Mostrando postagens com marcador finanças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador finanças. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 21 de março de 2022

VOCÊ FICA CADA VEZ MAIS POBRE E NEM NOTA

Reproduzo aqui este fio que o jornalista, doutor e mestre em Artes João Gustavo Melo publicou no seu Twitter. Muita gente se identificou, e com razão.  

O empobrecimento é um mal silencioso. Você vai se adaptando. Um mês, está comendo carne. Aí troca pelo frango. Aí troca pelo ovo. Depois, escolhe o arroz. Aquele, da marca que vc gosta, fica com preço inacessível. E de repente vc deixa de tomar o café para acordar da moleza.  

Aí vc vende o carro e passa a andar de Uber. Aí não tem mais Uber ou o preço tá proibitivo. Aí vai de metrô, se sua cidade tiver esse modal. Depois passa a ir de ônibus, porque é mais barato. Que nada, não é tão longe, começa a ir a pé. 

Aí vc sai uma vez por semana com a família para almoçar fora. De repente vc vê que não tá dando e passa a ir uma vez por mês. Mas vc vai se adaptando. Almoçar fora passa a ser ir na casa de familiares ou amigos. Mas daí vc passa a não ter como ir até lá. O dinheiro não dá. 

Aí vc vai ao cinema para distrair a cabeça. De repente, veja só, passa a ir na segunda que é mais barato. Mas aí também não dá mais porque aquele dinheiro passa a fazer falta para comprar comida. Aí vc passa a ver pelo streaming. Até que não consegue mais pagar internet.  

Lembra daquela viagem à Europa que vc fez em 2012? Um ano economizando, comprou euro aos pouquinhos, mas deu. Inesquecível. Aí a viagem ao exterior passou a ser aqui mesmo no Brasil. Avião que nada, bora de ônibus ali pra Iguaba. Aí férias significa usar o dinheiro pra pagar dívidas.

Aí vc está num emprego legal, que te dá dignidade. Filhão no colégio particular. Mas aí começa a rolar demissão. Eita! Aí bota o Enzo na escola pública. A demissão vem. Qualificado, espera vir logo uma vaga. Lembra do Uber? Agora é tu, só que a gasolina tá cara à beça. 

Enfim, este é o país do Bolsonaro. Mas daí ele te distrai requentando pautas que não te dizem respeito e não te afetam na hora de ir ao mercado. Mas vc tá lá, apoiando. Segurando no saco dele, acreditando que ele é o Messias. Lembra da carne logo no início? 

Pois é, né? Sabe o que houve? Teu bife virou ovo. A tua vida tá na merda. E vai piorar. Sabe por quê? Porque te fizeram acreditar só em mentiras. Porque te fazem crer que tá tudo bem. Olha ao redor, vê a lama que tu tá. Que nós estamos. O que melhorou na tua vida desde 2019? Pensa! E reage! 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

QUEM COMPRA EM SUPERMERCADO CONSEGUE APOIAR BOLSONARO?

Semana passada Silvio e eu fomos ao supermercado e gastamos, estupefatos, 375 reais. Compartilhei essa informação no meu Twitter e acrescentei: "Tudo bem que 100 foi em ração de gato, mas ainda assim... Tá tudo caríssimo! A gente não come carne bovina faz tempo, só frango e ovos -- que aumentaram pra caramba! Como alguém que compra em supermercado pode apoiar o Bolso?"

Um montão de gente bacana que me segue concordou, colocou quanto gasta a cada ida de supermercado, comparou preços, apontou o que todo mundo vem sentindo (uma enorme alta dos alimentos e o aumento da inflação, que foi quase 9% nos últimos doze meses, e que vários especialistas preveem que vá alcançar os dois dígitos logo). Mas um carinha que não conheço (embora já bloqueava) decidiu me atacar gratuitamente. Ele escreveu: "O típico elitismo da esquerda acadêmica que quer fazer cosplay de pobre enquanto o povo (povo mesmo!) está passando fome. Ganha R$11mil por mês, gasta R$100 com ração de gato e 'só' come frango e ovos". 

