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terça-feira, 16 de abril de 2019

FALAR DE CARLUXO E DO SEU SUPOSTO CASO COM O PRIMO É HOMOFOBIA?

Semana passada no Twitter, o exemplo de homem e político que é Fernando Haddad respondeu ao nadinha Carlos Bolsonaro (vereador no Rio e assessor-mor do pai): "priminho tá bem?"
Haddad caiu na provocação do pitbull, que antes lhe havia escrito "Chora marmita!!!", numa discussão sobre o Bolsa Família, que em 2010 foi apelidada por Jair de "bolsa-farelo". 
Pelo "priminho", Haddad foi chamado até por gente à esquerda de homofóbico. 
Rotina da nada homofóbica
direita brasileira
Não preciso nem dizer que a direita -- a mesma que tem orgulho da sua LGBTfobia e que chama Haddad de "marmita do Lula" e diz que ele faz "visita íntima" ao ex-presidente -- tentou explorar ao máximo o assunto. É como eu sempre digo: pra direita, machismo, racismo e homofobia só existem quando são praticados por alguém de esquerda. Quando nós apontamos o preconceito deles, é puro mimimi nosso.
Acontece que faz tempo que venho querendo consultar pessoas LGBT sobre se seria homofóbico sugerir que Carlos e seu primo Leo Índio são um casal, ou se chamá-lo de "Carluxo", como Leo o chama, pode ser homofóbico. É que pelo menos desde janeiro chamo Carlos de Carluxo, e, bom, não sou homofóbica, nem quero ser confundida com uma. 
No início de abril, publiquei este tuíte ao lado, que teve bastante repercussão. À noite, participei de uma live do Diário do Centro do Mundo e me perguntaram se eu achava homofóbico referir-se a Carlos como Carluxo. Eu respondi que não, porque não vejo nada de errado se Carlos e Leo forem mesmo um casal. Muito pelo contrário, seria ótimo se uma família homofóbica tivesse um filho gay. E que, se Carlos se assumisse, ele poderia talvez impedir que o governo pisasse nos LGBTs. 
Mas, né? Não é o meu lugar de fala, pois sou hétero. Eu já tinha sido avisada por LGBTs que sugerir a homossexualidade de Carlos seria homofobia, assim como me apontaram a homofobia no famoso grafite do beijo entre Trump e Putin e na charge do "patriota" Jair na cama com Trump. Mas admito que ainda tenho dificuldade em ver homofobia nesses exemplos. 
Então pedi para pessoas LGBT que me seguem no Twitter que manifestassem suas opiniões sobre isso (não apenas restritas ao deslize de Haddad, mas em geral). Queria colocar aqui -- quero ainda -- vários pontos de vista. Hoje vou publicar dois textos, e amanhã publico outros. Os de hoje têm basicamente o mesmo ponto de vista.

Eis o texto de Thaís Lamblet, escritora, ativista, feminista, LGBT, defensora dos direitos humanos.

Homofobia Velada
Desde que os boatos de que Carlos Bolsonaro e seu primo seriam, na verdade, um casal e que este mesmo primo o chamava de Carluxo, abriu-se um precedente para a homofobia, até mesmo para quem luta contra ela.
É sabido que não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor, e é exatamente por isso que a situação é tão paradoxal. No entanto, não deixa de ser homofóbica. 
Carluxo, o apelido, não me parece uma demonstração do preconceito, considerando o contexto em que estiver inserido. Sob minha ótica, é uma forma debochada de se referir aos Bolsonaros -- considerando que todos têm apelidos, inclusive para podermos distingui-los.  
Nos demais casos, quando usam o caso d’ele ser gay ou não: expor é uma decisão que só cabe a Carlos, ainda mais na família em que vive. Numa discussão ou como argumento apenas com o intuito de rebaixá-lo ou humilhá-lo, é o mesmo que fazem conosco todos os dias: homofobia. Temos mil argumentos políticos, coisas que eles não têm, para superá-lo em qualquer debate. 
Comentei no parágrafo anterior sobre a família em que vive. Carlos Bolsonaro, se for gay de fato, suprimiu (ou tentou) tudo isso a vida inteira, transformou (ou tentou) em ódio tanto com ele mesmo quanto com o outro. Muitos fizeram isso. Muitos.
Não nos cabe arrancar alguém do armário, muito menos quando lutamos contra isso. Não nos cabe rir da orientação sexual de uma pessoa pelo fato dessa pessoa nos fazer tão mal mesmo nessa questão. 
Atacar alguém por sua característica, seja essa pessoa quem for, só nos torna filhos desse sistema que lutamos contra. Preocupa-me que isso ainda seja pauta, porque eu me sinto pessoalmente ofendida quando vejo qualquer pessoa sendo ultrajada por algo que simplesmente não tem nada de errado e está longe de ser uma escolha. 

