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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

UMA OPOSIÇÃO SÓLIDA PARA SALVAR A DEMOCRACIA

Publico texto de Orlando Silva, deputado federal do PCdoB na Câmara dos Deputados. Parabéns pela reeleição, deputado!

As eleições do penúltimo domingo marcaram o encerramento de um ciclo no país. A vitória eleitoral de forças políticas com visão ultraliberal na economia, ultraconservadora nos costumes e com viés autoritário na política projeta dias difíceis para a Nação e o povo. Mais do que nunca, será fundamental a conformação de uma oposição ampla, coesa, aguerrida e qualificada, seja no parlamento, nos movimentos populares ou na academia.
Às forças democráticas cabe extrair lições da derrota e projetar a resistência. Como sempre apontamos, a vitória teria sido possível desde que se aglutinasse uma frente mais ampla para defender o Brasil, a democracia e os direitos sociais. Não foi possível para a eleição, mas será vital para impedir a ruína do país.
Ao contrário do que projetaram ao fim do 1º turno, as forças do atraso não receberam um cheque em branco da população. O campo democrático foi ampliado por mais de 15 milhões de votos no 2º turno, justamente quando conseguiu se contrapor ao arbítrio e à negação de direitos representada pela candidatura da extrema direita.
Os 47 milhões de votos obtidos –- quase 45% do eleitorado –- foram resultado do revolvimento da consciência democrática nacional, extrapolando partidos e lideranças políticas. Esses eleitores não têm "dono" e não estão à procura de um líder, mas ávidos por ser parte de um projeto de Nação.
É esse o ponto de partida para a luta por um projeto para o país, que em tudo difere do que é representado pelo presidente eleito.
No lugar do autoritarismo, a defesa da mais ampla democracia; contra o arbítrio e o ódio, a defesa do Estado Democrático de Direito e dos direitos civis. Contra a censura e a perseguição, a liberdade de expressão, a autonomia universitária e a liberdade de cátedra. Contra a entrega das riquezas do país e as ameaças aos países sul-americanos, o desenvolvimento nacional soberano e a valorização da paz. Contra a concentração de renda e as desigualdades sociais, emprego, educação, saúde e inclusão social.
As medidas iniciais apontadas pelo governo eleito chocam pelo improviso e superficialidade. Apenas tendem a agravar os conflitos no campo e reduzir mercados do nosso agronegócio. Apenas tendem a ampliar a hipertrofia do setor financeiro, para a agonia da indústria. A elas, a oposição deve se contrapor no Parlamento e na luta popular.
Por fim, no movimento democrático que trabalhamos para forjar não haverá espaço para hegemonismos ou imposições. E as portas estarão sempre abertas. As enormes dificuldades que o Brasil atravessará para garantir a sobrevivência da democracia só poderão ser enfrentadas com unidade verdadeira, busca incessante pelo diálogo e pela amplitude, respeito às diferenças e generosidade das forças políticas.
Pensando assim, sugerimos uma articulação das bancadas do PCdoB, PSB e PDT na Câmara dos Deputados. Um ponto de partida para qualificar uma oposição firme ao futuro governo de Jair Bolsonaro, ao tempo em que defenderemos a democracia e o Parlamento, que deve ter uma agenda que sirva ao Brasil e à superação de tão dramático quadro social, econômico e político que vivemos.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A DIREITA FARÁ UM PÉSSIMO GOVERNO. A ESQUERDA RETOMARÁ O PODER ADIANTE

Publico esta excelente análise de João Paulo Jales dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais da UERN. 

A vitória de Bolsonaro no último dia 28 foi uma dura derrota para a esquerda. O petismo, maior força político-eleitoral do campo esquerdista, perdeu não para o PSDB, de centro-direita, mas para a extrema-direita, representante de tudo aquilo que a esquerda e qualquer pessoa minimamente sensata abomina. Foi uma vitória e tanto para o capitão da reserva do exército. Bolsonaro venceu com mais de 60% dos votos válidos em 13 das unidades federais. Sua votação se espalhou dos grandes centros urbanos até o interior das regiões Centro-oeste, Sul, Sudeste e alguns municípios do Norte. 
