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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

VITÓRIA DE TRUMP, ATRASO PARA O MUNDO

O pior aconteceu. Trump foi eleito, o que fortalecerá a extrema-direita em todo o planeta e dará gás aos golpistas brasileiros. A principal agenda deles passa a ser reverter a inelegibilidade de Bolsonaro para que ele possa concorrer em 2026. 

Se dependesse das mulheres dos EUA, a vencedora teria sido Kamala Harris. Porém, como os homens votam, e votam muito mal, deu-se essa tragédia. 

Trump irá cortar impostos para os mais ricos, aumentando a desigualdade, promover deportações em massa de imigrantes, acabar com todas as investigações contra ele, nomear juízes ultraconservadores para a Suprema Corte, perseguir inimigos, aumentar impostos para produtos chineses em 60% (aposto como o pessoal daqui que atacou o Lula pela "taxa das blusinhas" irá aplaudir o trumposo), destruir o meio ambiente ao negar as mudanças climáticas, e continuar mentindo adoidado. Com a maioria republicana na Câmara dos Deputados e no Senado, ele poderá fazer o que quiser, sem qualquer fiscalização. 

E tem brasileiro apoiando isso... 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PRECISAMOS FALAR DA RADICALIZAÇÃO ONLINE DE JOVENS HOMENS BRANCOS

A vitória de Trump já começa a dar frutos podres.
Um diretor de um site de direita dos EUA, o Breitbart, foi escolhido para fazer parte da equipe de governo trumposo. Isso é muito sério. É mais ou menos como se Bolsonaro fosse eleito presidente em 2018 (não se preocupem: não vai acontecer) e indicasse algum mascu pra sua equipe para premiá-lo pela campanha de ódio online que dedicou aos desafetos.
A jornalista freelance Abi Wilkinson escreveu sobre essa nomeação para o The Guardian. Pedi à querida Denise para traduzir o artigo (que é bem difícil de traduzir porque está cheio de termos específicos de mascus e reaças americanos). 