Só fiquei sabendo desse ataque de pelanca um dia depois, através de um motoboy de treta. Fui ao perfil dele e percebi de cara que era um cirista. Quem está no Twitter sabe que Ciro Gomes (não tão carinhosamente apelidado de Cinco Gomes ou Six Gomes, dependendo da pesquisa) vem investindo pesado no seu gabinete do ódio particular. Muitas vezes os cirobots só ficam devendo aos bolsobots em volume, porque a tática de vasculhar as redes sociais dos desafetos e tentar destrui-los é a mesma. 

No penúltimo parágrafo eu escrevi "atacar gratuitamente", mas não é gratuito. Não é picuinha, não é pessoal. É orquestrado. Eles têm seus alvos, e eu sou um deles faz tempo, já que nunca gostei do Ciro. Nesse caso, alguém da campanha dele achou que, na falta de coisa melhor, dava pra destacar o meu tuíte sobre supermercado. Um outro abriu uma conta com o único intuito de colocar um print do meu salário no Portal da Transparência (a conta foi apagada poucos dias depois). Um dos coordenadores, se não me engano um pastor, deu RT no tuíte com o print, e pronto, outros receberam a pauta.

Não foi exatamente uma ação bem sucedida, pois a imensa maioria das pessoas que comentaram o tuíte do "fiscal de salário", como o carinha foi chamado, acharam um absurdo a pegação no meu pé, explicaram que em nenhum momento eu disse que não podia comprar carne bovina, indagaram se classe média pode ter gatos, e, se pode, se deve alimentá-los, lembraram que 11 mil reais, apesar de ser um salário muito acima da média brasileira, ainda assim está longe de ser salário de rico, e, principalmente, perguntaram quanto tinham que ganhar pra ter o direito de reclamar dos preços no supermercado na sua rede social.

Creio que meu tuíte foi bem simples e auto-explicativo. Na minha Timeline, a discussão descambou pra quanto se gasta com animais domésticos. Algumas pessoas, brincando, quiseram saber como eu gastava tão pouco com meus quatro gatinhos. Em geral eles comem dois sacos de 3 quilos de ração por mês, que a gente compra quase sempre uma vez por mês. É ração comprada em supermercado (Whiskas, Friskies, Qualita), nada de luxo, mas o preço aumentou uma barbaridade (na semana anterior, no mesmo supermercado, a Whiskas 3 kg de carne para gato castrado estava em R$ 45; uma semana depois, tinha subido pra R$ 59!). 

Sei que essas rações não são boas, mas eu já tentei comprar uma que é considerada melhor, a Golden, e uma dos quatro gatos não gostou. Muita gente pontuou que vale a pena comprar saco de dez quilos (eu sei, minha vizinha compra). Trocamos ideias de como armazenar esse volume (a ração não fica menos fresca ao ser aberta?). Essas coisas bacanas e úteis que a gente faz no Twitter.

Desde 1997, eu anoto tudo que ganho e gasto. Creio que só assim é possível ter controle das finanças. Dessa forma, sei que em 2020 gastamos em compras de supermercado (o que inclui tudo menos algum creminho que eventualmente compramos em farmácia) um total de R$ 14.540, uma média de 1.212 por mês. Acho isso muito, muito alto pra um casal sem filhos. Em 2019, gastamos R$ 980  por mês. Em 2018, 928. Em 2017, 907. Este ano, até agora, a média não está tão diferente da do ano passado: são R$ 1.228 por mês.

Mas passamos por algumas mudanças alimentares. Por exemplo, barra de chocolate, meu vício, a gente agora só compra ocasionalmente, pra fazer algumas receitas. Carne bovina, que costumávamos consumir moída, de segunda (músculo), paramos. Desde novembro, passamos a fazer nossa própria mussarela caseira (faça você também: você transforma 200 gramas de mussarela em quase 2 quilos). Nossa maior mudança foi ter adquirido uma Air Fryer, em julho do ano passado. Vale muito a pena! Reduzimos nossa encomenda de comida pela metade (na realidade, é uma pizza em promoção por semana. Antes da Air Fryer eram duas). E a sobrecoxa de frango na fritadeira elétrica sem óleo fica tão incrível que a gente não se cansa de comer isso quase todo dia. 

