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terça-feira, 26 de abril de 2022

DA PARAÍBA PARA O MUNDO, UM PROJETO FEMINISTA

A jornalista Taty Valéria, jornalista de João Pessoa, é alguém que eu admiro muito. Admiro também seu projeto, o Paraíba Feminina, que infelizmente vai hibenar por um tempo, por causa da falta de patrocínio. Reproduzo aqui o seu texto:

O projeto Paraíba Feminina entrou no ar em maio de 2019, primeiro o blog, depois o instagram, e agora o Podcast.

O blog virou portal, o Instagram está perto da marca do 20 mil seguidores e as fronteiras paraibanas foram abertas.

Participei de seminários, mesas de discussão, eventos diversos e meu grande mimo: formação sobre mídia e violência de gênero para inúmeras turmas do ensino médio da rede pública e do EJA – Educação para Jovens e Adultos. Esses espaços foram especialmente preciosos pois consegui chegar num público que não tem familiaridade com os termos acadêmicos, assim como eu própria não tenho, e essa “conversa” dentro de uma linguagem acessível e entendível, de ambos os lados, conseguiu atingir exatamente o meu objetivo, levar informação para quem busca por ela.

Nesse tempo, produzi matérias que ajudaram a levar abusadores e assediadores para a justiça. Denunciei, investiguei, conversei com mulheres que ainda passavam pela dor do trauma. Ouvi muito choro e chorei também. Ouvir e destrinchar conteúdos tão densos consumiu minha saúde mental e cheguei muito perto de um colapso, e não foi só uma vez.

Sofri ameaças de morte e por um tempo, fiquei com medo de sair de casa. Precisei fazer Boletim de Ocorrência. Meu nome consta como testemunha em dois processos que correm na justiça.

Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantada por tudo o que faço. Me identifiquei, em maior ou menor grau, com todas as histórias que acompanhei e contei. Chorei por mulheres que eu nunca vi. Me indignei por injustiças que nunca irão me atingir. Mas é disso que é feita minha essência.

É possível que você já tenha ouvindo de mim a expressão “O Paraíba Feminina é como um filho caçula: dá muito trabalho, dá muito gasto, mas me enche de orgulho”. Esse sentimento permanece, e por isso me dói tanto a expectativa de fechar a página.

Estamos em ano de eleições. O conteúdo do portal não é “interessante” dentro do contexto de um estado que respira e vive de política a cada dois anos. É a política local que movimenta a mídia e todas as esferas de poder. Sim, tudo é política, inclusive os feminicídios, os abusos, as violações, os autoritarismos e as injustiças. Mas a discussão política que esses fatos geram, não rende votos. Eu tenho total consciência, sem falsa modéstia, que sou muito boa no que faço. Tenho total consciência que esse portal tem um potencial imenso. Mas, como disse, isso não rende votos.

A culpa é de quem? Do governo? Da prefeitura? Dos deputados? Vereadores? Senadores? Se não apontar um culpado, qualquer denúncia vira poeira. Uma palavra mal colocada numa manchete pode gerar suspeitas de apadrinhamento. Uma postagem no twitter leva a especulações. Uma curtida no instagram em determinado perfil é um atestado de apoio. Um encontro aleatório num samba qualquer do Centro Histórico vira debates eternos nos gabinetes da vida. Sim, você precisa se posicionar! E eu me posiciono sempre, minhas preferências políticas jamais foram segredo, mas isso não é suficiente.

Desde o meu primeiro emprego como estagiária, e lá se vão 20 anos, jamais saí fechando portas. Mantive e mantenho a amizade e contato com todas as pessoas que trabalhei desde então. Algumas se tornaram íntimas, firmes como rocha. Os grandes se aliam, brigam, se aliam novamente, isso não me interessa. Como costumo dizer, sempre fui da baixa patente, e minha relação com ela continuou intacta com quem sem propôs a isso.

Voltando para o objetivo desse texto: caso algo muito sensacional não aconteça nos próximos dias, o portal Paraíba Feminina vai entrar em período de hibernação a partir do dia 1º de maio. Não há meios financeiros de mantê-lo. Além de mim, outros profissionais também dispõem de tempo à ele. Existem impostos. Existem atualizações. É preciso dedicação para apurar, escrever. A qualquer nova pauta que chega, preciso avaliar se aquilo vai atingir alguém de alguma forma e preciso decidir se ela é publicável, ou não. Essa análise me fez engavetar dezenas de fatos que seriam, e ainda são, de interesse público, e isso vale para todos os lados. TODOS OS LADOS. Não estou culpando A ou B. Estou culpando o alfabeto inteiro, e isso me inclui também.