Por vários anos, eu tive um passatempo obscuro e bastante incomum. Quando estou sozinha e entediada e me dá na telha, eu abro meu laptop e rumo para um canto particularmente desagradável da internet.
Não, não a parte que você está pensando. Algum lugar muito pior. Essa rede informal de blogs, fóruns, subreddits e publicações de mídia alternativa conhecidos coloquialmente como “manosphere” [blogosfera dos homens]. Uma subcultura online centrada em torno do ódio, da raiva e do ressentimento ao feminismo especificamente, e às mulheres de forma mais ampla. É sombriamente fascinante e agora preocupantemente relevante.
Na linguagem moderna, isso faz parte do fenômeno conhecido como "alt-right" [Nota de tradução: Alt, diminutivo para Alternative, -right é o novo movimento de direita, majoritariamente online, que rejeita o conservadorismo tradicional dos Estados Unidos]. Comentaristas mais simpáticos descrevem a alt-right como "uma reação à cultura do politicamente correto", e os críticos clamam ser neofascismo. Durante o ano passado, foi estranho ver a subcultura perturbadora de sites da internet que eu acompanho há tanto tempo ter virado mainstream [parte do padrão]. 
O presidente executivo de um de seus meios de comunicação mais populares, Breitbart (mídia conservadora baseada nos EUA), acaba de ser nomeado chefe de estratégia de Donald Trump, e seu chefe de gabinete do Reino Unido foi um dos primeiros britânicos a ter uma reunião com o presidente eleito. Seu cabeça-chave -- Milo Yiannopoulos -- rodou o país fazendo campanha para Trump durante a sua turnê "Dangerous Faggot" [Bichona Perigosa]. Essas pessoas agora fazem parte do cenário político.
Em seus fóruns, li longos e furiosos manifestos alegando que as mulheres são todas putas que "cavalgam num carrossel de pintos" e dormem com uma série de "machos alfa" até chegarem ao fim de seu auge sexual, momento em que procuram um "submisso beta" [mascus são obcecados pelo termo cuck] para casar e ter segurança financeira. Eu acompanhei silenciosamente blogs dedicados à "arte da pegação" [PUA, ou pick-up artists, artistas da sedução], já que os homens argumentam que mulheres arrogantes, opinativas, feministas -- mulheres como eu -- precisam ser colocadas em seu lugar através de "estupro corretivo".
Eu sei sobre o movimento dos "homens que seguem seu próprio caminho" [MGTOW], que é baseado em torno da ideia de que os homens devem evitar todo tipo de relacionamento romântico ou sexual com mulheres [Nota da Lola: Na realidade, grande parte dos MGTOW defendem segregação total, não ter qualquer interação com mulheres]. Eu estou ciente dos que advogam pelo "casamento tradicional", que muitas vezes argumentam que você deve ter como objetivo casar com uma mulher muito jovem já que ela será provavelmente mais fácil de controlar. 
Aprendi também a diferença entre um "incel", que é involuntariamente celibatário, e um "volcel", que faz uma escolha deliberada para evitar a atividade sexual, e às vezes também a masturbação, muitas vezes na crença de que a ejaculação esgota sua testosterona e consome seu poder masculino.
É difícil saber se aqueles que postam anonimamente online estão dizendo a verdade sobre sua identidade offline: os indivíduos que compõem o “manosphere” parecem estar inclinados a serem jovens em média, mas estão presentes em todas as idades. Há adolescentes socialmente reclusos, amantes de videogames, divorciados amargos e jovens milionários de excelentes universidades americanas que sentem que as mulheres não lhes dão o respeito e a admiração que eles merecem. Há homens que afirmam ser altamente bem sucedidos em atrair parceiras sexuais, mas odeiam as mulheres mesmo assim.
Uma coisa que eu notei cedo é que a comunidade parece ser em grande parte branca. E isso é evidente porque a questão da raça aparece nos assuntos, muito [Nota da Lola: Mascus são racistas]. Às vezes, na forma de uma espécie de pseudociência racial que defende o uso para explicar a dinâmica das relações heterossexuais. O velho argumento racista -- de que os homens negros estão "roubando nossas mulheres" -- é feito regularmente. Os insultos racistas são jogados sem cerimônia. Parece haver uma sobreposição significativa com a supremacia branca organizada.
