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domingo, 22 de junho de 2008

AGORA QUE 2001 CHEGA AOS 40...

Essa foto é uma das imagens datadas de 2001, como todas as que envolvem pessoas sem roupa de astronauta. Mas o resto tá vivinho da silva.

Encontrei na internet um dos meus artigos perdidos que mais procurava! É este que foi publicado em 20 de julho de 98, uma década atrás, pra comemorar os trinta anos do hiper clássico 2001, Uma Odisséia no Espaço, que acaba de ser escolhido o melhor filme de ficção científica de todos os tempos pelo American Film Institute. É só mais um prêmio pra se juntar a uma vasta coleção. 2001 vem influenciando cineastas desde seu lançamento, em 1968. Agora, que ele está completando quatro décadas de vida, vale a pena ler o artigo.
Tenho certeza que o artigo que escrevi originalmente era muito mais longo, mas, por motivos de espaço do jornal, foi encurtado (mesmo assim tá bem compridinho). Note que ele foi escrito antes da morte de Kubrick, no ano seguinte. Também encontrei um outro texto que redigi sobre a morte do gigante, aqui. Com o tempo, mudei de idéia a respeito de algumas coisinhas. Por exemplo, gosto muito mais de Spartacus e Lolita do que gostava na época. E claro que De Olhos Bem Fechados foi uma decepção. Lançado pouco depois da morte de Kubrick, em 99, ele é considerado por muitos, inclusive por mim, como uma obra inacabada. Até agora conheci apenas uma pessoa que o vê como o melhor Kubrick de todos (e até hoje não consegui achar minha crítica do filme, chuif, mas lembro do título: “De Olhos Bem Fechados, um Filme que Pisca”). De qualquer jeito, lembrar disso tudo dá um monte de saudades do Kubrick.P.S.: A Guta Gatuna do Bloguette andou analisando a obsessão do super diretor por... banheiros. Dê uma olhada aqui.


ODISSÉIA 2001 FAZ 30 ANOSRealizado antes dos computadores prodigiosos em efeitos especiais, o filme de Stanley Kubrick continua imbátivel no campo da ficção científica, enquanto seu criador, que faz 70 anos no próximo domingo, prepara mais uma surpresa

O grande clássico 2001, Uma Odisséia no Espaço, pai e mãe de todas as produções espaciais que vieram a seguir, copiado e parodiado sem pausa, está completando três décadas. Levou quatro anos para ser rodado, quase inteiramente em estúdios em Londres, e foi entregue ao público em 1968 pelas mãos hábeis de Stanley Kubrick. Este americano que vive na Inglaterra desde antes de 2001 é considerado o maior cineasta vivo da atualidade, deixando no chinelo mestres como Coppola, Scorsese, Bergman, Allen, Polanski, Spielberg (Tarantino só atacou três vezes até agora, ainda tem de comer muito feijão pra entrar na lista).

É um Midas do cinema, pois quase tudo que fez virou ouro. Senão, vejamos: quem mais tem na bagagem tantas obras-primas? Glória Feita de Sangue (1957) é visto como o melhor filme antibelicista já realizado, Spartacus (1960) é um dos melhores épicos, Dr. Fantástico (1964), a melhor sátira à bomba atômica, Laranja Mecânica (1971), o melhor pesadelo futurista, Barry Lyndon (1975), outro épico memorável, O Iluminado (1980), o melhor filme de terror, e Nascido para Matar (1987), a melhor exposição da guerra do Vietnã. Que gênero ficou de fora, faroeste e pornô?

Graças a este currículo invejável, Kubrick é aclamado como um dos maiores diretores de todos os tempos. Em geral, nas relações dos críticos, ele só fica atrás de Orson Welles e de Hitchcock. Eyes Wide Shut (algo como Olhos Bem Fechados), seu filme mais recente, desta vez um suspense, ainda em fase de montagem, é esperadíssimo. Ironicamente, Kubrick nunca ganhou um Oscar. Está velhinho, fará 70 anos no próximo domingo, é um recluso que tem medo de avião, logo não viaja, e o intervalo entre suas obras só aumenta. Sidney Lumet, outro excelente diretor, definiu com precisão: "Cada mês que Kubrick não filma é uma perda para todo mundo".