Sonhos não pagam boletos, sonhos não me protegem de ameaças explícitas e veladas. Sonhos só me protegem da realidade, que está posta: não existem meios de realizar um jornalismo independente no estado da Paraíba.

O Instagram e o Podcast irão continuar e a campanha no Apoia.se continua firme, as doações pelo pix (pbfeminina@gmail.com), idem. Gratidão para quem colaborou e vai seguir colaborando. Sigam o Paraíba Feminina, comentem, compartilhem, ouçam.

Quando o gelo do inverno derreter e as flores da primavera voltarem a nascer, eu volto com uma linda margarida presa no cabelo.

Gratidão a todos, e desculpem qualquer coisa.

segunda-feira, 26 de março de 2018

EIS QUE O DIFAMADOR PROFISSIONAL E CRIADOR DE FAKE NEWS É ELE MESMO FAKE

Coxinha na versão extra frita


Claro que fico satisfeita quando um ser vil que me persegue há anos se dá mal. 
O biltre da vez é Luciano Ayan, autor da página de fake news Ceticismo Político, entre outras. Este não é o seu nome verdadeiro, o que dificultava processá-lo. Mas agora ele revelou sua identidade: Carlos Augusto de Moraes Afonso, de 45 anos, consultor de informática.
Comentário de 2005 sobre
Luciano Ayan (clique em
qualquer imagem para ampliá-la)
"Luciano Ayan" é um velho troll de internet que age desde 2004. Sempre foi um reaça e, desde a época do Orkut, tinha inúmeros fakes. Era desses trolls que botavam seus fakes pra debaterem entre si, como conta um relato antigo (e longo, já que a ficha corrida biografia do cara é longa). 
Eu nem sei quando ele usou uma de suas páginas pra me atacar pela primeira vez. Obviamente que ele não me atacou por me conhecer ou por ter algo pessoal contra mim, e sim por eu ser feminista e ele, um reaça que, entre outros alvos, ataca feministas. Tipo: alguma mulher cortou o pênis do parceiro? Luciano vai publicar a notícia no seu site afirmando que tal mulher é feminista. É da estirpe que chama feminista de "prostituta ideológica" e, óbvio, "feminazi". 
Em janeiro de 2015 ele usou um ataque gratuito do reaça mau caráter disfarçado de humorista Danilo Gentili para me xingar. Gentili divulgou para seus milhões de seguidores a montagem que mascus fizeram com um cartaz que fiz e carreguei na Marcha das Vadias de 2013, em Recife. 
É o que eles fazem -- não te atacam pelas coisas que você faz e diz, mas pelas mentiras que espalham sobre você. E fica a pergunta, mais uma vez: se eu sou um ser tão abjeto como eles dizem, se eu sou um demônio que prego o mal, se eu sou um "monstro moral" (nas palavras do cidadão de bem Luciano), por que cargas d'água eles precisam inventar coisas sobre mim? Ué, não bastava usar o que eu falo de verdade? Precisa fazer montagem em cartaz, precisa criar site e tuítes falsos, precisa alterar as minhas fotos e textos? 
De todo modo, Luciano se aproveitou do ataque de Gentili para escrever um texto cheio de mentiras e ofensas sobre mim. Se você digitar meu nome no Google, o texto difamatório aparece em quarto lugar na busca. Um dos mascus criminosos que me ameaçam há anos gosta de dizer que, sempre que é chamado pra depor pela polícia, mostra o texto de Luciano pro delegado. Porque, pro mascu, o texto é prova não de que Luciano é um difamador profissional sem qualquer escrúpulo, mas que tudo que está escrito lá é a mais pura verdade.
Blogueira feminista diz...
exceto que ela não disse