Mesmo levando em conta sua proeminência crescente, seria absurdo afirmar que a alt-right é a principal responsável pela eleição de Donald Trump. Mais de 60 milhões de pessoas votaram nele, a maioria dos quais provavelmente teve pouco ou nenhum contato com este movimento online estranho e raivoso. A maioria eram pessoas que também votaram em Republicanos em eleições anteriores.
Uma minoria foram eleitores anteriores de Obama, concentrados principalmente em faixas de renda mais baixas. Pouco mais da metade das mulheres brancas votou no cara que enfrenta acusações de estupro, e que foi apanhado em vídeo afirmando que ele iria "agarrá-las pela buceta", se ele quisesse. A ida dos eleitores as urnas também foi reduzida, por meio da supressão de eleitores e também porque alguns eleitores Democratas não se sentiram inspirados pela candidatura de Hillary Clinton.
O que é verdade, porém, é que alguns de seus mais apaixonados e vitais apoiadores parecem ser regulares nos blogs e fóruns que eu estou falando. Não é nenhuma surpresa que praticamente todas as figuras proeminentes da “manosphere” saíram em apoio a Trump, e o gênero de Clinton não é o único fator relevante.
Antes da eleição, os membros da comunidade alt-right muitas vezes advertiam uns aos outros para manter em segredo seu apoio a Trump para evitar ser "estigmatizado" por seus companheiros mais liberais. Agora eles estão comemorando abertamente. Eles estão contentes com algumas das políticas mais duras prometidas por Trump: deportações em massa, corte de gastos com o Planned Parenthood [Nota de tradução: Planned Parenthood é uma organização sem fins lucrativos que provém serviços de saúde reprodutiva nos EUA e mundialmente], o muro entre os Estados Unidos e o México. Eles sentem que marcaram uma vitória contra o feminismo e o multiculturalismo. Eles estão contentes que os homens brancos estão, mais uma vez, no controle. Eles ficaram cheios de fúria ao pensar que tinham sido derrubados de seu lugar legítimo no topo da hierarquia social; isso é vindicação. A velha ordem foi derrotada, este é o mundo deles agora.
Quando nos preocupamos com os jovens que saem dos países ocidentais e vão lutar com o Isis, é comum nos concentrarmos no papel da internet na radicalização política desses membros. É hora de discutirmos de forma semelhante a radicalização de homens brancos furiosos. A “manosphere” nos deu Elliot Rodger. Ele era um frequentador regular no fórum "PUAhate" -- povoado por homens amargos que tinham tentado as técnicas defendidas pelos chamados "artistas da sedução" para atrair mulheres e falhado.
Montagem feita pelos próprios mascus
neonazistas, radiantes com a vitória
de Trump
Lendo o histórico de posts de pseudônimos individuais, é possível traçar o seu progresso de vaga insatisfação, e desejo de status social e sucesso sexual, à aderência plena a uma ideologia coesiva de supremacia branca e misoginia. Neofascistas tratam esses sites como a base de recrutamento. Eles encontram jovens raivosos e frustrados e os preparam em sua própria imagem. No entanto, não há nenhum equivalente ao “Prevent” para tentar erradicar isso [Nota de tradução: Prevent é uma das estratégias contra terrorismo implantadas pelo governo britânico que consiste em monitorar pessoas que são especialmente vulneráveis a se radicalizarem].
Muito se escreveu sobre dificuldades financeiras transformando comunidades brancas afetadas em áreas de reprodução para a política da supremacia branca, mas o que dizer quando a insatisfação tem pouco a ver com circunstâncias econômicas? É difícil saber o que pode ser feito para combater esse fenômeno, mas certamente temos que começar a levar a sério o elo entre o ódio e o ressentimento das mulheres demonstrado online e o aumento do neofascismo.

