Nem lembro mais o que escrevi no outro post, mas lembro que prometi terminá-lo, então lá vamos nós.
Por que perdemos? Acho que a esquerda em geral não sabe jogar o jogo deles, por termos ética. Não conseguimos descer ao nível deles. E não me venham com essa de que "os dois lados usaram fake news". Usaram uma ova. Enquanto o PT dizia que Bolso poderia acabar com o 13o (baseado não numa mentira, mas no plano neoliberal de Paulo Guedes, na declaração do vice de Bolso, e na insistência dos bolsobots em defender esse plano, dizendo que era melhor ganhar o salário em 12 vezes que em 13), na véspera do 2o turno os reaças estavam espalhando coisas como Haddad estuprou uma menina de 11 anos.
Enquanto o PT dizia que Bolso poderia acabar com o Bolsa Família (baseado nas dezenas de declarações que Bolso fez ao longo da sua vida contra o programa, tachando-o como "bolsa esmola" e "coisa de vagabundo"), a usina de mentiras da direita inventava a "mamadeira de piroca" (jurando que crianças na creche bebiam dessa mamadeira "pra se acostumar").
Enquanto o PT dizia que Bolso iria aumentar o imposto pros mais pobres (baseado na afirmação de Guedes de cobrar 20% de todo mundo, rico ou pobre), a direita prometia que o PT fecharia todas as igrejas e seu guru Olavão associava Haddad à pedofilia e incesto (e, quando Haddad pediu que a Justiça proibisse essa calúnia absurda, um juiz determinou que era só liberdade de expressão).
É mais uma notícia falsa cair no conto de que os dois lados usaram fake news. Tão falsa como aquela narrativa de que foi uma eleição entre dois extremos, quando só existia um (a extrema direita). Tão falsa como aquela velha de "o feminismo é o oposto do machismo", como se um não fosse uma luta legítima e necessária contra opressões que dilaceram o mundo.
Só até o dia 25 de outubro, um levantamento mostrou que, dos 123 boatos que as agências de checagem se ocuparam de desmentir, 104 eram contra Haddad, e só 19 contra Bolso. A reportagem da Folha provou o esquema do Caixa 2 usado para efetuar disparos de mensagens contra o PT no WhatsApp. Qualquer pessoa que usa Twitter pode ver o verdadeiro exército de robôs de Bolso, usados para lançar e manter trending topics e para xingar qualquer um que ousasse escrever qualquer coisa contra o candidato. No semana anterior ao 2o turno, um estudo da FGV mostrou que cinco em cada sete tuítes favoráveis a Bolso eram gerados por máquinas, não por pessoas (o que é proibido pela legislação eleitoral).
Mais recentemente, uma pesquisa revelou que 90% dos eleitores de Bolso acreditaram nas mentiras que sua campanha divulgou sobre o adversário. Por exemplo: 85% dos seus eleitores foram expostos à notícia falsa do kit gay, e só 10% não acreditaram nela (algo que nunca existiu, mas que é apontado como o mais danoso à reputação de Haddad). 75% acreditaram que Haddad era pedófilo e pró-incesto, 74% acreditaram que as urnas eletrônicas são fraudadas (quem deveria acreditar nisso é a esquerda, já que no primeiro turno um monte de reaça aventureiro que nem aparecia nas pesquisas para senador e governador se elegeu ou passou pro 2o turno).
Considerem que para a maior parte do eleitorado de Bolso a grande ferramenta que eles usam para se informar é o WhatsApp, e vocês começam a mensurar o tamanho do estrago. Pra mim, não há dúvida alguma que as fake news foram determinantes nestas eleições. Mas ainda restam perguntas: quem as financia? Só empresas nacionais ou internacionais também? Fica por isso mesmo? Alguém será responsabilizado? Como ganhar deles?
O fundador da Avaaz declarou: "Não podemos deixar que a criptografia do WhatsApp seja uma "terra de ninguém" para atividades criminosas. No mínimo, o WhatsApp deveria ter como padrão uma 'proteção contra a desinformação', dando aos usuários a opção de protegerem suas democracias e a si mesmos das fake news.
