversário desse dia trágico que envergonha a história do Brasil, mas que não pode ser esquecido. 

Segunda-feira marcou um ano da tentativa de golpe dos bolsonaristas, quando centenas de terroristas invadiram e destruíram instituições em Brasília. Vou começar citando as palavras de um especialista, o ministro da Justiça e da Segurança Pública em exercício, Ricardo Cappelli. Ele teve um papel marcante no dia e nas semanas seguintes, pois foi nomeado por Lula interventor da segurança pública do Distrito Federal:

"O dia 8 de Janeiro não começou no dia 8 de Janeiro. Foram quatro anos do ex-presidente atacando as instituições, incitando a população contra as instituições, e essa situação se agravou após o resultado do segundo turno, quando foram montados aqueles acampamentos em frente aos quartéis-generais do Exército. Não há precedente na história do Brasil de acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis-generais do Exército.

A gente não está falando de uma barraquinha, mas de cozinha industrial, de fileiras de banheiros químicos, verdadeiras cidades montadas em frente aos quartéis do Exército. Para quem ainda tem dúvidas sobre isso, eu sugiro que tente montar uma barraquinha em frente ao quartel-general do Exército agora para ver quantos minutos fica naquela área de segurança nacional.

Então, jamais aqueles acampamentos teriam sido montados sem que houvesse a conivência ou a permissão do comandante em chefe das Forças Armadas de então, que era o senhor Jair Bolsonaro.

O 8 de Janeiro é fruto de um processo de ataque às instituições, mas ele se agrava. A escalada começa no dia seguinte às eleições, com a montagem dos acampamentos. E todos os eventos que aconteceram em Brasília passam pelo acampamento. Ou eles são planejados no acampamento, ou começam no acampamento ou acabam no acampamento."

Pois é, falar dos bolsonaristas que acamparam em frente a quartéis por todo o país durante dois meses é essencial, já que mostra que houve muito planejamento e financiamento para tentar dar o golpe. 

Em sua coluna na Folha de SP na sexta, Celso Rocha de Barros resumiu o que aconteceu: 
"Em 8 de janeiro de 2023, os soldados rasos do bolsonarismo defecaram no STF, esfaquearam uma tela de Portinari, rasgaram exemplares da Constituição e vandalizaram as sedes dos três Poderes.
Fizeram tudo com a complacência da polícia do governador bolsonarista Ibaneis Rocha, cujo secretário de segurança pública era o ex-ministro da justiça de Bolsonaro, Anderson Torres.
O 8 de janeiro foi o clímax de dois meses de agitação golpista após a derrota de Bolsonaro. Bloqueios de estradas, acampamentos em frente a quartéis, conflitos de rua às vésperas da diplomação de Lula, uma tentativa de atentado terrorista na véspera de Natal, tudo isso tinha o mesmo objetivo do vandalismo na Praça dos Três Poderes: criar um clima de caos que servisse de pretexto para um golpe militar.
Quando os militares não apareceram, os soldados rasos foram presos.
Mas ainda falta prender muita gente.
Os vândalos do 8 de janeiro não eram cidadãos comuns em uma explosão de radicalismo: eram soldados rasos de um movimento político organizado com extensa e bem financiada rede de desinformação, bancada parlamentar própria e quartel-general no Palácio do Planalto."

Em seu excelente texto, Barros ainda cita um "intensivão do golpe", dirigido pelo senador Eduardo Girão (uma das maiores vergonhas do Ceará), realizado no Congresso em 30 de novembro de 2022. Os convidados pediam a "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar), e um deles, o deputado José Medeiros (PL-MT), contou orgulhosamente que já havia entrado com pedido de GLO (Garantia da Lei e da Ordem, que convoca as Forças Armadas para reestabelecer a ordem). Colocar os tanques nas ruas seria o pontapé pra um golpe de Estado. Pra isso, valia qualquer coisa, como planejar um ato terrorista que poderia matar dezenas de pessoas no aeroporto de Brasília. George Washington de Souza, um dos que por muito pouco não explodiram um caminhão cheio de combustível no aeroporto semanas depois, estava presente no "intensivão". 