Não sei se dá pra ver daí, mas nosso cardápio do dia a dia está longe de ser luxuoso. E, mesmo assim gastamos mais de R$ 1.200 por mês! Não consigo parar de imaginar o que os 19 milhões de pessoas em situação de fome (dois anos atrás eram 10 milhões), ou as milhões de pessoas recebendo R$ 300 de auxílio-emergencial, estão comendo. Ou melhor, não estão comendo.  

Quero dizer, até posso, porque a mídia de vez em quando noticia: fragmentos de arroz e feijão, pé e pescoço de frango, e doações de ossos de carne. Tudo cozinhado à lenha, por que desde quando quem sobrevive com 300 reais (ou mesmo com um salário mínimo de R$ 1.100) pode pagar mais de 100 por um botijão de gás?

Não consigo imaginar, sinceramente, qualquer pessoa votando neste governo da morte. Um governo cujo chefe maior, um genocida golpista medíocre, disse hoje mesmo que é preferível comprar fuzil que feijão, e que, mês passado, sua secretaria de comunicação divulgou uma arte comemorativa do Dia do Agricultor com uma homenagem aos capangas do campo, os Lázaros da vida. 

É óbvio que o Brasil não era nenhum oásis antes do golpe de 2016, antes das catastróficas eleições de 2018, antes de 2020, em que passamos a contar com a mais corrupta e incompetente liderança do mundo para lidar com a pior crise sanitária do planeta em mais de cem anos. Mas basta comparar o Brasil de hoje com o de alguns anos atrás pra medir o tamanho da destruição. 

Nunca vou me conformar. Nem perdoar. Já entender por que cirista defende Bolsonaro, eu até entendo. Não acho muito ético ou eleitoralmente eficaz, mas entendo.
Grande Cris Vector!

UPDATE:
Reportagem do Fantástico deste domingo mostrou que milhões de brasileiros estão mais pobres, mesmo os "privilegiados" que continuamos empregados durante a pandemia. A inflação de 9,30% corrói os salários: a conta de luz subiu 21% nos últimos 12 meses; gasolina, 40%; arroz, 36%, gás de cozinha, 31%. Claro que essa alta impacta muito mais as famílias mais pobres. Vão culpar quem? O PT que não está no governo há cinco anos? A pandemia que o governo genocida nega?

terça-feira, 1 de junho de 2021

EFEITOS NEFASTOS DA REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Publico hoje um texto anônimo deixado por um comentarista frequente, o Avasconsil, dando um exemplo prático de como a reforma da previdência foi péssima pros brasileiros (a gente avisou).

Para quem apoiou a reforma da previdência sem entender o resultado, eis um caso concreto do resultado:

Antônio, depois de muito estudar, virou técnico judiciário do TRT. Infelizmente, não resistiu à COVID que contraiu e morreu com 44 anos. Com 15 anos de serviço no Tribunal, deixou esposa de 40 anos e um filho de 11 anos.

Após o luto, a esposa de Antônio deu entrada na papelada pra ficar com a pensão do seu companheiro de 15 anos. Lá, a servidora da Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP) lhe explicou o seguinte:

1) Como Antônio ingressou em 2006 no serviço público, não tem direito à aposentadoria integral e já pegou a regra da média das contribuições.

2) Como a esposa de Antônio tem 40 anos, não terá direito à pensão vitalícia. Só poderá contar com a pensão pós-morte durante 15 anos.

3) Após calcular a média das contribuições de Antônio, a Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP) chegou à conclusão de que essa média foi de 8.000,00 (valor presente).

4) A SGP explicou à viúva de Antônio que, como o servidor morreu com 15 anos de contribuição, o cálculo será feito com base em 60% da média das contribuições, o que dá 4.800,00.