Na páscoa de 2015, Luciano foi ainda mais longe. Uns mascus de uma página misógina e racista no FB fizeram uma montagem de um tuíte com meu nome e foto (em que "eu" celebrava a morte do filho de Alckmin num acidente de helicóptero) e inventaram que eu havia publicado aquela aberração no meu Twitter e apagado logo em seguida, mas eles foram rápidos e printaram. Ninguém teria visto essa montagem se não fosse pelo trabalho árduo de Luciano no seu blog (então chamado Crítica Política), e de um outro reaça asqueroso chamado Edmilson Papo 10, no Twitter. Eles se encarregaram de espalhar a mentira, que me rendeu centenas de ameaças de morte e insultos. Luciano fez uns três posts em cima de uma imagem fake. Ninguém pode dizer que ele não é esforçado.
Eu acho curioso como reaças sempre sabem o que rola entre os mascus. Pode ser uma página mascu sem seguidores -- pode ter certeza que os reaças a conhecem e se abastecem dela. A ideologia é a mesma: extrema direita misógina, racista, lgbtfóbica. Deve ser por isso que nenhum reaça jamais se manifestou pra condenar as milhares de ameaças que seus coleguinhas mascus fazem a mim e a outras ativistas. Muito pelo contrário: num de seus posts contra mim, Luciano lamenta que eu ridicularize esses "garotos que postam em fóruns" e que eu use "táticas de violência psicológica" contra eles. Depois somos nós que somos vitimistas!
Pouco depois, em julho, Luciano publicou num de seus sites uma extensa entrevista com um mascu, o ex-presidiário Emerson, arrotando mil e um delírios, e, óbvio, me difamando. Talvez a mentira mais bombástica era Emerson dizendo que ele era Nessahan Alita, um ridículo guru mascu desaparecido há anos. Nem os outros reaças acreditaram nas baboseiras de Emerson, e Luciano tirou a entrevista do ar. Serião: quando um site que só publica fake news tem que remover um post em que ninguém acredita, é porque o negócio tá feio mesmo.
Mas por que estaríamos falando do Luciano, um inútil tão completo que só é levado a sério por reaças (e diz muito sobre os reaças que eles compartilhem tanto um site que basicamente só publica mentiras)? Porque, segundo um estudo da Universidade Federal do Espírito Santo, suas postagens caluniosas sobre Marielle Franco foram fundamentais para propagar mentiras sobre ela. 
O jornal O Globo fez o que os "blogueiros sujos" (ou seja, a blogosfera de esquerda) deveriam fazer -- o mínimo de trabalho investigativo que rendeu duas matérias que desmascaravam completamente o site de Luciano e o MBL (que espalhou todas as mentiras do Ceticismo Político, e depois as deletou). Do MBL acho que nem preciso falar nada, né? Ontem a própria Veja, que até pouco era revista de cabeceira da turma reaça e hoje é chamada por eles de comunista (ha ha), fez uma matéria curta sobre o modo de agir do MBL. 
MBL e outros reaças não são exatamente conhecidos pela sua transparência. 
Eles não revelam quem os financiam, quanto ganham, pra quê. Suas páginas de fake news (MBL chama agências de checagem de fatos de "censura") são hospedadas fora do Brasil, o que dificulta processos por calúnia e difamação (os mascus que me atacam também fazem isso). A gente espera que o PSOL, que já recebeu mais de 17 mil prints de conteúdo difamatório contra Marielle, processe todos eles. A Polícia Civil já abriu inquérito para responsabilizar criminalmente quem divulgou os boatos sobre Marielle.
Pegos na mentira, MBL e Luciano se enrolam cada vez mais. Primeiro o MBL disse ao jornalista do Globo não conhecer Luciano Ayan ("não conhece" mas o retuita com enorme frequência e rapidez). Luciano também disse não ter relações com o MBL (mas, curiosamente, respondeu às perguntas que o Globo mandou pro email do MBL). 
Agora já se sabe que Luciano, ou melhor, Carlos Afonso, é sócio em uma consultoria de Pedro D'Eyrot, líder e um dos fundadores do MBL. Até o início do mês, Carlos era sócio também de Rafael Rizzo, coordenador de comunicação do MBL. São várias ligações perigosas pra quem diz à imprensa não conhecer um ao outro. 
