Um bom resumo da nossa sensação no momento
O mundo continua com enorme dificuldade de engolir a vitória do mega repulsivo e despreparado Donald Trump.
 |
| Durma com uma imagem dessas |
E eu faço parte deste mundo, então vou dedicar mais um post a este desastre eleitoral. É o que todo mundo tá falando hoje, além da hashtag #SomosTodosBolsonaro (em que 99% dos tuítes são contra o coisa ruim) e das manifestações de hoje por todo o Brasil contra o governo golpista e a PEC 55 (ex-241), que foram lindas mas não conseguiram parar o país.
 |
| Clique para ampliar |
Que ninguém venha me dizer que dava na mesma, que Hillary e Trump eram os dois "a mesma m*rda", que tanto faz. Gente, simplesmente não é verdade. E tanto não é verdade que o planeta inteiro (tirando o Putin) está olhando espantado e aterrorizado pros EUA neste momento. Tanto não é verdade que vários protestos continuam acontecendo nos EUA.
 |
Da entrada de um pub na
Inglaterra: "Todos os ameri-
canos devem estar acom-
panhados de um adulto" |
E não é questão de não aceitar um resultado. Os infelizes que vem até aqui escrever "Chola mais" (como se essa fosse uma análise, como se isso resolvesse alguma coisa) deveriam saber que Hillary ganhou. Ela teve mais votos populares que Trump. Assim como Al Gore contra Bush em 2000, um resultado que até hoje é altamente contestado. Há algo errado num sistema político que elege não quem teve mais votos, mas quem ganha o número de delegados de cada Estado. É uma eleição indireta, e vários americanos se opõem a esse sistema. Cabe a eles sim protestar.
Aliás, adivinha quem encorajou as pessoas a protestarem se a pessoa que tiver mais votos não for eleita? Quem escreveu essas linhas:
"Mais votos significam uma derrota... Revolução! Esta eleição é uma fraude! Não somos uma democracia! Vamos lutar e impedir esta injustiça nojenta! O mundo está rindo de nós. Não podemos deixar isso acontecer. Devemos marchar até Washington e parar este escândalo. Nossa nação está totalmente dividida! Ele perdeu no voto popular e ganhou a eleição. Deveríamos ter uma revolução no nosso país!"?
Isso mesmo, "the Donald". Trump escreveu tudo isso no Twitter quatro anos atrás, em 2012, quando ele achou (mais uma vez estava enganado) que Obama havia recebido menos votos que Romney.
Eu ainda tenho fé demais na humanidade pra achar que Trump ou Bolso ou gente que defende as atrocidades que eles defendem representam "o povo" ou são a maioria. Não são.
Mas o fato é que 53% das mulheres brancas nos EUA votaram no Trump, contra 94% das mulheres negras, que votaram na Hillary. (Mas quero acreditar que 99% das feministas de qualquer etnia votaram em Hillary).
É injusto, a meu ver, culpar unicamente as mulheres brancas pela ruína dos EUA. digo, vitória de Trump.
É meio como culpar a mãe quando um filho vem a ser um fracasso, como se essa mãe educasse o filho sozinha numa ilha deserta. Mas as mulheres brancas dos EUA vão ter que se explicar. Tudo bem que elas votaram mais ou menos como votaram em 2012, contra Obama (tudo bem my ass!), mas desta vez a candidata era uma mulher branca.
 |
Tuíte do líder atual da KKK diz que
Trump deve a vitória ao Sul dos EUA
(retratado com bandeiras racistas) |
E não só isso -- o oponente era um misógino confesso. Como puderam votar num cara que é acusado de vários estupros e assédios, que chama as mulheres dos piores insultos, que prometeu nomear para a Suprema Corte juízes que derrubem a lei que permite aborto legal nos EUA desde 1973. 53% das mulheres brancas compararam uma candidata competente e experiente com um babaca megalomaníaco que nunca exerceu um cargo público na vida e decidiram se juntar aos homens brancos que gritavam nos comícios do republicano "Trump that bitch" ("Derrote aquela vadia". Curiosamente, o nome Trump, assim como Temer, tem alguns significados não muito ocultos).
 |
| Obama com cara de "O que você fez, América?" E Trump com cara de "Odeio esse cara" |
É terrível.
É como eu já escrevi: neste momento, deveríamos estar comemorando a primeira presidenta dos EUA. Não tentando compreender como um Trump ganhou. Bom, eu sabia (até já escrevi sobre isso) que Hillary Rodham Clinton no início de seu casamento não quis adotar o sobrenome do marido, e que esse mero fato custou a reeleição de Bill Clinton a governador de Arkansas. Mas eu não sabia que Hillary só decidiu se mudar para Arkansas e se dedicar à carreira política do esposo após ela ser reprovada num tipo de exame da OAB em Washington. É muito interessante conhecer o machismo que ela teve que enfrentar até chegar a ser candidata -- e perder logo pro mais misógino de todos os candidatos.
E a reação dos que ganharam é parecida com aquela de quem ganhou as eleições municipais, ou de quem comemorou o golpe, perdão, impeachment contra Dilma (que eles ingenuamente pensam que aconteceu por causa deles). Em vez de ficarem felizes, continuam atacando e ameaçando quem perdeu.
Pra se ter uma ideia da dimensão da tragédia, a organização racista Ku Klux Klan está com desfile de comemoração pela vitória de Trump marcado para o início de dezembro. Não é surpresa, visto que todo tipo de racista e neonazista fez campanha pelo laranja. A convocação para o desfile comemorativo diz "A raça de Trump uniu meu povo".
A KKK, assim como os masculinistas, nega ser um grupo de ódio. Seu objetivo é apenas "devolver a América à nação cristã branca".
E óbvio que o discurso de ódio não fica só no discurso. Apenas em suas primeiras horas, a "era Trump" já deu mostras do que se seguirá nos EUA e no mundo. E não será bonito. Principalmente para as minorias.