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terça-feira, 14 de novembro de 2023

IRINA KARAMANOS, A MAIS JOVEM EX-PRIMEIRA DAMA DO CHILE

Publico aqui mais um excelente post da nossa correspondente oficial no Chile, a jornalista Isabela Vargas (que, além de jornalista, também é mãe da Gabriela, feminista e integrante da coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile). 

Perguntei pra ela se lá no Chile as pessoas andam preocupadas com as eleições da vizinha Argentina, que no domingo pode eleger o maníaco da serra elétrica Javier Milei, causando um grande estrago em toda a América Latina. Ela respondeu que no Chile todos estão em campanha contra o texto da nova constituição, que foi escrito por um conselho constitucional formado pela extrema-direita. O plebiscito está marcado para o dia 17 de dezembro. "Torce por nós!", pede ela. "Tem muito retrocesso no novo texto. Consegue ser pior que a constituição do Pinochet".

A gente não tem um minuto de paz! Mas leiam sobre essa decisão da (ex) primeira-dama chilena e avaliem se pode influenciar outras primeiras-damas. Nossa Janja, sabemos bem, é alvo constante da extrema-direita daqui, mas parece gostar de ser primeira-dama (ela tem opção?). Eis o post da Isabela:

Na última semana, as redes sociais do Chile sacudiram com trechos do TED Talk com a ex-primeira-dama chilena Irina Karamanos Adrian. Num dos vídeos, ela explica os motivos que a levaram transformar o papel tradicionalmente atribuído às companheiras dos presidentes eleitos nas democracias modernas.

O argumento é muito interessante e bastante válido. Na visão de Irina, o cargo de primeira-dama é resultado de afeto e não de um processo democrático. Por conta disso, ela abandonou o cargo em dezembro de 2022, mas antes disso, fez as transformações necessárias.

Na apresentação do TED Talk, Irina explica que nem ela, nem ninguém mais, sonha com ser primeira-dama do Chile, quando se pensa em um futuro profissional. No caso dela, é fácil de entender, especialmente, porque além de feminista, militante do mesmo partido do Gabriel Boric (Convergencia Social), ela tem um excelente currículo, especialmente na área acadêmica.

Irina é formada em Artes Visuais e estudou Ciência Política, Educação e Antropologia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Além disso, tem diploma em Diversidade Linguística pela Universidade Autônoma de Barcelona.

Aliás, em se tratando de diversidade linguística, o currículo dela realmente impressiona. Ela fala espanhol, alemão, inglês, indonésio básico e grego. Recentemente, começou a estudar Kawésqar, língua do povo originário no extremo-sul do Chile e que é falada por apenas uma pessoa.

Na apresentação do TED Talk, ela explica que enfrentou muitas críticas no início do governo Boric, quando tomou a decisão de assumir o cargo de primeira-dama. Apesar de ter deixado claro desde o início que a sua intenção era fazer uma mudança nos rumos do gabinete, as principais organizações feministas no Chile não gostaram nada.

Mesmo assim, ela encarou de frente o desafio e começou o trabalho. Aos poucos, foi repassando as fundações ligadas ao gabinete para determinados ministérios. O trabalho foi concluído em dezembro do ano passado, quando ela anunciou sua saída do Palácio La Moneda.

Oficialmente, Irina Karamanos continua acompanhando Gabriel Boric em eventos protocolares. No entanto, ela agora retomou a sua militância política dentro do partido que os dois fazem parte, além de participar dos TED Talk.

Em sua primeira participação, ela teve a oportunidade de contar como está combatendo os estereótipos de gênero. Para Irina, ao abandonar e extinguir o gabinete de primeira-dama, ela está devolvendo o poder político a quem realmente pertence, ou seja, para pessoas que foram diretamente eleitas pelo voto e, desse modo, protegendo a democracia.

Considerando que os dois são muito jovens (ela tem 32 e ele, 37) e de uma geração que veio realmente para promover mudanças na velha estrutura tradicional da politica, me parece muito interessante a atitude dela. Vamos ver se os próximos governos eleitos irão manter e respeitar essa inovação.

Um dos trechos da palestra dela que mais me chamou a atenção foi quando ela mencionou como temos forte no nosso imaginário a imagem do homem sempre acompanhado, principalmente, aqueles que ocupam cargos de poder. 

E não pude deixar de lembrar do Boric na cerimônia de abertura dos Jogos Pan Americanos sozinho, brincando com o sobrinho dele, um bebê de apenas alguns meses nos braços.  A primeira coisa que eu pensei: onde está a Irina?