Para muitos, 2001 é sua produção mais bem-sucedida. Kubrick redigiu o roteiro junto com Arthur C. Clarke, baseado em A Sentinela, um conto de nove páginas que Clarke havia escrito em 1948. O filme começa mostrando a "alvorada do homem", quando nós ainda éramos macacos (os crentes que me perdoem, mas já está mais ou menos comprovado) desprotegidos à mercê de leopardos. Chega um imponente monolito preto e, em seguida, um dos macacos descobre que um mero osso pode ser uma arma. Começamos a caçar, viramos carnívoros e expansionistas. Ao disputar território com outro grupo de símios, nosso macaco estraçalha o crânio de outro com sua nova arma.Ironicamente, é quando o macaco aprende a usar o osso para matar um dos seus que ele se aproxima da humanidade. Tudo acompanhado pela música de Richard Strauss "Assim Falou Zaratustra" (tam tam tarammm), que não podia ser mais apropriada para a ocasião. Inclusive, a inspiração de Strauss foi a reflexão de Nietzche, que afirmou que "a distância entre macaco e homem não é tão grande quanto entre homem e super-homem". Nosso macaco joga o osso para cima e, numa edição brilhante, o osso se transforma em nave. Estamos no futuro. Estamos no céu.

Esta cena é a mais ligeira da história do cinema: 3 milhões de anos em alguns segundos. E mesmo assim, apesar de o ser humano desbravar o universo, ele ainda não é um super-homem. Aquela antiga desconfiança de que o homem seja o elo perdido entre o macaco e o ser civilizado aparece aqui com toda sua força. O primeiro diálogo de 2001 chega meia hora após o seu início. Um astronauta espera na base, antes de embarcar para a Lua para investigar um monolito. Enquanto isso, fala com sua filhinha ao videofone. Nossos (semi)super-homens não têm tempo para a família. Já foi apontado que a única cena exibindo uma família unida ocorre na Alvorada, quando ainda éramos macacos. O ser computadorizado estaria ocupado demais para esses detalhes.Corte para uma nave em direção a Júpiter. É a Discovery, tripulada por cinco astronautas, dois deles ativos e três hibernando, e principalmente pelo computador de bordo, o "infalível" HAL-9000. Enquanto HAL começa a manifestar sentimentos humanos, como orgulho e medo, os humanos na nave vão ficando cada vez mais maquinizados. Eles não demonstram qualquer emoção e falam com o computador mais do que entre si. Eles são totalmente frios (e isso talvez explique porque, inicialmente, nos identificamos mais com HAL), diferentes dos heróis mostrados em Apolo 13 ou Os Eleitos. Certamente não são super-homens. Se fossem, não se preocupariam com a mudança de humor de um computador.

HAL falha e os dois astronautas, Bowman e Poole, revêem seus planos. Como chegar a Júpiter desligando o computador que comanda a nave? O que o computador achará de ser desconectado? Claro que eles não podem expor essas idéias na frente de HAL, que a esta altura já está bastante sensível. Procuram o único lugar que HAL não consegue ouvir, apertam teclas e acreditam poder conversar sem o perigo de ofender o computador. E não é que HAL consegue ler lábios? Esta cena nada fica devendo em terror aos suspenses hitchcockianos. E instantaneamente nos remete ao 1984 de Orwell, ao Grande Irmão que tudo vê.

Fácil, fácil, HAL mata quatro dos cinco astronautas. Notamos o quanto somos frágeis, o quanto estamos longe do super-homem, quando HAL liquida aqueles que hibernam. Em segundos, o diagrama que expõe as funções vitais se altera, encerrando suas vidas rapidamente. É um assassinato em série, uma chacina, mas sem um pingo de sentimentalismo. Somos tão vulneráveis quanto nossos irmãos macacos, ao menos antes de descobrirem uma arma.

Só Bowman sobrevive, e agora é sua vez de "matar" HAL. Para tanto, ele se vale daquilo que as máquinas não possuem - a improvisação. Kubrick, como sempre, torce pelos humanos. Mas, ao contrário dos filmes de ação atuais, 2001 não é nem um pouquinho previsível. Quando Bowman está quase terminando a lobotomia do computador, HAL decide cantar uma canção que aprendeu com seu criador. A letra diz "Daisy, I'm half crazy" ("estou meio louco"). É o cúmulo do sarcasmo. HAL está morto, quem sabe até por ter se humanizado demais, e nós sentimos sua falta.Bowman segue sozinho para Júpiter, e é aqui que podemos saborear a coerência de Kubrick ao intitular 2001 de uma odisséia no espaço. Tal qual o poema épico de Homero, onde Ulysses vai ao desconhecido, nesta odisséia o astronauta tampouco tem idéia do que irá encontrar. Depois de uma seqüência 100% psicodélica que encantou a platéia flower-children dos anos 60, a jornada de Bowman parece ter fim. Mas isto é Júpiter? Um quarto de hotel em estilo vitoriano?Aparentemente, Bowman está sendo observado, pois ouvem-se ruídos ao fundo. Ele se vê envelhecer e, logo após presenciar o monolito, morrer e renascer como um embrião no meio do universo. A cena é absolutamente mágica. Kubrick sabe, como qualquer cineasta inteligente, que aquilo que imaginamos e criamos é muito mais interessante e assustador do que o que vemos. Já pensaram se aparecessem homenzinhos verdes? Tiraria toda a credibilidade. E também, quem disse que o monolito é obra de extraterrestres? Talvez ele simbolize Deus.