sábado, 12 de novembro de 2016

NAOMI KLEIN EXPLICA DERROTA DE HILLARY E VITÓRIA DE TRUMP

Adoro a jornalista e ativista canadense Naomi Klein, 
então vou reproduzir este artigo sobre as eleições americanas que ela escreveu (em inglês). Ele foi publicado no Outras Palavras, e no Instituto Humanitas Unisinos, mas eu o vi no site de outra pessoa que admiro pacas, Leonardo Boff. 
Concordo com boa parte do artigo, mas não tem como deixar questões de gênero de fora da análise. Em nenhum momento eu disse que mulheres deveriam ter votado na Hillary por ela ser mulher. O que me espanta é que 53% das mulheres brancas tenham votado num cara que abertamente odeia as mulheres (contra 94% das mulheres negras, por exemplo, ou 68% das latinas, ou 80% dos homens negros, que votaram na Hillary). 
Então fiquei sabendo de algo ainda mais estarrecedor: a maioria das mulheres brancas costuma votar no Partido Republicano! A maioria votou contra Obama em 2012 (56% votou em Romney). Desde 2004, acima de 55% das mulheres brancas votaram nos republicanos, o que é difícil de entender, já que eles sempre se mostram contrários aos direitos das mulheres. As mulheres brancas são o maior grupo dos EUA, representando 36%. É meio caminho andado ter maioria nesse segmento.
"Se vc votou em Trump
porque ele é anti-
establishment, adivi-
nhe: você foi
enganado
Outra coisa é que muitos homens brancos votaram em Trump não por ele representar o "anti-establishment" (um bilionário ser contra o sistema? Sério?), mas justamente por conta de seu discurso preconceituoso contra mulheres, negros, latinos e muçulmanos. 
Eu adoraria ter o otimismo de Naomi Klein e pensar que Trump ganhou por não ter uma alternativa à esquerda. Infelizmente, por mais que EUA e o mundo estejam sentindo na pele a crise do capitalismo, não me parecem dispostos a votarem na esquerda. Pelo menos não por enquanto. Mas vamos ao artigo de Klein.