Por outro lado, nunca me causou estranheza ver a Dilma sozinha, acompanhada da filha e do netinho em eventos protocolares importantes. Assim como a Bachelet, que desempenhou os dois mandatos [de presidenta do Chile] como uma feliz divorciada. Realmente, são estereótipos que levam muito tempo para se desconstruir. O importante é que a Irina Karamanos está dando os primeiros passos para romper essas estruturas. Acho que isso é super válido.

Se realmente, veremos essas mudanças respeitadas no futuro, não temos como saber. O que estamos testemunhando agora é uma grande inovação, num mundo que está mudando muito, especialmente no Chile, onde as mulheres e o movimento feminista cada vez mais ocupam seu legítimo espaço na disputa política.  

Eu observo com muita alegria esse movimento porque minha filha de 8 anos já tem assimilado que o futuro é feminino. Recentemente, estudando os gregos em História no colégio ela ficou chocada quando viu que as meninas não recebiam educação escolar, somente os meninos. É muito bom saber que daqui pra frente, as mulheres querem sair desse espaço de estar à sombra de alguém simplesmente porque elas não querem e sabem que podem mais. 

terça-feira, 5 de julho de 2022

GAROTAS SÓ QUEREM TER DIREITOS

Outro dia alguém colocou uma imagem pra comemorar o aniversário de 69 anos da Cyndi Lauper: ela com uma camiseta incrível que diz "Girls just want to have fun/damental rights". Como todo mundo que viveu a década de 80 sabe, é um trocadilho com um grande sucesso da cantora. A gente tentou traduzir, mas o trocadilho se perde. O melhor que conseguimos fazer foi aproximar "diversão" de "direitos" (obrigada, Koppe querido!). De qualquer jeito, eu gostaria de ter uma camiseta feministona dessas.

terça-feira, 26 de abril de 2022

DA PARAÍBA PARA O MUNDO, UM PROJETO FEMINISTA

A jornalista Taty Valéria, jornalista de João Pessoa, é alguém que eu admiro muito. Admiro também seu projeto, o Paraíba Feminina, que infelizmente vai hibenar por um tempo, por causa da falta de patrocínio. Reproduzo aqui o seu texto:

O projeto Paraíba Feminina entrou no ar em maio de 2019, primeiro o blog, depois o instagram, e agora o Podcast.

O blog virou portal, o Instagram está perto da marca do 20 mil seguidores e as fronteiras paraibanas foram abertas.

Participei de seminários, mesas de discussão, eventos diversos e meu grande mimo: formação sobre mídia e violência de gênero para inúmeras turmas do ensino médio da rede pública e do EJA – Educação para Jovens e Adultos. Esses espaços foram especialmente preciosos pois consegui chegar num público que não tem familiaridade com os termos acadêmicos, assim como eu própria não tenho, e essa “conversa” dentro de uma linguagem acessível e entendível, de ambos os lados, conseguiu atingir exatamente o meu objetivo, levar informação para quem busca por ela.

Nesse tempo, produzi matérias que ajudaram a levar abusadores e assediadores para a justiça. Denunciei, investiguei, conversei com mulheres que ainda passavam pela dor do trauma. Ouvi muito choro e chorei também. Ouvir e destrinchar conteúdos tão densos consumiu minha saúde mental e cheguei muito perto de um colapso, e não foi só uma vez.

Sofri ameaças de morte e por um tempo, fiquei com medo de sair de casa. Precisei fazer Boletim de Ocorrência. Meu nome consta como testemunha em dois processos que correm na justiça.

Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantada por tudo o que faço. Me identifiquei, em maior ou menor grau, com todas as histórias que acompanhei e contei. Chorei por mulheres que eu nunca vi. Me indignei por injustiças que nunca irão me atingir. Mas é disso que é feita minha essência.

É possível que você já tenha ouvindo de mim a expressão “O Paraíba Feminina é como um filho caçula: dá muito trabalho, dá muito gasto, mas me enche de orgulho”. Esse sentimento permanece, e por isso me dói tanto a expectativa de fechar a página.

Estamos em ano de eleições. O conteúdo do portal não é “interessante” dentro do contexto de um estado que respira e vive de política a cada dois anos. É a política local que movimenta a mídia e todas as esferas de poder. Sim, tudo é política, inclusive os feminicídios, os abusos, as violações, os autoritarismos e as injustiças. Mas a discussão política que esses fatos geram, não rende votos. Eu tenho total consciência, sem falsa modéstia, que sou muito boa no que faço. Tenho total consciência que esse portal tem um potencial imenso. Mas, como disse, isso não rende votos.