No dia 8 de janeiro, a primeira-dama Janja foi a primeira a dizer "GLO não!" Ela imediatamente viu que Lula não poderia dar chances pros milicos. Lula e Janja estavam em Araraquara, SP (para se solidarizar com a população pelos estragos da chuva na região), com o prefeito Edinho (PT) quando o ministro da Defesa José Múcio ligou e contou o que estava ocorrendo em Brasília. Ele sugeriu que Lula baixasse um decreto de GLO. Ao ouvir isso (a ligação estava em viva-voz), Janja, inteligente que só ela, disse: "GLO não! GLO é golpe! É golpe!" De fato, era tudo que os golpistas queriam -- que o Exército entrasse na história, obviamente não para estabelecer qualquer ordem, mas para instalar um Estado de exceção, tirar Lula, fechar o Congresso e o STF, enforcar Alexandre de Moraes, e por aí vai. Não estou dizendo que, se não fosse Janja, Lula iria baixar o GLO. Só creio que temos que registrar os instintos políticos dessa mulher incrível.

E tudo tem que ficar registrado, pois Bolso e seus asseclas tentam criar sua própria narrativa. São extremamente contraditórios, lógico, mas o bom de ser de direita é que as teorias da conspiração não precisam fazer qualquer sentido. Eles falam que foi uma "armadilha da esquerda", que nunca que aqueles cidadãos de bem quebrariam alguma coisa, que era tudo petista infiltrado, que a invasão toda foi criada e executada pelo governo Lula para derrubar o governo Lula. É absurdo que tenhamos uma guerra de narrativas para algo que está tão óbvio e documentado. Os próprios golpistas bolsonarentos se filmaram destruindo tudo e colocaram as imagens em suas redes sociais. Bolso passou os quatro anos de seu desgoverno pregando o golpe. Ele já está inelegível por causa disso.

Uma pesquisa Quaest de agora revelou que 9 em cada 10 brasileiros reprovam a invasão dos prédios dos Três Poderes. 85% dos eleitores de Bolso são contra. Mas são contra porque mentem descaradamente, contra qualquer evidência e todas as provas, de que a tentativa de golpe não foi um ato convocado e comandado por Bolsonaro, mas por Lula. 

Na segunda, Paulo Pimenta, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, fez uma série de perguntas no Twitter: “Não existe dúvida de que essa organização criminosa que forjou a tentativa de golpe em 08 de janeiro tinha uma cadeia de comando vertical e hierárquica. Quem foi responsável por atacar a democracia, o TSE e o STF? Quem criou uma narrativa para desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral? Quem se recusou a reconhecer o resultado da eleição e a dar posse ao vencedor? Quem impulsionou e possibilitou o financiamento de acampamentos golpistas e a chegada de criminosos em Brasília? Quem fugiu do Brasil e se refugiou nos EUA para assistir ao golpe bem confortavelmente? Responda essas perguntas e descubra quem é o cérebro dessa gangue que atacou a democracia e a Constituição Federal".

Também é fundamental chamar as coisas pelo nome. O 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado explícita. O doutor em Ciência Política Caio Barbosa ensina por que o dia infame foi sim (óbvio!) uma tentativa de golpe. É absurdo que isso precise ser explicado, mas os bolsonaristas dizem que não foi, porque tava cheio de velhinhos. E Ciro chamou de "vandalismo e depredação" (pra não usar a palavra golpe) e Aldo Rebelo, hoje venerado pela extrema-direita (esteve no último congresso do MBL, por exemplo), disse que chamar aquilo de golpe é "fantasia para legitimar a polarização". Segundo Caio, o golpe era o objetivo, como provam as chamadas nas redes ("tomada de poder"). Muitos dos manifestantes foram treinados (por quem? Quem custeou?) e estavam armados, mas o que eles queriam era forçar uma intervenção militar. Queriam o GLO, os tanques nas ruas, não para tirá-los dos prédios dos Três Poderes, mas para tirar Lula do poder e reinstalar Bolsonaro.  