Aqui o texto de Alex Carvalho, estudante de Rádio, Televisão e Internet.

A  homofobia do Tweet de Haddad
Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que sim, votei em Haddad ano passado e que acho que qualquer repúdio a algum Bolsonaro é pouco. Entretanto, minha posição partidária não pode interromper meu senso crítico quanto ao reforço de preconceitos, mesmo que atitudes erradas venham dos meus correligionários.
Não acredito que Fernando Haddad seja um "esquerdomacho", e  sim uma prova de que todos os homens, até os mais desconstruídos, cometem atos falhos. Também não vejo motivo algum para fazer um grande auê em cima do caso. Prefiro enxergar isso como mais uma oportunidade para debater determinados comportamentos masculinos e trocar experiências baseadas na vivência de cada um.  
Vamos aos fatos: em uma discussão sobre o bolsa família, ao ser contestado por Carlos (que segundo boatos seria homossexual), Haddad vira a mesa e solta uma ironia a respeito do primo (que segundo os mesmos boatos seria companheiro de Carlos). A grande questão (e onde eu enxergo um comportamento errôneo) é: o que uma coisa tem em relação com a outra? E isso não é uma situação inédita quando somos (assumidos ou não) LGBTQI+ em qualquer debate.
Mídia reaça explorando o caso
Refletindo sobre a situação para escrever esse texto acabei regredindo a muitas experiências da minha vida, como na escola em momentos em que minha opinião por vezes foi abafada com um gracejo sobre minha sexualidade pelo engraçadinho da sala, ou no trabalho quando minha sugestão era preterida quando o coleguinha que não gostava de mim questionava minha sexualidade para fugir do contexto do tema debatido, e até mesmo dentro de casa, quando por vezes a sexualidade é posta como um parâmetro para a boa convivência familiar. Isso incomoda, e não é pouco.
Quando isso vem em forma de ironia incomoda primeiramente porque ser LGBTQI+ não é nada engraçado (ainda mais no Brasil de 2019), e olha que eu já perdi de vista as vezes em que a minha sexualidade foi posta na roda como forma de piada, ainda mais por gente que nem intimidade comigo tinha. É como se ser um gay (mesmo que assumido e seguro de sua sexualidade) fosse um canal aberto para que as piadinhas tivessem sinal verde para aparecer em assuntos que só dizem respeito a nossa intimidade.
Opinião de Jean Wyllys
Também me incomoda porque parece que, ao insinuar que Carlos é gay, Haddad invalida a opinião dele sobre toda a discussão que estavam tendo antes, e isso não é algo incomum. Podemos estar debatendo física quântica na ONU -- se a pessoa do outro lado tiver poucos argumentos, a sexualidade entra no assunto e o foco da discussão se perde. 
Por fim, essa necessidade de questionar a intimidade do outro é uma coisa muito antiquada, ainda mais quando parte do Haddad; pois esse é o tipo de comportamento que espero da tia que pergunta das namoradinhas no almoço de domingo, não de um político sério que pretende presidir o país no futuro.
Para concluir, deixo bem claro que minha opinião em nada muda a imagem que tenho de Haddad e que isso não me traz 0.01% de arrependimento no voto que dei nele. Muito menos acho que após esse episódio Carlos seja um coitado que merece perdão por todas as bandeiras e bobagens que defende com veemência. Uma coisa não tem relação com a outra, e erros como esse servem apenas para oportunidades como esta de aprendizado e correção de comportamentos. 
Por fim, dou meu pitaco sobre o suporto caso de Carluxo com o primo: O que ele faz entre quatro paredes não me diz respeito. E nem a você, meu caro leitor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