A culpa é de quem? Do governo? Da prefeitura? Dos deputados? Vereadores? Senadores? Se não apontar um culpado, qualquer denúncia vira poeira. Uma palavra mal colocada numa manchete pode gerar suspeitas de apadrinhamento. Uma postagem no twitter leva a especulações. Uma curtida no instagram em determinado perfil é um atestado de apoio. Um encontro aleatório num samba qualquer do Centro Histórico vira debates eternos nos gabinetes da vida. Sim, você precisa se posicionar! E eu me posiciono sempre, minhas preferências políticas jamais foram segredo, mas isso não é suficiente.

Desde o meu primeiro emprego como estagiária, e lá se vão 20 anos, jamais saí fechando portas. Mantive e mantenho a amizade e contato com todas as pessoas que trabalhei desde então. Algumas se tornaram íntimas, firmes como rocha. Os grandes se aliam, brigam, se aliam novamente, isso não me interessa. Como costumo dizer, sempre fui da baixa patente, e minha relação com ela continuou intacta com quem sem propôs a isso.

Voltando para o objetivo desse texto: caso algo muito sensacional não aconteça nos próximos dias, o portal Paraíba Feminina vai entrar em período de hibernação a partir do dia 1º de maio. Não há meios financeiros de mantê-lo. Além de mim, outros profissionais também dispõem de tempo à ele. Existem impostos. Existem atualizações. É preciso dedicação para apurar, escrever. A qualquer nova pauta que chega, preciso avaliar se aquilo vai atingir alguém de alguma forma e preciso decidir se ela é publicável, ou não. Essa análise me fez engavetar dezenas de fatos que seriam, e ainda são, de interesse público, e isso vale para todos os lados. TODOS OS LADOS. Não estou culpando A ou B. Estou culpando o alfabeto inteiro, e isso me inclui também.

Sonhos não pagam boletos, sonhos não me protegem de ameaças explícitas e veladas. Sonhos só me protegem da realidade, que está posta: não existem meios de realizar um jornalismo independente no estado da Paraíba.

O Instagram e o Podcast irão continuar e a campanha no Apoia.se continua firme, as doações pelo pix (pbfeminina@gmail.com), idem. Gratidão para quem colaborou e vai seguir colaborando. Sigam o Paraíba Feminina, comentem, compartilhem, ouçam.

Quando o gelo do inverno derreter e as flores da primavera voltarem a nascer, eu volto com uma linda margarida presa no cabelo.

Gratidão a todos, e desculpem qualquer coisa.

terça-feira, 8 de março de 2022

8 DE MARÇO É TAMBÉM DIA DE BOLSONARO NUNCA MAIS

Todo 8 de março (aliás, todo dia) é dia de luta, de combater retrocessos, de celebrar conquistas. Mas nos últimos anos, sob um governo fascista e assumidamente misógino, racista e LGBTfóbico, esta data tão importante se tornou ainda mais um marco da resistência. Nós somos a resistência!

Ano passado, por causa da pandemia, tivemos poucos atos no 8 de março. Mas agora (vacinadas e usando máscaras) estão marcados vários protestos por todo o país. Um dos motes é "Pela vida das mulheres: Bolsonaro nunca mais! Por um Brasil sem machismo, racismo e fome". 

O pior governo da história do país piorou a vida de todo mundo, principalmente das mulheres, e principalmente das mulheres negras, o grupo mais precarizado. A gente se lembra quando Bolso repetia, durante a campanha de 2018, que brasileiros teriam que escolher entre mais empregos e menos direitos. Pois bem, chegamos ao último ano desta administração que destruiu o Brasil com menos empregos, menos direitos, menos renda. 

E é emblemático do que o país se tornou que um governo tão catastrófico, tão corrupto, tão genocida, com mais de 650 mil mortos por covid, termine seu mandato. Ninguém tem a ilusão de derrubar Bolso com um impeachment agora. Vai ter que ser nas urnas. Mas o nosso #EleNão, o nosso Bolsonaro Nunca Mais, tem que ser gritado todos os dias, não só em outubro. Engana-se quem pensa que será fácil derrotá-lo. Não será. Mas nós mulheres vamos derrotá-lo. As mulheres em sua maioria repudiam Bolsonaro. E não haverá outra fakeada para tentar humanizá-lo. 

Veja aqui onde será o ato na sua cidade (mais de 40 cidades têm manifestações marcadas), e participe. Se não puder ir, faça a sua parte nas redes sociais. Eu infelizmente não poderei sair às ruas porque tenho duas palestras online, de manhã e à tarde. Mas vamos todas lutar juntas, cada uma do seu jeito, para varrer o genocida e tudo que ele representa para a lata de lixo da história. Bolsonaro Nunca Mais!