Rafael Rizzo, coordenador de
comunicação do MBL (sim, esse
cargo parece que existe)
Numa matéria do Globo, o jornalista perguntou por que o MBL publicava conteúdos de quem dizia não conhecer. Renato Battista, um dos coordenadores do MBL, respondeu: "Porque a gente prefere compartilhar o que bem entende e prefere acreditar na mídia independente do que no Globo". Deixa eu ver se eu entendi: o MBL, que é altamente patrocinado por bilionários americanos, se considera independente?
Um outro reaça já havia revelado tudo isso há duas semanas:
No sábado, o Facebook removeu o Ceticismo Político (já que a página havia sido aberta por um fake, Luciano), e outras duas ligadas a Luciano. 
Com isso, o Ceticismo (cujo domínio do site é registrado por uma empresa na Dinamarca no nome do fake Luciano Henrique Ayan; antes, quando tinha .com no nome em vez de .org, era hospedado no Canadá) vai sofrer, já que 80% de seus acessos vinham do FB. E a pergunta que não quer calar: por que o FB não removeu antes uma página difamatória de um fake? Tenho certeza que o Ceticismo já havia sido denunciado inúmeras vezes antes de sábado. 
Diante do desastre, Luciano, agora Carlos Afonso, escreveu no seu site revelando sua identidade. O trecho mais incrível é este:
Trocando em miúdos, Carlos Afonso tem um outro nome para troll profissional divulgador de calúnias e fake news: "métodos para a guerra política"! 
Parabéns, você é um mentiroso!
Na carta, ele revela também que o Ceticismo Político "passou a ser monetizado em meados de 2017", mas, como é do seu feitio, não diz quanto nem como nem de onde. E, no vitimismo típico dos reaças, Carlos Afonso se diz alvo de calúnias por ter usado um fake! (não que ele se aproveitou de usar fakes para caluniar pessoas de verdade -- como eu -- à vontade). 
Não sei se foi nessa "carta" ou num outro post recente que vi Luciano dizendo que é um erro considerar o Ceticismo Político um site de notícias. É apenas um site que comenta notícias, segundo ele. Nisso eu concordo! Mas então por que os outros reaças e o próprio site (sem contar o MBL) divulgam notícias do Ceticismo como se fossem fatos super verdadeiros, e não opiniões reaças?
E, cá pra nós, o pior é que não são opiniões -- são calúnias. São mentiras. Você não faz três posts baseados num tuíte claramente fake para atacar uma feminista e chama isso de "apenas minha opinião". Você não pode dizer que Marielle era um cadáver comum ligado a traficantes e tentar se refugiar no velho "só minha opinião". Isso é difamação, e faz de você um difamador. Você não coloca as palavras altamente preconceituosas de uma desembargadora no seu site e chama de "desabafo". Não é desabafo, é mentira!
Ninguém que se veja como um "cidadão de bem", um "homem honrado", seria capaz de fazer isso:
No post, Luciano, aka Carlos Afonso, espalha um dos fake news (aquele que dizia que Marielle e Marcinho eram um casal) para sugerir que crime mesmo é ser uma ativista e ser do PSOL, não ser um traficante condenado. 
Neste post, Luci in the Sky with Diamonds (porque ele deve ter tomado alguma substância psicodélica pra mentir desse jeito) chama o jornal El País de "jornal de extrema esquerda" e distorce a verdade (falsa acusação de notícia falsa?) para que ninguém repare quem realmente está afundando "ainda mais no esgoto" (quem cria e divulga fake news ou quem denuncia fake news?).
Parece, Carlos Afonso, que quem vai se dar mal não é o PSOL, mas quem criou e espalhou mentiras sobre Marielle. Não posso dizer que fico triste com o fim da carreira de um mentiroso. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

