Semana passada no Twitter, o exemplo de homem e político que é Fernando Haddad respondeu ao nadinha Carlos Bolsonaro (vereador no Rio e assessor-mor do pai): "priminho tá bem?"
Haddad caiu na provocação do pitbull, que antes lhe havia escrito "Chora marmita!!!", numa discussão sobre o Bolsa Família, que em 2010 foi apelidada por Jair de "bolsa-farelo".
Pelo "priminho", Haddad foi chamado até por gente à esquerda de homofóbico.
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| Rotina da nada homofóbica direita brasileira |
Não preciso nem dizer que a direita -- a mesma que tem orgulho da sua LGBTfobia e que chama Haddad de "marmita do Lula" e diz que ele faz "visita íntima" ao ex-presidente -- tentou explorar ao máximo o assunto. É como eu sempre digo: pra direita, machismo, racismo e homofobia só existem quando são praticados por alguém de esquerda. Quando nós apontamos o preconceito deles, é puro mimimi nosso.
Acontece que faz tempo que venho querendo consultar pessoas LGBT sobre se seria homofóbico sugerir que Carlos e seu primo Leo Índio são um casal, ou se chamá-lo de "Carluxo", como Leo o chama, pode ser homofóbico. É que pelo menos desde janeiro chamo Carlos de Carluxo, e, bom, não sou homofóbica, nem quero ser confundida com uma.
No início de abril, publiquei este tuíte ao lado, que teve bastante repercussão. À noite, participei de uma live do Diário do Centro do Mundo e me perguntaram se eu achava homofóbico referir-se a Carlos como Carluxo. Eu respondi que não, porque não vejo nada de errado se Carlos e Leo forem mesmo um casal. Muito pelo contrário, seria ótimo se uma família homofóbica tivesse um filho gay. E que, se Carlos se assumisse, ele poderia talvez impedir que o governo pisasse nos LGBTs.
Mas, né? Não é o meu lugar de fala, pois sou hétero. Eu já tinha sido avisada por LGBTs que sugerir a homossexualidade de Carlos seria homofobia, assim como me apontaram a homofobia no famoso grafite do beijo entre Trump e Putin e na charge do "patriota" Jair na cama com Trump. Mas admito que ainda tenho dificuldade em ver homofobia nesses exemplos.
Então pedi para pessoas LGBT que me seguem no Twitter que manifestassem suas opiniões sobre isso (não apenas restritas ao deslize de Haddad, mas em geral). Queria colocar aqui -- quero ainda -- vários pontos de vista. Hoje vou publicar dois textos, e amanhã publico outros. Os de hoje têm basicamente o mesmo ponto de vista.
Eis o texto de Thaís Lamblet, escritora, ativista, feminista, LGBT, defensora dos direitos humanos.
Homofobia Velada
Desde que os boatos de que Carlos Bolsonaro e seu primo seriam, na verdade, um casal e que este mesmo primo o chamava de Carluxo, abriu-se um precedente para a homofobia, até mesmo para quem luta contra ela.
É sabido que não se deve confundir a reação do oprimido com a violência do opressor, e é exatamente por isso que a situação é tão paradoxal. No entanto, não deixa de ser homofóbica.
Carluxo, o apelido, não me parece uma demonstração do preconceito, considerando o contexto em que estiver inserido. Sob minha ótica, é uma forma debochada de se referir aos Bolsonaros -- considerando que todos têm apelidos, inclusive para podermos distingui-los.
Nos demais casos, quando usam o caso d’ele ser gay ou não: expor é uma decisão que só cabe a Carlos, ainda mais na família em que vive. Numa discussão ou como argumento apenas com o intuito de rebaixá-lo ou humilhá-lo, é o mesmo que fazem conosco todos os dias: homofobia. Temos mil argumentos políticos, coisas que eles não têm, para superá-lo em qualquer debate.
Comentei no parágrafo anterior sobre a família em que vive. Carlos Bolsonaro, se for gay de fato, suprimiu (ou tentou) tudo isso a vida inteira, transformou (ou tentou) em ódio tanto com ele mesmo quanto com o outro. Muitos fizeram isso. Muitos.