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

MORRE BELL HOOKS, ÍCONE FEMINISTA E ANTIRRACISTA

Por causa da confusão que está a minha vida, só fiquei sabendo hoje da morte (ontem) da maravilhosa e apaixonante afro-americana bell hooks, uma inspiração para mim e para tantas outras mulheres (e muitos homens também, e para o movimento negro em geral). Quem vê minhas palestras e entrevistas percebe que eu sempre cito a hooks, principalmente na sua definição do que é feminismo: uma luta contra todas as opressões. Não me conformo que ela tenha morrido tão jovem, antes de completar 70 anos. 

Reproduzo aqui o texto da Juntos! 

O legado de bell hooks para a construção de uma luta antirracista: em defesa de uma educação emancipadora e feminista!

Uma perda irreparável ecoa entre os militantes da causa antirracista: a grande teórica feminista negra bell hooks nos deixa um legado histórico!

Autora de mais de 40 obras de temáticas distintas, como racismo, feminismo e educação, bell hooks faleceu nesta tarde de 15 de dezembro de 2021, devido a complicações de saúde nos Estados Unidos, mas rodeada de familiares e amigos. Glória Jean Watkins (seu famoso pseudônimo bell hooks homenageia sua bisavó materna) nos deixa aos 69 anos, porém com grandes contribuições à luta antirracista.

A teórica, dentre suas diversas colaborações, mostrou por meio de seus escritos a importância de uma educação libertadora, a qual coloca no centro a perspectiva de um ensino voltado para os estudantes e que este processo não seja apenas uma transmissão de conhecimento. Pelo contrário, hooks acreditava que a educação poderia ser um processo divertido e emancipatório, porém sem perder o rigor e o compromisso com o aprendizado.

No movimento feminista, bell hooks se destacou pela forma de escrita didática que tinha como objetivo, para além de compartilhar seus acúmulos teóricos, contribuir para a construção de um movimento que abordasse a realidade das mulheres negras e trabalhadoras. A luta antiracista e antissexista passa obrigatoriamente pela luta pelo fim do capitalismo.

Além disso, bell hooks deixa um legado histórico com suas obras, que ensinavam sobre a potência dos afetos nas lutas que travamos. Se tornou uma referência nos movimentos sociais que se colocam para pensar uma sociedade que rompa com as opressões de classe, gênero e raça. Para a juventude negra, bell hooks não é apenas uma teórica, mas uma pessoa que através de seus escritos nos mostra a potência que temos quando rompemos o silêncio que nos é imposto por uma sociedade estruturalmente racista.

Refletir sobre a atualidade desta importante autora para a história do movimento negro a nível internacional nos traz conclusões da urgência da centralidade na luta antirracista, bem como a necessidade de pensar a educação como mudança social. Esta discussão precisa se incluir na defesa de uma educação que valorize os talentos existentes nas escolas públicas, não apenas como reprodutores de uma educação bancária (que apenas recebe o conhecimento dado pelo professor), mas também como agentes transformadores dessa realidade e que colocam suas vivências nesta relação. Este debate está conectado com a defesa da renovação das cotas étnico-raciais nas universidades em 2022, visto que a Lei 12.711/2012 mudou o perfil universitário, porém ainda precisa de mais tempo como método de reparação histórica das desigualdades sociais em que se encontra a população negra. A política de cotas é a ferramenta para novas oportunidades na vida de milhares de negros e negras brasileiros.

Além disso, a autora nos ensina a necessidade de organização da negritude em torno de reivindicações centrais em defesa de políticas públicas não apenas para reparações na história do povo negro, mas para avançar na consciência social sobre os danos do racismo e de estigmas negativos à população negra e sua cultura. Para isso, é importante o aquilombamento do povo negro, a transição do silêncio para a fala como um ato de revolução em prol das nossas lutas, construir um projeto antirracista, anticapitalista e de mudança da cultura política brasileira.

bell hooks, presente!

Ela escrevia livros para crianças também.

quarta-feira, 17 de março de 2021

GUEST POST: NO PATRIARCADO, É O GÊNERO QUE DETERMINA O LUGAR DAS MULHERES NA SOCIEDADE

Em 2019 um livro feminista importantíssimo, A Criação do Patriarcado, foi finalmente publicado em português pela editora Cultrix, com tradução de Luiza Sellera. Eu tive a honra de escrever o prefácio. Já fiz um vídeo sobre isso.  