Mas por que o medíocre parlamentar federal pelo Rio de Janeiro venceu? Desde 2013, o PT vem passando por um desgaste perante à opinião pública. Dilma foi reeleita em 2014, tendo perdido 4,4% dos votos que havia alcançado em 2010. A reeleição de Dilma, com os sucessivos fatos que se seguiram desde o dia que a presidente tomou posse em 1º de janeiro 2015 até o momento de seu afastamento da Presidência e o consequente impeachment, foi um encadeamento de fatos que desaguou numa retumbante derrota para a esquerda em doses rápidas e violentas. É preciso reconhecer que os erros econômicos cometidos por Dilma ajudaram no golpe que a tirou do Palácio do Planalto. Tivesse a economia aquecida e em crescimento, Dilma não teria sofrido a cassação de seu mandato presidencial. 
Lula em 2006, no rastro do mensalão, foi reeleito com quase 61% dos votos porque a economia estava bem. Do mesmo modo que o bom momento econômico de 2010, com forte crescimento econômico, consumo intenso das famílias, desemprego em baixa e aumento real do salário mínimo, acabou sendo crucial para Lula eleger Dilma, uma completa desconhecida da população. Aliás, que se ressalte, a escolha de Lula por Dilma em 2010 nunca fora uma escolha unânime dentro do PT. Muitos dos líderes pragmáticos do partido, aqueles responsáveis pela articulação política dos mandatos de Lula, se opuseram a escolha do líder pela ministra chefe da Casa Civil. Como Lula é o líder maior do PT, mesmo que a contragosto, os críticos de Dilma no petismo decidiram aceitar a nomeação da ministra para ser a candidata do partido em 2010. 
Até as manifestações de junho de 2013, Dilma conseguiu manter bons índices de aprovação popular. No entanto, mesmo com a alta aprovação, muitas lideranças do PT e dos partidos da base aliada do governo da petista se queixavam do jeito irascível da presidente. Se Lula conversava com todos, até mesmo com a oposição, Dilma fazia uma articulação completamente diferente. Cabia tão somente a um grupo pequeno de ministros as escolhas políticas e econômicas tomadas pela presidente. 
Seu estilo não agradou nem mesmo os outrora articuladores dos governos Lula. Mas mesmo sob protestos, Dilma seguiu com seu estilo de articulação congressual. Conseguiu uma reeleição difícil em 2014, quando o tema maior daquela campanha foi a sensibilidade que o PT tinha com as classes média e baixa e os excluídos. Numa campanha em que a toada política se deu pela continuidade da inclusão dos pobres e garantia de continuidade de ascensão daqueles que entraram para as classes de consumo e emergente, Dilma derrotou Aécio e conseguiu uma reeleição com 51,64% dos votos. Mas uma reeleição que veio com um enorme passivo -- a perda de apoio popular que Dilma tinha obtido quando fora eleita em 2010. 
Sua reeleição já sinalizava desgaste do PT perante o eleitorado. Mesmo tendo vencido em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, Dilma viu sua votação encolher num período de quatro anos, de 6,04% no 2º maior colégio eleitoral do país (MG), e 5,54% no 3º maior colégio eleitoral (RJ), havendo perdido 10,26% dos votos em São Paulo. 
Com uma economia estagnada em 2014, com ‘crescimento’ irrisório de 0,5%, para uma brusca recessão de quase 4% em 2016, Dilma caiu também, além do planejamento da direita para isso, pelos erros econômicos que cometeu ao longo de seu 1º mandato, bem como sua inapta capacidade de articulação política. A presidente foi golpeada pela direita, mas não deixa de algum modo ser creditado em sua própria conta o fato de ter sido tirada da presidência no final de agosto de 2016. 