Eles irão culpar, pela derrota de Hillary Clinton, o FBI e seu chefe, James Comey [que reabriu o caso sobre os emails possivelmente criminosos da candidata]. Vão culpar a supressão de eleitores e o racismo. Vão por a culpa na atitude Bernie or bust (ou Bernie Sanders ou nada) e na misoginia. Vão apontar para candidatos independentes e terceiros: a mídia corporativa, por dar a Trump uma tribuna; a mídia social por ser um megafone; e o WikiLeaks por expor a roupa suja em público.
Nem democrata, nem republicana:
de saco cheio
Mas estas avaliações deixam de fora o maior responsável por criar o pesadelo em que agora nos encontramos: o neoliberalismo. Essa visão de mundo -- totalmente incorporada por Hillary Clinton e sua máquina -- não é páreo para o estilo extremista de Trump. O fato de a disputa ter colocado um contra o outro é o que selou nossa sorte. Se não aprendermos mais nada, podemos por favor aprender com esse erro?
Eis o que precisamos entender: um enorme contingente de pessoas está sofrendo, nos Estados Unidos. Sob políticas neoliberais de desregulação, privatização, austeridade e comércio corporativo, seu padrão de vida despencou. Perderam seus empregos. Perderam suas aposentadorias. Perderam muito da rede de segurança que costumava tornar essas perdas menos apavorantes. Veem para seus filhos um futuro ainda pior do que o seu precário presente.
Ao mesmo tempo, testemunharam a ascensão da classe de Davos — uma rede hiperconectada de bilionários do setor financeiro, que elegeu líderes espantosamente próximos de seus interesses, e celebridades de Hollywood que fazem tudo parecer insuportavelmente glamourosas. O sucesso é uma festa à qual eles não foram convidados, e eles sabem que essa riqueza e poder crescentes está de alguma forma diretamente ligada às suas dívidas e impotência progressivas.
Para as pessoas que viam segurança e status como direitos de nascença -- e isso significa homens brancos, principalmente -- essas perdas são insuportáveis. Donald Trump fala diretamente para essa dor. A campanha do Brexit falou para essa dor. Também o fazem os partidos de extrema direita que crescem na Europa. Eles respondem a isso com um nacionalismo nostálgico e raiva das remotas burocracias econômicas –-- seja Washington, o Acordo Norte-americano de Livre Comércio (Nafta), a Organização Mundial de Comércio ou a União Europeia. E claro, respondem a isso batendo nos imigrantes, latinos e negros, vilipendiando muçulmanos e degradando as mulheres. O neoliberalismo de elite não tem nada a oferecer para essa dor, porque o neoliberalismo lançou a classe de Davos. Pessoas como Hillary e Bill Clinton são o brinde da festa de Davos. Eles são, na verdade, a própria festa.
A mensagem de Trump era: “Está tudo um inferno.” Clinton respondeu: “Está tudo bem.” Mas nada está bem -- longe disso.
As respostas neofascistas à insegurança e à desigualdade generalizadas não vão desaparecer. Mas o que sabemos dos anos 1930 é que, para lutar contra o fascismo, é preciso uma esquerda de verdade. 
Uma boa parte do apoio a Trump poderia ser afastada se houvesse sobre a mesa uma agenda redistributiva genuína. Uma agenda para tributar da classe bilionária com mais do que retórica, e usar o dinheiro para um New Deal verde. Esse plano poderia criar uma onda enorme de empregos sindicalizados bem pagos, trazer recursos e oportunidades extremamente necessários para as comunidades negras e insistir em que poluidores deveriam pagar pelas ações de formação necessárias para que os trabalhadores sejam inteiramente incluídos nesse futuro.
Tal plano poderia desenhar políticas que lutassem ao mesmo tempo contra o racismo institucionalizado, a desigualdade econômica e as mudanças climáticas. Ele poderia enfrentar maus acordos de comércio e violência policial, e honrar o povo indígena como os protetores originais da terra, da água e do ar.
As pessoas têm direito de estar com raiva, e uma agenda de esquerda poderosa e multitemática pode dirigir essa raiva para onde ela deve ser dirigida, enquanto luta por soluções globais que unirão uma sociedade desgastada.
Essa articulação é possível. No Canadá, começamos a pavimentar essa união sob a bandeira de uma agenda popular denominada The Leap Manifesto (O Manifesto do Salto), endossado por mais de 220 organizações, do Greenpeace do Canadá ao “Black Lives Matter” de Toronto e alguns dos nossos maiores sindicatos.
A surpreendente campanha de Bernie Sanders percorreu um longo caminho na direção de construir esse tipo de coalizão, e demonstrou que há espaço, nos EUA, para o socialismo democrático. Mas Sanders não foi capaz de se comunicar com os eleitores negros mais velhos e latinos que são, demograficamente, os que sofrem mais abuso do nosso modelo econômico atual. Esse fracasso impediu a campanha de atingir seu potencial. Aqueles erros podem ser corrigidos e uma coalizão forte e transformadora pode ser construída.
Essa é a tarefa que temos à frente. O Partido Democrata precisa ser, ou decididamente arrancado dos neoliberais pró-corporações, ou abandonado. De Elizabeth Warren a Nina Turner aos membros do Occupy que tocaram a campanha inovadora de Bernie, há hoje — mais do que em qualquer outro momento — um campo de líderes progressistas inspiradores para uma coalizão mais forte. Estamos cheios de líderes, como dizem muitos do Movimento pelas Vidas Negras.
Então, vamos sair do estado de choque o mais rápido possível e construir o tipo de movimento radical que tem uma resposta genuína ao ódio e medo representados pelos Trumps neste mundo. Vamos deixar de lado tudo o que está nos mantendo separados e começar já.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