Outro dia a Ana Luiza Marques, que mora em Lisboa, escreveu uma thread falando sobre o livro de Gerda Lerner. Se você ainda não leu a obra, leia! Realmente vale a pena!

Uma thread sobre como, quando e por que a submissão feminina passou a existir, de acordo com Gerda Lerner, em A Criação do Patriarcado, uma perspectiva interessante que desconstrói muito do que vem sendo disseminado até hoje.

Para Lerner, a divisão sexual do trabalho, com base na “superioridade” natural do homem, é uma sentença que continua em voga tanto quanto era nos primórdios da sociedade humana. Em uma das passagens do livro, a autora destaca que “a consequente explicação da assimetria sexual coloca as causas da submissão feminina em fatores biológicos pertinentes aos homens”. Não é à toa que o homem-caçador, pela sua maior força física e pela experiência no uso de ferramentas e armas, “naturalmente” é quem protegerá e defenderá às mulheres. Mas, como contraponto, na maioria dessas sociedades a caça de grandes animais, realizadas pelo homem-caçador, é uma atividade auxiliar, “enquanto o fornecimento dos principais alimentos vem de atividades de coleta e caça de pequenos animais, que mulheres e crianças executam”.

Ainda de acordo com Lerner, antropólogas feministas em estudos mais recentes estão desconstruindo muitas dessas generalizações iniciais em que a dominação masculina era reconhecida de maneira universal. Acerca disso, constatou-se que as tarefas realizadas tanto por homens, quanto por mulheres, eram indispensáveis para a sobrevivência do grupo, “e o status de ambos os sexos era considerado igual na maioria dos aspectos”. Portanto, nessas sociedades os sexos eram considerados “complementares”; de modo que seus papéis e status eram diferentes, mas nivelados. 

O argumento religioso, por sua vez, também contribuiu com o discurso de dominação masculina como universal e natural, pela atribuição que a mulher é submissa ao homem, porque assim foi criada por Deus. Considerava-se que, se mulheres foram criadas por planejamento divino e apresentavam uma função biológica diferente da dos homens, a elas também deveriam ser concebidas tarefas sociais diferentes. Ou seja, se Deus e a natureza assim fizeram, ninguém pode ser culpado pela desigualdade e muito menos a dominação masculina, consequentemente interligada com a divisão sexual do trabalho. 

Com o tempo a defesa tradicionalista da supremacia masculina mudou, especialmente quando a explicação tradicionalista da inferioridade das mulheres teve respaldo “científico”. Defensores científicos do patriarcado justificavam a definição de mulheres pela função materna e pela exclusão de oportunidades econômicas e educacionais como algo necessário para a “sobrevivência da espécie”. Nessa perspectiva, a menstruação, a menopausa e até mesmo a gravidez eram vistas como debilitantes, doenças ou condições anormais que incapacitavam as mulheres, considerando-as inferiores.

Gerda Lerner também aponta que as teorias de Freud reforçaram a explicação tradicionalista. Ainda que muitos aspectos da teoria freudiana se provem úteis na construção da teoria feminista, a autora destaca que a máxima para mulheres de que “anatomia é destino” corroborou para o argumento de supremacia masculina. 

Desse ponto de vista, as aplicações da teoria freudiana à criação de filhos somadas à literatura popular de autoajuda, segundo a historiadora, “deram novo prestígio ao velho argumento de que o principal papel da mulher é ter e criar filhos”. Lerner inclusive considera que a “doutrina freudiana popularizada [...]  se tornou literatura consagrada para educadores, assistentes sociais e o público geral da grande mídia”. 

Um importante apontamento que ela faz aos tradicionalistas é que estes aceitaram as mudanças culturais pelas quais libertaram os homens da necessidade biológica, a exemplo da substituição do trabalho físico pelo trabalho de máquinas. Todavia, mantém as mulheres ainda no patamar eterno e imutável de servirem à espécie por meio de sua biologia, atribuindo o papel da natureza em detrimento da cultura.

Ela afirma que independentemente de características como agressividade ou nutrição serem transmitidas por meio da genética ou da cultura, a agressividade pode ter tido o seu papel funcional na Idade da Pedra, mas vem ameaçando a sobrevivência na era nuclear.

Gerda Lerner conclui esta discussão com uma premissa muito importante: que os atributos sexuais são fatos biológicos, mas GÊNERO é produto de um processo histórico. 

Desse modo, entende-se que o fato das mulheres terem filhos se deve ao sexo, assim como o fato de cuidarem dos seus filhos se deve ao gênero, uma construção SOCIAL. Para Lerner, “é o gênero que vem sendo o principal responsável por determinar o lugar das mulheres na sociedade”.