Desde 2013, com as manifestações de junho, a dura reeleição do petismo em 2014, as manifestações reacionárias de 2015 e 2016, e a cassação do mandato presidencial de Dilma conquistado nas urnas, a esquerda brasileira sofre um forte e virulento desgaste na opinião pública e perda de apoio de sua própria base eleitoral que deu a Lula dois mandatos, e seguidamente, mais dois a Dilma. 
Haddad conseguiu quase 45% dos votos válidos, uma façanha e tanto para o PT, que desde 2013 vem sofrendo uma violenta campanha midiática em torno de sua imagem. Mas os 45% de Haddad se deram muito por conta de sua votação no Nordeste. De 2014 a este pleito de 2018, o PT perdeu os apoios dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, bem como do Amazonas e do Amapá. A situação é ainda mais crítica quando se olha atentamente para o mapa eleitoral de 2018 e o compara com o de 2014. No Rio Grande do Sul, que entre 1989 e 2002 votou em lula para presidente ininterruptamente, o PT perdeu o apoio de 9,71% dos eleitores gaúchos entre a última eleição e esta. Quando se compara com a votação de 2010, a perda é ainda maior, de 12,30%. Rio Grande do Sul, em especial sua capital Porto Alegre, deram ao PT mandatos executivos importantes, que fizeram da administração do partido no estado vitrine para governos do PT em outros estados brasileiros. 
Olhando com acuidade para Minas e Rio de Janeiro, o tombo para a esquerda num período de 4 anos é enorme. Minas desde 2002 vinha dando largas margens de vitória ao PT, com a exceção de 2014. De 2014 a 2018, a votação do PT em Minas diminuiu 10,6%. Em 2010, Dilma teve em Minas quase 60% dos votos, e Lula venceu em 2002 e 2006 no estado com votação de cerca de 66%. No Rio de Janeiro, que de 1989 a 2014, somente em 1994 não garantiu vitória ao PT, o tombo para a esquerda é ainda maior do que em Minas. De 2014 a 2018, o PT perdeu mais de 20% dos votos, num estado que Lula em 2002 chegou a vencer Serra com quase 80% dos votos válidos. Mesmo em estados que em 2014 não deram vitória a Dilma, a votação do petismo sofreu forte recuo. No Espírito Santo, a perda foi de quase 10%, em Goiás, de 8,4%. Em 2010, Dilma perdeu nesses estados para Serra por margem estreita. 
Em Mato Grosso, estado onde a esquerda perdeu em 2006 e 2010, mas com pequena diferença, a queda nos votos foi da ordem de cerca de 12%, quando se compara com a votação de Dilma em 2014. No Paraná, onde Lula quase venceu Alckmin em 2006, a votação recuou cerca de 7,4% num hiato de 4 anos. Em Rondônia, a perda de votos gira na casa de 17,3%; Lula venceu lá em 2002 e 2006. Em São Paulo, maior colégio eleitoral, Haddad ficou abaixo de 33,33% dos votos. 
Por que frisar esses dados eleitorais? Para evidenciar que as perdas de votos foram bruscas em muitas das unidades federativas. Em 2014, Dilma derrotou Aécio muito por conta de que em nenhum estado sua votação ficou abaixo de um terço dos votos. O PT desde que chegou ao poder central em 2003 viu estados que em outras ocasiões votaram no partido saírem de sua órbita de influência eleitoral. O Distrito Federal é outro caso a ser visto. Em 1989, 2002, 2006 e 2010, o DF deu vitórias ao PT. Neste 2018, Haddad ficou com 30% dos votos válidos na capital federal. 
Há dinâmicas regionais e sociais que explicam muitas das perdas de colégios eleitorais que votavam no PT, mas a partir de 2006 começaram a votar contra o partido. De todo modo, as perdas de grandes e importantes colégios eleitorais como Minas e Rio de Janeiro, evidenciam o forte desgaste político que o petismo sofreu neste pleito. Numa junção que resultou em aguda crise econômica, endêmico desemprego, queda no consumo, restrição ao crédito, raiva contra o sistema político estabelecido, índices alarmantes de homicídios e criminalidade que vão desde os grandes centros urbanos até o vasto interior do país, Bolsonaro foi a figura perfeita para a atual conjuntura política de 2018. 