A HETEROSSEXUALIDADE MASCULINA É MAIS FRÁGIL QUE UM FLUXOGRAMA

Clique para ampliar

É um fluxograma humorístico e eu não sei quem fez. Mas vale a pena pra cutucar quem tem que se provar macho man o tempo todo (aqueles que são super machões até ter que enfrentar um debate. Aí foge como o maior covarde que é). 
Ah, e precisamos sempre lembrar que homem gay segue sendo homem. Aliás, olha a coincidência: ontem mesmo eu estava lendo o livro Desejos digitais: uma análise sociológica da busca por parceiros on-line, de Richard Miskolci (ed. Autêntica, 2017), e me deparei com este trecho na página 87:
Raewyn Connell palestrou na Facul-
dade de Educação da USP sobre
descolonização do gênero em 2013
"Desde fins do século XIX, discursos psiquiátricos, jurídicos e artísticos -- construídos todos sob uma perspectiva heterossexista -- disseminaram o estereótipo de que os homens que se interessam por outros homens seriam alocados inevitavelmente na posição de uma 'mulher', daí a ideia de que seriam menos masculinos que um homem que se relaciona sexualmente com o sexo oposto. Como observou a socióloga australiana Raewyn Connell: 'A cultura patriarcal interpreta os homens gays de forma muito simples: lhes falta masculinidade' (2005, p. 143)."
Só uma pequena e interessante reflexão. Ou você pode ler este post e se perguntar: fluxograma numa hora dessas?! 
E aproveitando pra divulgar: hoje começou a XII Semana de Humanidades da UFC, com uma excelente programação. Minha contribuição 
(com a ajuda dos meus magníficos alunos e alunas do curso de extensão) será hoje, às 14h, no Auditório de História, CH2, com a mesa-redonda "Discutindo questões raciais e de gênero no cinema: Mulher Maravilha e Pantera Negra". 
Amanhã, também começando às 14h, mas na sala 6 do Bloco Noturno, CH1, eu e minha turma da pós-graduação ofereceremos o minicurso "Utopias e distopias feministas na literatura". Apareçam!
E amanhã à noite vou participar de uma live com a incrível Kah Dantas.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

GAYS EM MARTE

Ha ha, tem jeito não: reaça não pode ver uma vergonha que já quer passar (clique para ampliar, se precisar).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A MELHOR DO DIA: JE SUIS GAY

O apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, recebeu uma ameaça de morte. Eu fico passada como a mídia não consegue contextualizar essas ameaças e as trata como casos isolados, não como ações de uma quadrilha mascu misógina, homofóbica e racista que vem atacando dezenas de pessoas há tempos. 
Mas eu nem estaria fazendo este post se não fosse o que o tal de Paulo escreveu ("o cara usa uma camiseta 'Jesus gay' profanando o nome de Deus e quer ser respeitado??"). Rendeu ótimas risadas e a eterna pergunta: por que reaças são tão ignorantes?

domingo, 25 de junho de 2017

ARGUMENTOS REAÇAS SÃO FACILMENTE DESMONTÁVEIS

Acho que desde aquele "argumento" irrefutável que explica, usando chaves e fechaduras, porque uma mulher dormir com vários caras é ruim (fechadura que abre com várias chaves = terrível), e porque um cara dormir com várias mulheres é o máximo (chave que abre várias fechaduras = maravilhoso), não aparecia um outro tão rapidamente desmontável como este das tomadas e gambiarras.
Ah sim, sabe, um apontador que aponta vários lápis é bom, mas um lápis apontado muitas vezes gasta e vira um toquinho.
Não vira não, gente! Usar nossas genitálias não gasta, não alarga, assim como não usá-las não atrofia. 
Só estou esclarecendo praqueles que acham que sexualidade humana, algo tão complexo, pode ser reduzida a comparações estapafúrdias com objetos. 
Se esses conservadores transassem mais e fiscalizassem menos a vida sexual de grupos historicamente oprimidos, talvez fossem menos ridículos. 
A propósito: um leitor enviou também esta resposta contra "argumentos" usados contra pessoas trans. 
E parece que um dos assuntos do dia é Cadê as Feministas? (todo dia é dia, e feminista não tem folga, fim de semana, feriado, nada, e o Soros só atrasa o nosso salário!) referente a... mulheres pagarem menos na balada. 
Deixo esta explicação fácil pra você chegar que essa discussão já tava cansativa e passada em 2013...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