A vereadora Luna Zarattini (PT-SP) explica bem alguns acontecimentos de 8 de janeiro, como o bate-boca entre Flavio Dino e um general que não aceitava que os golpistas fossem presos  

O secretário nacional de Políticas Digitais, João Brant, analisa que as plataformas de redes sociais e de aplicativos, as chamadas big techs, contribuíram para a tentativa de golpe e não fizeram nada para combater a difusão de mentiras contra a democracia desde então. Brant tem razão: "Não se explica a adesão ao 8 de janeiro sem três ondas de desinformação, entre 2021 e 2022, que sustentaram e disseminaram a ideia de uma eleição 'fraudada' aproveitando 'falhas de segurança' das urnas eletrônicas e de 'manipulação' do TSE".

Na segunda houve manifestações em várias cidades do país rechaçando a tentativa de golpe. Não houve celebrações dos golpistas. Lembram que os vereadores de Porto Alegre instituíram em julho do ano passado o 8 de janeiro como o Dia do Patriota, para comemorar o golpe? O STF depois revogou a lei, e o vereador bolsonarista autor dessa aberração foi cassado (não por isso, mas por abuso de poder econômico). 

Num ato político intitulado Democracia Inabalada em Brasília na segunda, Lula discursou: "Todos aqueles que financiaram, planejaram e executaram a tentativa de golpe devem ser exemplarmente punidos. Não há perdão para quem atenta contra a democracia, contra seu país e contra o seu próprio povo. O perdão soaria como impunidade. E a impunidade, como salvo conduto para novos atos terroristas". 

Até agora, a Suprema Corte condenou 30 pessoas por participação direta na tentativa do golpe. 150 acusados aguardam julgamento, e há 1.345 processos em aberto contra os participantes do ato. Porém, 
provando como a Justiça é lenta, nenhum dos peixes grandes foi punido. Eu ainda tenho fé que serão. Cada dia que Bolsonaro permanece solto é uma risada de escárnio na cara da democracia brasileira.

domingo, 24 de dezembro de 2023

FELIZ NATAL

Desculpem pelo meu silêncio. Voltei ontem de Recife, onde passei nove dias acompanhando o maridão no campeonato brasileiro de xadrez. Não lembrava minha senha pro meu perfil no Twitter (ridículo, né? 200 mil seguidores no Twitter e eu esqueço a senha!) e aproveitei esse afastamento pra terminar de escrever um artigo acadêmico que eu devia desde o ano passado. Agora estou devendo outro, que comecei a escrever no hotel, mas esse eu vou terminar nos próximos dias, prometo! 

Lá em Recife eu fiquei no hotel a maior parte do tempo, mas felizmente dois amigos enxadristas do Silvinho nos levaram pra visitar o Instituto Ricardo Brennand e a Oficina Francisco Brennand. Amei os dois lugares. Vale super a pena ir lá. 

Hoje em dia é complicado falar dos Brennand (família bilionária extremamente influente no Recife) sem associá-los a Thiago, que deve ser uma das piores pessoas no mundo. O colecionador Ricardo e o artista Francisco, que eram primos e rivais, ambos mortos na mesma época (2020) e com a mesma idade (92 anos), eram tios-avós de Thiago. A família do cara que está preso em SP após ser extraditado de Dubai (ele pagou R$ 81 mil pra voar na primeira classe quando soube que a cadeia estava próxima), já condenado por alguns estupros, antecipou sua herança há vários anos para se ver livre dele. Deram a ele 300 milhões de reais e, em seguida, pediram medidas protetivas. Thiago era do tipo que enviava vídeos pornôs com ele fazendo sexo para seus parentes. Do tipo que mandou um caixão pra casa de um primo que estava com câncer. Do tipo que forçava mulheres a tatuarem as iniciais dele em seus corpos. 

Lógico que a numerosa e riquíssima família Brennand não fica feliz com essa associação. E claro que tanto o instituto quanto a oficina não têm nada a ver com isso. Na oficina de Francisco Brennand recebi ótimas informações da guia Cecília, que é estudante de História na Universidade Federal de Pernambuco. 