É preciso pensar friamente como o campo esquerdista fará para reconquistar maiorias eleitorais em estados que já foram fiéis territórios petistas, mas que deram números exorbitantes e alavancaram de sobremodo a vitória de Bolsonaro. Não basta somente aguardar um desastre do governo bolsonarista, é preciso agir estrategicamente para reconquistar praças eleitorais que estiveram sob controle da esquerda em seguidas eleições. 
Quando Thatcher implementou na década de 80 as políticas econômicas neoliberais na Grã-Bretanha, Tony Blair, eleito em 1995, garantindo a volta do Partido Trabalhista ao Poder depois de quase duas décadas de governo conservador, deu continuidade às políticas neoliberais do ‘thatcherismo’, mesmo que de modo mais suave. Bill Clinton, que depois de 12 anos fez com que os democratas voltassem à presidência dos Estados Unidos, deu continuidade às políticas neoconservadoras dos anos Reagan e dos quatro anos de George H. W. Bush. 
Desde a década de 90, depois de anos de dominância conservadora com implementação de políticas econômicas neoliberais, a esquerda vem passando por aquilo que se chama de ‘aburguesamento’. Tal característica não se dá tão somente por causa da continuidade do neoliberalismo, mesmo que com uma vertente centrista, nas políticas de governos esquerdistas, mas pela perda substancial do discurso de lutas de classes no campo da esquerda.
A esquerda ocidental, sobretudo nos Estados Unidos e Europa ocidental, vem perdendo a orientação da luta de classes. Com isso, perde identidade perante sua base trabalhadora-operariada. Aqueles que davam vitórias aos partidos trabalhistas, de centro-esquerda e sociais-democratas, viram suas demandas não mais serem atendidas por estes partidos. Paulatinamente, os políticos de esquerda perderam o diálogo com os trabalhadores e a classe média operária. O trabalhador, o cidadão comum, não mais via os partidos esquerdistas se preocuparam em atender suas demandas concretas e práticas. 
Preocupado em pagar suas contas, em comprar o leite, o pão, em vestir seus filhos, em proteções trabalhista e de seguridade social, o trabalhador comum, fiel eleitor das plataformas dos partidos de esquerda, viu os seus representantes se preocuparem com outras questões que não mais completamente as suas necessidades cotidianas. A luta de classes no campo esquerdista foi sendo substituída pela luta identitária, sem esta estar necessariamente interseccionada com aquela. 
No vácuo de representação política dos representantes eletivos das classes proletária e média baixas, que garantiam as vitórias da esquerda, o trabalhador acabou sendo capturado pelo discurso reacionário neoliberal. Num momento de desespero social, com perdas de direitos trabalhistas, com a pauperização social, empregos menos qualificados, portanto com menor remuneração salarial, diminuição do Estado de bem-estar social, aqueles que votavam na esquerda se viram seduzidos pelo discurso beligerante da direita, que garantia ‘ordem social’. 
Sim, é incongruente que as classes sociais que antes eram votantes da esquerda passassem a votar na direita neoliberal. No entanto, o trabalhador comum não consegue ter a compreensão da complexidade da realidade social objetiva, preocupado que está com suas próprias condições de dignidade de vida. Ao ver sua deterioração socioeconômica, conjuntamente com a perda do discurso da luta social das agremiações esquerdistas, a coalização trabalhista-classe média baixa e assalariada, votou na direita que arruinou suas condições materiais laborais, ao implementar as políticas neoliberais. 
O discurso de garantia de lei, segurança opressiva e controle da situação social, seduz aqueles que veem perdas econômicas. Portanto, está assim explicado o motivo de muitos eleitores lulistas terem votado em Bolsonaro. O Lula branco, hétero, pai de família, casado com Marisa Letícia, garantiu aos excluídos e as classes baixas, boas condições de vida e mobilidade social, ainda que restrita, a milhões de brasileiros. 