ASSASSINOS A SERVIÇO DO ÓDIO E UM HERÓI

Que espírito natalino, que nada! Um caso tenebroso ocorrido na noite de natal comoveu (não sei se comover é a palavra. Aterrorizou?) o país. 
Mais ainda porque aconteceu numa estação de metrô, um lugar que deveria ser seguro (mas que, no governo paulista, conta com pouquíssimos guardas, que levaram seis longos minutos para chegar). 
Dois rapazes já identificados pela polícia pelas imagens gravadas, Ricardo Martins Nascimento e Alípio Rogério Belo dos Santos, que são primos e frequentadores da mesma academia, mataram a pontapés Luiz Carlos Ruas, também conhecido como Índio, um senhor de 54 anos que trabalhava há duas décadas como vendedor ambulante na estação de metrô Pedro II. 
Os homens, que vestiam o mesmo "uniforme" (camisa preta e bermuda branca), agrediram uma travesti, moradora de rua no local. Aparentemente, ela disse a eles que não urinassem na rua, pois havia banheiro dentro da estação. Outra travesti tentou acudi-la e também apanhou. Uma imagem mostra um dos homens correndo atrás da travesti, pulando a catraca (uma testemunha contou que, nessa perseguição, eles gritavam "Vamos matar"). Ruas interferiu e foi alvo da fúria dos dois, que o derrubaram e chutaram sua cabeça até a morte, antes de irem embora calmamente e voltarem para bater mais.
Ricardo e Alípio estão foragidos e a polícia oferece R$ 50 mil de recompensa para quem passar informações (Ricardo foi preso em Valinhos). O advogado deles alega que eles reagiram por medo de assalto. Já o delegado do caso informou que um deles estava abalado porque tinha descoberto uma infidelidade da esposa. Pelo jeito, vão fazer de tudo para atenuar a pena, já que a motivação óbvia é a intolerância, o preconceito, o ódio.
O advogado nega que os dois sejam skinheads, mas uma das imagens mostra que um deles estaria usando um soco inglês, arma característica do grupo (e que denota premeditação: é comum grupos fascistas saírem às ruas à noite à "caça" de vítimas como travestis, gays, negros, moradores de rua).  
Se Ruas não tivesse falado algo, talvez uma das travestis tivesse sido a vítima fatal. Ele foi, portanto, um herói. Fez o que ninguém teve coragem de fazer enquanto ele estava sendo espancado -- tentou intervir. 
O cartum acima é certeiro: a intolerância também mata quem está do lado de fora (tanto da estação quanto da orientação sexual odiada por preconceituosos). Não precisa ser homossexual para ser vítima de homofobia. Lembro de dois casos recentes: em 2011, pai e filho foram atacados por um grupo de sete rapazes numa feira agropecuária próxima à Ribeirão Preto, SP. O pai teve metade da orelha decepada. O crime dos dois: um abraçou o outro por alguns instantes.
Um ano depois, na Bahia, dois irmãos gêmeos também estavam abraçados quando foram surpreendidos por um grupo de oito rapazes. Um dos irmãos foi espancado até à morte. 
O Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo. Mas, como este caso de Ruas e outros provam, a intolerância é um risco para toda a sociedade. Segundo o jornal New York Times, nos últimos 4,5 anos 1,6 mil pessoas foram mortas por motivações homofóbicas, fazendo do nosso país o mais perigoso no mundo para a comunidade LGBT. 
Todos nós devemos refletir sobre o que fazemos para contribuir com essas estatísticas assustadoras. Talvez a gente não espanque até à morte travestis ou quem tenta defender travestis, mas há muitos outros meios de promover a intolerância, de odiar, de naturalizar uma violência que nunca deveria ser vista como natural. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

FUNDAMENTALISTAS CRISTÃOS PROVAM MAIS UMA VEZ QUE NÃO VIVEMOS NUM ESTADO LAICO

Ontem o famigerado Estatuto da Família foi aprovado por uma comissão especial de deputados da Câmara, por 17 votos contra 5. No texto há a definição de que família é apenas a união entre um homem e uma mulher. 
Como se pode ver, essa definição de família não exclui apenas gays e lésbicas, mas também todos os tipos de família que não fazem parte desta visão de família tradicional, patriarcal, nuclear. 
Ativistas protestam na Câmara contra o Estatuto
Esta é parte de um resumo de um artigo que escrevi sobre Família e Gênero e que será publicado nos Anais do Simpósio Nacional Famílias na Contemporaneidade da PUG-GO (quando sair e tiver link eu aviso. Dei esta palestra na PUC em maio):
"Com o Congresso Nacional mais conservador desde a década de 1960, o Brasil vive um período em que acirram-se discussões sobre dois conceitos, família e gênero. Pela primeira vez na história desde que se iniciaram estudos sobre família, o modelo tradicional de família (composto por casal heterossexual com filhos) não é maioria. Segundo o IBGE, hoje este modelo representa 49,9% dos domicílios, enquanto todos os outros tipos de família (monoparentais, casais sem filhos, homossexuais, famílias extensas, etc) são 50,1%. Para se ter uma ideia da rapidez desta mudança, o Censo 2000 oferecia onze opções de laços de parentesco. Em 2010, teve que ofertar 19 modelos, e não sabemos quantos terá que criar para 2020. 
"O fato é que não existe uma só família, ao contrário do que querem fazer crer os conservadores. E este modelo visto como único ocupa um espaço minúsculo na história da humanidade. Ou seja, não tem nada de natural. Para tentar conter a diversidade, os conservadores ultimamente têm escolhido como um dos principais inimigos da família (deve-se sempre perguntar: qual família?) a “ideologia de gênero”, que é tanto uma ideologia quanto é a ideia de que só existe e sempre existiu um único modelo de família".