Bom, gente, este é um post rápido só pra desejar feliz natal pra vocês. A gente ainda tem que preparar uma ceia modesta, com um tender bolinha que já está no congelador há um ano. Pelo menos a mousse de chocolate nós fizemos de manhã. Que vocês tenham uma noite feliz e cheia de comidas gostosas!

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

RACHADINHA DE JANONES NÃO É MENOS PIOR QUE A DOS OUTROS

Anteontem o Metrópoles revelou um áudio em que o deputado federal André Janones (Avante-MG) pedia rachadinha a seus assessores. O áudio é de fevereiro de 2019 e foi gravado em seu gabinete na Câmara. Janones estava então assumindo seu primeiro mandato.

Pra quem não sabe quem é Janones, o advogado se lançou candidato a presidente nas últimas eleições pelo partido nanico (e não de esquerda) Avante. Foi muito inteligente em desistir da candidatura e apoiar Lula, ganhando assim projeção nacional. Foi importantíssimo na campanha, entendendo as redes sociais como poucos e muitas vezes usando artimanhas bem parecidas com as da direita, como fake news e ataques pesados contra adversários. Seu método recebeu a alcunha de janonismo cultural (recentemente ele publicou um livro com esse título). Foi cotado para ser Secretário da Comunicação (felizmente, o PT escolheu um dos seus -- o deputado federal Paulo Pimenta). Segue sendo um nome importante na resistência ao bolsonarismo.

Mas sua casa começou a ruir com a divulgação de outros áudios. Um o mostrava histérico com a incompetência dos seus assessores, principalmente com seu primo, que iria ser candidato a prefeito de Ituiutaba (MG), e que, segundo Janones, só queria o cargo para poder ganhar milhões com propina e gastar tudo com prostitutas. Um político confiável deveria manter pessoas assim longe da política. Nunca nomeá-lo assessor, certo? 

Mas o áudio de 2019 é infinitamente pior. Nele, Janones diz a seus assessores: "Tem algumas pessoas aqui, que vou conversar em particular depois, que vão receber um pouco de salário a mais e elas vão me ajudar a pagar as contas que ficou da minha campanha de prefeito, porque eu perdi R$ 675 mil na campanha. Elas vão ganhar a mais para isso. ‘Ah, isso é devolver salário, e você está chamando de outro nome.’ Não é, porque o devolver salário você manda na minha conta, e eu faço o que eu quiser. Eu perdi uma casa de R$ 380 mil, um carro, uma poupança de R$ 200 mil e uma previdência de R$ 70 (mil). Eu acho justo que essas pessoas também participem comigo da reconstrução disso. Então, não considero isso uma corrupção. Isso são simplesmente pessoas que eu confio e que participaram comigo em 2016, que eu acho que elas entendem que realmente meu patrimônio foi todo dilapidado. Não acho justo, por exemplo, o Mário vai ganhar R$ 10 mil, e eu vou ganhar R$ 25, né, de… Só que o Mário os 10 mil é dele, é líquido. Eu, dos 25, 15 eu vou usar para pagar as dívidas que ficou de 2016. Não é justo, entendeu?”

Não tenho qualquer dúvida que nós da esquerda consideraríamos esse áudio lamentável (e criminoso) se ele viesse de algum deputado de direita. Não dá pra passar pano só porque Janones é aliado. 

Sabemos que Bolsonaro e seus filhos usaram o esquema das rachadinhas durante décadas para enriquecerem. Mas lógico que não são os únicos. É sim uma prática bastante comum entre parlamentares e seus assessores. E deve ser combatida e eliminada, porque é corrupção com dinheiro público. 

Ao que tudo indica, Janones não usou as rachadinhas para enriquecer, e sim para pagar dívidas da campanha de 2016, quando concorreu a prefeito de Ituitutaba (ficou em segundo lugar, com 13 mil votos). E, diferente da familícia Bolso, seus assessores não eram funcionários fantasmas. Mas é rachadinha de qualquer jeito, uai.