MINHA SOLIDARIEDADE A EDUARDO GUIMARÃES

Eu não gosto do blogueiro Eduardo Guimarães. Nunca gostei, não gosto do seu estilo, vi o sujeito ser machista algumas vezes. Mesmo que nós dois sejamos de esquerda, ele também não gosta de mim (num dos Encontros de Blogueiros Progressistas, segundo me contaram, ele reclamou por eu ter sido convidada). Mas seu Blog da Cidadania, que existe há mais tempo ainda que o meu, é um blog relevante da esquerda.
Ontem a Polícia Federal, a mando do juiz Sérgio Moro, deu ordens de condução coercitiva e busca e apreensão. Às seis da manhã, bateram na porta de Eduardo, em SP, e o levaram à delegacia. Confiscaram todos os seus equipamentos eletrônicos e também o celular da esposa. Eu não preciso gostar de Eduardo para saber que isso é completamente errado.
Ano passado, Eduardo havia publicado em seu blog a informação de que Lula seria alvo do Lava Jato. A polícia quis saber quem passou essa informação. Eduardo negou-se a revelar a fonte. A sua prisão ontem -- perdão, "condução coercitiva" -- fere o direito constitucional do sigilo à fonte, garantido a todos os jornalistas, com ou sem diploma (Eduardo não tem diploma e é comerciante, além de blogueiro). 
A nota da Justiça Federal do Paraná justificando a ação da PF é impressionante. Ela nega ter violado qualquer direito constitucional do blogueiro porque, segundo o que a Justiça decidiu, o blog de Eduardo não seria um veículo jornalístico, e sim um "veículo de propaganda política". Quando li isso, não acreditei. Pensei: só porque o cara apoia partidos de esquerda, o blog dele é de "propaganda política"? Sob essa ótica, todos os noticiários da grande mídia seriam "veículos de propaganda política", já que eles também têm lado. 
Mas não. A justificativa para negar a Eduardo o rótulo de jornalista e, assim, negar-lhe direitos, é que o blogueiro foi candidato a vereador pelo PCdoB-SP em 2016. Ele ter sido candidato e ter um blog faz de seu blog "veículo de propaganda política". Não é fascinante? Eduardo tem o blog há doze anos. Porém, como ele se candidatou a um cargo eletivo numa fração dessa dúzia de anos, isso invalida qualquer trabalho jornalístico que o blog tenha realizado. 
O que aconteceu é muito sério. Põe em risco a liberdade de todos nós. Afinal, só em ditaduras que as preferências políticas de cada um são levadas em conta para decidir quem tem ou não direitos. 
Portanto, mais importante do que qualquer picuinha ou divergência, é a ameaça que paira sobre todos nós, blogueiros independentes. Minha solidariedade a Eduardo Guimarães. 
UPDATE: É mesquinho, e emblemático, que jornalistas "de verdade" (aqueles com diploma) decidam quem é ou não jornalista. 
A ação de Sérgio Moro foi considerada tão arbitrária por qualquer pessoa com bom senso e que tenha apreço pela democracia que o juiz recuou: não investigará mais Eduardo.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

REAÇAS ACORDAM PRA VIDA

Gostaria de dizer que não me surpreendo mais com a direita brasileira, mas estaria mentindo. E eu não minto.
Antes de continuar, peço encarecidamente que me poupem de comentários como "direita e esquerda não existem mais", frase célebre que é sempre dita por alguém de direita. Dica para quem realmente acredita nessa besteira de "conceitos ultrapassados": acompanhe a discussão sobre o massacre dos professores no Paraná. 
A esquerda condenou a ação criminosa da PM e se solidarizou com os manifestantes. A direita, essa que faz marcha pra tirar selfie com policial, chamou todos os professores lá presentes de black blocs, comunistas e petistas, e concluiu: "apanharam foi pouco". 
Ainda que houvesse esquerdistas e sindicalistas entre os manifestantes, esse seria um bom motivo pra polícia bater neles? Dãã, claro. Como me disse uma leitora no Twitter outro dia, parece que de repente criminalizaram a esquerda.
Se dependesse dos reaças, todos os partidos de esquerda, a começar pelo PT, mas seguindo pelo PSOL, PSTU e PCdoB, entre outros, seriam imediatamente extintos. Aliás, partidos livres pra quê, né? Passamos décadas tendo apenas dois partidos durante a ditadura militar (aquela que muitos reaças ainda chamam de "revolução" e pedem para que volte), e funcionou tão bem...
A cara de pau dos reaças não tem limites. Um caso emblemático foi o que ficou conhecido como Merenguegate, A Folha publicou que Gravataí Merengue, vulgo Fernando Gouveia, dono do site anti-PT Implicante e colaborador de outros sites reaças, como o Reaçonaria, tem uma empresa, a Appendix Consultoria, que recebe 70 mil reais por mês da agência Propeg, uma das três agências contratadas pelo governo do Estado de SP.
O governador Alckmin defendeu a contratação depois que a notícia saiu: "A empresa está prestando bons serviços, corretamente feitos" (ha ha, bons não, excelentes!). O secretário da Casa Civil teve a pachorra de declarar: "Se ele [Gravataí] tem um blog com as opiniões dele, não cabe ao governo policiar". Pois é, é apenas coincidência que um blogueiro que se dedica a atacar o governo federal durante anos ganhe um belo contrato de um governo estadual que é seu principal opositor.