Depois que quatro destaques forem votados pela comissão, o projeto pode ir direto para o Senado, sem ser aprovado na Câmara. A deputada Érika Kokay (PT-DF), uma das mais atuantes em defesa dos direitos humanos, vai tentar entrar com recurso para que o PL tenha que ser votado no plenário, não só na comissão. Para Kokay, o projeto "institucionaliza o preconceito e a discriminação".
Verdade! Os "argumentos" usados contra o casamento homoafetivo hoje são muito parecidos àqueles usados contra o casamento interracial -- que, até 1965, era proibido nos EUA
Maria do Rosário (PT-RS) também se manifestou. Afirmou que o texto "dá nojo" e que o relator usou apenas dogmas religiosos para fundamentá-lo: "O seu parecer é péssimo. E acho que a Câmara dos Deputados é melhor que isso". 
A bancada evangélica pretende votar o projeto no dia 21 de outubro, Dia Nacional da Família -- porque tem gente que insiste que só existe um único modelo de família.

Muitas pessoas ficaram abaladas com mais essa manifestação de fundamentalismo religioso mostrada ontem. Outras não estão tão preocupadas, pois têm certeza de que o Estatuto da Família (assim como o do Nascituro) é inconstitucional, e será derrubado por vias jurídicas.

Na realidade,  o casamento homoafetivo foi "oficializado" no Brasil em 2013, pelo Conselho Nacional da Justiça. O Supremo Tribunal Federal aprovou a união estável (não casamento) em 2011. 
O ministro Luiz Fux declarou na ocasião: "Onde há sociedade, há o direito. Se a sociedade evolui, o direito evolui. Os homoafetivos vieram aqui pleitear uma equiparação, que fossem reconhecidos à luz da comunhão que têm e acima de tudo porque querem erigir um projeto de vida. A Suprema Corte concederá aos homoafetivos mais que um projeto de vida, um projeto de felicidade".

É preciso entender que o Estatuto da Família (assim como vários outros retrocessos em forma de projetos que circulam no Congresso; há até projeto para se revogar a lei do divórcio) foi uma resposta ultra-conservadora às decisões judiciais. Trata-se de um jogo de poder, de mostrar força.
O que importa é que o Estatuto da Família é mais uma prova de que a homofobia se transformou na principal bandeira evangélica. Quase cinco anos atrás eu lancei a pergunta "Igrejas dependem da homofobia para sobreviver?", e Valéria Fernandes, professora de História, feminista e evangélica, respondeu que sim num texto brilhante. 
Feministas protestam contra o
Estatuto do Nascituro em junho 2013
Não que seja a única bandeira. A vontade de continuar criminalizando e proibindo o aborto -- e de proibi-lo em todos os casos, incluindo os que são atualmente permitidos, como em caso de risco de vida para a gestante, gravidez em decorrência de estupro, e fetos anencéfalos -- é outra. 
E faz pouco tempo que os fundamentalistas cristãos (porque eles não estão restritos apenas aos evangélicos) descobriram a "ideologia" de gênero. É uma bandeira confusa para eles, mas permite que ignorantes joguem no mesmo balaio todos seus medos e mitos obscurantistas (tipo: de que estamos querendo doutrinar criancinhas nas escolas para que todas virem gays, e assim, gays -- sinônimos de pedófilos, segundo esses homofóbicos -- podem seduzi-los).

Não dá pra ficar esperando sentadx que o Supremo nos salve. Não dá mais pra ver padres e pastores atropelando direitos que deveriam ser de todxs. Que tal a gente contra-atacar?
Não somos tão poucxs assim. Lembro que há alguns anos combatíamos com muito mais garra o barulho que igrejas e templos faziam, por exemplo (alguém -- duvido que tenha sido um ativista de esquerda -- lançou até a campanha Deus Não é Surdo). Eles incomodam a gente? Sim, muito, o tempo todo. Vamos incomodá-los de volta.

São eles que não respeitam o Estado laico. Mas é justamente o Estado laico que eles desrespeitam que permite a liberdade religiosa.
E sim, quero que essas máquinas de fazer dinheiro que chamamos de igrejas e templos paguem impostos.