A fala de Janones também me chamou a atenção porque ele insiste no "patrimônio dilapidado" que ele precisa reconstruir. Fica a dúvida: se ele tivesse sido eleito prefeito, como faria para reaver o dinheiro investido na campanha? Cobrando rachadinha dos assessores ou propina nas obras da cidade? 

Janones usou suas redes sociais para expor sua revolta por ter sido exposto. Disse que o áudio é clandestino e criminoso (ou seja, que não foi gravado com autorização), que está fora de contexto, que desafia colocarem o áudio na íntegra (aqui os quase 50 minutos de áudio na íntegra), que está sendo atacado pela extrema-direita, que já o tinha acusado em 2021, sem nenhum resultado. 

De fato, Janones foi denunciado ao MPF de Minas pela primeira vez em 2021 pelo ex-assessor Fabricio Ferreira de Oliveira, que afirmou que o esquema das rachadinhas era operado pela então secretária parlamentar Leandra Guedes, hoje prefeita de Ituitutaba. Oliveira anexou à denúncia a gravação de outro assessor de Janones, Alisson Alves Camargo, que dizia receber cerca de R$ 10 mil por mês e repassava a metade para "eles" (Janones e Leandra). Tudo era feito com dinheiro vivo. Mas nessa denúncia de dois anos atrás havia apenas os áudios dos assessores falando das rachadinhas. Agora há o áudio do próprio Janones. 

À noite, em entrevista ao ICL, Janones se contradisse várias vezes. Disse que não se lembrava de ter falado isso, e que não tem como se lembrar de cada coisa que falou nos últimos anos, mas depois deu detalhes do contexto do áudio (foi mesmo pros seus assessores, que ele chama de amigos). No áudio, e no início da entrevista, falou em dívidas da campanha dele, que depois viraram dívidas da campanha deles (dos assessores). Disse que a campanha para prefeito foi linda (e daí?). Disse que ele realmente falou tudo aquilo pros "amigos" (ele não assume que já eram seus assessores e que ele já era o chefe), mas que ele acabou não cobrando nenhum dinheiro, pois pagou as dívidas sozinho (só as dele? e as dos outros?), ou seja, que não houve materialidade (só intenção). Disse também que foi a mão de Deus que o colocou na Câmara, então só Ele pode tirá-lo de lá. Onde já vimos esse discurso messiânico antes?

Ontem, quando o Metrópoles publicou a íntegra do áudio (que foi gravado por um outro ex-assessor, o jornalista Cefas Luiz), Janones lançou uma nova versão: que sim, ele "sugeriu aos amigos" coletar parte do salário deles para pagar dívidas da campanha, mas que sua "sugestão foi vetada pela minha advogada e, por isso, não foi colocada em prática. Fim da história". Não é isso o que os ex-assessores dizem. Eles dizem que as rachadinhas começaram logo depois da reunião de 2019 (a que está gravada em áudio).

Infelizmente, a secretária do PT Gleisi Hoffman (e outras pessoas do governo) já se manifestaram em favor de Janones, como se as denúncias fossem invenções de bolsonaristas, como se não houvesse um áudio extremamente comprometedor (e que é verdadeiro, não uma montagem nem um deep fake). 

Janones, lógico, se aproveita disso e se vitimiza com louvor. Alega que não se deve julgar e condenar sem ampla defesa (isso aparentemente não vale pros inimigos políticos), que o que estão fazendo com ele foi o mesmo que fizeram com Lula, e que "se não aprendermos a guerrear eles voltarão, com tudo! E aí, já era democracia!"

Eu não votei no Janones porque não voto em Minas. Mas nunca votaria porque só voto em mulheres para cargos parlamentares e porque nunca votaria num candidato do Avante (ainda por cima terrivelmente evangélico, pelo que parece). Reconheço sua importância na campanha de 2022, mas isso não deveria dar um passe livre pra ele agir da mesma forma que os velhos corruptos da direita que a gente tanto combate.