Com a deterioração econômica e consequente piora social e financeira, num momento de pauperização no lar das famílias trabalhadoras do país, os eleitores lulistas viram no discurso reacionário de Bolsonaro uma garantia para ter ‘lei e ordem’, bem como para proteger os valores da tradição cristã. O precariado [combinação do adjetivo precário com o substantivo proletariado] que há 4 anos deu mais um mandato a Dilma Rousseff foi quem garantiu a vitória de Bolsonaro neste 2018.
Se faz essencial, neste momento de vitória da extrema-direita, a esquerda voltar as suas bases sociais nas periferias dos grandes centros urbanos. Voltar a falar a língua do precariado arredio que garantiu quatro vitórias consecutivas desde 2002 ao PT. Enfatizar o discurso das lutas de classes, não esquecendo jamais das lutas identitárias, tendo a consciência de que de nada adianta falar sobre feminismo, conquista de direitos para minorias raciais e sexuais, sem atrelar isso à luta da opressão que o neoliberalismo imprime sobre a classe trabalhadora. 
Esses quatro anos de governo Bolsonaro, e o desastre que virá deste mandato, são a oportunidade para a esquerda virar o jogo e reconquistar aqueles que tiveram ganhos sociais e possibilidade de ascensão social nos governos petistas, mas que estão irritados com PT. Entender os motivos dessa irritação se torna necessário para poder voltar a governar. 
O governo Bolsonaro sinaliza para uma administração catastrófica. Estará à frente do governo e das pastas ministeriais uma direita completamente medíocre, incompetente, despreparada, sem noção e experiência de políticas sociais e públicas. Irão tentar administrar operacionalizando na máquina pública os chavões neoliberais. Sem garantir melhoria na economia, possibilitando emprego, renda e consumo para a população, o governo Bolsonaro será um verdadeiro descalabro público. 
A direita bolsonarista, ao contrário da direita estabelecida que derrotaram, não tem experiência administrativa, não possui capacidade gerencial, não entende de orçamento público. Pensa que gestão pública equivale à gestão privada. Ledo engano. Se nem capacidade de gestão na livre iniciativa possuem, o que dirá de ter habilidade para gerenciar uma enorme máquina arrecadadora de impostos como a do governo central. O arrocho salarial, e mais perdas de direitos trabalhistas e sociais que virão do governo Bolsonaro, serão os ingredientes para implodir sua própria base eleitoral-social que elevou o deputado federal do Rio de Janeiro à Presidência da República. 
Para a esquerda, fica a possibilidade de reconquistar em 2020 prefeituras dos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste que já governou. De fazer uma oposição combativa e qualitativa ao governo Bolsonaro. Bem como reconquistar seu eleitorado perdido no Norte e Centro-oeste. 
Que a derrota para a direita extremista e religiosa possa servir para a esquerda acordar e voltar a dialogar com suas bases sociais que perdeu nos últimos anos. O trabalhador, os excluídos, as classes baixa e média, o funcionalismo público, não irão concordar com as políticas neoliberais que virão de Bolsonaro e seus asseclas. Que o campo esquerdista possa aglutinar o desgaste do governo Bolsonaro e transformar isso em resultados políticos e eleitorais. Derrotar a direita reacionária, eis a missão para o campo progressista durante os próximos quatro anos. Avante! 

sábado, 3 de novembro de 2018

A VERGONHA DA ELEIÇÃO DE BOLSONARO

Nem lembro mais o que escrevi no outro post, mas lembro que prometi terminá-lo, então lá vamos nós.
Por que perdemos? Acho que a esquerda em geral não sabe jogar o jogo deles, por termos ética. Não conseguimos descer ao nível deles. E não me venham com essa de que "os dois lados usaram fake news". Usaram uma ova. Enquanto o PT dizia que Bolso poderia acabar com o 13o (baseado não numa mentira, mas no plano neoliberal de Paulo Guedes, na declaração do vice de Bolso, e na insistência dos bolsobots em defender esse plano, dizendo que era melhor ganhar o salário em 12 vezes que em 13), na véspera do 2o turno os reaças estavam espalhando coisas como Haddad estuprou uma menina de 11 anos.