5) A viúva de Antônio ainda ficou sabendo que, como o servidor deixou dois dependentes, a pensão será paga da seguinte forma:

- 70% de 4.800 até o filho completar 21 anos, o que dá 3.360,00 (por mais 10 anos) para a família e

- 60% de 4.800,00 (2.880,00), por mais 5 anos.

- Depois de 15 anos, a viúva perderia a pensão pra sempre.

A viúva de Antônio, que está desempregada, saiu de lá arrasada e pensou como fará pra pagar as contas do mês, incluindo o aluguel de um apto de 2 quartos na Zona Norte.

Quando a gente não luta contra a retirada de direitos, não adianta chorar depois! Essa foi a reforma da previdência, que foi aprovada pelo Governo Bolsonaro!

Portanto, agora temos que lutar contra a Reforma Administrativa e a favor da manutenção da estabilidade.

E aqui um texto do próprio Avasconsil:

"NÃO VOU MAIS ADOTAR POR CAUSA DA REFORMA"

Foi por causa da reforma da previdência que eu abandonei a ideia da adoção. Pensava em adotar uma criança. Desisti e decidi poupar o que gastaria com ela pra minha própria velhice. Ou para uma eventual invalidez, que nunca se sabe. A aposentadoria por invalidez também é péssima. Só é integral se a enfermidade tiver nexo causal com o trabalho. Tenho certeza de que não vou ser o único a desistir de ter filho, biológico ou adotivo, por causa da reforma da previdência e das outras reformas neoliberais. 

Ou seja, a reforma da previdência e as outras reformas vão acelerar o envelhecimento da população, pois muita gente da classe média não vai ter filhos. Isso vai fazer a previdência ter mais déficit num futuro que vai chegar mais cedo, num círculo vicioso da pobreza e do empobrecimento, pois novas reformas virão mais na frente. Possivelmente até com o fim da Constituição Federal de 1988 e seus muitos direitos, como férias e décimo-terceiro. Porque é difícil demais ser rico no Brasil. 

Deu pra perceber que o círculo vicioso da pobreza e do empobrecimento não vai acabar nunca. Quanto menor a resistência e maior o silêncio coletivos, pior vai ser. Você aí que tem filhos e netos: já se perguntou como eles viverão quando estiverem adultos? Até o mercado do Uber pode saturar. E não é todo mundo que leva jeito pra enriquecer como "influencer". Nas próximas eleições pense melhor antes de dar seu voto ao neoliberalismo. Quanto mais neoliberal o candidato, pior pra você pra sua descendência. Foram mais de 57 milhões de pessoas estúpidas em 2018. Tomara que em 2022 sejam menos. Bem menos. O máximo possível menos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

ASILO É O CAC*TE

Este singelo post foi publicado há duas semanas no FB de Elba Barbosa. Reproduzo-o aqui, com algumas observações no final. 

O casal que fazia um cruzeiro no Mediterrâneo notou uma senhorinha e a tripulação do barco, garçons, ajudantes etc. Todos muito íntimos dela. O casal perguntou ao garçom sobre a velhinha e descobriu apenas que ela estava a bordo nas últimas quatro viagens, ida e volta. Uma tarde, finalmente, o casal abordou a senhora e perguntou sobre as viagens. E ela respondeu singelamente.

“Ficar viajando, ida e volta, sai mais barato que um asilo para velhos nos Estados Unidos. Não ficarei num asilo nunca e, de agora em diante, fico viajando nesses cruzeiros até a morte”.

E continuou: “O custo médio para se cuidar de um velho nesses asilos é de US$ 200 por dia. Ganho desconto quando compro os cruzeiros com bastante antecipação, somado ao desconto para pessoas de mais idade. A viagem me sai US$ 65 diários e mais: pago US$ 10 dólares diários de gorjetas. Tenho mais de dez refeições diárias se vou aos restaurantes. Posso ter o serviço na minha cabine, o café da manhã na cama todos os dias da semana. O barco tem três piscinas, um salão de ginástica, lavadoras e secadoras de roupa grátis, biblioteca, bar, internet, cafés, cinema, show todas as noites e uma paisagem diferente a cada dia. Creme dental, secador de cabelo, sabonetes e xampu. Sou muito bem tratada como cliente, não como paciente. 

