Manifestante em favor da família: "Deixem Marlise descansar em paz"
![]() |
| Em abril de 2012, tivemos que lutar para que o Supremo permitisse o aborto de fetos anencéfalos |
Renata me enviou um email sobre um caso que mobilizou os EUA. O caso traz uma importante reflexão sobre eutanásia (morte cerebral não seria suficiente para desligar aparelhos?) e, mais ainda, sobre o corpo de uma mulher ser visto como nada além de um receptáculo para um feto.
Eu me interesso bastante pelas questões da bioética que envolvem as mulheres. Embora muita gente acredite que se trata de um universo restrito à experiência de poucas, cada vez mais tenho percebido que estas questões invadem o cotidiano de cidadãs e cidadãos comuns.
![]() |
| Ainda é ficção |
Uma dessas reflexões é o útero artificial. Ficção ou realidade? Ficção, se a gente pensar no útero artificial sendo usado pelas mulheres com o objetivo declarado de reprodução (seja por opção de ser mãe biológica sem passar pela gravidez ou por problemas que impeçam a manutenção intra-útero do bebê). Não é a mesma coisa de barriga de aluguel (ou maternidade de substituição, ou ainda gestação para outrem). Realidade, se a gente pensar nas incubadoras que permitem a sobrevivência das crianças extremo-prematuras. Crianças viáveis, que nascem após 27 semanas de gestação e antes das 32 semanas, devido a complicações na gestação e que podem “continuar” sua vida fetal até atingir a autonomia de uma nascida a termo.
![]() |
| Como os "pró-vida" veem a mulher: receptáculos de bebês |
Recentemente, duas notícias me chocaram. As duas tratam da mesma questão: uma mulher grávida teve morte cerebral diagnosticada, com menos de 20 semanas de gestação. E a equipe médica decidiu manter o corpo “vivo”, ligado a aparelhos para extração do feto por volta da 27a semana (ainda que sua família quisesse que os aparelhos fossem desligados). Seria uma nova forma de útero artificial? Tratar uma mulher como meio de cultura, receptáculo, incubadora, estufa? Aos que afirmam que é pela criança, alguém já pensou que poderia haver consequências graves psíquicas, biológicas, sociais, para o bebê?
![]() |
| Família Muñoz |
Os jornais abordaram este tema, mas pelo viés da eutanásia. Ou pior ainda, através do velho debate “o que é morte cerebral?”. Ora, alguém com morte cerebral é alguém sem vida, portanto, um cadáver. Eutanásia tem relação com abreviar o fim da vida, obviamente de quem ainda vive! O primeiro caso que se noticiou aconteceu na Hungria ano passado. O segundo caso aconteceu agora no Texas.
![]() |
| Marlise quando viva |
Marlise Muñoz, 33 anos, tinha se levantado à noite para cuidar do filho de um ano, quando teve uma embolia pulmonar. O marido a encontrou caída na cozinha e tentou a reanimação, mas ela foi declarada em estado de morte cerebral. Estava grávida de 14 semanas. A família queria que a lei reconhecesse a morte de Marlise. O Estado texano obriga a manutenção dos aparelhos se a mulher estiver grávida. O tempo passou, sem que a família obtivesse ganho. Só no domingo, acatando uma ordem judicial, o hospital desligou os aparelhos.
![]() |
| A dor do pai e marido Erick |
Se os aparelhos não tivessem sido desligados, em fevereiro o feto teria entre 24 e 28 semanas e seria extraído via cesariana. Quantas violências cometidas em nome de uma defesa cega da “vida”! O marido de Marlise teve que esforçar-se para convencer a lei e a medicina de que este feto ficou sem oxigenação todo o tempo em que a mãe esteve desmaiada no chão (ele não a encontrou imediatamente), que o feto ingeriu toda a medicação agressiva que a mãe ingeriu, que tinha 14 semanas (a contagem da gravidez sempre é aproximativa) quando a mãe faleceu e por isso, seria um feto inviável. E que era uma criança gerada num corpo morto de uma mulher.
![]() |
| Erick, filho e Marlise, antes da tragédia |
O nascimento deste feto iria ainda afetar a vida familiar, pois para continuar o seu desenvolvimento incerto, ele iria para uma incubadora por tempo indeterminado. Que consequências isso teria para o primeiro filho, este sim vivinho da silva, e que poderia ficar ainda mais desamparado? Como esta criança viveria a situação de que sua mãe morreu, mas não foi cremada nem enterrada e ainda gestava "um/a irmã/o"?
E que direito a sociedade tem de instrumentalizar o corpo morto de uma mulher? Os familiares afirmaram que Marlise acompanhou a lenta morte do irmão e que era contra qualquer forma de continuação artificial de uma vida que se esvai. Vale relembrar, a vida dela já tido acabado! A Folha de São Paulo traduziu um artigo do New York Times que ignora completamente a condição feminina de Marlise.
![]() |
| "Apoiamos [a decisão da] família" |
As vozes silenciam ou focalizam no desgastado debate do “valor da vida”, em detrimento do sofrimento dos que já estão neste mundo. Mais do que isso, essas vozes corroboram a representação da mulher como objeto manipulável. Ferem a dignidade de todas nós.