Enquanto o PT dizia que Bolso poderia acabar com o Bolsa Família (baseado nas dezenas de declarações que Bolso fez ao longo da sua vida contra o programa, tachando-o como "bolsa esmola" e "coisa de vagabundo"), a usina de mentiras da direita inventava a "mamadeira de piroca" (jurando que crianças na creche bebiam dessa mamadeira "pra se acostumar"). 
Enquanto o PT dizia que Bolso iria aumentar o imposto pros mais pobres (baseado na afirmação de Guedes de cobrar 20% de todo mundo, rico ou pobre), a direita prometia que o PT fecharia todas as igrejas e seu guru Olavão associava Haddad à pedofilia e incesto (e, quando Haddad pediu que a Justiça proibisse essa calúnia absurda, um juiz determinou que era só liberdade de expressão). 
É mais uma notícia falsa cair no conto de que os dois lados usaram fake news. Tão falsa como aquela narrativa de que foi uma eleição entre dois extremos, quando só existia um (a extrema direita). Tão falsa como aquela velha de "o feminismo é o oposto do machismo", como se um não fosse uma luta legítima e necessária contra opressões que dilaceram o mundo. 
Só até o dia 25 de outubro, um levantamento mostrou que, dos 123 boatos que as agências de checagem se ocuparam de desmentir, 104 eram contra Haddad, e só 19 contra Bolso. A reportagem da Folha provou o esquema do Caixa 2 usado para efetuar disparos de mensagens contra o PT no WhatsApp. Qualquer pessoa que usa Twitter pode ver o verdadeiro exército de robôs de Bolso, usados para lançar e manter trending topics e para xingar qualquer um que ousasse escrever qualquer coisa contra o candidato. No semana anterior ao 2o turno, um estudo da FGV mostrou que cinco em cada sete tuítes favoráveis a Bolso eram gerados por máquinas, não por pessoas (o que é proibido pela legislação eleitoral). 
Mais recentemente, uma pesquisa revelou que 90% dos eleitores de Bolso acreditaram nas mentiras que sua campanha divulgou sobre o adversário. Por exemplo: 85% dos seus eleitores foram expostos à notícia falsa do kit gay, e só 10% não acreditaram nela (algo que nunca existiu, mas que é apontado como o mais danoso à reputação de Haddad). 75% acreditaram que Haddad era pedófilo e pró-incesto, 74% acreditaram que as urnas eletrônicas são fraudadas (quem deveria acreditar nisso é a esquerda, já que no primeiro turno um monte de reaça aventureiro que nem aparecia nas pesquisas para senador e governador se elegeu ou passou pro 2o turno). 
Considerem que para a maior parte do eleitorado de Bolso a grande ferramenta que eles usam para se informar é o WhatsApp, e vocês começam a mensurar o tamanho do estrago. Pra mim, não há dúvida alguma que as fake news foram determinantes nestas eleições. Mas ainda restam perguntas: quem as financia? Só empresas nacionais ou internacionais também? Fica por isso mesmo? Alguém será responsabilizado? Como ganhar deles?
O fundador da Avaaz declarou: "Não podemos deixar que a criptografia do WhatsApp seja uma "terra de ninguém" para atividades criminosas. No mínimo, o WhatsApp deveria ter como padrão uma 'proteção contra a desinformação', dando aos usuários a opção de protegerem suas democracias e a si mesmos das fake news. 
Eu já disse e repito: nossas eleições servirão como "estudo de caso" em todo o mundo sobre como manipular os votantes através de inúmeras mentiras.
A esquerda é tão burrinha e honesta que nem pra explorar um tema rentável para as teorias das conspirações como a facada (ou fake-a-da) de Bolso ela serviu. Imagina esse assunto nas mãos deles. 