O mais surpreendente de 2001 não é a nave bailando ao som de "Danúbio Azul", de Johann Strauss (sem parentesco com Richard), ou o fato de ter sido feito antes de o homem pisar na Lua, ou sua concepção visionária e revolucionária. É que ele não está nada datado, 30 anos depois. Certo, algumas seqüências envolvendo gente (tirando os astronautas) parecem meio antigas, mas nunca os efeitos especiais ou as naves espaciais.

Impressionante também é que um dos filmes mais celebrados da história tenha sido impiedosamente malhado pelos críticos na época de sua estréia. A verdade é que 2001 está cheio de interpretações e sentidos. Assista e crie o seu.

CURIOSIDADES SOBRE 2001

  • 2001 tem pouco mais de 30 minutos de diálogos. O resto é música e silêncio.

  • Alex North chegou a compor uma trilha sonora para 2001, que não foi usada. Kubrick preferiu a música clássica. Isto influenciou um monte de gente, como pode ser visto em Sem Destino e Apocalipse.

  • O nome HAL é composto pelas letras que, no alfabeto, antecedem IBM, na época sinônimo de computador. Kubrick e Clarke (fotinho) juram que não se deram conta e que foi mera coincidência.

  • Planeta dos Macacos ganhou Oscar de Maquiagem, no mesmo ano de 1968. 2001, onde os macacos são mais realistas, não.

  • Entre inúmeras personalidades, James Cameron, diretor de Titanic, revela ter optado pela profissão após assistir a 2001.