E completou: "Conheço pessoas novas a cada sete ou 14 dias. TV estragada? Trocar a lâmpada, o colchão? Não tem problema. Lavam a roupa de cama todos os dias. Se cair e me machucar em algum barco da empresa, vão me acomodar em uma suíte de luxo pelo resto da vida. Agora, o melhor. Viajo pela América do Sul, Canal do Panamá, Taiti, Caribe, Austrália, Mediterrâneo, Nova Zelândia, pelos fjords, pelo rio Nilo, Rio de Janeiro, Ásia. Basta escolher. Por isso, não me procurem num asilo para velhos. Viver entre quatro paredes e um jardim como paciente de hospital? Nunca! Ah! Se eu morrer, me atiram ao mar, sem nenhum custo adicional. Para que vou parar de viajar?”

Minhas observações. Primeiro: é verdade sim que asilos para idosos nos países ricos são caríssimos, mas não tanto quanto 200 dólares por dia (embora aqui apresentem uma figura ainda mais alta, e outras cifras indiquem mais de 900 dólares a diária!). Em média, para um idoso ter um quarto particular com cuidados de saúde custa US$ 8,517 por mês. Ainda assim, muito mais do que ganha um aposentado, que recebe entre 44 mil e 67 mil por ano. 

Ou seja: é bacana a dica da senhora do cruzeiro (óbvio que não em tempos de pandemia), mas isso é para muito poucos. Pra quem ganha em real, então... Os 75 dólares diários (porque deixar de dar gorjeta não é opcional) equivalem a cerca de 412 reais por dia, ou mais de 150 mil reais por ano. E outra: é mais apropriado calcular em euro, não em dólar, porque tudo num cruzeiro é cobrado em euro, ainda mais caro que o dólar.

Existe sim a possibilidade de se aposentar num cruzeiro, o que, apesar de caro e disponível para pouquíssima gente, ainda pode ser mais barato que outras opções, cerca de US$ 213 por dia, ou quase 80 mil dólares (R$ 440 mil) por ano por pessoa (lembrando-se: esta é a média. Há cruzeiros mais baratos e outros, de luxo, muito mais caros). Existem programas específicos para aposentados que querem viver num navio (spas, compras, academia de ginástica, enfermaria a bordo, acessibilidade). 

Em compensação, a maior parte dos cruzeiros não permite ter bichos de estimação. Mesmo que você tivesse essa fortuna, conseguiria viver sem seus gatos ou cães? Onde você guardaria o que tem? Outra coisa: wi-fi em cruzeiros é super caro e não é boa. Não faz parte da tarifa. Viver num cruzeiro é basicamente viver sem internet. Ah, e outra: você vai precisar ter um plano de saúde. E você ainda paga imposto de renda.

Ao contrário do que sugere a senhora, quem morre num cruzeiro não é atirado ao mar. Duzentos passageiros morrem por ano em cruzeiros, a maioria de causas naturais, porque boa parte do público desses navios é de aposentados acima de 70 anos. Ser romanticamente jogado no mar não é uma alternativa. Em geral, os cadáveres são discretamente guardados numa espécie de necrotério no navio, e entregues no porto mais próximo (alguns países se recusam a ficar com o corpo). Depois cabe à família do morto lidar com toda a burocracia e com os custos de transportar a pessoa para onde ela vivia. 

Lógico que viver num cruzeiro parece ser muito mais bacana para passar o fim da vida que um asilo, mas não acho que seja esse passeio não.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

GUEST POST: MULHERES PRECISAM CADA VEZ MAIS TER EDUCAÇÃO FINANCEIRA

Eu me interesso muito pelo tema de finanças pessoais e creio que educação financeira deve ser uma matéria em algum momento da vida escolar. Afinal, lidamos com dinheiro todos os dias. E quem se descontrola, gasta demais, acumula dívidas, tem sua vida muito prejudicada.