A esquerda é tão burrinha e honesta que nem pra explorar um tema rentável para as teorias das conspirações como a facada (ou fake-a-da) de Bolso ela serviu. Imagina esse assunto nas mãos deles.
E, óbvio, eu me incluo ao dizer que somos burrinhos e honestos. Eu lembro quando, pouco antes do nosso belo movimento #EleNao no dia 29/9, eu alertava para que nenhuma ativista fizesse performances polêmicas que pudessem ser usadas pela campanha de Bolso. Nem me passou pela cabeça que, independente do que fizéssemos, a narrativa seria contada por eles na base da pura mentira. Imagens de outras manifestações e de outros países foram utilizadas para difamar a nossa história.
E lógico que as fake news não acabaram. Os robôs não foram embora. Ainda temos que aprender a lidar com as mentiras. Pelo menos agora sabemos que esta foi e será a principal tática de Bolso, não? Não podemos cair nesse jogo. A cada retirada dos direitos da população, o fascista e seus bolsobots de estimação lançarão uma cortina de fumaça. Bolso dará alguma declaração bárbara ou declarará guerra contra a Venezuela (depois ele desmentirá), e todos nós seremos cobrados a falar unicamente nisso, enquanto a Petrobrás tá sendo doada pros gringos, por exemplo.
Sobre o passado
Se Lula pudesse ter sido candidato, ele se elegeria, provavelmente no primeiro turno. Pelo menos é o que todas as pesquisas apontaram durante meses. Claro que não dá pra saber ao certo. Afinal, as fake news que funcionaram tão incrivelmente bem contra Haddad poderiam também funcionar contra Lula. De toda forma, a mídia internacional viu a notícia de que o principal responsável por Lula não poder sair candidato ser recompensado com um super ministério como algo digno de republiqueta das bananas.
O PT errou ao insistir em manter Lula candidato até meados de setembro? Também é difícil dizer. Eu fui uma das mais impacientes com essa história, queria que Haddad fosse lançado logo. Mas havia a chance que ele não deslanchasse. (Agora eu acho que o PT erra demais ao manter o "Lula Livre" como uma de suas principais bandeiras).
Sobre Ciro Gomes, eu não aguento mais ler análises furadas de que o PT criou Bolso, que o PT elegeu o monstro. Isso é culpar a vítima, pô! Lula convidou Ciro para ser seu vice e Ciro não aceitou. Se tivesse aceitado, teria estado no lugar de Haddad. Teria mais chances que ele? Não sei. Mas por que pensar que o anti-petismo não pesaria também contra Ciro se estivesse numa chapa composta com o PT?
Ah, mas o PT tinha que ter se sacrificado e feito aliança com Ciro, apontando um nome pra vice-presidência! Aí sim, com a esquerda unida, Ciro teria sido eleito, talvez até no primeiro turno. Gente, quanta besteira! Se isso tivesse acontecido, Bolso teria sido eleito no primeiro turno!
Ciro foi um covarde de marca maior (no mesmo nível de Bolso ao fugir dos debates) quando foi pra Europa, logo após o fim do primeiro turno. Comparem com outro nome do mesmo partido que ele, o PDT. Brizola por muito pouco não foi ao 2o turno contra Collor em 1989 (Brizola teve 16,51% dos votos válidos, contra 17,18% de Lula e 30,47% de Collor). Aí o que fez Brizola? Foi tirar férias em Paris? Ficou de mal com o PT? Ficou revoltado com o Brasil? Torceu pelo "quanto pior melhor", já pensando nas eleições seguintes? Nada disso. Brizola rapidamente se uniu a Lula e fez campanha pro PT. Esteve em todos os palanques (tipo o maravilhoso Boulos agora).
A atitude de Ciro é indefensável. Ele deixou pra voltar ao Brasil na sexta à noite, quase véspera do segundo turno. Todo mundo esperava que pelo menos então ele fizesse um pronunciamento pró-Haddad, e aí ele se isentou. Disse que não queria se posicionar e não deu explicações. Não me lembro de um pronunciamento tão lamentável. Não que teria feito muita diferença àquela altura (quiçá nem antes, considerando que Bolso teve 44% dos votos no primeiro turno). Mas foi covarde.