ESTA ELEIÇÃO É UMA FRAUDE!

Um bom resumo da nossa sensação no momento

O mundo continua com enorme dificuldade de engolir a vitória do mega repulsivo e despreparado Donald Trump.
Durma com uma imagem dessas
E eu faço parte deste mundo, então vou dedicar mais um post a este desastre eleitoral. É o que todo mundo tá falando hoje, além da hashtag #SomosTodosBolsonaro (em que 99% dos tuítes são contra o coisa ruim) e das manifestações de hoje por todo o Brasil contra o governo golpista e a PEC 55 (ex-241), que foram lindas mas não conseguiram parar o país. 
Clique para ampliar
Que ninguém venha me dizer que dava na mesma, que Hillary e Trump eram os dois "a mesma m*rda", que tanto faz. Gente, simplesmente não é verdade. E tanto não é verdade que o planeta inteiro (tirando o Putin) está olhando espantado e aterrorizado pros EUA neste momento. Tanto não é verdade que vários protestos continuam acontecendo nos EUA. 
Da entrada de um pub na
Inglaterra: "Todos os ameri-
canos devem estar acom-
panhados de um adulto"
E não é questão de não aceitar um resultado. Os infelizes que vem até aqui escrever "Chola mais" (como se essa fosse uma análise, como se isso resolvesse alguma coisa) deveriam saber que Hillary ganhou. Ela teve mais votos populares que Trump. Assim como Al Gore contra Bush em 2000, um resultado que até hoje é altamente contestado. Há algo errado num sistema político que elege não quem teve mais votos, mas quem ganha o número de delegados de cada Estado. É uma eleição indireta, e vários americanos se opõem a esse sistema. Cabe a eles sim protestar. 
Aliás, adivinha quem encorajou as pessoas a protestarem se a pessoa que tiver mais votos não for eleita? Quem escreveu essas linhas: 
"Mais votos significam uma derrota... Revolução! Esta eleição é uma fraude! Não somos uma democracia! Vamos lutar e impedir esta injustiça nojenta! O mundo está rindo de nós. Não podemos deixar isso acontecer. Devemos marchar até Washington e parar este escândalo. Nossa nação está totalmente dividida! Ele perdeu no voto popular e ganhou a eleição. Deveríamos ter uma revolução no nosso país!"? 
Isso mesmo, "the Donald". Trump escreveu tudo isso no Twitter quatro anos atrás, em 2012, quando ele achou (mais uma vez estava enganado) que Obama havia recebido menos votos que Romney. 
É pra gente se perguntar: como alguém pode votar num Trump? O mascu Marcelo tem uma explicação. 
Eu ainda tenho fé demais na humanidade pra achar que Trump ou Bolso ou gente que defende as atrocidades que eles defendem representam "o povo" ou são a maioria. Não são. 
Mas o fato é que 53% das mulheres brancas nos EUA votaram no Trump, contra 94% das mulheres negras, que votaram na Hillary. (Mas quero acreditar que 99% das feministas de qualquer etnia votaram em Hillary).
É injusto, a meu ver, culpar unicamente as mulheres brancas pela ruína dos EUA. digo, vitória de Trump. 
É meio como culpar a mãe quando um filho vem a ser um fracasso, como se essa mãe educasse o filho sozinha numa ilha deserta. Mas as mulheres brancas dos EUA vão ter que se explicar. Tudo bem que elas votaram mais ou menos como votaram em 2012, contra Obama (tudo bem my ass!), mas desta vez a candidata era uma mulher branca. 
Tuíte do líder atual da KKK diz que
Trump deve a vitória ao Sul dos EUA
(retratado com bandeiras racistas)
E não só isso -- o oponente era um misógino confesso. Como puderam votar num cara que é acusado de vários estupros e assédios, que chama as mulheres dos piores insultos, que prometeu nomear para a Suprema Corte juízes que derrubem a lei que permite aborto legal nos EUA desde 1973. 53% das mulheres brancas compararam uma candidata competente e experiente com um babaca megalomaníaco que nunca exerceu um cargo público na vida e decidiram se juntar aos homens brancos que gritavam nos comícios do republicano "Trump that bitch" ("Derrote aquela vadia". Curiosamente, o nome Trump, assim como Temer, tem alguns significados não muito ocultos). 
Obama com cara de "O que você fez, América?" E Trump com cara de "Odeio esse cara"
É terrível.
É como eu já escrevi: neste momento, deveríamos estar comemorando a primeira presidenta dos EUA. Não tentando compreender como um Trump ganhou. Bom, eu sabia (até já escrevi sobre isso) que Hillary Rodham Clinton no início de seu casamento não quis adotar o sobrenome do marido, e que esse mero fato custou a reeleição de Bill Clinton a governador de Arkansas. Mas eu não sabia que Hillary só decidiu se mudar para Arkansas e se dedicar à carreira política do esposo após ela ser reprovada num tipo de exame da OAB em Washington. É muito interessante conhecer o machismo que ela teve que enfrentar até chegar a ser candidata -- e perder logo pro mais misógino de todos os candidatos. 
E a reação dos que ganharam é parecida com aquela de quem ganhou as eleições municipais, ou de quem comemorou o golpe, perdão, impeachment contra Dilma (que eles ingenuamente pensam que aconteceu por causa deles). Em vez de ficarem felizes, continuam atacando e ameaçando quem perdeu.
Pra se ter uma ideia da dimensão da tragédia, a organização racista Ku Klux Klan está com desfile de comemoração pela vitória de Trump marcado para o início de dezembro. Não é surpresa, visto que todo tipo de racista e neonazista fez campanha pelo laranja. A convocação para o desfile comemorativo diz "A raça de Trump uniu meu povo". 
A KKK, assim como os masculinistas, nega ser um grupo de ódio. Seu objetivo é apenas "devolver a América à nação cristã branca". 
E óbvio que o discurso de ódio não fica só no discurso. Apenas em suas primeiras horas, a "era Trump" já deu mostras do que se seguirá nos EUA e no mundo. E não será bonito. Principalmente para as minorias.