Cada vez mais o tema é importante para as mulheres. Afinal, mulheres não apenas ganham menos na média, como geralmente são responsáveis pelo trabalho não remunerado de cuidar dos filhos e da casa. Como uma dona de casa que não trabalha fora e não tem renda própria pode ter algum tipo de independência financeira?  

Publico hoje com muita honra o guest de post de Cássia D'Aquino, especialista em Educação Financeira. 

A relação dos humanos com o dinheiro não é complicada de hoje. Assim que surgiu o dinheiro surgiu também a necessidade de se pensar sobre ele. Não por acaso, há quase 3 mil anos, Aristóteles, em um texto endereçado a seu filho (“Ética a Nicômaco”), recomendava prudência nos gastos, incentivava a formação de poupança e abominava a sovinice e ostentação.

Se dinheiro é um assunto complexo para todo mundo – Freud dizia que era um tabu ainda mais velado que sexo – para as mulheres esse tema é especialmente sensível. Milênios de história não variaram a tônica usual: o homem manipula o dinheiro "sério" e  dinâmico; enquanto a mulher se mantém distante do cerne da questão, falsamente desapegada – circunscrita à gerência do dinheiro do domus -- ou, no oposto, infantilizada no usufruto do dinheiro masculino. 

No correr dos séculos, a conquista feminina do dinheiro passou por altos e baixos, em um movimento pendular que ora permitia passos em direção à autonomia, ora cerceava sem dó nem piedade. Assim, para citar um exemplo, no Egito de 2.400 aC, os maridos deviam obediência às mulheres e, em casa, eram considerados inquilinos. E muito embora as mulheres possuíssem a terra apenas em usufruto -- já que o solo pertencia à realeza e aos sacerdotes --, era a elas que cabia o poder econômico. Assim foi ate que, no século III, Ptolomeu Filopátor decretasse que para alienar seus bens a mulher deveria obter a autorização do marido. Acabou-se o que nos era doce.

Cigarras e formigas, simultaneamente menininhas avoadas, gastadoras, repreendidas pelo marido/pai e administradoras exemplares do orçamento doméstico, a ideia que foi sendo construída é a de que mulheres são “naturalmente” irresponsáveis, atrapalhadas, incapazes de lidar com o dinheiro.

Ainda hoje, avançados no século XXI, é comum que o dinheiro que trabalha – o dinheiro que faz dinheiro -- seja percebido como viril.  No imaginário, à mulher ainda cabe ao dinheiro que transita: o dinheiro que some.

A falta de equidade salarial, uma das reinvindicações feministas mais insistentes, está aí como o sol: desde sempre. Três mil anos atrás, conta a Bíblia, quando se estabelecia o valor do trabalho de um ser humano em preço, o dos homens valia 50 siclos de prata; o das mulheres, 30. Em 1959, a proporção era virtualmente a mesma. Em 1987, a revista  Money fez uma pesquisa e detectou que as mulheres recebiam, para cada dólar auferido pelos homens, 64 centavos, o equivalente a 32 siclos. De lá para cá não melhoramos muito.

Daí a importância das mulheres terem a chance de aprender a lidar com dinheiro. Recebendo menores proventos é fundamental que sejamos criteriosas no uso e aplicação das finanças. Afinal, a gente sabe o quanto nos custa competir no mercado de trabalho.  

Muito embora seja verdade que nas últimas décadas o incipiente interesse masculino pelos assuntos da casa colabore para que possamos nos ocupar de decisões financeiras para além do lar, como a compra de seguros e escolha de investimentos, a participação feminina no mundo do dinheiro "sério" ainda é muito reduzida. 

As consequências do desconhecimento dos assuntos financeiros fragilizam a posição da mulher no mundo. Inibem a tomada de decisões, acobertam violências, prolongam relações que há muito deixaram de ser afetivas. 

Nada é mais libertador que ser dona do próprio dinheiro. Assim como não há nada mais sexy que uma mulher que ama ou desama conforme lhe dita o coração, livre das amarras da ignorância sobre o dinheiro. Precisamos romper mais essa barreira!