domingo, 12 de setembro de 1999

CRÍTICA: DE OLHOS BEM FECHADOS / Um filme que pisca

Último trabalho de Kubrick é inquietante, mas está longe de ser uma obra-prima

É difícil analisar De Olhos Bem Fechados, último filme de um gênio, sem se lembrar a toda hora de seu diretor, Stanley Kubrick. Isso, de não separar autor da obra, é frequente, ainda mais quando o realizador morre logo em seguida. Mas a pergunta que não quer calar, e que deve ser considerada, é: o que acharíamos do filme se ele não fosse de Kubrick?
De Olhos Bem Fechados é interessante, sem dúvida alguma, mas inconsistente. É frouxo, e faz que pensemos o tempo todo que Kubrick faleceu antes de realmente terminá-lo. Tem toda a pinta de obra inacabada e imperfeita. Agora, não deixem que digam que é chata, pois não é, em nenhum momento. É um filme estranho, não sujeito a classificações, adulto, inquietante, insatisfatório.
Começa bem, com um Tom Cruise meio que marido típico, desses que não olham mais para a mulher. Nicole Kidman, sua esposa, radiante em um vestido de festa, implora tanto por um elogio que afinal o recebe, sem que Tom, no entanto, tenha lhe dirigido o olhar. Não é isso, claro, que nos informa que o casamento não vai bem, e sim o comportamento de Nicole, que flerta com um cavalheiro, que discute com o marido, até revelar-lhe algo surpreendente: de que teria abandonado a família por um caso de uma só noite com alguém que só vira de relance.
O atordoado Tom sai por aí, talvez tentando entender a alma feminina. Acaba entrando em uma orgia ultra-secreta e as coisas se complicam. E, assim como fica incompleto, inútil até, resumir o filme, entender seus múltiplos temas é missão impossível. É sobre quê? Sobre sexo? Talvez seja, mas seria um filme de sexo sem sexo. Sobre desejo (que também inexiste), sobre a morte, sobre sonho versus realidade? Você decide.
Por falar em sexo, você deve ter ouvido falar das cenas da orgia, dos 65 segundos que foram “censurados” naquele país puritano que é os Estados Unidos. Para que De Olhos Bem Fechados não recebesse uma classificação que proibisse o drama para menores de 17 anos (matando-o financeiramente, no contexto atual de bilheteria), foram sobrepostas imagens de computador cobrindo os atos. Fique sabendo que a versão passada no resto do mundo, inclusive no Brasil, é a integral. Americano se choca à toa, não? Esses 65 segundos frustrantes mostram uma orgia ritualística, paradona, com poucos participantes e muitas máscaras. Os dois segundos de O Iluminado, quando o passado do hotel vem à tona, descobrindo dois homens fantasiados fazendo sexo oral, têm mais suspense e sabor.
Algumas cenas em De Olhos Bem Fechados estão desconexas, não parecem ter nada a ver com nada. Por exemplo, por que Tom liga para a filha do paciente que morreu, aquela que havia dado em cima dele? Tampouco fica claro por que ele procura a prostituta. Porém, nada é tão sem nexo como as bobagens que foram e são ditas a respeito. Os jornais continuam contando a história como “casal de médicos...”? Que casal de médicos, cara-pálida? Só o personagem do Tom é médico, o de Nicole é ex-curadora de arte, desempregada. Já li também que ambos seriam psicólogos, sexólogos... Correu o boato que Harvey Keitel foi despedido (e para seu lugar chamado Sydney Pollack) por ter sido pouco profissional e ter tido uma ereção com Nicole - sendo que não há uma única cena em que esses dois personagens tenham qualquer coisa ligada a sexo. E basta Tom ir a um necrotério para a internet inteira gritar, em coro: necrofilia no último do Kubrick! Tsc tsc tsc.
Entretanto, há algumas verdades a serem ditas: o roteiro é ruim, os diálogos sofríveis. Todos os personagens repetem as perguntas, na base do “O que você acha?” - “O que eu acho? Vejamos...” Se isso fosse cacoete de um só personagem, faria sentido, especialmente se fosse o do Tom, já que o cara é confuso e abobalhado (sacanagem chamarem-o de Forrest Gump), mas todos têm esse vício. E o pessoal fala devagar.
De Olhos Bem Fechados merece ser apreciado e deve ser visto. Mas não é, absolutamente, uma obra-prima. Por mais que gostaríamos que fosse, por tudo que Kubrick representa para o cinema.

sexta-feira, 19 de março de 1999

KUBRICK, O ILUMINADO

Morto na semana passada, o diretor de 2001 era um dos maiores cineastas da história

É difícil falar de Kubrick sem se emocionar, pois trata-se de um gigante. Se falecesse qualquer um desses diretores por dúzia, geralmente de encomenda, não sentiríamos falta. Mas Kubrick é considerado um dos dez maiores cineastas da história do cinema, o que não é pouco. Vamos a uma lista pra lá de resumida: Orson Welles e Hitchcock, obviamente, Chaplin, Hawks, Ford, Einsenstein, Fellini, Lean, e talvez, dependendo do gosto, mas longe de atingir unanimidade, Bergman, Truffaut, Coppola, Scorcese, Allen, Buñuel, Godard, Polanski, De Sica, Visconti, Wilder, Capra, Kurosawa, Huston... Bom, Kubrick certamente entra no primeiro escalão.

Apesar de só ter feito treze filmes (incluindo o inédito Eyes Wide Shut) em 45 anos de carreira, o surpreendente de Kubrick é que todos são bons. Aliás, "bons" é nivelar por baixo - a maioria é composta de grandes clássicos. Parcos diretores, se é que algum, têm um currículo de tanta qualidade.

Vamos aos filmes. Seus dois primeiros foram obras menores, mas nem por isso ruins. Tão pouca gente teve a oportunidade de assistir a Fear and Desire(1953) e A Morte Passou por Perto (55), que é meio impossível de avaliar. O Grande Golpe (56; foto) é fascinante e conta a história, toda em flashbacks, de um roubo a um jóquei clube. É a inspiração de Cães de Aluguel, de Tarantino, só para citar um exemplo.

Em 1957, Kubrick dirigiu um dos melhores filmes bélicos já realizados, Glória Feita de Sangue. Durante a Primeira Guerra Mundial, um general francês manda seus homens para uma missão suicida. Depois do fracasso, apenas para salvar sua cara, decide processar e punir com a morte três soldados, acusando-os de covardia. Sem dúvida, a mensagem aqui é pacifista - e como.