Ah, se fosse um blogueiro de esquerda ganhando uma fortuna do governo federal para falar mal de opositores políticos! Seria um escândalo! Mas, como é um reaça espalhando mentiras sobre o PT, todos os outros reaças saíram em seu apoio. Ninguém sequer questionou o valor (70 mil reais!), e olha que esses caras dizem ser defensores do Estado Mínimo.
Ninguém questionou a total falta de transparência. Pelo contrário, reaças celebraram o governo de SP por ter enviado 88 caixas de documentos para a Folha. Para eles, mandar 88 caixas de papelada para alguém que te faz algumas perguntas é transparência, não velha tática de esconder evidências (as séries The Good Wife e House of Cards têm episódios em que essa estratégia de escamoteamento é usada). Ah, e todos acharam perfeitamente normal que a sócia de Gravataí na Appendix tenha sido assessora de José Serra e esposa do número dois da Subsecretaria de Comunicação do governo.
A Folha ainda publicou outros textos sobre o Merenguegate, incluindo um editorial em que exige transparência ("cabe perguntar que parcela das verbas públicas alimenta, por baixo do pano, grupos de militância a favor dos interesses das autoridades -- tucanas, petistas, peemedebistas, pouco importa"). Dos reaças, a única resposta foi que a Folha é um jornal de esquerda e petista (o quê, você nunca tinha notado?).
Por enquanto, nada aconteceu. O que significa que, além de não sabermos quanto a Appendix recebeu da Propeg, paga pelo governo do Estado (terceirização é uma coisa linda!), entre junho de 2013 e setembro de 2014, Gravataí e sua sócia seguem ganhando R$ 70 mil por mês para servir ao governo. Uma deputada estadual, Beth Sahão (PT), protocolou requerimento na Assembleia Legislativa de SP pedindo informações ao governo do Estado sobre esses pagamentos e os contratos assinados (aliás, a Appendix também teve como cliente a Copel, do governo tucano do Paraná).
Depois de um tempinho, chegou a hora de blogueiros reaças profissionais (mas que certamente não ganham tão bem quanto Gravataí) defenderem seu colega. Tio Rei, que deve entender muito do assunto de ser patrocinado por governos tucanos (afinal, quando dirigia a revista Primeira Leitura, recebeu 50 mil reais do operador financeiro do PSDB) lançou uma "campanha" dizendo que tudo bem investigar o contrato entre Appendix e governo de SP -- desde que se investiguem todos os blogs de esquerda. Para ele, ter um banner de alguma estatal no blog é igualzinho a receber 70 mil reais do governo para atacar opositores, sem que ninguém além da patotinha saiba do pagamento. (Mas eu tô dentro! Quero que todos que durante anos me acusaram de receber grana do PT provem que sou patrocinada pelo governo).
Outro blogueiro da Veja, mais jovem, que ganhou sua coluna como recompensa por ter editado um bestseller do Olavo de Carvalho, fez uma comparação ainda mais inacreditável: Gravataí receber 70 mil por mês é o mesmo que Jô Soares, notório petista, segundo ele, pedir patrocínio ao Ministério da Cultura para traduzir, adaptar, montar e dirigir uma peça de Shakespeare. Para exemplificar como Jô é praticamente filiado ao PT, o blogueiro pôs o link pra um vídeo em que Jô se opõe às manifestações pelo impeachment (o quê, você não sabia que Jô era petista?).