Espero que, assim como a covardia, ou melhor, falta de bom senso (já que ela apoiou Aécio) de 2014 foi uma pá de cal na carreira política de Marina, esses últimos acontecimentos tenham sepultado a carreira de Ciro. Pra piorar, ele ainda chamou de "bosta" um senhor de 88 anos importantíssimo pra história da democracia no Brasil, Leonardo Boff, por criticar sua decisão. Ciro é um babaca mesmo. E nunca foi de esquerda.
E quem sai como o grande nome da esquerda nacional depois dessas eleições? Ele mesmo, Fernando Haddad. Que continua sendo um excelente candidato. Aliás, que bela chapa, Haddad e Manu. Manu cresceu também, pois ficou conhecida nacionalmente (mas o machismo por ela ser mulher e o fato de ela pertencer a um partido comunista a limitam. Como desviar da misoginia das fake news numa eleição num país tão machista? Eu não tenho ideia).
Sobre o futuro
Dos 58 milhões de otários eleitores (não sou política, não concorro a cargo nenhum, posso chamar eleitor alienado e/ou fascista do que ele é; aliás, considerando o que ele é, "otário" é eufemismo) que votaram no Bolso, quantos são de extrema-direita raiz? Uns 20 milhões? São esses que chamam um idiota medíocre de "mito". Esse é o nicho dele. É gente que se identifica com ele por causa das declarações hediondas sobre minorias, gente que tá louca pra andar armada e fuzilar LGBTs, mulheres, negros, feministas. Gente que acha que o maior problema do Brasil é o comunismo (onde? quando? como?), que o maior problema das escolas é a "ideologia de gênero" e o kit gay. Ou seja, gente que acredita em fantasmas.
Esses daí não vão se arrepender de Bolso tão cedo. Sabem que tiveram a chance única de um fascista chegar ao poder, e não vão querer largar o osso. Supor que o Brasil vai se lascar não é torcida minha ou da esquerda, é ser realista. Não tem como dar certo combater violência com mais violência. Não tem como funcionar isso de "ou emprego sem direitos ou muitos direitos sem emprego". Não precisa ser muito inteligente pra vislumbrar que, no campo econômico, o governo Bolso será continuidade do governo Temer. Então vem aí a reforma da previdência, que na prática vai querer dizer "Adeus, aposentadoria". Já já virão menos direitos trabalhistas ainda, num país em que o trabalho informal (leia-se: adeus carteira assinada, 13o, férias, hora extra) já chegou a 43%.
Os 20 milhões de extrema direita vão aplaudir tudo isso, mesmo que esses retrocessos os afetem diretamente. Afinal, o mais importante foi ter tirado o PT do poder (eu acho que eles sabem que o PT não está mais no poder desde maio de 2016). Mas e os outros 38 milhões que votaram em Bolso por acreditarem em fake news, por não gostarem do PT, por quererem Lula mas não Haddad, por quererem "mudança"? E os 30 milhões que não foram votar? Minha aposta é que esses vão se arrepender logo. Mas a ponto de protestar nas ruas? Como começar um diálogo com essas pessoas? (certamente não é chamando-as de "otárias", eu sei, mas no momento continuo brava).
Pros 20 milhões de reaças que se consideram a maioria absoluta da população (mas não são), pode qualquer coisa, desde que o governo prenda feministas, incrimine professores, espanque "vagabundos grevistas" nas manifestações, e que grupos não-tão-oficiais possam perseguir minorias sem serem importunados por esses detalhes como a lei, ora, a lei. Se a situação ficar ruim demais, o que esses pessoal fará? Tentará se mudar pra outro país.
 |
Da revista britânica The Ecomunist,
digo, The Economist |
Portugal já tá cheio de coxinha, desses que reclamam do "inchaço do Estado" no Brasil mas apreciam muito os serviços públicos dos países de primeiro mundo (que são primeiro mundo justamente por causa desses serviços públicos que coxinhas querem negar ao Brasil).
No momento, o mais certo é: temos uma oposição ferrenha a Bolso. Contem com a resistência. Não vamos desistir.