E, óbvio, eu me incluo ao dizer que somos burrinhos e honestos. Eu lembro quando, pouco antes do nosso belo movimento #EleNao no dia 29/9, eu alertava para que nenhuma ativista fizesse performances polêmicas que pudessem ser usadas pela campanha de Bolso. Nem me passou pela cabeça que, independente do que fizéssemos, a narrativa seria contada por eles na base da pura mentira. Imagens de outras manifestações e de outros países foram utilizadas para difamar a nossa história. 
E lógico que as fake news não acabaram. Os robôs não foram embora. Ainda temos que aprender a lidar com as mentiras. Pelo menos agora sabemos que esta foi e será a principal tática de Bolso, não? Não podemos cair nesse jogo. A cada retirada dos direitos da população, o fascista e seus bolsobots de estimação lançarão uma cortina de fumaça. Bolso dará alguma declaração bárbara ou declarará guerra contra a Venezuela (depois ele desmentirá), e todos nós seremos cobrados a falar unicamente nisso, enquanto a Petrobrás tá sendo doada pros gringos, por exemplo. 
Sobre o passado
Se Lula pudesse ter sido candidato, ele se elegeria, provavelmente no primeiro turno. Pelo menos é o que todas as pesquisas apontaram durante meses. Claro que não dá pra saber ao certo. Afinal, as fake news que funcionaram tão incrivelmente bem contra Haddad poderiam também funcionar contra Lula. De toda forma, a mídia internacional viu a notícia de que o principal responsável por Lula não poder sair candidato ser recompensado com um super ministério como algo digno de republiqueta das bananas. 
O PT errou ao insistir em manter Lula candidato até meados de setembro? Também é difícil dizer. Eu fui uma das mais impacientes com essa história, queria que Haddad fosse lançado logo. Mas havia a chance que ele não deslanchasse. (Agora eu acho que o PT erra demais ao manter o "Lula Livre" como uma de suas principais bandeiras). 
Sobre Ciro Gomes, eu não aguento mais ler análises furadas de que o PT criou Bolso, que o PT elegeu o monstro. Isso é culpar a vítima, pô! Lula convidou Ciro para ser seu vice e Ciro não aceitou. Se tivesse aceitado, teria estado no lugar de Haddad. Teria mais chances que ele? Não sei. Mas por que pensar que o anti-petismo não pesaria também contra Ciro se estivesse numa chapa composta com o PT?
Ah, mas o PT tinha que ter se sacrificado e feito aliança com Ciro, apontando um nome pra vice-presidência! Aí sim, com a esquerda unida, Ciro teria sido eleito, talvez até no primeiro turno. Gente, quanta besteira! Se isso tivesse acontecido, Bolso teria sido eleito no primeiro turno! 
Ciro foi um covarde de marca maior (no mesmo nível de Bolso ao fugir dos debates) quando foi pra Europa, logo após o fim do primeiro turno. Comparem com outro nome do mesmo partido que ele, o PDT. Brizola por muito pouco não foi ao 2o turno contra Collor em 1989 (Brizola teve 16,51% dos votos válidos, contra 17,18% de Lula e 30,47% de Collor). Aí o que fez Brizola? Foi tirar férias em Paris? Ficou de mal com o PT? Ficou revoltado com o Brasil? Torceu pelo "quanto pior melhor", já pensando nas eleições seguintes? Nada disso. Brizola rapidamente se uniu a Lula e fez campanha pro PT. Esteve em todos os palanques (tipo o maravilhoso Boulos agora).
A atitude de Ciro é indefensável. Ele deixou pra voltar ao Brasil na sexta à noite, quase véspera do segundo turno. Todo mundo esperava que pelo menos então ele fizesse um pronunciamento pró-Haddad, e aí ele se isentou. Disse que não queria se posicionar e não deu explicações. Não me lembro de um pronunciamento tão lamentável. Não que teria feito muita diferença àquela altura (quiçá nem antes, considerando que Bolso teve 44% dos votos no primeiro turno). Mas foi covarde.