Em seguida, Kubrick novamente trabalhou com Kirk Douglas (o ator diz coisas horríveis sobre a personalidade do diretor), desta vez em uma obra menos pessoal, mas nem por isso menos grandiosa: Spartacus. Não tem o mesmo valor de outros filmes de Kubrick porque não foi ele que escreveu o roteiro, e também porque ele foi recrutado após um outro diretor abandonar o set. Apesar disso, é um épico inteligente, audacioso, comovente, sobre revolta de escravos no Império Romano.

Depois veio Lolita (62), adaptação do magnífico livro de Nabokov. Impiedosamente caçada pela censura, esta comédia de humor negro sobre um quarentão que se apaixona por uma ninfeta tem muito mais alma que a recente produção de Adrian Lyne. E Peter Sellers dá um show.

Kubrick ataca de novo com uma comédia (e com Sellers) em Doutor Fantástico (1964). O título original inclui "Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba", e dá uma idéia do que virá a seguir. Imagine fazer algo assim em plena Guerra Fria. É engraçadíssimo e constantemente relacionado nas listas dos melhores de todos os tempos.Mas talvez Kubrick seja mais lembrado por 2001, Uma Odisséia no Espaço (68), esta a maior ficção científica já realizada. Antes mesmo do homem pisar na Lua, o profético Kubrick mostra como será nossa vida em um futuro cada vez mais próximo. Um monte de cenas clássicas, copiadas e parodiadas à exaustão, em um filme que não se encontra nada datado. Aqui Kubrick recebeu seu único Oscar - por efeitos especiais, não pela sua magistral direção. Sinal de que a Academia raramente premia brilhantismo.

Três anos depois, ele chacoalha o mundo mais uma vez com Laranja Mecânica, a narração em primeira pessoa de um jovem e sua sanguinária gangue. É outra ficção, baseada em Burgess, com uma linguagem revolucionária. Exibe a violência do indivíduo contra o indivíduo e da sociedade contra o indivíduo. Uma obra-prima altamente perturbadora.

Em 1975, Kubrick experimenta com iluminação natural e à luz de velas em Barry Lyndon, um épico belo e longo sobre um oportunista irlandês em meio a guerras do século passado. Para justificar sua opção, Kubrick afirmou que "nunca houve um filme histórico realmente ótimo". Taí, ele fez o primeiro.

Os críticos caíram em cima dele na época de O Iluminado (80). Hoje este terror é mais bem-aceito, se bem que com ressalvas de alguns. Não minhas, claro. Pra mim, este é o melhor do gênero. Livremente baseado em romance de Stephen King (se você quiser saber o quanto o livro é fraquinho, assista à versão de quatro horas do escritor), O Iluminado traz Jack Nicholson, com todos os seus tiques, como um zelador de um hotel em plena neve, e sua aterrorizada família. Tem imagens impossíveis de serem esquecidas.

Aí veio Nascido para Matar (1987), outro anti-belicista. É, junto com Apocalypse Now, a mais maravilhosa das produções sobre a Guerra do Vietnã. Dividido em duas partes, originalmente mostra o treinamento cruel de mariners, e depois a guerra em si. Os inimigos, os vietnamitas, quase não aparecem, reenforçando que foi uma batalha do americano contra sua própria estupidez. Uma das frases lapidares vem de um soldado que diz, "Meu objetivo é conhecer outras culturas - e destrui-las".

Agora, o mundo espera ansiosamente pelo inédito Olhos Bem Fechados, que deve estrear em julho. Não se sabe muito deste suspense erótico guardado a sete chaves, só que inclui Tom Cruise e Nicole Kidman no elenco e várias cenas de sexo. Se este já era o filme mais esperado do ano antes da morte de Kubrick, imagine agora. Inclusive, há o cheiro de um Oscar póstumo por aí.

Dizem que Kubrick era obsessivo, filmava o mesmo take dezenas de vezes, tinha medo de vermes e de viajar de avião, e odiava a humanidade. Isso não importa. Com certeza era um perfeccionista, um gênio que se dedicava a narrar uma história. Acho que a fala que resume todos os seus filmes aparece em Laranja Mecânica: "Quando um homem não pode mais escolher, ele deixa de ser um homem". Kubrick teve todas as escolhas na mão, e fez as mais acertadas. Ele morreu aos 70 anos, mas, nesta era sem talento ou criatividade, continua mais vivo do que nunca, como um fantasma a perseguir esta gente que não sabe fazer cinema.