Mas a cara de pau e a defesa dos reaças pelo indefensável não parou por aí.
No dia 24 de abril a PUC Goiás realizou um seminário chamado "A reforma política que o Brasil precisa", que juntou gente da CUT, MST e CNBB para falar de... ahn, reformas, parece que está no título. Um dos palestrantes até defendeu a "distribuição da riqueza que o trabalhador produz neste país". Coisa de comuna, lógico! Onde já se viu achar minimamente injusto um sistema em que as 85 pessoas mais ricas do mundo (entre elas, 12 bilionários brasileiros) têm a mesma riqueza que metade da população mundial?
Pois é, 85 pessoas, gente que cabia naquele auditório universitário, têm o equivalente a 3,5 bilhões de pessoas. Reaças não gostam muito de tocar nesses números que são meio melancólicos. Vão dizer o quê? Que esses 85 bilionários merecem ter tanto? E que metade da população mundial é preguiçosa, não gosta de trabalhar, e portanto merece viver na miséria?
Um rapaz de 17 anos que não é estudante da PUC (ainda está no ensino médio) compareceu ao seminário para cumprir sua missão de trollar. Antes, rezou um terço, meditou nos mistérios do rosário, pediu a Virgem Maria que o iluminasse, e "foi pro combate". Invocou também Olavão, guru da extrema direita brasileira. Reuniu alguns amigos para filmar o que iria fazer, porque se não há imagens, é porque não aconteceu.
Interrompeu a fala de um dirigente para perguntar "Como é que uma instituição católica [a PUC] permite uma bancada formada só de excomungados?". O menino citou um papa que, em 1949, condenou todos os católicos comunistas. Para ele, "excomungado" é um grande insulto. Mas ele continuou, dizendo que o pessoal ali presente "quer matar fazendeiro, quer matar empresário".
Uma professora -- que o rapaz depois chamou de vagabunda -- pediu para que ele deixasse que o dirigente acabasse de falar, e que em seguida ele falaria, porque aquilo é uma democracia. Isso irritou um amigo do guri, que passou a gritar que "não há democracia no socialismo".
Chamar palestrantes de "excomungados", chamar uma professora de "vagabunda", gritar por cima da fala dos outros, repetir mantras da extrema direita -- isso foi muito aplaudido por todos os reaças na internet, principalmente os blogueiros da Veja. Um deles contou que o rapaz, "aluno dedicado de Olavo de Carvalho, desmascarou moral, intelectual, política e religiosamente os palestrantes, do jeito que a gente adora e recomenda". Não só adoram, como este é o único meio que os reaças têm para "desmascarar" alguém. Eles se baseiam no ídolo Olavão, que "desmascara" falando palavrões.

Um fascista no seu momento mais humano
A grande frustração dos reaças foi que o guri não foi atacado por ninguém. 
Porque era isso que ele queria, foi pra isso que foi lá. No máximo, levou um "tapa" (que nem se vê no vídeo) de uma mulher pra quem ele levantou o dedo, amiga da professora que ele chamou de vagabunda (e que o vídeo, editado por reaças, não mostra). A professora o chamou de moleque e exigiu respeito. 
O primeiro a entrevistar o "herói" reaça foi um estudante mais velhinho que, não por coincidência, foi membro de uma chapa de direita (que obviamente se intitulou "apartidária") da UFSCar, chapa esta que foi impugnada após ter praticado transfobia. 
O rapaz de 17 anos explicou: "O que a gente podia fazer era interromper o evento, e esperar uma reação histérica, gravar, né, e espalhar, para que as pessoas vissem que é possível enfrentar esses sujeitos sem grandes consequências. Você veja, tirando uma, ah, agressão, né, que uma moça lá me deu um tapa, que mais parecia um alisamento, porque não deixou marca, não doeu nem nada, e, mas tinha lá um monte de sujeito forte, um monte de sindicalista não sei o quê, mas quando você foi ver era só as mulheres que estavam brigando, né".
No minuto 12:45 da entrevista, o rapaz mostra preocupação com a "ideologia de gênero" que estaria ganhando espaço na educação, mas ele se interrompe para citar uma ameaça ainda mais premente à moral e aos bons costumes: uma exposição sobre a Coreia do Norte na Assembleia Legislativa, em Goiânia (ele e seu grupo foram depois protestar lá; detalhe: a Assembleia de Goiás tem apenas cinco deputados de esquerda -- quatro do PT e um do PCdoB -- e nenhum deles teve qualquer relação com a exposição, que foi organizada por um deputado do PPL - Partido Pátria Livre, seja lá o que for isso, mas, pelo nome, posso jurar que é de direita). 
E óbvio ululante que sobrou até pro Paulo Freire, que já havia sido lembrado nas marchas dos golpistas. 
A direita gostou, e como eles podem fazer o que quiserem sem que sejam responsabilizados (veja o Merenguegate), prepare-se para ter suas palestras invadidas e interrompidas por reaças, que vão te provocar até que você não aguente mais e tenha que elevar o tom de voz. Olha, quem sabe é até bom, porque desse jeito feministas podem parar de brigar entre si em conferências e ver que nossos inimigos são bem outros.
Quem sabe assim a esquerda inteira possa parar de brigar entre si.