Não nos cabe arrancar alguém do armário, muito menos quando lutamos contra isso. Não nos cabe rir da orientação sexual de uma pessoa pelo fato dessa pessoa nos fazer tão mal mesmo nessa questão.
Atacar alguém por sua característica, seja essa pessoa quem for, só nos torna filhos desse sistema que lutamos contra. Preocupa-me que isso ainda seja pauta, porque eu me sinto pessoalmente ofendida quando vejo qualquer pessoa sendo ultrajada por algo que simplesmente não tem nada de errado e está longe de ser uma escolha.
Aqui o texto de Alex Carvalho, estudante de Rádio, Televisão e Internet.
A homofobia do Tweet de Haddad
Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que sim, votei em Haddad ano passado e que acho que qualquer repúdio a algum Bolsonaro é pouco. Entretanto, minha posição partidária não pode interromper meu senso crítico quanto ao reforço de preconceitos, mesmo que atitudes erradas venham dos meus correligionários.
Não acredito que Fernando Haddad seja um "esquerdomacho", e sim uma prova de que todos os homens, até os mais desconstruídos, cometem atos falhos. Também não vejo motivo algum para fazer um grande auê em cima do caso. Prefiro enxergar isso como mais uma oportunidade para debater determinados comportamentos masculinos e trocar experiências baseadas na vivência de cada um.
Vamos aos fatos: em uma discussão sobre o bolsa família, ao ser contestado por Carlos (que segundo boatos seria homossexual), Haddad vira a mesa e solta uma ironia a respeito do primo (que segundo os mesmos boatos seria companheiro de Carlos). A grande questão (e onde eu enxergo um comportamento errôneo) é: o que uma coisa tem em relação com a outra? E isso não é uma situação inédita quando somos (assumidos ou não) LGBTQI+ em qualquer debate.![]() |
| Mídia reaça explorando o caso |
Refletindo sobre a situação para escrever esse texto acabei regredindo a muitas experiências da minha vida, como na escola em momentos em que minha opinião por vezes foi abafada com um gracejo sobre minha sexualidade pelo engraçadinho da sala, ou no trabalho quando minha sugestão era preterida quando o coleguinha que não gostava de mim questionava minha sexualidade para fugir do contexto do tema debatido, e até mesmo dentro de casa, quando por vezes a sexualidade é posta como um parâmetro para a boa convivência familiar. Isso incomoda, e não é pouco.
Quando isso vem em forma de ironia incomoda primeiramente porque ser LGBTQI+ não é nada engraçado (ainda mais no Brasil de 2019), e olha que eu já perdi de vista as vezes em que a minha sexualidade foi posta na roda como forma de piada, ainda mais por gente que nem intimidade comigo tinha. É como se ser um gay (mesmo que assumido e seguro de sua sexualidade) fosse um canal aberto para que as piadinhas tivessem sinal verde para aparecer em assuntos que só dizem respeito a nossa intimidade.![]() |
| Opinião de Jean Wyllys |
Também me incomoda porque parece que, ao insinuar que Carlos é gay, Haddad invalida a opinião dele sobre toda a discussão que estavam tendo antes, e isso não é algo incomum. Podemos estar debatendo física quântica na ONU -- se a pessoa do outro lado tiver poucos argumentos, a sexualidade entra no assunto e o foco da discussão se perde.
Por fim, essa necessidade de questionar a intimidade do outro é uma coisa muito antiquada, ainda mais quando parte do Haddad; pois esse é o tipo de comportamento que espero da tia que pergunta das namoradinhas no almoço de domingo, não de um político sério que pretende presidir o país no futuro.
Para concluir, deixo bem claro que minha opinião em nada muda a imagem que tenho de Haddad e que isso não me traz 0.01% de arrependimento no voto que dei nele. Muito menos acho que após esse episódio Carlos seja um coitado que merece perdão por todas as bandeiras e bobagens que defende com veemência. Uma coisa não tem relação com a outra, e erros como esse servem apenas para oportunidades como esta de aprendizado e correção de comportamentos.

















