Espero que, assim como a covardia, ou melhor, falta de bom senso (já que ela apoiou Aécio) de 2014 foi uma pá de cal na carreira política de Marina, esses últimos acontecimentos tenham sepultado a carreira de Ciro. Pra piorar, ele ainda chamou de "bosta" um senhor de 88 anos importantíssimo pra história da democracia no Brasil, Leonardo Boff, por criticar sua decisão. Ciro é um babaca mesmo. E nunca foi de esquerda.
E quem sai como o grande nome da esquerda nacional depois dessas eleições? Ele mesmo, Fernando Haddad. Que continua sendo um excelente candidato. Aliás, que bela chapa, Haddad e Manu. Manu cresceu também, pois ficou conhecida nacionalmente (mas o machismo por ela ser mulher e o fato de ela pertencer a um partido comunista a limitam. Como desviar da misoginia das fake news numa eleição num país tão machista? Eu não tenho ideia).
Sobre o futuro
Dos 58 milhões de otários eleitores (não sou política, não concorro a cargo nenhum, posso chamar eleitor alienado e/ou fascista do que ele é; aliás, considerando o que ele é, "otário" é eufemismo) que votaram no Bolso, quantos são de extrema-direita raiz? Uns 20 milhões? São esses que chamam um idiota medíocre de "mito". Esse é o nicho dele. É gente que se identifica com ele por causa das declarações hediondas sobre minorias, gente que tá louca pra andar armada e fuzilar LGBTs, mulheres, negros, feministas. Gente que acha que o maior problema do Brasil é o comunismo (onde? quando? como?), que o maior problema das escolas é a "ideologia de gênero" e o kit gay. Ou seja, gente que acredita em fantasmas. 
Esses daí não vão se arrepender de Bolso tão cedo. Sabem que tiveram a chance única de um fascista chegar ao poder, e não vão querer largar o osso. Supor que o Brasil vai se lascar não é torcida minha ou da esquerda, é ser realista. Não tem como dar certo combater violência com mais violência. Não tem como funcionar isso de "ou emprego sem direitos ou muitos direitos sem emprego". Não precisa ser muito inteligente pra vislumbrar que, no campo econômico, o governo Bolso será continuidade do governo Temer. Então vem aí a reforma da previdência, que na prática vai querer dizer "Adeus, aposentadoria". Já já virão menos direitos trabalhistas ainda, num país em que o trabalho informal (leia-se: adeus carteira assinada, 13o, férias, hora extra) já chegou a 43%
Os 20 milhões de extrema direita vão aplaudir tudo isso, mesmo que esses retrocessos os afetem diretamente. Afinal, o mais importante foi ter tirado o PT do poder (eu acho que eles sabem que o PT não está mais no poder desde maio de 2016). Mas e os outros 38 milhões que votaram em Bolso por acreditarem em fake news, por não gostarem do PT, por quererem Lula mas não Haddad, por quererem "mudança"? E os 30 milhões que não foram votar? Minha aposta é que esses vão se arrepender logo. Mas a ponto de protestar nas ruas? Como começar um diálogo com essas pessoas? (certamente não é chamando-as de "otárias", eu sei, mas no momento continuo brava). 
Pros 20 milhões de reaças que se consideram a maioria absoluta da população (mas não são), pode qualquer coisa, desde que o governo prenda feministas, incrimine professores, espanque "vagabundos grevistas" nas manifestações, e que grupos não-tão-oficiais possam perseguir minorias sem serem importunados por esses detalhes como a lei, ora, a lei. Se a situação ficar ruim demais, o que esses pessoal fará? Tentará se mudar pra outro país. 
Da revista britânica The Ecomunist,
digo, The Economist
Portugal já tá cheio de coxinha, desses que reclamam do "inchaço do Estado" no Brasil mas apreciam muito os serviços públicos dos países de primeiro mundo (que são primeiro mundo justamente por causa desses serviços públicos que coxinhas querem negar ao Brasil). 
No momento, o mais certo é: temos uma oposição ferrenha a Bolso. Contem com a resistência. Não vamos desistir.